Geografia e Ensino: Dimensões Teóricas e Práticas para a Sala de Aula

A violência no espaço escolar: da segurança do cotidiano ao cotidiano da insegurança

A violência no espaço escolar:

 

da segurança do cotidiano ao

 

cotidiano da insegurança

 

Maria Cristina Rangel

 

Introdução

 

Este trabalho tem por objetivo divagar, especular e refletir sobre a violência na escola. Trata-se de assunções de uma professora e mãe com um filho de 14 anos na escola, mais do que uma revisão de literatura ou um trabalho de pesquisa. Recorro à experiência profissional e à sensibilidade de quem observa e participa da vida escolar para juntos pensarmos sobre a violência na escola e a escola que queremos. Encaminhemo-nos às reflexões.

Nossas ações, muitas vezes, são guiadas pela repetição e constância dos fenômenos, principalmente daqueles ligados à natureza. Contamos de forma convicta que se não chover, haverá sol, que teremos um dia seguido de uma noite, que tudo que sobe desce, ou que a água quente em contato com a fria, ambas ficam mornas, e assim por diante. Em função das fortes evidências da imutabilidade dos fenômenos da natureza, programamos o cérebro e organizamos a vida baseados em determinadas certezas. Pela observação da repetição constante esperamos que haja, em qualquer lugar da Terra, uma reprodução daquilo que tem sido assim desde que os humanos são capazes de registrar. Nada garante que será eternamente assim, muito menos quando se faz uma transposição desta forma de pensar e agir para o cotidiano da vida social.

No cotidiano, naquilo que se sucede todos os dias, há uma tentativa de organizarmos a vida a partir da repetição. Todos os dias fazemos quase sempre tudo igual, contando que tudo funcionará de acordo com o previsto. Mesmo sabendo que somos mortais, suscetíveis de morrer a qualquer momento, sempre esperamos que nossos familiares retornem sãos e salvos para casa, ou que os de casa estejam bem ao voltarmos. Assim criamos a ilusão da estabilidade e nos protegemos do que é incerto. Não somos preparados para o que é avassalador e imprevisível.

Neste sentido, enviamos nossos filhos para a escola com a certeza de que lá eles estarão bem, serão bem tratados, não sofrerão agressões, nem físicas e nem psicológicas. Quando chega o horário do retorno da escola, esperamos encontrá-los intactos. Criamos mentalmente a escola como o espaço da segurança, até mesmo sagrado, onde professores, funcionários e alunos se unem para ensinar e aprender, não só os conteúdos específicos de cada disciplina, mas também sobre ética, moral, solidariedade, compaixão, enfim, como ser e agir no mundo de forma que o mesmo seja bom para todos e não somente para uma parcela ínfima de privilegiados.

Hoje o que temos assistido é a profanação deste espaço. O espaço escolar, na verdade, nunca foi de todo sagrado. Agressões entre os alunos, dos professores em relação aos alunos, entre pais e professores, dos alunos com os funcionários e vice-versa, não são incomuns na história da educação. Entretanto, as formas de violência na escola têm se transformado. Conforme consta nas referências desse trabalho, algumas manchetes de jornais sobre os últimos acontecimentos nos dão ideia do que está acontecendo: “Aluna é agredida por cinco colegas dentro da sala de aula” (TV UOL, 2014a); “Aluno grava professor agredindo colega na sala de aula” (TV UOL, 2014b); “Professora é agredida por aluno dentro da sala de aula, em SP” (TV UOL, 2013a); “Professor dá tapa no rosto de aluna dentro da sala de aula (TV UOL, 2013b)”; “Professor agride aluno dentro de sala de aula” (TV UOL, 2013c); “Mãe agride professora dentro da sala de aula, na Bahia” (TV UOL, 2010); “Caso de aluno morto na Unicamp tem cinco responsáveis, diz polícia” (UOL EDUCAÇÃO, 2013); “Mãe de aluna mata professora em frente à classe, na França” (BBC BRASIL, 2014); “Massacre em Realengo. Tragédia em escola no Rio de Janeiro” (VEJA, 2011); “8 massacres em escolas que chocaram o mundo” (COHEN, 2012).

