Geografia e Ensino: Dimensões Teóricas e Práticas para a Sala de Aula
Seção II - Ensino de geografia: dimensões teóricas para reflexão e auxílio à prática em sala de aula
Seção II - Ensino de geografia:
dimensões teóricas para
reflexão e auxílio à prática em
sala de aula
Rio Almada: agonia de uma
alma hídrica
Lurdes Bertol Rocha
O rio não precisa ser nosso; a água não precisa ser nossa. A
água anônima conhece todos
os meus segredos. E a mesma lembrança jorra de cada fonte.
Gaston Bachelard
Nunca dê nome a um rio: sempre é outro rio a
passar.
Mário Quintana
Antes da introdução
O texto que se segue é resultado de reflexões após reler a monografia produzida nos anos de 1995, cujo título é “Caracterização ambiental da bacia do rio Almada (sul da Bahia) – aspectos socioambientais” (ROCHA; AZEVEDO; CARMO, 1995). As informações sobre a bacia, seus aspectos naturais e socioculturais são resultado de pesquisa de campo (constantes na monografia acima citada), entrevistas com ribeirinhos, pesquisas feitas pela instituição federal Comissão Executiva para o Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e pesquisas na internet (principalmente as fotos). O objetivo desse texto é oferecer aos professores do ensino básico uma reflexão sobre a importância de se conhecer o que está acontecendo com os rios de sua cidade, de seu município, discutir isso com os alunos, com a comunidade; levar os alunos a observarem o comportamento da comunidade no que tange ao uso das águas de seus rios, a forma como os tratam, etc. Sem entender, efetivamente, as causas e os efeitos dos problemas vividos pelos rios, não há como tomar consciência de sua importância e das ações a serem executadas para trazer de volta a vida dessa fonte tão importante para a manutenção do ecossistema de nosso planeta.
Introdução
A vida deve sua existência a uma harmoniosa combinação entre os elementos: terra, ar, água e fogo. São eles básicos para tudo o que existe no planeta Terra. Do reino vegetal ao humano, a terra é o suporte para seu desenvolvimento. Se a terra é o berço da vida, o ar é a sua fonte, pois é ele que carrega vida para nossos pulmões e é ele que transporta para fora o que já não serve mais. É através do primeiro sopro que vivemos, e do último, que partimos. O fogo, por suas propriedades, é capaz de transformar a matéria em novas substâncias, até mesmo reduzi-las a cinzas. De maneira geral, nenhuma impureza, quer seja mineral ou orgânica, pode resistir à sua ação. É por isso que os antigos alquimistas o utilizavam como agente de transmutação em suas tentativas de transformar metais. O fogo, ao se consumir, gera luz e é fonte de calor. A água, tema mestre deste trabalho, forma em torno de 70 % de nosso corpo, entrando com 90 % na composição de nosso sangue. De maneira geral, é indispensável a todos os seres vivos. A água é uma necessidade absoluta para nosso bem-estar físico, pois é o único agente natural que podemos utilizar para nossa limpeza pessoal e para nos refrescar. Não foi à toa que, desde os primórdios, os seres humanos procuraram instalar suas moradias junto a rios, nascentes de água ou lagos. As plantas não podem crescer sem, regularmente, receber água, seja através da chuva, do orvalho ou da umidade do ambiente.
Os rios, assim como as veias no corpo, carregam a água, líquido precioso para irrigar a terra, umedecer o ar, dar vida às plantas, abastecer as cidades, matar a sede dos seres que circulam pelo planeta, lavar a sujeira, banhar e limpar os corpos suados do labor diário, refrescar os dias quentes, apagar o fogo que devora florestas, lavouras e cidades. Assim como há veias salientes, visíveis no corpo humano, e veias internas, de grosso calibre e também minúsculas, há rios que correm no interior da Terra, os lençóis freáticos, reservas de água à espera de serem trazidas para fora, de forma natural, ou através de perfurações. Os rios são as veias do planeta Terra, são a sua alma. E, não por acaso, o rio deste capítulo chama-se Almada.
