Geografia e anarquismo
1 – A influência de Robert Malthus e William Godwin nos pensamentos de Charles Darwin e Piotr Kropotkin respectivamente
1 – A influência de Robert
Malthus e William Godwin nos
pensamentos de Charles
Darwin e Piotr Kropotkin
respectivamente
No início do século XX, a doutrina anarquista já era bastante conhecida nos meios sindicais e na própria mídia chamada “burguesa”, tendo grande presença teórica e prática na organização dos trabalhadores de vários países, inclusive no Brasil.
A presença de trabalhadores e intelectuais europeus que abertamente defendiam as ideias ácratas nos movimentos sociais desse período foi um dos fatores que levou a Enciclopédia
Britânica1 a inserir, em seu dicionário, um verbete que apresentasse as ideias anarquistas e seus principais pensadores. Para esse propósito, os editores convidaram o geógrafo e anarquista Piotr Kropotkin, visto que ele já era bastante conhecido nos meios acadêmicos, sendo participante contumaz dos debates da Real Sociedade Geográfica (Londres), mas também articulista de algumas das principais revistas desse período, como a Nature e o The Nineteenth Century.
Após algumas pesquisas e tendo a preocupação de desmitificar uma visão do senso comum no final do século XIX (e ainda muito presente nos dias atuais) do anarquista como um indivíduo violento, Kropotkin entregou aos editores da enciclopédia um longo texto que contemplasse tanto as origens das principais ideias, como também demonstrasse a historicidade dessa estratégia organizativa.
Publicado em 1910, o verbete anarquismo tem onze laudas e procura apresentar resumidamente as principais influências que levaram ao surgimento dessa forma de pensar e de agir.
Obviamente não sabemos se essa seria a primeira visão histórica do anarquismo e do seu movimento, mas com certeza, pelo impacto que teve, pois aparecia em uma das principais enciclopédias do período, foi a que serviu de base para muitas outras histórias do anarquismo, realizadas ou não pelos seus militantes.
Ao apresentar os principais teóricos sociais que influenciariam o anarquismo, Kropotkin citou autores que nunca se declararam anarquistas, mas que pela postura e/ou por seus escritos poderiam ser “alçados” ao papel de precursores desta ideologia. Entre os muitos citados, na página cinco do verbete aparece William Godwin. Sobre Godwin, Kropotkin vai afirmar: “Foi Godwin, em seu Enquiry Concerning Political Justice (2 vols., 1793), que primeiro formulou as concepções políticas e econômicas do anarquismo, muito embora ele não tenha dado esse nome para as ideias desenvolvidas nesse notável trabalho” (Encyclopedia Britannica, s.d., s.p., tradução
nossa).2
Embora Willian Godwin nunca tenha se declarado libertário nem mesmo participado ativamente de grupos que se declarassem ou que lutassem por esses ideais, graças às suas concepções políticas e econômicas, não haveria nenhum equívoco em chamá-lo de anarquista. Sobre uma parte de sua obra magna, Enquiry Concerning Political Justice, o geógrafo russo vai afirmar que: “com relação ao Estado, Godwin categoricamente exigiu a sua abolição. Uma sociedade, ele escreveu, pode existir perfeitamente sem
qualquer governo” (ibidem, s.p., tradução nossa).3
A partir das considerações de Kropotkin sobre Godwin, o teórico inglês foi sendo conhecido pelos historiadores da anarquia como um dos primeiros e principais pensadores libertários e que o anarquismo não seria a criação de algumas brilhantes cabeças, mas estaria se desenvolvendo desde o momento em que o homem não aceitou ser subordinado por quaisquer tipos de dominação.
Ao abordarmos essas premissas, percebemos claramente que William Godwin foi uma das principais influências no pensamento de Piotr Kropotkin, visto que, entre outras coisas, advogou a supressão do Estado e a substituição deste por comunidades descentralizadas e autônomas.
William Godwin4 nasceu em 1756, filho de um sacerdote de orientação liberal, tendo recebido na sua primeira infância uma severa tradição calvinista, sendo que posteriormente tornou-se pastor presbiteriano, pregando durante cinco anos nas redondezas de Londres. Após uma estadia na capital do Império Britânico, Godwin inicia várias leituras, detendo-se, principalmente, nos filósofos franceses, que acabariam por determinar a sua desilusão com a religião bem como propiciando cada vez mais uma orientação republicana.
