Gestão social e agricultura familiar: a construção e a materialidade de novas formas de administrar
Capítulo 4 – Cooperativas agropecuárias da agricultura familiar e desafio da gestão social no semiárido nordestino
Capítulo 4 - Cooperativas
agropecuárias da agricultura
familiar e desafio da gestão
social no semiárido nordestino
Jéssica Samára Soares de Lima, Ionara Jane de Araujo, Emanoel Márcio Nunes, Francisco Clébson Rodrigues de Lima, Andreya Raquel de Medeiros França
1 Introdução
O Semiárido nordestino soma uma área que abrange 982.563,3 km², sendo constituído de 1.133 municípios e uma população de 20.858.264 habitantes (BRASIL, 2011). A maior parte do seu território é coberto pela Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, que possui riqueza em espécies existentes somente nessa região, com variedade de paisagens, espécies animal e vegetal, nativas e adaptadas, com potencial e que garantem a sobrevivência dos agricultores da região. Uma das mais fortes características do Semiárido brasileiro é o déficit hídrico, em que as chuvas são irregulares no tempo e no espaço e a evaporação é três vezes maior que a precipitação, além da baixa umidade do ar e elevadas temperaturas em grande parte do ano.
Diante dessa realidade, a população está condicionada a viver, principalmente, de atividades agropecuárias, com bases frágeis usando tecnologias tradicionais e crescente número de pequenos estabelecimentos que, isolados, acabam se tornando mais vulneráveis à luta pela sobrevivência. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), os principais desafios que o Semiárido tem a enfrentar são: ambiental, escassez de água, econômico, institucional, educacional, sociocultural e político. Entretanto, como essa população pode amenizar os problemas que são característicos do ambiente onde vivem?
Assim, a discussão desenvolvida neste capítulo fundamenta-se na ideia de que o desenvolvimento a ser promovido pelas cooperativas nas comunidades estaria relacionado ao cumprimento do sétimo princípio cooperativo, em que a preocupação com o desenvolvimento local está explícita: interesse pela comunidade, esclarecendo que os membros das cooperativas devem aprovar políticas especiais com o objetivo fundamental de contribuir para o desenvolvimento sustentável de suas respectivas comunidades, e que seu sucesso depende da liberdade de ações e das decisões que as pessoas têm de exercer no seu papel como agente de mudança econômica, social e política.
O território Sertão do Apodi – RN, é fértil no surgimento de organizações sociais, e se destaca pela intensa mobilização da sociedade civil, com Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR) e organizações não governamentais (ONGs). Originou-se apoiado por agentes externos, dentre os quais padres holandeses e franceses, onde realizaram um trabalho nas comunidades rurais. Fomentaram o ambiente que culminou com o afloramento da ação coletiva e, consequentemente, com o surgimento das organizações dos agricultores familiares, como associações e cooperativas agropecuárias.
A partir da mobilização na base e do descontentamento de alguns com a falta de assistência das entidades de governo, principalmente no tocante a itens básicos, como saúde, educação, assistência técnica para produção e comercialização, começaram a surgir organizações sociais coletivas com a finalidade de suprir tais demandas, dentre elas, as cooperativas que foram constituídas a partir da necessidade da realização da comercialização da produção da agricultura familiar.
A organização social tem como principal característica uma gestão compartilhada, para tanto:
A autogestão é um horizonte a ser buscado permanentemente. Para chegar até
lá é importante redefinir indicadores para identificar avanços e dificuldades rumo
a essa organização que, mais do que uma gestão democrática, é um modelo em
que os trabalhadores têm o poder de decisão (MAZZEU, 2009, p. 31).
Em relação à gestão, as cooperativas da agricultura familiar adotam, em seus princípios, um modelo participativo, em que toda e qualquer operação é contraída com a anuência de todos, tendo como principal espaço de discussão e deliberação dos assuntos a assembleia geral, com práticas de divisão de sobras ou perdas no final do exercício. Por esse conjunto de práticas, as organizações sociais são campo propício ao modelo de gestão social, porque possibilitam a discussão e oportunizam às camadas da base serem partes integrantes na gestão dos empreendimentos que participam.
Neste sentido, o objetivo deste estudo consiste em analisar a forma como se dá a contribuição das cooperativas agropecuárias situadas no território Sertão do Apodi – RN para o desenvolvimento rural. Para isso, a avaliação se dará no marco do que estabelece o sétimo princípio cooperativo (interesse pela comunidade), relacionando-o principalmente com a gestão social dessas organizações.
Este estudo tem como delimitação espacial o território da cidadania Sertão do Apodi, do estado do Rio Grande do Norte, estando sua
delimitação dentro do Programa Territórios da Cidadania (PTC)6, criado pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SDT/MDA). O território Sertão do Apodi – RN conta com uma população de cinco cooperativas agropecuárias da agricultura familiar, objetos de estudo deste trabalho.
Nesse sentido, analisaram-se as cinco cooperativas agropecuárias da agricultura familiar. A pesquisa de campo baseou-se no levantamento de informações a partir de formulários semiestruturados, mediante o resgate dos aspectos históricos da existência das cooperativas e a visão/percepção de suas lideranças e sócios fundadores, podendo-se oferecer uma maior flexibilidade ao pesquisador e ao pesquisado, possibilitando um contato com a realidade dos atores.
2 Cooperativismo, gestão social e
agricultura familiar
No final do século XVI, nasceu, na Inglaterra, o cooperativismo, no início da Revolução Industrial. Na época, os trabalhadores das manufaturas eram qualificados e possuíam associações de ofício que controlavam o exercício profissional. Com a introdução das máquinas, estes trabalhadores começaram a sofrer a competição de fábricas, que empregavam pessoas não qualificadas, geralmente egressas do campo. Como consequência, os produtos industriais eram mais baratos do que os artesanais, de modo que, em pouco tempo, os trabalhadores manufatureiros ficavam sem trabalho (SINGER, 1999).
Assim, marcado pela crise industrial e movido pela mobilização dos trabalhadores das indústrias de tecido, o cooperativismo começou pelos trabalhadores, por acreditarem na possibilidade de existir outra relação de trabalho sem ser a do patrão e empregados.
