Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
Homens e monstros
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– O nom e que a doença recebeu, se traduzida do idiom a nahuatl para o nosso, poderia ser “praga escarlate”.
– Parece bastante dram ático...
– Mas nem por isso m enos apropriado. A principal característica da doença era um a coloração verm elha no rosto e em todo o corpo. Na verdade, o prim eiro sintom a era a aceleração do ritm o do coração, seguida de um grau m aior ou m enor de febre. A erupção averm elhada surgia sim ultaneam ente, em grande parte dos casos, com episódios de convulsões, estas de m enor gravidade. Porém , quem sobrevivia a essa fase da doença com eçava a perceber um a insensibilidade generalizada que subia com rapidez a partir dos pés: calcanhares, pernas, quadris e quando a insensibilidade atingia o coração sobrevinha a m orte. Assim – estalou os dedos -, sem dores ou delírios. Um aspecto terrível da doença era que a m ente perm anecia absolutam ente lúcida e tranquila, acom panhando a insensibilidade crescente até a m orte.
– E qual o m otivo para um a solução tão drástica por parte dos aztecas para controlar essa praga? Talvez, se isolassem os indivíduos que apresentavam sintom as...
– Você não com preendeu, Enfield! – disse ele enfaticam ente, segurando m eu antebraço com força – Sim plesm ente não havia tem po! A doença evoluía infinitam ente m ais rápido que a própria cólera. Um a pessoa aparentem ente saudável podia chegar ao óbito em um prazo entre quinze ou vinte m inutos até algum as horas! A m aioria deles durava um a hora ou duas. Isso explica tam anho pânico, que induziu os aztecas a optarem pelo genocídio.
– Mas o que tem essa “praga escarlate” a ver com Sir Danvers? E com Jeky ll?
Chaney suspirou e lançou outro olhar cauteloso ao redor do salão, antes de prosseguir em tom de confidência:
– Poucas sem anas após a chegada do pelotão com as notícias alarm antes da praga escarlate, recebem os a ilustre visita de Sir Danvers Carew no quartel. Foi a prim eira vez em que o vi pessoalm ente. Foi-nos apresentado com o em issário especial do Ministério das Relações Internacionais, cuj o titular encontra-se ali, logo adiante – fez um gesto discreto em direção ao Ministro Phileas Fogg, que m ais um a vez consultava seu relógio. – Nosso com andante reuniu a tropa na presença do lorde e, em seu nom e, solicitou voluntários para um a m issão de alto risco no território do México. Um m urm úrio generalizado percorreu nossas fileiras. As notícias sobre o bloqueio m ilitar por causa da praga, pouco tem po antes, nos pareciam um indício m ais que óbvio do que se tratava. Obviam ente foram -nos oferecidas diversas regalias, tanto em term os de soldo com o de outras vantagens consideráveis, próprias do dia a dia na caserna, caso nos apresentássem os para a m issão. Mesm o assim houve apenas três voluntários.
– E o senhor, claro, era um deles.
Chaney riu em voz alta e ergueu o copo em m inha direção.
– Você continua m e conhecendo m uito bem , Cabo. Sim , claro que eu m e ofereci com o voluntário. Nem tanto pelos prêm ios oferecidos, m as pela própria excitação que proporciona o perigo e a im ensa curiosidade que m e corrói, e que por certo algum dia selará m inha sina, foi o que m ais m e m otivou. Havia cerca de trinta hom ens, de diversas guarnições diferentes, j á que em cada posto apenas um núm ero ínfim o de voluntários se apresentava, além dos tem íveis cavaleiros-j aguares do exército azteca. Em barcam os no trem para o México em com panhia de Sir Danvers, que no traj eto nos explicou do que tratava a m issão. Na realidade, um j ovem azteca conseguira escapar do bloqueio m ilitar à zona de contam inação da praga. Saindo de um a das vilas acom etidas pela doença, foi capaz de chegar próxim o à cidade costeira de Tuxpan e em barcou num vapor de carga no Golfo. Não se sabia se j á m anifestava sinais da doença. Pelo tem po decorrido, poderia até m esm o j á estar m orto. Mas diante dos riscos, caso o rapaz chegasse a um centro populoso, eles precisavam ter certeza. Estavam reunindo um pelotão especial com voluntários de várias unidades para um a varredura em m assa ao longo da costa e nas águas do Golfo, à caça do que cham avam de “indivíduo zero”.
– Mas é estranho... Por que Sir Danvers se deslocaria da Inglaterra para o Outro Mundo apenas para em preender essa caçada hum ana?
Chaney sorriu m aliciosam ente.
– Muito bom , cabo Enfield, m uito bom ! Vam os retornar à m inha história para esclarecerm os esse ponto. Com o eu dizia, seguim os de trem até a cidade de Tuxpan, onde em barcam os num vaso de guerra a vapor que deveria participar da patrulha do Golfo, im pedindo o cargueiro de se aproxim ar do território albionense, ou m esm o dos Estados Unidos. Bem , não dem orou m esm o para que encontrássem os nosso “indivíduo zero”. Três dias depois de zarparm os da costa, encontram os o navio.
Retesei o corpo em m inha cadeira, curioso quando ao desfecho daquilo.
– O rapaz estava a bordo? Havia outros doentes?
Chaney suspirou e seu olhar m ergulhou no fundo do copo de rum , com o se fossem as águas do Golfo do México que retornavam para assom brá-lo.