Em 1789, Godwin expressa empatia com o movimento que destrona a monarquia (Revolução Francesa), observando neste episódio uma prática social impactante, o que expressa em alguns de seus artigos na imprensa local.
No período de 1791-1793, Godwin escreve o que seria a sua obra magna (Enquiry Concerning Political Justice), postulando muitas de suas ideias acerca do papel do Estado, a relação deste com a sociedade, idealizando outra forma de organização social, na qual a autonomia individual se concretizasse com a formação de pequenas comunidades autogeridas. Nesse mesmo período, o escritor inglês aproxima-se de um importante grupo de intelectuais, como William Blake, Mary Wollstonecraft e Thomas Paine, e trava inúmeros debates acerca de fatos contemporâneos.
Em 1797, casa com Mary Wollstonecraft, autora da obra Reivindicações dos direitos da mulher (1792), com quem teve uma única filha, Mary, conhecida posteriormente pelo casamento com o poeta Percy Shelley e pela criação da obra de ficção científica Frankenstein. Com a morte de sua esposa, Godwin volta a ter outro enlace, agora com uma senhora viúva (1801), com quem fica até a sua morte em 1836.
Digno de se notar também é que esse final de vida foi bastante complicado, principalmente pelos escritos extremamente críticos, fazendo com que o pensador ficasse bastante isolado de seus principais amigos, sendo que não se tornou miserável graças à presença constante de seu genro, Percy Shelley, que o auxiliava nas horas mais difíceis.
Mesmo com uma vasta obra política e social, William Godwin é pouco conhecido até hoje nos bancos escolares brasileiros, sendo citado excepcionalmente em trabalhos científicos que tenham como temática o anarquismo.
No caso de Robert Malthus, graças à publicação da obra sobre a população e seu crescimento desordenado, sua presença é constante, incluída a influência que sua teoria teve em assuntos de grande repercussão internacional, como a seleção natural discutida por Charles Darwin.
E se Kropotkin foi largamente influenciado pelo pensador inglês do século XVIII, é fato também que Charles Darwin deve muito sua formação e a possibilidade de defesa da teoria da evolução a outro pensador inglês do século XVIII: Robert Malthus.
Homens contemporâneos e de mesma nacionalidade, Robert Malthus e William Godwin possuíam grandes diferenças, a começar na idade, visto que Godwin era quase dez anos mais velho daquele que seria posteriormente conhecido como um dos principais economistas do século XIX.
Thomas Robert Malthus5 nasceu em 1766 em uma família próspera e conhecedora dos iluministas franceses e ingleses, sendo que seu pai era amigo pessoal de David Hume. Tendo recebido uma educação liberal, tornou-se aluno na Universidade de Cambridge, estudando concomitantemente matemática, latim, grego e teologia. Em 1797, tornou-se padre da Igreja da Inglaterra.
Foi professor universitário de História e Política Econômica e membro de diversas sociedades científicas nacionais ou estrangeiras, caso da Real Academia de Berlim. Depois de uma vida universitária e publicista de grande respeito, faleceu um pouco antes do Natal de 1834, com a idade de 68 anos completos.
Embora Malthus fosse um economista do século XIX, no início das transformações industriais que posteriormente desqualificariam parte de suas argumentações sobre a população, ele ainda é bastante lembrado nas escolas geográficas brasileiras. Isso ocorre, pois o economista inglês teve presença marcante nos debates desse período, quando procurava apontar o crescimento desordenado da população nas ilhas britânicas.
De certo forma, suas análises rebatem as principais proposições de William Godwin, preocupações que, em grande medida, vão estar nas contribuições científicas deixadas por Kropotkin no final do século XIX e início do século XX.
Para melhor entendermos essas divergências, iniciaremos uma problematização sobre as ideias do pároco inglês e de que forma Godwin procurou combatê-las. Para uma melhor adequação aos interesses deste trabalho, as análises que faremos sobre Malthus surgiram após leitura de sua obra principal Ensaio sobre população, bem como artigos disponíveis na rede mundial de computadores.