O surgimento do movimento cooperativista se deu em 1844, tendo como marco histórico a fundação, por um pequeno número de trabalhadores industriais de Rochdale, na Inglaterra, da Sociedade dos Pioneiros Equitativos de Rochdale. Tratava-se de uma cooperativa de consumo de operários da indústria têxtil, a qual se expandiu rapidamente com a abertura de um moinho, em 1850, e de uma tecelagem e fiação, em 1854, passando a se caracterizar, também, como cooperativa de produção (BARRETO; PAULA, 2009).
O pioneirismo da cooperativa de Rochdale e seu desenvolvimento ampliou-se e inspirou diversas experiências semelhantes. A formalização das regras de funcionamento fez com que as novas cooperativas criadas fossem bem semelhantes a esse modelo inicial, o que possibilitou a constituição posterior de um movimento: o cooperativismo.
Ao se criar um movimento em âmbito mundial, foi necessário encontrar uma identidade para esse movimento (o cooperativista), e as regras da cooperativa de Rochdale foram com ele (o movimento) retomadas. Essa escolha se deu porque a grande maioria das cooperativas funcionava nesse formato ou semelhante a ele. Dessa forma, a primeira elaboração dos princípios cooperativistas inspirou-se na experiência de Rochdale (CANÇADO; GONTIJO, 2009).
A cooperativa de Rochadale, concretizada em um armazém de consumo, foi localizada na Toad Lane (travessa dos Sapos) e tinha 28 operários à sua frente, cuja principal motivação para se unirem foi a luta pela vida e a busca pela melhoria do estado de miséria e penúria em que se encontravam os tecelões e suas famílias (FERREIRA, 2010).
Tinham, grosso modo, como principais metas políticas e econômicas: construção
de uma sociedade baseada na solidariedade; eliminação da figura do patrão;
construção de novas práticas de trabalho, respaldadas em valores de
democracia, de participação, solidariedade e equidade etc, que foram
estruturando a base para a consolidação das diretrizes do cooperativismo atual.
Essas práticas de uma nova cultura pautada nos princípios do cooperativismo,
contrapunham-se à cultura hegemônica centrada na competitividade, na produtividade e na hierarquia (FERREIRA, 2010, p. 92).
Uma das marcas da experiência de Rochdale foi a definição dos princípios norteadores do desenvolvimento da cooperativa e que, logo, disseminaram-se para representar o cooperativismo no mundo com a adesão livre, o controle democrático, o retorno dos excedentes em proporção às operações, a taxa limitada de juros ao capital social, a neutralidade política e religiosa, a educação cooperativista e a integração cooperativista (BARRETO; PAULA, 2009).
Os princípios norteadores são uma série de alinhamentos gerais para reger a cooperativa. Segundo Singer (1999), adotaram-se oito princípios, que provavelmente decorriam da experiência das duas ou três décadas anteriores de cooperativismo. Em resumo estes princípios eram os seguintes:
1. a Sociedade seria governada democraticamente, cada sócio
dispondo de um voto;
2. a Sociedade seria aberta a quem dela quisesse participar, desde
que integrasse uma quota de capital mínima e igual para todos;
3. qualquer dinheiro a mais investido na cooperativa seria
remunerado por uma taxa de juros, mas não daria ao seu possuidor qualquer direito adicional de decisão;
4. tudo o que sobrasse da receita, deduzidas todas as despesas,
inclusive juros, seria distribuído entre os sócios em proporção às compras que fizessem da cooperativa;
5. todas as vendas seriam à vista;
6. os produtos vendidos seriam sempre puros e de boa qualidade;
7. a Sociedade deveria promover a educação dos sócios nos
princípios do cooperativismo; e
8. a Sociedade seria neutra política e religiosamente (SINGER, 1999,
p. 23).
Com a aplicação desses princípios, a Sociedade dos Pioneiros de Rochdale cresceu enormemente, alcançando dezenas de sócios. Representando um importante mercado consumidor, os pioneiros fundaram diversas cooperativas de produção: fábrica de sapatos e tamancos, fábrica de fiação e tecelagem, cooperativa de habitação e sociedade de beneficência, que prestava assistência à saúde. O exemplo dela radiou pela Inglaterra e, mais tarde, por outros países. Outras cooperativas foram fundadas à base daqueles princípios. Hoje, a cooperativa de Rochdale é considerada a mãe de todas as cooperativas (SINGER, 1999).
Na Espanha, a Corporación Mondragón é o caso exemplar de uma cooperativa, que, apesar de:
[…] adotar algumas estratégias empresariais, não tem se distanciado dos
princípios rochdalianos. Configurada em quatro grandes áreas (Finanças,
Conhecimento, Industrial e Distribuição), congrega mais de 30 mil trabalhadores
trabalhando nas suas 109 fábricas (equipamentos, bens de consumo,
construção, bens industriais e serviços empresariais), uma cadeia de
supermercado, um banco (a Caixa Laboral Popular) e uma universidade
tecnológica (a Escola Politécnica Profissional) (FERREIRA, 2010, p. 93).
Uma das causas do seu sucesso deve-se ao modelo de gestão centrado nos princípios cooperativistas, nas pessoas em cooperação, no projeto compartilhado, na organização participativa, na excelência e nos resultados socioempresariais, além do sistema de rede de apoio entre as cooperativas que fazem parte do complexo Mondragón.
No caso da América Latina, o cooperativismo, dito moderno, surgiu no final do século XIX e início do século XX em Honduras, Brasil, Uruguai, México e Argentina, influenciado pela emigração europeia, pela Igreja Católica e pelos governos nacionais, sendo, em alguns momentos, confundido com o movimento sindical (FERREIRA, 2010).
As cooperativas latino-americanas passaram a integrar-se mais no comércio internacional dentro da dinâmica econômica mundial, tanto no que se refere à adoção de estratégias de inserção política e econômica como em termos de adoção de novas tecnologias (agrícolas e industriais), bem como na adoção das mesmas características do cooperativismo gerado na Inglaterra.
3 Cooperativismo no brasil
O desenvolvimento cooperativista, no Brasil, ocorreu seguindo as mesmas características do cooperativismo gerado na Inglaterra, ou seja, de adequação ao modo de produção capitalista. Depois de experiências esparsas de cooperação realizadas desde o início da ocupação do país no século XVI, foi a partir de 1930 que o cooperativismo iniciou seu crescimento nos moldes apresentados atualmente. No entanto, assim como ocorreu em outros países, as cooperativas foram criadas não por iniciativa e necessidade de seus beneficiários, mas sim de cima para baixo, para favorecer o desenvolvimento do modo capitalista de produção (SOUZA, 2009).
