Geografia e Ensino: Dimensões Teóricas e Práticas para a Sala de Aula

Relato de uma pesquisa de campo qualitativa segundo os propósitos da geografia humanista

Relato de uma pesquisa de

 

campo qualitativa segundo os

 

propósitos da geografia

 

humanista

 

Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti

 

Introdução

 

Este texto tem como objetivo principal relatar uma experiência em uma pesquisa de campo do tipo qualitativa, com abordagem em Geografia Humanista. Portanto, esclarecemos que se refere ao relato de uma experiência em uma pesquisa de campo e não à apresentação/discussão de dados/informações colhidos em campo.

A pesquisa de campo foi feita no município de Itacaré, sul do estado da Bahia, com o objetivo de colher informações diretamente de pessoas que têm alguma relação com o principal elemento hídrico da região, o rio das Contas, já que sua presença sempre foi de fundamental importância para a existência da vida humana no lugar.

A linha de pensamento da Geografia Humanista é muito apropriada para este tipo de pesquisa, pois se caracteriza, principalmente, pela valorização das relações de afetividade desenvolvidas pelos indivíduos atinentes ao seu ambiente, ou seja, na subjetividade humana é que se encontram as interpretações para suas atitudes perante o mundo (MELLO, 1990; HOLZER, 1993; 1997).

Para se fazer Geografia Humanista, no entanto, é preciso uma escolha consciente, com paixão, com encantamento, pois, conforme Gratão (2002, p. 24),

a Geografia Humanística não é só um ‘(per)curso alternativo’ […] ela tem

outras buscas… outros sentidos… É como seguir um novo caminho… outros

olhares… outros significados… outras paragens… outras travessias… É uma

outra viagem (grifo do autor).

 

Dentro dessa perspectiva, nessa pesquisa/viagem geográfica para compreendermos o que é o rio das Contas para as pessoas de Itacaré, buscamos os olhares de sujeitos de diversas idades e profissões que experienciam, vivenciam o rio das Contas, percebendo o significado do rio para elas, registrando suas emoções, seus sentimentos…

Vivenciar é mais do que viver, é viver com sentimento, ter relação com… se envolver, adquirir experiência, experienciar. Foi com esse desejo que fizemos nossa pesquisa de campo nas margens do rio das Contas no município de Itacaré, pois esse caminho fluvial não é somente um mero acidente geográfico, que podemos representar no mapa, ou estudar a geomorfologia fluvial ou, ainda, que temos a possibilidade de explorar como um recurso econômico. Envolvemo-nos com esse rio porque ele é muito mais do que isso, já que em todo o seu percurso carrega, simbolicamente, a existência humana com a sua infinidade de desejos, intenções, ações… (CHIAPETTI, 2010)

Os locais escolhidos para fazer a pesquisa foram a cidade de Itacaré, o distrito de Taboquinhas (localizado na margem direita do rio, a 25 quilômetros da cidade de Itacaré) e, ainda, um restaurante, duas fazendas cacaueiras e quatro Comunidades Quilombolas Rurais, todos localizados nas margens ao longo do rio, entre a

cidade e o distrito (FIGURA 1).

A partir da influência humanista, o pensar geográfico sobre um determinado lugar passa a considerar os aspectos da percepção de quem ali habita. Para tanto é necessário conhecer as relações que essas pessoas têm com o seu lugar, considerando seus significados e representações, colocando questões em torno do mundo percebido, vivido e experienciado.

O lugar, mais que o espaço, relaciona-se à existência real e à experiência vivida e, por ser repleto de significados, é visto como algo que transcende sua materialidade, mas é único, concreto e revela uma paisagem. Para Tuan (1983), lugar é um produto da experiência humana e das aspirações pessoais, sendo uma realidade que deve ser compreendida na perspectiva dos que lhe dão significado, mobilizando seu intelecto e suas emoções.

O Contas é um rio de características peculiares, pois nasce num “oásis” dentro da região semiárida baiana (serra da Tromba, oeste da Chapada Diamantina), dentro do município de Piatã e, depois de fluir perenemente por cerca de 400 km pelo sertão baiano na direção leste, penetra na área coberta pela Mata Atlântica (por mais 100 km, aproximadamente), quando suas águas se agitam em corredeiras e cachoeiras, seu leito fica muito estreito dentro de um cânion (cerca de 4 m de largura), para depois voltar a descer calmamente até o encontro com o mar na cidade de Itacaré, proporcionando imagens maravilhosas à população local e aos turistas.

FIGURA 2 – Locais da pesquisa de campo no município de

Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: CHIAPETTI (2009).

 

Segundo Chiapetti, Rita e Chiapetti, Jorge (2011, p. 88), “Como todo rio, o rio das Contas tem diversas imagens, mas a certeza da sua última imagem é chegar ao seu destino… o mar do Oceano

Atlântico!” (FIGURA 2).

FIGURA 2 – O rio das Contas no encontro com o mar em Itacaré,

sul da Bahia

 

Fonte: José Nazal Pacheco Soub.

 

O encantamento com a presença do trecho do rio das Contas dentro do município de Itacaré em área de Mata Atlântica foi, então, um dos motivos para sua escolha como lugar de pesquisa. Mas, certamente, a contribuição do rio para a ocupação humana da sua bacia hidrográfica e para o turismo regional, além da beleza das suas paisagens foram também motivos importantes quanto à opção por tal lugar.

Partindo do problema de pesquisa, ou seja, como as pessoas de Itacaré percebem o rio das Contas, definimos o objeto e o objetivo geral. Assim, definimos como objeto da nossa pesquisa a percepção do rio das Contas pelas pessoas que moram próximas a ele. E, como principal objetivo, compreender como as pessoas de Itacaré percebem o rio das Contas, pois sendo um elemento obrigatório da paisagem itacareense, sua presença está profundamente enraizada na percepção dos moradores. De acordo com essa perspectiva, podemos afirmar que a nossa pesquisa pode ser considerada peculiar quanto ao modo diferente de olhar e perceber a realidade do rio das Contas, a partir da experiência e apropriação do conhecimento dos moradores de Itacaré.