As águas do rio Almada, em grande parte de seu percurso, sofrem agressões provindas dos agrotóxicos utilizados nas lavouras e dos dejetos das cidades por onde passa. Sua proteção depende da conservação do sistema agroflorestal do cacau, já que o rio tem seu curso inteiro na Região Cacaueira e é uma referência cultural importante. Nasce e abraça o município de Almadina e segue beneficiando milhares de pessoas por Coaraci (neste trecho o rio registra a pior qualidade de suas águas), Ibicaraí, Itabuna (não passa por seu território, mas abastece a cidade), Itajuípe, Lomanto Júnior e Uruçuca, até se ligar à lagoa de Itaípe (conhecida popularmente por lagoa Encantada) e desaguar na enseada da
Barra, em Ilhéus (http://rioalmada.no.comunidades.net/index.php).
A economia dos municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Almada (BHRA) se baseia na lavoura de cacau que, em sua maior parte, foi plantada no sistema cabruca (plantação do cacau no sub-bosque da mata primária, promovendo um convívio harmônico e duradouro com a natureza), de grande importância ecológica por conservar grande parte das árvores nativas como sombreamento para o cacau. Atualmente, em decorrência da crise regional, tal lavoura corre o risco de ser eliminada pela exploração da madeira dos remanescentes florestais e, posteriormente, substituída por outra cultura ou pela pecuária, em geral, menos conservacionistas que a cacauicultura.
Características gerais
A Bacia Hidrográfica do Rio Almada (BHRA)
A BHRA, junto com a bacia hidrográfica do rio Cachoeira que banha outros municípios, constituem a chamada Região Cacaueira,
inserida na microrregião Ilhéus-Itabuna (FIGURA 1), é parte integrante da Bacia Hidrográfica do Atlântico Leste. Esta região é historicamente conhecida pela riqueza oriunda da exportação do seu principal produto agrícola: o cacau. Porém, desde 1989, o cultivo do cacau, nesta região, vem sofrendo uma profunda crise, que tem como aspectos característicos básicos a baixa dos preços no mercado internacional, a instabilidade climática que se verificou nos últimos anos e o intenso ataque de uma praga conhecida como “vassoura de bruxa”, que devastou grande parte da lavoura cacaueira (FERANDES, 1998).
FIGURA 1 – Bacia Hidrográfica do Rio Almada (BHRA), sul da
Bahia
Fonte: Laboratório de Análise e Planejamento Ambiental
(LAPA/UESC).
Nota: Elaboração de Cristiano Marcelo Souza, 2011.
No topo de uma serra, a Almada-Salomé, no município de Almadina, sob uma lama escura que encobre uma camada de areia, rasgam a terra, de forma borbulhante, as águas que vão dar origem a dois rios: o Salomé, que toma a direção da cidade de Ibicaraí, e o Almada, que desce na direção de Almadina. Este berço, protegido por pouca vegetação que ainda garante sua existência, poderá desaparecer se não forem tomadas medidas urgentes para lhe garantir o direito de continuar sendo o responsável pelo nascimento/renascimento contínuo das águas que dão origem a esses rios (observação da autora in loco, em pesquisa de campo, 1995).
O relevo da bacia percorrido pelo rio Almada é montanhoso e escarpado a oeste, onde se localizam as principais serras da região: Pereiro, Cordilheira Pelada, Domingos do Corcovado, Santa Izabel, da Bandeira, dos Macacos, Fala Homem e a do Almada-Salomé, com altitude máxima de 670 m. Na parte central, nordeste e sudoeste, o relevo se apresenta ondulado e suave ondulado. Junto à foz, em Ilhéus, o relevo se apresenta sob uma estreita faixa plana.
O solo, se não é o elemento mais evidente da paisagem, é o mais típico porque reflete, geralmente, de maneira bastante fiel, a interação dos diversos componentes do meio físico (rocha, clima, relevo, organismos e tempo). Baseando-se no levantamento dos solos da Região Cacaueira baiana, ao nível dos grandes grupos, realizada pela CEPLAC (1976), podem-se destacar, em linhas gerais, os solos da BHRA, em: solos podzólicos (terço superior e terço médio); solos latossólicos, orgânicos e de areais quartzosas (terços médio e inferior).
O clima da região percorrida pelo rio Almada é do tipo tropical úmido, com médias térmicas em torno de 23º C a 25º C, sendo os meses mais quentes os de outubro a abril, e os menos quentes, de julho a agosto. As características climáticas da região, em geral, alteram-se no sentido leste-oeste. A própria vegetação nativa indica que, na extremidade leste (zona costeira), é do tipo higrófila, enquanto na extremidade oeste (zona de planalto) já apresenta características de caatinga ou de mata cipó.
