Geografia e anarquismo
2 – As origens do conceito de apoio mútuo
2 – As origens do conceito de
apoio mútuo
É fato que Kropotkin se utilizou largamente em suas pesquisas de um conceito antidarwinista (no sentido dos apoiadores de Darwin e menos do naturalista inglês) que, embora quase sempre ligado a suas ideias anarquistas, não pode simplesmente ser compreendido dessa forma. Isso porque na Rússia essas ideias sobre a evolução das espécies foram recebidas com mediana simpatia, sendo que uma pequena parte da sociedade mais esclarecida e pró-czarismo, apoiando-se em pressupostos eslavistas, condenou o principal livro
de Darwin como um projeto britânico imperialista.1
Mais do que apenas uma crítica circunscrita à comunidade acadêmica, as ideias de Darwin também sofreriam grandes questionamentos por parte da sociedade civil mais organizada, principalmente entre os partidos socialistas que atuavam no campo, que entendiam essa teoria em solo russo como uma tentativa de aniquilar a organização comunal dos povos que habitavam as regiões mais inóspitas desse império.
Percebemos que, seja a partir de uma crítica conservadora (pró-czarismo) ou mais progressista (partidos socialistas), o fato é que essas ideias evolucionistas nunca tiveram grande apelo dentro da Rússia imperial. Compreender esse processo demonstra que, longe de ser uma unanimidade, a teoria da evolução discutida por Darwin, e principalmente ressignificada por seus futuros defensores como Thomas Huxley (conhecido como o “buldogue” de Darwin), teve que passar por inúmeras provas de fogo no continente europeu.
Nessa parte procuraremos analisar de que forma foi se gestando na Rússia um corpo de ideias contrárias ao chamado evolucionismo darwinista e de que forma Kropotkin, apropriando-se delas, transformou-as em um dos principais pilares daquilo que posteriormente se chamaria de anarcocomunismo.
Em um primeiro momento, apontaremos a recepção das ideias darwinistas no meio acadêmico russo, para depois trabalharmos as críticas recebidas, seja pela comunidade científica local ou por algumas organizações socialistas.
A recepção do pensamento darwinista
na Rússia czarista em meados do
século XIX
A teoria da evolução darwinista terá enorme repercussão (embora, como vimos, com um apoio mais limitado) na Rússia. Acadêmicos e cientistas realizarão constantes debates em suas instituições de pesquisa acerca das mudanças de paradigmas que essa nova proposta trazia.
Até então, o mundo científico e o russo, por conseguinte, concordavam com as propostas evolucionárias descritas por Lamarck. Era a lei do uso e desuso que preenchia as falhas do entendimento de como os seres vivos evoluíam.
No período em que Darwin realizou suas pesquisas, a Rússia czarista ocupava quase 25% de todas as terras emersas do planeta, propiciando que esse país tivesse a presença de climas e relevos variados. Em que pese essa grande extensão de terras, quase quarenta vezes maior que as ilhas britânicas, era um país pouco povoado, sendo que o geógrafo Belov admitia que em 1875 a população total não chegava a 83 milhões de pessoas e com grande
concentração na parte europeia.2
Tendo como pensamento uma apressada análise de dados estatísticos, a Rússia era um vasto território, com população escassa e mal distribuída, o que propiciava a disponibilização de grandes terras virgens para a prática da agricultura. O fato é que, embora o país realmente pudesse fornecer terras abundantes para a prática da agricultura ou criação de gado, a maioria das pessoas, ainda sob o jugo de leis feudais, vivia em uma pobreza endêmica. Entretanto como a fome era um tabu e passível de punição ao investigador mais incauto, o que as frias estatísticas demonstravam não era a realidade vivida por boa parte do campesinato.
Essa massa de servos tinha uma relação de completa subserviência aos proprietários de terras, sendo que a forma de contato entre essas duas classes sociais dava-se na chamada
organização das terras comunais ou 3 mir .
Outro dado importante é que em 1861, com o fim da servidão, as terras comunais seriam extintas e se ampliaria a possibilidade de surgimento de um mercado de compra e venda da terra.
No caso da burguesia e do proletariado, percebe-se ainda a pequena presença de ambos, sendo que no caso dos trabalhadores urbanos, apenas no final do século XIX, com a expansão da indústria, a presença deles despertou algum interesse aos intelectuais russos. Deste fato se depreende que, até 1861, uma parte da sociedade russa se organizava de forma medieval, com grande presença de terras comunais; e que a burguesia, ainda econômica e politicamente fraca, não convencia os outros estratos sociais com um discurso pautado na individualidade. Logo, as classes sociais mais abastadas na Rússia (nobreza, grandes proprietários rurais) são a que pautariam as críticas ao modelo britânico de evolução, que em terras russas chegaria pouco após o fim da servidão (1861).
Ao negarem a presença de um discurso liberal, a nobreza e os grandes proprietários de terras (às vezes se confundiam como um mesmo agrupamento) se incomodaram com os ideias evolucionistas, pois estes poderiam destruir algumas características marcantes dos povos eslavos (como a sociabilidade comunal), promovendo, em um futuro próximo, a desagregação da sociedade russa.
