Geografia e anarquismo

Amir El Hakim de Paula · Capítulo 7 de 9

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Geografia e anarquismo

6 – Anarquismo e ciência nas críticas às propostas kropotkinianas

6 – Anarquismo e ciência nas

 

críticas às propostas

 

kropotkinianas

 

Nesse capítulo buscaremos apresentar as principais críticas que Kropotkin recebeu, seja no que tange à sua concepção de anarquismo (anarcocomunismo) ou na sua teoria do apoio mútuo. Para ele, o anarquismo e a ciência caminhavam conjuntamente, defendendo que as ideias de um comunismo libertário futuro seriam totalmente factíveis.

O anarcocomunismo, expressão máxima de uma organização social sem salários, moeda, hierarquias e Estado, seria o ápice de uma sociedade moderna, democrática e igualitária. O apoio mútuo, seu principal eixo científico, era um dos substratos da natureza, o que demonstrava a superioridade desta filosofia social sobre as anteriores.

A confiança de Kropotkin em um futuro libertário se respaldava na sua crença, quase cega, na moderna ciência do século XIX. Se a análise dos dados realizada por um pesquisador sério e comprometido com um método gerasse uma lei própria, nada seria capaz de obstaculizar o processo de transformação.

Como vimos, sua luta era demonstrar que o apoio mútuo possuía uma base científica, pois assim seria aceito pelos pares acadêmicos, pois estaria calcado em profundas investigações e não resultado de hipóteses vazias, sonhos quiméricos. Ao fundamentar suas ideias ácratas e de apoio mútuo por um meio de um método, acreditava que o anarcocomunismo e seu principal suporte organizacional (apoio mútuo) saltariam da posição marginal, comum às ideias socialistas, para a de um círculo de debates mais erudito. Entretanto, o que poderia ser visto como vitória de uma filosofia social contra as propostas científicas que defendiam um mundo desigual e hierárquico transformou o anarquismo na sua vertente comunista em mais do que corpo de ideias em construção contínua.

Mesmo que a luta social, em algum momento, arrefecesse, que as organizações operárias refluíssem, a experiência solidária detectada na natureza era uma prova consistente de que uma mudança de paradigma societário (do competitivo para o mutualista) ocorreria em breve. Nesse sentido, a educação libertária seria a promessa de que um ensino menos hierárquico formaria homens novos, que tomando consciência das desigualdades econômicas e sociais, transformariam a sociedade de classes, base do capitalismo, em outra mais humanizada.

Esse otimismo de Kropotkin foi motivo de críticas veementes de importantes anarquistas. Inclusive daqueles que como ele defendiam o anarquismo de caráter comunista. É o caso do italiano Errico Malatesta, figura proeminente no anarquismo mundial, sendo, além de importante teórico, grande entusiasta da prática antiautoritária. Exilado a maior parte de sua vida, não abandonava as suas ideias ácratas e fundava constantemente jornais operários onde buscava abrigo, contribuindo de forma colossal para o surgimento dos sindicatos revolucionários.

Conhecendo Kropotkin desde a juventude, percebeu a importância do geógrafo para a divulgação das ideias antiautoritárias sem se furtar, entretanto, das críticas necessárias para que efetivamente ocorresse a consecução desse ideal. Embora afirmasse em um artigo escrito quase no final de sua vida que não tinha condições acadêmicas de contrariar os aspectos científicos da obra o geógrafo russo, questiona a exagerada base positivista dela:

 

Naturalmente, logicamente, se a vontade não tem nenhuma importância, se não existe, se tudo é necessário, não pode ser de outra maneira, que as ideias de liberdade, de justiça, de responsabilidade não teriam nenhuma significação, não corresponderiam a nada real. […] Kropotkin, que era muito severo com o fatalismo histórico dos marxistas, caía no fatalismo mecânico que é muito mais paralisador. (Malatesta, 1931, p.579,

tradução nossa) 1

 

Nesse pequeno fragmento, percebemos que a crítica de Malatesta se dirige quase que totalmente à esperança exagerada de Kropotkin no surgimento de uma sociedade socialista, processo de transformação social que seria inexorável. Para o anarquista italiano, o geógrafo colocava em um segundo plano uma ação social planejada, aquela que de fato levaria à efetivação de uma sociedade sem classes.

