Geografia e Ensino: Dimensões Teóricas e Práticas para a Sala de Aula
A literatura como recurso no ensino de geografia: 7° ano do ensino fundamental
A literatura como recurso no
ensino de geografia: 7° ano do
ensino fundamental
Luziana Carvalho dos Santos, Glória Maria de Oliveira Silva, Tereza G. N. Torezani Fontes
Introdução
O estudo em questão é uma pesquisa bibliográfica referente ao ensino de Geografia e à relevância de textos literários, bem como a preparação de uma proposta didática para as aulas de Geografia. O ensino, precisamente o de Geografia, muitas vezes está sendo transmitido a partir de aulas tradicionais, nas quais o aluno é obrigado a memorizar o conteúdo, esquecendo que “O ensino de Geografia, seja ele em qual nível for, deve buscar a totalidade-mundo” (STRAFORINI, 2004, p. 84).
O processo de ensino e aprendizagem é imbuído de uma série de significados. O ato de ensinar e, sobretudo, de aprender, é carregado de buscas e muita reflexão. Educar não é um ato de transmissão de saberes, pois, nesse processo, tanto professor quanto alunos se envolvem num movimento contínuo de troca. Procurar buscar e utilizar metodologias que assegurem não só o conteúdo, mas a garantia da aprendizagem por parte do aluno, tornando o ensino de Geografia mais prazeroso e, sobretudo, atraente.
O estudo tem como objetivo principal analisar a linguagem geográfica presente nos textos literários, aplicados no ensino de Geografia no 7º ano do ensino fundamental. Como objetivos específicos, discutir a importância do texto literário para o ensino de Geografia, propor a utilização de textos literários para o ensino de Geografia do 7° ano do ensino fundamental e, ainda, elaborar uma proposta didática de como usar os textos literários.
Utilizar metodologias de ensino que consigam inserir os alunos no seu contexto social, através de diálogos abertos, irá tornar o ensino da Geografia algo produtivo e interligado às inovações do mundo moderno, no qual nossos alunos estão inseridos.
Entende-se que a busca por novas formas de aprendizagem deve fazer parte do cotidiano dos professores. Quando se chega à sala de aula, muitas vezes, os alunos já estão cansados e sem ânimo para trocarem as experiências vividas com as que a escola tem a oferecer. Segundo Straforini (2004, p. 81), “O aluno deve ser inserido no que se está estudando, proporcionando a compreensão de que ele é um participante ativo na produção do espaço geográfico”.
Inovar as aulas de Geografia é torná-las interessantes e críticas, pois instiga a curiosidade dos alunos e interliga assuntos que, nos livros didáticos, parecem não ter conexão. De forma mais específica se pode dizer que, além de uma renovação no modo de ensinar, a construção do conhecimento, através de metodologias variadas, é uma atividade que aproxima o aluno da realidade que o cerca e o faz entender melhor sua relação com o mundo.
O ensino de Geografia na sala de aula
O ensino de Geografia no Brasil está intimamente ligado à fundação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. Inicialmente era concedido ao profissional habilitação para também ensinar História. Em 1957, com a separação entre esses dois cursos, a Geografia passou a ser trabalhada e pensada como uma disciplina meramente decorativa, enfadonha, descritiva, em que a habilidade da memorização era extremamente valorizada. Como fonte de conhecimento, o professor se baseava no livro didático como forma de transmissão do conteúdo, muitas vezes desconectados e não relacionados com a realidade do aluno e sua relação com o meio:
O que ocorre na realidade é que os professores (todos), obviamente os de
Geografia também, estão envolvidos num processo dialético de dominação,
qual seja, o professor foi educado a ensinar sem pôr em questão o conteúdo
dos livros didáticos, sem que o produto final de seus ensinamentos fossem
ferramentas com as quais eles e seus alunos vão transformar o ensino que
praticam e, certamente, a sociedade em que vivem (OLIVEIRA, 1990, p. 28).
