Geografia e anarquismo

Amir El Hakim de Paula · Capítulo 5 de 9

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Geografia e anarquismo

4 – Natureza e sociedade no pensamento kropotkiniano

4 – Natureza e sociedade no

 

pensamento kropotkiniano

 

Um momento importante na obra de Kropotkin e que tem sintonia com os principais debates na ciência geográfica ocorre quando ele apresenta a sua concepção de natureza, sociedade e a relação entre as duas.

Como vimos nos capítulos anteriores, o século XIX é prenhe de novas concepções científicas (como o evolucionismo darwinista), marcando um período no qual alguns intelectuais, influenciados pela obra A origem das espécies, debatem conceitos de natureza e sociedade quase sempre ligados aos aspectos antissolidários presentes na obra do naturalista britânico. Um dos principais cientistas desse período e grande entusiasta da obra darwiniana, Thomas Huxley, teria um papel importante na divulgação de algumas dessas ideias, quase que totalmente vinculadas a um paradigma competitivo.

Embora os gritos operários trouxessem um intenso questionamento ao sistema econômico pautado na exploração humana, nos meios intelectuais, principalmente àqueles ligados aos círculos científicos, um movimento de defesa de uma sociedade desigual como processo natural ganha enorme respeitabilidade. Lutar contra uma parcela da intelectualidade britânica influenciada por esse espírito beligerante era, para Kropotkin, uma forma de apontar os equívocos ocasionados por essa visão limitante dos pressupostos darwinistas. Mais ainda, ele pretendia demonstrar que, ao contrário do que se pensava, era o apoio mútuo e não a luta pela sobrevivência que moldava as relações entre os animais (incluso o homem), gerando para si uma postura extremamente crítica daqueles que, como Huxley, defendiam a rivalidade e o egoísmo como motes principais.

Ao pontuar uma nova forma de compreender natureza e sociedade, Kropotkin inseria nesse debate, quase todo ele ligado aos aspectos mais próximos da dinâmica do capital, perspectivas que se referenciavam à classe mais espoliada dentro do sistema capitalista: os operários. Por meio de artigos e posteriormente sua obra magna O apoio mútuo, questionava a tão propalada naturalidade do liberalismo econômico (defendida com unhas e dentes por vários intelectuais, como Spencer) e apontava a solidariedade como um fator preponderante na evolução dos seres vivos. Mais do que isso, apresentava o anarquismo, ainda visto por grande parte desses intelectuais como uma quimera social, como um corpo de ideias dinâmico, descentralizado e, principalmente, científico.

E, contra aqueles que compreendiam o anarquismo como um

projeto niilista de sociedade,1 propõe o anarcocomunismo, a formação de uma sociedade gestada por produtores e consumidores que, em trocas igualitárias, fundariam uma organização social sem moeda e salários. O anarquismo tendo como principal fundamento de base o apoio mútuo, se contraporia à luta sanguinária e de extrema competição propalada pelos defensores da economia de mercado.

Criticar a luta pela sobrevivência e defender o apoio mútuo como principal fator de evolução era uma maneira de reafirmar o anarcocomunismo como uma ideia social de base científica. Mais do que um fator qualquer, a solidariedade entre os seres vivos não era um apelo societário, mas o instinto que contribuía para que eles evoluíssem e gerassem descendentes. É desta forma que compreendemos a construção do pensamento anarquista de Kropotkin. E, é assim também, que, para nós, ele busca defender a supremacia do apoio mútuo sobre qualquer outro fator evolucionário.

Partindo dessa percepção (a procura de uma base científica ao anarquismo e no apoio mútuo como base social do anarcocomunismo), é que analisaremos as asseverações de Kropotkin acerca da natureza e da sociedade. Caso contrário, nossa análise correria o risco de apenas descrever as preocupações do geógrafo russo sobre esses importantes temários, apontando a sua contribuição ao pensamento geográfico de forma vaga, sem muita profundidade.

Kropotkin tem um objetivo muito claro: procurar uma base científica que dê suporte tanto aos processos naturais quanto aos sociais, e, assim, apresentá-los de uma forma que não fossem ridicularizados em um ambiente acadêmico muito influenciado pelo positivismo. E, como vimos anteriormente no caso de Thomas Huxley, esse papel de divulgador científico, seja como palestrante, debatedor, escritor, só tem alguma ressonância nos meios acadêmicos se as ideias debatidas tiverem um substrato metodológico aceito.