 

Trilhando o caminho da pesquisa de

 

campo nas águas do rio das Contas

 

Para trilhar o caminho da pesquisa de campo, voltamo-nos ao objeto e aos objetivos da nossa pesquisa definidos anteriormente, pois é através deles que sabemos onde queremos chegar. Portanto, nossa pesquisa se pautou em uma abordagem qualitativa, visto que queríamos obter “algo” a partir de informações de pessoas de Itacaré.

De acordo com Minayo (1994), a pesquisa de campo é o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto da investigação.

Segundo Suertegaray (2002), o trabalho de campo é um instrumento de análise geográfica que permite o reconhecimento do objeto e que, fazendo parte de um método de investigação, permite a inserção do pesquisador no movimento da sociedade como um todo.

Para Duarte (2002), uma pesquisa de campo é um relato de longa viagem empreendida por um pesquisador, cujo olhar se dirige a lugares já conhecidos por muitos, mas sempre com um modo diferente de olhar e pensar determinada realidade, a partir de uma experiência e de uma apropriação do conhecimento que são bastante pessoais.

Para Chiapetti (2010, p. 145), “Pesquisar é buscar e, portanto, pesquisar em campo é buscar respostas (em algum local) para responder às questões da pesquisa”.

Sobre pesquisas qualitativas, Bogdan e BiKlen (1994) escrevem que, ao valorizarem os aspectos descritivos e as percepções pessoais, procuram compreender os sujeitos envolvidos e, por seu intermédio, compreender, também, o contexto em que vivem. Elas lidam com valores, crenças, hábitos, atitudes, representações, significados e opiniões expressos pela linguagem comum e na vida cotidiana das pessoas. Procuram, dessa maneira, trabalhar com dados qualitativos que envolvem a descrição pormenorizada das pessoas, de locais e dos fatos envolvidos. Ao mesmo tempo, a abordagem qualitativa de pesquisa é empregada para aprofundar e compreender a complexidade dos fenômenos.

De acordo com Teixeira (2006, p. 137):

 

Na pesquisa qualitativa o pesquisador procura reduzir a distância entre a

teoria e os dados, entre o contexto e a ação, usando a lógica da análise

fenomenológica, isto é, da compreensão dos fenômenos pela sua descrição

e interpretação. As experiências pessoais do pesquisador são elementos

importantes na análise e compreensão dos fenômenos estudados.

 

Como nossa pesquisa de campo é qualitativa, optamos por ouvir as pessoas através do método da história oral, com a técnica do depoimento e, também, observar as paisagens e situações, registrando-as em fotografias. A seguir discorreremos sobre a abordagem teórica que escolhemos, como principal estratégia para a pesquisa de campo.

 

A oralidade como estratégia para

 

obter as informações na pesquisa de

 

campo

 

São muitos os métodos e as técnicas de coleta de dados em uma abordagem qualitativa de pesquisa de campo na Geografia Humanista e, entre eles, a história oral ocupa lugar de destaque. A importância da história oral está na subjetividade do sujeito que fornece, às fontes orais, elementos que nenhuma outra fonte seria capaz de dar, pode mostrar significados, simbolismos e os fatos cedem passagem à imaginação. A história oral tornase valiosa, ainda, por se colocar justamente no ponto em que se cruzam a vida individual desses sujeitos e o seu contexto social. A riqueza da pesquisa com esta metodologia está na ênfase dada e na importância atribuída aos sujeitos, construtores de seu destino, entre possibilidades e limites.

Para Whyte (1977, p. 71), a

 

Oral history is a method whereby oral evidence is taken from people who

have usually directly experienced the events they talk about or who are

relating accounts that have been personally handed down to them1.

 

A mesma autora ainda escreve que a evidência oral é muito importante para o estudo da percepção ambiental porque revela não somente os fatos da experiência e comportamento ambiental, mas, também, os sentimentos e significados para as pessoas que estão associadas a eles. Nos relatos dos próprios sujeitos sobre os eventos, acontecimentos, pessoas e lugares, eles revelam suas percepções, atitudes e valores, bem como expressam o espírito e o sentimento de realmente terem estado presentes.

Desse modo, pensar a história oral como a possibilidade de entender “o vivido” de cada sujeito, as sensações, os sentimentos, as percepções, os valores, as crenças, os referenciais simbólicos e as visões de mundo fazem dela um método válido em pesquisas de percepção do meio ambiente. O importante, neste caso, é que seja enfocado diretamente o tema de interesse do pesquisador.

Segundo Meihy (2000, p. 29):

 

A história oral é um conjunto de procedimentos que se inicia com a

elaboração de um projeto e que continua com a definição de um grupo de

pessoas (ou colônia) a ser entrevistado, com o planejamento da condução

das gravações, com a transcrição para o uso, arquivamento e, sempre que

possível, com a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar,

voltar ao grupo que gerou as entrevistas.

 

Para Alberti (2004), a história oral pode ser definida como método de investigação científica, como fonte de pesquisa de campo, ou, ainda, como técnica de produção e tratamento de depoimentos gravados. As falas tomadas no âmbito da história oral permitem ao pesquisador o acesso a informações/pistas sobre aspectos de difícil apreensão por outros caminhos investigativos, as experiências pessoais e impressões particulares sobre aquilo que se quer investigar.