Foi uma crença quase que absoluta na ciência que levou Kropotkin a defender o apoio mútuo e o anarcocomunismo como intrínsecos à evolução humana. Entretanto, como um contradito à sua própria proposição teórica, Kropotkin não ficava em seu escritório esperando a anarquia chegar. Como relata Malatesta:

 

Depois de ter dito que a “anarquia é a concepção do universo baseada na interpretação mecânica dos fenômenos que abraça toda a natureza, incluso a vida das sociedades” (confesso que não entendo o que isso possa significar), Kropotkin esquecia, como se ela nada significasse, a concepção mecânica e lançava-se à luta com o ânimo, o entusiasmo e a confiança de alguém que acreditava na eficácia de sua vontade e esperava poder, por sua atividade, obter ou contribuir a obter o que

desejava. (ibidem, p.580, tradução nossa)2

 

Malatesta aponta nesse fragmento a presença de um paradoxo na visão kropotkiniana de revolução. O apelo a um anarquismo de base científica, com todas as suas problemáticas, não faz Kropotkin ser pura e tão somente um anarquista teórico. A paixão acadêmica é na verdade a defesa intransigente de uma nova sociedade, um apelo à mudança social. Mesmo assim, o anarcocomunismo defendido por Kropotkin e por consequência o apoio mútuo são compreendidos como uma lei natural e, como quase todas as outras leis, derivam do pensamento científico do século XIX dominado pelo positivismo.

Para Malatesta, outro ponto problemático na obra de Kropotkin é a ideia de natureza. Ela é harmônica, permeada de valores solidários, no qual o apoio mútuo é o processo que une todos os seres vivos, determinando a existência de uma intensa relação de alteridade entre eles. Malatesta, de forma perspicaz, questiona essa natureza “bondosa”, apontando, inclusive, uma importante reflexão para a ação anarquista:

Kropotkin entendia a natureza como uma espécie de providência, graças a qual reina sobre tudo, inclusive nas sociedades humanas. […] Poder-se-ia perguntar, se sua lei é harmônica, como ela esperou que viessem ao mundo os anarquistas e espera que eles triunfem para destruir as terríveis e mortíferas desarmonias de que os homens sempre padeceram? Não se estaria mais próximo da verdade dizendo que a anarquia é a luta das sociedades humanas contra as desarmonias da natureza? (ibidem, p.581,

tradução nossa) 3

 

Ele traz para dentro do movimento social um debate importante: Se a natureza e as sociedades humanas estão baseadas em princípios solidários, por que surgem os anarquistas e eles lutam por transformações radicais? A princípio tudo deveria estar em perfeita ordem. E avançando na reflexão, faz outro apontamento: se tudo está em perfeita ordem, equilíbrio, nem os anarquistas precisariam surgir… entretanto estão aí…

Malatesta, embora não fosse um intelectual no sentido estrito da palavra, trouxe importantes reflexões acerca da ideia de Kropotkin sobre natureza e apoio mútuo. Discordando de que a solidariedade é um princípio formador e intrínseco à natureza, ao homem e por consequência ao anarquismo, coloca ao movimento social uma reflexão: somente a organização e uma posterior ação dos anarquistas poderão ter um papel fundamental para a transformação da sociedade.

Para ele, o igualitarismo e a autogestão não são “espíritos puros” que na natureza esperam esclarecimento. São expressões de luta que se desenvolvem como estratégias do militante nos sindicatos e na promoção de centros de cultura, ateneus libertários, escolas racionalistas para que surja uma proposta ácrata possível.

Interessante anotar que o texto é de 1931, dez anos após a morte de Kropotkin e cinco anos antes da eclosão da Guerra Civil Espanhola, momento ímpar na história do anarquismo e dos anarquistas que só acreditavam na organização cotidiana dos trabalhadores.

Como vimos, Malatesta, grande amigo e companheiro de ideias de Kropotkin, realiza uma crítica muito mais centrada nos desdobramentos que alguns dos pressupostos defendidos pelo geógrafo trariam à organização dos anarquistas. Isso porque a ideologia anarcocomunista tinha expressiva influência sobre as principais organizações anarquistas, pautando as estratégias de luta dessas entidades, nos sindicatos, nas escolas, movimentos de bairro etc.

A grande preocupação do anarquista italiano era que um imobilismo na organização dos trabalhadores pudesse ocorrer, visto que algumas das defesas centrais na obra de Kropotkin geravam interpretações que apontavam a possibilidade de uma sociedade ácrata como algo bastante natural. Lutar contra essa tendência parece ser o principal objetivo de Malatesta. Logo, a crítica se insere em um desejo de promover e incentivar, cada vez mais, a entrada dos anarquistas nos principais órgãos de defesa do operariado e, internamente, aplicar algumas das principais estratégias antiautoritárias, como a autogestão e o federalismo.