Agressões físicas com uso de armas, homicídios, massacres, estupros, tapas, golpes de artes marciais são expressões da violência que está acontecendo no espaço escolar e não somente no Brasil. A música “Tudo que eu sempre sonhei”, interpretada pelo grupo Pullovers, traz uma reflexão sobre a violência nas escolas norte-americanas:

 

Já que se eu fosse americano

Pegaria uma pistola

E a cabeça ia perder a razão:

Mataria quinze na escola

Estouraria a caixola

E apareceria na televisão (VENÂNCIO, 2014, s/p).

 

As agressões com tal nível de violência podem ainda ser raras – mesmo que cada dia mais frequentes –, mas já tiram a sensação de que na escola há segurança, e mais, dão a certeza de que para os violentos não há limites, nem quanto às formas, nem aos espaços onde ocorrem. Não temos mais a certeza de que nossos filhos chegarão inteiros em casa, quiçá vivos. Ou de que não matarão seus colegas.

 

Violência nas escolas. Por quê?

 

A pergunta é: por que isto está acontecendo?

A violência quando alcança a escola já está disseminada em outros espaços.

Vejamos:

 

Em 2012, 112.709 pessoas morreram em situações de violência no país,

segundo o Mapa da Violência 2014, divulgado hoje. O número equivale a

58,1 habitantes a cada grupo de 100 mil, e é o maior da série histórica do

estudo, divulgado a cada dois anos. Desse total, 56.337 foram vítimas de

homicídio, 46.051, de acidentes de transporte (que incluem aviões e barcos,

além dos que ocorrem nas vias terrestres), e 10.321, de suicídios

(MARTINS, 2014, p.1).

 

Este aumento e disseminação da violência são particulares do Brasil? Há fortes indícios de que não. Trata-se da transmutação da competição, aquela com regras claras, dentro de um código de ética, para a competitividade, em que se quer ganhar a qualquer custo, inclusive por meio da eliminação dos oponentes, daqueles que se colocam como obstáculos às intencionalidades de cada um.

Neste sentido, Santos (2000, p. 23) assim se posiciona:

 

Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual

não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda

forma de compaixão. A competitividade tem a guerra como norma. Há, a

todo custo, que vencer o outro, esmagando-o, para tomar seu lugar.

 

A competitividade, aliada ao fato de 50 % da população mundial viver nas áreas urbanas; destes um terço estar em favelas (ONUBR, 2013); e de que as relações sociais são cada vez mais intermediadas por objetos técnicos, como o telefone celular, cria uma situação explosiva.

Viver em espaços urbanos, em aglomerados urbanos, implica em compartilhar deste espaço, em seguir regras de convivência e ter limitações. Descobrimos, à contra gosto, que o mundo não é só nosso. Quando se está em uma sociedade em que prevalece a competitividade em detrimento à solidariedade e à compaixão, o individualismo e não a abnegação, a área urbana se transforma em um campo de batalha de todos contra todos, de cada um lutando para ter um lugar onde morar, onde circular e estacionar o carro ou mesmo por um assento no ônibus, metrô… Cada um na sua, com sua mercadoria (é preciso que cada um tenha a sua para aumentar a quantidade de consumidores), e todos pelo dinheiro.

Na sociedade do consumo, em que as mercadorias valem mais do que as pessoas, há o dispêndio de energia para obtê-las mais e mais, num círculo vicioso e frustrante, porque permanentemente se fabricam novas mercadorias e necessidades, não exatamente nesta ordem. Não se fabricam objetos somente para atender às necessidades, criam-se necessidades do novo, tornando imediatamente obsoleto o que acabou de ser lançado como novidade. E assim, a busca é por mais dinheiro para comprar mais mercadorias:

 

O resultado objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais

dinheiro, e, como este, em seu estado puro, é indispensável à existência das

pessoas, das empresas e das nações, as formas pelas quais ele é obtido,

sejam quais forem, já se encontram antecipadamente justificadas (SANTOS,

2000, p. 28).

 

E vamos acumulando tensões e frustrações, nosso nível de tolerância vai baixando, até que um dia a fúria supera a racionalidade e explodimos de raiva no trânsito, com a atendente de telemarketing, com porteiros, com professores, ou seja, principalmente com aqueles que na hierarquia social, supomos estar em posição de subalternidade.