Um fator histórico de relevância nesse período foi o fim da servidão em 1861. Esse processo, além da extinção das terras comunais e a capitalização do campo, possibilitou o surgimento de uma intelectualidade crítica aos pressupostos defendidos por um grupo acadêmico ligado ao poder nobiliárquico.
Intelectuais do porte de Pisarev, Chernyshevski, Pavlov, entre outros, perceberam que as teorias científicas debatidas na Europa ocidental dariam subsídios a uma crítica sistemática contra a influência que a religião, a saber, ortodoxa, tinha sobre a sociedade. Nesse sentido, alguns intelectuais progressistas não viam a chegada das ideias evolucionistas da mesma forma que os que defendiam abertamente o regime. Ao se apropriarem do discurso darwinista, esses cientistas percebiam que a defesa desses ideais abastecia com bastante combustível uma crítica ao regime totalitário existente.
Interessante perceber que, se em relação à Darwin havia certa dualidade de pensamento por parte da intelectualidade russa, no caso de Malthus, uma das principais influências no pensamento do naturalista britânico, a receptividade não era a mesma. Até meados da década de 1860, tanto socialistas quanto conservadores condenavam as ideias malthusianas, visto que elas não expressavam a realidade de países com grande território e escassa população.
Para os primeiros, as ideias de Malthus promoviam um espírito social capitalista, em que predominava a competição pela sobrevivência, apontando a sobreposição das camadas mais ricas da sociedade sobre um enorme campesinato como algo naturalizado. No caso dos conservadores, as críticas recaíam em um aspecto totalmente diferente: defender as ideias de Malthus era apoiar implicitamente um projeto nacional inglês, o que enfraqueceria o modelo expansionista da Rússia. Além desses agrupamentos, a própria Igreja nacional, a Igreja Ortodoxa Russa, condenava Malthus por associá-lo a um discurso herético.
Quando a presença das ideias malthusianas no pensamento darwinista de alguns intelectuais russos começou a ser aceita (pós-1861, ano do fim da servidão russa), ela serviu também para propiciar uma visão da sociedade baseada na extrema competição, na qual as classes sociais se enquadrariam em um esquema baseado na luta pela sobrevivência.
Para um deles, Bibikov, a partir das ideias de Malthus se poderia compreender por que existe uma luta entre as classes sociais, sendo que as mais ricas sempre se sobrepunham as mais pobres. Como aponta Todes (1989, p.34, tradução nossa):
Quanto mais intensamente os capitalistas oprimirem os trabalhadores, menos os trabalhadores competirão entre si – e então menos eles produzirão. Se essa opressão for relaxada, trabalhadores competirão mais ferozmente entre eles e isso levará a um maior bem-estar. Igualmente, se fatores externos inibirem a acumulação do capital, ela ficará relaxada – Bibikov listava como fatores externos “instituições políticas, luxúrias, vaidade, extravagância, ambição, avareza” – isso intensificaria a luta entre
os capitalistas e então aceleraria a acumulação de riquezas.4
Nesse esquema proposto percebe-se que, dependendo da intensidade dessa opressão de classe, a acumulação de capital aumentaria ou não. E que as lutas intra e interclasse, mais os fatores externos, seriam as molas propulsoras do desenvolvimento da economia.
Algo que chama atenção e que merece uma menção é que, embora ainda ligado aos aspectos naturais, já aparecia em meados do século XIX um pensamento científico que procurava analisar as transformações que a Rússia passava a partir de um prisma de luta de classes. Não nos cabe aqui aprofundar esse debate visto que nosso estrito interesse é compreender de que forma as ideias de Darwin chegaram à Rússia. Entretanto, é fato que um dos principais teóricos do marxismo russo, G. Plekhanov, esteve bastante
influenciado pelas ideias de Darwin;5 tanto que procurou justificar as propostas marxistas a partir das considerações do naturalista inglês, como se os pressupostos darwinistas, e quiçá de Malthus,
contribuíssem para uma maior cientificidade às análises marxistas.6 Em um dado momento de suas análises Plekhanov vai afirmar que
As características do ambiente natural externo determinam o caráter da atividade produtiva do homem. Os meios de produção determinam (em contrapartida) as relações mutuais das pessoas no processo de produção….e é a inter-relação das pessoas nos processo de produção que determina toda a estrutura da sociedade. Por esta razão, a influência do meio natural sobre essa estrutura é inegável. (PLEKHANOV apud
BASSIN, 1992, p.7)7
Os processos econômicos estão intrinsecamente ligados aos processos naturais. Logo, em um pais de grande extensão continental e de escasso povoamento, a luta pelo desenvolvimento capitalista deveria se pautar na transformação dos processos condicionados pelo ambiente natural. Nesse sentido, apoiar as comunidades rurais de estilo comunalista, tão presentes na Rússia, era admitir que o socialismo pudesse ser constituído a partir de um condicionamento da natureza. E isso ia contra os ditames marxistas.
Então a primazia do capitalismo na Rússia, com o fim da servidão e das terras comunais (e um ataque à organização comunalista dos camponeses) era um passo decisivo para que a Rússia se transformasse em uma potência capitalista, propiciando o surgimento de um forte proletariado capaz de posteriormente impor sua dinâmica social e econômica. Interessante perceber que nesse período (pós-1861) tanto os intelectuais marxistas quanto os conservadores se utilizam das ideias darwinistas para uma melhor compreensão do processo de formação capitalista da Rússia.