– O barco estava à deriva. Pelas lunetas, não parecia haver nenhum a alm a viva a bordo. Provavelm ente estava rum ando para o norte quando a praga acom eteu a tripulação. Sir Danvers aproxim ou-se de m im , que era o oficial m ais graduado entre os soldados naquele navio. Ao seu lado, um distinto m édico inglês que eu nunca tinha visto, cham ado Fulton Trask. Esse nom e é fam iliar?
Balancei a cabeça negativam ente.
– Estou seguro de j am ais ter ouvido esse nom e.
– Sir Danvers queria que eu destacasse um hom em para acom panhar Trask e seu aj udante ao navio. Obviam ente usaríam os roupas especiais para nos proteger da contam inação.
– A j ulgar pelo com portam ento anterior dos aztecas, seria m ais fácil torpedear o cargueiro à distância e m andar o “indivíduo zero” e seus contatos para as profundezas do Golfo.
– Foi o que pensei na ocasião. No entanto, não costum o questionar ordens. Julguei que eu m esm o deveria ir, ao invés de subm eter algum dos m eus hom ens ao risco. Fom os os três enfiados dentro de nossas “roupas especiais”, que nada m ais eram do que escafandros de m ergulho adaptados; o m acacão de borracha im perm eável sem costuras term inava em sapatos cuj a sola de chum bo foi retirada, para facilitar a deam bulação. As m angas term inavam em luvas flexíveis, que não im pediam os m ovim entos das m ãos. O enorm e capacete de ferro com um a viseira redonda na parte dianteira, coberta por um vidro com o um a escotilha de barco, era conectado por um a m angueira de borracha no topo, por onde se bom beava o ar em seu interior. Era absurdam ente pesado, principalm ente fora do am biente aquático para o qual fora desenhado, m as deveria proporcionar o isolam ento adequado para evitar nossa contam inação. Seguim os em um escaler até j unto do casco do cargueiro. Dois m arinheiros rem avam , um terceiro controlava a bom ba que havia sido adaptada na popa para nos abastecer de ar, e outros dois fixaram um a escada de corda m uito grossa na am urada do convés usando arpéus. A tensão e o m edo em seus rostos eram evidentes. Assim que eu, o doutor Trask e seu aj udante subim os a bordo, afastaram o escaler até a distância m áxim a perm itida pelas m angueiras que nos forneciam o oxigênio. O espetáculo, j á no convés, era aterrador. Vários cadáveres j aziam caídos por todos os lados, em avançado estado de decom posição. Era im possível, m esm o para um especialista com o Trask, determ inar há quanto tem po tinham ocorrido aquelas m ortes a partir do estado dos corpos, pois um a das características m arcantes da praga escarlate era a rápida decom posição após a m orte, em ritm o notavelm ente acelerado em relação ao que seria considerado norm al. No final da proa, na ponta onde se encontravam os dois flancos da am urada, com o se estivesse acuado no ponto m ais distante ao qual pudera chegar, encontram os nosso “indivíduo zero”. Encolhido, acuado com o um anim al. E vivo. Não parecia exibir, nos espaços expostos de seu corpo pelas roupas esfarrapadas, nenhum sinal da praga. Chegando m ais perto, percebi que não devia ter m uito m ais de vinte anos. O rapaz trem ia incontrolavelm ente e, quando nos aproxim am os, ergueu as duas m ãos, que seguravam um a pistola, em nossa direção. Fiz um gesto para Trask e interrom pem os nosso avanço. O cenário indicava que, em bora aparentem ente saudável, o rapaz era seguram ente um portador do germ e responsável pela praga escarlate. Provavelm ente essa fosse a situação de um indivíduo em m eio a algum as centenas, m as nem por isso parecia ser considerada sorte. Caso disparasse aquela arm a, m esm o que não nos atingisse m ortalm ente, certam ente seria capaz de furar nossas vestes protetoras, o que seria o m esm o que decretar nossa m orte. Ouvi um a voz abafada, que reverberava com o se a pessoa que gritava estivesse dentro de um sino. Era a voz de Trask, falando em nahuatl: “Não tenha m edo. O governo desenvolveu um soro contra a doença. Estam os aqui para encontrar sobreviventes e adm inistrar o tratam ento. Precisam os colher um pouco do seu sangue para verificar se reage bem ao soro,e então poderem os levá-lo de volta para a segurança da terra firm e.” Olhei para ele, surpreso. Eu não sabia nada sobre nenhum soro. Entretanto, reconhecia que um a am ostra de sangue de um indivíduo im une ao germ e da praga poderia aj udar a desenvolvê-lo. “Baixe a arm a”, dizia Trask, “e deixe-nos colher um a pequena quantidade de sangue. Não querem os lhe fazer m al”. Ainda relutante, visivelm ente desconfiado, o j ovem baixou os braços, ainda olhando alternadam ente para m im e para o m édico com olhos aterrorizados. Chegam os m ais perto e vi quando o m édico, com m ovim entos lentos e anunciados, sacou de um dos bolsos do m acacão um pequeno estoj o escuro. Era feito de chum bo e dentro dele havia duas am polas de vidro lacradas e um a seringa. O rapaz suava m uito e trem ia, quando Trask gentilm ente ergueu seu braço direito e am arrou o garrote, procurando um a veia. A pistola, que eu não perdia de vista, ficou caída ao seu lado, no piso do convés. O doutor encheu as duas seringas com o precioso líquido cor de rubi e lacrou cuidadosam ente a caixa de chum bo. O que houve a seguir foi m uito rápido. Trask ergueu-se de um a vez, a despeito do peso do capacete sobre seus om bros, e em sua m ão reluziu o brilho do sol sobre o cano da pistola que há pouco estivera nas m ãos do j ovem azteca. Desarm ado o garoto, Trask fez um sinal para seu aj udante, cuj o nom e estou tentando inutilm ente lem brar, desde que iniciei este relato. Era um hom em sinistro, m al-encarado, não parecia ser m édico ou m esm o aj udante de um , com o nos havia sido apresentado. O hom em havia ficado um pouco para trás quando eu e o doutor nos aproxim am os do j ovem azteca, m as ao sinal de Trask ele avançou sem pestanej ar e apanhou a arm a nas m ãos do doutor, que se afastou dois passos. O tiro único e certeiro abriu um furo redondo entre os olhos do garoto, cuj o corpo escorreu sem vida em direção a nossos pés. Enquanto eu o encarava, paralisado pelo choque, Trask apenas lançou um olhar em m inha direção e disse: “Missão cum prida. Vam os.”
