Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

Flávio Medeiros Jr. · Capítulo 4 de 8 · parte 3/3

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Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

Homens e monstros

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Não tive tem po para expressar m eu alívio, pois o vulto de Hy de passou sobre m im rosnando. Ergui a m ão e o segurei pela ponta da capa, contendo seu avanço em direção a Utterson. Furioso, ele se voltou para m im e contem plei diretam ente, com o um a ave de rapina descendo das alturas, seus olhos faiscando de ódio e seu nariz longo e pontudo, enrugado num a m áscara terrível. Dos cantos de sua boca escorria um a baba espum osa. Fiquei paralisado quando o facínora ergueu o m achado novam ente, dessa vez m irando diretam ente m inha cabeça.

Ele não chegou a baixar os braços no golpe fatal. Dois estam pidos quase sim ultâneos soaram na direção da porta e o corpo de Hy de retesou-se em dois espasm os rápidos, desabando em seguida para trás, seguindo a traj etória determ inada pelo peso do m achado. Virei o rosto e vi, sob o batente, o inspetor Newcom en e um de seus hom ens com o duas estátuas gêm eas, os braços ainda erguidos para frente e segurando as pistolas de canos fum egantes.

Enquanto eu tentava colocar-m e de pé, vi Utterson depositando cuidadosam ente sua cartola sobre a m esa e depois correndo na direção de Jeky ll. Virou cuidadosam ente o corpo, que se encontrava de bruços, e vi quando duas lágrim as escorreram de seus olhos.

– Está m orto – disse ele, com voz em bargada.

Newcom en e seu agente encontravam -se de pé em torno do corpo caído de Hy de, os olhares graves, m as as arm as guardadas. Pela sua vasta experiência, sabiam que era o fim do m onstro. Ele, entretanto, ainda respirava, m esm o que com grande dificuldade. Os dentes arreganhados, fitava intensam ente o teto, e voltou os olhos inj etados para nós quando eu e Utterson nos aproxim am os com cautela.

– Bom trabalho, Mister Utterson – soou sua voz rascante.

– Não agradeça, Hy de – retrucou Newcom en com desprezo, acreditando erroneam ente que o m onstro se referia à epopeia que culm inara em sua derrota. – É um prazer para todos nós livrar o m undo civilizado de um a fera bestial com o o senhor.

– Mundo civilizado – repetiu Hy de, em tom zom beteiro e irrom peu num a risada que m e fez recuar com asco. Um espasm o de dor interrom peu seu riso e ele ofegou algum as vezes antes de falar, olhando fixam ente para Utterson:

– Mundo civilizado... Ética científica... Sistem as efêm eros, Mister Utterson, que se esvaem com o espum a.

Em seguida, seu corpo enrij eceu novam ente e ele irrom peu em um a tosse convulsiva, expelindo seu próprio sangue em gorgolej os agonizantes. Aquelas foram as últim as palavras de Edward Hy de, que m orreu ali, caído ao lado do corpo de Henry Jeky ll, sua últim a vítim a.

O que aconteceu então foi realm ente espantoso, fazendo com que todas as testem unhas, atônitas, recuassem um passo. Após a m orte, o corpo de Hy de com eçou a se transform ar. Inicialm ente parecia estar inchando, m as depois ficou evidente que estava crescendo, ganhando volum e e arredondando form as. O próprio rosto se encheu, na m edida em que as faces ganhavam substância e o cabelo dim inuía, enquanto a calva tom ava toda a parte anterior do crânio. Fui o prim eiro a reconhecer a pessoa que em ergia da surpreendente transform ação e não pude conter um a exclam ação sufocada:

– Meu Deus, é Poole, o m ordom o.

– Senhor, que bruxaria é essa? – gem eu o policial que acom panhava Newcom en, segurando o chapéu com as duas m ãos e contraindo os dedos nervosos.

– Não é bruxaria, policial, é ciência. Não que sej a m enos terrível... – disse Utterson, os olhos ainda m arej ados.

Depois daquilo, os agentes da Yard encarregaram -se da cena do crim e. Utterson apanhou, com discrição e m uito cuidado, a cartola que continha a am pola com o agente da praga escarlate. Retirou tam bém , quando ninguém m ais além de m im observava, um caderno grosso de um a gaveta na escrivaninha de Jeky ll. De posse daqueles obj etos, nos retiram os daquele cenário trágico.

Utterson falou m uito pouco no cam inho de volta para casa. Chegando lá, conduziu-m e diretam ente ao porão, onde acendeu a caldeira que providenciava o aquecim ento central. Enquanto o fogo crescia, sentam o-nos ao redor da m esa e acendem os um lam pião, para que exam inássem os o caderno de Jeky ll, que nada m ais era que o m ais recente volum e de seu diário pessoal. Utterson passou as páginas com ar soturno e com eçou a ler alguns trechos de anotações dos últim os dias. Assim com o o fogo clareava paulatinam ente o porão, a leitura com eçou a clarear efetivam ente nosso entendim ento sobre toda – ou quase toda – a tram a.

