Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Elisabete Stradiotto Siqueira, Iriane Teresa de Araújo · Capítulo 3 de 13

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Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar

Parte 1 – Compreendendo a gestão social

Parte 1

 

Compreendendo a gestão

 

social

Capítulo 1 – (In)consistências

 

da gestão social: um campo em

 

construção

 

Edgilson Tavares de Araújo

 

1 Introdução

 

A gestão, não raras vezes vista como um conformismo ao status quo, o que, na sociedade de mercado, significa operar sob a prevalência do capital sobre o trabalho, ou uma condição necessária e mesmo vital em todos os tipos de organizações, tem sido desconsiderada como um elemento dinâmico que envolve pessoas e valores, cujo impacto se estende para além do processo de trabalho organizacional em si, implicando repercussões sociais. Diferentemente do início do século XX, quando a preocupação central era apenas a gerência em si, o controle e a maximização produtiva e dos lucros, a gestão tornou-se polissêmica, diante da complexidade dos fenômenos socioeconômicos, procurando criar significados cotidianos para a ação individual e coletiva. Não se trata apenas do “como fazer gestão”, mas de uma busca por respostas, também, ao “por quê e para quê fazer gestão”, gerando tensões inquietantes para se compreender sentidos ideológicos e práticas das relações sociais. O verbo gerir tornou-se princípio, ganhando as mais diversas adjetivações, que invocam, além da lógica empresarial-lucrativa, o público, o político e o social.

Indutivamente, a partir de práticas pontuais e cooperações entre organizações públicas e privadas em torno da corresponsabilização e coprodução do bem público, vão-se criando fundamentos epistemológicos para a concepção de gestão social. Com managing de práticas em projetos e programas sociais, novos formatos organizacionais (redes, consórcios intermunicipais, fóruns, arranjos produtivos locais, incubadoras de empreendimentos solidários etc.) e outros processos mobilizadores da sociedade, o arcabouço teórico-metodológico da gestão social vem-se estruturando. No campo acadêmico, priorizam-se novas agendas de pesquisa e extensão, mesmo sem haver maior precisão quanto aos usos e abusos desse novo contorno conceitual, principalmente na área de Administração. Num movimento paralelo, o Serviço Social discute – ainda que mais timidamente – a gestão social, demandando a profissionalização gerencial, valorizando competências técnico-instrumentais e não só as atitudinais, traduzidas pela racionalidade substantiva. Tal demanda ultrapassa fronteiras ideológicas, adentrando em questões postas por uma nova frente no mercado de trabalho, atraindo profissionais oriundos de outros campos, bem como propiciando significativas alterações quanto ao gênero nas profissões sociais, isto é, a ultrapassagem da noção de prestação de cuidados pela gestão da prestação de cuidados passa a atrair mais profissionais do gênero masculino.

A gestão social se institucionalizou (não por acaso) precocemente, na transição do século XX para o XXI, frequentemente atrelada aos conceitos de sustentabilidade, território e desenvolvimento. A adjetivação proposital ao conceito de gestão apresenta-se como construto inovador que denomina e domina, na contemporaneidade, a agenda política. A gestão social apresenta-se, portanto, como estratégia política dominante, capaz de dar sentido e reconhecimento a experiências localizadas “até então dispersas (ou que corriam o risco de dispersão) ocupando certo vazio de etiquetagem (labeling) que muitas delas vivenciavam” (BOULLOSA; SCHOMMER, 2009, p. 4).

Junto à supervalorização de práticas híbridas e, por vezes, contraditórias (inclusive reconhecidas pelos pesquisadores do próprio campo), percebe-se o movimento de modelização da gestão social, que passa de um processo a um produto inovador (BOULLOSA; SCHOMMER, 2009), que busca caracterizar um gestor do trabalho social capaz de atuar como mediador de redes e relações sociais mutáveis e emergentes. Trata-se, aqui, não só de pensar a gestão organizacional como mero processo interno de atuação dos agentes institucionais, mas de um modo de externalidade das organizações. Desse modo, requer competências e qualificações tácitas e específicas, as quais, pelo discurso atual, podem ser adquiridas por meio de cursos de extensão, especialização, pós-graduação e, mais recentemente, graduação tecnológica. Intrinsicamente, aparece uma contradição lógica, já que há um descompasso entre a produção de conhecimento e a delimitação prévia e modelada de competências requeridas para uma área que, teoricamente, buscaria um novo perfil de gestor, voltado para uma racionalidade substantive de ordem pública, no sentido amplo e contextual.

Mas, afinal, o que, de fato, vem a ser a gestão social? Um processo inovador que, precocemente, se institucionalizou como produto de ensino? Um processo inovador no campo das políticas públicas e da garantia da cidadania? Quem é e quem pode ser gestor social? Até que ponto realmente inclui segmentos de classe que nunca foram priorizados nos processos de gestão? Que direção é essa? Criação de uma nova categoria profissional ou nova carreira? Quais elementos dão consistência/inconsistência à gestão social, e como se apresentam no processo de formação de gestores sociais? O que se ensina/aprende sobre gestão social? Quais os fundamentos teóricos-conceituais para práticas contemporâneas e pontuais sobre aquilo que se designa como gestão social? Como se materializam os conceitos e quais suas ambiguidades e ambivalências nos processos formativos? Estas são algumas das questões que se busca responder nesta reflexão teórica.

O objetivo deste capítulo é trazer uma reflexão teórico-conceitual sobre a gestão social, buscando conhecer os elementos que atribuem consistência/inconsistência a esse conceito, que emerge, principalmente, na América Latina e, em especial, no Brasil. Para tanto, apontam-se alguns elementos e caminhos epistemológicos para análise desse conceito, a partir de resultados de uma tese de doutoramento em Serviço Social, defendida em 2012 pelo autor deste texto.

Além desta introdução, faz-se uma ampla revisão bibliográfica, de modo multidisciplinar, utilizando-se referências das áreas de Serviço Social, Educação, Administração Pública, Sociologia e da própria Gestão Social. Busca-se compreender a ascensão e relevância da gestão social, identificando-se e comparando-se diferentes concepções epistemológicas e metodológicas que concebem e fundamentam a gestão social. Busca-se, depois, analisar a constituição da Gestão Social enquanto campo disciplinar, observado, inclusive, pelo seu estado da arte, que parece ser desenvolvido de modo mais explícito na América Latina. Por fim, fazem-se algumas considerações finais e apontamentos para uma agenda de pesquisa.