– O aj udante assassinou friam ente um garoto indefeso? – retruquei, com horror.
– Tam bém foi m inha prim eira im pressão. Mas olhando a coisa de um ponto de vista m ais prático, Einfeld, aquele garoto era um potencial assassino, ainda que involuntário, de m ilhares de inocentes, talvez m ilhões. Não, não havia nenhum soro ou nenhum a cura. A m issão de Trask, para a qual servi de escolta, era a de colher am ostras daquele sangue, que poderia servir, de fato, para que se tentasse obter o tratam ento. Com efeito, cham am os o escaler para nos recolher e, quando estávam os de volta em segurança ao nosso barco, Sir Danvers deu ordens para que o cargueiro fosse torpedeado. Rapidam ente foi descansar no fundo do Golfo, levando consigo os corpos da infeliz tripulação e de nosso “indivíduo zero”.
– Que história terrível, Capitão! E qual foi o destino das am ostras de sangue contam inado?
– A princípio eu não soube. Sir Danvers agradeceu m uito pela nossa aj uda, elogiou sobej am ente nossa atuação e nos prom eteu grandes recom pensas. De fato, graças a sua recom endação, fui prom ovido e consegui m inha alm ej ada transferência para Londres, antes de m e alistar para a Cam panha da Índia, obviam ente. Mas não disse nenhum a palavra sobre o destino das am ostras e nenhum de nós voltou a ver o estoj o de chum bo... pelo m enos por algum tem po.
– O senhor está insinuando que viu a caixa de chum bo novam ente...
– Por um a incrível coincidência. Cerca de duas sem anas depois da terrível m issão no Golfo do México eu chegava a Londres de m udança e j á na prim eira noite escolhi um bom restaurante para com em orar m eu retorno à Inglaterra. Eu j antava com dois am igos ingleses quando divisei, do outro lado do salão, um a m esa ocupada por um grupo que continha um a figura fam iliar. O hom em que m e cham ou a atenção era m eu benfeitor, Sir Danvers Carew. Em sua com panhia, dois cavalheiros bem distintos. Cheguei a m e levantar para cum prim entá-lo, m as quando j á estava a m eio cam inho Sir Danvers retirou do paletó, sem que m e visse, um obj eto retangular escuro. Sim , era o m esm o estoj o que vi nas m ãos de Trask. Carew o colocou sobre a m esa delicadam ente e o em purrou na direção de um dos cavalheiros, que o escondeu no próprio bolso com todo cuidado. Dei m eia volta e retornei a m inha m esa, sem que Carew houvesse sequer percebido m inha presença.
– O senhor não conhecia os dois hom ens...
– Não até aquele m om ento. Cerca de um m ês depois, quando fui adm itido no Reform Club, vi um deles neste m esm o salão, não o que recolheu a caixa de chum bo, m as o outro. Era seu am igo, o bom doutor Henry Jeky ll.
– Jeky ll! – Eu não sabia o que pensar. Mas um a suspeita m e assaltou, e perguntei:
– O terceiro hom em no restaurante, capitão, com o ele era?
– Bem ... – disse Chaney, virando o resto de sua dose de rum e franzindo a testa, procurando se lem brar – Com o eu disse, parecia ser bem distinto. Média estatura, rosto averm elhado, com os cabelos em branquecidos, a despeito de aparentar um a idade insuficiente para tanto. Enquanto os observei, pareceu-m e um a pessoa alegre e de gestos um pouco im petuosos. Lam ento não poder lhe dizer m ais sobre isso.
Não havia necessidade. Para m im as peças se encaixavam perfeitam ente. A descrição servia com o um a luva para definir o doutor Hastie Lany on, m édico atuante em Cavendish Square, am igo inseparável de Jeky ll e do próprio Utterson desde os tem pos de colégio.
Naquele m om ento aproxim ou-se da m esa o solícito John Withm ore, secretário do Ministro Phileas Fogg. Após nos cum prim entar com um sorriso e um aceno de cabeça, dirigiu-se a Chaney :
– Perdoe-m e a interrupção, Capitão Chaney, m as o Ministro Fogg pediu-m e para inform ar a todos que a partida de uíste deverá com eçar em dezessete m inutos, na sala contígua.
– Agradeço, Withm ore. Estarei lá pontualm ente.
Chaney observou enquanto o secretário se afastava. Depois sua expressão facial voltou a endurecer e ele se dirigiu a m im , um a vez m ais em tom de confidência:
– Um a inform ação de últim a hora, Cabo Enfield: há cerca de um a sem ana recebi notícias perturbadoras de Nova Albion. Am igos que participaram com igo daquela m issão no Golfo reportam que o doutor Fulton Trask faleceu, vítim a de um m isterioso incêndio em seu laboratório de pesquisas nos Estados Unidos. Entretanto, rum ores que se espalham à boca pequena sugerem que o hom em j á estava m orto antes do incêndio consum ir o prédio.