Como em grande parte das bacias hidrográficas brasileiras, a vegetação do BHRA se encontra bastante alterada. O cultivo do cacau e as pastagens substituíram as áreas inicialmente cobertas por floresta perenifólia higrófita e ribeirinha. Também formações secundárias de capoeira substituíram a vegetação original. De acordo com Santana; Melo e Leão (1986), a capoeira é formada por árvores de pequeno diâmetro, variando da forma arbórea à arbustiva, destacando-se a umbaúba, a coarana e a corindiba.
Ao longo do rio, nas áreas mais alagadas e úmidas, encontra-se o mangue doce, constituído, principalmente, de arruda e aninga. Nos locais onde a velocidade da água é pequena, encontram-se “ilhas” de macrófitas, destacando-se a baronesa (aguapé) e a alface d’água. Entre Sambaituba e a foz, observa-se a presença do “mangue doce”, que vai sendo substituído pelo mangue salgado nas áreas onde a influência da salinidade é mais constante. Junto à foz, nos cordões arenosos, encontram-se grandes extensões de coco-da-bahia. Segundo o Plano Piloto do Município de Ilhéus (PLAMI, 1969), estas áreas de restinga existem ligeiramente acima das marés altas atuais (1,5 a 2,0 m). As áreas de restinga se encontram muito alteradas, ocupadas por empreendimentos turísticos, condomínios e residências (ROCHA; AZEVEDO; CARMO, 1995).
O rio Almada
O rio Almada, com uma extensão de 94 quilômetros, espinha dorsal da bacia de mesmo nome, situada no sul da Bahia, limita-se ao norte e ao sul com as bacias hidrográficas do rio das Contas e do rio Cachoeira, respectivamente. A leste descortina-se o Atlântico. Esta bacia, localizada entre os paralelos 14º26’ e 14º50’ sul e os meridianos 39º03’ e 39º44’ oeste, é um dos importantes sistemas naturais da região sul da Bahia, já que as principais cidades da região estão situadas nela ou pelo fato de se utilizarem de suas águas nas atividades econômicas, domésticas e culturais (Itabuna não é banhada pelo rio, mas se abastece dele). O rio que atravessa a cidade é o Cachoeira, cujas águas não são utilizadas para consumo.
O rio Almada, em toda sua extensão, percorre a Região Cacaueira desaguando na Enseada da Barra, em Ilhéus. Em 2003, pelo Decreto Estadual n.º 8.650, de 22/09/2003, tornou-se uma Unidade de Conservação Estadual, com o decreto de ampliação da Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada (Decreto Estadual n.º 2.217, de 14/07/93), que tem como gestor o Estado, através da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH). Uma parceria com a Associação Brasileira de Apoio aos Recursos Ambientais (ABARÁ) viabilizou a criação de seu Conselho Gestor, com participação dos mais diversos setores da sociedade.
Dentre os afluentes do Almada destacam-se, à margem direita, os ribeirões dos Macacos e do Boqueirão, o riacho Sete Voltas e o rio Tariri. À margem esquerda, os rios São José, Braço do Norte, De Jussara, Vai-Quem-Quer, Comprido e o canal da Lagoa de Taípe ou Lagoa Encantada.
No curso inferior, o rio Almada, antes de desembocar no mar, em Ilhéus, percorre uma depressão cujos bordos possuem declividades variáveis. Ao norte dessa depressão encontra-se a lagoa Encantada. A sudoeste e a oeste da lagoa, as encostas sobem abruptamente, através de uma rede de elevações acentuadas. A noroeste, os contornos da zona baixa alagadiça estão em contato com uma faixa de relevo ondulado. A leste, a depressão se fecha e o rio Almada cruza um estreitamento dos bordos, formados por colinas mamelonizadas e, finalmente, entra na planície costeira (ROCHA; AZEVEDO; CARMO, 1995).
Para o interior, o rio Almada percorre um trecho de ondulações em forma de escudos, separados por vales largos e chatos. Nos limites ocidentais de Ilhéus, próximo à confluência com o rio do Braço, o modelado se movimenta e sobe para o sul, formando uma área de elevações fortes, quase montanhosas, com depressões, onde apontam matacões ou bolsas de rochas graníticas de vários metros de diâmetro. Na barra do rio Almada, um pontal arenoso encontra-se em construção acelerada, ameaçando fechar a sua foz.