O respeito que as sociedades organizadas da sociedade civil tinham por Kropotkin ocorria também porque era clara a preocupação dele em não ser visto como um mero adepto das ideias anárquicas. Embora não separando o papel de militante do de cientista (é patente isso ao analisarmos os artigos e livros em que ele trata da natureza e da sociedade), é evidente também que ele não queria que um desses aspectos se destacasse ao ponto de ofuscar o outro.

Manter o equilíbrio entre ser ácrata e cientista parece ser um ponto-chave para ele. Isso não significa que, em momentos específicos, a visão acadêmica não fosse sobrepujada pela do teórico social, quando o seu papel como principal ideólogo vivo do anarquismo exigia uma postura diferenciada. Isso ocorria, principalmente, quando escrevia artigos aos periódicos próximos à classe operária, opinando sobre um fato específico (imperialismo,

por exemplo) 2 ou quando fazia apelos aos trabalhadores do mundo para ajudar o processo revolucionário de 1905 na Rússia.

Afora esses momentos pontuais, Kropotkin era um geógrafo que desenvolvia uma teoria social que não deveria estar apoiada em apelos emocionais, mas demonstrada pelas metodologias de

análise correntes no século XIX, como o positivismo. 3 Esse método científico, que se contrapunha a pressupostos religiosos e metafísicos, era usual entre os acadêmicos do século XIX e ao lado da dialética serial eram seu principal suporte teórico.

Nosso autor construía uma metodologia para apresentar as suas convicções, pontuando a presença do apoio mútuo nas relações entre os animais e os homens. Ou seja, ela não era uma visão de mundo sem conexão com a realidade. O apoio mútuo existia e era parte essencial na evolução das espécies, contribuindo de forma soberana para que todos os seres vivos conseguissem gerar descendentes aptos e capazes de sobreviver nas diversas regiões do planeta. Conseguir demonstrar isso era essencial na construção do pensamento kropotkiniano, visto que propiciaria tanto uma visão mais generosa da natureza (se contrapondo aos pressupostos huxleynianos) quanto transpor o anarcocomunismo ao rol de teorias sociais comprovadas cientificamente.

Um dos autores que discutiu as ideias de Kropotkin sobre a natureza foi Bob Galois, docente da Simon Fraser University. A partir de seu estudo sobre o conceito de natureza em Kropotkin, discutiremos de que forma essas análises contribuem também para uma melhor compreensão do papel das sociedades humanas na obra do geógrafo russo.

Segundo Galois (1976), a visão de natureza de Kropotkin se divide em três concepções principais:

 

a. uma visão orgânica ou holística;

b. histórica; e

c. espontânea.

 

A visão orgânica ou holística tem como pressuposto a influência que ele recebe dos pensadores gregos e dos escritores e poetas românticos. Nela, existe uma cooperação e interdependência entre os seres vivos. Como diz Galois (ibidem, p.5, tradução nossa): “Resumindo, o homem é parte da natureza, sendo sujeito e participante ativo do mesmo processo que é funcional no resto da

natureza”. 4 Essa visão se contrapõe ao modelo padrão existente nas fábricas inglesas e que lentamente vai sendo transferido para toda a sociedade: a divisão do trabalho. Como o próprio Kropotkin (1975, p.99) afirma: “É preciso voltar ao que a biologia chamaria ‘integração de funções’’ Depois de dividido o trabalho é necessário ‘integrá-lo’. Tal é a marcha seguida em toda a natureza”.

Ao pontuar o necessário retorno a um padrão genuíno de inter-relação da natureza, Kropotkin entende que todos os seres vivos estão intrinsecamente integrados, em uma cooperação ambiental de tal nível que a destruição de uma parte resulta em graves consequências ao todo. Desta forma, condena a atomização constante que existe na sociedade capitalista, no qual a luta pela sobrevivência leva a um egoísmo extremado.