– O senhor fala de assassinato?
– Ou talvez não. Talvez apenas um procedim ento de segurança para elim inar m ais um corpo contam inado pelo germ e da praga escarlate. Não acredito que, depois de todo aquele trabalho, Trask abdicaria da oportunidade de pesquisar m elhor aquela am ostra de sangue. Mas isso, claro, é apenas m ais um a especulação a que m e atrevo graças à am izade que nos une.
– Um a últim a pergunta, Capitão, se m e perm ite o abuso: diante de tudo que viu, de tudo que sabe... qual pode ser, em sua opinião, o interesse das forças por trás de Sir Danvers na coleta da am ostra de sangue? Seria algo hum anitário, com o a busca de um a vacina? Ou o senhor suspeita de um plano para uso m ilitar da praga escarlate?
Antes de responder Chaney lançou m ais um olhar grave para o fundo do salão, onde Fogg e seu seleto grupo com eçavam a deslocar-se em direção à sala de j ogos.
– Eu queria m uito acreditar na prim eira opção, Enfield. Porém , voltei a m e encontrar com Sir Danvers na Índia, onde ele apareceu um dia para recrutar especificam ente o Sargento Montgom ery, por razões que desconheço, para outra de suas m issões ultrassecretas, dessa vez em algum a rem ota ilha da costa africana. Danvers procurou-m e em particular para certificar-se sobre as referências que, de algum a form a, j á trazia a respeito do sargento. Queria um hom em leal, com conhecim entos de biologia e que tivesse resistência para um severo trabalho de vigilância. Naquele então espalharam -se rum ores de que Danvers chefiava, sob a insígnia do Ministério das Relações Internacionais, um a divisão secreta destinada a ações ligadas à pesquisa de novas arm as com fins m ilitares. Por isso recom endo-lhe m uito cuidado, m eu am igo. Se um a daquelas duas am polas de sangue adentrou o território da Inglaterra, não apenas seu am igo Jeky ll pode estar se expondo a um terrível perigo, m as esse perigo estende suas asas negras sobre as cabeças de todos nós.
– Guerra biológica... Pelos deuses, isso é inconcebível!
Chaney j á fazia m enção de se afastar, m as hesitou e retornou por um instante.
– Escute bem o que lhe diz este soldado de vários fronts, cabo Enfield: por m ais paradoxal que pareça, a guerra é um a das experiências m ais dem ocráticas que podem se abater sobre a espécie hum ana, sej a ela aberta e franca, com o ocorre no alto m ar e nas fronteiras, sej a ela cínica e hipócrita, com o ocorre entre nossos gabinetes secretos e seus correspondentes nos corredores institucionais franceses. Dem ocrática, sim , pois dá a visão m ais brutal, m ais eloquente e aguda da desgraça hum ana, tanto ao cam ponês m iserável com o o “indivíduo zero” do Golfo do México, quanto a um cientista em érito com o aquele pobre diabo ali adiante – disse, fazendo um gesto de cabeça na direção do hom em da m esa em frente, que acabava de derrubar a garrafa de uísque, derram ando o resto de seu conteúdo sobre a toalha de linho. – A guerra cria a necessidade, que faz evoluírem em ritm o alucinante as teorias filosóficas e sociológicas, a tecnologia de transportes, de com unicações, os avanços da engenharia e da m edicina, tudo isso im pulsionado por um a das necessidades m ais básicas do hom em : a sobrevivência. Assim é que os vaidosos filósofos, cientistas e intelectuais curvam suas cabeças sob o j ugo do selvagem que existe dentro de cada ser hum ano, rugindo furioso à espera de um a oportunidade para em ergir e subj ugar seu sem elhante. As atrocidades se repetem dia após dia, com tal frequência que o ser hum ano se acostum a com sua presença fam iliar e, para sua tragédia, deixa de sentir a indignação que exige a suposta nobreza original de sua alm a. Vê aqueles distintos senhores ali adiante? – falou, fazendo um gesto sutil com a cabeça em direção ao grupo de Fogg. – Dois deles são proprietários de grandes fundições em Londres, cuj os negócios sofreram um duro golpe no recente episódio de “dum ping” prom ovido por aquele célebre industrial prussiano. Faz poucos dias os ouvi discutindo, e o m ais estarrecedor era que falavam a sério, sobre com o seria benéfica para suas atividades com erciais a deflagração de um a guerra total contra a França.
– Eles certam ente nunca estiveram no front com o nós, Capitão. Não sabem do que estão falando...
– Por certo que não. No entanto, m eu caro, por m ais aviltantes que possam ser tais ideias aos ouvidos dos hom ens de bom senso, aqueles que as estão sugerindo são os seres que têm , em suas m ãos, o poder para colocá-las em prática. Hom ens se convertem facilm ente em m onstros, Enfield, e cam inham sobre a linha fina que tem , de um lado, o progresso das civilizações, e do outro, a própria destruição. Por isso volto a lhe dizer, com o oficial superior de outras batalhas e com o am igo: tenha m uito cuidado! A guerra transform a as pessoas. Não deixe que elas te surpreendam .
Chaney parou de falar para recuperar o fôlego. Sua fisionom ia voltou a suavizar-se e ele disse, com um sorriso sincero:
– Agora, se m e dá licença... Não é um a boa ideia deixar o Ministro Phileas Fogg esperando além da conta.