A história oral ganha estatuto de método válido para a obtenção de informação no campo, na medida em que os conteúdos das falas obtidas pelos sujeitos da pesquisa extrapolam os sentidos e significados que pretendem expressar conscientemente. Por sua vez, o “sentido do que foi dito” deve ser “extraído” do material empírico, de forma consciente pelo pesquisador, e analisado de maneira que não distorça o que os sujeitos disseram ou queriam dizer.

De acordo com Thompson (1992, p. 137), pois são os sujeitos que dão forma e conteúdo às narrativas, à medida que interpretam suas próprias experiências e o mundo no qual elas são vividas.

 

A evidência oral, transformando os ‘objetos’ de pesquisa em ‘sujeitos’,

contribui para uma informação que não só é mais rica, mais viva e mais

comovente, mas, também, mais verdadeira (grifos do autor),

 

A história oral como fonte de pesquisa de campo em Geografia Humanista tem um quadro amplo de técnicas aplicáveis à coleta de informações, como: depoimentos, relatos, entrevistas, biografias, história de vida etc. Seja qual for a técnica escolhida devemos considerar que as fontes orais são dotadas de cinco características principais: oralidade, forma narrativa, subjetividade, credibilidade diferente da memória e relação entre pesquisador e pesquisado.

Ainda no que se refere à escolha da técnica para coleta de informação em história oral, optamos pelo depoimento de pessoas que vivenciam diariamente o rio das Contas, em Itacaré, com o objetivo de saber: o que é o rio para elas, se se identificam com o rio, se têm afetividade por ele e o que o rio significa para elas.

Entretanto, não formulamos questões para a coleta dessas informações em campo, pois a técnica do depoimento não requer que o faça, mas, durante sua aplicação pedíamos que às pessoas falassem sobre o rio das Contas, seu sentimento por ele etc., na busca das informações e sua compreensão, em toda a sua complexidade e em seu acontecer. Isto é, não criamos artificialmente uma situação para ser pesquisada em campo, mas fomos ao encontro da realidade no seu acontecer, no cotidiano das pessoas de Itacaré.

Quanto à técnica da observação, também é considerada uma coleta de dados para conseguir informações sobre determinados aspectos da realidade, pois proporciona ao pesquisador um contato mais direto com a realidade social e, também, ajuda-o a identificar os sujeitos da sua pesquisa. Segundo Chiapetti (2010, p. 149):

 

Esta técnica é denominada observação assistemática, o que quer dizer que

o pesquisador procura recolher e registrar os fatos da realidade sem a

utilização de meios técnicos especiais, ou seja, sem planejamento ou

controle. Geralmente este tipo de observação é empregado em estudos

exploratórios, com abordagens descritivas que procuram captar informações

subjetivas.

 

Laville e Dionne (1999, p. 176) explicam que a observação como técnica de pesquisa de campo não é a contemplação passiva e um simples olhar atento a que ou a quem queremos observar, mas um olhar ativo sustentado pelo problema e pelos objetivos da pesquisa: “A preocupação de pesquisa guiará o olho e o ouvido do pesquisador e o levará a ater-se a tal […] aspecto ou elemento”.

Feita esta abordagem teórica sobre a escolha do método da história oral, da técnica do depoimento e observação como coleta de dados na pesquisa de campo, passaremos a explicar os procedimentos metodológicos: como fizemos a seleção dos sujeitos da pesquisa, como colhemos os depoimentos desses sujeitos e, ainda, como realizamos o percurso nas águas do rio das Contas, para observar e registrar em fotografias as paisagens vividas pelas pessoas de Itacaré.

 

A seleção dos sujeitos da pesquisa e

 

a coleta das informações

 

Como esta pesquisa se pauta numa abordagem qualitativa foi necessária uma aproximação, ou melhor, uma imersão no campo para nos familiarizarmos com a situação e com os sujeitos. Para tanto, fomos a Itacaré, preocupando-nos primeiramente em observar geograficamente o lugar, para conhecer lugares que ainda não conhecíamos, para conversar com as pessoas, para caminhar pela cidade e pelo distrito de Taboquinhas, para “sentir o lugar”, para registrar paisagens em fotografias, para buscar informações e, muito importante, para navegarmos pelo rio das Contas.

Partindo do método da história oral, com a opção pela técnica do depoimento, reportamo-nos ao objeto da pesquisa, ou seja, a percepção do rio das Contas pelas pessoas que moram próximas a ele e, então, começamos “a pensar” sobre a seleção dos sujeitos que iríamos ouvir em campo, ou seja, aqueles que vivenciavam diretamente o rio das Contas em Itacaré. Sabíamos que a opção por determinadas pessoas deveria estar vinculada à necessidade de que elas deveriam falar sobre suas experiências de vida, seus sentimentos, suas visões de mundo e, principalmente, sobre o rio das Contas.

Decidimos colher os depoimentos de pessoas residentes na cidade de Itacaré, no distrito de Taboquinhas e, também, de pessoas que trabalhavam em restaurantes e que moravam em fazendas e comunidades ao longo do rio das Contas, principalmente

porque é marcante a presença de fazendas de cacau (FIGURA 3) e de Comunidades Quilombolas Rurais, nas duas margens do rio.

FIGURA 3 – Fazenda cacaueira na beira do rio das Contas, em

Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Como não somos de Itacaré e, por isso, não conhecíamos as pessoas do lugar, antes de iniciarmos a coleta dos depoimentos consideramos oportuno pedir auxílio a um itacareense, assim poderíamos ter um fácil acesso aos locais e aos sujeitos da pesquisa. Este itacareense se tornou nosso guia e, sendo morador do distrito de Taboquinhas, conduziu-nos pelo local e apresentou-nos pessoas para participar da pesquisa de campo.