É fato que a teoria populacional de Malthus já é bastante conhecida do meio acadêmico, sendo largamente discutida, inclusive, por geógrafos que se preocuparam em estudar o
fenômeno. 6 Nosso objetivo é compreender de que forma a teoria de Malthus teve grande influência nas análises que Charles Darwin realizou na segunda metade do século XIX.
Não temos o escopo de refutá-la ou mesmo defendê-la, visto que nosso maior interesse é compreender como uma publicação foi recebida por seus contemporâneos. É assim que William Godwin aparece como um interlocutor contemporâneo de peso. Isso ocorre, pois esse autor foi um dos principais pensadores criticados por Robert Malthus, dedicando a ele mais de cinco capítulos em sua obra sobre o crescimento populacional no mundo. E, em contrapartida, Godwin também vai escrever um trabalho de mais de quinhentas páginas chamado Of Population. An Enquiry concerning the Power of Increase in the Numbers of Mankind no qual dedica três capítulos tentando apontar possíveis erros do clérigo inglês.
Logo, durante aproximadamente 25 anos, Malthus e Godwin travaram um grande debate sobre economia e política, chamando a atenção de vários pensadores contemporâneos. É o que aponta Frederick Rosen (1970) em vários momentos de seu artigo publicado no Journal of the History of Ideas. A título de exemplo inserimos uma pequena parte:
John McCulloch escreveu em 25 de dezembro para Ricardo (David): Você está ciente da disputa entre Malthus e Godwin? A mim ela parece desprezível. […] Malthus, em uma carta para Frances Place dia 19 de fevereiro diz: sr. Godwin em seu último trabalho começou uma discussão sobre o princípio da população com um grau exageradamente
inconcebível de ignorância acerca do assunto. (ibidem, p.33, tradução
nossa)7
Independente de ser uma questão científica entre um ilustre desconhecido dos dias de hoje e um clássico da economia política, percebemos que a polêmica Malthus versus Godwin foi extremamente importante no alvorecer do século XIX. Acreditamos que se a tradução dos livros de Godwin já tivesse sido realizada, muitas destas questões levantadas e debatidas por ambos os autores já seriam conhecidas. É importante frisar que Godwin também teve grandes contendas com outro escritor contemporâneo, Edmund Burke, considerado por muitos como o “pai” do conservadorismo.
Qualquer análise séria sobre as discussões existentes na obra de Malthus leva-nos a sua já consagrada teoria da população, que em resumo seria: enquanto a população cresce em progressão geométrica (2, 4, 8,16, 32 etc.), os alimentos crescem em progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5, 6 etc.). Malthus acredita que a população dobraria em 25 anos não ocorrendo o mesmo com a produção de alimentos. A partir dessa premissa pensamos que Malthus estaria se negando a concordar com aqueles que imaginavam a formação de uma nova sociedade (caso de Godwin) na qual a escassez alimentar seria diminuída pela maior produtividade do solo.
Nessa constituição de seu pensamento, Malthus vai elaborando algumas regras como se fossem leis fixas da natureza, ou seja, não se trata de modernizar ou mesmo transformar radicalmente a organização da sociedade para que essa situação se modifique. Para ele, uma das formas de se mitigar essa situação seria o Estado realizar um controle de natalidade sobre as classes sociais com menores recursos econômicos. Malthus acha inútil acreditar que o aumento de renda das pessoas mais pobres promoveria um menor crescimento populacional, visto que ao terem melhores condições de vida a tendência era a multiplicação da prole. Tanto assim que condena qualquer reforma econômica que procure trazer algum alento ao sustento familiar das pessoas mais carentes, como a chamada Lei dos Pobres, existente desde o século XVI.
Malthus aponta que é o crescimento desordenado da população que leva a uma falta catastrófica de alimentos, fato inexoravelmente relacionado ao processo organizativo das camadas mais baixas da sociedade, naturalizando a situação social e a divisão por classes. É como se os pobres tivessem uma propensão quase que natural à procriação, e então esse crescimento desordenado geraria mais miséria e a entrega ao vício.
Duas frases merecem destaque por serem lapidares do pensamento desse economista:
Um trabalhador que casa sem estar em condições de sustentar uma família pode, em alguns aspectos, ser considerado um inimigo de todos os seus companheiros trabalhadores.