Este estado de tensão social, de quase esgarçamento das relações sociais, é potencializado quando aumenta a densidade demográfica, e nas cidades, os bairros de maior quantidade de pessoas por metro quadrado são favelas, local de pessoas destituídas das condições mínimas de sobrevivência com seu próprio trabalho; do exercício pleno da cidadania; dos direitos humanos. Nesses locais os índices de violência são maiores. São os territórios dos excluídos da sociedade de consumo, dos que só podem consumir os piores lugares para se morar nas cidades: terrenos alagados, mangues, morros de alta declividade, periferias das grandes cidades, ou seja, onde o terreno é mais barato ou onde quase ninguém deseja morar. Nesses locais impera a ilegalidade jurídica do terreno ocupado, da casa mal construída, do terreno que traz riscos à saúde.

Por medo dos outros (e nós somos os outros para os outros) criamos barreiras de isolamentos. Subimos a altura do muro, colocamos cercas elétricas, câmeras de vídeo, plantas espinhentas, compramos cachorros bravos e os colocamos no quintal, instalamos alarmes… construímos condomínios fechados, os feudos pós-modernos. E intermediamos nossas relações societárias por objetos técnicos, comunicamo-nos com o mundo via telefone, internet, mas não conhecemos o vizinho ao lado. A falta de convívio comunitário nos imuniza com relação ao que acontece aos outros e nos anestesia emocionalmente; a falta de alguém que se oponha ao que pensamos nos dá a ilusão de estarmos sempre certos, não suportamos o embate de ideias e adotamos o porquê sim sem discussão.

Entra em campo outro complicante. Queremos tudo agora, neste instante, já. Estamos muito apressados nas relações sociais que estabelecemos. Prevalece a efemeridade, a sucessão de instantes que nos deixam sem oriente. Já não conseguimos construir um projeto de sociedade, como fizemos no passado, pois ficamos no consumo do agora, com dificuldades de pensar no futuro. Neste sentido, os políticos estão mais preocupados com a política eleitoreira do que com uma proposta política para a sociedade; quando muito se preocupam em se manter no poder, atendendo reivindicações de grupos particulares: agropecuaristas, empreiteiros, doleiros, industriários, banqueiros, mulheres, homossexuais, semterra, sem-teto e gente de todos os matizes. Mesmo que as discussões nas redes sociais sejam polarizadas ainda nas ideias de partidos de direita e de esquerda, na prática dos políticos o que assistimos são coligações inimagináveis até pouco tempo, uma verdadeira promiscuidade partidária. E a ideologia predominante é a de que não há ideologia.

 

A bomba do individualismo, a

 

competitividade e o consumo

 

alcançam a escola

 

Quais as relações de tudo isto com a violência na escola? Perguntando de outra maneira: como isto se apresenta no espaço escolar? Afinal, a escola não é um espaço à parte da sociedade que a originou e mantém.

Quando o acúmulo de bens ao longo da vida dá mais status do que o conhecimento que se adquire, a escola, como o locus da produção do conhecimento, perde valor. Seus muros, que um dia foram limites para a violência extramuros, hoje são adentrados sem cerimônias por traficantes de drogas que vão ali para vender, acertar contas ou eliminar os membros das facções que concorrem pelo domínio territorial do bairro onde está localizada a escola. Invadem ou miram suas armas para o interior das escolas, atingindo a todos indiscriminadamente. E têm aqueles que escolhem as escolas para poder matar o maior número possível de pessoas.

Além dessa invasão, outra acontece: a dos pais. A intolerância dos pais, já cansados da competitividade diária, da busca incessante por mais dinheiro, atinge a escola na forma de agressão. Pais batem em alunos que bateram em seus filhos, desacatam os professores porque seus filhos tiraram nota baixa, repetiram de ano, foram advertidos…

Há a violência praticada entre alunos e os representantes institucionais: professores e funcionários. Neste caso a violência é recíproca, mas expressa de formas diferentes, cada um usando as armas, as estratégias e os mecanismos de poder que possui. De um lado, os jovens afoitos, sem muitas artimanhas; do outro, dissimulação, cinismo, arbitrariedade, autoritarismo e preconceitos de toda ordem.