Iniciamos, então, por Taboquinhas (FIGURA 4), já que “o tempo estava bom” e por isso poderíamos seguir pela estrada de terra, rodovia BA 654, que liga o distrito à cidade. Taboquinhas é um distrito de Itacaré que já teve muita importância econômica para o município no período áureo do cacau (décadas entre 1950 e 1980), quando o trecho da rodovia estadual BA 001 (chamada também de Rodovia Gabriela), que conecta Itacaré a Ilhéus, ainda não era pavimentado. Tal distrito chegou a ter maior importância econômica do que a própria cidade de Itacaré.

FIGURA 4 – Margem direita do rio das Contas, no distrito de

Taboquinhas, município de Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Depois que a pavimentação da BA 001 foi concluída, em 1998, Itacaré passou a “se relacionar” diretamente com Ilhéus, município localizado ao sul de Itacaré. Com relação ao distrito de Taboquinhas, como está localizado no oeste do município de Itacaré, ficou abandonado e, espacialmente, marginalizado. Entretanto, desde o ano de 2000, aproximadamente, o município de Itacaré tem recuperado “seu valor” em função da presença da Mata Atlântica, das belas praias e do turismo de aventura praticado por turistas no rio das Contas.

Começamos, de fato, a nossa pesquisa de campo, andando pelas margens do rio das Contas no trecho de Taboquinhas, pela “prainha”

de areia branca que se forma em sua margem (FIGURA 5).

FIGURA 5 – “Prainha” do rio das Contas, no distrito de

Taboquinhas, município de Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Também fomos conhecer e fotografar cachoeiras, corredeiras e o cânion, sem pensar em “entrar” na aventura do rafting no rio das Contas, pois convites não faltaram. Andamos pelas ruas do distrito, observando pessoas, casas, igrejas, aspectos da vegetação e do relevo, muito íngreme, mas, principalmente, buscando uma aproximação com as pessoas do lugar. Chegamos até a iniciar um passeio de canoa pelas águas do rio das Contas, no trecho em que cruza o distrito, mas o medo de navegar numa embarcação tão pequena nos fez abortar a aventura.

O passo seguinte foi a escolha dos sujeitos da pesquisa entre a população de Taboquinhas, que nos recebeu muito bem, principalmente por estarmos acompanhadas por uma pessoa do lugar, pois, antes de qualquer coisa, nosso guia sempre conversava com as pessoas sobre assuntos cotidianos. Assim, ele nos foi apresentando a mulheres e homens taboquinhenses: lavadeiras de roupas, pescadores, donas de casa, funcionários públicos, guias de rafting, professores, etc. Ao mesmo tempo em que íamos sendo apresentadas a esses sujeitos, íamos convidando-os para participar da nossa pesquisa. Importante registrar que nosso critério para seleção dos sujeitos era que todos deveriam ter uma participação espontânea (alguém que faz por si mesmo, sem ser incitado ou constrangido por outro; pessoa voluntária; pessoa de livre vontade).

Mas, antes de iniciarmos a coleta dos depoimentos nos voltamos para Bourdieu (1999), que escreve: para se obter uma narrativa natural, muitas vezes, não é interessante fazer uma pergunta direta, mas, sim, fazer com que o pesquisado relembre parte de sua vida. Para tanto, o pesquisador pode muito bem ir suscitando a memória do pesquisado. Então, decidimos proceder de acordo com o pensamento desse autor, pois o processo de relembrar das pessoas é um meio de explorar os significados subjetivos da sua experiência vivida no lugar. Isso nos levou a considerar as razões que os levaram a construir suas memórias de determinada maneira ou, ainda, a dizer em seus depoimentos o que sentem com relação ao rio das Contas.

Ficamos cinco dias em Taboquinhas e colhemos depoimentos de quatorze (14) pessoas. Resolvemos parar quando percebemos que as suas falas estavam ficando muito parecidas e, por isso, não havia necessidade de continuar, pois não estava mais havendo acréscimo de informações relevantes à pesquisa, ou melhor, todos estavam começando a dizer as mesmas coisas. Neste caso é porque houve uma saturação, ou seja, a partir de certo número de depoimentos coletados, os posteriores não iriam acrescentar mais nada ao que os outros expressaram. Também, numa metodologia de base qualitativa, o número de sujeitos que deve participar da pesquisa de campo dificilmente pode ser determinado, pois tudo depende da qualidade das informações obtidas em cada depoimento, assim como da heterogeneidade destas informações.

Enfim, enquanto estavam “aparecendo” dados ou informações originais ou pistas que poderiam indicar novas perspectivas à nossa investigação, os depoimentos foram sendo colhidos. Mas, paramos quando percebemos que não estava havendo mais nada de novo nas suas falas. Esse foi nosso critério para a quantidade de sujeitos da pesquisa no lugar.

Importante registrar mais alguns procedimentos que tivemos em Taboquinhas: em todas as conversas com os sujeitos, sempre tomamos muito cuidado para que suas falas fossem livres, buscando não interferir na qualidade dos depoimentos. Recorremos novamente a Bourdieu (1996), que chama a atenção para o cuidado na relação pesquisador/pesquisado, evitando e/ou ficando atento para a possibilidade de uma criação artificial de sentido do relato oral. Assim, tomamos cuidado para não conduzir os depoimentos, de modo que os sujeitos falassem o que queríamos ou precisávamos ouvir para desenvolver nossa pesquisa.

Também informamos a esses sujeitos sobre a finalidade da pesquisa, bem como sua contribuição, ou seja, que seus depoimentos seriam muito importantes para que a pesquisa pudesse ser desenvolvida e, ainda, que sem eles nossa pesquisa não seria realizada. Perguntamos, também, se seus depoimentos poderiam ser gravados, apenas para que não se perdesse nada dos seus conteúdos, mas que seriam transcritos da forma como foram falados e só depois seriam utilizados como informações colhidas em campo, para alcançar os objetivos da pesquisa. Todas as pessoas que se dispuseram a participar não colocaram nenhum empecilho, ao contrário, foram muito solícitas, inclusive até não se opondo a que fossem citados seus nomes, se assim quiséssemos.