O cooperativismo brasileiro não seguiu como um movimento uniforme, conforme proposições iniciais do nascimento desse movimento, com distinções no espaço geográfico através das regiões e do tempo a partir dos modelos de desenvolvimento adotados no Brasil.
Numa experiência no estado do Rio Grande do Sul, no ano de 1911, com a decadência da produção de vinho, o Estado brasileiro firmou convênio com os italianos para coordenarem a organização de cooperativas na região (SOUZA, 2009).
O Estado, através do Ministério da Agricultura e Comércio, firma convênio com o expoente cooperativista italiano Giuseppe Di Stéfano Paternó para coordenar a organização de cooperativas em regiões de imigração italiana, entre camponeses produtores de vinho. Já no ano de sua chegada, Paternó criou, no Rio Grande do Sul, colônias Italianas nos municípios de Caxias do Sul, Garibaldi, Bento Gonçalves, Guaporé, Antônio Prado e Veranópolis. Entre setembro de 1911 a dezembro de 1912, como consequência de sua orientação, foram organizadas ainda a Cooperativa Agrícola de Vila Nova e mais oito cooperativas agrícolas em regiões de colonização italiana, todas ligadas à produção de vinho (SOUZA, 2009, p. 67).
Tais cooperativas tinham como principal objetivo, na teoria, a obtenção de melhores preços para a uva e o vinho, que nesse período estavam fixados de forma oligopólica pelos comerciantes, que acabavam retendo a maior parte dos ganhos. Esses produtores procuravam a comercialização de sua própria produção, eliminando, portanto, a figura do intermediário/ atravessador e sua apropriação do excedente produzido pelas colônias agrícolas. Nos primórdios, o surgimento dessas cooperativas ocasionou a queda no preço do vinho, já que seus próprios produtores, nesse caso, eram, também, os comerciantes. Contudo, essa condição não durou muito tempo. A reação por parte dos grandes comerciantes locais, que pressionaram a Associação dos Produtores de Vinho e o próprio Estado para que tomassem alguma medida contra o crescimento das cooperativas, foi imediata (SOUZA, 2009).
Na realidade, existiu a reação dos comerciantes, que visava à destruição das cooperativas para manterem o controle da compra do vinho dos camponeses, de forma que fixavam os preços pagos pela uva e pelo vinho produzido artesanalmente. Os comerciantes se sentiam incomodados com a criação e progresso da cooperativa. Assim, ocorreu a ação do Estado nesse caso, que, inicialmente incentivou a criação de cooperativas para resolver um problema de superprodução e, logo em seguida, participou na sua desarticulação em favor de grandes comerciantes (SOUZA, 2009).
A ação do Estado no caso acima sugere refletir sobre dois pontos de análise: primeiro, o Estado como propositor, incentivador da criação da cooperativa; no segundo momento, como desarticulador da própria ação, em favorecimento aos grandes produtores. Esse é um reflexo da realidade brasileira.
Em 1969, durante o IV Congresso Brasileiro de Cooperativismo, criou-se a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB, 2016), entidade nacional de representação das cooperativas, responsável pela promoção, fomento e defesa do sistema cooperativista, em todas as instâncias políticas e institucionais, a preservação e o aprimoramento desse sistema e o incentivo e a orientação das sociedades cooperativas. Em seguida, houve a publicação da Lei nº 5.764/1971, que define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras providências, estando, também, as cooperativas amparadas pela Constituição Federal de 1988. A Lei nº 5.764/1971 estabelece, no seu art. 4º, as características das cooperativas, concretizando e garantindo direitos sociais:
Art. 4º As cooperativas são sociedades de pessoas, com forma e natureza
jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência, constituídas para
prestar serviços aos associados, distinguindo-se das demais sociedades pelas
seguintes características:
I - adesão voluntária, com número ilimitado de associados, salvo impossibilidade
técnica de prestação de serviços;
II - variabilidade do capital social representado por quotas-partes;
III - limitação do número de quotas-partes do capital para cada associado,
facultado, porém, o estabelecimento de critérios de proporcionalidade, se assim
for mais adequado para o cumprimento dos objetivos sociais;
IV - incessibilidade das quotas-partes do capital a terceiros, estranhos à sociedade;
V - singularidade de voto, podendo as cooperativas centrais, federações e confederações de cooperativas, com exceção das que exerçam atividade de crédito, optar pelo critério da proporcionalidade;
VI - quorum para o funcionamento e deliberação da Assembleia Geral baseado no número de associados e não no capital;
VII - retorno das sobras líquidas do exercício, proporcionalmente às operações realizadas pelo associado, salvo deliberação em contrário da Assembleia Geral;
VIII - indivisibilidade dos fundos de Reserva e de Assistência Técnica Educacional e Social;
IX - neutralidade política e indiscriminação religiosa, racial e social;
X - prestação de assistência aos associados, e, quando previsto nos estatutos, aos empregados da cooperativa;
XI - área de admissão de associados limitada às possibilidades de reunião, controle, operações e prestação de serviços (BRASIL, 1971).
Com a publicação da Lei nº 5.764/1971 e a criação da OCB, houve um grande desenvolvimento do ramo de cooperativas por todo o território nacional.
No entanto, a aprovação da lei demonstrou que as cooperativas rurais privilegiam grandes proprietários em detrimento dos pequenos. O cooperativismo pode ser usado para favorecer grandes produtores agroexportadores, minimizando o processo de descapitalização e auxiliando na sobrevivência deles, no entanto, sem alterar a desigualdade social (SCOPINHO, 2007).
Ao apontar que esse tipo de cooperativismo, doutrinário, tem dupla finalidade: econômica – porque é rentável para os empresários – e política – porque é saída honrosa para os que não possuem capacidade competitiva individual, Rios (1989, p. 51) retrata e distingue que a “doutrina cooperativa – falsa teoria que se impõe à prática, não reflete e nem se adapta à realidade – de teoria cooperativa – deriva de vivência e observação sistemática da prática, que a enriquece e transforma”.