Outra importante crítica ao trabalho de Kropotkin foi realizada por Martin Buber, que questiona as ideias do geógrafo russo baseando-se em seus estudos sobre o socialismo utópico. Autor, influenciado pelo sionismo, procura apresentar uma nova forma de compreender a filosofia do cotidiano, o que ele chama de filosofia do diálogo.

Não sendo anarquista como Malatesta, Buber, que se autodenominava “socialista utópico”, não tinha entre suas preocupações tecer comentários sobre a força das ideias kropotkinianas no movimento social. Seu principal objetivo era detectar traços utópicos nas principais teorias socialistas do século XIX e início do XX, desde Proudhon até Lenin, passando por Landauer e Marx.

Como crítico de fora do anarquismo, Buber enxergou as falhas de um sistema social que teria a pretensão de ser uma alternativa viável aos trabalhadores, bem como para uma melhor organização das sociedades humanas. Aponta alguns sinais de incoerência em nosso principal autor que procurou unificar as bandeiras de seus antecessores naquilo que posteriormente se conheceu como anarcocomunismo. O foco do debate continua sendo político como aquele realizado por Malatesta. Mas ao contrário do anarquista italiano que dizia não ter condições de avançar em uma querela mais acadêmica, Buber analisa algumas obras do geógrafo e localiza possíveis contradições.

Uma das críticas ao pensamento de Kropotkin se refere à concepção de Estado. Para os anarquistas de todos os matizes, o Estado aparece junto com o capital como a principal fonte de todas as desigualdades sociais, fomentador de hierarquias, subordinando, com uma intensa opressão, as populações mais pobres. Nesse sentido, seria inócua a tomada do Estado pelos trabalhadores, visto que, ao não destruí-lo, o poder seria mantido, fomentando continuamente lutas intestinas, impossibilitando a formação de uma “verdadeira” sociedade socialista.

Quando da tomada do poder por Lenin na Rússia no final de 1917, Kropotkin deixou claro ao líder bolchevique que, se a ditadura fosse um meio útil para atacar e destruir o regime capitalista, ainda assim seria deletéria para a consumação de uma nova sociedade. Essa visão antiestatal ao extremo, segundo Buber, dificulta a apreensão de outras formas de poder estatal:

 

O conceito de Estado de Kropotkin é, obviamente, muito limitado. Ele não hesita em identificar o Estado centralista com o Estado em geral. Na história, temos não apenas o Estado como torquês que destrói a essência das pequenas associações, mas também o Estado como estrutura dentro da qual estas se agrupam. (Buber, 2005, p.55)

 

Ao enquadrar todos os Estados dentro de uma mesma rubrica, Kropotkin estaria obliterando algumas nuances democráticas que esta instituição teria. Um exemplo é a defesa de Buber do Estado como arma dos trabalhadores contra a sanha incontrolável do capital por mais-valia.

Para Buber (ibidem), afirmar pura e simplesmente o lema Si hay gobierno, soy contra seria um contrassenso, visto que o Estado não tem sempre a mesma dinâmica, já que não é algo abstrato, mas uma instituição que funciona conforme os anseios de uma parcela da sociedade. Esse aspecto é interessante, pois, com a emergência dos chamados Estados sociais (não socialistas) ou Welfare State, a luta contra estes já não pode, segundo Buber estar baseada tão somente nas premissas de Proudhon, Bakunin e Kropotkin.

Percebemos um pouco dessa problemática quando Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930 e começou a oficializar diversas exigências operárias (salário mínimo, férias, descanso semanal), criando um Estado corporativista com algumas demandas sociais. Para os trabalhadores que sempre desejaram a proteção do Estado, o momento foi oportuno, e eles lutaram para defender nele a presença de uma legislação trabalhista. Aos sindicatos de orientação anarquista, para os quais o Estado era um mal a ser eliminado, não havia a possibilidade de aceitarem uma legislação social legalista.