 

2 Ascensão e relevância da gestão

 

social: entre a fluidez das práticas e a

 

precoce institucionalização

 

A partir da década de 1990, a crise hegemônica mundial repercute a extensão da precariedade do sistema de proteção social no Brasil, demonstrada por fatores como a dita escassez de recursos para atender às crescentes demandas provocadas pelas mazelas sociais, o aumento das iniciativas para assegurar a diminuição e a ação provedora/reguladora do Estado e o incentivo para o estabelecimento de “novas” relações de parceria com a sociedade civil. Nesse contexto, tornam-se latentes as discussões sobre a ampliação do espaço público, democracia e cidadania, enfatizando dilemas sobre privatização, publicização, focalização e universalização da política social. Tais tendências são atestadas, no Brasil, principalmente, a partir de 1995, com a Reforma Gerencial do Estado e o surgimento do Conselho da Comunidade Solidária, espaço mediador e articulador entre Estado e sociedade civil, tendo como funções precípuas opinar sobre ações governamentais na área social, propor novas estratégias, incentivar iniciativas não governamentais e promover meios para o fortalecimento do chamado “terceiro setor”.

A gestão social surgiu dentro dos templários universitários, como possibilidade inovadora de pesquisa e ensino nas áreas de Administração e Serviço Social. Passou-se a trabalhar com releituras de conceitos, valorizando as contemporâneas práticas que buscam inovação e mudança social, dando valor a novas estratégias de intervenção para o desenvolvimento, de modo que, muitas vezes, não trabalhem com análises de elementos estruturais do sistema, não alterem modelos produtivos nem modos de distribuição de renda e de universalização de direitos.

Clama-se por uma gestão diferenciada, não taylorista, não filantrópica ou benemerente, caracterizada pelos princípios e valores éticopolíticos, pela participação e dialogicidade, pela horizontalidade nas relações de poder. A gestão passa a ser pensada não apenas enquanto modo ou processo, mas pelas suas finalidades e pelos seus objetos, implicando alterações e alternativas para gerar mudanças. Novas nomenclaturas, releituras e adjetivações diversas rotulam conceitos e práticas gerenciais muitas vezes tradicionais, numa tentativa real e, às vezes, ufanista de mudança societária. No conjunto dessas preocupações e no sentido de afirmá-las e distinguir seu significado, a gestão com tais perspectivas começa a receber uma adjetivação – social. Essa nominação gestão social, ao ser disseminada e, mais do que isso, ao ter seus elementos como conteúdo de ensino, vai colocar novas questões. A primeira, pode-se inferir, indaga: o social colocado junto ao termo gestão é um adjetivo ou uma forma substantiva de entender e tratar a gestão organizacional?

O social, enquanto adjetivo, é atribuído às organizações e à gestão, às formas de empreendedorismo e às tecnologias, de modo proposital, ganhando uma agenda própria nas instituições tipicamente produtoras de conhecimento, em especial as universidades, bem como no campo político, nas organizações estatais e na sociedade civil, numa tentativa de coprodução do bem

público 1. A gestão social nasce, portanto, como construto inovador que busca vencer a dicotomia do mainstream técnico dos que trabalham com os processos econômicos e dos “sonhadores” por uma sociedade justa, que buscam transformações e impactos sociais e ambientais, soluções para as “deformações das prioridades que nos levou aos dramas atuais” (DOWBOR, 2010, p. 3). Clama-se por outro mundo possível e, para tanto, por outra concepção e forma necessária de gestão do social que consolide a democracia. O cerne da questão é que não se pode administrar ou gerir o social seguindo a mesma lógica da produção fabril disseminada no século passado pelo taylorismo, pelo toyotismo ou pelo moderno just-in-time. Ao se falar em gestão social,

 

[…] estamos falando de uma gestão integrada da sociedade, de modo que faça sentido. Não estamos nos referindo a gestão dos problemas sociais (os pobres) ou ambientais (as árvores), e sim de uma forma articulada de organizar o conjunto para que funcione (DOWBOR, 2010, p. 4).

 

O autor remete, portanto, à ideia de que o social é societário e coletivo, e não individual e lucrativo, quando considerando um tipo de gestão ao social.

Em se tratando do gerenciamento que tem por objeto o social,

deve-se atentar para o tipo de gestão2, finalidades, características e racionalidades que serão aplicadas. Seria a gestão social uma contraposição à lógica taylorista, vista como uma forma mais humanizada e compactuada para inovar e promover mudanças, inclusive nas relações capital-trabalho? Utopia ou não, trata-se de uma tentativa que pode ser inovadora, talvez messiânica, necessária para o desenvolvimento societário.

Concebida nesses termos, a gestão social vem-se consolidando enquanto campo de práticas, conhecimentos e atuação profissional, que, não por acaso, precocemente vem-se institucionalizando (BOULLOSA; SCHOMMER, 2008, 2009). Alguns fatores contribuem para isso, tais como: o fomento de pesquisas e programas de formação por órgãos públicos e agências internacionais; a criação de uma nova carreira pública de gestor social, iniciando com o cargo de Analista de Políticas Sociais, no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; as demandas por capacitação gerencial na área pública e por parte das organizações do terceiro setor; as várias investigações envolvendo questões sobre a gestão e suas relações com participação, democracia, novas formas organizativas e relações intersetoriais; entre outros. Assim, progressivamente, têm-se a ascensão de programas de formação em nível de extensão, pós-graduação (lato e stricto sensu) e graduação (tecnológica e bacharelado), centro de pesquisa, publicações, eventos e outras materializações do que se designou chamar por gestão social.

O termo gestão social, frequentemente, está atrelado aos conceitos de sustentabilidade, território e desenvolvimento. A adjetivação proposital ao conceito de gestão surge como construto inovador que denomina e domina, na contemporaneidade, o cenário e a agenda política. Progressivamente se consolida defendendo um tipo de gestão mais humanizada, relacional e interdisciplinar, emergindo como construto inovador no âmbito acadêmico das ciências gerenciais. A gestão social apresenta-se, portanto, como estratégia política dominante, capaz de dar sentido e reconhecimento a experiências localizadas “até então dispersas (ou que corriam o risco de dispersão) ocupando certo vazio de etiquetagem (labeling) que muitas delas vivenciavam” (BOULLOSA; SCHOMMER, 2009, p. 4). Tem-se, assim, um campo plural de concepções, conhecimentos e práticas que gradualmente vem-se consolidando, criado para responder às complexas questões e demandas sociais geradas desde a implementação do Estado Gerencial, a emergência do chamado terceiro setor e a responsabilidade socioambiental das empresas. Trata-se, portanto, de um conceito inovador e em construção, que corre o risco de passar de processo a produto, perdendo seu foco e características inovadoras (BOULLOSA; SCHOMMER, 2008, 2009).