Ressalta-se que, nas últimas décadas, um novo paradigma, em contraposição ao cooperativismo tradicional, vem sendo estabelecido. Vêm-se desenvolvendo sistemas de representação paralelos à OCB, sendo os principais: o Sistema de Economia Solidária (Ecosol), criado pela Agencia de Desenvolvimento Solidário (ADS) da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e o Sistema Cooperativo dos Assentados (SCA), do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), constituindo-se o estopim para um processo de transformação mais generalizado nas cooperativas (SOUZA, 2009).
As cooperativas solidárias, nas quais a agricultura familiar está inserida, apresentam algumas características diferentes das cooperativas ditas tradicionais ou até com algumas tradições/práticas. Mas há de se reconhecer que as cooperativas se voltaram quase sempre ao predomínio do capital e acabaram por pender em direção às empresas com características comerciais, pouco se importando com os interesses de seus cooperados e das estruturas desiguais, sendo o único ou quase único interesse manterem-se no mercado, com exceção de algumas com tradição cultural coletivista.
No entanto, existem cooperativas da agricultura familiar que buscam resposta ao modelo econômico então implantado, que buscam promover a mobilização e a formação de lideranças para gerar trabalho e renda e possibilitar transformação da realidade social excludente.
4 Agricultura familiar, cooperativismo e
gestão social: um elo para o
desenvolvimento rural
Nos últimos anos, o meio rural vem sendo abordado como uma área relevante para o desenvolvimento do país, uma vez que gera emprego e renda para as famílias que sobrevivem de atividades produtivas nesse contexto, e representa uma parcela significante da produção agrícola do país. Sua capacidade técnica e de resposta ao mercado está fora de questionamento, pois a sua maior caracterização vem a ser o trabalho no estabelecimento, apoiando-se efetivamente na família (ABRAMOVAY, 1998).
No Brasil, embora a agricultura familiar tenha longa tradição, remetendo ao período colonial, por anos padeceu de apoio governamental e de políticas em vários aspectos: falta de assistência técnica, estrutura de produção e beneficiamento, crédito etc. Isso gerou inúmeras dificuldades para o seu desenvolvimento. Nos últimos anos, têm-se intensificado os debates que abrangem a importância e o papel da agricultura familiar no desenvolvimento do país, com temas ligados ao desenvolvimento territorial, geração de emprego, renda, entre outros.
Uma vez que, anteriormente à década de 1990, a agricultura familiar no Brasil era um segmento não reconhecido como um setor produtivo, os termos rotineiramente utilizados para qualificar esse segmento eram os seguintes: pequeno produtor, produtor de subsistência ou de baixa renda (SCHNEIDER; NIEDERLE, 2008). No entanto, essa realidade, com o decorrer dos anos, vem sofrendo modificações, a agricultura familiar passou a fortalecer as possibilidades de potencializar as oportunidades, como sua inserção nos mercados (institucional, feiras livres, entre outros), decorrente das vantagens de uma organização coletiva.
Ressalta-se a maneira decisiva da sociedade civil, que readquiriu e redefiniu suas lutas, tornando-se transformadora social, com iniciativas decisivas para o homem do campo, na perspectiva da constituição de um novo cenário, lembrado como um período fértil e estimulante para as discussões, estudos, livros e pesquisas que contribuíram para o reconhecimento da agricultura familiar.
Vários são os termos utilizados para classificar a categoria agricultores familiares ou camponeses. Denomina-se agricultor todos que vivem no meio rural e trabalham junto com a família (SCHNEIDER; NIEDERLE, 2008). Assim, envolve práticas diferenciadas, em contraponto ao modelo patronal, com uma forma de produção distinta que tem como características a integração da mão de obra de indivíduos que compõem uma família e as unidades de produção que se organizam com base em relações familiares.
Encontram-se, no Brasil, os processos de auto-organização via experiências autogestionárias, fundamentadas em empreendimentos econômicos solidários (cooperativas, associações, empresas recuperadas por trabalhadores em regime de autogestão). Autogestionárias, pois existe um percentual significativo de cooperativas de um dono. O diferencial das cooperativas vinculadas à perspectiva da economia solidária e não configuradas como empresas capitalistas é o modo de sua administração. As primeiras possuem sua administração pautada na autogestão, enquanto as segundas praticam a heterogestão (SINGER, 2002).
Diante das manifestações oriundas do campo da gestão social, encontram-se os processos de auto-organização via experiências autogestionárias, fundamentadas em empreendimentos econômicos solidários (cooperativas, associações, empresas recuperadas por trabalhadores em regime de autogestão). Nesse ambiente, a ação para a agricultura familiar, moldes de cooperação e gestão sempre foram exercidos verticalmente por lideranças políticas locais e regionais, ou seja, o cooperativismo era utilizado para a manipulação, em vez de gerar oportunidades de inserção por meio da produção econômica e da transformação social.
O termo gestão social ganhou espaço na literatura e nas práticas do dia a dia, mesmo padecendo da ausência de um consenso sobre seu conceito, no entanto, sob a conceituação de Pinho (2009, p. 26) “a gestão social tem se afirmado na prática mesmo sem ter se gerado um consenso sobre o que representa. Poderíamos dizer que tem se desenvolvido ao arrepio, à revelia de um consenso acadêmico”. No intuito de se analisar a gestão social objetivando o delineamento de um conceito, uma alternativa viável é fazer-se uma reflexão tomando como base outros modelos de gestões existentes. É pertinente os seguintes elementos:
Podemos começar pensando em gestão social frente a outros tipos de gestão.
Assim, quanto à gestão acadêmica parece não haver dúvidas que se refere à
Universidade, às unidades acadêmicas. Ao se pensar em gestão financeira
também parece não despertar dúvidas, se referindo ao trato de finanças, seja
pública ou privada. No mesmo caminho segue a gestão ambiental, entendendo-
se a gestão do meio ambiente, sem controvérsias. Do mesmo modo, ao se
pensar em gestão de recursos humanos, o mesmo se dá, estamos falando e
tratando da gestão de pessoas, de trabalhadores, funcionários de uma empresa
ou instituição, governamental ou não. Porém, quando se fala em gestão social,
parece descer alguma escuridão e não se tem certeza ou concordância, gera
muita ambiguidade, sobre o que está falando e tratando. Talvez o correto seria
falar “gestão do social”, da mesma maneira que falamos “gestão de recursos
humanos”, mas, talvez por razões de comunicação soe melhor falar em “gestão
social” (PINHO, 2009, p. 26).