Desta forma, ensinar Geografia é transmitir conceitos do mundo em que todos estão inseridos, assim conforme ressalta Lacoste (1989, p. 251):
Para fazer compreender quais são os problemas fundamentais que coloca o
ensino da Geografia e a importância das lutas, parece-me indispensável
lembrar isso: a Geografia já existia bem antes que aparecesse, no século
XIX, sua forma escolar e universitária. Desde há séculos, desde que existem
os mapas, ela é um saber indispensável aos príncipes, aos chefes de guerra,
aos grandes comissários do Estado, mas também aos navegadores e aos
homens de negócios, ao menos para aqueles cujo espírito de
empreendimento se exerce além do quadro espacial que lhes é familiar.
Geralmente o que acontece em sala de aula é uma preocupação por parte dos professores, especificamente os de Geografia, em abordar tudo o que está nos livros didáticos, esquecendo-se de selecionar o que realmente tem importância para a vida do aluno enquanto cidadão. Segundo Pontuschka (2009, p. 98),
A falta de domínio de conceitos básicos por parte dos alunos, sobretudo em
Geografia, envolvendo conheci mentos tanto da natureza quanto da
sociedade, levam os professores, muitas vezes com certo desespero, a
tentar abarcar uma gama enorme de conteúdos na tentativa de suprir essa
deficiência. Tal prática com frequência se reve la frustrante justamente
porque não só é impossível dar conta de todo o conteúdo, mas, em muitos
casos, ele é abordado de forma desligada da realidade.
A Geografia é uma ciência rica em seu conteúdo, sendo o espaço geográfico seu campo de estudo. Assim, cabe aos professores aprimorar suas formas de ensinar, a fim de satisfazer os anseios dos alunos, pois, em muitos casos, somente levam textos desconectados e complexos, os quais têm pouco a ver com a realidade cotidiana destes, não exercendo suas capacidades de reflexão. Em conformidade com Castrogiovanni (1999, p. 129),
A seleção do material didático utilizado deve ser alvo de uma constante
discussão; inicialmente, deve ser feita uma reflexão profunda, a partir de
questões metodológicas da Geografia.
No processo de ensino-aprendizagem é vital a interação do professor e aluno. Juntos podem ampliar o conhecimento e fazer com que o ensino de Geografia se insira em um novo patamar na educação. Para tanto:
O professor deve deixar de dar os conceitos prontos para os alunos, e sim,
juntos, professor e alunos participarem de um processo de construção de
conceitos e de saber. Nesse processo, o professor deixa de ser um mero
transmissor de conhecimentos e o aluno mero receptáculo do saber
(OLIVEIRA, 1990, p. 140).
Castrogiovanni (1999, p. 66) afirma que
É fundamental de parte do professor uma atitude de questionamento, de
provocação, de abertura à inquietude, curiosidade, deslumbramento do
aluno, dos muitos mundos que os alunos representam.
O professor deve estar atualizado com métodos novos de ensino e estimular o aprender, mas como fazer? Desta forma:
O objetivo dos professores compromissados com o ensino é fazer escolhas
ou opções que elevem os alunos a patamares superiores do ponto de vista
da abstração e da consciência sobre a importância do conhecimento do
espaço geográfico para sua vida como ser humano e como cidadão
participante deste mundo complexo (PONTUSCHKA et al., 2009, p. 76-77).
No 7º ano do ensino fundamental os objetivos não devem ser diferentes dos demais, porém, é importante lembrar das peculiaridades didáticas próprias desse ano escolar:
Alguns pesquisadores como Callai (1998), Gebran (1990), Le Sann (1997) e
Kaercher (1998) vêem no ensino de Geografia para crianças uma das
possibilidades da formação do cidadão através de um posicionamento crítico
em relação às desigualdades sociais identificadas na realidade concreta das
crianças (STRAFORINI, 2004, p. 79).
Os alunos são os principais protagonistas do conhecimento, assim, o professor deverá planejar suas aulas numa sequência lógica que possibilite despertar as habilidades dos alunos para desvendarem as interações que ocorrem no espaço de sua vivência. Nesse sentido, Claval (1999, citado por LIMA, Angélica; LIMA, José, 2007, p. 6) aponta a literatura como um caminho seguro a ser percorrido pela Geografia:
O romance torna-se algumas vezes um documento: a intuição sutil dos
romancistas nos ajuda a perceber a região pelos olhos de seus personagens
e através de suas emoções.