Ao se verificar a evolução dos grupos de pesquisa e eventos sobre gestão social, mesmo diante de incertezas e ambiguidades, de fato, ela aparece como construto inovador no âmbito acadêmico e gerencial capaz de dar sentido a práticas sociais localizadas e pontuais, trazendo explicações para as relações intersetoriais (Estado, mercado e sociedade civil) e “ocupando um certo vazio de etiquetagem (labeling)” (BOULLOSA; SCHOMMER, 2009, p. 2). Isso é comprovado pelo grande número de ações promotoras do culto ao símbolo da gestão social, enquanto inovação para a “transformação societária”. As novas institucionalidades criadas e a releitura de conceitos, numa busca interdisciplinar de diálogo e entre diferentes campos do conhecimento e práticas sociais, criam um suposto novo campo de atuação e carreira, que é do gestor social. Este surge como agente diferenciado do gestor público ou privado convencional, sendo responsável pelo planejamento e gestão das mudanças com relação à minimização de problemas sociais. Tal fenômeno seduz e ganha espaço, inclusive, no campo da gestão pública governamental, que cria espaços para carreiras públicas nesse sentido (ARAÚJO; BOULLOSA; GLÓRIA, 2010). Como causa ou consequência disso, verifica-se a crescente oferta de programas de formação de gestores sociais – mestrados profissionais, especializações, curso de extensão, cursos livres e, mais recentemente, graduações tecnológicas – com vagas amplamente disputadas por pessoas que já atuam ou que desejam atuar nesse campo.

Pelo grande número de ofertas e demanda por formação, pode-se perceber como se revela um forte appeal de mercado, de construção do conhecimento e ensino-aprendizagem; constituem-se novos grupos de opinião, enquanto think tanks, ávidos por novidades, não exatamente por inovações, preenchendo um vazio conceitual deixado pelo fenômeno do terceiro setor e ocupando um reinteresse pela gestão pública social (BOULLOSA; SCHOMMER, 2009). Se, por um lado, do ponto de vista da urgência em buscar soluções para as “problemáticas sociais” e pelo resgate do “homem público” (SENNETT, 1998), por outro, percebe-se que gradativamente a gestão social começa a perder seu caráter inovador processual enquanto acolhedora e sistematizadora analítica de experiências e práticas de gestão pontuais, ganhando um status de “produto inovador”. Nesse sentido, Boullosa e Schommer (2009, p. 2) alertam que a dinâmica construtiva da gestão social passa por “um processo de inversão de significados, passando de índice a ícone: em lugar de indicar um conjunto de experiências que se contrapunha a modelos tradicionais de gestão, passa a representar a si mesma”. A precoce modelização e institucionalização desse campo gera o risco de criar amarras interpretativas e estruturas de problematização para as ações gerenciais do social. A consolidação da gestão social enquanto campo epistemológico cria um processo de “semiose infinita”, tal como descrito por Charles Peirce. O importante não é o signo da gestão social, mas a situação sígnica representada a partir dos seus significantes e interpretantes.

3 Fundamentos epistemolõgicos e

 

ético-políticos da gestão social

 

Cidadania, participação, democracia, justiça social, políticas públicas e sociais, responsabilidade socioambiental empresarial, enfrentamento da pobreza, novas relações de poder, desenvolvimento sustentável, territorialização, entre outros, são temas de pesquisa, formação e intervenção dos grupos e núcleos acadêmicos citados. Certamente, os focos dados por cada um deles são bastante diferenciados, variando conforme as suas experiências locais e expertises que inicialmente guiaram os pesquisadores que os instituíram. Diante dos conceitos e tentativas conceituais ambíguas sobre o que vem a ser a gestão social, pode-se observar, porém, que há neles algo em comum, que remonta a aspectos teóricos clássicos de autores que explicam fenômenos ligados à gestão, à burocracia, aos processos sociais, ao Estado, às organizações, ao público e ao privado, tais como: Alberto Guerreiro Ramos, Mary Parker Follett, Hanah Arendt, Maurício Tragtenberg, Jünger Habermas, Antônio Gramsci, entre outros. Esses autores se contrapõem aos modelos de gestão empresarial lucrativo, apontando alternativas aos modelos de gestão, considerando valores da democracia, da valorização do ser humano, da horizontalidade nos relacionamentos e nos processos decisórios e do desenvolvimento social.

Além de compreender a gestão social enquanto um campo de práticas e conhecimentos em construção, é preciso discutir aspectos deontológicos e epistemológicos que fundamentam tal constructo, diante das tentativas interdisciplinares de sua análise. Por isso, para entender o que distingue conceitualmente e eticamente a gestão social da gestão privada e pública, mesmo parecendo ser aparentemente clara tal distinção, é importante revisitar aquilo que se entende por gestão e o que se entende por social. Assim, talvez se tenha como distinguir para que veio e a que se contrapõe a gestão social, o que a diferencia, qual tradição que pretende inovar. Fazer tal análise exige, além de tudo, um cuidado relacionado à compreensão dos aspectos histórico-culturais e ético-políticos que regem tais conceitos, normalmente associando a gestão a algo do capitalismo, do conformismo com o sistema, não coadunando com a ideia de mudança do social. Daí tem-se uma ambiguidade nata da gestão social, gerando, inclusive, certo anacronismo necessário àquilo que se determina enquanto nova questão social.

 

4 Conceitos de gestão social:

 

hibridismo, ambivalências,

 

ambiguidades, diferenciação ou mais

 

do mesmo?

 

Com a emergência e proliferação do uso da terminologia gestão social na agenda política e midiática, é importante saber o que, de fato, distingui-la em termos conceituais e práticos. Isso leva a duas tendências: primeira, a própria banalização do termo, já que o universo de práticas sociais passa a ter um novo contorno, e tudo que não é caracterizado como gestão tradicional passa a ser social; segunda, a emergência do chamado terceiro setor dando novas configurações nas relações entre Estado e sociedade para enfrentamento dos problemas sociais (FRANÇA FILHO, 2003, 2008; CANÇADO; TENÓRIO; PEREIRA, 2011). O sentido do não lucrativo é estendido como campo da gestão social, sendo, muitas vezes,

confundido com o não mercantil e não monetário3. Além de um risco epistemológico, há uma confusão com relação às diversas práticas gerenciais e de ação social realizadas por organizações públicas e privadas.

