Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Elisabete Stradiotto Siqueira, Iriane Teresa de Araújo · Capítulo 13 de 13

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Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Capítulo 11 – Economia solidária e cooperativismo: um estudo na coopermups, um empreendimento organizado por mulheres

Capítulo 11 – Economia

 

solidária e cooperativismo: um

 

estudo na coopermups, um

 

empreendimento organizado

 

por mulheres

 

Inácia Girlene Amaral, Késia Suyanny Silva da Costa

 

1 Introdução

 

A economia solidária surgiu a partir de iniciativas dos setores populares apoiadas por organizações vinculadas a estes. O modelo econômico solidário tem por base a pequena empresa comunitária, a agricultura familiar, o trabalho doméstico, o trabalho autônomo e as cooperativas. Estas organizações são constituídas por grupos de indivíduos que se inserem no mercado e para que se fortaleçam constituem redes de comercialização e cooperação solidária. Desse modo, os pobres conseguem construir as próprias condições comunitárias de provisão material para sua existência por meio de relações de solidariedade (LISBOA, 2000).

No contexto da economia solidária encontram-se os empreendimentos cooperativistas, segundo Santos e Ceballos (2006) estes possibilitam a inclusão social e o desemprego, para agricultores rurais, artesões ou qualquer pessoa que se una a outras pessoas para conseguirem maiores benefícios na busca de uma forma de estar novamente ativa no mercado.

De acordo com Brasil (2012), as mulheres correspondem a 52% dos cooperados, no Brasil. Geralmente as cooperativas compostas por mulheres são formadas por aqueles que moram próximas aos empreendimentos, que realizam atividades similares e repartem igualitariamente o resultado do trabalho. Nas regiões com menor desenvolvimento, as cooperativas possibilitam as mulheres a melhorarem a qualidade de vida ao desenvolverem atividades econômicas que geram retorno nesta região.

No Brasil dentre os excluídos do mercado de trabalho encontram-se as mulheres, dos meios urbanos e rurais, em condições socioeconômicas precárias, com pouca escolaridade e baixa qualificação profissional. Dessa forma, segundo Ramos (2011), observa-se cada vez mais uma maior participação de mulheres em iniciativas populares que visam a geração de trabalho e renda. Estas iniciativas têm por base o associativismo, a autogestão e a cooperação.

Conforme Bueno (2001) muitas mulheres puderam obter acesso ao trabalho por meio do cooperativismo, reorientando suas vidas, assumindo compromissos seja com sustento da família ou no orçamento familiar. Com isso, o cooperativismo é uma forma de empoderar as mulheres ao possibilitar que tomem decisões em grupo e tenham autonomia sobre suas próprias vidas.

Concernente ao que foi anteriormente exposto este capítulo apresenta um estudo de campo na Cooperativa de Mulheres Prestadoras de Serviços (Coopermups). Esta cooperativa surgiu das ações desenvolvidas pelo Grupo Mulheres em Ação (GMA), uma organização não governamental de cunho feminista, criada desde 1994, cuja missão é “ser instrumento de luta, mobilização e organização das mulheres no bairro Nova Vida”. Todavia, somente em 2002, o GMA foi instituído legalmente como associação sem fins lucrativos. A cooperativa recebe apoio da Visão Mundial, uma organização que beneficia associações e cooperativas para a manutenção de direitos sociais e igualitários para comunidades de baixa renda.

Em 2002 surgiu a Coopermups, em forma de empreendimento coletivo constituído e operacionalizado sob a perspectiva solidária, formado por 27 mulheres que oferecem serviços de alimentação, limpeza doméstica e fabricação de artesanato, contribuindo para a geração e distribuição de renda para as cooperadas e comunidade.

A coleta de dados ocorreu com 3 mulheres do grupo, sendo uma com 46 anos de idade e 4 de cooperada, outra com 53 anos de idade e 6 de cooperada e a última com 32 anos de idade e 3 de cooperada. A escolha das mulheres se deu por disponibilidade e acessibilidade delas durante o período das entrevistas. A entrevista semiestruturada e observação foram as técnicas de coleta de dados aplicadas na Rede Coopermups de comércio solidário junto às mulheres cooperadas.