O trabalhador pobre, para usar uma expressão vulgar, vive ao deus-dará. Suas necessidades do momento ocupam toda sua atenção e eles raramente pensam no futuro. Mesmo quando têm uma oportunidade de poupança, raramente a fazem, mas tudo o que está além de suas necessidades de momento, genericamente falando, vai para a cervejaria. (Malthus, 1986, p.271)
As duas frases acima demonstram a tendência de Malthus a destacar a classe trabalhadora como a única culpada pela situação em que vive. Não se importando em se atentar aos fatos cotidianos por ela vividos, como a grande dificuldade em sobreviver com os parcos salários recebidos e a entrega ao vício como mais uma ação desesperadora, o economista exprime uma opinião que parece compreender as péssimas condições de vida como algo inerente a uma determinada classe social. É como se a classe mais pobre tivesse propensão à procriação, falta de perspectiva de futuro e contumaz entrega ao vício. Na melhor das hipóteses, o vício e a miséria seriam fatores limitadores da explosão demográfica, explosão essa que traria resultados inesperados para a sociedade como um todo.
Graças à miséria, à fome e tantas outras tragédias, o crescimento dessa população mais pobre se estagnaria, permitindo que a quantidade de alimentos estivesse equilibrada com o número de habitantes de uma dada porção do território. A classe mais pobre viveria em sua eterna falta de recursos, tomada pelo vício, principalmente do álcool, aliado a uma miséria contumaz, sendo que esses fatores possibilitariam uma ausência de cuidados básicos que produziriam epidemias constantes, levando sempre a um menor crescimento populacional.
A distribuição de renda para Malthus não seria uma solução viável; pior, levaria essa situação de desalento para o restante da sociedade. Como ele próprio afirma: “De início pode parecer estranho, mas creio ser verdade que não posso, mediante recursos monetários, elevar o padrão de vida do pobre e possibilitar-lhe viver muito melhor do que anteriormente, sem abaixar proporcionalmente o padrão de vida dos outros membros da mesma classe” (Malthus, 1996, p.269). Ao analisarmos esses pressupostos malthusianos, vemos a clara intenção deste autor em atacar as classes mais pobres, ao afirmar que elas seriam incapazes de superarem a miséria e o vício, como se a pobreza fosse um dado natural nos estudos populacionais. Nesse sentido, estamos concordando com alguns autores que veem nessas afirmações o gérmen de alguns postulados levantados por Charles Darwin na teoria da evolução.
Ao procurar as origens do social darwinismo, Claeys (2000, p.224, tradução nossa) demonstra a íntima ligação entre o clérigo inglês e o seu compatriota naturalista.
Este artigo examina algumas fontes do século XIX cruciais à ideia da “sobrevivência do mais apto” que serve de base para inúmeras doutrinas sociais e políticas posteriormente associadas com a teoria da seleção natural, e também o que era visto como alguns dos limites desta ideia. Na verdade, era mais do que uma mera coincidência o óbvio papel provocativo jogado pelo Essay de Malthus, seja para Darwin ou para
Wallace.8
Essa tendência em Darwin foi explicitada por ele mesmo em um comentário realizado em 1876, demonstrando a forte influência do economista inglês sobre as suas análises científicas:
Em Outubro de 1838, isto é, quinze meses depois de eu ter começado a sistematizar minha pesquisa. Por acaso lendo por diversão On Population de Malthus, fiquei mais bem preparado para compreender como a luta pela existência em todos os lugares ocorre, e após uma longa e continuada observação dos hábitos dos animais e plantas, surpreendi-me
que nessas circunstâncias as variações favoráveis estariam na formação de novas espécies. Aqui, então, eu tinha finalmente realizado a teoria.
(Darwin apud Todes, 1989, p.16)9.
Embora Darwin não tenha expressado diretamente que os menos capazes seriam as classes mais pobres, ao se utilizar dessas premissas malthusianas e declarar abertamente ter se utilizado do próprio método de análise para construir a sua teoria da evolução, o naturalista inglês deu margem para que outros cientistas se utilizassem de suas prerrogativas a fim de enquadrá-las em um entendimento da sociedade capitalista do século XIX.