A Geografia possibilita conhecer outros espaços e modos de vida sem, necessariamente, estarmos no lugar estudado, pesquisado, imaginado. As obras literárias são uma forma de experienciar os diversos lugares, os diversos “mundos”.
A literatura como recurso didático nas
aulas de Geografia
Os textos literários descrevem paisagens geográficas e relatam passagens históricas de extrema importância para a formação do leitor, bem como citam características de diversos personagens, relacionando-os à vida dos diferentes cenários brasileiros.
Assim, Silva (2003, p. 516) afirma que: “É justamente na troca de experiências e histórias de leitura que, de fato, ocorre a interação entre textos e leitores”. Desta maneira, a literatura pode ser algo construído historicamente. Os alunos serão capazes de experienciar o viés cultural e, sobretudo, geográfico nos textos. Ainda para Silva (2003, p. 516):
A leitura é trabalhada no espaço escolar, tendo como objetivo final alguma
estratégia de avaliação, o que coloca o aluno diante de uma tarefa árdua: é
preciso ler para fazer exercícios, provas, fichas de leitura, resumos, enfim, o
ato de ler visa cumprir tarefas escolares.
Vale ressaltar que, no Brasil, a educação passa por mudanças profundas, conforme destaca a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/96, no seu artigo 1°:
A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida
familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e
pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas
manifestações culturais.
§ 1º Esta lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve,
predominantemente, por meio do ensino, e instituições próprias.
§ 2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática
social.
O papel da escola, no século XXI, é formar alunos críticos, que deixam de ser meros reprodutores do conhecimento, tendo autonomia de relacionar o que leem com o que ocorre no mundo. Assim, Brito (1999, citado por SILVA, 2003, p. 515) afirma que.
A leitura tem de ser pensada não apenas como procedimento cognitivo ou
afetivo, mas principalmente como ação cultural historicamente constituída.
Essa noção da leitura como ato de posicionamento político diante do mundo,
precisa estar presente na prática de sala de aula. Os alunos deveriam ser
capazes de “experienciar” o ato de ler como uma ação cultural, em que o
leitor tem papel dinâmico nas redes de significação do texto (SILVA, 2003, p.
515).
A busca por metodologias que consigam levar o conteúdo ao aluno de maneira mais compreensível, seja através do livro didático, o qual é um importante apoio, não devendo ser o único meio, ou através de outras tecnologias e criatividade, é que irá diferenciar um professor de qualidade.
Cabe ao professor a responsabilidade de levar, à sala de aula, maneiras diversificadas de apresentação destes conteúdos, o que levará a um processo de motivação da turma, pois ensinar Geografia utilizando os recursos disponíveis ao alcance do aluno propicia a busca por novas formas de ver e pensar a Geografia.
No processo de ensino-aprendizagem de Geografia, as palavras-chave das categorias de análise geográfica, por meio dos textos literários no 7º ano do ensino fundamental, ganham uma conotação mais expressiva com o auxílio da literatura. Nesse contexto, o professor pode se apropriar das várias linguagens e meios de comunicação para ensinar a decodificação, a análise, a interpretação e o uso de dados e informações, e desenvolver, no aluno, novas formas de aprender com poder de reflexão e visão crítica.
Deste modo, o conhecimento geográfico reflexivo e contextualizado será o alicerce que solidificará a interação das vivências e dos conceitos descritos nos textos, causando um estímulo à formação destes através dos textos literários.
É necessário buscar novas práticas de ensinar Geografia, construindo um diálogo presente nos textos literários. Na escola, esta associação leva à discussão dos conceitos geográficos nos textos, proporcionando ao aluno trocar experiências, valorizando a interpretação do aluno frente ao conteúdo. Retomando Lacoste (1989, p. 248),
Nas descrições ou explicações geográficas não há qualquer ‘suspense’ para
manter o interesse dos alunos e é preciso muito talento e competência para
que tal discurso não acarrete aborrecimento.
