Histórias de Reis e Príncipes

Alberto Pimentel · Capítulo 29 de 48

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Histórias de Reis e Príncipes

A imperatriz Carlota

O romance de Carlos De Bré foi contestado por algumas folhas imperialistas, e, se assentasse n'um facto verdadeiro, esse facto teria tido em toda a Europa uma notoriedade insistente. Não aconteceu assim. O livro passou inspirando geral desconfiança sobre as affirmações que aventava, e eu persisto em consideral-o mais como uma especulação de livraria, protegida nos seus intuitos mercantis pelo nome de um principe desventuroso, do que como a expressão exacta da verdade.

Do supposto filho do principe Luiz nunca os jornaes francezes nos tornaram a fallar, e não é natural que a imprensa de Paris, tão ávida de reportage, abandonasse esse rico filão de noticiario.

Com este artigo, que chega até á vida actual da imperatriz Eugenia no melancolico retiro de Chislehurst, fechamos por agora a sua biographia.

Nas paginas seguintes occupar-nos-hemos da imperatriz Carlota do Mexico, que ha tantos annos envelhece na demencia com que os seus incomportaveis soffrimentos lhe obumbraram o cerebro.

A posição social aproxima estas duas illustres damas, ambas viuvas de imperadores. Mas ha uma differença profunda entre ellas. Eugenia de Montijo teve o seu dia de ruidosa gloria, viveu largos annos dominando a Europa na côrte mais faustosa dos tempos modernos. A imperatriz Carlota não conheceu nunca senão o conchego intimo do seu ninho de amor conjugal no castello de Miramar, e a sua passagem pelo imperio do Mexico foi uma agonia em que principiou por perder a coragem e acabou por perder a razão.

 

V

 

A imperatriz Carlota A historia do imperador Maximiliano e da imperatriz Carlota parece moldada sobre a tradição biblica de Adão e Eva no paraizo terreal.

Todas as delicias da creação se accumulavam no éden n'aquella primitiva profusão de luz, de aromas, de flôres, de musicas, que, exuberantemente creadas, irrompiam ainda em tumulto desordenado, á espera da lei reguladora da existencia terrena. Todas as maravilhas paradisiacas, pujantes de vida, deviam ser eternas e imperturbaveis, e Adão e Eva, dominando, n'uma felicidade virginal, a esphera crystallina onde o sol ensaiava timidamente o primeiro vôo das suas azas de ouro, deviam viver eternamente n'uma felicidade casta e perenne. Mas a tentação viera, perfida serpente, espiralar-se na arvore do bem e do mal, enroscando-se no tronco, colleando para a fronde d'onde pendia o pomo prohibido, prematuramente sazonado pela intensidade do sol e pela força creadora da terra. Então o par ditoso, cuja felicidade devia ser absoluta e immutavel, attrahido pela cupidez da serpente tentadora, disputou-lhe o pomo, colheu-o, provou-o, e, julgando ter vencido a serpente, viu-se de subito vencido por ella. Desde essa hora foi marcado um limite terrivel á felicidade humana, a existencia tornou-se ephemera e dura, e tudo quanto havia nascido para viver foi condemnado a viver para morrer.

O paraizo terreal de Maximiliano e Carlota era o castello de Miramar, a uma legua de Trieste, erguido sobre um promontorio pittoresco, que só avistava a pureza lucida do ceu infinito e a pureza cerulea do mar immenso. Nunca o vôo de uma ambição havia cortado o horisonte luminoso do firmamento e do oceano, nunca a aza de um sonho audacioso havia posto um traço negro no espelho nitido das aguas e do ar.

O archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, era um homem do mar, que, comquanto houvesse viajado desde o Oriente ao Occidente, desde a Asia Menor a Portugal, amava a solidão tranquilla, a concentração placida e meditativa a que a natureza, em pleno mar, convida o espirito. Um dia, encantado pelo aspecto do promontorio que, a pequena distancia de Trieste, parecia um throno de granito franjado de espumas, escolheu-o para construir ahi uma pequena cabana de pescador, emboscada n'uma florestazinha de plantas exoticas, que o sol não tardou a fazer germinar.

Desposando em 1859 a princeza Carlota, da Belgica, o archiduque Maximiliano pôde, graças ao dote que lhe trouxera a filha do velho rei Leopoldo, traçar por sua propria mão o projecto de um castello que nascia da cabanazinha florida como a opulenta cabaia de sêda de um rajah nasce da folha verde da amoreira.