Contrários a essas afirmações estavam os socialistas que naquele momento conviviam mais próximos das comunidades constituídas em mir. Eram conhecidos como populistas e posteriormente formaram o que ficou conhecido como Partido Socialista Revolucionário. Embora socialistas, os populistas russos repugnavam as análises marxistas, vistas como a supremacia do mundo urbano cruel sobre a pura e romântica sociedade camponesa. Ao contrário dos marxistas, que acreditavam em um processo cheio de etapas para a conquista da revolução socialista, para os populistas a própria realidade campesina, seja do cotidiano massacrante ou das formas comunais de sociabilidade, já seria ingrediente suficiente para pensar na chegada de um sistema social mais igualitário.
Ao acreditarem em uma tendência natural dos camponeses serem socialistas, já que viviam cotidianamente em comunas, criticavam aqueles que imaginavam o socialismo como uma ideologia que surgiria a partir das transformações do capitalismo. Concordavam com a libertação dos servos ocorrida em 1861, mas ficaram apreensivos quando perceberam que, junto a esse movimento de libertação, os proprietários de terra estavam tornando-se capitalistas e que a lógica do capital estava transformando radicalmente as
relações no campo. 8 E nesse processo contraditório de superação econômica e social, Darwin surgia para os populistas como um autor importante para compreender as mudanças democráticas, mas eles se incomodavam com a utilização de suas ideias para a defesa de uma competição desmesurada. É o que vemos em um trecho do ensaio de um populista russo chamado Mikhailovski, com o título Sobre o caráter democrático das ciências naturais (1875): “Darwinismo, por exemplo, é um princípio democrático contanto que direta ou indiretamente destrua os princípios feudais que ainda sobrevivem. Mas não é ‘democrático na essência’, mas em uma mais arguta e definida maneira ele compreende a desigualdade e a luta na sociedade como o mote de sua doutrina político-moral”
(Mikhailovski apud Todes, 1989, p.15).9
Como forma de apontar uma nova dinâmica natural para o surgimento e a diversidade das espécies, os populistas inserem na discussão sobre a luta pela existência darwinista alguns aspectos que possuem claramente um apelo mais social.
Entre esses populistas que condenam a visão predominante do darwinismo e apontam o socialismo como a única forma plausível de organização da natureza, temos P. L. Lavrov. Apontando um pouco da discussão que Kropotkin faria na sua obra Apoio mútuo, Lavrov tenta inserir em seu ensaio um debate socialista sobre a lógica individualista existente nas proposições darwinistas.
Além dos socialistas populistas e os marxistas, mas, ao contrário destes últimos, fortemente influenciados pelas ideias antiautoritárias, temos também intelectuais que condenaram as ideias malthusianas e a sua aplicação na teoria da evolução. Entre os principais poderíamos citar o geógrafo e anarquista Metchinikof e o escritor mundialmente conhecido Liev Tolstoi. Adepto das ideias de Mikhail Bakunin, Metchinikof escreveu importantes trabalhos sobre o processo de colonização na Austrália e na América, como também apresentou o processo de formação civilizatório por meio dos grandes rios (Nilo, Tigre e Eufrates etc.). Além disso, diferenciava essas civilizações daquelas que se constituíram nas regiões litorâneas, onde o fluxo intenso de trocas comerciais selaria a formação de uma sociedade mais diversificada.
Ao estudar Darwin, Metchinikof propôs que houvesse um uso diferenciado dessas ideias tanto pela Sociologia e quanto pela Biologia (algo raro entre a intelectualidade desse período, que
utilizava as mesmas ideias em ciências diversas), 10 atacando os argumentos malthusianos presentes na obra do naturalista inglês.
Para Tolstoi, importante dramaturgo do século XIX e até hoje um dos principais expoentes da literatura mundial, foi o seu processo de conversão a um cristianismo não institucionalizado, levando-o a ser excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, o principal fator delimitador da propagação das ideias mais coletivistas. Essa dinâmica de autoconhecimento fez surgir nele outra personalidade, muito mais preocupada com as questões sociais, a liberdade individual, o respeito às culturas mais afastadas do grande centro, e, principalmente, um total envolvimento com as práticas sociais dos mujiques (camponeses russos).
Em algumas de suas obras, como Confissão (1882) e O reino de Deus está dentro de vós (1894), Tolstoi procura criticar as mazelas da sociedade czarista existente, mas também questiona a chegada do capitalismo na Rússia com o fim da servidão. No caso específico da obra de 1894, embora o título possa sugerir um conteúdo religioso, é notória a preocupação do escritor russo em questionar os valores sociais apresentados pelo capitalismo (competição, busca pelo lucro), demonstrando uma grande incoerência dos cristãos ao defenderem práticas individualistas (cara ao capitalismo industrial ocidental) quase sem apoio no Novo Testamento cristão.