Antes mesmo de entrarmos nessa discussão, demonstraremos que as análises de Malthus não eram unanimes na Inglaterra do final do século XVIII. Para tal êxito, discutiremos a seguir as principais ideias de William Godwin e a crítica aos postulados malthusianos.
William Godwin não teve a mesma expressividade póstuma do que teve Malthus. E, diferente do clérigo inglês, Godwin realizou uma crítica contumaz às instituições da época, apontando a possibilidade de se existir em um futuro não determinado outra
organização social.10
A obra principal de Godwin (Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on General Happiness) enquadra-se em vários trabalhos escritos sob a influência da Revolução Francesa com uma
crítica voraz ao modelo político inglês de meados do século XVIII.11 Godwin, em linhas gerais, ataca o que vê como uma excessiva ingerência do Estado nas vidas das pessoas, minando totalmente qualquer individualidade.
Ao contrário da crença de Malthus na existência de leis naturais
fixas,12 para Godwin o ser humano é influenciado pelo meio em que vive, negando a presença de quaisquer instintos inatos. Sustenta ainda que a experiência de vida e associações que o individuo compartilha ao longo de sua existência têm um papel primordial na constituição de seu caráter.
Godwin acreditava na supremacia da razão sobre a emoção, inclusive compreendia o processo educativo como o único instrumento viável de reforma social, já que abominava qualquer mudança que pudesse sugerir o uso da violência.
Conforme a sociedade tivesse consciência de que o governo não era necessário para a sua organização, ele desapareceria. Desta forma, educar as jovens gerações seria uma prerrogativa não da Igreja ou do Estado, mas de livres pensadores que auxiliariam as crianças na construção de uma nova sociedade.
Para ele, o homem, se não é um ser perfeito, é capaz de melhorar-se indefinidamente, e essa evolução social leva a uma sociedade sem a presença de jugos institucionais, que tolhem o ser humano constantemente.
Ataca a presença das instituições governamentais como perpetuadoras da injustiça, incluso a social. Essa abolição conduz a uma sociedade mais harmonicamente constituída, na qual as leis
seriam abolidas.13 Para tal, Godwin propõe o surgimento de pequenas comunidades de associação mútua, onde prevalecesse a autonomia do indivíduo no grupo. Entretanto, essa organização social só funcionaria se todos os homens fossem verdadeiramente iguais, o que mostra seu questionamento dos pressupostos liberais dominantes dessa época, que compreendiam as diferenças sociais como “naturais”. Como ele próprio escreve: “a desigualdade natural que se faz aqui referência foi originalmente menos evidente do que é hoje. […] Na verdade não há muita diferença entre os indivíduos para que se permita que um subjugue a muitos outros, exceto se
assim o consentem” (Godwin, 1986, p.66, tradução nossa). 14 A compreensão que não existe uma lei natural que justifique a submissão de um homem sobre o outro já o afasta de vários escritores liberais desse momento, incluso Malthus.
A visão de Natureza de Godwin pode ser compreendida a partir de uma visão holística da ligação intrínseca entre os seres humanos e destes com os outros animais.
Godwin defende que a liberdade individual se expressa somente na constante comunhão entre as pessoas e não que seja pautada no egoísmo.
A partir de uma visão influenciada pelo Iluminismo do século XVIII, ele vai tentar superar a visão rousseauniana de que o homem nasce bom e as instituições o tornam mal, para uma visão que aponta que as instituições podem ser modificadas também. Então, se separa tanto dos liberais que como Thomas Paine acreditavam no governo como uma forma de coibir os excessos naturais do homem, quanto daqueles que como Rousseau encaravam o homem que não vivia em sociedade como um ser bondoso.
Como o próprio autor diz:
Participamos de uma mesma natureza. As mesmas causas que contribuem ao bem-estar de um contribuem aos demais. Nossos sentidos e nossas faculdades são de índole semelhante, igualmente os nossos prazeres e penas. Nem sempre temos razão, quer dizer capazes de comparar, inferir ou julgar. Seremos prudentes para nós mesmos e úteis aos demais, à medida que superemos a atmosfera de preconceitos que
nos rodeia. (Godwin, 1986, p.66)15
Sua visão de natureza é muito próxima daquela que seria defendida por Kropotkin já em meados do século XIX. E, para combater uma sociedade pautada no preconceito, a educação entra como um instrumento libertador.