Considerando esse cenário, este capítulo questiona: de que maneira a Coopermups tem contribuído com aspectos econômicos e sociais de suas cooperadas? O objetivo foi de analisar as contribuições econômicas e sociais possibilitadas pelas Coopermups às suas cooperadas.

 

2 Economia solidária: surgimento e

 

evolução

 

Na Revolução Industrial, por volta do século XIX, surgem tentativas para organizar a produção e o consumo de forma comunitária e democrática, surgindo as primeiras cooperativas autogestionárias de produção, ou seja, a economia solidária aparece como um novo modo de produção comunitária (GAIGER, 2003).

A economia solidária se fortalece no Brasil a partir da década de 1980, se intensificando na década de 1990, com a expansão do neoliberalismo e a crise no mundo do trabalho, gerando altos índices de desemprego, aumento da informalidade e desregulamentação dos direitos trabalhistas (TIRIBA, 2006).

Para o Sistema Nacional de Economia Solidária (Sies) e a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), a economia solidária é considerada um conjunto de atividades econômicas de produção, distribuição, poupança, consumo e crédito. Dessa forma, seus atributos são: a cooperação, a propriedade coletiva de bens e a partilha da responsabilidade solidária (BRASIL, 2007).

No Brasil os movimentos sociais estão adotando a economia solidária como oportunidade para os desempregados retornarem ao mercado, gerando cooperativas e feiras para venda e trocas dos seus produtos, do consumo solidário, onde as redes se formam em unidades de produção, do consumo e do crescimento de uma economia mais sustentável (GAIGER, 1999).

Neste sentido, a participação das mulheres tem aumentado em iniciativas populares de geração de emprego e renda. Estas se organizam em associações de produção e distribuição que tem por princípios a autogestão e a cooperação (RAMOS, 2011).

 

3 Cooperativismo: origem, finalidade

 

e atuação

 

A cooperação faz da vida do ser humano deste o momento que passou a conviver com outros buscando meios para a sobrevivência do grupo. Porém, com o desemprego gerado pela Revolução Industrial, no século XIX, ao substituir o trabalho humano pelas máquinas a vapor, os tecelões criaram o que seria a primeira cooperativa no bairro de Rochdale, em Manchester, na Inglaterra, em 1844 (SANTOS; CEBALLOS, 2006).

A cooperativa de Rochdale era composta por vinte e oito trabalhadores ingleses de diversos ofícios, sendo estes conhecidos por tecelões. Estes trabalhadores possuíam ideologias e vivências diversas: uns eram socialistas utópicos; outros eram defensores do movimento Carta do Povo, que defendia o direito ao voto de todo cidadão como forma de resolver os problemas sociais; uns estavam vinculados a organizações beneficentes, como a de combate ao alcoolismo e alguns não tinham opiniões políticas. Dessa forma, os cooperados de Rochdale era um grupo heterogêneo e complexo, porém unidos em prol dos ideais de justiça e progresso social (SILVA FILHO, 2001).

Originários da cooperativa de Rochdale, em 1844, os princípios cooperativistas tornaram-se universais, sendo eles: cada membro tem direito um voto nas decisões da cooperativa, adesão a cooperativa é livre, a cooperativa deveria pagar uma taxa de juros fixa sobre o capital emprestado, a cooperativa deveria vender seus produtos à vista, os produtos comercializados pela cooperativa não poderiam ser adulterados, caberia a cooperativa empenhar-se na educação cooperativa, a cooperativa deveria ser neutra em relação a religião e política. Atualmente os princípios cooperativistas formulados no século XIX, parecem óbvios, porém foram importantes (SINGER, 2002).

Em 1995 foram aprovados os princípios da Aliança Cooperativa Internacional (ACI, 1995), sendo estes: a adesão a cooperativa deve ser voluntária e aberta; o controle dos membros deve ser democrático; participação econômica dos cooperados, autonomia e independência dos membros; educação, treinamento e informação; cooperação entre as cooperativas e preocupação com a comunidade. Para Benato (2006 apud BARRETO; PAULA, 2009) foi possível observar que os princípios da ACI não foram extensivamente modificados, pois são coerentes com os princípios disseminados pela cooperativa de Rochdale.