Para Tolstoi não há nenhuma possibilidade de ser defensor do livre mercado e da competição e propagandear propostas cristãs defendidas por Jesus Cristo no Sermão da Montanha, como a solidariedade entre os homens, entre estes e os animais. É por isso que, quando as ideias de Malthus chegam à Rússia, ele será um dos maiores críticos, mostrando a incongruência de uma doutrina supostamente defendida por um divulgador das ideias cristãs (lembre-se que Malthus era pároco), mas quase que totalmente baseada em uma competição sanguinária. Tolstoi não compreende por que uma teoria tão mal formulada conseguiu ganhar adeptos e chegar ao ponto de ser um dos subsídios da teoria da evolução.
Crítico contumaz dessas ideias que sustentam a luta pela sobrevivência, Tolstoi também vai atacar Darwin por meio de algumas de suas obras, caso de Anna Karenina, na qual o principal personagem, Levin, criticaria as consequências morais dessa visão (Todes, 1989).
Como estamos vendo, vários autores de matrizes diferentes e às vezes antagônicas, questionaram a presença de uma visão claramente ocidental e defensora de valores capitalistas. Os representantes de diversas tendências (conservadoras, populistas, libertárias) críticas ao darwinismo já propunham outra maneira de compreender a evolução das espécies, ainda que com pouca discussão na academia. Entretanto, na segunda metade do século XIX, elas ganharam uma maior ressonância quando foram sistematizadas por um importante zoólogo russo, que posteriormente seria também reitor da universidade de San Petersburg: Karl Kessler.
A partir de Kessler, surgiria uma plêiade de cientistas russos defendendo a nova visão, muito mais próxima de uma sociabilidade eslava e que se contrapunha ao modelo individualista britânico. Se Kessler sistematizou as ideias acerca do apoio mútuo em um corpo científico, foi Kropotkin que tentou demonstrá-la a partir também de suas implicações políticas.
Karl Kessler e Piort Kropotkin: a
estruturação científica das teorias do
apoio mútuo no final do século XIX
Como vimos as ideias darwinistas tiveram grande curiosidade quando adentraram o solo russo, promovendo importantes debates na sociedade czarista. Junto com a extinção do trabalho servil, é fato que essas ideias tornaram-se para alguns intelectuais um mecanismo de combate ao regime totalitário existente.
Embora estando em lado opostos quando enquadramo-los dentro de um espectro político, vários pensadores, ao criticarem a proposta darwinista, vislumbravam outra maneira de se compreender a evolução das espécies. No lugar do mote da luta pela sobrevivência, defendiam que as mudanças pelos quais os seres vivos (incluindo o homem) passavam não derivavam, única e exclusivamente, da competição.
Construído a partir do entendimento das condições climatobotânicas da Rússia, o que explicaria os motivos pelos quais várias populações viviam de forma comunal nas regiões mais setentrionais deste imenso território, alguns intelectuais eslavos começaram a propor uma ideia muito particular.
Propostas baseadas em um auxílio entra e interespécie começam a ganhar forma e força, combatendo ativamente o darwinismo que consideravam uma intromissão britânica sobre as questões russas. Entre àqueles que conseguiram dar uma forma mais consistente a essas ideias, dois se tornariam figuras de suma importância no debate sobre a evolução das espécies: Karl Kessler e Piotr Kropotkin.
Karl Fedorovych Kessler11 nasceu na mesma cidade de Imanuel Kant (Konigsberg), que no início do século XIX estava sob a administração da Prússia Oriental e, hoje, após os acordos realizados no fim da Segunda Guerra Mundial, pertence à Rússia, com o nome de Kaliningrado.
Embora natural da Prússia, Kessler, em tenra idade, mudou-se para o Império Russo, especificamente a província de Novgorod, visto que seu pai aceitou um posto de Guarda Florestal. Até os 25 anos (1840), ele se interessou por matemática e adentrou a Universidade de São Petersburgo participando anonimamente de um círculo literário. Em 1840, voltou-se à zoologia, apresentando uma dissertação de mestrado sobre pássaros. Em 1842, defendeu uma tese de doutorado sobre o esqueleto do pica-pau, tornando-se professor na Universidade de Kiev, quando então sairia apenas no início da década de 1860.
Nesse período que ministrou aulas na Universidade de Kiev, Kessler realizou inúmeras viagens a fim de conhecer melhor os peixes das regiões da Bessarábia e do Mar Negro, como também se preocupou em observar as migrações de pássaros na Ucrânia. Em 1845 realiza uma viagem de quatro meses pela Europa Ocidental visitando várias cidades como Viena e Munique e contatando importantes naturalistas, como Ernst Haeckel, posteriormente considerado o “pai” da ecologia, e Auguste de Saint-Hilllaire, botânico e viajante que na década de 1820 tinha passado pelo Brasil.
Como professor da Universidade de Kiev incentivou que a comunidade científica russa realizasse constantes colóquios e seminários, como forma de promover uma maior aproximação do país eslavo com a ciência realizada na Europa ocidental.
Em 1861, substituiu seu colega de pesquisa na Universidade de São Petersburgo, servindo como reitor desta instituição entre 1867 e 1873. O fato de ter sido professor e posteriormente reitor de uma das mais prestigiadas universidades russas trouxe à Kessler uma grande projeção nacional, fazendo com que a sua fala “On the Law of Mutual Aid” (Sobre a lei do apoio mútuo), realizada em 1879, fosse muito concorrida e gerasse grande interesse. Infelizmente, ele não pode prosseguir com esses estudos acerca do apoio mútuo, já que faleceu apenas dois anos após a conferência.
