Histórias de Reis e Príncipes
Capítulo III
Disse-lhe ella córando ou com medo ou com pejo.
—«Que fazes por aqui? Esperas teu pastor
N'este ermo pinheiral?!»
—«Não espero, senhor.»
—«Como te chamas tu?»
—«O meu nome é Glycera.»
—«Que linda e que gentil! Tu és da primavera
A mais formosa irmã!...»
—«Mercê que me fazeis.»
—«Se alguem te rouba aqui?»
—«Sou pobre, bem sabeis.
Ninguem rouba á pobreza. Ella de si é escassa.»
—«Excepto quando é o rei que n'estes sitios passa...»
—«Piedade!»
E o louco rei, sem resposta volver,
Aos monteiros bradou:—«Prendei-me essa mulher,
Conduza-m'a um de vós sentada na garupa
Do cavallo. A galope! Ávante, corceis! Upa!»
E tudo se perdeu n'um turbilhão de pó
Ao longo do caminho. O pinhal ficou só.
III
Em noites de luar, noites de primavera,
Ouvia-se dizer:—«Onde estás tu, Glycera?»
N'esse ermo pinheiral, e um longo choro após.
Finda a verde estação, calou-se a triste voz,
E nunca se ouviu mais sahir d'entre os pinheiros.
Um dia, por acaso, um rancho de vaqueiros
Passou alli, e viu estendido no chão
Amyntas, o pastor. Chamaram-no em vão,
Que elle não respondeu. Era gelado, frio.
Dizem que succumbiu ao vêr chegar o estio