Em sala de aula o aluno será orientado na leitura dos textos literários, identificando as palavras-chave que serão utilizadas na aula para abordagem daquele conteúdo. Pontuschka (2009, p. 236) assinalou que:
A literatura é fonte de prazer, mas não é só isso. É igualmente modo de
conhecer o mundo. Nós não teríamos condições de conhecer o mundo, o
todo da vida dos homens, apenas no curto período de tempo de nossas
vidas.
A maneira pela qual usamos a palavra, os termos utilizados, as construções sintáticas também forma a consciência e ajuda a reforçar ou desmistificar certos valores. É fato que as conexões entre Geografia e literatura existem, tendo como suporte os discursos teóricos, os quais investigam a interrelação entre concepções de leitura, texto e literatura presentes em sala de aula (SILVA, 2003).
Assim, os geógrafos podem extrair, da literatura, uma grande quantidade de informações e mensagens, que, embora possam parecer subjetivas, apresentam, sob outros “olhos”, a realidade, a experiência e os significados de um lugar, estimulando e desenvolvendo o conhecimento através da sensibilidade e das representações mentais. Vlach (1987, p. 43) aponta que “O conteúdo tradicional separa sujeito e objeto. Mas, ao separá-los, faz uma opção pelo objeto do conhecimento, negando, por conseguinte, o sujeito”. A literatura permite inferir que há uma ênfase na discussão do espaço enquanto objeto da Geografia.
Autores do cenário nacional e regional, como Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha, Durval Muniz, Lurdes Bertol Rocha também destacaram, de maneira peculiar, a importância da Geografia da Região Nordeste presente na literatura.
Documentos fundamentais que subsidiam o professor, como a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) apresentam-se para análise e reflexão do fazer pedagógico em Geografia. Sendo assim, fazer compreender a disciplina Geografia é importante no processo de construção do espaço geográfico. Conforme os PCN (2000, p. 117):
A Geografia, ao pretender o estudo dos lugares, suas paisagens e território,
tem buscado um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de
informação. Mesmo na escola, a relação da Geografia com a Literatura, por
exemplo, tem sido redescoberta, proporcionando um trabalho que provoca
interesse e curiosidade sobre a leitura do espaço e da paisagem. É possível
aprender Geografia desde os primeiros ciclos do ensino fundamental pela
leitura de autores brasileiros consagrados — Jorge Amado, Érico Veríssimo,
Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros — cujas obras retratam
diferentes paisagens do Brasil, em seus aspectos sociais, culturais e
naturais.
Através da utilização da literatura como recurso didático nas aulas de Geografia, o aluno terá oportunidade de se desenvolver criticamente, formando opinião própria. Com essa prática, as aulas tornar-se-ão mais atrativas para quem ensina e, principalmente, para quem aprende, estabelecendo-se, assim, a relação do ensino-aprendizagem. Além de ajudar no desenvolvimento da linguagem e na apresentação de conteúdos programáticos, a literatura tem, indubitavelmente, um imenso potencial de promover diversos processos de aprendizagem.
Os livros podem ser utilizados na sala de aula como uma forma de introduzir
temas e lições práticas, como política, questões socioeconômicas e aspectos
culturais que afetam e regulam a dinâmica da vida em sociedade
(NAIDITCH, 2008, p. 2).
É importante salientar que cabe à Geografia relacionar (posicionar) o sujeito ao espaço no qual este se insere. Incluir atividade em sala de aula, como criação de blogs e grupos virtuais para divulgação dos trabalhos construídos pelos alunos, estimularia o desenvolvimento no processo da aprendizagem.
Metodologia
Essa pesquisa teve como base uma análise descritiva e bibliográfica, sob a forma de revisão de literatura, atentando para a relevância da importância da literatura no ensino de Geografia, no ensino fundamental.