O traçado do rio Almada é tortuoso, apresentando numerosos meandros. No trecho em que percorre áreas do município de Ilhéus meandra em planícies aluviais, estreitando-se somente no setor que antecede a sua saída na depressão circunvizinha à lagoa Encantada. A largura da depressão oferece as condições para o espraiamento das enchentes. Nela, os problemas ligados às inundações se restringem a um acréscimo de extensão de terrenos alagados, nas proximidades dos distritos de Castelo Novo e Sambaituba, com repercussão na área do litoral, a norte de Ilhéus (CEPLAC, 1976).
Em sua caminhada em direção ao mar, receptáculo de suas águas já cansadas e poluídas, o Almada passa por várias cidades que o tornam o transporte de seus dejetos.
Almadina, nascida de seu nome, dista aproximadamente 455 quilômetros da capital, Salvador. O rio Almada nasce em suas terras e, já, ao passar pela cidade, está bastante poluído. Resumindo os depoimentos verbais de moradores colhidos em 1995, em Almadina, para a elaboração da monografia Caracterização Ambiental da Bacia do Rio Almada (Sul da Bahia) – aspectos socioambientais (ROCHA; AZEVEDO; CARMO), temos a seguinte fala: “Crianças mergulhavam em lugares onde hoje não há mais que meio metro de água”. Para ligar uma margem à outra, dentro do perímetro urbano, na década de 1950 foi construída “Uma ponte sobre o rio Almada, que hoje é uma ponte sobre um mero riacho” (depoimento do “seu” Zé). Continuando a falar sobre as mudanças, o morador conclui:
Olhem os nossos morros, os morros que circundavam Almadina. Vejam
como se encontram. Aqui, o desmatamento predatório, criminoso, deixou
nossas montanhas desnudas. Antes, era lindo ver os ipês amarelarem o
verde da montanha (FIGURA 2).
FIGURA 2 – Almadina: região de Sete Paus – berço do rio
Almada
Fonte: <http://acordameupovo.blogspot.com>.
Nota: Fotografia Marcos Souza, 2008.
O município de Coaraci, até 1919, era encoberto por matas inexploradas, com plantações de cacaueiros e pequenas pastagens, e o rio Almada corria por lá fagueiro e garboso. Hoje, segundo um dos moradores entrevistados para o projeto citado à página 63:
É um esgoto a céu aberto. O rio foi responsável pelo surgimento das cidades
do cacau. Agora está sendo destruído sem dó nem piedade.” [Outro morador
acrescenta:] “O rio Almada não é mais um produtor de riqueza, pois foi
transformado num ribeirão, ribeirão do Almada [FIGURA 3]. É pena que
meus filhos não possam herdar o rio Almada como eu herdei de meus pais.
FIGURA 3 – Coaraci: sem a mata ciliar, o rio Almada agoniza
Fonte: <http://acordameupovo.blogspot.com>.
Nota: Fotografia Marcos Souza, 2008.
Itajuípe é abastecida com a água do rio Almada, captada à altura de Três Paus, na sede do município. Ao atravessar a cidade, suas águas, em adiantado processo de eutrofização, estão poluídas, com lixo acumulado no leito e nas margens. Segundo informações de seus moradores, a poluição do rio Almada, ao atravessar as terras do município, dá-se, basicamente: a) pelo uso de agrotóxicos; b) pelo esgoto da cidade lançado em suas águas; c) pelo aterro sanitário nas margens e no leito do rio; d) pela inexistência da mata
ciliar, assoreando o leito (FIGURA 4).
FIGURA 4 – Itajuípe: apesar do esgoto, o rio Almada se renova
Fonte: http://acordameupovo.blogspot.com
Nota: Fotografia Marcos Souza, 2008.
Em Uruçuca, a água que abastece a cidade é captada de um dos afluentes do rio Almada, visto suas águas estarem em alto grau de eutrofização.
As águas do rio Almada, em Ilhéus, não são utilizadas para consumo, pois chegam com alta carga de poluição. O rio, ao atravessar as cidades já mencionadas, vai acumulando toda sorte de detritos jogados em seu dorso e em suas profundezas, que já não tão profundas assim, para que sejam despejados no mar. Suas águas, que deveriam chegar esfuziantes, pois estão chegando a seu destino final, para sua purificação e reinício de todo o ciclo, através da evaporação, chegam engrossadas pelo esgotamento sanitário, por detritos. Contudo, passa por momentos felizes, ao atravessar a mata que protege as lavouras de cacau.