A escola, tanto no aspecto físico quanto no pedagógico, não está em sincronia com a dinâmica da sociedade. A sociedade mudou, mas os prédios e as práticas pedagógicas continuam as mesmas do passado, quando as escolas tinham como intenção disciplinar os corpos e as mentes para o trabalho nas fábricas, escritórios… preparar os alunos para o trabalho e para o exercício de determinada cidadania conveniente aos empoderados do momento. Essa escola não serve mais e os alunos são os primeiros a sofrerem e a reagirem vandalizando a escola – estourando os vasos sanitários, riscando carteiras e paredes, ateando fogo, acendendo incensos de cheiros insuportáveis – ou agredindo fisicamente os que estão neste ambiente, inclusive os próprios colegas.

Quais são os motivos para que os alunos se agridam? Os preconceitos construídos extramuros também extravasam na escola. Por que o outro é gordo ou magro, homossexual ou heterossexual, preto ou branco, mulher ou homem, rico ou pobre, feio ou bonito, cabelo liso ou crespo, mora aqui ou ali, ouve axé ou rock, fala baixo ou alto, veste esta ou aquela roupa, anda “assim ou assado”… os motivos são fabricados no momento, sejam eles traços fenótipos ou marcações sociais.

Professores mal formados, mal remunerados, sobrecarregados de trabalho, avaliados socialmente (negativamente) pelo que NÃO podem ter – carrões, roupas de marcas famosas, estética dos atores globais – são postos diante de alunos que se recusam a aprender, que querem subverter a ordem da escola, pois não suportam mais permanecer várias horas sentados tendo aulas, quando em casa têm toda parafernália tecnológica a sua espera. A ausência de perspectivas de uma sociedade melhor, de um projeto de sociedade, influencia na prática dos professores ao criarem aulas que não excitam, não motivam, presas à reprodução de conteúdos em detrimento à produção do conhecimento e reflexões sobre a sociedade em que vivemos.

 

Conclusão

 

Imaginar uma escola como local onde impera a paz, a confiança, o respeito mútuo, a amizade e o companheirismo, é ilusão. As pequenas transgressões são comuns ao ambiente escolar e geralmente são resolvidas intramuros, às vezes, com o envolvimento dos pais. A agressividade, quando identificada, conduzida pela escola, canalizada para os esportes, as artes, pode até ter resultados positivos. Não é dessa agressividade que estamos falando. Referimo-nos à violência que resulta em agressões físicas, mortes, destruição do patrimônio escolar com o intuito de violentar os representantes institucionais ou mesmo a sociedade que cria e mantém a escola. É uma nova forma de violência, aquela carregada de ódio, de vontade de ferir, destruir o outro com fúria, humilhar; uma agressão desproporcional a qualquer ato que se tenha praticado.

A escola não é o local da violência, mas já temos a sensação de que intramuros tudo é possível. É necessário a construção de uma outra escola, mais adequada à ciência, informação e tecnologias que dispomos hoje. Isto, entretanto, não será suficiente se, concomitantemente, não tivermos outras construções, como a de uma sociedade mais justa, ética, solidária, honesta, menos competitiva, mais política e menos eleitoreira, menos fútil no consumo, mais produtora de arte, cultura e, principalmente, de gente feliz simplesmente por se reunir, poder comungar dos anseios, lutas, fracassos e vitórias, próprios da existência humana.

Atribuir culpa pelos massacres em escolas somente aos indivíduos que os praticaram, como se fossem atos isolados de um louco, é tentar “tapar o sol com a peneira”; de forma mal intencionada, há a tentativa de descontextualizar histórica e geograficamente o sujeito, para não fazer crítica à sociedade produtora de mercadorias e consumidores frustrados.

 

Referências

 

BBC Brasil. Mãe de aluna mata professora em frente à classe na França. [São Paulo], 2014. Disponível em:

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COHEN, O. 8 massacres em escolas que chocaram o mundo. São Paulo, 2012. Disponível em:

<http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/8-massacres-em-

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MARTINS, H. Mapa mostra aumento e disseminação da violência no Brasil. EBC. Brasília, DF, 2014. Disponível em:

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ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (Brasil) (UNUBR). ONU: mais de 70 % da população mundial viverá em cidades até 2050.

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SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

 

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VENÂNCIO, Luiz. Tudo que eu sempre sonhei. Interprete: Pullovers. UOL Educação, São Paulo, [2014]. Disponível em:

<http://letras.mus.br/pullovers/1491437/>. Acesso em: 14 jul. 2014.