Outra crítica importante de Buber (ibidem) ao trabalho de Kropotkin ocorre quando o geógrafo, em sua obra principal O apoio mútuo, vai discutir a formação de comunidades autodirigidas na Idade Média. Ao tratar a formação das guildas comunais como uma estratégia de organização mais livre dos artesãos, aborda a questão de uma forma equivocada. Diz Buber (ibidem, p.57):

 

Na comunidade autônoma, principalmente quando esta intervém como associação na produção, o perigo do egoísmo coletivo, assim como da opressão e da cisão, dificilmente será menor do que na nação ou no partido. […] Ele sabe, por exemplo (em Mutual Aid, 1902), que o movimento cooperativista moderno, cujo caráter, em suas origens, era essencialmente de ajuda mútua, muitas vezes degenerou num “individualismo de capital por ações”, fomentando um “egoísmo cooperativo”.

 

Nesse caso específico, Buber (ibidem) vai analisar que a compreensão kropotkiniana está totalmente baseada em uma dualidade, em termos absolutos, inexistente. Isso porque, quando ele analisa historicamente uma dicotomia entre liberdade e opressão, não percebe que existem traços opressivos nos quais vê apenas liberdade, e vice-versa. Para tentar dirimir isso, Buber acredita que ele poderia utilizar o método dialético serial de Proudhon, procurando perceber as “antinomias sociais” em vez de se pautar unicamente no confronto eterno entre a luta pela existência e o apoio mútuo.

Como apontamos, quando discutimos a relação entre a natureza e a sociedade em Kropotkin, quase sempre transparece uma necessidade contumaz do autor em tornar científico o apoio mútuo, destacando-o, às vezes, exageradamente. Era uma ação que tinha como objetivo diminuir a importância do mote que defendia a luta pela sobrevivência por outro mais solidário.

Para o filósofo judeu, Kropotkin, ao encontrar os valores solidários em diversos momentos históricos, acabou exagerando essa presença. Ainda que Buber (ibidem) não tenha se aprofundado no debate kropotkiniano, principalmente no que tange ao seu aspecto científico (apoio mútuo versus luta pela sobrevivência), sua análise pode nos ajudar a refletir sobre a obra do geógrafo russo.

Outra crítica à obra kropotkiniana foi realizada por Gould, que, a partir dos estudos de Todes (1989), fez uma investigação sobre o impacto da visão do apoio mútuo entre os cientistas do século XIX e a relação que ela tinha com as propostas darwinistas. Para isso, buscou apoio nos principais acadêmicos russos que trabalhavam com a perspectiva evolucionista pautada no apoio mútuo, analisando de que forma essa concepção podia ser considerada um paradigma científico.

Uma das principais questões que Gould (1988) levanta é que a visão solidária da natureza incorre em um erro crasso: não existem aspectos morais que subsidiem o meio ambiente natural. Diz:

 

A natureza (não importa quanto cruel seja em termos humanos) não tem nenhuma base para nossos valores morais. (A evolução pode ajudar-nos a explicar porque nós possuímos sentimentos morais, mas nunca poderá decidir o certo e o errado quando realizamos qualquer ação cotidiana).

(ibidem, p.13, tradução nossa)4

 

Nesse trecho, vemos uma discussão que tem muita semelhança com algumas proposições de Huxley, para quem a natureza não é boa ou má. Os instintos existem como uma ferramenta de sobrevivência dos seres vivos. Delegar a eles algum valor humano dificulta a compreensão sobre o papel que eles têm na constituição dos seres vivos.

Ao defender o apoio mútuo, Kropotkin se inclui em uma plêiade de cientistas russos do século XIX que compreendem a luta pela sobrevivência darwinista como uma luta sanguinária, o que para Gould é uma má interpretação da teoria evolucionista de Darwin. É importante ressaltar que, em vários momentos do artigo, Gould (ibidem) não nega totalmente que o próprio Darwin possa ter escrito frases que demonstrassem uma luta sanguinária, mas destaca que o principal articulador de uma visão beligerante foi, como discutimos neste trabalho, T. Huxley.

Embora com a preocupação de fazer justiça a um autor pouquíssimo divulgado nos meios científicos norte-americanos e, quando citado, quase sempre referido como excêntrico (crackpot), Gould (ibidem) questiona dois pontos que considera fundamentais na obra de Kropotkin e que merecem uma maior atenção: o papel do apoio mútuo na seleção natural e a moralidade na natureza. Sobre a moralidade na Natureza, Gould (ibidem, p.20, tradução nossa) vai afirmar: “Desconfio de argumentos que encontrem bondade, mutualismo, sinergia, harmonia – os mesmos elementos que nós tanto nos esforçamos, e frequentemente com tão pouco

sucesso, para ter em nossas vidas – na natureza”.5

A análise da Natureza realizada com as lentes de um homem no qual a cultura ocidental está impregnada, mesmo que ele não queira aceitá-la, assenta-se em uma base valorativa. Com certeza, ao perguntar para uma pessoa de uma tribo que vive isolada nas regiões amazônicas ou no norte da taiga siberiana qual o entendimento que elas teriam sobre a natureza, as respostas poderiam ser completamente diferentes das que Kropotkin e outros cientistas deram, senão permeadas de significados simbólicos antagônicos àqueles discutidos.