Em Aritaguá, distrito situado na zona norte de Ilhéus, metade dos esgotos domésticos é lançada diretamente no rio Almada. Outros 25 % vão para os quintais das casas e, fatalmente, também contaminam o rio. O restante segue para fossas sépticas. Apesar disso, ele continua bravamente sua caminhada, renovando-se um pouco ao atravessar as matas que protegem o cacau e, aliviado, joga-se ao mar, túmulo e berço de renovação de suas águas
(FIGURA 5).
FIGURA 5 – Ilhéus: o rio Almada fortalecido pela Mata Atlântica e
as árvores das fazendas de cacau
Fonte: <http://acordameupovo.blogspot.com>.
Nota: Fotografia Marcos Souza, 2008.
Em Barro Preto, a captação de água para consumo é feita na Serra da Palha, em um local denominado de “Pedra Lascada”. Nesse município, o rio Almada não sofre agressões tão drásticas. Isso se deve a que o rio corre fora da área urbana.
Um estudo feito pelo CEPEMAR (1990) chamava a atenção sobre os impactos socioeconômicos decorrentes de se implantar a captação de água do rio Almada, no distrito de Castelo Novo, para abastecer a cidade de Itabuna. Esses impactos incidiram sobre os municípios da sua bacia e, mais diretamente, sobre as populações dispersas ao longo do trecho que o rio percorre no município de Ilhéus, a jusante de Castelo Novo. A hipótese dos impactos:
Baseia-se no aspecto de que, quaisquer repercussões sobre o rio Almada
afetarão as populações envolventes, quer seja mediante alterações
introduzidas no ecossistema e, consequentemente, nos modos de vida, quer
através das restrições que poderão ser impostas ao aproveitamento do rio,
em suas várias modalidades: fonte de água (consumo humano e não
humano), fonte de transporte, de subsistência econômica direta (captação de
peixes e moluscos) e indireta (produção agrícola e pecuária) que igualmente
poderão ser atingidas (CEPEMAR, 1990, p. 80).
É importante ressaltar que as populações se formaram ao longo da BHRA, tanto espacial, quanto economicamente. As atividades produtivas se adaptaram às características do ecossistema, incluindo o rio. Ecológica e culturalmente, as populações, ao longo da sua bacia, estão ligadas ao rio Almada e dele dependem, visto que se dedicam à pesca, ao uso da água para suas necessidades diárias, usam-no como para transporte, lavagem de roupa, banho, etc. Contudo, algumas comunidades não consomem a água do rio, por considerarem-na inadequada, como é o caso das populações dos distritos de Aritaguá, Sambaituba, Sequeiro Grande, entre outros. Servem-se de água de “bicas”, nascentes e pequenos córregos que, frequentemente, localizam-se em fazendas de particulares. A justificativa para não consumirem a água do rio é a poluição devido ao constante despejo de dejetos domésticos, deixando-a com a cor escura. A diminuição, nos últimos anos, do volume de água do rio Almada é atribuída, principalmente, ao desmatamento das cabeceiras. Este desmatamento foi constatado in loco, apesar de, no alto da serra, onde as águas dão origem ao Almada, a mata ainda ser relativamente fechada. Mas, nas proximidades, ela deixou de existir há mais de 60 anos, conforme testemunho dos moradores que lá nasceram e já ultrapassaram os 70 anos de idade.
Os nativos olham para o futuro com temor, ciosos de sua dependência do rio, e da responsabilidade que lhes caba em conservá-lo, conforme afirmaram os entrevistados citados na página 63: “A beira do rio hoje é manga de gado. Esqueceram que os brejos, as beiras do rio é onde o peixe desova, não pode desmatar. Acaba o brejo, onde o peixe vai criar? Tem que prevenir o futuro”. A professora e poetisa Claudia Pereira Santos Castro (CASTRO, 2011) resume a situação do rio com seus versos:
O Almada
Ele nasce em Almadina,
Menina.
Dizem que vem das almas,
Que nada!
Surgiu quando o homem
Sentia da floresta o rebentar
Da alvorada.
Quando penso nesse rio,
Rio…
Sorrio e falo
Agora é desafio
Sua água tá que nem fio,
Tá da cor de nada.
Ai que vontade de salvar o
rio Almada!