As cooperativas atuam em diversos setores da economia, sendo estas: as cooperativas de produção, de consumo, de agropecuária, de crédito, , de trabalho, de educacional e de habitação (SINGER, 2002). A cooperativa de produção origina-se da organização de trabalhadores de empresas capitalistas prestes a falir, estes trabalhadores integralizam o capital da cooperativa usando os seus créditos trabalhistas. A cooperativa de comercialização domina, até hoje, segmentos da agricultura. Os agricultores familiares reagiram à exploração imposta pelos atacadistas e industriais que compravam a produção e pelos industriais que vendem as sementes, os fertilizantes, etc. Com a organização em empresas solidárias os pequenos agricultores podem comprar e vendar, possibilitando o poder de barganha e ganhos de escala (SINGER, 2001).

O cooperativismo surgiu em resposta à Revolução Industrial, na Inglaterra, sendo impulsionado pela crise econômica ocorrida no período, no decorrer do tempo o movimento enfraqueceu, retornando fortemente com o surgimento a globalização, que gerou o enxugamento de muitas empresas e de um considerável aumento no número de desempregados, o que impulsionou o aumento de empreendimentos cooperativos, possibilitando aos desempregados o retorno ao mercado (SANTOS; CEBALLOS, 2006).

Diante do cenário apresentado, houve um crescimento na participação das mulheres em empreendimentos associativos, os quais possuem princípios autogestionários, cooperativos de produção e comercialização, como alternativa para a geração de trabalho e renda (GONÇALVES, 2001).

 

4 Mulheres organizadas em

 

empreendimentos cooperativos

 

Observa-se uma maior participação feminina no mercado de trabalho formal, como em atividades informais e no setor de serviços. Porém, os empregos são precários e vulneráveis como ocorre na Ásia, Europa e América Latina (HIRATA, 2009).

Conforme Cappellin (2004), diagnósticos realizados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) indicam que existem disparidades entre homens e as mulheres pelas continuas descriminações existentes em relação a determinados espaços privilegiados no emprego formal, estes diagnósticos demonstram:

 

A maior fragilidade da manutenção do emprego formal para as mulheres; O contínuo e alto índice de desemprego feminino; As desvantagens e as diferenças salariais das trabalhadoras; A segregação ocupacional e os guetos ocupacionais; As renovadas barreiras à promoção e à ascensão profissional (CAPPELLIN, 2004, p. 83),

 

Os empreendimentos solidários são formas empoderamento do feminino. As mulheres possuem as mesmas condições para obterem os meios de produção por meio da propriedade coletiva (CULTI, 2004). Frente as necessidades e do desemprego, as mulheres são as primeiras a se mobilizarem e se auto-organizarem, em virtude de suas atividades coletivas realizadas no decorrer de sua socialização (GUÉRIN, 2005).

A economia solidária pode contribuir com as mulheres de várias formas, com: (a) o cotidiano das mulheres, ou seja, contribuindo com a vida familiar e profissional; (b) espaços de discussão e reivindicações que contribuem com mobilizações e pressões junto às autoridades públicas para que essas elaborarem políticas públicas de gênero que desenvolvam a mulher e contribuam com as mudanças sociais mais favoráveis a elas; (c) o acesso ao crédito; e (d) a emancipação financeira da mulher (ANGELIN; BERNARDI, 2007).

Segundo a Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas (CICAF, 2009), no cooperativismo a mulher busca não só oportunidades econômicas, como também a valorização pessoal, já que no cooperativismo todos os integrantes são importantes e possuem responsabilidades.

 

5 Contribuição do cooperativismo na

 

vida social e econômica das mulheres

 

cooperadas

 

As narrativas inseridas neste tópico discorrem sobre as possibilidades de melhoria econômica e social proporcionadas pela Coopermups as cooperadas entrevistadas.

 

Código da Narrativas

entrevistada

 

Quadro 1 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre a contribuição do cooperativismo na vida social e econômica das mulheres cooperadas

Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas

entrevistada

 

M1 “Uma vizinha fazia trabalhos sociais junto com

o grupo, me chamou pra ganhar um ‘trocadinho’[…].”