O que, de fato, está-se referindo, quando se fala em gestão social? Como já salientado, a priori, diante dos termos historicamente postos em contraposição, gestão sempre esteve associada a processos e mecanismos de poder nas relações capital-trabalho. A gestão “se tornou a ciência do capitalismo, submetida por uma vontade de domínio que se apresenta fundamentalmente racional”, afetando não apenas o campo da economia, mas a sociedade inteira (GAULEJAC, 2007, p. 75). Ocorre que, na última década, a gestão, de uma espécie de conformismo ao sistema, passou a ser considerada cada vez mais necessária no âmbito do social, mesmo para os mais céticos. Ao se tratar de gestão, cujo modo, objeto e finalidade é o social, deve-se atentar para que tipo de gerenciamento, com quais finalidades, características e racionalidades opera e adota. A questão é: em que medida a qualificação da gestão como social altera essencialmente a concepção de gestão? (ARAÚJO, 2011).

Compreende-se que se trata de um conceito em construção, com características híbridas, devido à mistura de elementos que o compõe, inclusive por se tratar de um vocábulo composto por categorias inicialmente antagônicas. Levando-se em conta, também, o caráter ambíguo, a gestão social pode ser considerada em dois ou mais sentidos, permitindo a presença do “ou”. O caráter ambivalente, quase natural, desse termo, remete à definição de Bauman (1999, p. 9) sobre ambivalência: “possibilidade de conferir a um objeto ou evento mais de uma categoria é uma desordem específica da linguagem, uma falha da função nomeadora (segregadora) que a linguagem deve desempenhar”. Isso gera um desconforto pela incapacidade de ler adequadamente a situação e optar entre ações alternativas. Porém, a ambivalência não é produto da patologia da linguagem ou do discurso, pois decorre da necessidade de nomear e classificar, de “postular que o mundo consiste em entidades discretas e distintas; depois, que cada entidade tem um grupo de entidades similares ou próximas ao qual pertence e com as quais conjuntamente se opõem a algumas outras entidades” (BAUMAN, 1999, p .11). No caso da gestão social, parece haver um direcionamento claro para a sua finalidade, mas não se consegue distinguir com clareza o que a diferencia em termos paradigmáticos e de práticas. Surgem algumas inquietações que levam à finalidade desta seção: Qual a pluralidade de concepções sobre gestão social? Quais seus fundamentos epistemológicos? Está claro o que de fato classifica-se como gestão social? Tudo pode remeter àquilo que se queira anunciar por gestão social?

Pelo exposto até então, pode-se afirmar que toda gestão supõe necessariamente uma dimensão social, interacional, relacional, o que, a priori, tornaria redundante uma formulação do tipo “gestão social” (FRANÇA FILHO, 2003, 2008). O uso da adjetivação “social” implicaria a existência de uma gestão não social? O adjetivo “social” pode ser entendido, basicamente, como espaço de relações sociais onde todos têm direito à fala (GONDIM; FISCHER; MELO, 2006). Pode-se dizer que tal adjetivação é proposital, mesmo que redundante e pleonástica, a fim de enfatizar o que, muitas vezes, o gestor esquece: “que suas ações têm impactos sobre a humanidade” (FISCHER; MELO, 2002, p. 3). “Ser social é algo que é feito para e pela sociedade”. Isso deve permear todo e qualquer processo de gestão, assim como qualquer ação humana (BASTOS, 2001). Logo, as pessoas são colocadas no centro das questões relacionadas à gestão (social ou não), instigando a novas indagações: O que as pessoas fazem da gestão? O que a gestão faz com as pessoas? Como as pessoas vivem na sociedade da gestão? Tais questões podem guiar as discussões sobre a gestão social, já que, para tentar respondê-las, se faz necessário reconhecer a diversidade de visões de mundo, lógicas, valores, formas de comunicação, prioridades ao se viver.

Plasticidade, fluidez e hibridismo aparecem como elementos constitutivos da gestão social. Enquanto modo de gestão, trata-se de uma modalidade que pressupõe um humanismo radical, criatividade e ética. Enquanto objeto social para lidar com as contingências entre o público e o privado na consolidação das democracias, remete a aspectos teórico-metodológicos referentes a novos formatos organizacionais e novos modos de gerir, evidenciando a solidificação e institucionalização (por vezes, precoce) de um campo epistemológico e ético-político, que busca explicar as relações e processos sociais. Tais explicações são traduzidas (pelo menos no nível do discurso) a partir de uma visão multi ou interdisciplinar da realidade social.

Visto os pressupostos que embasam a lógica da gestão social, apresentam-se e analisam-se alguns conceitos ou caminhos para conceituar, propostos por teóricos brasileiros que, em sua maioria, os anunciam como algo híbrido, fluído e em construção.

Faz-se uma síntese desses conceitos no 4 Quadro 1 (anexo), originalmente proposto por Maia (2005a, 2005b) e aqui adaptado. A partir desse modelo de análise teórico-conceitual, elaborado com base nas propostas de “análise temática” e “análise das relações” anunciadas por Minayo (2004), pode-se examinar diferentes conceitos de autores já citados neste texto, buscando analisá-los a partir dos seus:

 

a. Valores (axiologia): Princípios referenciais que inspiram e dão

direção às construções teórico-práticas da gestão social;

b. Propósitos (teleologia): Finalidades ou intencionalidades para

onde se quer chegar com a gestão social;

c. Focos (epistemologia): Referências teóricas que dão

sustentação à perspectiva explicativa e propositiva da gestão social;

d. Agentes (ontologia): Pessoas e organizações que protagonizam

o processo da gestão social;

e. Locus e metodologia (praxiologia): O loco delimita o território ou

o campo de viabilização da gestão social. A metodologia constitui-se do caminho, das idéias e dos instrumentos balizadores para a viabilização da gestão social (MAIA, 2005a, p. 11).

 

Um dos autores mais citados no campo é Tenório (1998, 2008, p. 39) que define e revisita o conceito de gestão social como “processo gerencial dialógico onde a autoridade decisória é compartilhada entre os participantes da ação (ação que possa ocorrer em qualquer tipo de sistema social – público, privado ou de organizações não-governamentais)”. O autor faz uma análise a partir das categorias Estado-sociedade, capital-trabalho, gestão estratégica e gestão social, democracia deliberativa. A base analítica utilizada é a teoria da racionalidade comunicativa de Jürgen Habermas, trazendo o “agir comunicativo” como base da gestão social, no sentido de que, por meio do diálogo, se amplia a intersubjetividade e se compartilha a autoridade decisória, promovendo uma evolução social.