[…]
Fonte: Blog Ligação direta, 07/02/2011.
Uso das terras na bacia hidrográfica
do rio almada (BHRA)
O espaço ocupado pelas atividades agrícolas da BHRA é significativo, desenvolvendo-se nele uma agricultura voltada para as demandas dos mercados externos e uma pequena policultura distribuída por toda área: tradicionais cultivos de subsistência, monocultura do cacau, especiarias, cultivos exóticos que atendem a uma demanda externa, pastagem extensiva, silvicultura, entre outros.
Estes cultivos, bem como as pastagens, do ponto de vista da área ocupada substituíram, de leste para oeste, a floresta, inclusive a faixa também conhecida como Mata Atlântica. Exceção é feita por manchas significativas, na maioria das vezes, protegidas por leis sob a forma de Unidades de Conservação (UC).
A cobertura vegetal se encontra reduzida a pequenas manchas na Mata Atlântica, na sua maior parte descaracterizada, mantida como suporte do cacau. De modo geral, predomina a vegetação secundária, que ocupa extensões significativas em diversos estágios de regeneração.
Na faixa litorânea, os ecossistemas costeiros vêm sofrendo a ação predatória, principalmente os manguezais, utilizados como depósito de lixo. Em alguns trechos, verificou-se a devastação da vegetação e do aterro, devido à expansão urbana.
Os mangues se constituem em um dos ecossistemas costeiros de maior produtividade, típico das zonas tropicais, resultantes dos processos de acumulação flúvio-marinha, localizados, geralmente, nos deltas dos rios. Esse ambiente é povoado por uma vegetação de florestas halófilas, bastante peculiar, com alta densidade e pouca variação de espécies, tolerância aos altos teores em sal e baixas concentrações de oxigênio. Além disso, o sistema é alimentado pelas marés altas que alagam os mangues, trazendo material orgânico e argila em suspensão, os quais entram na cadeia alimentar costeira, criando um ambiente favorável ao desenvolvimento de várias espécies. Assim, os manguezais são hospedeiros de uma fauna rica, povoada, principalmente, por moluscos e crustáceos, servindo, ainda, de refúgio para várias espécies marinhas, principalmente na fase de reprodução, constituindo-se em ambiente vital para a manutenção da atividade pesqueira.
Pode-se observar a degradação dos manguezais no litoral de Ilhéus, seja pela poluição causada pelo esgotamento sanitário, desmatamento indiscriminado, aterros para a expansão urbana, seja pelo uso predatório realizado pela população carente, ou mesmo pelos empreendimentos turísticos.
Faz-se necessária a tomada de consciência quanto à importância biológica do mangue para a economia pesqueira, sobretudo considerando-se que representa uma grande fonte de alimentos para a população litorânea.
Dentre as atividades agrícolas desenvolvidas nessa região, o cacau se destaca como uma das principais culturas comerciais, com importante desempenho na economia, porém, em decadência, com algumas plantações abandonadas, devido às pragas que vêm dizimando essa cultura, principalmente o fungo moniliophtora perniciosa, mais conhecido como “vassoura-de-bruxa”. O desmatamento da Mata Atlântica está em processo acelerado, apesar de a legislação proibir o desmatamento e disciplinar o uso de seus recursos.
Em toda a área da BHRA se desenvolve o cultivo de cacau, com sombreamento de mata raleada e/ou plantações de banana. Em menor escala, pastagens, piaçava, seringueiras e culturas de subsistência. A noroeste de Coaraci se encontram pastagens extensivas, com testemunhos de floresta perenifólia, associada às culturas de cacau, cravo, seringueira e culturas de subsistência. A área da lagoa Encantada se constitui numa Área de Proteção Ambiental (APA), a qual abrange o litoral norte do município de Ilhéus, além dos municípios de Uruçuca, Itajuípe, Coaraci e Almadina, no litoral sul da Bahia, com uma área de 157.745 ha. A lagoa Encantada, que dá nome à APA, é formada dos rios Pipite e Caldeiras, e forma um conjunto harmônico com beleza e exuberância da Mata Atlântica. Além da floresta, cachoeiras, nascentes e cavernas, a APA abrange uma área litorânea onde são encontradas restingas e manguezais. Diversas reservas particulares estão implantadas ou em fase de implantação.
