Histórias de Reis e Príncipes
Capítulo IV
—Couche-toi avec tes bas (Tebá) cette nuit, et ça passera.
Foi talvez o unico epigramma que não soube mal a Napoleão III...
IV
Conhece-se, nos seus pormenores, a desastrosa morte do filho da imperatriz Eugenia na Zululandia. Foi esse acontecimento que desfolhou no coração da viuva de Napoleão III o ultimo bouquet das suas esperanças, que ella podéra salvar na revolução de 4 de setembro. Restava-lhe apenas, a prendel-a ao mundo e a ligal-a ao futuro, esse joven principe que sempre adorou, e que bem poderia vir a rehaver um dia o throno dos Napoleões. O desejo de apressar a hora da revanche napoleonica, um sonho de mulher n'uma noite agitada, preparára, com mais precipitação do que acerto, a partida do principe Luiz para a Zululandia. Contou decerto a imperatriz com o effeito vantajoso que poderia despertar no animo enthusiasta dos francezes a noticia de que seu filho se havia batido com denodo, embora por um paiz estranho; e depois, como a Zululandia não estava precisamente na fronteira da França, mas era uma região longinqua da Africa, seria possivel exaggerar um pouco hyperbolicamente os triumphos do principe, sobredoiral-os com o prestigio que a distancia costuma dar ás pessoas e aos factos.
Mas este projecto de rehabilitação politica, que tinha brotado no espirito ou no coração da imperatriz, offerecia perigos que a precipitação da partida não deixou antever. Foram porém os perigos que triumpharam sobre as esperanças. Foi o reverso da medalha, não devidamente estudado, que triumphou sobre o anverso. A catastrophe da Zululandia apagou o ultimo rescaldo do imperio napoleonico, e desde essa hora a imperatriz Eugenia, sem familia, sem esperanças que a prendam á existencia, vendo cahir a seu lado, velhos e doentes, os amigos mais dedicados do imperio, tem assistido, como Carlos V, aos seus proprios funeraes, porque sobrevive a si mesma.
Esta é a ultima phase dolorosa da sua vida, que resgata largamente os erros commettidos durante os dias gloriosos do fastigio do imperio.
Eugenia de Montijo amava ternamente seu filho, que tinha sido educado, ainda que com extremo carinho, na tradição militar de Napoleão I.
Fôra miss Schaw, uma ingleza, que recebêra o encargo de ser a aia do principe, por quem tinha uma dedicação fanatica.
Misturando o francez com o inglez, nunca o tratára senão por My Prince, e o pequeno Napoleão pagava-lhe exuberantemente a ternura com que miss Schaw o tratava.
De tudo quanto eu tenho lido a respeito do principe Luiz, infiro que era uma boa e nobre alma a sua. Não encontrei ainda nota discordante que depreciasse o seu caracter ou amesquinhasse a grandeza fidalga do seu coração.
Um dos jovens amigos do principe foi Luiz Conneau, filho de um medico muito estimado nas Tulherias. A amizade d'estas duas creanças passava ás vezes, como era natural, por pequenas tempestades, amúos infantis, que terminavam sempre por um abraço de reconciliação. N'um dia de banquete official nas Tulherias, a que o principe, em razão da sua idade, não devia assistir, foi-lhe permittido jantar, nos seus aposentos, com Luiz Conneau. O principe, sabendo que o seu amigo apreciava gulosamente um gelado de morango, pedira que lh'o servissem.
O dia, que era de feriado para ambos, havia corrido na melhor intimidade d'este mundo, mas, de repente, uma pequenina dissidencia explodira entre os dois amigos. Luiz Conneau amuou-se, e não houve forças humanas que o podessem deter nas Tulherias. O principe ficou muito sentido com a partida brusca do seu amigo, mas, quando ao jantar lhe serviram o gelado de morango, encheram-se-lhe os olhos de lagrimas, e ordenou ao criado que o servia:
—Leva d'este gelado ao Conneau, e dize-lhe da minha parte que elle foi um ingrato em deixar-me.
Toda a educação do principe Luiz obedecia ao desejo de continuar n'elle a gloria militar do primeiro Napoleão, porque o imperio reconhecia que, em face dos seus inimigos, precisava retemperar-se com a tradição historica.
Aos oito annos, o principe Luiz montava já a cavallo, e quando sobre um bonito poney Bouton d'Or passava revista ás tropas ao lado do imperador, conhecia-se, na sua physionomia radiosa, que o lisonjeava esse bello espectaculo militar, com cujo prestigio haviam deslumbrado a sua imaginação infantil.
Como vestia o uniforme de caporal do primeiro regimento de granadeiros da guarda, tudo se conseguia d'elle, se fazia alguma maldadesinha, dizendo-lhe:
—Ne faites pas cela, Monseigneur; vous deshonoreriez l'uniforme.
E o principe aquietava-se.
Fôra seu mestre de equitação mr. Bâchon, homem alegre, de molde a fazer-se estimar d'uma creança.