Interessante observar que Kessler seria o primeiro cientista a defender o apoio mútuo como uma lei natural, muito diferente dos intelectuais anteriores ainda baseados nos aspectos culturais da Rússia czarista. Para Todes (1989, p.104, tradução nossa) Kessler se alinhava à uma posição política de centro e que sua teoria apontava como principais argumentos:
(1) O principal aspecto da luta pela existência é a luta de um organismo contra as circunstâncias físicas (ou, menos frequentemente, com membros de outras espécies); (2) os organismos juntam as forças para constituir uma luta mais eficaz, e assim a ajuda mútua é favorecida pela seleção natural; (3) porque é a cooperação e não a competição que domina as relações intraespécies, as análises darwinistas-malthusianas dessas relações são falsas; e (4) o apoio mútuo enfraquece de tal forma os conflitos intraespécies que não pode ser a principal causa da divergência
de caracteres e a origem de novas espécies.12
A princípio percebemos que a preocupação de Kessler não é negar, pura e simplesmente a competição como fator de evolução das espécies. Ela ocorre geralmente entre os indivíduos que são colocados em condições de sobrevivência idênticas e que requerem igualmente a mesma alimentação. Ao pontuar isso, Kessler demonstra que o principal aspecto determinante na variabilidade das espécies, ou seja, a competição, é maior ou menor dependendo das condições ambientais a que esses organismos estão sujeitos.
A grande questão levantada pelo zoólogo russo é que a competição é secundária no processo da evolução das espécies, bem como seu caráter sanguinário. E, ao dar uma importância à competição quase que total ao processo evolutivo, Darwin e seus defensores se esqueceram de demonstrar a existência de outra lei que age sobre os seres vivos: a lei do apoio mútuo. Essa lei atua entre os indivíduos de uma mesma espécie, permitindo que a união facilite uma batalha destes contra as outras espécies.
Ao dar exemplos de como Kessler discute como a lei do apoio mútuo age, Todes (1989, p.111, tradução nossa) diz que “ele relembrou um momento no qual uma pata e sua prole foram ameaçadas por caçadores. A pata fugiu, aparentemente abandonando seus filhotes sem qualquer defesa, mas logo retornou com um pato. Enquanto o pato distraía os caçadores, a pata levou
sua prole para um local seguro”.13 Para Kessler, em alguns momentos, existe a cooperação entre os indivíduos da mesma espécie, que instintivamente procuram o auxílio comum para conseguir ter mais chance de sobrevivência. Esse fato corriqueiro, às vezes, aparece obliterado pela luta entre os animais. Logo, em uma luta entre leões e búfalos, tão comuns nos parques nacionais africanos, o que apenas aparece é o inevitável ataque das leoas aos búfalos, a querela sangrenta e por fim a morte de um dos indivíduos. Pouco se fala que a principal estratégia de ambos é reforçar uma união entre os pares, com o intuito de conseguir, no caso das leoas, caçar, e no dos búfalos, fugirem em segurança. Se cada membro da espécie resolvesse isso de forma individual, a probabilidade de conseguir o objetivo seria mínima.
Não é à toa que Kessler (apud Todes, 1989, p.112, tradução nossa) afirmava que “não rejeito a luta pela existência, mas somente afirmo que o desenvolvimento progressivo de todo reino animal e especialmente da espécie humana não é facilitado pela luta
recíproca tanto quanto pelo apoio mútuo”.14 Embora, nesse trecho, não admita a supremacia de uma lei sobre a outra, o fato é que, ao analisar apenas a evolução humana, Kessler aponta que a lei do apoio mútuo teve um papel muito superior ao da luta pela sobrevivência. Em alguns momentos, a ideia do apoio mútuo se sobrepõe e em outros não. Entretanto, nunca aparece a luta pela sobrevivência como um fator único ou principal da evolução das espécies.
Procurando afirmar o apoio mútuo como uma lei natural, Kessler avança nos debates então existentes. Não se trata de demonstrar uma particularidade do solo ou da população russa, mas sim que a teoria da evolução darwinista não pode ser vista como algo definitivo, mas uma entre outras perspectivas científicas que explicam as transformações pelas quais passaram os vários organismos existentes no planeta.
O que causa espécie é por qual motivo essa teoria ou lei, como encarava Kessler, ficou praticamente esquecida nos meios científicos; e, se alguma projeção teve na sociedade, deveu-se, principalmente, as análises de Kropotkin e a sua aplicação nas formulações que levaram a constituição daquilo que chamou-se de anarcocomunismo. Um dos motivos desse esquecimento pode ser a própria dificuldade do autor em debater com maior propriedade a relação entre a luta pela sobrevivência e o apoio mútuo, fazendo com que Todes (1989), um dos seus principais divulgadores na atualidade, refira-se ao debate como inconsistente.
Não podemos também negar que, ao defender uma lei evolutiva calcada na solidariedade e não na competição, Kessler acabou se contrapondo a todo um modelo científico que, de alguma forma, compreendia a sociedade capitalista como algo naturalizado. E, levando-se em consideração que, após a morte dele, o maior divulgador dessa teoria seria um anarquista, podemos supor que as incongruências apontadas por Todes (1989) não foram os principais motivos desse quase que total abandono pela academia científica.