Compreender a natureza como algo integrado, orgânico, como se fosse uma única força, onde tudo e todos estariam necessariamente interligados, promove uma concepção, como vimos anteriormente, contrária àquela predominante em sua época. E, ao declarar que a natureza é constituída por um processo predominantemente solidário, o geógrafo russo quer demonstrar a irracionalidade do sistema industrial do século XIX e, em contrapartida, argumentar que é “natural” ser solidário e altruísta e tantos outros adjetivos ligados ao apoio mútuo e reafirmados pelo anarcocomunismo. Nesse sentido, procura apontar a presença de uma moral solidária dentro da natureza que se contraponha a moral competitiva. O surgimento dessa moral se dá de forma espontânea, visto que é a ação direta do meio ambiente nos seres vivos que vai exigir inúmeras formas de agregação entre eles.

Ao destacar um papel moral na Natureza, Kropotkin desloca das sociedades humanas o papel de construtoras e considera-as como coparticipes de um processo já existente. Desta forma, o protagonismo deixa de ser do homem, que passa a ser parte integrante (e não necessariamente a principal) de um processo de constituição de uma ordem ingênita. Essa moral, que vai se consolidando, precede a existência humana. Como afirma Padovan (1999, p.4, tradução nossa): “Deste modo, na visão de Kropotkin, natureza não oferece automaticamente lições em amoralismo, melhor, ela oferece uma precisa noção de bem e mal, um raciocínio claro sobre o bem supremo que cada código de ética deveria

seguir”. 5

Embora advogue uma natureza harmônica, é factível, por meio das leituras dos vários artigos, supor que o geógrafo anarquista assevera inúmeras vezes o poder da ação dela sobre os seres vivos, sendo essa ação direta o principal fator evolutivo, desenvolvendo indivíduos capazes de sobreviver e gerar prole, alçando para um segundo plano a tese darwinista da seleção natural. Como ele próprio afirma: “As formas dos animais, suas cores, suas peles, seus esqueletos, todos seus órgãos e seus hábitos são modificados facilmente conforme muda seu alimento, bem como, as condições ambientais de sua existência” (Kropotkin,

1912a, p.511, tradução nossa).6 Ao representar a natureza com um papel mais ativo, determinante, inclusive, nas configurações interna e externa das espécies existentes, ele não nega que esse papel altruístico possibilite uma necessária adaptação dos seres vivos.

Outra visão importante de natureza em Kropotkin, segundo Galois (1976) é a visão histórica. Para este estudioso, Kropotkin trabalha com uma visão histórica evolucionária, na qual a organização societária surge antes da própria organização humana em sociedade. Ela tem um quadro evolutivo, partindo do estágio primitivo e culminando em uma sociedade estatal. Embora, a princípio, esse movimento pareça ser linear, o método de análise desse processo, segundo esse mesmo autor, é o método dialético proudhoniano ou serial. Sobre a proposta dialética serial, Pelletier (2011, p.16) afirma que, “Proudhon, ao desenvolver sua dialética serial, ressaltou perfeitamente a importância das contradições no movimento histórico (reação/revolução, autoridade/liberdade) e do equilíbrio dinâmico, entre forças eternamente opostas”.

No caso específico de Kropotkin, o uso desse par dialético sem a formação de uma síntese (como ocorre na dialética hegeliana e na marxista) possibilita explicar o processo de constituição da própria humanidade, iniciando com o surgimento de um homem ainda em estado de natureza, com uma relação quase simbiótica com o ambiente, chegando à contemporaneidade, quando do surgimento e constituição de cidades e complexas organizações societárias.

O ponto nevrálgico dessa dialética serial é que a evolução humana tem como processo histórico um confronto entre a cooperação e a competição, sendo que, quando a primeira fase predomina, surge uma organização social equilibrada e harmônica com o ambiente, holística, o que propicia a formação de sociedades comunais e com ampla liberdade; e no segundo caso, quando o que predomina é a competição, a luta pela sobrevivência leva a uma visão na qual a natureza é encarada como um recurso mercantil e, por isso, sujeita a uma dilapidação constante, propiciando a aparição de uma sociedade autoritária e hierarquizada que tem o Estado como seu ponto culminante.

Argumentando então que ambos os fatores são inerentes à evolução, o que determina a predominância de um desses aspectos basilares da natureza nas sociedades humanas é a escolha dos seus componentes pela cooperação ou pela competição. Se o egoísmo e a ganância predominarem, o espírito social será dominado pelos aspectos competitivos; já, se ocorrer o contrário, e o altruísmo e a solidariedade se sobrepuserem, a cooperação será o eixo determinante.

