Geografia e Ensino: Dimensões Teóricas e Práticas para a Sala de Aula
O ensino de geografia num mundo dominado pela mídia, permeado pela imagem e submetido ao espetáculo
O ensino de geografia num
mundo dominado pela mídia,
permeado pela imagem e
submetido ao espetáculo
Gilsélia Lemos Moreira
“Com tais ideias pretende-se explicar a realidade, sem se
perceber
que são elas que precisam ser explicadas pela realidade”.
Marilena Chauí
Introdução
Esse artigo discute a intensa imbricação entre ensino de Geografia, mídia, imagem e espetáculo. Tomando esta articulação como um aspecto central do contexto contemporâneo, elaboramos algumas reflexões acerca de padrões e modelos fornecidos pela cultura da mídia na atualidade, focando a importância da imagem cuidadosamente lapidada como estetização da realidade e o espetáculo como abstração do mundo.
Nosso objetivo é dialogar com o professor de Geografia, tendo como horizonte a possibilidade dessa ciência, enquanto disciplina produzir um conhecimento crítico do mundo que é permeado pela imagem, dominado pela mídia e submetido ao espetáculo.
Para tornar o texto mais claro e objetivo em relação ao tema proposto nesse artigo, tomaremos como ponto de partida a análise de padrões e modelos fornecidos pela cultura dominada por imagens, onde a mídia tem um papel fundamental na produção de narrativas que criam um universo de ilusão.
Cada vez mais, a realidade se confunde com as representações,
uma excessiva exposição imagética na qual reina um simulacro 1. De acordo com Pereira (2013, p. 12), “a sociedade pós-moderna foi
invadida pela ascensão da mídia, que privilegia a superfície”2. Baudrillard defende a teoria de que vivemos em uma era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Ele diz:
Hoje a abstração já não é a do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A
simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de
uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem
realidade: hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive.
É agora o mapa que precede o território – precessão dos simulacros – é ele
que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a
extensão do mapa. É o real, e não o mapa. Cujos vestígios subsistem aqui e
ali, nos desertos que já não são os do império, mas o nosso. O deserto do
próprio real (BAUDRILLARD, 1981, p. 5).
A partir deste ponto de vista, o real não é o real, pelo menos da forma como concebemos o que é real, mas a sua simulação, ou seja, disfarçado de real e assim é comparado com o ideal, trata-se de uma realidade à parte, desvinculada do original, desfigurada, uma cópia, como diz Pereira (2013, p.12), ao citar Baudrillard (2008), “produzindo uma realidade à parte ou o “hiper-real”, […] coleção de cópias […]”.
A análise, para além da busca de modelos de interpretação, nos direciona ao entendimento da realidade. Mas, devemos estar atentos às palavras de FEUERBACH citado por DEBORD, (2003, p. 13), “Nosso tempo, sem dúvida […] prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser […]”.
Partindo das considerações de Debord (2003), que ressaltam que as simulações são mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido pode-se inferir que esses simulacros são, antes de tudo, “construções do mundo” que se transforma em cenário para o “espetáculo”. Neste contexto, como disseram Alves, Adilson, Alves e Adriana (2004, p. 143):
O espetáculo mundial materializa-se como extensão de uma razão
instrumental. Num processo antropofágico a fluidez do mundo é tragada e,
quando reelaborada, é devolvida aos fragmentos. Entretanto, estes pedaços
de realidade encontram na sua forma ‘espetacular’ uma aura de totalidade,
não apenas explicativa, mas portadora da capacidade de se tornar
catalizadora de uma realidade já devidamente mitificada ou glamourizada,
transformando-se em motor da própria realidade, ‘fazendo o mundo girar’
(grifos do autor).
Para tornar as ideias aqui apresentadas mais fluídas e articuladas, tomaremos como ponto de partida o conceito de mídia a partir de Setton, (2011, p. 14), que diz:
O conceito de mídia é abrangente e se refere aos meios de comunicação
massivos dedicados, em geral, ao entretenimento, lazer e informação –
rádio, televisão, jornal, revista, livro, fotografia e cinema. Além disso, engloba
as mercadorias culturais com a divulgação de produtos e imagens e os
meios de comunicação, ou seja, jogos eletrônicos, celulares, DVDs, CDs, TV
a cabo ou via satélites e, por último, os sistemas que agrupam a informática,
a TV e as telecomunicações – computadores e redes de comunicação.