No caso de Kropotkin, o seu alinhamento político com o anarquismo leva-o a discutir as várias questões trazidas pelos intelectuais russos a partir de um prisma bem particular, visto que a sua intenção era de “ajustar” as ideias ácratas ao debate científico.
Se para Charles Darwin, um jovem naturalista de 22 anos, a experiência ocorrida a bordo do HMS Beagle foi determinante para a formulação de sua teoria acerca da evolução das espécies, no caso de Piotr Kropotkin, o marco que definiu o seu interesse nas ciências naturais e humanas foi sua viagem à Sibéria com apenas 19 anos. E foi como um jovem chefe militar, encarregado de dirigir as pesquisas cartográficas para um melhor mapeamento dessa grande área, que iniciou uma viagem às regiões mais inóspitas do Império Russo, o que posteriormente lhe dariam importantes subsídios a teorização sobre o apoio mútuo.
A pesquisa de campo vai lentamente demonstrando ao jovem militar que algumas das crenças difundidas nos meios nobres não passavam de mistificações religiosas e que o mundo que se abria a ele estava ancorado em outras hipóteses. Nesse período de intensa pesquisa de campo (que durou aproximadamente quatro anos), Kropotkin teve um interlocutor de peso nas suas descobertas: Alexander, seu irmão mais favorito e que estava na universidade.
Por meio das cartas que seu irmão enviava, Kropotkin ia tomando contato com as novidades acadêmicas, as questões políticas mais relevantes e principalmente, teve conhecimento da publicação do livro de Darwin, A origem das espécies. Em uma das inúmeras cartas que mandou ao seu irmão, Kropotkin demonstrava uma grande influência das ideias darwinistas, apontando a terrível luta pela sobrevivência que os animais tinham que travar contra um clima gélido e rajadas de vento que passavam dos 100 km/h. Entretanto essa impressão foi se esvanecendo e, principalmente, quando começou a travar um maior contato com as populações humanas e animais que viviam nessa região, o geógrafo russo começou a questionar a validade dessa teoria para as planícies geladas da Sibéria.
Essa crítica aos postulados científicos darwinistas deveu-se em grande medida a sua amizade com o zoólogo russo Poliakov, que o acompanhava nas pesquisas de campo empreendidas para o conhecimento mais sistemático dessa região. Como o próprio Kropotkin (apud Woodcock; Avakumovic, 1978, p.79, tradução nossa) afirma:
Recordo a impressão que me produziu a fauna siberiana quando explorei as regiões de Vitim em companhia de um zoólogo tão competente quanto o meu amigo Poliakov. Ambos estávamos impressionados pela nossa recente leitura de A origem das espécies, mas buscávamos em vão a tão falada competição entre os animais da mesma espécie que a leitura da
obra de Darwin nos havia predispostos a encontrar… Vimos muitos casos de adaptação à luta, muito comum, contra as circunstâncias adversas do clima ou contra diversos inimigos, e Poliakov escreveu mais de uma boa
página sobre a dependência mútua.15
Nesse excerto, percebemos que já se inicia uma desilusão de Kropotkin com algumas asseverações de Darwin.
Na Sibéria a prevalência da cooperação entre os indivíduos pode significar das poucas estratégias de sobrevivência do reino animal. A luta pela sobrevivência, base do pensamento darwinista, aparentemente não possui muita visibilidade nas planícies siberianas. Ela tem grande fundamento nas regiões tropicais, onde o clima mais ameno e a grande abundância de alimentos permitem uma maior adaptação, e assim os mais fortes tendem a se perpetuar
geneticamente.16 Será essa forma de compreender a evolução das espécies que Kropotkin levará para a Europa Ocidental, e que, a partir de vários de seus artigos, passará a ser de conhecimento científico.
Para o geógrafo russo, uma das principais críticas realizadas contra o trabalho seminal de Darwin tinha como referência a presença marcante das ideias malthusianas, o que dificultava a visualização de qualquer traço de solidariedade na Natureza. Não significa que Kropotkin negasse totalmente qualquer espécie de luta na natureza. Pelo contrário, o geógrafo russo compreendia que a luta pela sobrevivência era um fato consumado quando se analisava a competição entre espécies diferentes. Entretanto, questionava-a, pois, para ele, quando uma espécie animal procurava sobreviver em um ambiente hostil, a cooperação era a estratégia mais comum de se opor às intempéries, e não a competição.
Apontar que a cooperação prevalecia sobre a competição, como vimos, era uma proposta muito difundida nos ambientes científicos russos, e Kessler influenciou uma geração de intelectuais, caso de Kropotkin.