Observei enquanto ele se afastava em direção à sala se j ogos, sem olhar para trás. Fiz um sinal para que Utterson, que m e encarava do bar transbordando de curiosidade, seguisse-m e até um a das sacadas que circundavam o salão principal do clube. Longe de ouvidos curiosos, repeti toda a história relatada por Jack Chaney, e ele escutou atentam ente, esboçando vez por outra um franzir de sobrancelhas ou um leve aceno de concordância. Ao final, falou em tom pensativo:
– Tudo isso faz m uito sentido. Hastie Lany on é um dos m ais entusiasm ados seguidores de Edward Jenner, que há quase cem anos inventou a vacina contra a varíola. Estudos envolvendo doenças infecciosas estão entre os seus prediletos. Quanto a Jeky ll, sem pre foi um pesquisador dos m ais entusiasm ados, disposto a avançar além de todas as barreiras do conhecim ento m édico. Eu conheço m uito bem aqueles dois patetas e posso lhe afirm ar que não seria difícil ver a curiosidade suplantar seu bom senso e sua prudência. Não seria a prim eira vez, em bora os anos da im petuosa j uventude j á cavalguem bem longe de nossos cam pos.
– Essa história fortalece m inha im pressão de que o bizarro Edward Hy de estej a agindo sob o com ando dos franceses. Se a m anipulação desse sangue contam inado por parte de nossos com patriotas pode representar um risco excessivo, a hipótese de que essa am ostra caia nas m ãos dos franceses seria um a calam idade inconcebível. Tem os que advertir Jeky ll e Lany on.
– É verdade, m as com cautela. Alarm ar o inim igo agora poderia ser m uito perigoso. Sugiro que falem os prim eiro com Lany on, que parece encontrar-se m ais afastado do círculo de ação de Hy de. Podem os fazê-lo logo pela m anhã.
Foi o que fizem os. Chegam os bem cedo à casa de Lany on, m as fom os inform ados por um criado de que o perdem os por pouco. Ele havia saído cerca de m eia hora antes para seu laboratório de pesquisa, anexo ao consultório em Cavendish Square. Assim sendo, rum am os diretam ente para lá.
A antessala estava deserta, possivelm ente por ser ainda m uito cedo, j á que Lany on contava com um a clientela vasta e regular. Um a porta secundária conduzia ao interior do consultório, e outra, em frente à prim eira, ao laboratório. Mal havíam os olhado em volta, decidindo em qual bater, ouvim os um estrondo por trás da porta do laboratório. Era com o se um a estante inteira houvesse desabado, quebrando diversos recipientes de vidro. Utterson e eu saltam os j untos e abrim os a porta com violência, cham ando em voz alta por nosso am igo.
O cenário com que nos deparam os era aterrador. Duas das estantes m aiores, que abrigavam diversos vidros grandes com todo tipo de m edicam entos e substâncias quím icas, estavam tom badas, e os cacos m isturavam -se por todo o piso com líquidos de diversas cores, form ando obras de arte bizarras e involuntárias. Havia várias folhas de papel boiando naquela m istura quím ica em m ovim ento e, por trás da escrivaninha, podíam os avistar um par de pernas parcialm ente cobertas por um longo avental branco, cuj o usuário certam ente, em bora não pudéssem os vê-lo acim a dos j oelhos, encontrava-se deitado no chão. Ao fundo, por trás daquela confusão, um vulto escuro destacava-se de costas para nós, revirando freneticam ente as gavetas de m adeira do am plo m óvel que Lany on m antinha ali para arm azenar ordenadam ente suas m isturas e infusões. Mas assim que irrom pem os dentro do laboratório o invasor voltou-se com rapidez, e sua face angulosa e doentia era inconfundível.
– Hy de! – gritei, o terror e a raiva m isturados na voz – Pare onde está!
A criatura encolheu-se com o um anim al selvagem e exibiu os dentes escuros e irregulares, enquanto franzia o nariz em um a careta m edonha, em itindo um silvo que m e fez pensar em um grande réptil acuado.
Utterson viu as pernas no chão por trás da escrivaninha e gritou o nom e de Lany on. Avançou dois passos em sua direção, m as estacou ao perceber que avançava igualm ente na direção de Hy de. Este interpretou o m ovim ento com o um ataque. Retirou um a das gavetas do encaixe e atirou-a pelos ares em nossa direção, dem onstrando um a força insuspeita para alguém tão franzino. Utterson e eu saltam os um para cada lado e a gaveta passou voando pela porta, indo espatifar-se na antessala. Hy de saltou de lado, passando por trás da estante caída e indo parar por trás da grande m esa repleta de pipetas e outros instrum entos, onde Lany on realizava suas experiências. Corri para o m esm o lado, tentando cercar seu avanço, enquanto Utterson corria diretam ente para o corpo caído de Lany on, aproveitando o cam inho livre.
Hy de tinha diante de si um arsenal generoso para usar contra nós e vi que havia percebido isso quando as peças de vidro e de m etal com eçaram a voar em m inha direção. Eu m e esquivava com o podia, defendendo o rosto com um braço e procurando às cegas, com a outra m ão, algum obj eto com que pudesse contra-atacar. Eu ouvia os grunhidos e rosnados ininteligíveis de m eu adversário e um arrepio percorreu-m e a espinha diante de tanta ferocidade, que sequer parecia hum ana.
Do outro lado do laboratório, ouvi o grito assustado de Utterson:
– Enfield! Socorro, depressa!