A conceituação de Singer (1999, p. 55) é um pouco menos explícita; porém, enfatiza que esse conceito “abrange uma grande variedade de atividades que intervêm na vida social em que a ação individual auto-interessada não basta para garantir a satisfação das necessidades essenciais da população”. Sendo assim, analisa uma perspectiva ampla de análise, abrangendo causas que vão do abandono de crianças às questões de capital-trabalho, sendo viabilizada por meio de políticas e práticas articuladoras entre diferentes atores públicos e privados.

Para Dowbor (1999a), por se tratar de um tema recente, carece-se de novos paradigmas que articulem a redefinição das relações entre o econômico, o social e o político para a transformação da sociedade. Nessa articulação, a atividade econômica passa a ser o meio e o bem-estar social a finalidade do desenvolvimento. Desse modo, caberia à gestão social um novo padrão de articulação entre os diferentes atores públicos e privados.

Gestão social como “gestão das ações sociais públicas […] gestão das demandas e necessidades dos cidadãos” é o conceito dado por Carvalho (1999, p. 19). Enfatiza a necessidade de participação da sociedade civil e o compartilhamento de responsabilidades para a criação de um welfare mix, articulando, complementando e promovendo convergências de políticas e programas. Analisa, também, as tensões entre as lógicas da eficiência e da equidade, bem como da lógica da tutela ou compaixão e a lógica dos direitos.

Fischer (2002) caracteriza a gestão social enquanto “gestão do desenvolvimento social”, enquanto campo de relações de poder, conflito e aprendizagem. A autora analisa como um espaço “reflexivo das práticas e conhecimentos constituídos por múltiplas disciplinas” e um “processo de mediação social” entre indivíduos, grupos, organizações, coletividades, redes e interorganizações. Enfatiza a necessidade de entrelaçamento das dimensões praxiológicas e epistemológicas já acumuladas, aponta uma “proposta pré-paradigmática” da gestão social.

França Filho (2003, 2008, p. 12) propõe um conceito de gestão social que possa “absorver tanto a dimensão de processo ou meio (como opera a gestão), quanto aquela da finalidade (quais os objetivos da gestão)”. Enquanto fim (nível macro), aproximar-se-ia da gestão pública, pois ambas buscam atender às demandas e necessidades da sociedade. Enquanto processo, visto como um meio, busca subordinar as lógicas instrumentais [típicas da gestão privada/estratégica] a outras lógicas, mais sociais, políticas, culturais ou ecológicas. Para isso, o autor desconstrói o conceito lógico do que seria uma gestão social, buscando compreender a complexidade da problemática da sociedade (nível societário) e a modalidade específica de gestão (nível organizacional), perpassando a gestão pública, privada e da sociedade civil.

Maia (2005a, 2005b, p. 15) que, pioneiramente, propôs essa análise dos diferentes conceitos de gestão social, conclui que a gestão social é

 

[…] um conjunto de processos sociais com potencial viabilizador do desenvolvimento societário emancipatório e transformador. É fundada nos valores, práticas e formação da democracia e da cidadania, em vista do enfrentamento às expressões da questão social, da garantia dos direitos humanos universais e da afirmação dos interesses e espaços públicos como padrões de uma nova civilidade (MAIA, 2005a, p. 15).

 

Para Boullosa e Schommer (2009, p. 1 – grifo das autoras), “a noção de gestão social indica e fortalece um novo modelo de relações entre Estado e sociedade para o enfrentamento de desafios contemporâneos”. As autoras afirmam que a gestão social traz forte presença de valores de democracia, participação, justiça, equidade e bem-estar social, sinalizando para o processo de coprodução dos bens públicos. As autoras afirmam que o termo passou a ser um construto estratégico criado por grupos de atores sociais e comunidades de prática para conceituar e contextualizar experiências criativas de gestão territorialmente localizada e situada entre o Estado, o mercado e a sociedade civil (BOULLOSA; SCHOMMER, 2008). Tais experiências, que eram até então dispersas ou em risco de dispersão, ganham uma nova etiquetagem (labeling), já que ocorre, de um lado, um enfraquecimento das noções de gestão participativa, gestão democrática e gestão do terceiro setor e, por outro lado, a retomada da gestão pública. Porém, de modo paradoxal, a propósito de a gestão social passar a perder seu caráter de “processo de inovação”, passando a ser considerada como “produto inovador”, gerado, principalmente, pela precoce institucionalização do campo.

De modo geral, pela análise do Quadro 1 (anexo) algumas noções fundamentais da gestão social são explicitadas pelos autores analisados: (a) a forte presença de valores de democracia, participação, justiça, equidade e bem-estar social; (b) a dialogicidade, horizontalidade e solidariedades nas relações; e (c) a atuação intersetorial e interorganizacional.

Os valores de democracia, participação, justiça, equidade e bem-estar social levam a crer que se trata de uma gestão mais inclusiva. Essa compreensão pressupõe a existência da apartação e exclusão existentes nos processos sociais.

A dialogicidade, a horizontalidade e a solidariedade, explícitas, ou não, por todos os autores, como condicionante à gestão social, manifesta outro tipo de olhar sobre os processos sociais, nos quais a lógica da sociedade prevalece. Remonta ao ideal do poder-com em contraposição ao poder-sobre, no qual “nossa contribuição não tem valor, a menos que esteja efetivamente relacionada às contribuições de todos os outros envolvidos” (FOLLETT, 1973 apud GRAHAM, 1997, p. 25). Para isso, é preciso compreender a complexidade organizacional e societal, não departamentalizando o pensamento, dicotomizando princípios éticos e econômicos, problemas sociais e econômicos, já que existem princípios fundamentais a serem aplicados a todas as situações.

Pode-se perceber similaridades e distinções entre os diferentes autores, prevalecendo em todos a noção de uma gestão voltada para mudança e inovação dos padrões vigentes, fortalecimento da democracia e consolidação da cidadania, enquanto principais valores presentes nos conceitos. Pode-se perceber que são elementos estruturantes de todos esses, em maior ou menor intensidade para cada um dos autores, os ideais de democracia, participação, desenvolvimento, cidadania, bem público, governança, formas de intervenção. Assim como identificado por Maia (2005b), os valores preponderantes da gestão social são a democracia e a cidadania, fundamentados em sua práxis considerando a gestão social em contraposição à perspectiva mercantil.