Os autores utilizados como referencial teórico da nossa pesquisa foram Castrogiovanni (1999), Straforini (2004), Oliveira (1990) e Pontuschka (2009), da área de ensino de Geografia; além de Pereira (2007) e Rocha (2008), sobre as questões literárias no ensino de Geografia.
A priori foi feito um levantamento bibliográfico referente ao ensino de Geografia na sala de aula, analisando a construção da linguagem geográfica nos textos literários selecionados previamente.
Foram utilizadas quatro coleções para análise de livros didáticos do 7° ano do ensino fundamental, que tratam de temas relacionados aos conteúdos específicos da Região Nordeste brasileira: Geografia nos dias de hoje, de autoria de Giardino, Ortega e Chianca (2012); Projeto Radix – Geografia, escrito por Pires e Belluci (2012); Geografia, sociedade e cotidiano – espaço brasileiro, dos autores Bigotto, Vitielo e Albuquerque (2012); e Expedições Geográficas, de autoria de Adas (2012).
A aprendizagem deve ser estimulada no ambiente escolar pelo professor de Geografia, criando-se situações para que o aluno perceba a Geografia presente nos textos literários selecionados para suporte do trabalho. Diante dessa observação e da aplicação de textos literários, a relação entre a literatura e a linguagem geográfica permite a integração do aluno e a relação dos assuntos a serem explanados e aplicados. Através dos textos literários ele poderá relacionar os conceitos partindo de suas vivências.
A proposta de ensino de Geografia com textos literários consiste em que, ao elaborar o planejamento anual, o professor de Geografia indique o texto a ser trabalhado na Unidade que corresponda ao tema Região Nordeste, por exemplo, propondo atividades a serem aplicadas aos alunos. É importante que o professor “tenha em mãos” diversas possibilidades ao utilizar as ferramentas pedagógicas necessárias para que os alunos melhor compreendam os textos literários, desde tecnológicas (computadores, datashow, etc.) até as mais simples (papel metro, papel A4, lápis de cor, hidrocor, etc.).
Ao utilizarem ferramentas pedagógicas diferenciadas, os alunos podem relacionar os assuntos, fatos, etc., aprendidos na Geografia, ao seu cotidiano, conhecendo a Região Nordeste brasileira, podendo, então, construir e reconstruir seu espaço geográfico.
Importância do texto literário para o
ensino de Geografia
No ensino de Geografia, ao desenvolver a leitura de textos literários em sala de aula, o professor deverá, junto com seus alunos, analisar o conteúdo geográfico descrito nas obras, fazendo uma relação entre esses textos, a Geografia e o cotidiano dos alunos, permitindo que eles percebam que a literatura é construção de espaços vividos (SILVA, 1998).
É possível dizer que, por meio das obras literárias, o conhecimento é muito mais amplo. Através da literatura a visão transdisciplinar é percebida e, assim, “A literatura é capaz de interrelacionar dimensões” (FERREIRA, 2007, p. 112). A aproximação da Geografia com a literatura, no âmbito escolar, sugere que o espaço geográfico é um componente social, o espaço é construído por fenômenos sociais, produto da vivência cotidiana do aluno. De acordo com Spegiorin (2007, p. 31), “O espaço geográfico revela e materializa as relações sociais, propiciando uma reflexão crítica sobre a realidade, o que contribui para o desenvolvimento da cidadania”.
Trata-se, portanto, de aliar o texto literário ao tempo histórico e social no contexto escolar, atrelados ao espaço onde o aluno está inserido. Silva (2003, p. 515) afirma que:
Os alunos deveriam ser capazes de ‘experienciar’ o ato de ler como uma
ação cultural, em que o leitor tem papel dinâmico nas redes de significação
do texto (grifo do autor).
É justamente nas trocas de experiência que os conceitos peculiares à Geografia serão reforçados. Assim,
É necessário que exista uma intencionalidade político-pedagógica presente
em todas as atividades planejadas pelo professor, através da
conscientização e da valorização do papel dessa ciência na educação
(SPEGIORIN, 2007, p. 31).