Hesitei por um instante, m as m eu bom senso m e fez recuar em socorro do m eu prim o, sem , entretanto, perder Hy de de vista, encolhido com o estava nas som bras. Contornando a escrivaninha, com preendi a aflição de m eu com panheiro. Um j ato pulsátil de sangue j orrava da garganta de Lany on, que nos fitava com olhos inj etados e a face m uito pálida. Utterson sacara um lenço do bolso e tentava inutilm ente conter a hem orragia.
– Calm a, Lany on – tentava ele acalm ar o ferido, com a voz trêm ula. – Estam os aqui, vam os aj udá-lo...
Os lábios pálidos de Lany on se m exeram , tentando dizer algo. Na segunda tentativa, sua voz soou rouca e m uito baixa:
– Jeky ll... Por favor, Jeky ll...
Em seguida sua cabeça pendeu de lado, enquanto sua consciência se esvaía. Com o o hom em agonizante atraía integralm ente nossa atenção, perdi de vista por um m om ento seu algoz, o que m e custou caro. Antes que m e levantasse, senti um a pancada por trás da cabeça que m e fez cair sobre o corpo de Lany on, a visão escurecida e um a dor aguda descendo pelas m inhas costas. Ouvi vagam ente um grito am eaçador, que parecia ter vindo de Utterson. Foi a últim a percepção que tive antes de perder os sentidos.
Não sei quanto tem po se passou até que eu despertasse, com a cabeça latej ando e dores no pescoço. Quando m inha visão recobrou o foco, vi diante de m im a fisionom ia consternada de Utterson e um hom em desconhecido, ostentando um volum oso bigode castanho e um a expressão grave no rosto. Usava um terno de corte sim ples, m as de boa qualidade, e um chapéu de abas curtas. O aspecto geral não m e deixava dúvidas: Scotland Yard.
– Sej a bem -vindo de volta, Mister Enfield, espero que estej a bem . Sou o Inspetor Newcom en, responsável pela investigação da m orte de Sir Danvers Carew e agora deste novo hom icídio – disse ele, ao m esm o tem po confirm ando m inha suspeita e um de m eus m aiores tem ores.
Olhei de relance para Utterson, que confirm ou com um olhar m inha pergunta silenciosa. O Doutor Lany on não havia sobrevivido ao violento ataque. A presença de Newcom en tam bém tornava um fato evidente: a polícia j á fazia a correlação entre os dois crim es; j á estavam à caça de Edward Hy de.
– Apesar das dores creio que poderia estar bem pior, inspetor. Obrigado pelo interesse.
– Desculpe não esperarm os por seu com pleto restabelecim ento, m as o tem po se esvai entre nossos dedos. Dois hom ens dignos j á m orreram nas m ãos de um selvagem e precisam os evitar que essa insanidade prossiga.
– De pleno acordo – falei, sentando-m e com um gem ido no leito im provisado em um sofá do próprio laboratório, onde três policiais uniform izados vasculhavam os escom bros com o perdigueiros, colhendo pistas e im pressões digitais.
– Pois bem , Mister Enfield, que tal com eçar nos dizendo o que aconteceu aqui?
Relatei m inuciosam ente tudo que se passou desde que irrom pem os dentro do laboratório de Lany on. Utterson confirm ava cada frase com um aceno de cabeça. Eu estava reproduzindo fielm ente o que ele j á contara a Newcom en enquanto eu estivera inconsciente. O inspetor pareceu satisfeito com m eu depoim ento e então indagou:
– E que razões trariam os dois cavalheiros à casa do doutor Lany on tão cedo pela m anhã?
Dei outra rápida olhada em direção a Utterson, que agora tinha o olhar perdido em algum lugar distante. Pelo que eu conhecia de m eu prim o, duvidava que ele houvesse dito à polícia algum a coisa que pudesse com prom eter Jeky ll, pelo m enos antes que pudesse estar com ele pessoalm ente.
– Com o j á deve saber, Inspetor, Lany on e m eu prim o Utterson são velhos am igos do tem po dos bancos escolares. Não creio que sej a necessária algum a razão extraordinária para um a visita, m esm o em horários pouco ortodoxos.
– O senhor tem razão nisso – rebateu ele, alisando o bigode. – Por outro lado, fui inform ado de que os senhores foram as prim eiras pessoas a chegarem ao local do crim e após o assassinato de Sir Danvers. Do alto de m inha vasta experiência considero, digam os, absurdam ente pouco ortodoxo que sej am as prim eiras testem unhas de dois assassinatos consecutivos, ainda m ais que a descrição do hom em que foi visto fugindo do local do crim e é a m esm a nos dois casos. Não fosse esse sim ples detalhe, senhores, asseguro-lhes de que estariam no topo de m inha lista de suspeitos. Por outro lado, as evidências m e indicam que os senhores sabem m ais do que estão m e dizendo até agora, o que lhes advirto que pode ser um a posição perigosa.
Ele tinha toda razão. Diante dos rum os tom ados pelos acontecim entos, crescia em m im o tem or de que nossa vacilação custasse outras vidas, e o pior, tudo indicava que a próxim a vítim a seria m esm o Jeky ll. O nom e dele havia figurado duas vezes nas últim as palavras proferidas por Lany on no m om ento de sua m orte. Um hom em , eu supunha, daria a essas últim as palavras o m aior valor entre todas as proferidas ao longo de sua vida, por isso as de Lany on haviam soado, perante m eu j ulgam ento, com o um pedido de socorro. Ele tentava, em seu suspiro final, salvar a vida de um am igo. Teríam os o direito de atrasarm os esse socorro? Olhei para m eu prim o com expressão de súplica e ele com preendeu. Suspirou com os olhos cerrados e finalm ente falou, deixando as palavras fluírem com o um desabafo:
– Ao inferno com tudo isso! Sim , Inspetor, nós conhecem os a identidade do assassino. Tem o que talvez sej am os, inclusive, capazes de indicar seu provável esconderij o.