Assim, a gestão social ou de outro modelo é o ato de gerir, conduzir, direcionar, mostrar o caminho a ser seguido para a obtenção de êxito. O conjunto de esforços empreendidos para a consecução de qualquer objetivo é precedido de uma ação que foi anteriormente pensada, aprimorada e posta em prática. Para que tudo isso tenha acontecido e essa soma de ações tenha surtido efeito, foi necessária a gestão que se fez presente desde a concepção da ideia até a efetivação de seus resultados. A literatura pátria discorre sobre diversos tipos de gestões, trazendo elementos e características que evidenciam as particularidades de cada uma.
No presente capítulo será explorada a gestão social que se notabiliza por apresentar um formato que prima pela participação dos sujeitos sociais nela integrados, promovendo a valorização desses atores no processo de gerenciamento das ações mediante o incentivo à participação. Nas palavras de Pinho (2009, p. 34), “a gestão social vai estar apoiada na priorização da sociedade e do trabalho frente ao capital e ao Estado aliada ao conceito de cidadania deliberativa”.
O modelo de gestão social trabalha com conceitos e ações que fomentam a responsabilidade social dentro dos empreendimentos de modo que aconteça um inter-relacionamento entre empreendimento, colaboradores e comunidade de modo geral, promovendo integração e sustentabilidade. De tal maneira, cabe ressaltar a importância dos movimentos sociais:
Os movimentos sociais são como uma árvore. A organização é a raiz. Não adianta ter uma árvore muito grande se a raiz não estiver forte porque o vento derruba. Investir na organização social não é construir prédio, fábrica de castanha, de mel, casa de farinha ou barracão para recicláveis. É fomentar a criação de canais democráticos de participação de base, é dar possibilidade de organização para quem nunca teve oportunidade […] é importante criar instâncias de debates e deliberações (GOMES, 2009, p. 95).
A ação de educação promovida junto a essas comunidades no Semiárido nordestino tem sido uma semente plantada que culminou com a constituição de organizações sociais do tipo: grupos de jovens rurais, associações de agricultores familiares e cooperativas de produção e comercialização da agricultura familiar. No interior desses empreendimentos, todos têm oportunidade de expressão, a gestão é feita pelos próprios membros, existindo, desse modo, uma horizontalidade.
Assim, “a única forma de gestão social que permite a convivência pacifica, a realização do potencial humano, a possibilidade de viver de forma próspera, produtiva e feliz, é sob o predomínio dos processos democráticos” (BOAVENTURA, 2009, p. 116).
Em relação à gestão, esse tipo de empreendimento adota um modelo participativo, em que toda e qualquer operação é contraída com a anuência de todos, tendo como principal espaço de discussão e deliberação dos assuntos a assembleia geral, com práticas de divisão de sobras ou perdas no final do exercício. Por esse conjunto de práticas, as organizações sociais coletivas são campo propício ao modelo de gestão social, porque possibilitam a discussão e oportunizam às camadas da base serem partes integrantes na gestão dos empreendimentos que participam.
Assim, releva-se a importância da participação da sociedade civil e da articulação de atores sociais nas ações voltadas para a promoção do desenvolvimento, seja em escala nacional, seja regional ou local (BANDEIRA, 1999).
Ao longo dos anos, a realidade brasileira tem-se destacado com intensas discussões sobre estratégias de desenvolvimento que visam reduzir as desigualdades e gerar condições dignas ao homem do campo, sendo essas discussões originadas nos últimos 50 anos:
[…] dois foram os momentos durante os quais a noção de “desenvolvimento” se
alçou a um campo de singularidade histórica, introduzindo-se como uma
daquelas ideias-força que atraem generalizado interesse, intensamente
discutidas, orientando programas governamentais, instigando sofisticados
debates intelectuais e, em especial, motivando grupos sociais interessados nos
benefícios das mudanças […] (NAVARRO, 2001, p. 1).
Desde então, o tema do “desenvolvimento” adentrou nas discussões, ocorrendo uma forte intensificação com ações do Estado, o que afastou os pesquisadores e estudiosos sobre o assunto, por considerá-lo excessivamente político e normativo (SCHNEIDER, 2010). Entretanto, a partir de 1990, ocorreu uma mudança de enfoque e de entendimento, ressurgindo o debate sobre o desenvolvimento, que passou a ganhar espaço no Brasil.
[…] especificamente com relação ao desenvolvimento rural, muitas são as
motivações para este ressurgimento. No Brasil, tem sido possível identificar
algumas das razões que explicaram o surgimento de crescentes esforços sócio-
político de revalorização da “sociedade rural” e suas atividades produtivas, de
seu modo de vida e suas características socioculturais, de suas organizações e
propostas societárias […]. (NAVARRO, 2001, p. 3).
A retomada das discussões esteve fortemente ligada pelas transformações sociais, políticas e econômicas que se operaram no âmbito do Estado e, não menos importante, estão os atores da sociedade civil. Assim, veio a lume o desdobramento de políticas governamentais direcionadas para a reforma agrária, crédito para agricultura familiar, estímulo a ações afirmativas para mulheres, dentre outras ações (SCHNEIDER, 2010).
A explicação do significado do desenvolvimento, por sua vez, se revestiu de um conjunto de expressões, o que, segundo Navarro (2001, p. 3), vem “sendo atualmente utilizadas de forma intercambiável”. Navarro (2001, p. 3-4) distingue as expressões desenvolvimento agrícola, agrário e rural da seguinte forma:
[…] desenvolvimento agrícola (ou agropecuário), estaria se referindo exclusivamente às condições da produção agrícola e/ou agropecuária, suas características, no sentido estritamente produtivo, identificando suas tendências em um período de tempo dado. […] desenvolvimento agrário, tal expressão refere-se a interpretação acerca do “mundo rural” em suas relações com a sociedade maior, em todas as suas dimensões, e não apenas à estrutura agrícola, ao longo de um dado período de tempo. […] desenvolvimento rural, neste caso, diferencia-se das anteriores por uma característica específica: aqui, trata-se de uma ação previamente articulada que induz (ou pretende induzir) mudanças em um ambiente rural […].
Tornam-se importantes esses esclarecimentos, enfatizando-se as diferenças entre as expressões que, em muitas vezes, é usado de maneira imprópria, não legitimando o seu significado. Conforme revela o contexto do debate, no desenvolvimento rural, destaca-se a melhoria do bem-estar das populações rurais. Assim,
[…] o desenvolvimento rural pode ser visto como uma combinação de forças internas e externas à região, em que os atores das regiões rurais estão envolvidos simultaneamente em um complexo de redes locais e redes externas que podem variar significativamente entre regiões (KAGEYAMA, 2004, p. 383-384).