Algumas vezes percebemos que alguns sujeitos da pesquisa não entendiam (ou por timidez) quando pedíamos para falarem sobre o rio das Contas, sobre seus sentimentos com relação a ele. Nesses casos, fazíamos perguntas diretas, formuladas no momento, como exemplo: O que é o rio das Contas para você? O que o rio significa para você? O que mais gosta no rio? O que menos gosta no rio? Se fechar os olhos e pensar no rio, o que “vem” na sua cabeça? Apesar de concordarmos com Bourdieu (1999, já citado), essa foi a melhor maneira para colher informações dessas pessoas de Taboquinhas, pois a maioria delas era muito simples e desconfiada.

A nossa presença no distrito de Taboquinhas, nesses dias, foi importante para a pesquisa porque pudemos conhecer melhor o lugar e isso contribuiu para a qualidade das informações coletadas. Segundo Chizotti (1991), a imersão do pesquisador nas circunstâncias e contexto da pesquisa é fundamental, a saber, o mergulho nos sentidos e emoções; o reconhecimento das pessoas como sujeitos que produzem conhecimentos e práticas; as informações colhidas como fruto de um trabalho coletivo resultante da dinâmica entre pesquisador e pesquisado; a aceitação de que tudo que foi vivido pelo pesquisador, em campo, foi precioso e importante: a constância e a ocasionalidade, a fala e o silêncio, a continuidade e a ruptura, as revelações e até mesmo o que permaneceu oculto.

Enfim, os dias vividos em Taboquinhas foram uma grande experiência por fazermos, na prática, de fato, uma Geografia Humanista, pois convivemos com as pessoas do lugar, vivenciando o cotidiano do lugar: muito cedo já observávamos alguns taboquinhenses indo e vindo pelas ruas, varrendo suas calçadas, conversando com seus vizinhos, esperando o ônibus para Itacaré… Percebemos que a população de Taboquinhas vive a vida com características muito peculiares de um lugar pacato, com um tempo próprio, que se move no mesmo movimento do rio das Contas…

(FIGURA 6).

FIGURA 6 – Paisagem do distrito de Taboquinhas, município de

Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Dando continuidade à pesquisa de campo, retornamos para a cidade de Itacaré. Neste local, ficamos mais três dias e colhemos os depoimentos de donos e funcionários de pousadas, pois sabíamos da importância do rio das Contas para a atividade turística local e regional. Também colhemos o depoimento do presidente e instrutor da Associação de Canoagem de Itacaré, visto que os associados

praticam tal esporte no rio das Contas (FIGURA 7). E, ainda, colhemos os depoimentos da diretora do Instituto de Turismo de Itacaré (ITI), de um instrutor de rafting, de um guia turístico, de um pescador e de uma líder comunitária, somando oito (08) depoimentos. Da mesma forma que ocorreu em Taboquinhas, usando os mesmos procedimentos, realizamos mais esta etapa da pesquisa de campo.

FIGURA 7 – Canoagem no rio das Contas, em Itacaré, sul da

Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Ainda faltava colher os depoimentos de pessoas ao longo do rio: trabalhadores de restaurantes e de fazendas cacaueiras e moradores de Comunidades Quilombolas Rurais, localizadas nas margens do rio das Contas. Sabíamos que essa etapa seria a mais difícil de ser cumprida, devido ao custo, à necessidade de auxílio de outras pessoas para navegarmos pelo rio, além do tempo necessário para cumpri-la.

Então, recorremos a uma instituição que atua em Itacaré (optamos por não identificá-la) para solicitar apoio, o que foi uma decisão muito acertada, pois, na semana seguinte, um grupo de pesquisadores iria até uma das comunidades situadas ao longo do rio fazer uma reunião com as lideranças de todas as Comunidades Quilombolas Rurais, para discutir a possibilidade da instalação de energia elétrica pelo Governo Federal (Programa Luz para Todos). Fomos, então, convidadas a acompanhar esse grupo, quando teríamos a oportunidade de navegar pela primeira vez nas águas do rio das Contas.

Chovia muito em toda a região, mas o dia marcado para irmos até a Comunidade Quilombola Rural João Rodrigues (margem esquerda do rio das Contas) havia chegado e, mesmo com chuva, partimos para o nosso destino. Fomos num barco de um pescador que ia, a todo o momento, “pegando” pessoas de outras comunidades para participarem da tal reunião.

Esta oportunidade de navegarmos junto com alguns moradores das margens do rio das Contas teve um valor sem igual para nossa pesquisa, pois ao mesmo tempo em que curtimos aquela situação única, observamos as margens do rio e aproveitamos para conversar com as pessoas que estavam no barco a respeito das suas experiências no rio, de suas vidas e, também, para contarmos sobre nós, pois tinham muita curiosidade para saber quem éramos, o que fazíamos e o que pretendíamos ao estar ali. Essa situação perdurou até chegarmos ao nosso destino e, mais uma vez, para a nossa pesquisa de campo, foi uma grande contribuição estarmos presentes nesta reunião, pois pudemos conhecer pessoas e seus modos de vida nesta comunidade beira-rio, além de colher mais quatro (4) depoimentos.

Antes de retornarmos à cidade de Itacaré saboreamos uma deliciosa feijoada quilombola feita pelas mulheres da comunidade. Esse momento foi muito importante para nossa pesquisa de campo conduzida pelos propósitos da Geografia Humanista, porque pudemos vivenciar a grande expectativa que essas pessoas tinham quanto à chegada da energia elétrica em suas comunidades, tanto que, para alguns, esse fato marcaria o início de uma nova vida.