Embora compartilhe com os iluministas a ideia da perfectibilidade humana e que os preconceitos existentes são frutos da organização social, afasta-se destes pois acredita fielmente em mudança de ordem social como um fator de transformação.
Godwin ataca sistematicamente aquilo que para ele deturpa cotidianamente os sentimentos e sensações humanos: o governo. E com os governos constituídos temos também a separação dos homens em nações e, por consequência, as incessantes disputas por territórios.
Para o radical inglês, não se trata de acreditar em uma bondade humana superior. Mas que as instituições criadas pelos homens acabam aprisionando-os em estruturas de valores pouco racionais. Logo para ele,
Eu tentarei provar duas coisas: primeiro, as ações e disposições da humanidade são fruto das circunstâncias e dos eventos e não de qualquer determinação que elas trazem ao mundo; e, segundo, o grande fluxo de nossas ações voluntárias depende não dos impulsos diretos e imediatos
do sentido, mas de decisões racionais. (Godwin apud Clark, 2008, p.11)16
As relações que os homens constroem ao longo do tempo advêm das formas societárias em que eles estão inseridos. Se elas são injustas, promovem desigualdades. Não existem pré-condições a-históricas que propiciam esse estado de coisas. A pobreza e a riqueza, dois lados da mesma moeda, existem não por força de um ser metafísico ou por um destino traçado em regiões etéreas. É a própria estrutura social na qual o indivíduo está inserido, e que de certa forma reproduz cotidianamente, a causadora dos males socioeconômicos existentes.
A educação seria um caminho efetivo para que as sociedades fossem organizadas baseando-se apenas em princípios que defendessem a liberdade individual em comum com a justiça. E seria por uma escola transformada, na qual a figura do professor tivesse um papel auxiliar no processo de formação, que se estimulariam valores voltados ao bem comum e a defesa intransigente da liberdade individual perante a presença de qualquer instituição coercitiva.
Para nós, as proposições de Godwin ainda seriam retrabalhadas por vários anarquistas, principalmente Kropotkin, procurando demonstrar a importância do pensamento dele como formador das ideias anarquistas contemporâneas.
Ao alçar Godwin como um pai fundador do anarquismo moderno, Kropotkin também queria demonstrar a importância de suas ideias sobre a liberdade, o individuo, o apoio mútuo entre os seres, a crítica ferrenha às instituições, em particular ao Estado, e a educação como projeto de libertação, tão cara ao geógrafo russo.
Embora a sua utopia social pudesse ser questionada (como o foi), fica claro que as principais ideias desse autor, como liberdade individual, autonomia, associação mútua, estarão presentes na obra de Piotr Kropotkin. E, ao contrário de uma lógica científica que determinava e separava os indivíduos conforme a sua “capacidade de adaptação”, Kropotkin vai utilizar alguns dos argumentos postulados por Godwin para demonstrar um exagero na defesa de uma vida individualista e competitiva existente na lei de evolução darwinista, a partir das críticas que realizou a Thomas Huxley em meados do século XIX.
Para melhor esclarecer as diferenças entre esses importantes autores do século XVIII (Godwin e Malthus) demonstraremos como ambos debatiam algumas questões relevantes sobre o homem e a liberdade.
Polêmicas, polêmicas, polêmicas…
Apresentaremos algumas polêmicas entre Godwin e Malthus, suscitadas pela publicação de suas obras Enquire e An Essay, respectivamente. Para melhor entender esse debate vamos primeiro contextualizá-lo.
Em fins do século XVIII, diversos autores já discutiam o crescimento populacional, mas diferente de Malthus, achavam que uma política social exitosa significaria, necessariamente, o aumento da população.
Como demonstra Rosen (1970, p.41, tradução nossa),
Antes de Malthus escrever seu ensaio, os teóricos políticos do século XVIII viam uma pujante e enorme população como a evidência de uma política próspera e bem administrada. David Hume expressou essa visão comum quando escreveu que “se tudo mais é igual, parece natural esperar que onde há maior felicidade e virtude e exista a mais sábia das instituições,
haverá também mais pessoas”. 17
Os locais mais felizes tinham maior população e virtude, e subentende-se que os com menor população teriam miséria e vício: simplesmente o oposto daquilo que era apregoado por Malthus.