“A minha vida mudou completamente depois que entrei na cooperativa. […] fiz novas amizades, virei evangélica, me tornei

independente e ainda faço o que eu gosto.”

 

“Pra mim, primeiro foi o financeiro, depois que comecei a ver o trabalho das meninas eu percebi que consigo através da cooperativa administrar meu dinheiro a ajudar nossa

comunidade […].”

 

Quadro 1 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre a contribuição do cooperativismo na vida social e econômica das mulheres cooperadas

Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas

entrevistada

 

M2 “Depois que me separei tive que arrumar

qualquer coisa pra trabalhar. Fui procurar fazer faxina, lavar roupa […]. Nisso eu conheci uma mulher que trabalhava na cooperativa e me falou do trabalho que elas desenvolviam com a comunidade, que podia me ajudar enquanto eu não conseguia uma coisa melhor […] tá aí,

estou até hoje.”

 

“Consegui continuar criando meus filhos

quando cheguei aqui. […] eles também participam dos projetos da cooperativa.”

“Em minha opinião, o estudo é importante, mas só depois que ingressei na cooperativa foi que tive noção de desenvolver outras formações.”

 

“Então pra mim foi bom conhecer o trabalho social e ainda participar de eventos solidários que me levou a trabalhar na cooperativa.”

“ […] O cooperativismo como trabalho trouxe para mim e as cooperadas várias oportunidades de ganhar dinheiro e ajudar ao próximo […] “

 

Quadro 1 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre a contribuição do cooperativismo na vida social e econômica das mulheres cooperadas

Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas

entrevistada

 

M3 “O que me levou estar aqui, foi quando

participei como voluntaria de uma refeição que fizeram para o presidente Lula quando veio para o estado […] Gostei da união das

mulheres, me identifiquei

com o trabalho.”

 

“[…] Passei a ganhar meu dinheiro, ajudar minha mãe, comprar o que eu quero, quando pode claro (risos).“

“Tive a curiosidade de conhecer melhor as atividades que as cooperadas faziam com a comunidade e como elas faziam para se

sustentar. […] que só entendi quando entrei foi à importância da solidariedade, auto-organização e o trabalho em equipe.”

 

“[…] ter conhecimento sobre o cooperativismo, o trabalho social, a solidariedade e o gênero me fez ficar satisfeita.”

 

Quadro 1 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre a contribuição do cooperativismo na vida social e econômica das mulheres cooperadas

Fonte: dados de pesquisa.

 

A partir da análise da fala das entrevistadas percebe-se que as mesmas veem no cooperativismo uma forma de contribuir com o atendimento de suas necessidades tanto econômicas como sociais, aumentando se poder de compra, possibilita uma maior relação com outras mulheres e as da comunidade, contribui com o espírito solidário e de equipe e ainda ofertar conhecimentos a estas mulheres sobre a atividade econômica envolvida.

Ao buscarem recursos financeiros para contribuir com o sustento da família vinculando-se a organizações solidárias, estas mulheres acabam encontrando uma posição na sociedade e também a valorização de seu trabalho.

Nas narrativas acima foi possível observar que os laços na cooperativa se expandiram quando passaram a considerar o local como um segundo lar, em que o convívio passou a ser visto como relacionamento entre amigas e profissionais favorecendo a essas mulheres a permanência na cooperativa.

Alves et al. (apud BORILE, 2011) confirmam que o cooperativismo não pretende atender apenas as necessidades econômicas, como também a qualidade de vida dos seus cooperados e a atenção com o meio em que se vive. Esta afirmação converge com as narrativas das pesquisadas, já que as cooperadas se satisfazem com o trabalho social e com a remuneração obtida na cooperativa.

A influência que os princípios da cooperação e desenvolvimento da economia solidária ocasionam, está atrelado aos trabalhos da cooperativa que permitiu as cooperadas o atendimento a várias necessidades, conforme as falas das pesquisadas: Para M1 o cooperativismo contribuiu de forma positiva, pois proporciona benefícios financeiros e o trabalho em conjunto, possibilitando um convívio pessoal adequado ao trabalho da cooperativa. M2 deu mais ênfase às relações e convívio com as cooperadas, e ainda permitiu a geração de renda para as despesas do lar. Segundo M3 o cooperativismo proporcionou adquirir conhecimento sobre o trabalho solidário e entender a posição do gênero feminino na sociedade.