A utilização de textos literários é uma possibilidade e potencialidade que promove a interação de fatos narrados pelos autores com o ensino (experiência) interativo do conteúdo. Os textos, sendo trabalhados de forma correta, terão a finalidade de relacionar diversas áreas do conhecimento.
Textos literários para o ensino de
Geografia no 7° ano do ensino fundamental
Um dos livros indicado para trabalhar a Região Nordeste é “Faces do Sertão”, de autoria de Luis Fernando Pereira. Nele, o autor descreve a paisagem do sertão nordestino da Bahia, no formato de um verdadeiro diário de bordo, no qual conta a aventura de Ivan e Jorge, que pretendem achar parte da família desconhecida de Jorge no interior da Bahia. Em um dos temas exposto, o autor fala que os sertões haviam mudado. Em terras mais altas o verde aparecia mais nas gramíneas, e os arbustos baixos, espinhosos e retorcidos eram mais raros, mas a terra continuava seca, voando com o vento (PEREIRA, 2007). O livro nos leva a descobrir mais da paisagem e do povo que vive nessa região. A caatinga passa a ser apaixonante, pois mesmo com os desafios, a luta é constante. Neste contexto o autor destaca que:
Ivan já se sentia um homem feito de terra. Seu rosto, parte pelo sol, parte
pela areia marrom que o vento trazia, estava mais moreno que costume.
Ficava pensando em quantas pessoas da sua idade, vivendo em São Paulo,
haviam tido a oportunidade de conhecer aquilo que ele estava vendo
naquele momento. Ver que a criação de cabritos e cabras era quase regra
em todos os sitiozinhos. Que no meio do sertão havia aquele oásis sobre a
serra, com cidades tão pequenas quanto um bairro, menores, muito menores
até! Cidades de uma rua! Imaginava como seria a vida daquelas pessoas, o
que fariam, qual a diversão que tinham quão frequentemente saíam dali para
outros lugares (PEREIRA, 2007, p. 32-33).
Rachel de Queiroz, em seu romance “O Quinze”, referindo-se à seca do Ceará de 1915, descreve o conflito entre homem e natureza numa temática social, na qual conta a história da migração de um retirante nordestino e sua família. Na escrita está explícita a grandiosidade dos personagens diante da vida na seca. Viver passa a ser um desafio diário para os que estão inseridos nesse entrave da natureza. Queiroz (1930, p. 105-106) esclarece parte da problemática da migração:
O vaqueiro pigarreou, cuspiu para o lado, procurou a frase inicial: – Minha
comadre, quando eu saí do meu canto era determinado a me embarcar para GIARDINO, C.; ORTEGA, L.; CHIANCA, R. B. Geografia nos dias de hoje, 7º ano. São Paulo: Leya, 2012.
o Norte. Com a morte do Josias e a fugida do outro, a mulher desanimou e
pegou numa choradeira todo dia, com medo de perder o resto […]. Eu queria
primeiro que a senhora desse uns conselhos a ela; e depois que me
arranjasse umas passagenzinhas pro vapor. Esse negócio de morrer menino
é besteira […]. Morre quando chega o dia, ou quando Deus Nosso Senhor é
servido de tirar […]. Conceição mordeu o lábio, pensativa: – Isso não,
compadre! Eu acho que a comadre tem uma certa razão […]. Estas crianças
não suportam uma viagem numa gaiola, de Amazonas acima […].
A obra descreve cenas pitorescas do interior do Ceará, durante o período da seca de 1915. Essa narrativa mostra o cotidiano de duas famílias que, por causa da seca, acabam tendo suas vidas entrelaçadas, uma com maior condição financeira e cultural, e outra com vida humilde e modesta.
Referências
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VLACH, V. R. F. Fragmentos para uma discussão: método e conteúdo no ensino da geografia de 1.° e 2.° graus. In: VESENTINI, J. W. O Ensino da Geografia em questão e outros temas. São Paulo: Terra Livre, 1987.
Notes
Aplicação dos conceitos geográficos
no ensino fundamental e médio
1. Ainda que essa identidade tenha sido construída ao longo do
tempo como resultado de dissensos entre o colonizador português, os negros trazidos da África para o trabalho forçado e os indígenas, habitantes nativos desse território.