Interessante anotar que o próprio Darwin discutiu a cooperação entre os animais, mas diferente de Kessler e Kropotkin não achava-a superior à luta pela sobrevivência como um fator na evolução das espécies. Em uma passagem em A origem das espécies, em que vai discutir a expressão da luta pela sobrevivência em um sentido mais largo, diz: “A erva-de-passarinho depende da macieira e de outras árvores para sobreviver; no entanto, apenas em sentido figurado se poderia dizer que ela luta pela sobrevivência com essas árvores, uma vez que, se muitos parasitas crescerem no mesmo tronco, a árvore que os abriga vai definhar até morrer” (Darwin, 2014, p.92). Embora não usasse um termo mais apropriado para descrever a solidariedade entre os seres vivos, fica patente nesse pequeno comentário que a luta pela sobrevivência ocorre, neste caso específico, tendo a cooperação como ponto-chave. Então, no que a visão de Kropotkin sobre a evolução das espécies difere das anteriores? Creio que pela sua opção política ao anarquismo e, posteriormente, por ser ele um dos principais ideólogos do anarcocomunismo.
Isso fica evidente quando analisamos alguns trabalhos do autor a partir da década de 1880, quando a defesa de uma sociedade baseada na livre organização, no federalismo e na igual repartição das riquezas começa a se tornar rotina nos seus escritos políticos. Um dos principais textos desse período, A conquista do pão, de 1888, é um exemplo dessa guinada de Kropotkin para aquilo que se convencionou chamar de comunismo libertário.
Embora chegasse ao anarquismo pelas leituras que realizou, primeiro de Proudhon e depois de Bakunin, é fato que a sua postura comunista iria ser o grande diferencial.
Em um de seus artigos, intitulado O salário coletivista, Kropotkin demonstra uma série de críticas ao coletivismo, anarquista ou não. Questionando um dos motes defendidos pelos militantes coletivistas, diz o geógrafo russo:
“A cada um segundo o seu trabalho”, dizem os coletivistas, ou, noutros termos, conforme a sua contribuição dos serviços prestados à sociedade. E este princípio recomendam-no para ser posto em prática desde que a revolução torne comuns os instrumentos de trabalho e tudo o que é necessário para a produção!
Pois bem, se a Revolução social tivesse a desgraça de proclamar este princípio, seria travar o desenvolvimento da sociedade; seria abandonar, sem o resolver, o imenso problema social que os séculos passados nos legaram. (Kropotkin, 1975, p.209)
Para ele, não é possível construirmos uma nova sociedade se permanecem ainda os valores da antiga. Manter o trabalho remunerado baseado em uma suposta dedicação à sociedade significaria destruir o ímpeto revolucionário em nome de uma improvável justiça social.
Mesmo quando analisa a Comuna de Paris, vista por quase todos os socialistas como um movimento social e revolucionário mítico, Kropotkin ataca o aumento dos salários dirigido a algumas categorias (caso dos professores, por exemplo) como um dos
motivos da própria dissolução da empreitada operária.17
O comunismo, para ele, basear-se-ia em uma abolição dos salários e da moeda. Nenhuma distinção de valor ocorreria entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Mais ainda, as pessoas viveriam em comunidades autogestionárias, em propriedades coletivas realizando trocas comerciais sem lucro, demonstrando na prática social que as maiores conquistas que a humanidade realizou só foram possíveis graças ao empenho coletivo e não ao mérito de algum indivíduo.
Essa sociedade comunista não seria mais dividida em classes, status ou quaisquer outras formas de hierarquia. Seria uma sociedade voltada para o bem comum no qual todos trabalhariam pensando não mais nos bens materiais que pudessem acumular (como ocorre no capitalismo).
Como ele próprio adianta:
Suponha-se uma sociedade compreendendo muitos milhões de habitantes dedicados à agricultura e a outras indústrias várias, Paris, por exemplo, com o departamento de Sena-e-Olse. Suponha-se que nesta sociedade todas as crianças aprendem a trabalhar não só com os cérebros mas também com os braços. […] Uma tal sociedade poderia garantir a todos os seus membros o bem-estar, isto é, um conjunto de comodidades e confortos mais estáveis e mais completos do que aqueles de que a burguesia hoje desfruta. (ibidem, p.126)
Se essas ideias conseguiriam se efetivar não cabe aqui na nossa discussão. Com certeza, malogros ocorreram, e a crença numa certa bondade do ser humano pode ser vista como exagerada,
inclusive.18 O que vemos nessas palavras é que, se todos trabalharem, os frutos do trabalho gerariam um bem-estar geral e não só para uma minoria, como ocorre hoje.
Se pudermos apontar um lugar onde as ideias de Kropotkin (mas não só) foram colocadas em prática, não temos dúvidas em afirmar que isso ocorreu na Espanha no período da guerra civil (1936-1939). Dentro de um movimento de luta contra o fascismo que se aproximava continuamente da Catalunha, da Andaluzia, de Aragão e de partes do Levante, práticas sociais autogestionárias foram constituídas, seja no campo ou nas cidades. Elas se desenvolviam baseadas no apoio mútuo, na expropriação de propriedades, no trabalho cooperativo e na autogestão do trabalho; ou seja, princípios que eram defendidos por Kropotkin desde o século XIX.
O importante aqui é compreender que essas ideias anarcocomunistas defendidas por ele tornaram-se, nas últimas décadas do século XIX, os principais referenciais anarquistas, e o geógrafo russo seria alçado ao papel de um dos principais interlocutores deste movimento.