Porém, ao regressarmos ao rio das Contas para o barco que nos trouxera, aconteceu um fato que não poderíamos deixar de relatar, já que, ao fazermos uma pesquisa de campo, podemos passar por diversos tipos de situações ou acontecimentos, tal como este. Como chovia demasiadamente e, por consequência, havia muita lama nas margens do rio, fomos levadas a um afluente com a certeza de que esse caminho estaria menos perigoso. Subimos, então, em uma canoa para irmos até o barco que estava a nossa espera. Navegamos por poucos metros até chegarmos ao rio das Contas, quando nos assustamos com a sua forte correnteza, desequilibrando a canoa, que virou. Depois do grande susto com o mergulho no rio, todos riram muito da situação e disseram que fomos “batizadas” nas águas do rio das Contas. Portanto, se é preciso “mergulhar” na pesquisa e desenvolvê-la com paixão, o primeiro “mergulho” foi dado neste momento!

Mas, como tínhamos ido somente a uma comunidade da beira do rio, ainda faltavam os depoimentos dos sujeitos das demais Comunidades Quilombolas Rurais, das fazendas de cacau e dos restaurantes, o que vai ser relatado no próximo item, pois tais depoimentos foram colhidos no mesmo dia em que navegamos novamente no rio, para observarmos geograficamente as suas

margens (FIGURA 8), a população ribeirinha e registrar algumas paisagens.

 

FIGURA 8 – Mata Atlântica na margem do rio das Contas, em

Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Continuando… a colher informações

 

em campo

Como em nosso planejamento inicial da pesquisa de campo ainda faltava navegarmos pelo rio das Contas até o distrito de Taboquinhas, fazendo observação de suas margens e, ainda, registrando paisagens do rio em fotografias, resolvemos pedir auxílio a uma moradora e líder comunitária de Itacaré, que conhecia muito bem o rio e as pessoas do lugar, além de ser querida por todos, na região. Ela imediatamente se colocou à nossa disposição, apresentando-nos alguns condutores de barco de Itacaré, para contratarmos um que nos conduzisse pelas águas do rio das Contas, desde a cidade até o distrito de Taboquinhas.

Depois de conhecer alguns desses barqueiros, optamos por aquele que nos pareceu ter “maior experiência no rio” e que nos deu maior segurança, pois deixou bem claro que, se não parasse de chover e o volume de água do rio não diminuísse um pouco, não seria possível fazer tal percurso. Isso confirmou sua experiência no rio e nos deixou mais seguras.

Mesmo assim, aproveitamos esse momento para conversar com alguns barqueiros, que eram pescadores do mar e, também, do rio. Todos tiveram muita disposição em contar suas histórias de vida, seus medos e alegrias sentidos no rio, e suas preocupações com o seu futuro e o futuro do rio. Consideramos estes “bate-papos” somente como conversas informais, pois não estávamos preparadas para registrá-las no momento.

Enquanto aguardávamos o tempo melhorar, nossa guia nos conduziu pelas ruas da cidade de Itacaré, mostrando “o seu lugar” (como ela mesma disse). Um grande privilégio! É assim que podemos nos referir à sua companhia. Foi como penetrar no mundo das pessoas do lugar, conhecendo seus diversos olhares sobre a

vida… sobre o rio… captando imagens do lugar (FIGURA 9), vivenciando o espírito do lugar.

FIGURA 9 2 – “Baba” na beira do rio das Contas, na cidade de

Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

Como a chuva não cessava e, consequentemente, o nível do rio das Contas subia muito (como os itacareenses dizem: “o rio tá com água”), aproveitamos o momento para realizar levantamentos de dados e informações junto às instituições e entidades que desenvolviam trabalhos em Itacaré e até mesmo no próprio rio. Fomos novamente ao ITI, uma das principais instituições defensoras da conservação do rio das Contas; fomos à Prefeitura de Itacaré, à sede da Associação de Canoagem do rio das Contas e às empresas de turismo que oferecem atividades esportivas no rio. Todos esses contatos resultaram em muitas informações sobre o rio, para nosso trabalho escrito, que seria redigido posteriormente.

A preocupação com a chuva nos acompanhou até o final da semana, quando finalmente o sol voltou a brilhar. Assim, logo na segunda-feira fomos ao encontro do condutor de barco, conforme havíamos combinado. Ele já nos esperava para navegarmos pelas águas do rio das Contas, sendo que nosso principal propósito seria ampliarmos nosso olhar geográfico sobre o lugar da pesquisa.

Era um barco pequeno, mas acomodou a todos: ele, eu e a moradora local (nossa guia pelas águas do rio das Contas), que nos auxiliava neste difícil e prazeroso trilhar da pesquisa de campo. O rio ainda “estava com água”, mas seu nível já havia baixado um pouco, de modo que iríamos tentar navegar. Caso se tornasse perigoso em algum trecho, retornaríamos sem demora! Já havíamos nos informado e por isso sabíamos que o condutor que nos levaria era um “mestre em rio das Contas”, pois conhecia a sua vida, seus sofrimentos, suas alegrias… enfim, vivia a vida no/do rio.

Iniciamos o percurso no rio em frente à cidade de Itacaré e, sempre navegando a montante e munidas de câmera fotográfica, fomos desvendando-o com o olhar nas suas margens, na forte correnteza da sua água marrom devido aos sedimentos, nas

“baronesas” 3 que insistiam em enroscar no motor do barco, deixando-nos apreensivos em alguns momentos. Mas, com coragem, seguimos, ouvindo algumas histórias do rio e das pessoas do rio, contadas por nossa guia. De olhos bem abertos, fomos observando e coletando informações sobre as paisagens do rio, ora nas sedes das fazendas cacaueiras, ora nas plantações de cacau, embaixo da Mata Atlântica. Também observamos os restaurantes e as Comunidades Quilombolas Rurais das margens do rio.