Pensando assim, Kropotkin procura dar uma explicação diferenciada em aspectos que comumente são vistos e compartilhados como essencialmente humanos. Embora compreenda a existência da cooperação e da competição como instinto, não se furta a defender uma delas.

 

Evitar a competição! Ela sempre é danosa para a espécie e vocês têm abundância de meios para evitá-la. Tal é a tendência da natureza, nem sempre realizável por ela, mas sempre inerente a ela. […] Veja aqui o que nos ensina a natureza: e esta sua voz a escutaram todos os animais que alcançaram a mais elevada posição em suas espécies respectivas. Para esta mesma ordem da natureza obedeceu ao homem – o mais primitivo – e só devido a isso que ele alcançou a posição que ocupa agora. (idem,

1989, p.100-1, tradução nossa) 7

 

Como anteriormente na discussão sobre a concepção holística, percebemos aqui mais uma vez uma preocupação científica de nosso autor em justificar um ou outro modelo societário. Não podemos esquecer que nesse período a defesa intransigente de Huxley de uma sociedade guiada pelos princípios mais egoístas também procurava se basear em afirmações comprovadas cientificamente.

Discutir a Natureza e, por consequência, a sociedade pelo método dialético serial, tem como princípio destacar que uma tendência que já estava presente na natureza (cooperação ou competição) transformou-se em instância humana conforme a própria evolução histórica. Não é à toa que Kropotkin, mesmo que procurando livra-se de concepções metafísicas, em vários momentos faz afirmações sem muita acurácia científica, algo muito caro ao nobre geógrafo: “O homem não criou a sociedade; ela existia antes dele” (idem apud

Galois, 1976, p.7, tradução nossa). 8

O homem aprendeu com a natureza a ser solidário. A solidariedade não é uma construção forjada pelo conhecimento humano. Tanto a solidariedade como a competição existem na Natureza. O dado que muda a partir de então (surgimento do homem moderno) é que essas práticas sociais determinarão que as sociedades evoluam mais equilibradas ou não.

Pensando um pouco mais nessas análises, Galois (1976) apresenta outro aspecto constante na concepção de natureza (e, por conseguinte, na de sociedade) de Kropotkin: a espontaneidade. Antes de adentrarmos ao debate propriamente dito, é importante ressaltar que os anarquistas quase sempre são vistos como

espontaneístas.9 O espontaneísmo pode ser analisado como voluntariedade sem nenhum planejamento, mas também como uma prática individual que não se sujeita, pura e simplesmente, a uma opinião coletiva. Nesse último caso, o que entendo mais apropriado ao anarquismo, compreende-se o caráter espontâneo como necessário para se contrapor a qualquer predomínio de uma ideia ou tipo de ação externa. O anarquismo entende o espontaneísmo como a ação de indivíduos que desejam colaborar em uma determinada ação, na qual se garanta a liberdade e a autonomia de cada um.

Para Kropotkin, além disso, a liberdade individual só é válida se todos são livres. Caso contrário, teremos a liberdade predominante na sociedade capitalista, o que significa estar submetido a algum tipo de tirania (política ou econômica). Ao defender o espontaneísmo, acreditava que nenhuma teoria revolucionária seria construída a partir de doutos sábios, que em seus escritórios bem confortáveis imaginariam um método de análise capaz de ser totalmente eficiente, sem ao menos ter sido colocado, uma única vez, em prática. Nessa perspectiva, criticava a crença em uma metodologia científica que não tivesse nenhum tipo de contato com a realidade externa, correndo o sério risco de transformar-se em um dogma. “Em todo o caso, o que espontaneamente surgisse sob a pressão das necessidades imediatas, seria infinitamente preferível a tudo o que se pudesse inventar entre quatro paredes, no meio de alfarrábios ou nas secretarias governamentais.” (Kropotkin, 1975, p.84)

O espontaneísmo, para Kropotkin, enquadra-se na defesa do entusiasmo revolucionário, presente, segundo ele, na Revolução Francesa, o que possibilitou o surgimento de diversas práticas libertárias dentro de um processo que historicamente fica, quase sempre, restrito às disputas entre girondinos e jacobino.

No que tange ao espontaneísmo da natureza, Galois (1976) indica que Kropotkin defende uma natureza que age espontaneamente, apontando para a possibilidade do surgimento de uma concepção irracional que se chocaria com toda a discussão científica do geógrafo russo. Embora pareça paradoxal a defesa de uma natureza espontânea, fato esse comum em vários trabalhos que discutem a ação direta do ambiente nos seres vivos, fica claro que para o geógrafo a natureza, como vimos, tem um papel moral e não apenas instintivo.