Do acordo com Pereira (2013), na contemporaneidade, a mídia ocupa um dos lugares centrais na produção das discursividades, formando, parcialmente, a opinião pública, atuando não só como meio de produção e circulação de textos, mas, também, como fonte de discursos que fundamentam e orientam nossas atuais relações sociais. Segundo Thompson (2002), o poder simbólico utiliza os recursos dos meios de informação e comunicação para influenciar, induzir, sugerir ações que podem intervir no curso dos acontecimentos e produzir novos eventos.
Na produção de formas simbólicas, os indivíduos se servem destas e de
outras fontes para realizar ações que possam intervir no curso dos
acontecimentos com consequências as mais diversas. As ações simbólicas
podem provocar reações, liderar respostas de determinado teor, sugerir
caminhos e decisões, induzir a crer e a descrer, apoiar os negócios do
Estado ou sublevar as massas em revolta coletiva. Usarei o termo “poder
simbólico” para me referir a esta capacidade de intervir no curso dos
acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por
meio da produção e da transmissão de formas simbólicas (THOMPSON,
2002, p. 24, grifo nosso).
A mídia tem se constituído em importante agente de socialização, sensibilização e mobilização dos cidadãos, os quais têm um papel decisivo nas transformações territoriais, e que se manifesta seja em ações ou omissões. Ao influenciar a opinião dos cidadãos e, portanto, os gradientes de envolvimento sobre quaisquer temáticas ou problemas, a mídia acaba por se tornar importante referência a nortear as ações dos próprios governos, que se orientam por parâmetros de popularidade, imprescindíveis para sua legitimação e manutenção no poder.
Simultaneamente, a mídia influencia a percepção que os sujeitos políticos têm dos problemas e, não raro, interfere na definição de agendas políticas (CARVALHO, 2002). Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Helena Cristina Máximo, em sua tese de doutorado, sob o mote “A presença da mídia na ação política: evidências de uma influência discursiva”, elabora o seguinte pensamento:
A mídia não muda somente o comportamento estratégico dos agentes
políticos em direção ao público, mas concretiza uma influência estruturante
sobre os princípios das escolhas que caracterizam o processo de decisão,
dispondo, para isso, de um capital simbólico privilegiado. Indo ao encontro
do reconhecimento social extremamente arraigado sobre os produtos da
mídia, as palavras dos parlamentares indicam suas formas de reconhecer a
validade do produto característico do campo da mídia, a informação. O
discurso abre espaço para compreender melhor o jogo que se dá, na esfera
pública, entre os detentores do poder de comunicação, ou seja, os que
dominam as esferas de visibilidade, e os detentores de poder político,
ocupantes de cargos no parlamento e no governo (MAXIMO, 2008, p. 5).
A mídia institui um universo no qual muitas questões são socialmente elaboradas a partir de seus próprios interesses. O tempo todo, a mídia está expressando determinadas conveniências, proclamando apoio a determinados governos, criticando outros, enfim, manipulando as ideias das pessoas. Segue um exemplo para ilustrar esta reflexão.
O caso Fernando Collor de Melo consiste em uma oportunidade para estudar
as formas de (des)construção de imagem pública e o papel da mídia nesse
processo. Como Fernando Collor de Melo venceu a corrida presidencial,
quais foram as estratégias de marketing político utilizadas, de que forma o
escândalo abalou a sua imagem, quais os interesses da mídia em Collor de
Melo e qual foi a participação da mídia na ascensão e na queda da imagem
do primeiro candidato eleito por voto direto após o regime militar à
Presidência da República (SILVA, 2012, p. 89).
O caso Fernando Collor de Melo é um exemplo do poder da mídia no processo de construção ou desconstrução da imagem. Isso se dá, por meio de informações manipuladas e sentido crítico ambíguo. É a partir das mensagens veicu ladas nos meios de comunicação e, principalmente, da televisão que esta estratégia se realiza.
Somos bombardeados diariamente por informações insignificantes que nada acrescentam, tampouco permitem a reflexão. Somos distraídos por programas de TV que nos apresentam um mundo belo e perfeito, distante do mundo real, repleto de problemas de toda ordem. Os esplêndidos comerciais que vendem marcas e produtos dos quais não precisamos e as mensagens de cunho emocional são algumas das táticas usadas pela mídia massificadora e alienante para manter a maior parte dos sujeitos na ignorância e na mediocridade.