O fato que se vislumbra a partir dessas constatações acerca do pensamento kropotkiniano é que uma visão de natureza e homem
aparece nos seus principais escritos.19 E, nesse sentido, sua postura tem bastante semelhança com aquelas defendidas por Godwin em fins do século XVIII, nas quais o homem nasce bom e mal e as instituições políticas existentes têm um papel deletério em acentuar um dos lados. Logo, a mudança das instituições políticas por outras formas de organização menos centralizadas, propiciaria a constituição de um homem não mais voltado aos interesses egoístas, mesquinhos, fruto de uma organização social baseada na propriedade privada.
Os valores defendidos no anarcocomunismo de Kropotkin não se baseiam em ilações sobre como seria o ser humano em um futuro utópico. Ele procura demonstrar, a partir de fatos históricos, como essa presença mais comunal sempre fez parte da vida em sociedade, e que só recentemente, com o advento do Estado (principalmente após a Idade Média) e do capital (séculos XVI e XVII), é que foram subsumidas.
Ao defender a ideia do apoio mútuo como fator de evolução das espécies, Kropotkin demonstra que traços de vida em comunhão estão presentes também na organização dos vários seres vivos. A evolução das espécies compreendida por Darwin segundo o mote da sobrevivência do mais capaz, e defendida de forma veemente por um dos seus maiores discípulos T. Huxley, obrigaria Kropotkin a criticar essa postura a partir de suas crenças políticas.
Não se trata, pura e simplesmente, de achar que Kropotkin procurou inserir discussões anarcocomunistas em um debate científico, por exemplo ao estudar formigas, abelhas, aves, mamíferos etc. Mas sim que ele encontrava tanto nos reinos animal e vegetal, bem como na organização societária humana, traços de uma lógica comunalista e não apenas os aspectos de insolidariedade tão defendidos por aqueles que posteriormente dariam possibilidade ao surgimento do que se chamaria darwinismo
social.20
De certa maneira, vai aparecer, em meados da década de 1880, duas fortes tendências científicas com postulados políticos bem definidos: de um lado, a defesa intransigente da luta pela sobrevivência e a presença dela na sociedade industrial, caso de Thomas Henry Huxley; e de outro, argumentando que tanto na vida animal quanto na humana predomina o apoio mútuo, acentuando os vários aspectos comunistas presentes, está a tese defendida por Piotr Kropotkin.
Então se, para Karl Kessler, como vimos, a questão política não era tão relevante nos debates científicos, para Kropotkin, vivenciando uma época de gestação de políticas segregacionistas e preconceituosas, era necessário contrapor-se ao mainstream científico, dominado por essas ideias, com uma postura social divergente.
O apoio mútuo deixa de ser apenas uma teoria científica e passa a ser também, nas palavras de Kropotkin, o carro-chefe de um debate anticapitalista. E na conclusão de uma de suas obras, quando demonstra a presença marcante dessa teoria na organização de todos os seres vivos, Kropotkin vai afirmar que:
As espécies animais nas quais a luta individual foi reduzida a seus limites mais estreitos e nas quais a prática do apoio mútuo atingiu seu maior desenvolvimento são invariavelmente as mais numerosas e as que têm mais condições de progredir. A proteção mútua obtida nesse caso, a
possibilidade de atingir idade avançada e de acumular experiência, o desenvolvimento intelectual mais elevado e a nova soma de hábitos sociais garantem a manutenção dessas espécies, sua extensão e evolução contínuas. As espécies não sociais estão, ao contrário, condenadas à decadência. (idem, 2012, p.237)
Enquanto, para Huxley, a competição, como lei natural dos seres vivos, propiciaria uma evolução constante das sociedades animais e humanas, já que os mais capazes ou os mais fortes vingariam, e os mais fracos e débeis pereceriam, para Kropotkin, ao contrário, seria a comunhão dos indivíduos que traria um maior avanço.
Compreendemos que as ideias de Kropotkin não foram adiante e ficaram restritas, praticamente, aos ambientes socialistas. E, nos dias atuais, a competição é vista como um dado natural na sociedade, não uma estratégia de organização ligada aos setores mais ricos, como argumentava Kropotkin. Importante até aqui é perceber de que forma as ideias defendidas pelo geógrafo russo foram ganhando visibilidade nos meios científicos do século XIX, e como se contrapunham a um modelo científico quase todo calcado na sobrevivência como uma guerra infernal.
Embora, como vimos, vários os intelectuais tenham discutido essa problemática, o fato dela ter estado atrelada por muito tempo aos pequenos círculos socialistas fez de Kropotkin o seu maior divulgador.
Ao iniciarmos um debate sobre a postura científica e política de Kropotkin a respeito do apoio mútuo, percebemos as contribuições que o geógrafo russo agregou a uma prática científica quase que toda ela ainda centrada nas regiões geográficas dominadas pelos povos eslavos. Exilado por suas convicções políticas e sociais, Kropotkin, por meio dessas ideias, procurou dialogar com e criticar os postulados darwinistas presentes na Europa Ocidental. E seus debates foram uma prova de fogo tanto para a luta pela sobrevivência quanto para o apoio mútuo. Por isso, passamos agora a entender melhor essas querelas científicas e as influências que elas terão sobre o mundo acadêmico e/ou político do final do século XIX e início do século XX.