Nas falas as entrevistadas ainda mencionam a participação em causas sociais, tais como: o movimento juvenil, as atividades de recreação com crianças e as relacionadas à cultura da região e comunidade.

 

6 Gênero feminino, cooperativismo e

 

trabalho/atividades

 

Foi percebido na Coopermups que os serviços ofertados são atividades comuns ao sexo feminino. Estas mulheres se organizaram em torno de atividades que já realizavam no lar e estenderam ao mercado.

As narrativas do Quadro 2 indicam que as entrevistadas que tiveram outras experiências de trabalho (M1 e M2) sentem a valorização e maior identificação com o trabalho realizado na Copermups. Antes de entrarem na cooperativa M1 e M2 realizavam trabalhos comuns ao gênero feminino, mas não relatam a possibilidade de realizarem capacitações e nova qualificação profissional em empregos anteriores como as oportunidades oferecidas pela cooperativa. No entanto, ainda é percebido a disparidade na relação de gênero, ao se observar as dificuldades impostas as mulheres, principalmente as de baixa renda, em relação a sua educação formal e profissional e remuneração (inferior a masculina). Na Copermups os serviços prestados ao mercado são comuns ao gênero feminino. Por isso, quando os serviços desta cooperativa são contratados, os contratantes entendem que são trabalhos domésticos, ainda pouco valorizado.

 

Código da Narrativas

entrevistada

 

Quadro 2 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre o gênero feminino, o trabalho e as atividades da cooperativa Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas

entrevistada

 

M1 “Sempre trabalhei com limpeza e cozinha.

Graças a Deus através daqui consegui diversos trabalhos e cursos que antes não tinha por causa que só fazia serviços de limpeza […] através daqui me qualifiquei como cozinheira.”

“[…] Trabalhar aqui me faz bem, somos uma família.”

 

“Meu marido não gosta muito, acho que isso é preconceito dele, nunca ninguém me falou nada demais, só ele que acha demais […].”

“Hoje o trabalho que aparecer agente faz, se for pra homem ou mulher […]não me lembro de ter passado por dificuldade.”

 

Quadro 2 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre o gênero feminino, o trabalho e as atividades da cooperativa Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas

entrevistada

 

M2 “Mulher, o meu trabalho antigo era em empresa

privada na limpeza, como a maioria de pessoas que não tiveram estudo e por ser mulher né pior ainda.”

“[…]as pessoas procuram a cooperativa porque sabe que são serviços femininos.”

 

“Então, é bom porque facilita nosso trabalho em coisas que temos domínio, já sabemos fazer.”

“O preconceito vem muitas vezes vem daqui de dentro […] Mas sempre soube que conviver com pessoas é uma tarefa difícil, somos muito diferentes mas gostamos do que fazemos,

é o que importa. No dia-a-dia conseguimos superar com as conversas […]”

 

M3 “Não trabalhei antes da cooperativa […].”

“Fiquei muito chateada, quando teve um

evento que faltou comida, todas se prejudicaram, pois deixamos de ganhar um pouco mais. Foi vergonhoso!”

“[…] Nós mulheres ainda enfrentamos as burocracias das leis, que eu acho mais ainda que é preconceito e não injustiça. Mas estamos lutando sempre e fazendo as coisas

acontecerem com a

coragem e vontade.”

 

Quadro 2 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre o gênero feminino, o trabalho e as atividades da cooperativa Fonte: dados de pesquisa.

M1, M2 e M3 também falam sobre desafios e preconceitos que precisam enfrentar, como o do próprio cônjuge que não aceita que a mulher trabalhe fora do lar (M1); o próprio preconceito enfrentado na cooperativa entre as mulheres (M2) e “burocracia das leis” que é preconceituosa. Essas mulheres ao se organizarem em atividades econômicas e sociais, passam a vislumbrar novas formas de se posicionarem na vida e no meio que vivem. Apesar de ainda ser necessário um maior investimento em sua formação, conhecimento e valorização do trabalho feminino.

