Histórias de Reis e Príncipes

Alberto Pimentel · Capítulo 36 de 48

Páginas do PDF

Histórias de Reis e Príncipes

O principe da Beira

mar, onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que

cachopos é palavra portugueza de homens rusticos, por que

chamam aos moços de pouca idade, e que a condessa

Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia fallar por

aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que

aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão

por debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos,

corrupto o vocabulo latino scopulus, como se corromperam pela

successão dos godos e dos mouros outros infinitos vocabulos,

que temos da lingua latina, d'onde a nossa tem a origem. Isto é

coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da chronica de Duarte Nunes.

Não sei se o leitor ficará inclinado a acreditar que a lenda do menino de S. Domingos haja dado origem á locução proverbial de que os meninos recemnascidos vêm de França.

Se não ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto lhe deram as transcripções que fui buscar a Duarte Nunes e que, aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o

chronista: Isto é coisa de graça.[9]

 

II

 

O principe da Beira

(Março de 1887)

E a proposito...

Os jornaes não teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vêem-se sériamente entalados para explicar aos bebés o motivo por que esse lindo principesinho que ha de vir de França (e que deve ser lindo como todos os principes) não chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a familia real e por todos os habitantes do paiz.

Tem sido realmente preciso dar tratos á imaginação para explicar phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa curiosidade dos bebés, e se o accouchement da princeza Amelia tardar ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginação dos pobres pais de familia.

Um dia são os pastores dos Pyrenéos que, sabendo que por alli passa um principesinho, se juntam para vêl-o, obrigando o portador a parar e a mostrar-lh'o.

Não tem o portador outro remedio senão parar, descobrir o bercinho, mostrar o principe.

 

Então os pastores querem beijal-o por força, e pedem ao portador que se demore emquanto elles vão buscar a melhor rez do seu rebanho para offerecel-a áquella linda creança.

Outras vezes é o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.

Outras vezes é ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa, ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou. Finalmente, são as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario vê-se forçado a dar-lhes frequentes descansos.

Durante vinte e quatro horas, os bebés, não tendo ouvido os foguetes, acreditam na desculpa que se lhes dá, mas no dia seguinte, como a demora vá continuando, é preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por muito amor que tenha aos seus filhos, póde não ter tanta imaginação que chegue para cada um d'elles...

Entretanto, os bebés e os adultos vão esperando pelo principesinho que ha de chegar de França n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Já tudo está a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta ás flôres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho não chega. Nem as flôres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.ª Prévot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em interrogações no Paço de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, é chamada a côrte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto ás peças, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama as armas...

E o principesinho não chega!

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr.ª Prévot consulta os guias de viagem, o dr. Greneau pergunta se não estará sonhando, mas o que é certo é que a pequenina alteza, sabendo talvez que já vai sendo um pouco amargo ser principe, parece não ter pressa nenhuma de o ser!

Aposto que sua possivel alteza está talvez dizendo a esta hora:

—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco minutos em qualquer parte...

O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem vontade nenhuma de chegar.

E o principesinho tem razão.