O archiduque era apaixonado pela architectura; fôra elle que desenhára o risco da famosa igreja Votiva de Vienna; póde pois calcular-se com que alegre e dedicado enthusiasmo veria ir apparecendo, debaixo do seu crayon, as torres denticuladas do futuro castello de Miramar.

Mais feliz do que a snr.ª Porhoet, do R ,

cuja velhice era alimentada pela phantasia de fazer edificar uma cathedral estupenda, o archiduque vira realisado o seu sonho, e o castello de Miramar fôra nascendo á beira do oceano, avultando, subindo, fazendo lembrar a lenda do rei de Thule e da

... torre herdada que havia

ao rés das marinhas aguas.

 

Emquanto o castello de Miramar se edificava, o archiduque fôra habitar um chalet que provisoriamente tinha mandado construir no alto da collina, e que para os dois felizes esposos se convertêra n'uma estancia encantada, que a madresilva cingia n'um abraço de verdura e de flôres, e envolvia na atmosphera inebriante de um beijo de perfume. O archiduque gostava immensamente de flôres, de modo que os jardins de Miramar, que vieram a contornar o palacio, pareciam realisar o sonho de um poeta que, como Castel ou Lacroix, vivesse para cantal-as.

Fôra no chalet da collina que o archiduque, mesmo depois de edificado o castello, permanecêra sempre com a archiduqueza; nas salas do castello recebia elle os homens de lettras, os artistas, os sabios, os principes que procuravam a sua companhia, que uma illustrada conversação e uma sumptuosa hospitalidade tornavam appetecida.

N'este paraizo terreal, n'este éden do Adriatico, insinuára-se um dia a serpente da ambição, e a França, personificada em Napoleão III, fôra o espirito do mal que se transformára em serpente para realisar a tentação do par feliz de Miramar.

Os mais dedicados amigos do imperio de Napoleão III não podem dissimular as responsabilidades que pesam sobre a memoria do imperador na desgraçada questão do Mexico. Madame Carette, que pertence a este numero, não achou meio de desculpar essa fatalidade do imperio, que veio a chamar-se a expedição do Mexico.

«É bem difficil, diz ella, encontrar o fio subtil de toda esta aventura, em que tanta gente se enleiou e arruinou, que custou tantas victimas e tanto dinheiro, que teve por desfecho o fatal drama de Queretaro, e que foi talvez a origem dos acontecimentos que precipitaram a quéda do imperio.»

 

Como nasceu no espirito de Napoleão III a desastrosa idéa da intervenção da França nas questões internas do Mexico? Como, e por quê?

O que até ha pouco tempo se sabia, e logo voltaremos ao assumpto, era que algumas familias mexicanas e alguns membros das colonias estrangeiras emigraram para a Europa fugindo ás continuadas perturbações politicas d'aquelle paiz. Essas familias, muitas das quaes vieram estabelecer-se em Paris, pensavam decerto em voltar á patria, e manobraram n'esse sentido, auxiliadas pelos estrangeiros repatriados que levaram os seus respectivos governos a realisar uma conferencia internacional em Londres. Accordou a diplomacia em pedir indemnisações para os emigrados, mas o governo mexicano, à bout de ressources, declarou que não podia pagar o que lhe era exigido.

As potencias interventoras, a França, a Inglaterra e a Hespanha, julgando-se desconsideradas por esta resposta do Mexico, combinaram entre si fazer uma demonstração energica que impozesse o exacto cumprimento das deliberações tomadas na conferencia de Londres.

Foi o almirante Jurien de La Gravière que, com poderes discricionarios, tomou o commando da expedição franceza, aggregando-se-lhe, como adjunto technico, mr. Dubois de Saligny, antigo ministro no Mexico, que devia occupar-se do contencioso. A esquadra hespanhola já estava fundeada em Vera-Cruz quando a esquadra franceza lá chegou. A Inglaterra, reconhecendo talvez o erro politico d'esta aventura, enviou alguns navios com visivel hesitação.

Os mexicanos, concentrando-se logo que os hespanhoes chegaram, deixaram-n'os como que isolados n'uma vasta zona do littoral. Foi pois n'um deserto que a expedição franceza desembarcou, posto que o governo do Mexico manifestasse uma certa sympathia pela expedição franceza, considerando-a como um obstaculo a quaesquer demasias dos hespanhoes, antigos occupadores e, portanto, antigos inimigos dos mexicanos. Assim, pois, pôde o almirante Jurien assignar uma convenção que permittia aos francezes o internarem-se em condições favoraveis de hygiene e abastecimento, com a clausula de que, se as hostilidades se rompessem, retrocederiam para o littoral.

É n'este ponto que começa a urdir-se uma vasta rêde de intrigas.