 

7 Mulheres e aspectos positivos e

 

desafios do trabalho na copermups

 

Neste subtópico foram destacadas algumas falas das entrevistadas sobre a percepção destas em relação aos aspectos positivos e os desafios enfrentados do trabalho cooperado na

Copermups. Estas falas estão expostas nos Quadros 3 e 4, a seguir.

 

Código da Narrativas – aspectos positivos entrevistada

 

M1 “O trabalho é excelente aqui, não me falta nada

[…] ganho dinheiro e consigo pagar água, gás, luz. Só vejo coisas boas. Meu marido sempre fala que só porque estou trabalhando e

ganhando bem, eu estou “chiando”, quero pisar nele […].”

“O salário é bom, pra mim é suficiente. Mas sempre procuramos fazer trabalho voluntário, onde todo o dinheiro que entra é pra pagar alguma conta da cooperativa […].”

 

Quadro 3 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre os aspectos positivos do trabalho na Copermups Fonte: dados de pesquisa.

Código da Narrativas – aspectos positivos entrevistada

 

M2 “Um ponto positivo, pode ser a ajuda que

conseguimos dos padrinhos, associados ou da Visão mundial que nos ajuda a manter a cooperativa funcionando e realizando os

projetos […].”

“Com certeza as atividades sociais são mais importantes […].”

 

M3 “[…]consigo me manter com o que ganho […]

apesar de não trabalhar integralmente.”

 

“O mais importante e conta muito é poder me sustentar e ajudar minha mãe com as despesas de casa.”

“Graças a Deus estamos nos tornando

reconhecidas como mulheres […].”

 

Quadro 3 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre os aspectos positivos do trabalho na Copermups Fonte: dados de pesquisa.

 

Nas narrativas das mulheres entrevistadas é possível identificar a satisfação das mulheres em relação aos aspectos econômicos, sociais e espírito cooperativo, assim como um maior engajamento em prol da melhoria de comunidade que estão inseridas.

Para M1 seu ingresso na cooperativa só lhe trouxe vantagens, benefícios que fizeram se tornar uma mulher autônoma e mais realizada economicamente. M2 destaca a importância das parcerias para a cooperativa, assim com a organização das cooperadas em prol do trabalho social e da melhoria da comunidade. Para M3 a cooperativa pode lhe dar uma independência financeira e proporcionar o conhecimento sobre as causas sociais nas quais o gênero feminino está se destacando na economia.

Código da Código da Narrativas – dificuldades/desafios Narrativas – dificuldades/desafios

entrevistada entrevistada

 

M1 “[…] O difícil é ter mais apoio do governo ou de

associados, nem sempre a gente consegue pagar as contas da cooperativa.”

 

M2 “Os trabalhos que aparecem na cooperativa

ajudam muito no nosso salário. É bom por isso, mas nem sempre aparece pra todas.”

“[…] os trabalhos sociais são importantes, ajuda a comunidade, em especial as crianças. Mas todo mundo precisa de dinheiro né

verdade?”

 

M3 “O trabalho como é feito pra todas são

inconstantes […].”

“[…] Gosto do trabalho social, mas o financeiro ajuda a manter a cooperativa e a nós

mesmas.”

 

“[…]o trabalho é muito cansativo, muitas vezes entro de manhã quando tem eventos, os

contratos de fazer refeição, e só saio à noite.”

 

Quadro 4 – Narrativas das mulheres pesquisadas sobre as dificuldades e os desafios do trabalho na Copermups Fonte: dados de pesquisa.

 

M1 aponta como uma dificuldade enfrentada pelas cooperadas na Copermups é o apoio governamental, são as políticas públicas voltadas para o cooperativismo. M2 preocupa-se com o futuro da cooperativa e considera que as parcerias são vantagens provisórias. Para ela, muitas cooperadas não têm iniciativa de obter outros cursos profissionalizantes que as ajudem a desenvolver melhor as atividades na cooperativa. M3 aponta como desafio as possibilidades de trabalho para todas de modo que atendam às suas necessidades e do cansaço do trabalho no período dos eventos.