Nos m inutos seguintes Utterson relatou com detalhes ao inspetor os acontecim entos que nos levaram a identificar Hy de com o o crim inoso, falou de sua m isteriosa ligação com Jeky ll, m as evitou m encionar nossas suspeitas de que o patife estivesse agindo a serviço dos franceses, tentando apreender m aterial biológico de altíssim o poder letal. Tudo indicava que não havia encontrado a am pola de sangue no laboratório de Lany on, o que fazia de Jeky ll seu provável alvo na próxim a investida.
Newcom en decidiu que deveria visitar Jeky ll im ediatam ente e solicitou que o acom panhássem os, com o testem unhas dos crim es anteriores. Quatro policiais nos escoltaram , sendo que dois deles ficaram postados na entrada principal da residência e os outros dois na soturna porta dos fundos, que levava diretam ente ao prédio que abrigava o laboratório quím ico e o de anatom ia, onde Jeky ll realizava seus experim entos.
O am ável m ordom o nos recebeu, dessa vez, com olhos aflitos e um a voz da qual transbordavam um a enorm e preocupação e urgência:
– Mister Utterson! Mister Enfield! Graças ao bom Deus!
– Poole, este é o Inspetor Newcom en, da Scotland Yard. Tem os m otivos para acreditar que a vida de Jeky ll estej a em grande perigo. Mas, antes de tudo, diga-nos o m otivo de tanta aflição...
– Bem , é possível que tenha algum a relação com o que o senhor acaba de m e relatar. O doutor Jeky ll trancou-se no laboratório de quím ica ontem à noite, quando o deixei pela últim a vez. Hoj e pela m anhã fui levar-lhe o desj ej um , m as ele se recusa a abrir a porta. O pior é que está falando de m odo m uito estranho, usando palavras grosseiras para ordenar que eu m e afaste e que ninguém m ais o incom ode. Ouvi barulhos m uito estranhos saindo lá de dentro, senhores. Tem o que algo estej a m uito errado.
– Diga-m e, Poole – adiantou-se Newcom en -, por acaso Edward Hy de se encontra nesta propriedade?
– Não o vej o j á faz alguns dias, Inspetor – respondeu o m ordom o, dando de om bros. – Mas é difícil afirm ar com certeza, j á que ele usualm ente transita pela porta dos fundos, que leva dos laboratórios à rua de trás.
– Perm ita-nos tentar conversar prim eiro com Jeky ll, Inspetor – pediu Utterson. – Acredito que nossa presença inspirará confiança suficiente para que ele abra a porta.
– Vão em frente, Mister Utterson. Enquanto isso, se m e perm item , eu e um de m eus hom ens vam os fazer um a vistoria na casa, em busca de pistas deixadas pelo nosso hom em .
Newcom en cham ou um dos guardas que se postavam na entrada principal e com eçou a ditar instruções. Utterson e eu seguim os Poole pelos tortuosos corredores até os fundos da propriedade. Atravessam os a passarela gradeada que conduzia ao anfiteatro, onde se realizavam necropsias e outros procedim entos relacionados à anatom ia. Subim os um lance de escadas em curva e atravessam os o gabinete, que term inava na porta do laboratório de quím ica. Poole colocou um dedo indicador diante dos lábios e fez sinal para que nos aproxim ássem os da porta, para escutarm os o que acontecia em seu interior. Com o burburinho de Londres ao fundo, vindo da rua de trás, ouvim os o som incessante e irrequieto de passos, que o tem po todo cruzavam o laboratório denotando certa urgência.
– Fica sem pre assim ? – indagou Utterson, sussurrando.
– A m aior parte do tem po – acedeu Poole. – Em certo m om ento o ouvi chorando.
– Chorando? Com o assim ? – indaguei, horrorizado.
– Chorando com o um a m ulher ou com o um a alm a penada. Carreguei aquele som em m eu coração e quase chorei tam bém .
Utterson olhou ao redor e apontou para um m achado, usado no corte da lenha para a lareira ou para o fogão. Poole o apanhou na parede do fundo e o deixou sobre a m esa próxim a, para ser usado na invasão em caso de necessidade. Utterson bateu na porta de m aneira forte e decidida. Sua voz soou com autoridade:
– Jeky ll! Eu exij o vê-lo. Tem os graves suspeitas e advirto que irei vê-lo de qualquer m aneira. Estou avisando: se não for por bem , será por m al. Abra a porta im ediatam ente.
– Utterson! – soou a voz abafada, lá de dentro. – Pelo am or de Deus, tenha piedade!
– Foi m eu últim o aviso, Jeky ll! Se não tiver seu consentim ento, entrarei usando a força bruta!
– Vá em bora, Utterson! – agora Jeky ll encontrava-se bem próxim o, logo atrás da porta – Você está correndo grande perigo. Não faz ideia do que está acontecendo aqui! Im ploro para que parta agora e fique o m ais distante possível deste lugar, até que...
– Não há m ais tem po para negociações, Jeky ll. Se não pretende abrir a porta, para sua própria segurança, peço que se afaste dela.