Desse modo, torna-se cogente buscar estratégias adequadas à realidade local, considerando as potencialidades e limitações de cada região, ou seja, o conjunto de iniciativas que deverão ser diferenciadas levando-se em conta as especificidades e as vantagens essenciais de cada região, assim como as famílias (organizações) buscam constituir, de fato, representações em políticas voltadas para a realidade do homem do campo e sua região. Como cita Bianchini (2001, p. 106): “promover o desenvolvimento rural que permita a melhoria das condições de vida e de trabalho dos homens e mulheres que vivem no meio rural, tanto nos aspectos econômicos como também no social, cultural e ambiental”.
Para o desenvolvimento rural, sabe-se de sua importância social, pela geração de emprego e ocupação para as famílias do campo. Dessa forma, é fundamental que também se tenha uma ideia de sua importância econômica. E é justamente nessa direção que caminha a agricultura familiar, pois ela está inserida nas discussões a respeito do desenvolvimento rural.
5 Desafios da gestão social no
semiárido nordestino: uma análise das
cooperativas agropecuárias da
agricultura familiar no território sertão
do apodi – RN
Existem cooperativas para vários fins e atividades, distribuídas em distintos ramos. Segundo a OCB (2016), são 13 os ramos de cooperativas: agropecuário, consumo, crédito, educacional, especial, habitacional, infraestrutura, mineral, produção, saúde, trabalho, transporte, turismo e lazer.
No território Sertão do Apodi – RN, destacam-se em maior número as cooperativas agropecuárias, de produtores rurais ou agropastoris e de pesca, cujos meios de produção pertencem ao cooperado. Caracterizam-se pelos serviços prestados aos associados, como recebimento ou comercialização da produção conjunta, armazenamento e industrialização, além da assistência técnica, educacional e social. É um ramo cooperativo com forte expressão numérica.
Este estudo contempla apenas as cooperativas agropecuárias da agricultura familiar no Território Sertão do Apodi – RN. Para que os objetivos das cooperativas sejam alcançados, é essencial uma boa gestão, a fim de orientar os planejamentos das organizações, sejam eles estratégicos, de alocação e geração de recursos, econômicos e sociais. Nesse sentido, apresenta-se a característica da gestão administrativa das cooperativas no território estudado, conforme o
Gráfico 1. Nota-se que 80% das cooperativas têm adotado sua gestão realizada pela diretoria, composta por sócios fundadores e filhos dos sócios, que geralmente são das bases produtivas, e pelas associações comunitárias, que geram participação efetiva dos cooperados e maneiras de sucessão da diretoria. Outro fator relevante está na consequência de um bom trabalho de gestão social, de participação e educação cooperativista que os cooperados receberam no processo de constituição da cooperativa.
Gráfico 1 – Caracterização da gestão administrativa das
cooperativas do Território Sertão do Apodi – RN
Fonte: pesquisa de campo (2016).
Em contraponto, 20% condiciona a gestão da cooperativa em um sócio, em que decisões de apenas um sócio se antepõe, dilatando a participação e as opções estratégicas preferidas dos cooperados, ou seja, gera uma baixa participação e envolvimento do cooperado na cooperativa.
O Gráfico 2 apresenta os problemas administrativos das cooperativas, demonstrando que há uma heterogeneidade nos problemas administrativos das cooperativas, mostrando que elas estão em níveis diferentes, uma vez que praticamente todas têm um apontamento, com exceção da questão legislativa, que, mesmo assim, ainda se diferencia quanto ao serviço, uma buscando o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) e outro o Serviço de Inspeção Federal (SIF). Entretanto, de modo geral, os problemas são econômicos e de legislação.
Gráfico 2 – Principais problemas administrativos apontados
pelas cooperativas do território Sertão do Apodi – RN
Fonte: pesquisa de campo (2016).
As cooperativas da agricultura familiar têm encontrado barreiras para sua existência, principalmente devido à legislação fitossanitária, a qual não atende às agroindústrias da agricultura familiar, em sua grande maioria, não estando adequada a esse setor de produção, e sim às grandes empresas legalizadas, que consomem o mercado exigente, ficando as cooperativas, com suas bases produtivas frágeis, sem condições de competir. As dificuldades de se adequar as instalações da agroindústria às normas sanitárias dificultam o acesso à comercialização da produção e a legalização das agroindústrias familiares. A falta de legalização das agroindústrias das cooperativas da agricultura familiar inviabiliza a comercialização da produção.
Os problemas relacionados à falta de legalização das agroindústrias implicam diretamente, no campo econômico, a comercialização das cooperativas. No entanto, quanto à mudança na vida dos sócios, percebeu-se que cada cooperativa tem uma percepção diferente, mesmo assim, parte delas fomenta a participação e exerce a gestão social dos cooperados, sendo que apenas uma não percebeu mudanças nos cooperados, pois ela se encontra em processo de construção, possuindo apenas um ano de existência e os trabalhos ainda se encontram a passos lentos.
Essas transformações são um fator preponderante, que pode começar com a fidelização do cooperado, atraindo-o a participar continuamente da cooperativa, contribuindo tanto na questão
econômica quanto social. No Quadro 1, percebe-se que a cooperativa tem buscado a questão econômica, na comercialização e agregação de valor dos produtos dos cooperados, além da social e educacional, entendendo que possui responsabilidade de sucessão dos membros da diretoria e só por meio da educação pode capacitar seus cooperados.
COOPERATIVAS PERCEPÇÃO NA MUDANÇA DE
VIDA
A Acesso a programas
governamentais.
B Capacidade, conhecimento do
cooperativismo solidário.
C Econômico, social e educacional.
D Nível de escolaridade.
E Não houve mudanças.
Quadro 1 – Mudanças na vida dos sócios após entrarem na cooperativa
Fonte: pesquisa de campo (2016).
Assim, a cooperativa utiliza de estratégias para a permanência dos
sócios. O Gráfico 3 revela que isso se dá por meio de reuniões, que envolvem as assembleias e as reuniões mensais das associações das quais os sócios são cooperados.
