Histórias de Reis e Príncipes

Alberto Pimentel · Capítulo 14 de 48

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Histórias de Reis e Príncipes

A faca do marquez de Cascaes

A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer não.

Nós é que lh'a não podemos deitar a elles para absolvel-os de tão grave falta.

Pois esta illustre princeza que tanto luctára toda a sua vida, com o

marido, com o cunhado D. Duarte [4], com Castella, com o irmão e com os filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mão de vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que ella, está no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia, que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora importante na restauração da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento e no abandono, tão sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a terceira jornada, porventura

definitiva[5].

 

II

 

A faca do marquez de Cascaes

O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.

Entrou, com uma faca na mão, na camara real, em occasião que o monarcha dormia profundamente.

Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licença para dizer uma grande verdade.

D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente a cabeça ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, não para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande verdade muito fria!

Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crédor, violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. É lá coisa que possa tolerar-se!

Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mão, limitou-se a dizer:

—Lá vem o marquez com alguma das suas!

 

Ora se tudo isto não basta para caracterisar um rei! Accordam-no de repente, e não se zanga! mettem-lhe uma faca na mão, e fica com ella! pedem-lhe licença, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o rei responde bonacheironamente: «Pois diga lá!...»

É preciso não ter... alma!

Vai o marquez, e diz:

—Senhor, vós nascestes tolo.

E o rei continúa ouvindo, pacientemente, de faca na mão!

Podia o marquez ter-se ficado por aqui, que já não era pouco nem mau, mas carregou na tecla, visto ter achado brando o teclado.

—Sois doente, e cheio de enfermidades, accrescentou.

E o rei, sempre de faca na mão, pediu mais.

Então o marquez queimou o seu ultimo cartucho:

—Nem sois para casado.

Era o mais que se podia dizer! Como havia de servir para rei um homem que não servia para marido?! Rua com elle: era a traducção.

 

E o rei, diz o author das M

, concordou com o marquez de Cascaes!

N'esse mesmo dia, 23 de novembro de 1667, D. Affonso VI assignou um termo de desistencia em favor de seu irmão.

Eis-aqui a synthese de um reinado.

A faca do marquez de Cascaes ha de ficar eternamente na historia portugueza como symbolo de boa administração: corte-se tudo o que não presta.

Fizesse-se assim sempre, e em tudo, e as coisas iriam melhor...

Sabe a gente estes e outros factos, que testemunhas contemporaneas deixaram memorados; sem embargo, D. Affonso VI tem uma tradição galante, de aventuras amorosas... armadas no ar como os castellos de Hespanha.

Eu sei que me corre o dever de ser mais discreto do que a historia. Sei isso. Não irei revolver as monstruosidades escandalosas da nullidade do casamento de D. Affonso VI. Nada d'isso. Procurarei apenas, na vida do successor de D. João IV, o que possa haver de contavel em materia de galanteria com mulheres.

Supponham que nasceu n'um monturo uma flôr. Tem-se visto. Eu arrancarei delicadamente a flôr, sem tocar no monturo.

O snr. Andrade Corvo, n'um bello romance historico que eu anteponho, com muita proeminencia, a varios livros do mesmo genero, á M D. J por exemplo, conta as proezas galantes que D. Affonso VI fizera por amor da Calcanhares, uma hespanhola.

Agora, que estão publicadas as M

, sabe-se que o facto é inteiramente verdadeiro, porquanto

o author d'este livro, seja frei Alexandre da Paixão ou não seja, escreve com toda a sua authoridade de contemporaneo:

«Acabado o dia soube a rainha que em uma janella do Paço

estivera vendo a festa uma mulher conhecida tanto pelo nome,

como pela vida, celebrada pela alcunha de Calcanhares,

sustentada para feitiço de sua magestade.»

 

A este simples periodo de um manuscripto do seculo XVII foi o snr. Corvo buscar habilmente todos os magnificos episodios a que, no seu romance, a Calcanhares serve de pretexto.

Muita gente, sempre de pé atraz com D. Affonso VI, perguntava, depois de ter lido Um anno na côrte: Mas esta Calcanhares existiu ou não existiu?

Ahi fica dada a resposta.

O sr. Corvo foi até excessivamente meticuloso como romancista historico. Andou procurando nos codices do seculo XVII, escrupulosamente, certas minucias, que então não estavam ainda divulgadas, como hoje, pela publicação das M

.