Fez um sinal para Poole, que apanhou o m achado e o girou habilm ente por sobre a cabeça e o desceu contra a m adeira grossa j unto à fechadura. O choque fez trem er o edifício, as dobradiças rangeram dolorosam ente. O m achado subiu novam ente e o próxim o golpe provocou um estalo e o desprendim ento de um grande pedaço de m adeira. Foi só no quinto golpe que a porta finalm ente cedeu, espalhando destroços no tapete interno. Utterson em purrou a folha de m adeira arruinada e entrou no laboratório, seguido por m im . Vim os o doutor Jeky ll encolhido no fundo do aposento, o rosto contraído em pálido terror. As m ãos, encolhidas j unto ao peito, seguravam algum a coisa que não podíam os ver dali.
– Jeky ll...
– Não! Vão em bora, eu im ploro! Afastem -se, antes que sej a tarde!
Enquanto ele falava, m oveu as m ãos nervosam ente. Pude ver um brilho verm elho-rubi cintilar em um tubo cilíndrico entre seus dedos. O sangue correu gelado em m inhas veias. Dei dois passos à frente e disse:
– Antes de qualquer coisa, responda: você sabe onde está Hy de?
Foi aí que, para m im , o m undo com eçou a girar m ais lentam ente. Pelo m enos é a im pressão que tenho, quando m e lem bro de tudo. O olhar que Jeky ll exibiu diante da pergunta de Utterson m e atingiu com o um punhal. Prim eiro, havia surpresa. Era com o se ele não esperasse ouvir aquilo naquele m om ento. Em seguida, seus olhos refletiram com preensão. Ele se lem brou de que havia algo que nós não sabíam os e era algo que ocupava tanto espaço em sua vida e em sua m ente que, para ele, j á parecia algo corriqueiro. Ao m esm o tem po seus olhos brilharam de tristeza, transbordando toda a infelicidade represada dentro de sua alm a. No final, sua expressão era de resignação. A resignação de um hom em condenado. Ao m esm o tem po em que Jeky ll lançava esse olhar fúnebre para algum ponto atrás de m im e de Utterson, o m undo enlouqueceu. Um a pancada entre nós dois, vinda pelas costas, atirou a m im e a m eu prim o, violentam ente, um para cada lado. Bati com um om bro na parede, rente ao chão. Utterson desabou contra um a estante e um a chuva de livros o soterrou por um m om ento. Ao m esm o tem po, olhando para o alto, ainda tonto, vi o vulto negro m ovendo-se a grande velocidade. Seu grito era o de um anim al enfurecido e, em sua m ão, um bastão longo, que ele agitava sobre a cabeça, term inava em um brilho m etálico que se m ovia em círculos. Jeky ll gritou em pânico e saltou para um lado, bem a tem po de escapar do m achado que Edward Hy de baixou com fúria sanguinária, estilhaçando um a cadeira. Hy de recuperou-se com velocidade espantosa e brandiu o m achado em um arco horizontal ao nível do peito. Jeky ll, m ostrando bons reflexos, abaixou-se e rolou um a vez pelo piso, evitando o novo golpe. Agora Utterson j á se colocava sobre os j oelhos e com eçava a se levantar. Ele gritou algo para cham ar a atenção do agressor e teve sucesso. Hy de olhou para ele, em itindo um silvo reptiliano, e chutou a m esa com grande força. Ela trepidou e enrugou o tapete, m as m oveu-se o suficiente para com prim ir Utterson contra a estante atrás de si. Enquanto isso eu m e levantei e em purrei m eu corpo para frente, apoiando os pés no canto entre o piso e a parede, proj etando-m e sobre o pequeno, m as poderoso corpo de Hy de. Fui recebido pelo cabo do m achado contra m eu queixo, fazendo-m e curvar para trás com um a dor aguda e desabar no chão. Ao m eu lado passou o doutor Jeky ll, tentando escapar ao logo da parede em direção à porta arrom bada. A cena que se desenrolou diante dos m eus olhos foi um a das m ais terríveis que, ainda hoj e, assom bram a m em ória de um soldado habituado ao front de batalha: m eio tonto, sentindo o gosto salgado de m eu próprio sangue, vi quando Hy de ergueu o m achado por sobre a própria cabeça e, com um grito de guerra, o arrem essou em direção ao m édico. A lâm ina penetrou nas costas de Jeky ll com um baque surdo, bem entre as om oplatas, e um esguicho de sangue coloriu o papel de parede floral. O pobre hom em gem eu, tentando encontrar o fôlego, e ainda apoiado contra a parede lateral do laboratório conseguiu pronunciar, com dificuldade, o nom e de Utterson, que finalm ente conseguira desvencilhar-se de sua prisão. Enquanto caía, j á perdendo os sentidos, vi quando Jeky ll arrem essou no ar a am pola de vidro cheia do líquido rubro. Porém , certam ente devido à situação em que se encontrava, o arrem esso não encontrou a direção desej ada. O recipiente de vidro girou no espaço e ia passar cerca de um m etro além do alcance de Utterson. Para piorar, m eu prim o, com o terror estam pado na face, tentou lançar-se no ar para interceptar o proj étil, m as escorregou em um a rugosidade do tapete e perdeu im pulso, não alcançando a distância necessária. Vi quando estatelou-se no chão, e de onde m e encontrava percebi que a am pola ia se espatifar a poços centím etros além do alcance de seu braço. Quando parecia ser o fim de tudo, a presença de espírito de Utterson um a vez m ais m e surpreendeu, o que não era frequente, adm ito, m as não podia ter acontecido em m om ento m ais adequado. Num m ovim ento rápido, ele arrancou a cartola da cabeça e esticou-a para frente com toda força. A am pola m ortal em queda livre m ergulhou em cheio no interior da cartola, com o um a rede de apanhar borboletas colhendo seu espécim e m ais valioso.