Tivemos a oportunidade de observar o novo trecho da rodovia estadual BA 001 entre Itacaré e Maraú, passando por baixo da ponte sobre o rio das Contas, inaugurada em 2009. E, assim, navegamos… algumas vezes em silêncio, mas sempre com o olhar dirigido a tudo e a todos, procurando ouvir a “voz do rio”… captar as suas imagens…

Na semana anterior havíamos marcado com uma proprietária de uma fazenda da margem direita do rio, próximo à Volta do Poço (local onde o rio faz uma curva acentuada e a profundidade do seu leito aumenta), para fazermos essa “visita da pesquisa”. Quando estávamos bem perto dessa fazenda, que fica aproximadamente na metade do percurso entre a cidade de Itacaré e o distrito de Taboquinhas, nosso condutor alertounos que estava ficando muito perigoso prosseguirmos, pois a correnteza aumentava e o volume de “baronesas” também. Então, sem discutir, decidimos ir somente até esta fazenda e, depois, retornar à cidade de Itacaré.

Chegando lá, a simpática e acolhedora anfitriã nos aguardava com um saboroso café servido na varanda de sua casa, construída próxima à margem direita do rio. Neste trecho, o rio se encontra bem encaixado em seu vale, devido ao relevo de montanha do Planalto Costeiro. Realmente, a paisagem era linda, tanto que construíram uma espécie de choupana bem próxima à margem, somente para curtir/apreciar a paisagem da Volta do Poço. Depois de conversarmos e conhecermos o lugar, perguntamos à proprietária se poderíamos colher alguns depoimentos em sua fazenda, já que os trabalhadores locais experienciavam o rio todos os dias, há muito tempo. Com a sua autorização iniciamos a coleta dos depoimentos, primeiramente ouvindo ela própria e, depois, alguns funcionários da fazenda, somando quatro (4) depoimentos.

O tempo passava e, ainda, precisávamos colher outros depoimentos e continuar a observar geograficamente o rio das Contas. Por este motivo agradecemos o acolhimento na fazenda e começamos o percurso de retorno. Mas, antes disso, nosso barqueiro, corajosamente, levou-nos à Volta do Poço, pois percebeu que para nós cada detalhe do/no rio era importante. Foi uma experiência maravilhosa navegarmos por esse trecho em que o rio fica muito largo, formando uma prainha de areia branca em sua margem direita. Já no lado esquerdo, a Mata Atlântica impera exuberante. Chegamos a nos sentir pequenos diante da grandeza

da beleza da paisagem do rio! (FIGURA 10)

FIGURA 10 – Curva Volta do Poço, no rio das Contas em Itacaré,

sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

O percurso de volta para Itacaré teve o mesmo sentido das águas do rio… uma sensação de tristeza por estar chegando ao final daquele momento mágico, em que sentíamos pertencer ao rio, da mesma forma que as pessoas do lugar. Ao mesmo tempo tivemos uma sensação de alívio por tudo estar dando certo, mesmo que não tivéssemos conseguido fazer todo o percurso navegável do rio até Taboquinhas, para colher depoimentos e conhecer/observar o lugar, como estava previsto no planejamento.

Nesse momento, nossa guia nos falou sobre um senhor que era famoso por atravessar a cavalo o rio das Contas. Aproveitamos, então, esta característica peculiar para conhecer mais uma pessoa que havia nascido na beira do rio… seu modo de vida, seu lugar, um homem corajoso que, com sabedoria e montado em um cavalo, domava as águas do poderoso rio. Dele também, caso concordasse em participar da nossa pesquisa, colheríamos o depoimento.

Paramos, então, o barco na margem direita do rio e o simpático homem logo apareceu para nos receber, mesmo sem termos marcado a visita. Como nossa guia e o barqueiro o conheciam bem, não tivemos dificuldade alguma para conversar com ele. Ao contrário, mostrou-se muito receptivo ao nosso pedido para dar um depoimento, inclusive nos oferecendo uma fresquinha e deliciosa água de coco, além da polpa da fruta do cacau, enquanto ele falava do rio.

Já passava muito do meio-dia, mas continuamos nossa pesquisa de campo pelo rio das Contas, procurando ainda por detalhes que tinham nos escapado à vista, registrando tudo em fotografias. O nosso condutor do barco e a nossa guia insistiam em dizer que o rio não era sempre assim: com “água suja”, com “baronesas”, com muita água e forte correnteza. Ao mesmo tempo falavam que suas margens estavam se alargando, parecendo que o rio estava “comendo a terra” a cada enchente. Nós percebemos esse fenômeno ao ver algumas árvores (da mata ciliar) “deitadas” sobre o leito do rio, parecendo “beber da sua água”. Também observamos a

presença de pássaros (FIGURA 11) nas margens do rio, compondo este cenário hídrico margeado pela mata.

 

FIGURA 11 – Pássaro no rio das Contas, em Itacaré, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

Ao nos aproximarmos da Comunidade Quilombola Rural Santo Amaro, nossa guia perguntou se queríamos conhecê-la e conversar com as pessoas de lá. Assim, colhemos mais três (3) depoimentos desses quilombolas, os quais foram dados com muita timidez, pois em pouco tempo é difícil alguém “abrir seu coração” para quem não conhece.

Depois disso, seguimos até um restaurante localizado na margem direita do rio, já bem próximo à cidade de Itacaré. Da mesma forma, nossa guia e nosso condutor conheciam os proprietários, por isso, além de almoçarmos, aproveitamos para colher os depoimentos dessas duas (2) pessoas, sempre utilizando os mesmos procedimentos de pesquisa.

