Histórias de Reis e Príncipes
Mãi e Filhos
I
A Mãi
Domingo, 23 de dezembro de 1888, á hora em que um bello sol de inverno doirava pallidamente o céo de Lisboa, convidando a despreoccupada população a fazer o trottoir da Avenida, achava-me eu na igreja do extincto convento de Agostinhas Descalças, no sitio do Grillo, em frente do caixão onde têm repousado esquecidos os restos mortaes de D. Luiza de Gusmão, rainha de Portugal.
Não vão suppôr que me estou dando ares de poeta funebre da realeza ou de philosopho merencorio dado a scismar no problema da morte: to be or not to be. Nada d'isso. Sou apenas um dilettante de estudos historicos; tenho por vezes o mau gosto de preferir os dramas do passado aos do presente, e as epopêas da historia ás partituras de S. Carlos.
Sabendo que se tratava de remover para S. Vicente de Fóra os restos mortaes da rainha D. Luiza de Gusmão, e que o feretro ia ser aberto para se verificar se havia sido violado como constava ás justiças da Boa Hora, não quiz perder a occasião de examinar por meus proprios olhos os ultimos despojos d'essa notavel dama do seculo XVII, tão energica junto de seu marido, tão resoluta na fragilidade do seu sexo, mas tão sincera na firmeza da sua justa ambição.
Fui.
Antes que o acto judicial principiasse, aproveitei o tempo visitando o convento, a que D. Luiza de Gusmão se recolheu a 17 de março de 1663, e onde tres annos depois fallecêra.
É vasto o convento, sem que todavia nada tenha de monumental. As Agostinhas Descalças não ostentavam pompas monasticas. Ha no interior do convento todo o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas estreitas e mal allumiadas, tendo sobre a porta e o fundo da parede alguma legenda biblica, alguma inscripção religiosa, por exemplo—Da cella ao céo—Não póde o servo servir a dois senhores.
A abundancia de altares—pois vimos n'um a designação de 193— denuncía que o culto era alli fervoroso, e que não se podia dar um passo no interior do convento sem ter diante dos olhos a imagem de um santo, de uma santa ou do Redemptor.
Mas os nichos dos altares estão vazios, as imagens e as reliquias desappareceram; convento e igreja foram brutalmente despojados; diz-se que até o sino, apesar do campanario ser alto, desapparecêra!
A rainha D. Luiza de Gusmão, afastada duramente da côrte pelos conselheiros de seu filho D. Affonso VI, acabou por decidir-se a entrar n'aquelle convento, mas nada ha alli que denuncie grandeza de aposentos reaes. Pareceu-nos que esses aposentos seriam uns que ficam voltados ao Tejo—por serem um pouco melhores do que os outros—constando de uma sala com chaminé e uma pequena cella, contigua á sala, da qual recebe luz por uma janella interior.
D. Luiza de Gusmão vivêra pois modestamente entre as Agostinhas Descalças.
Poucos conventos, porém, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo; todo o pavimento terreo, que é enorme, serve hoje de deposito de artilheria, está cheio de peças de campanha.
Algumas freiras, como as inscripçoes tumulares indicam, jazem sob as carretas.
Havia no Grillo só um côro, pequeno e modesto.
Mas, em compensação, a igreja, comquanto não seja grande, é boa, coberta de azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela humidade. A teia do cruzeiro é magnifica, de ébano e mosaico florentino, com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.
Era dentro da teia que estava o caixão da rainha, coberto com um rico panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela corôa real, sobre almofada de estofo igual ao do panno.
Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia, reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado, tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam encravadas com pregos de arame.
Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada, apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.
A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão esquerda.
Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.
A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.
Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!
A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido por Benevides nas R P , fôra uma bonita mulher, de feições muito regulares: testa
espaçosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena, rosto redondo.
O que nós hoje podêmos apenas estranhar n'esse retrato são as exaggeradas dimensões dos bandeaux, que eram moda n'esse tempo, sendo costume adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.
D. Luiza de Gusmão não morrêra de idade que a velhice a tivesse podido deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por ser pouco conhecido entre nós: é a certidão de idade, que encontrei, segundo os meus apontamentos, na H I , por D. Juan Agustin de Mora (Sevilha, 1762):
«Que en un libro de baptismos, que comenzó año 1602, y acabó
en 1626, que no está foliado, como á la mitad de sus hojas está
una partida, que á la letra, es como se segue:
«En la villa de Huelva, jueves veinte y quatro dias del mes de
octubre, año de Nuestro Salvador Jesu Christo de mil y
seiscientos y trece años, yo el Lic. Diego Muniz de Leon,
Visitador General del Arzobispado de Sevilla, baptizé á la
señora Doña Luiza Francisca, hija del señor D. Manoel Alonso
Perez de Guzman el Bueno, y de la señora Doña Juana de
Sandoval, condes de Niebla: fué su padrinho el señor D. Gaspar
Alonso Peres de Guzman el Bueno, Marqués de Casaza, y le
adverti la cognacion espiritual, y lo firmé: fecho ut supra.—Lic.
Diego Muniz de Leon.»
Por este documento fica rectificado o nome do pai de D. Luiza de Gusmão, que o snr. Benevides diz chamar-se João Manuel Peres de Gusmão.
Os restos mortaes d'aquella mulher illustre, abstrahindo mesmo da sua qualidade de rainha, inspiravam respeito.
A sua vida não fôra uma inutilidade grandiosa. Não. Junto de seu marido, D. Luiza de Gusmão fôra uma conselheira cheia de coragem e de energia, indispensavel para completar o caracter irresoluto e medroso do duque de Bragança. Na regencia do reino, todas as côrtes estrangeiras faziam justiça ao seu animo forte, ao seu espirito esclarecido. Só como mãi fôra infeliz. Viu morrer o primogenito prematuramente, e os outros dois filhos não rodearam de carinhos filiaes os ultimos momentos da rainha, que morreu ao abandono da sua propria familia!
Nas M e na
C P vem transcriptas as cartas em que D. Luiza de Gusmão chamava do seu leito de agonia o rei Affonso VI e o principe D. Pedro para os abençoar.
Sabe-se que a C é um livro parcial contra o rei, mas,
descontada a paixão politica do author, o principe D. Pedro não se mostra muito superior ao rei em extremos de amor filial.
A historia fornece-nos sobejas provas de que D. Pedro II não sabia respeitar melhor do que seu irmão os vinculos de familia.
O bispo do Porto D. Fernando Corrêa de Lacerda diz na C que o rei e o infante acompanharam o cadaver da
mãi até ao coche funebre:
«Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e
decente pompa, e á terça á noite depois d'el-rei e S. A.
lançarem agua benta ao cadaver, e o acompanharem á liteira,
foi levado á igreja do mosteiro do Sacramento de religiosos
Carmelitas Descalços, que havia edificado, d'onde se sepultou
por deposito, até se acabar a igreja das religiosas Descalças da
recolecção de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual
tinha mandado escolher a ultima sepultura.»
Ora o desconhecido author da A - (livro de que Camillo Castello Branco diz com razão: tem relanços que inspiram crença; mas lá vem outros que a desluzem) não menciona o nome do principe, como assistente á agonia da mãi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: «Foi para palacio, porque, nem ainda morta a quiz vêr.»
O auctor das M ,
qualquer que seja, diz que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da rainha expirar, por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella hora, como mais desenganados, são fielmente cridos e ficam na memoria mais estampados.