Essa é também uma forma eficaz de evitar a construção de uma consciência crítica por parte dos sujeitos e, assim, promover mudanças sociais e culturais. Para Leão e Carvalho (2008, p. 27),
pela força com que se impõe o discurso contido na mídia, este acaba
construindo uma única visão do mundo, o que contribui para o fortalecimento
do pensamento único, mantenedor do status quo vigente.
Nessas reflexões, a destruição do “sentido crítico dos indivíduos” está prefigurada como possibilidade inscrita. Enquanto a mídia continuar conduzindo a sociedade por meio da imagem e do espetáculo, a atrofia da imaginação e a sangria da exploração dos indivíduos são possibilidades imanentes.
Isto nos coloca diante de uma série de desafios, decorrentes das transformações aceleradas, que nos fazem perder a noção de continuidade e a compreensão espaço-temporal. Prevalece o fugaz, o midiático, o imagético. Compreendemos, dessa forma, que:
A incorporação das mídias no ensino é uma realidade no mundo
contemporâneo a ser enfrentado e trabalhado constantemente para tentar
ultrapassar os objetivos imediatistas do mercado. Para tanto, necessita
discutir e debater as modificações em um mundo que está mudando
rapidamente; compreender através deste instrumento a importância da
Geografia como ciência comprometida em analisar e refletir sobre o espaço
construído e reproduzido pelo homem e, desta forma, possibilitar um olhar
mais aguçado dos alunos perante as informações que são disseminadas ao
público em geral e, assim, não serem tão influenciados pelas grandes
corporações midiáticas que disseminam diversos símbolos (CARVALHO,
2013, p. 11).
Podemos asseverar, portanto, que:
A Geografia, entendida como uma ciência social, que estuda o espaço
construído pelo homem a partir das relações que estes mantêm entre si e
com a natureza, quer dizer, as questões da sociedade, com uma “visão
espacial”, é por excelência uma disciplina formativa, capaz de
instrumentalizar o aluno para que exerça de fato a sua cidadania (CALLAI,
2001, p. 134, grifo nosso).
De acordo com Oliva (1999, p. 35), ao citar John Berger, um importante escritor anglo-saxônico, não geógrafo, “a Geografia é a mais poderosa e reveladora perspectiva, crítica do mundo contemporâneo”. Straforini (2004, p. 47) ao citar Oliveira (1998), afirma que: “a Geografia vem sendo chamada cada vez mais para explicar o mundo”. Nessa nova perspectiva a Geografia coloca no centro das preocupações as relações entre a sociedade, o trabalho e a natureza na produção do espaço geográfico. A Geografia
tem procurado pensar seu papel nessa sociedade em mudança, indicando
novos conteúdos, reafirmando outros, reatualizando alguns outros
(CAVALCANTI, 2002, p. 11).
Isso significa uma tentativa de compreender a realidade de forma mais crítica e mais aprofundada. Aliás, reside aqui um desafio: pensar o mundo em sua totalidade a partir de uma ciência parcelar. Nessa linha de raciocínio, entende-se que é preciso, portanto, formar uma consciência espacial para a prática da cidadania. O objetivo precípuo do ensino de Geografia deve ser o de criar um pensar geográfico que leve em consideração a realidade em seu movimento contraditório. Destarte, o papel da Geografia é ir além das atividades tradicionais, dos muros da escola, é transpor as barreiras invisíveis do cabresto midiático e assim superar a ideia de mundo real – o mundo do simulacro.
Nesse processo, o envolvimento dos sujeitos, em sua totalidade, é fundamental. A Geografia, na condição de ciência crítica, é ativa, possibilita a superação da ideia de que “nada sabemos ou somos sem o auxílio da mídia”. Pode nos capacitar a agir, interagir, refletir e, consequentemente, evitar o acúmulo de informações midiáticas. O verdadeiro desafio consiste na mudança radical do lugar e do significado da Geografia enquanto ciência.