Paralelamente às atividades agropastoris mencionadas, outras se destacam com desempenho importante na economia local e regional, como o setor industrial, representado por distritos industriais de Itabuna e Ilhéus.
Conclusão
Toda a vida no planeta Terra se resume em seus quatro elementos: fogo, ar, água e terra. A ciência geográfica, em sua trajetória, andou por vários caminhos, por várias geografias, passando pelo fogo das experiências, planando em ares os mais diversos, respirando fundo, sem pouso certo, purificando-se e se renovando nas águas de novas descobertas e pousando na terra, onde vivem os homens, nos mais diversos meios, nos mais variados territórios, construindo, reconstruindo, imaginando novos lugares, novas paisagens, debatendo-se num emaranhado infinito de relações sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas. Nessa caminhada, é claro, também tenta relacionar-se de maneira harmônica com a Mãe Terra. Estes mesmos elementos podem ser vistos em devaneios, de forma intimista, conforme Clauhs (2008, p. 52), já que somos seres duais:
Elementos
Nascemos para vencer obstáculos
Enfrentar as brasas ardentes sob os pés
E chamuscar a vida com amor ante o revés.
Fogo.
Vivemos para distribuir alegrias,
Insuflar aromas doces pelos pulmões,
E oxigenar a luz que aviva os corações.
Ar.
Morremos para nos aproximarmos da fonte divina,
Inundar com gotas de mel lábios ressecados,
E adoçar o sangue que nos mantém alimentados.
Água.
Renascemos para provar a nós mesmos
Que viver é moldar a areia granulada
E retornar ao lar do Pai após curta temporada.
Terra.
Assim, o rio Almada, cuja alma foi desnudada nesse estudo, precisa de proteção para que sua caminhada prossiga sem percalços, alimentando a terra com sua umidade, abrigando a vida que nele se desenvolve, respirando o ar puro à medida que serpenteia pela Mata Atlântica, devolvendo umidade à atmosfera a fim de se transformar, novamente, em gotas que formam as nuvens que, quando saturadas, caem em forma de chuva e voltam novamente ao leito, num abraço carinhoso das águas que ali ficaram à sua espera para prosseguir na caminhada que é eterna enquanto durar.
A proteção do rio Almada e de seu entorno depende da tomada de consciência da população que vive em seu entorno, pois é nítida a fragilidade ambiental. À medida que há mudança de uso e ocupação em sua bacia, altera-se o grau de fragilidade, em função da dinâmica de ocupação, requerendo, portanto, como já foi afirmado anteriormente, conscientização de todos, através da educação ambiental.
Referências
CASTRO, C. P. S. Poema sobre Rio Almada ganha prêmio em
Salvador. In: http://noticiasligacaodireta.blogspot.com.br, 7/2/2011.
CEPEMAR – SERVIÇO DE CONSULTORIA EM MEIO AMBIEMTE LTDA. Estudos de avaliação ambiental da área sob influência da captação d’água do rio Almada. Ilhéus: Prefeitura Municipal de Ilhéus, 1990. (Relatório Técnico)
COMISSÃO EXECUTIVA DO PLANO DA LAVOURA CACAUEIRA (Ceplac). Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira: recursos hídricos. Ilhéus: CEPLAC, 1976. v. 5.
CLAUHS, A. R. Elementos. Revista O Rosacruz, n. 263, p. 52. Curitiba: Grande Loja de Língua Portuguesa, 1º trimestre, 2008. FERANDES, A. S. A. Manejo integrado da bacia hidrográfica do rio Almada. São Paulo, [200-?]. Disponível em:
<http://www.eaesp.fgvsp.br>. Acesso em: 4 jul. 2011.
PLANO PILOTO DO MUNICÍPIO DE ILHÉUS (PLAMI). Rio Almada. llhéus, 1969. Disponível em:
<http://rioalmada.no.comunidades.net/index.php>. Acesso em: 17 nov. 2010.
ROCHA, L. B.; AZEVEDO, S. M. M. M.; CARMO, W. P. Caracterização ambiental do rio Almada (sul da Bahia): relações socioambientais. 1995. Trabalho de Conclusão de Conclusão de Curso (Especialização em Desenvolvimento e Gestão Ambiental)– Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, 1995.
SANTANA, S. O.; MELO, A. A. O.; LEÃO, A. C. Levantamento semidetalhado dos solos do município de Itajuípe. Ilhéus: CEPLAC, 1986. (Boletim Técnico 142).