Ainda que não consiga explicar satisfatoriamente o surgimento dos instintos naturais (lembremos que as discussões de Mendel sobre genética ainda eram desconhecidas de grande parte da comunidade científica), é clara a sua defesa da supremacia dos instintos sociais sobre estes, pelo menos entre os animais gregários. Compreende-se desta defesa que o fato social é parte constituinte do instinto e influencia este último de maneira muito significativa. Logo, a irracionalidade a que faz menção Galois (1976) não significa, novamente, espontaneísmo no sentido voluntarioso que a palavra possa apresentar, mas que o instinto animal tem como base uma anterior capacidade da natureza em se autopreservar por meio da cooperação entre as espécies. Caso contrário, a luta sanguinária deflagraria uma completa destruição do meio ambiente, o que levaria a uma inexorável extinção da vida.

Pode parecer contraditório aceitar isso, como bem lembrou Galois (1976), pela defesa intransigente de Kropotkin da ciência, contra o misticismo religioso e as prerrogativas metafísicas. Para nós, transparece, a partir da análise kropotkiniana, uma natureza espontânea no sentido de livre, soberana, autônoma e não como alguns que defendiam preceitos religiosos, principalmente cristãos,

como resultado do trabalho de algum ser divino. 10 Não se pode chamá-la de racional, pois não precede a existência de um deus. E, espontânea, pode gerar a ideia de voluntariosa. Como vimos no início dessa discussão, para os anarquistas (e Kropotkin se inclui obviamente) a ideia de espontaneidade vai muito mais além do que uma vida sem objetivo.

Não é então por acaso que Kropotkin defenda ainda uma moral na natureza, baseada na cooperação e na solidariedade. Essa solidariedade entre os seres humanos teria como referência o compartilhamento praticado pelos outros animais e essa ação poderia ser decisiva para a sobrevivência do grupo. “O homem primitivo via que mesmo entre as bestas carnívoras, que sobreviviam matando outros animais, havia uma regra geral e invariável. Eles nunca se matavam. Algumas delas são bastante sociáveis – casos de todas as tribos caninas: os chacais, os cães

selvagens e as hienas.” (Kropotkin, 1905, p.420, tradução nossa) 11

Analisando essas prerrogativas do pensamento do geógrafo russo, percebemos que os aspectos constantes na sociedade são, em grande parte, adquiridos por meio das experiências pretéritas. E, então para Kropotkin (1989, p.32, tradução nossa),

 

De nenhum modo foi o amor que me levou até o dono de uma determinada casa – a quem sequer conheço – quando, vendo sua casa em chamas, pego um balde de água e corro em direção a ela, não temendo pela minha própria. O que me leva até lá é um sentimento mais amplo, indefinido, mais corretamente falando um instinto de solidariedade humana; quer dizer, de preocupação solidária entre todos os homens e a sociedade. O mesmo se observa também entre os animais. Não é o amor nem a simpatia (compreendidos no sentido verdadeiro destas palavras) que induz o rebanho de ruminantes ou cavalos a formar um círculo com o intuito de defender-se das agressões dos lobos; de nenhuma maneira é o amor que faz que os lobos se reúnam em manadas para caçar, da mesma forma não é o amor que obriga os cordeiros e os gatinhos a entregarem-se aos jogos, nem é o amor o que agrega os filhotes das aves que voam juntas dias inteiros durante quase todo outono. […] Aqui entra o instinto de sociabilidade, que se tem desenvolvido lentamente entre os animais e entre os homens no transcurso de um período de evolução extremamente grande, desde os estágios mais elementares, e que ensinou igualmente animais e homens a terem consciência dessa força que eles adquirem

praticando a ajuda e o apoio mútuo, e também a terem consciência do

prazer que se pode encontrar na vida social.12

 

Disto deriva que as escolhas têm relação direta com as situações vivenciadas pelos agrupamentos humanos na natureza, que aprendendo a sobreviver em um ambiente hostil de forma cooperativa legaram às gerações posteriores os frutos desta cotidianidade.