Madame Bruat tinha na côrte o elevado cargo de gouvernante des enfants de France, era a preceptora do principe, mas a imperatriz seguia a par e passo a educação de seu filho.
Em 1867, estando a côrte em Biarritz, encontraram-se mãi e filho n'uma situação difficil, nada menos que um naufragio.
Tinha-se planeado um passeio a bordo do Faon, «pequeno aviso» a vapor, e o abbade Bauer, que fôra n'esse dia a Biarritz, quiz ser do numero dos excursionistas. O imperador não gostava de embarcar; não acompanhou por isso a imperatriz e o principe.
A primeira parte da viagem, ate S. Sebastião, correu sem incidente. Mas levantou-se vento, e o commandante do Faon declarou que não poderiam desembarcar senão em S. João da Luz. Por este motivo a viagem teve que ser mais longa do que se esperava, e a noite principiára a cahir. S. João da Luz é um pequeno porto de pescadores, accidentado de rochedos, em que o Faon não poderia atracar. A imperatriz e o principe tiveram que ir para terra n'uma canôa, com o almirante Jurien e o abbade Bauer, mas a força do mar levara a pequena embarcação d'encontro a uma fraga, em que se despadaçou. A imperatriz conservou-se, dentro d'agua, abraçada ao filho, fluctuando com o auxilio de alguns dos marinheiros da canoa. E ternamente dizia-lhe:
—Não tenhas medo, Luiz.
—Não, mamã, respondia o principe. Eu sou Napoleão.
Como era natural que acontecesse, foi o abbade Bauer quem, na opinião dos marinheiros, aguentou a culpa do naufragio.
—Ou não trouxessemos padre a bordo!
A alma do principe Luiz era naturalmente affectiva.
Pela ama que o creára conservou sempre uma dedicação extrema. Até aos oito annos, não queria adormecer sem que lhe pozessem sobre o travesseiro um lenço de sêda da India e um retalho de velludo que tinham pertencido á ama. Era uma superstição de creança. Miss Schaw tinha o maior cuidado em não perder nunca de vista esses dois pequenos objectos tão queridos.
—My prince, dizia ella, serait inconsolable.
A respeito da ama do principe: Como todas as amas, sobretudo quando o são de principes, tinha caprichos, velleidades. Mas como nas Tulherias houvesse uma outra ama para um caso de urgente substituição, intimidavam-n'a dizendo-lhe:
—Se está aborrecida, chama-se a outra.
Era como se se deitasse agua na fervura.
Aos oito annos, a entourage do principe deixou de ser feminina. Deu-se-lhe como preceptor mr. Monier, escolhido ainda segundo os velhos processos da educação principesca. Mr. Monier era um classico obstinado, que atravessava a côrte vergando ao peso da sua erudição um pouco fradesca. Foi substituido por mr. Filon, que dirigiu a educação do principe antes e depois da sua entrada na escóla militar de Woolwich.
Tendo cahido o imperio, o principe continuou o seu curso n'esta escóla, onde os condiscipulos o tratavam familiarmente por Luiz. Completos os estudos militares, foi residir com a imperatriz em Camden-House. Levantava-se ás seis horas da manhã, tomava uma chavena de chá, e abancava no seu gabinete d'estudo, até ás dez horas, com mr. Filon.
Em seguida dava um passeio a cavallo, com excepção dos dias em que acompanhava a imperatriz, a pé, através de Chislehurst-Common, á pequena igreja gothica de Saint-Mary. Ao domingo todas as attenções se fixavam na mãi e no filho que iam juntos ouvir missa. A imperatriz já então principiava a soffrer de rheumatismo articular; e o principe carinhosamente a ajudava a descer da carruagem, amparando-a nos braços.
Em 1887 publicou-se em Paris, assignado por Charles de Bré, um livro que se intitula L . Supponho que
com razão se denomina romance. Eu nem acredito na versão do padre Goddard, que, fallando do principe morto na Zululandia, dizia Virgo intacta, nem acredito na historieta, contada por De Bré, dos seus amores com miss Carlota Walkyns, que, segundo o romance, houvera do principe um filho, que está em França a educar.
Conta De Bré que as entrevistas do principe com miss Carlota se realisavam no magasin de mr. Floris, em Jermin street n.º 80, e que ella ignorára durante muito tempo a alta posição social do seu joven apaixonado.
Fôra por occasião do casamento do duque de Norfolk com lady Hastings que miss Walkyns tivera a revelação d'esse segredo, porque até ahi, como dissemos, ella desconhecia completamente a condição d'esse moço estrangeiro, que vira pela primeira vez na estação de New Cross.
Mas, no dia do casamento do duque de Norfolk, miss Walkins surprehendêra o seu bem amado a conversar familiarmente como o conde de Beaconsfield, e esse facto impressionou-a vivamente.
Parece que a imperatriz alimentava o projecto de casar o principe imperial com a princeza Beatriz, filha da rainha Victoria, mas por sua parte o principe imperial alimentava a esperança de desposar miss Carlota, casando por amor, como seu pai.