A análise dos propósitos estabelecidos pelos autores revela que estes afirmam a gestão social com propósitos voltados às ações (gerenciais, sociais públicas), aos processos sociais (conjunto de ações, desenvolvimento social) e ao desenvolvimento social (afirmação, transformação). Estes possuem efetiva relação, porém trazem importantes distinções, no que diz respeito ao entendimento da gestão social, gestão do social e gestão pelo social. A gestão do social trata das ações ou mesmo dos processos que reúnem um conjunto de ações, seja na perspectiva gerencial (TENÓRIO, 1998), como em torno das políticas públicas (SINGER, 1999) ou políticas sociais (CARVALHO, 1999), não explicitando a intervenção imediata na complexa trama do desenvolvimento societário, apesar de reconhecê-la como importante mediação para o desenvolvimento. Na maioria das vezes, configuram ações, projetos e programas executados por atores públicos governamentais e não governamentais. A gestão pelo social se aproxima da ideia das ações sociais realizadas por empresas privadas, organizações não governamentais (ONGs) e organizações do terceiro setor, retomando elementos instrumentais, caritativos e filantrópicos, isto é, fundada nos princípios do doador e não necessariamente no cidadão que recebe, o qual é visto de modo passivo. No caso da gestão social, configuram-se processos de desenvolvimento societário (FISCHER, 2002), transformações nos padrões de desenvolvimento (DOWBOR, 1999b), mudanças societárias que promovam emancipação (MAIA, 2005a, 2005b) e novos modos de relacionamento intersetorial voltados para o enfrentamento das questões sociais contemporâneas.

Carvalho (1999) e Singer (1999) aproximam-se mais da noção da gestão social enquanto gerenciamento de ações públicas, no sentido lato da gestão de políticas públicas. França Filho (2003, 2008) foca no gerenciamento das organizações que atuam diretamente na área social e no reconhecimento da finalidade da gestão social, analisando, também, a sua natureza. Tenório (1998, 2008), Dowbor (1999a), Fischer (2002), Maia (2005a, 2005b) e Boullosa e Schommer (2008, 2009) estariam numa vertente abrangente, porém não menos híbrida, da gestão social como um campo de ação voltado para a gestão de ações promotoras de mudanças sociais (incluindo aquelas do desenvolvimento), para ações interorganizacionais e intersetoriais e ampliação do espaço público. Esta última parece ser, portanto, uma tendência, porém alertando que se trata de um conceito em construção (in progress), com muitas ambiguidades, ambivalências e paradoxos. Portanto, um construto passível de desconstruções, (in)consistências e desvirtuamentos, sendo analisado neste estudo. Maia (2005b) afirma que, pela análise, pode-se compreender que o construto é fundado na contra-hegemonia do projeto societário cidadão, e já se constitui como sua “superação” (CURY, 2002) e como “um processo social de desenvolvimento ou conjunto de processos sociais viabilizador do desenvolvimento societário” (MAIA, 2005b, p. 77).

Pode-se afirmar, portanto, que não há uma interpretação unívoca do conceito de gestão social. Pelo menos, além dos enunciados nos conceitos analisados, é o que frequentemente se ouve nos congressos, encontros e cursos de gestão social, dentre os que a estudam e/ou entre os que a praticam. Compartilha-se da afirmação de Boullosa e Schommer (2008, 2009), de que se trata de um conceito em formação, um conceito in progress. A gestão social teria, portanto, múltiplas possibilidades interpretativas.

Ao se analisar os focos dos construtos teóricos, pode-se afirmar que gestão social é um conceito interdisciplinar por natureza, porém, em alguns casos, predomina a visão das ciências gerenciais, o que se justifica pela ascensão do conceito nas escolas de Administração de Empresas e Administração Pública. O conceito de Maia (2005a, 2005b) é o que traz uma visão mais voltada para as Ciências Sociais numa perspectiva mais ampla. Também se percebe uma ampliação dos referenciais que apontam a gestão social como campo de atuação e processo de mudança. Nesse sentido, aponta para uma virada paradigmática questionando leis, conceitos, valores, regras e critérios até então afirmados no mundo da gestão. Giannella e Moura (2009) propõem uma virada paradigmática, defendendo a necessidade de uma abordagem pós-positivista da gestão, priorizando a dialogicidade, a horizontalidade e a solidariedade nas relações.

Os loci e agentes que viabilizam a gestão social apontam para organizações públicas e privadas, além de alguns autores centrarem nas políticas públicas e na participação ativa dos cidadãos. Valorizam-se as organizações que atuam em redes (interorganizações), as relações intersetoriais e o local. Esses campos introduzem a perspectiva da necessária pactuação entre as dimensões e agentes sociais, políticos e econômicos (DOWBOR, 1999a). Percebe-se uma afirmação da gestão social enquanto mecanismo de ampliação do espaço público, bem como o espaço público sendo ampliado pela gestão social (MAIA, 2005b; BOULLOSA; SCHOMMER, 2008, 2009), uma vez que se pretende realizar a coprodução dos bens públicos.

Com relação à atuação intersetorial e interorganizacional, o campo da gestão social é um híbrido de componentes, oriundo do Estado, mercado e sociedade civil. A ação intersetorial propiciada pela gestão social traz, portanto, uma nova lógica de superação da fragmentação das políticas, considerando o cidadão em sua totalidade, já que estabelece novas relações sociais (JUNQUEIRA, 2004, 2008). A gestão social é, portanto, mediadora e articuladora de processos intersetoriais voltados para o desenvolvimento e superação da exclusão. Logo, ocorre como gestão das interorganizações, ou seja, organizações que trabalham juntas ou interorganizadas, cuja principal característica é a hibridização e a complexidade. As interorganizações são constituídas por organizações diferenciadas, conectadas por propósitos comuns e integradas, resultando (ou não) em novas formas organizacionais, tais como: fóruns, conselhos, redes, consórcios, arranjos produtivos etc. A associação se faz pela complementaridade – portanto, pela busca do diferente que possa cooperar para se atingir um resultado, exigindo, dessa forma, modos diferenciados de gestão nessa perspectiva de ampliação de espaços públicos sociais (FISCHER, 2002).

As metodologias apontadas, no Quadro 1 (anexo), como caminhos para a gestão social, apesar de trazerem uma riqueza em termos de pressupostos, estratégias e ferramentas, indicando para os processos sociais e mediações (TENÓRIO, 1998, 2008; FISCHER, 2002; MAIA, 2005b; BOULLOSA; SCHOMMER, 2009), talvez sejam o marco analítico que mereça maior cuidado, no que diz respeito às possíveis inconsistências e ambiguidades que podem existir. Cabe aqui salientar que as diferentes formas de atuação e intervenção existentes no âmbito da gestão social prioriza processos sociais amplamente participativos, como, também, pode apontar para estratégias de mercado cujo risco de manipulação do social é bastante elevado.