Gráfico 3 – Estratégias para permanência dos sócios na
cooperativa
Fonte: pesquisa de campo (2016).
As cooperativas, em sua maioria, buscam manter suas agendas de reuniões, a fim de deixar os cooperados informados, mantendo-os sempre próximos à organização. Outra forma apresentada pelas cooperativas do território, como uma forma de manterem os cooperados, é o cumprimento dos compromissos, um deles é em relação à agregação de valor e à comercialização da produção, em que a cooperativa tem uma atuação importante, seja realizando o beneficiamento ou comercializando a produção de forma in natura em grande volume, repassando, no ato de recebimento da produção, o valor de mercado e, após a comercialização, retirando os custos administrativos, acordado de forma prévia na assembleia geral. Se o resultado for positivo, repassam-se aos cooperados as sobras no final do exercício. Com essas práticas, acontece a solidificação dos laços com os cooperados, o cooperado repassa sua produção e a cooperativa repõe o dinheiro, também disponibilizando da transparência, fidelizando, assim, o sócio.
Um ponto relevante no trabalho das cooperativas é sua relação com outras instituições. Por meio de seu quadro social, deve interferir na dimensão comunitária do desenvolvimento, participando de outras instâncias que contribuem com o desenvolvimento local. A partir dessa integração, a cooperativa pode promover o bem-estar econômico e social dos cooperados e orientá-los para uma participação comunitária, melhorando, assim, a qualidade de vida da população, orientando os cooperados a uma participação comunitária, contribuindo para a
melhoria na qualidade de vida da população (Gráfico 4).
Gráfico 4 – Relação das cooperativas do território Sertão do
Apodi com outras instituições
Fonte: pesquisa de campo (2016).
Na pesquisa realizada nas cinco cooperativas do território Sertão do Apodi – RN, restou evidente que não existe qualquer tipo de relação dessas cooperativas com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), essa constatação denota um prejuízo às cooperativas, sendo a Embrapa uma empresa que nasceu para promover a inovação tecnológica voltada para a agropecuária brasileira, e as cooperativas aqui estudas desenvolvem atividades de fomento à produção e comercialização dos produtos provenientes da agricultura familiar. É inconcebível uma ausência de diálogo entre esses entes, em que pese a existência de diálogos entre autarquias de governo e entes representantes da sociedade, mas ainda existem algumas dificuldades, principalmente no tocante à realização de parcerias e consonâncias de recortes e agendas. Não sendo difícil identificar órgãos trabalhando em prol da mesma causa com programações e abordagens diferentes, o que dificulta o trabalho, pois as cooperativas que estão lidando diretamente com o homem do campo deixam de repassar as inovações tecnológicas advindas das pesquisas realizadas pela empresa e, consequentemente, a pesquisa não tem aplicabilidade, pelos menos para a agricultura familiar, tornando-se, dessa maneira, um conhecimento que não ultrapassa os muros da empresa.
O Gráfico 5 analisou se essas cooperativas executam e desenvolvem algum tipo de projeto social com a comunidade onde se encontram inseridas.
Gráfico 5 – A cooperativa desenvolve algum projeto social
Fonte: pesquisa de campo (2016).
No tocante ao envolvimento na realização ou participação em projetos de cunho social, restou comprovado que 80% delas não realizam qualquer projeto dessa natureza, o que evidencia o acentuado descumprimento de uma das funções de uma cooperativa, que é trabalhar o social e a autogestão. No entanto, apenas uma cooperativa, que representa 20% do total, desenvolve projetos sociais de educação
e cultura, como se apresenta no Gráfico 5.
A cooperativa C desenvolve alguns projetos sociais, a partir do apoio de parceiros. A Estação Digital Espaço Virtual tem contribuído para o desenvolvimento sustentável, mediante ações como capacitações em informática básica, oportunizando o acesso à Internet, digitação de trabalhos, serviços eletrônicos e apoio na gestão de vários projetos. O Modelo de Inclusão Digital para Empreendimentos Produtivos (Midep) é um projeto de inclusão digital da Fundação Banco do Brasil e funciona em três espaços: o primeiro é a estação digital; o segundo é a sala multiuso, com data show, filmadora e câmara digital, que funciona no auditório da Associação de Córrego para apresentações culturais, filmes, documentários e trabalhos realizados pelos educandos da estação, estudantes em geral e sócios; e, por último, o espaço administrativo, com apoio à gestão, uso de planilhas para controle de estoque, entre outros, e funciona na fábrica de beneficiamento de castanha. Os eixos norteadores do Midep são: a integração estratégica das ações, a capacitação como instrumento de otimização do processo de gestão e as iniciativas de produções socioculturais como meio de sensibilizar a juventude local para o comprometimento com os empreendimentos.
Dentro das atividades da estação, conta-se o Projeto Cinema para Todos, que trabalha o cinema na comunidade expondo a importância da apropriação dos conhecimentos da arte, da política, do meio social e da cultura. Os filmes interagem na sociedade de forma direta, além de incentivarem no desenvolvimento de criatividades e na ampliação dos conhecimentos nas diversas áreas. Os filmes exibidos no projeto são escolhidos tendo como base as temáticas trabalhadas pela associação em conjunto com parceiros da região.
A cooperativa C também tem atuação como apoiadora e parceira em uma turma de 21 educandos, que são sócios, esposas e filhos de sócios ligados ao Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem) na modalidade Campo – Saberes da Terra, o qual tem a missão de oportunizar o retorno, às salas de aula, de jovens de 18 a 29 anos de idade que já frequentaram a escola e tiveram que abandoná-la por motivos diversos. Eles têm a oportunidade de retomar seus estudos e melhorar seu nível educacional.
Outro exemplo de parceria da cooperativa C se dá mediante o Programa Mulheres Mil, do governo federal. No município de Apodi – RN, o programa é de responsabilidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), e conta com três cursos: Qualificação Profissional em Produção de Derivados Apícolas, em Corte e Costura: vestuários masculino e feminino e Processamentos de Frutos.
A cooperativa C possui o departamento da educação, a ideia surgiu a partir da necessidade da constituição de um espaço que objetivasse oportunizar educação cooperativista e como instrumento que pensasse na alfabetização dos cooperados, tendo em vista muitos deles não terem tido oportunidade de frequentar escolas em sua juventude.