Assim, por exemplo, o rei, referindo-se no romance do snr. Corvo á rainha D. Maria de Saboya-Nemours, trata-a por Brichota, com sem-ceremonia contraria á etiqueta.

Brichota era synonymo de estrangeira.

Pois bem. Lá diz o author do famoso codice: «Respondeu-lhe el-rei que lhe não desse nada da Brichota, que fosse, e estivesse, e se ella fallasse...» O resto não digo eu ainda que me queimem, mas disse-o el-rei D. Affonso VI.

Este monarcha não tinha papas na lingua, e por isso não estranhou a descompostura, núa e crúa, que lhe pregou o marquez de Cascaes.

 

Eu possuo um livro precioso como subsidio para a historia do reinado de Affonso VI. Intitula-se V M F S -N , P , G C . O meu exemplar, comprado no espolio do visconde de Borges de Castro, é ricamente encadernado, e tem uma dedicatoria do proprio author.

Pois ahi, a pag. 100, lê-se esta passagem, referente ao rei:

«... nan era privo di un tal qual spirito, quantumque non sapesse

nè leggere, nè scrivere ed usasse basse espressioni, come, per

esempio: vá bugiar... etc.»

Fiquemos por aqui.

Os grandes amores romanticos de D. Affonso VI tiveram por palco o convento de Odivellas.

Calumnia-se D. João V quando se diz que elle desacreditou Odivellas. Aquillo já vinha de traz.

D. Fernando Corrêa de Lacerda, bispo do Porto, conta que D. Affonso VI «se deu ao galanteio das religiosas, frequentando diversos mosteiros», e que «sem reparar no decôro que se devia aos lugares sagrados, fazia abrir as portas das igrejas, sendo alta noite», «succedendo muitas vezes que quando em outros conventos se levantavam os religiosos para louvar a Deus, o estava el-rei offendendo nas grades das suas igrejas.»

Umas d'estas freiras era D. Anna Angelica de Moura, conhecida em Odivellas pela alcunha galante de Flôr do Sol.

«Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas; fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovação de toda a côrte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe mandou um grande presente, e quando a tornou a vêr, lhe disse que desejava fazel-a rainha de Portugal.» (V ' D. A , publicada por Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).

 

Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois está enganado.

No auto do M , do quinhentista Antonio Prestes,

vem citado o exemplo que a freira de Odivellas imitou:

... Foi como o meu,

que sou quem o arremendou

na guerra que a Pirro deu;

sendo o vencimento seu

uma mulher captivou

da qual vindo-se a vencer

por formosa, elle a amava,

cousa brava;

chegou ella a adoecer,

e se ella se sangrava

sangrava-se elle, que fava

de amor póde mais ser?

Decididamente: não ha nada novo n'este mundo. O caso está em saber a gente onde os outros foram fazer mão baixa.

Ora havia em Odivellas outra freira, que D. Affonso VI deixou para fazer a côrte a D. Anna de Moura.

Mulher de talento mas com cabellinho na venta, est'outra freira, que se chamava D. Feliciana de Milão!

Dos seus desbragamentos de linguagem dão ampla noticia Perim no T e Suppico na C .

 

As duas freiras rivaes descompozeram-se em verso... como se valesse a pena!

D. Feliciana desembestou com o rei:

Meu monarcha, o vosso amor

e vosso trato amoroso

tanto tem de primoroso

quanto de pai e senhor;

mas, ainda assim, causa dôr

e não com pouca rasão

vêr que esta vossa affeição

muito tem que a desdoura,

pois adorais uma Moura,

sendo vós um rei christão!

A Flôr do Sol respondeu:

Com rara desigualdade

vós murchaes, ella florece:

Anna deidade parece,

Feliciana de idade.

Deixai pois essa vaidade

porque a todos nos enfada,

pois que sendo só chamada

ser escolhida queiraes,

maiormente quando estaes

affeita a ser engeitada.

Que tolas! tudo isto por que?! Façam favor de lembrar-se da historia da faca!

O calembour de D. Anna de Moura era, como hoje dizemos, uma piada á outra, que foi uma grande calemburista do seculo XVII.

 

Exemplo: D. Anna de Moura tinha um irmão, que se chamava Gil Vaz Lobo.

Um dia as duas freiras travaram outra das suas muitas pegadilhas. D. Feliciana disse á rival:

—Se vos não aquietaes, dou-vos com vosso irmão pela cara (Gilvaz).

O rei pediu a alguem que lhe fizesse versos desconsoladores para D. Feliciana, e mandou-lh'os. Vai ella, agastada, respondeu: