Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Elisabete Stradiotto Siqueira, Iriane Teresa de Araújo · Capítulo 2 de 13

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Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Apresentação

 

Os paradigmas de gestão foram desenvolvidos com a Revolução Industrial, na tentativa de responder às demandas das organizações que tinham o lucro como sua principal meta. Dessa forma, princípios como centralização do poder, racionalização do trabalho e dos processos produtivos e racionalidade instrumental foram as diretrizes que deram os contornos para as práticas administrativas baseadas na competitividade.

Contudo, essa forma de gestão não considerava outros tipos de organizações, como cooperativas, sindicatos e associações, que buscam, em suas práticas produtivas, fortalecer processos de cooperação que permitam uma relação mais equilibrada entre os agentes organizacionais no que diz respeito à distribuição dos recursos físicos, financeiros, técnicos e simbólicos, resultantes da dinâmica produtiva.

Pensar formas de gestão pautada em valores como solidariedade, cooperação, democracia, igualdade de oportunidades, sustentabilidade ambiental e respeito às relações entre sociedade e organização, demanda um ponto de partida diferenciado, que substitua a racionalidade instrumental pela racionalidade substantiva, como proposto por Guerreiro Ramos. Trata-se de nadar contra a corrente da lógica dominante, que sustenta que a desigualdade social é resultado de competências e incompetências individuais, que o sistema como um todo oferece oportunidades iguais.

Para pensar nessa outra lógica de gestão, é necessário desnaturalizar que o lucro é a única finalidade organizacional, e que a competição é a única possibilidade de relação entre as organizações.

Várias formas organizacionais e perspectivas de gestão têm sido tratadas no sentido de retirar essa centralidade do lucro e de relações assimétricas de poder, entre elas, a gestão social é um conceito que vem sendo debatido mais intensamente a partir da década de 1990. Contudo, como um termo ainda em construção, tem sido questionado quanto à sua viabilidade de constituir-se em uma forma de gestão adequada para organizações sociais, ou seja, se essa prática de gestão permite a sobrevivência de organizações no contexto de competitividade imposto pela lógica do mercado, ou se ele só seria possível em outra sociedade que não a capitalista.

Para lidar com esse questionamento, este livro propõe um recorte nessa discussão e toma o binômio gestão social e agricultura familiar como um campo para analisar essas relações.

A agricultura familiar, particularmente aquela desenvolvida no Semiárido nordestino, foi tomada como lócus para a gestão social por sua natureza, ou seja, diferente da agricultura patronal, não tendo o lucro como norte central de suas ações, mas, ao mesmo tempo, comercializa a produção excedente no mercado como forma de viabilizar a complementação das demandas de sobrevivência. Nesse sentido, é uma prática que pode transitar entre a lógica instrumental e substantiva e, nesse sentido, se torna um bom campo para se compreender como os princípios da gestão social podem ou não ter boas respostas para os dilemas da competição e cooperação.

Para percorrer esse caminho, o livro está dividido em três eixos. O primeiro trata da dimensão conceitual da gestão social, procurando demarcar como o conceito vem sendo construído, seus avanços e dificuldades de materializar-se como uma alternativa no campo organizacional.

Para tratar essa questão, os dois primeiros capítulos iniciais trazem uma reflexão teórico-conceitual sobre gestão social, procurando demarcar o histórico do conceito, as principais correntes teóricas, as críticas e potencialidades presentes nesse debate. O terceiro capítulo tece uma ponte com o lócus do estudo, ou seja, a agricultura familiar, procurando demonstrar os nexos entre a lógica da gestão social e da agricultura familiar.

Na segunda parte do livro, apresentam-se as experiências de organizações enraizadas na agricultura familiar. Os capítulos trazem experiências de cooperativas e assentamentos rurais, evidenciando as potencialidades dessas práticas e suas limitações e dificuldades em operar com uma lógica orientada pela cooperação. Ilustra as dificuldades e as estratégias que vêm sendo utilizadas por esses grupos na busca de processos sociais e econômicos mais includentes. Ainda nessa parte do livro, também é abordado o papel das políticas públicas e como elas são fundamentais para equilibrar as assimetrias de acesso ao mercado, principalmente considerando a lógica da cooperação.

A terceira e última parte do livro traz o debate sobre as tecnologias sociais, evidenciando a necessidade de uma lógica de desenvolvimento de tecnologias baseadas na convivência com a realidade local e, ainda, que possam ser apropriadas pelo usuário. Nessa parte também é tratada a questão da economia solidária como uma possibilidade de relacionamento entre organizações que primam por uma lógica administrativa substantiva.

O livro não tem a pretensão de trazer respostas, mas de apontar caminhos, evidenciar as potencialidades e dificuldades que os atores sociais encontram em desenvolver uma lógica de gestão que favoreça à solidariedade e à cooperação.