Por isso, o departamento manteve-se atento às possibilidades que foram surgindo, a exemplo do ProJovem Campo – Saberes da Terra, do Projeto Conquista, do Programa Mulheres Mil, do Plano Setorial de Qualificação Profissional (PlanSeQ) Ecosol. Cada iniciativa dessa deixou resultados junto a esse público, proporcionando, dessa forma, a educação cooperativista e trazendo conhecimento para os jovens e adultos das comunidades que compõem a cooperativa C.
A partir das experiências mencionadas acima, a cooperativa C idealizou ampliar seu horizonte de atuação, e o resultado foi a parceria com a Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que culminou com a vinda dos cursos oferecidos pela Rede e-Tec Brasil, quando a cooperativa C ainda estava no campo das ideias e articulações, mas o departamento da educação já existia, pois, diante da impossibilidade do firmamento de parceria da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio Grande (Fetarn) com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi para oportunizar a filhos(as) de agricultores cursarem o curso técnico em Agropecuária na Escola Agrícola de Jundiaí, a cooperativa C celebrou essa parceria e possibilitou a cinco filhos de agricultores familiares de Apodi tornarem-se técnicos em agropecuária.
Os frutos dessa parceria são visíveis, hoje existem profissionais na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), no Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn) e no Banco do Nordeste, além de tutores nos cursos oferecidos atualmente pela Rede e-Tec na comunidade de Córrego. Atualmente, formaram-se duas turmas de técnicos em cooperativismo, totalizando 33 técnicos, e encontram-se em andamento duas turmas de curso técnico em Cooperativismo, duas de técnico em Comércio Exterior, uma de técnico em Informática e uma de técnico em Agroindústria, totalizando 215 cursistas.
Quando questionados a respeito da educação cooperativista (Gráfico
6), o resultado é de mais de 50% como tendo trabalhos na área, sendo esse um valor ainda não satisfatório, entretanto, as cooperativas do território estão no caminho para tanto, o que mostra sua relação com a comunidade.
Gráfico 6 – A cooperativa tem os trabalhos relacionados à
educação cooperativista
Fonte: pesquisa de campo (2016).
Isso se deu em decorrência do surgimento do cooperativismo agropecuário da agricultura familiar no território Sertão do Apodi – RN, que se iniciou de maneiras distintas, tendo suas origens no movimento sindical do campo e no trabalho social da Igreja Católica, apoiados por agentes externos, dentre os quais, padres holandeses e franceses e instituições que realizaram um trabalho nas comunidades rurais e fomentaram o ambiente que culminou com o afloramento da ação coletiva e, consequentemente, com o surgimento das organizações dos agricultores familiares, como associações e cooperativas agropecuárias, onde instituições da Igreja Católica e ONGs que prestavam assessoria às associações que culminaram em cooperativa capacitaram os “futuros cooperados” em Cooperativismo, apresentando-lhes os princípios norteadores.
A viabilização da gestão social pode ser mediante um trabalho de educação cooperativista. Postula-se que a educação cooperativa pode ser uma alternativa de solução que permita às cooperativas superar o desafio de serem competitivas, sendo paralelamente protagonistas do desenvolvimento. Um bom trabalho de educação cooperativa reflete no conhecimento da organização pelos cooperados (AMODEO, 2006).
A gestão social é o ato de gerir, conduzir, direcionar, mostrar o caminho a ser seguido para a obtenção de êxito. O conjunto de esforços empreendidos para a consecução de qualquer objetivo é precedido de uma ação que foi anteriormente pensada, aprimorada e colocada em prática. Para que tudo isso tenha acontecido e essa soma de ações tenha surtido efeito, foi necessária a gestão, que se fez presente desde a concepção da ideia até a efetivação de seus resultados.
6 Considerações finais
O território Sertão do Apodi – RN, além de ser um dos territórios mais férteis no surgimento de organizações sociais, se destaca pela intensa mobilização da sociedade civil, e possui um razoável número de cooperativas que contribuem economicamente para seus associados, em comparação aos demais territórios. Percebe-se que os fatores que influenciaram as práticas do cooperativismo no território Sertão do Apodi – RN foram: a Igreja Católica, igrejas evangélicas e outras cooperativas, com o incentivo de programas.
Nas reflexões deste estudo, percebeu-se que o cooperativismo consiste numa atividade fundamental nos municípios das sedes da cooperativa. Porém, as dificuldades de competição, associadas às dificuldades de crédito e falta de legalização das unidades de beneficiamento prejudicam o desenvolvimento das cooperativas agropecuárias da agricultura familiar do território Sertão do Apodi – RN.
A ação das cooperativas dos agricultores familiares tem-se tornando um dos mais importantes instrumentos para desencadear o processo de dinamização econômica. Cooperativas que trazem consigo uma nova concepção e características de gestão vêm sendo empreendidas por agricultores familiares. No entanto, o baixo nível de respostas a uma pesquisa sobre gestão social, participação e educação cooperativa é, em si mesmo, um indicador de uma tendência reflexiva. A participação social do cooperado é vista como um indicador que influencia positivamente a vida econômica da cooperativa, embora manifestam problemas na forma de viabilizar essa participação. Diante dessas circunstâncias, percebe-se, nas cooperativas, o desafio de se articular suas atividades sociais.
Existe uma fraca participação das cooperativas articulando os seus trabalhos com outras instituições coletivas. Embora este capítulo não seja representativo para o universo das organizações cooperativas de um modo geral, vale afirmar que a atuação dessas junto a outras instituições seria uma forma de viabilizar uma efetiva gestão participativa e, ainda, contribuir nas decisões locais e no desenvolvimento do município. Confirmar a importância, no entanto, demandaria um estudo em longo prazo e mais minucioso sobre o foco dessas instituições nas relações sociais.
Pode-se concluir, também, que a atuação das cooperativas no desenvolvimento rural – mencionada no sétimo princípio – não tem sido priorizada, e que um trabalho de educação cooperativista junto ao quadro social seria uma forma de se conseguirem cooperados comprometidos com sua organização. Como já mencionado no decorrer deste estudo, investir na capacitação e treinamento do quadro social seria, também, uma forma de promover os valores cooperativos na comunidade, pois existem cooperativas que se denominam da agricultura familiar, no entanto, caracterizam-se como cooperativas de um único “dono”, talvez pela não educação cooperativista, mas deve-se ressaltar sua importância como instrumento para a construção e fortalecimento do cooperativismo de base familiar.
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