O apoio mútuo transparece como uma expressão instintiva de sobrevivência e de alteridade. Em uma situação limite, o espírito dominante é aquele de ajuda ao próximo. Compreender a solidariedade como algo instintivo é se contrapor aos valores dominantes de uma sociedade que gera desigualdades entre os indivíduos. Kropotkin sabia disso, por isso a sua batalha científica buscando uma coerência entre a defesa dos princípios sociais defendidos pelos anarquistas com um modelo solidário dominante nas ciências naturais.

Ao tentar coordenar as duas instâncias (social e natural), Kropotkin procura apresentar a sociedade como intrinsecamente ligada aos aspectos naturais, bem como mostrar que os seres humanos não constroem valores dissociados de suas prerrogativas instintivas. O instinto como promotor de valores humanos. A sociedade como parte importante da natureza. Logo, condena a separação que o próprio capitalismo engendra ao transformá-la em

recursos a serem consumidos. 13

Contrário à proposta de separação entre homem e natureza, necessária a própria formação metabólica capitalista, Kropotkin reafirma a máxima reclusiana de integração, calcada na hipótese de que o homem é a natureza adquirindo consciência de si próprio. Essa proposta de análise que tem como base metodológica a defesa da solidariedade contra a competição, como vimos, não pode ser totalmente legada ao geógrafo russo, mas, com certeza, sua explicação a partir de pressupostos anarcocomunistas trouxe ao ambiente social e científico um novo paradigma: o anarcocomunismo como um processo social construído sob bases identificáveis na própria constituição da natureza.

Os “instintos” sociais, sejam competitivos ou não, possuem um referencial natural e não são apenas formulações humanas que no processo histórico vão sendo elaboradas. Não se trata de negar a intencionalidade humana. Nem mesmo apontar o homem subordinado aos caprichos da natureza. Acreditar que isso é a conclusão de Kropotkin sobre o par natureza e sociedade nos levaria a obliterar toda uma luta cotidiana por ele empreendida contra o sistema socioeconômico predominante naquela época (até hoje) e que condiciona a maior parte da humanidade a uma vida alienada.

Ao sugerir as sociedades humanas e de outros animais gregários como “porta-vozes” de um modelo de organização comunal e solidária, o geógrafo analisa a relação entre o natural e o social não mais dissociados, aceitando como válido o entendimento de que as ações e intencionalidades da sociedade são partes constituintes da natureza. Nesse sentido, pode ser um erro analisar as propostas dele sobre o apoio mútuo em separado, como se natureza e sociedade fossem duas instâncias sem intercâmbio.

Diríamos, parafraseando Reclus novamente, que a sociedade é a natureza consciente. Os instintos ganham outra dimensão nos homens, ao propiciarem a possibilidade da vida humana nas várias regiões do planeta. Sendo a consciência da natureza, a humanidade separa-se da vida errática permanente nos outros seres vivos, que ao não possuírem a capacidade de apreender o processo a que estão presos, não ousam libertar-se e reelaborar a vida em novas roupagens.

O homem condenado a viver em liberdade, como já afirmava Sartre, é a resposta mais elaborada que o processo evolutivo legou à natureza. É ele que é capaz de relacionar os instintos com práticas sociais capazes de permitir a construção de uma sociedade mais complexa, onde a natureza é transformada e reelaborada. A solidariedade deixa de ser um dado natural e transforma-se em um valor intrínseco e necessário ao homem. Não mais permeia a vida animal como um fantasma, mas como um fator da própria evolução humana.

Assim Kropotkin procura reafirmar toda a sua crença em uma sociedade mais harmônica e libertária.

Entretanto, não sendo o único fator evolutivo, o apoio mútuo precisa ser estimulado e preservado continuamente, combatendo os outros fatores ligados ao egoísmo frio e calculista. Uma tarefa primordial surge para que a opção pelo apoio mútuo torne-se concretizada: a educação das crianças. Combater a escola estatal e a religiosa será também uma das preocupações do nosso geógrafo. Mais do que isso, ele discutirá como o ensino de Geografia pode deixar propagandear preconceitos e tornar-se agradável aos pupilos.

Aproximando-se da postura de Godwin, que compreendia a educação como um dos pilares da transformação do homem, Kropotkin vai se preocupar em defender a formação de escolas mais democráticas, contribuindo também para que a Geografia tivesse uma estrutura (didática e teórica) mais crítica.