Pela decomposição dos conceitos e nortes conceituais da gestão social apresentados, pode-se concluir que a gestão social é um espaço de interação, uma possibilidade de ampliação do espaço público, a gestão enquanto elemento mediador das relações que nela se estabelecem.

 

5 Campo da gestão social

 

Pelas características apresentadas até então e pela multiplicidade e polissemia conceitual, a gestão social constitui um campo, como cunhado por Bourdieu (1989, 2004), em analogia à noção de campo gravitacional, sendo útil para colocar a perspectiva das posições, das relações, dos discursos e da lógica e sentido que guiam a ação dos sujeitos ao interior de cada âmbito de atuação. Ou seja, a ideia de campo trata de um espaço social estruturado de posições e interações objetivas, cujas propriedades podem ser analisadas independentemente dos agentes que nela participem, centradas na produção, distribuição e apropriação de um capital que, neste caso, trata-se de um capital social, simbólico e intelectual. Na teoria dos campos, Bourdieu (1989, 2004) faz referência aos sujeitos individuais, porém, no caso da gestão social, aqui se refere aos sujeitos coletivos, em espaços dialógicos, inclusive no sentido de esse conceito ser instituinte e não instituído.

Não se teve aqui apenas a necessidade de precisar um conceito de gestão social, inclusive porque se está falando sobre algo inerente às Ciências Sociais, mas de discutir a natureza desse campo. Mais do que tentar definir precisamente se a gestão social é um modo específico de gestão, uma finalidade da gestão, uma gestão cujo objeto é o social, tratou-se de conhecer a pluralidade conceitual existente, analisando suas possíveis consistências e inconsistências, suas ambiguidades e ambivalências. Isso será confrontado mais adiante, com as análises realizadas a partir da pesquisa de campo com os docentes e discentes de cursos de formação nessa área.

A Figura 1, usando a imagem do funil, enquanto uma boa metáfora para definir o campo da gestão social e suas possíveis vertentes conceituais, mostra que num mix liquidificado de conceitos envolvendo as discussões sobre coprodução do bem público e relações intersetorias, cidadania e participação, desenvolvimento socioterritorial por meio de suas diversas formas de intervenção, gera-se a noção de gestão social. Esta pode remeter a três vertentes conceituais e não excludentes: gerenciamento de organizações que atuam na área social, gerenciamento de ações públicas sociais e campo de atuação. Desse modo, a gestão social é definida pelo seu modo, finalidade e objeto, ao mesmo tempo.

Figura 1 – Vertentes conceituais e analíticas da gestão social

 

Fonte: Araújo (2012).

 

Pode-se afirmar que os conceitos de Tenório (1998, 2008) e França Filho (2003, 2008) enquadram-se na vertente gerenciamento das organizações que atuam na área social. Na compreensão do gerenciamento das ações públicas, pode-se destacar as ideias de Carvalho (1999) e Singer (1999). Quanto à gestão como campo da ação interorganizacional para o desenvolvimento, é traduzida nos conceitos de Fischer (2002), Dowbor (1999a) e França Filho (2008), ao enfatizarem a gestão enquanto finalidade.

Diante da polissemia e das ambiguidades dos conceitos de gestão social, bem como de algumas práticas paradoxais, cada vez mais se consolida um símbolo de inovação e status para o trabalho social, uma nova etiquetagem (labeling), que corre o risco de se tornar apenas etiqueta, no sentido de ser uma “pequena ética”.

 

6 Considerações finais

 

A tese aqui defendida é que existem (in)consistências nas plurais concepções de gestão social que são manifestadas nos processos de formação, influenciando discursos e práticas dos gestores sociais, eminentemente voltados para a ampliação do público e defesa dos direitos de cidadania, porém prevalecendo, também, lógicas e ideologias ambíguas e ambivalentes voltadas para o privado e para a instrumentalidade gerencial. Pode-se, ainda, afirmar que se ensina o que não se sabe muito bem o que é, confirmando a hipótese da precoce institucionalização da gestão social, tratada como um conceito in progress. Considerando-se esse caráter processual e tal precocidade, vivencia-se, ao mesmo tempo, ambiguidades (posicionamentos em mais de um sentido e, por consequência, alguns equívocos – “ou/ou”) e ambivalências (permite a experimentação de práticas, conceitos, valores e sentimentos opostos concomitantemente – “e/e”) que são manifestadas nos processos de formação de gestores sociais.

A popularização do termo e das “novidades” a ele atreladas começa a extrapolar o universo acadêmico, sendo incorporada nos discursos e agendas políticas de gestores públicos, empresários, representantes de movimentos sociais e ONGs. Trata-se, inclusive, de uma exigência não só pela eficácia da política social, mas pela eficiência de como é gerida. A presença do social em todas as áreas com vistas à equidade e medidas includentes das minorias, bem como o modo de gestão que alia formas mais democráticas e participativas à qualidade do resultado, são tônicas da gestão social (SPOSATI, 2002).

De modo precoce, às vezes prematuro, criaram-se novas institucionalidades, fundando diferentes grupos e centros de pesquisa, numa tentativa de diálogo entre a gestão e outros campos do conhecimento.

Como invento pós-moderno, a gestão social nasceu a partir da complexidade dos fenômenos sociais, ressonando de modo polissêmico e configurando um campo de saber com tendências interdisciplinares (CAMPOS, 2007). É uma concepção que se dissemina mais neste terceiro milênio, embora sua referência inicial seja das duas últimas décadas do século XX.

Em seu sentido prático, a gestão social apresenta-se como projeto alternativo, menos ambicioso que os projetos revolucionários da década de 1970, mas animado pelo mesmo desejo de rejeição, esforçando-se para experimentar novas práticas que sejam réplicas válidas em relação às práticas sociais existentes. Todavia, essa alteratividade contém a possibilidade de ocorrer, no campo institucional já posto, o que não se colocava nos projetos da referida década. Essa condição alternativa e alterativa pode levar a um caráter efêmero, sendo realista no que denuncia, mas utópica quanto ao que se propõe. Como projeto autogestionário, visa uma transformação radical na sociedade, de suas estruturas, dos comportamentos e das representações. “É um projeto cultural que pretende modificar relações hierárquicas e impessoais geradas pelos sistemas burocráticos” (BOUTINET, 2002, p. 114). Parece muito mais utópico, pois “não quer nada menos que mudar a vida”. As escolhas são feitas em função de uma concepção do homem e da sociedade: “concepção idealizada de tendência irenista”.