↩
O ensino de geografia num mundo
dominado pela mídia, permeado pela
imagem e submetido ao espetáculo
1. Considerando que a mídia fomenta realidades ilusórias, usamos
a noção de simulacro não como sinônimo de falso, mas no sentido de uma coisa estar no lugar de outra, como uma encenação.
↩
2. Sobre esse assunto, Maffesoli (1999) defende que o mundo e a
sociedade pós-moderna estão centrados na aparência e na banalidade das coisas e tal efemeridade dá razão e sentido à vida cotidiana. O autor postula que o corpo, as roupas são meios de comunicação, e que a vida urbana é a vida das aparências. Ele considera que em nosso tempo está instaurado um hedonismo coletivo, o ideal do carpe diem em que tudo deve ser vivido e aproveitado imediatamente. Por ter um grande impacto imagético, a mídia trabalha com a aparência, considerada a primeira camada significativa.
↩
Relato de uma pesquisa de campo
qualitativa segundo os propósitos da
geografia humanista
1. História oral é um método pelo qual a evidência é falada pelas
pessoas que tiveram experiência direta com os eventos/acontecimentos, ou que estejam relacionados com relatos que foram pessoalmente transmitidos a elas (tradução livre da autora).
↩
2. Futebol entre amigos.
↩
3. Nome popular regional da planta aquática Aguapé.
↩
Para além do “descobrimento” do
brasil: notas sobre a formação
territorial do sul da bahia para o
ensino da geografia
1. O autor agradece às contribuições do Prof. Dr. Gilmar Alves
Trindade.
↩
2. Usaremos, neste texto, o termo colônia de produção, similar à
expressão colônia de exploração, que geralmente aparece nos livros didáticos do ensino fundamental e do médio.
↩
3. Tomamos para o termo crise o conceito de Santos (2005), isto
é, momentos em que a ordem estabelecida entre as variáveis,
mediante uma organização, é comprometida e introduz um princípio de desordem.
↩
4. Segundo Santos e Silveira (2005, p. 37), “A primeira instalação
de iluminação elétrica no país foi feita na cidade do Rio de Janeiro em 1879”.
↩
5. Para essa discussão, ver Kaustsky (1968).
↩
Análise do território em michel
foucault: o território como locus do
poder
1. Trabalho originalmente apresentado no X Encontro Nacional da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ENANPEGE). Unicamp, Campinas, 7 a 10 de outubro de 2013.
↩
2. Todas as citações são da obra: FOUCAULT, Michel.
Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977–1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
↩
A paisagem no espaço da vida: do
vivido ao refletido
1. Este problema já foi sanado. Nas escadas que ligam os
pavimentos dos pavilhões foram colocados corrimões, melhorando a acessibilidade. A escada em referência é muito íngreme, não sendo possível ser essa a solução para o problema de acesso entre os pavimentos, entretanto,
mantivemos a proposta aqui, pois foi o que as alunas do curso de licenciatura em Química, puderam apontar como solução.
↩
O porto de santos, vivências,
percepções e sentimentos além dos
muros da escola: um relato de
esperiência e prática
1. O projeto foi elaborado por um grupo de 6 alunos do 3º ano do
ensino médio do colégio Liceu São Paulo. Turma B do ano de 2009.
↩
2. Armazens de depósito de mercadorias para importar ou
exportar.
↩
3. Fidalgo e explorador português. Fundador da vila de Santos
(hoje cidade), governou por duas vezes a Capitania de São Vicente (1545-1549 e 1555-1556). É considerado, por alguns historiadores, fundador de Mogi das Cruzes.
↩
4. Matéria publicada no Jornal eletrônico Novo Milênio em 12 mar.
2006. Disponível em:
<http://www.novomilenio.inf.br/porto/portoh01.htm>. Acesso em: 15 dez. 2014
↩
5. Site oficial do porto de Santos. Disponível em:
<http://www.portodesantos.com.br>. Acesso em: 15 ago. 2009.
↩
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Gilmar Alves Trindade
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