Nosso condutor do barco, atento, escutava cada conversa que tínhamos, e, parecia querer contar sobre sua experiência, pois já havia nos falado que conhecia muito bem o rio, que desde menino brincava e pescava nele e, depois que cresceu, o rio continuava fazendo parte do seu cotidiano, sendo o lugar do seu trabalho: pescar, levar e trazer turistas… Então, colhemos também seu depoimento (1).

Deixamos o restaurante para trás e continuamos a observar e a registrar imagens do rio, navegando em direção ao “porto” final do nosso percurso, mas não sem antes contemplar a paisagem da

cidade de Itacaré, vista do rio (FIGURA 12) e, ainda, chegar bem perto da sua foz, local em que a água do rio se mistura com a do mar, onde “o rio vira mar”.

FIGURA 12 – Paisagem da cidade de Itacaré, vista do rio das

Contas, sul da Bahia

 

Fonte: Rita Jaqueline Nogueira Chiapetti.

 

E, assim, chegamos ao fim de mais esta etapa/experiência no rio das Contas, certas de que esse trilhar da pesquisa de campo foi cumprido com êxito, ainda mais por termos colhido onze (11) depoimentos dos sujeitos das margens do rio.

Por fim, é preciso considerar que, conforme Bourdieu (1998) assinala, os procedimentos da pesquisa devem anteceder à prática, apenas pelo fato de que é necessário planejar a pesquisa antes de fazê-la, mas de fato eles acabam sendo definidos com a prática.

Como não tínhamos conseguido ir às demais Comunidades Quilombolas Rurais das margens do rio nesta etapa da pesquisa, devido ao grande volume de água no período, fomos outro dia de carro pela estrada BA 654, que margeia o lado direito do rio das Contas, ligando Itacaré à Ubaitaba e Aurelino Leal, municípios do sul baiano divididos pelo rio das Contas e margeados pela BR 101.

Chegamos, então, à Comunidade Quilombola Rural de Acaris, localizada na sua margem esquerda, atravessando o rio no barco de um morador local. Utilizamos os mesmos procedimentos para colher os depoimentos de duas (02) pessoas que se dispuseram a participar. Aproveitamos esse mesmo dia para visitar e conhecer a Comunidade Quilombola Rural do Fojo (margem direita), lugar em que colhemos mais dois (2) depoimentos.

É oportuno esclarecer que a etapa mais difícil da nossa pesquisa de campo e, ao mesmo tempo, mais prazerosa foi a coleta dos depoimentos ao longo do rio das Contas, pois, como foi relatado, passamos por diversas dificuldades. Mas, por outro lado, conhecemos o rio e “as pessoas do rio”, com suas “histórias de vidas”, navegamos por suas águas, vivenciamos situações no/do rio, além de contemplarmos paisagens registradas em suas margens.

O número de depoimentos colhidos ficou assim distribuído: quatorze (14) no distrito de Taboquinhas; oito (8) na cidade de Itacaré e dezenove (19) ao longo do rio, somando quarenta e um (41) depoimentos colhidos na pesquisa de campo qualitativa, pelas águas e margens do rio das Contas, no sul da Bahia.

 

Preparação do material coletado na

 

pesquisa de campo

 

Mesmo que esse texto seja um relato de uma pesquisa de campo, achamos por bem escrever sobre a etapa posterior à coleta dos dados, pois essa é uma fase muito importante para a qualidade da pesquisa como um todo.

Depois da etapa de coleta dos depoimentos feitos na pesquisa de campo em Itacaré, sempre em locais próximos ao rio das Contas, passamos para a etapa de transcrição, o que não foi uma tarefa fácil, pois demandou muito tempo, atenção e cuidado para não deixar nenhum detalhe de fora.

A principal preocupação que tivemos foi com o registro/transferência dos depoimentos (falas) para um arquivo de computador, sem nos preocuparmos com a pontuação e ortografia corretas. Também não demos atenção às palavras repetidas, aos vícios de linguagem, entre outros aspectos.

Depois disso fizemos a chamada “limpeza do texto”, que se destina a dar forma adequada ao texto, ou seja, pontuação e ortografia corretas. Observamos ainda, que a transcrição foi fiel à gravação, e que essa “limpeza” não alterou os depoimentos das pessoas.

Quanto às observações feitas em Taboquinhas, na cidade de Itacaré e ao longo do rio das Contas, digitamos o que havíamos escrito em um papel, no momento e após a observação, para ficar disponível para a escrita da pesquisa. Com relação às fotografias tiradas na pesquisa de campo, foram transferidas da câmara fotográfica para um arquivo do computador, para posteriormente serem usadas como dados da pesquisa.

 

Conclusão

 

O método da história oral e as técnicas adotadas para a pesquisa de campo foram válidos na medida em que corresponderam ao alcance dos objetivos da pesquisa, dentro de uma abordagem da Geografia Humanista, do tipo qualitativa.

Ao mesmo tempo foi muito importante aplicarmos, pessoalmente, os instrumentos de coleta das informações, ou seja, colher os depoimentos, tirar fotografias e, ainda, observar geograficamente o lugar, para conhecermos, convivermos e interagirmos com os sujeitos da pesquisa, enfim, vivenciarmos diretamente os locais da pesquisa.

Essa convivência trouxe uma importante contribuição para a qualidade das informações coletadas, além de uma grande experiência vivida em uma pesquisa de campo, na perspectiva da Geografia Humanista.

Enfim, concluímos que esse tipo de pesquisa de campo pode ser realizado com alunos do ensino fundamental e médio, pois vivenciar e experienciar os lugares, as paisagens da sua realidade e o cotidiano com certeza lhes proporcionará um grande aprendizado geográfico.

 

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