Não sabemos por que a teoria malthusiana vai prevalecer posteriormente, se por questões econômicas ou graças ao interesse de uma classe social específica, mas é interessante perceber que ela rompe com um grupo de intelectuais do qual Godwin também fazia parte.
As principais críticas que Malthus realiza contra Godwin aparecem a partir do Capítulo X na sua magna obra. Entre outras coisas, Malthus vai questionar a crítica deste autor em relação à utopia, que poderia ser bela mas sem nenhum fundamento científico.
Ao analisar um dos capítulos do Enquire, Malthus questiona a veracidade da argumentação de Godwin sobre o crescimento populacional apontando que “o grande erro em que o sr. Godwin elabora em toda a sua obra é o de atribuir todos os vícios e a miséria que são constatados na sociedade civil às instituições humanas” (Malthus, 1996, p.302). Nesse parágrafo, a crítica malthusiana tem como foco derrubar a tese principal de Godwin na qual os seres humanos são desviados moralmente pelas instituições governamentais e, assim, tornam-se viciosos e contrários a uma relação mais harmoniosa.
Enquanto para o clérigo inglês o vício e a miséria se enquadram em leis inatas dos seres humanos, para Godwin uma nova sociedade é sempre possível, pois a reforma do homem (e o papel predominante da educação) leva necessariamente a uma sociedade menos desigual e que respeita as individualidades. É o que afirma o próprio Malthus (1996, p.306):
Nenhuma instituição humana existiu aqui pela maldade à qual o sr. Godwin atribui o pecado original dos piores humanos. […] num período tão curto como cinquenta anos, a violência, a opressão, a mentira, a miséria, todo vício odiento e todo tipo de desgraça que degrada e aflige o atual estado da sociedade parecem ter sido criados pelas mais imperiosas circunstâncias, por leis inerentes à natureza do homem e totalmente independente de todas as leis humanas.
Outra questão relevante refere-se à produção de alimentos. Malthus não enxerga muitas possibilidades em um aumento da produtividade alimentar, oposto à ideia predominante em Godwin de que o próprio progresso humano levaria a uma melhoria constante na produção de alimentos. Para Malthus (1996, p.305), após um período de grande crescimento demográfico, “[…] onde será encontrado o alimento para atender as prementes demandas do número crescente de pessoas? Onde existe terra nova para ser explorada? Onde existe o adubo necessário para desenvolver o que já está em cultivo?”.
Sem demonstrar qualquer capacidade de compreensão de um aumento da produtividade derivada da maior industrialização do campo, o economista prevê que o aumento da população sem a contrapartida em alimentos levará a um cataclismo mundial fomentando mais miséria, fome e guerras, eventos que propiciariam uma redução da população.
Já o otimista Godwin não acredita muito nesse aumento exagerado da população, nem que apenas a miséria e as guerras poderiam diminuir os problemas de alimentação. Ao apresentar uma crítica à tese de que a população aumenta de forma geométrica, ironicamente diz: “Se o princípio da população não mudasse por 1800 anos, se produziriam homens suficientes para preencher todo o universo visível, tão abundantemente quanto esse universo pudesse comportar: é isto que vemos em muitas palavras da
doutrina de nosso autor” (Godwin, 1820, p.73).18
Não faltariam alimentos, muito menos a população cresceria de tal forma que a miséria aumentaria. Godwin acredita no ser humano e na possibilidade de progresso contínuo. Se isso não ocorre, é porque as instituições atuais dificultam uma organização social mais igualitária.
Malthus e o seu pessimismo prevê um mundo de vícios, misérias e guerras; Godwin, e o seu otimismo contumaz, projeta uma nova sociedade, mais harmônica e capaz de se autocriar constantemente. Não se trata de apontar quem está certo ou errado. Mas fica evidente que as influências de ambos parecem ser determinantes nas ideias que depois serão debatidas em várias sociedades científicas seja por Kropotkin ou Huxley.