8 Cooperação entre as mulheres

 

Constatou-se por meio da pesquisa que as mulheres entrevistadas possuem o espírito de cooperação e atributos solidários, principalmente quando se refere ao desenvolvimento da comunidade na qual estão inseridas. As entrevistadas reconhecem a cooperativa pesquisada como um empreendimento social que possibilita as suas cooperadas oportunidades econômicas e sociais para a realização destas.

Para pesquisas futuras sugere-se a realização de estudos que permitam incluir as organizações parceiras da Copermups, governo nas diversas esferas e comunidade no entorno desta cooperativa, visando um aprofundamento desta pesquisa.

 

Referências

 

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TIRIBA, L. O lugar da economia solidária na educação e o lugar da educação na economia solidária. Palestra proferida no IV Encontro Internacional de Economia Solidária. São Paulo: NEOL/USP, 2006.

Índice Remissivo

 

A

 

agricultura familiar 85

 

assentamento 139

 

autogestão 126

 

C

 

cidadania 27

 

comercialização 102

 

convivência com o Semiárido 220

 

cooperativismo 104

 

D

 

democracia 34

 

desenvolvimento rural 94

 

Desenvolvimento Territorial 103

 

E

 

Economia Solidária 112

G

 

gestão social 26

 

I

 

inovação 29

 

P

 

políticas públicas 27

 

produção sustentável 154

 

R

 

racionalidade instrumental 71

 

racionalidade substantiva 26

 

resíduos sólidos 154

 

S

 

Semiárido 101, 102, 116, 137, 142, 145, 175, 219, 229, 253

 

sustentabilidade 26, 116, 138, 141, 147, 153, 155, 162, 199

 

Sustentabilidade 161

 

T

tecnologia social 244, 253, 254, 259

 

Tecnologia Social 222, 236, 259

Notes

 

1. Segundo Schommer et al. (2011, p. 40), com base em diversos

autores, “entendese coprodução do bem público como estratégia de produção de bens e serviços públicos em redes e parcerias, contando com engajamento mútuo de governos e cidadãos, individualmente ou em torno de organizações associativas ou econômicas. Por meio da coprodução, os cidadãos são ativamente envolvidos na produção e na entrega dos bens e serviços públicos, tornando-se corresponsáveis pelas políticas públicas”.

↩

2. Cabe ressaltar, para que não haja uma visão idealista, que, por

exemplo, no campo social, algumas áreas, como a saúde, na atualidade, também podem ser geridas por lógicas lucrativas e não por valores ético-sociais, como deveriam.

↩

3. França Filho (2002) traz uma importante discussão sobre a

integração entre as dimensões econômica e social, destacando três formas de economia (mercantil, não mercantil e não monetária) para distinguir os conceitos de terceiro setor, economia solidária, economia popular e economia social.

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4. Originalmente, o quadro proposto por Maia (2005a) analisa os

conceitos de Tenório (1998, 2008), Singer (1999), Dowbor (1999), Carvalho (1999) e Fischer (2002, 2009). Araújo (2012) acrescentou, ainda, a essa lista, a perspectiva de França Filho (2003, 2008), da própria Maia (2005a, 2005b) e de Boullosa e Schommer (2008, 2009).

↩

5. Para fins deste estudo, entende-se o terceiro setor como um

espaço marcado por uma diversidade de atores e formas de organização, de participação e experimentação de novas formas de pensar e agir sobre a realidade social, rompendo

com a dicotomia entre público e privado, na qual o público era sinônimo de estatal e o privado de empresarial, ocasionando o surgimento de uma esfera pública não estatal e de iniciativas privadas com sentido public (CARDOSO, 2005).

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6. O Programa Territórios da Cidadania, do governo federal, vem

sendo implementado desde 2008 e busca agrupar municípios com maior fragilidade econômica e social, de forma a coordenar ações que possam combater a pobreza extrema e contribuir no esforço de erradicação da miséria no país.

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7. Esta surgiu no fim da década de 90 partir da integração de um

conjunto de organizações que tem como objetivo central a promoção da agroecologia.

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Elisabete Stradiotto Siqueira, Iriane Teresa de Araújo

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