O construto gestão social nos processos de formação na graduação e pós-graduação vem, muitas vezes, criando jargões e neologismos enquanto releituras de um possível modo de gestão que se pretende antitaylorista, antiutilitarista e antiburocrático, correndo o risco de torná-lo banal ou mesmo mais um modismo gerencial. Ao que indica, trata-se de um conceito que se desterritorializa, com fluidez, entre a prática e a teoria, sendo que, para boa parte de seus praticantes, é na prática da gestão social que ocorre e se produz sua concepção.

Os saberes produzidos no campo da gestão social nascem de processos indutivos de práticas gestionárias participativas, horizontais, dialógicas e democráticas, que podem ser desenvolvidas em diferentes tipos de organização. A fronteira para suas aplicações é definida pelo caráter de expansão da esfera pública e da coprodução do bem público.

Interessante notar que as ambivalências do campo conceitual são utilizadas de modo estratégico, com o objetivo de acolher múltiplos olhares e contribuições dos atores dos processos de formação, sem impor uma única concepção.

A pluralidade do conceito de gestão social remete à necessidade de um posicionamento intercultural, já que ela se apresenta como um espaço polissêmico e polifônico de vozes diversas que requerem ser escutadas, recuperadas e interpretadas frente aos distintos âmbitos de poder (MORO, 2005). O desafio da redistribuição do poder como uma condição fundamental para produzir conhecimento e mudanças sociais apresenta-se como condicionante nos processos de formação. Assim, abre-se espaço para diferentes alternativas de divisão de poder.

Os conceitos unívocos e plurais que estabelecem o lugar da gestão social nos processos de formação aparecem marcados por uma tensão entre um tratamento meramente técnico ou meramente ideológico e as aporias trazidas por um conhecimento in progress. Desse modo, a gestão social pode ser definida pela própria imprecisão conceitual, pela finalidade, pelo modo de gerir, pelo objeto ou pelo próprio campo que configura.

Enfim, confirma-se a tese aqui defendida de que existem (in)consistências nas plurais concepções de gestão social que são manifestadas nos processos de formação, influenciando discursos e práticas dos gestores sociais, eminentemente voltados para a ampliação do público e defesa dos direitos de cidadania, porém prevalecendo lógicas e ideologias ambíguas e ambivalentes. Muitas vezes são voltadas para as lógicas do privado e para a instrumentalidade gerencial, caminhando para lógicas de ampliação da esfera pública e de racionalidades substantivas. Pode-se afirmar que, sobre o tema gestão social, se ensina o que não se sabe muito bem, confirmando a hipótese de quão precoce se deu e vem se dando a institucionalização desse campo. Trata-se de um caminho, ao que indica, felizmente irreversível, com caminhantes diversos, no qual “caminante no hay camino, se hace camino al andar”, como poeticamente ensina António Machado.

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ANEXO

 

Quadro 1 – Análise conceitual dos conceitos/concepções

 

Autor Categoria TENÓRIO (1998, SINGER (1999) CARVALH

2008)

 

VALORES Democracia Democracia. Direitos de

 

deliberativa. Equidade. Trabalho.

Cidadania. Correspons Responsabilidade

Participação. Profissiona pública.

Respeito às Solidariedade. diferenças.

 

PROPÓSITOS Implementar Desenvolver ações Realizar aç

ações gerenciais para enfrentamento sociais púb por meio de das problemáticas atender as processos sociais sociais a partir do e necessid

dialógicos que trabalho e renda. cidadãos. garantam a

democracia e

cidadania.

 

FOCOS Administração Economia. Gestão Pú

Pública e Privada. Administração Ciências S

 

Ciência Política. Política. Serviço So

 

Ciências Sociais. Ciências Sociais. Ciências P

 

Economia.

 

Fonte: adaptado de Araújo (2012, p. 72) e Maia (2005b). Autor Categoria TENÓRIO (1998, SINGER (1999) CARVALH

2008)

 

LOCI Organizações Políticas Projetos, p

governamentais. econômicas e políticas so

 

Sociedade civil. sociais. Redes.

 

Políticas públicas. Governo/Estado. Sociedade

Organizações de

trabalhadores.

 

AGENTES Agentes públicos Organizações Sociedade

 

sociedade civil. Cooperativas. População Cidadãos. do Estado e da populares. Estado/ go

Empreendimentos serviços so

 

solidários. Cidadãos.

Universidades.

Governos.

 

METODOLOGIAS Processos Economia solidária. Gestão em

sociais. Novas formas Empoderam

 

Articulações entre produtivas/ Parcerias.

atores. econômicas.

Políticas pú

Técnicas de Estratégias gestão. Controle so autogestionárias.

Políticas públicas. Programas

Governanç

 

Transparên

 

VALORES Ética da Complexidade. Democraci

 

responsabilidade. Solidariedade. Cidadania.

 

Desenvolvimento Redistribuição. Garantia de

social. humanos u Ética.

Justiça. Civilidade. Profissionalismo.

 

Fonte: adaptado de Araújo (2012, p. 72) e Maia (2005b). Autor Categoria TENÓRIO (1998, SINGER (1999) CARVALH

2008)

 

PROPÓSITOS Mediação de Enquanto Conjunto d

processos sociais finalidade, gerir a processos

e interesses problemática da com potenc (relações de sociedade como viabilizador poder, conflitos e um todo; enquanto desenvolvi aprendizagem) e meio, um modus societário

individuais e de operandi de gestão emancipató grupos voltados que perpassa transforma ao vários de tipos de desenvolvimento organizações, social. exceto as com

finalidades

mercantislucrativas.

 

FOCOS Administração Ciências Sociais. Serviço So

 

organizacional). Pública e Privada. Ciências S Ciências Sociais. (teoria Administração Ciência Po Psicologia Social. Economia. Gestão Pú

Paradigma em

Teorias do construção. Desenvolvimento.

Proposta pré-

paradigmática.

 

LOCI Poder local. Organizações Espaço Pú

Organizações públicas.

públicas e Empresas.

privadas. Organizações da Interorganizações. sociedade civil.

Redes.

 

Fonte: adaptado de Araújo (2012, p. 72) e Maia (2005b). Autor Categoria TENÓRIO (1998, SINGER (1999) CARVALH

2008)

 

AGENTES Indivíduos, Estado, mercado e Estado e so

grupos, sociedade civil. civil. coletividades.

Estado, mercado

e sociedade civil.

Universidades.

 

METODOLOGIAS Processos sociais Articulações Processos

de mediação. intersetoriais. mediações

 

Governança. Metodologias

Articulações específicas de intersetoriais. gestão.

 

Planos de produtivas/ econômicas. desenvolvimento. Descentralização. Novas formas

Organizações de

Aprendizagem.

Fonte: adaptado de Araújo (2012, p. 72) e Maia (2005b).