O movimento aqui pretendido é a construção de uma “Geografia crítica radical”. Trata-se de uma Geografia, capaz de revelar as contradições constitutivas do processo desigual da produção contemporânea do espaço, e que pode potencializar o “negativo” desse processo. Ana Fani A. Carlos nos ajuda a pensar nessa direção ao propor o caminho da metageografia,
como uma nova inteligibilidade, através da crítica ao pensamento
estabelecido, realizaria a crítica da produção teórica sobre o mundo visando
entender, em profundidade, sua dinâmica contraditória por trás de “novas
aparências” que fundam um mundo de imagens e das ideologias. O
pensamento que vai à raiz das ações dominantes em nossa sociedade e as
ilumina, pode propor caminhos para a superação das alienações vividas por
uma sociedade submetida ao poder do Estado e das ideologias. Portanto,
um projeto deve sair do seio da sociedade e realizar-se para além do Estado
e esse é o nosso desafio (CARLOS, 2001, p. 1).
Esta orientação torna possível a elaboração de um projeto de uma sociedade mais justa, capaz de compreender e superar o paradoxo da servidão voluntária, num mundo dominado pela mídia, permeado pela imagem e submetido ao espetáculo.
Conclusão
Vivemos um momento em que os símbolos têm mais força do que a própria realidade, pois, as simulações se apresentam mais atraentes aos sujeitos do que o próprio objeto reproduzido. Nesse processo, a mídia exerce um importante papel de influenciar a percepção dos indivíduos que, cada vez mais, confundem a realidade com as representações. Somos bombardeados diariamente por uma excessiva exposição imagética na qual reina um simulacro, ou seja, uma encenação.
Somos distraídos por programas de TV que nos apresentam um mundo ideal, belo e perfeito, distante do mundo real, repleto de contradições. A mídia é a condutora de todo esse processo: por meio da imagem e do espetáculo, ela atrofia a imaginação, elimina a possibilidade de reflexão, massifica as opiniões, constrói e desconstrói imagens de políticos e personalidades de acordo com os seus interesses.
Somos alimentados por informações insignificantes que nada acrescentam, tampouco permitem o exercício do livre pensar. Estamos cercados de padrões e modelos fornecidos pela cultura da mídia, cujo foco é a imagem cuidadosamente lapidada como estetização da realidade. Sendo assim, o espetáculo aparece como abstração do mundo real. A Geografia, nesse contexto, tem como desafio formar uma consciência espacial capaz de superar o poder de influência da mídia, da imagem e do espetáculo.
Referências
ALVES, A. F.; ALVES, RAMAZOTTI, A. M. Mídia, corpo e cidadania: reflexões sobre a construção do sujeito na sociedade midiática. Revista Faz Ciência, Francisco Beltrão, v. 6, n. 1, p 137-
152, 2004. Disponível em <https://www.google.com.br/#-
q=m%c3%8ddia%2c+corpo+e+cidadania:+reflex%c3%95es+-
sobre+a>. Acesso em: 15 maio 2007.
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A “Geografia crítica” e a critica da Geografia. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, v. 11, n. 245, p. 1, ago. 2007. Disponível em
http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-24503.htm Data de acesso: 15/05/2001
CALLAI, H. C. A Geografia e a escola: muda a Geografia? Muda o ensino? Revista Terra Livre, São Paulo, n. 16, p. 133-152, 1 sem. 2001. Disponível em
<http://www.agb.org.br/publicacoes/index.php/terralivre/article/viewFi
le/353/335>. Acesso em: 15 maio 2007.
CAVALCANTI, L. de S. Geografia e prática de ensino. Goiânia: Alternativa, 2002.
BAUDRILLARD, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1981.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. São Paulo: Contraponto, 2003.
LEÃO, V. de P.; LEÃO, I. de C. Ensino de Geografia e mídia – linguagens e práticas pedagógicas. 2. ed. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012.
MAFFESOLI, M. No fundo das aparências. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
MÁXIMO, H. C. A presença da mídia na ação política: evidências de uma influência discursiva. 2008. 121 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política)– Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2008.
OLIVA, J. T. Ensino de Geografia: um retardo desnecessário. In: CARLOS, A. F. A. (org.) A Geografia em sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999.
PEREIRA. T. M.ª A. O espetáculo de imagens na ordem do discurso midiático: o corpo em cena nas capas da Revista Veja. [2013]. 203 f. Tese (Doutorado em Linguística)– Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2013.
SETTON, M.ª da G. Mídia e educação. São Paulo: Contexto, 2011. SILVA, J. G. da. A mídia na construção e destruição da imagem: o caso Collor de Melo. Revista Senso Comum, Goiás, Samambaia, n. 2, p. 88-106, 2012.
THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Vozes, 2002.