Por isso Gould (ibidem) não acredita nas propostas holísticas de Capra ou de noosfera de Chardin como processos universais de entendimento da relação homem-natureza. Para ele, a natureza, como uma entidade pensante supra-humana, não tem preocupações maiores com uma espécie animal que teve um desenvolvimento tardio. Soa estranho, senão arrogante, o ser humano dizer o que a natureza é.

Em relação à importância do apoio mútuo no processo evolutivo, especificamente na seleção natural, Gould (ibidem, p. 20) comenta: “Ele cometeu um erro conceitual comum ao não compreender que a seleção natural é um debate sobre vantagens e desvantagens para

os indivíduos, muito embora eles possam lutar”.6 A seleção natural não seria uma luta encarniçada entre os seres vivos para que, por meio da vitória do mais forte, se gere descendentes. A luta pela sobrevivência não é pura e simplesmente um indivíduo matar o seu oponente, mas também procurar mecanismo de combate e defesa, arregimentar estratégias, construir melhores condições de adaptação.

Interessante anotar que Gould (ibidem) admite as análises de Kropotkin e a importância delas. Acha, inclusive, que tantos os darwinistas clássicos como os russos exageraram na forma de compreender a natureza. Quem disse que na competição não existem momentos nos quais a cooperação entre os indivíduos seja também importante e crucial para a sobrevivência dos seres vivos? É essa a questão que o paleontologista americano nos deixa sobre uma disputa científica que ainda tem muito a contribuir para uma correta apreensão de um tema tão complexo, intrigante e permeado de inclinações ideológicas.

Por fim, apontaremos algumas perspectivas sobre o apoio mútuo e a concepção anarcocomunista a partir de autores citados por Oved (1992). Em seu trabalho The Future Society According to Kropotkin [A sociedade futura de Kropotkin], demonstra de que forma a teoria do apoio mútuo poderia ser um guia para a implementação de sociedades autogestionárias, caso da revolução espanhola de 1936.

Embora, na maior parte de seu artigo Oved (ibidem) enxergue grande potencialidade na obra do geógrafo russo, é explícito que, em vários momentos, desconfia da real efetividade dessas ideias. Quando procura criticar o autor, recorre a alguns economistas e cientistas naturais a fim de que essas apreciações tenham alguma estrutura metodológica. Um exemplo importante é quando diz acreditar piamente na formação de pequenos grupos autogestionários que se federalizariam conforme a necessidade do processo revolucionário. Utilizando as análises de Tuganbaranovski, vai dizer: “O economista russo Tuganbaranovski criticou a perspectiva econômica de Kropotkin apontando uma falta de teorização sobre os mecanismos de coordenação e de direção”

(ibidem, p.317, tradução nossa).7

Nessa análise, Oved aponta que a utilização das estratégias de organização derivadas do apoio mútuo seria suficiente para que as comunidades autogeridas funcionassem descentralizadas e solidárias entre si. A principal conclusão do autor é que, com o tempo, essas comunidades correriam o risco de existirem de forma egoísta e, logo, práticas de livre mercado tornariam a surgir. Para o historiador, a resposta kropotkiniana para a formação de uma sociedade socialista seria utópica e, somente com uma coordenação centralizada (como pedem os marxistas), uma organização mais solidária se efetivaria.

Esse mesmo entendimento possui o economista soviético Arlosov, quando afirma que:

 

Seu trabalho [de Kropotkin] nunca terá a mesma importância, não importa o movimento, do que teve [os escritos de] Marx e Engels para a Social Democracia. Para isso se efetivar falta ainda diminuir o dogmatismo e estabelecer a verdade como algo único. (Arlosorov apud ibidem, p.317,

tradução nossa) 8

 

Interessante que o próprio Odev, embora se utilizasse nesse artigo de uma argumentação que era comum aos membros da intelectualidade soviética, no final desse trabalho vai demonstrar que a queda da União Soviética e do socialismo no leste europeu apontava a necessidade de que as ideias marxistas deveriam ser rediscutidas a luz desses importantes eventos históricos.