Fiquei surpreso ao ouvir longas dissertações de Jeky ll sobre as duas naturezas hum anas: a instintiva, rasteira e m esquinha, voltada para o próprio um bigo e a superior, altruísta e am pla, que busca todo o tem po o bem m aior. Era um a teoria sem elhante à que Utterson discutira com igo havia pouco tem po, na noite da m orte de Sir Danvers. Tudo indicava que, longe da m inha presença, ele tam bém se entretinha trocando sem elhantes devaneios filosóficos com Jeky ll. Mas havia um a diferença, que m e levava a crer que a sem ente daquele discurso viera originalm ente do m édico: ele escrevia sobre o assunto com m uito m ais paixão, evocando diversas teorias científicas, pseudocientíficas e até esotéricas para ilustrar o assunto. Em dado m om ento ele se atrevia a especular se, sendo as duas naturezas tão distintas, não seria possível separá-las fisicam ente, da m esm a form a com o um anatom ista é capaz de dissecar e isolar os diferentes órgãos físicos com diferentes características e funções. Ele chegava a m encionar um determ inado sal especial, cuj o nom e não m encionava por questão de segurança, originário do Oriente e que, m isturado em um a fórm ula que Jeky ll j á vinha desenvolvendo em suas extrapolações alquím icas, acreditava que talvez fosse efetivo para tão ousado obj etivo.

Em outra anotação, ficava clara a irritação de Jeky ll por não conseguir obter, nos m ercados de Londres, o m encionado sal com a pureza necessária para seu experim ento. Culpa, dizia ele, dos em bargos e outras dificuldades im postas pela ebulição política no cam inho entre o Oriente e a Grã-Bretanha, frutos do m ilenar conflito entre os im périos Britânico e Francês.

Mais adiante, o hum or e a vibração de Jeky ll alcançam o extrem o oposto. Ele afirm a que o doutor Lany on, em um recente encontro, propôs que am bos se associassem em um proj eto sigiloso patrocinado pelo governo. Lany on afirm ava que, caso Jeky ll aderisse ao proj eto, teria abertos os canais para obter quaisquer substâncias, por m ais difíceis que fossem de encontrar, graças aos contatos que fariam com os fornecedores m ais rem otos, através de nada m enos que a estrutura de im portação do Ministério das Relações Internacionais. Isso, obviam ente, sem m encionar a polpuda com pensação financeira.

Utterson lançou-m e um olhar significativo e avançou as páginas, detendo-se em um a anotação feita logo depois do encontro entre Sir Danvers, Lany on e Jeky ll, testem unhado por Jack Chaney. Naquele dia o narrador parecia lutar para conter a própria ansiedade, m as fazia um evidente esforço para m anter-se racional. Sir Danvers propusera à dupla, Jeky ll e Lany on, chefiar um a das duas frentes de pesquisa a respeito de um a nova doença, de evolução clínica rápida e letal, que tivera seu prim eiro e desastroso foco em algum recanto do Outro Mundo. Queria que os dois cientistas isolassem o agente infeccioso, supostam ente para que se desenvolvesse um a vacina que protegesse os súditos do Im pério Britânico de um a possível epidem ia m undial. Jeky ll não era ingênuo e sabia que um a pesquisa dessa índole, patrocinada pelo gabinete de Carew, certam ente poderia resultar no desenvolvim ento de um a arm a bacteriológica. No entanto, seu entusiasm o irrefreável o obrigava a deixar a responsabilidade sobre essa hipótese no om bro de Sir Danvers. Argum entava que seu papel era desvendar os m istérios e ilum inar o assunto do ponto de vista científico. O uso que seria feito daquilo, à revelia de seu conhecim ento e participação, seria responsabilidade de outros. Na m esm a reunião, Carew concordara em providenciar a busca e im portação do m isterioso sal especial do Oriente para o proj eto pessoal de Jeky ll. O m édico havia convencido o a princípio relutante Cavaleiro argum entando que, caso obtivesse êxito em sua pesquisa, o Im pério poderia contar, em potencial, com soldados m ais eficientes em com bate: hom ens m ais fortes, m ais agressivos e adaptados para a atividade da guerra. A condição im posta por Sir Danvers foi de que a pesquisa sobre a doença contagiosa tivesse toda prioridade, que Jeky ll m antivesse essa investigação sem pre em prim eira linha, m antendo-se focado até que obtivesse resultados, para depois, então, poder dedicar-se integralm ente ao seu proj eto pessoal.

Passaram -se algum as anotações, onde a ansiedade de Jeky ll crescia visivelm ente. Em dado m om ento, um estágio do estudo levou a am ostra para o laboratório de Lany on. Sem ter nada de m ais im ediato para fazer, Jeky ll sentiu-se tentado a dar início a seu proj eto, um a vez que o sal especial j á se encontrava em seu poder. Entretanto tem ia que, ao usar a fórm ula em si m esm o, prej udicasse a clareza de sua razão científica, tais eram os potenciais efeitos sobre o físico e sobre a psique. Assim sendo, Jeky ll fez o im pensável: m isturou a beberagem na com ida de seu m ordom o Poole, sem que o pobre serviçal soubesse. Os efeitos foram quase im ediatos; o pobre hom em caiu em terríveis e dolorosas convulsões, sofreu assustadoras m udanças físicas diante dos olhos atônitos do cientista, e pela prim eira vez surgiu neste m undo a figura hedionda de Edward Hy de. O m onstro foi m antido em um a j aula, que Jeky ll m antinha nos fundos do laboratório a fim de conter anim ais para pesquisa, até que o efeito passasse e Poole retornasse ao estado original. Obviam ente o m ordom o m ostrou-se indignado e profundam ente ressentido com o ato do patrão a quem servia diligentem ente havia tantos anos, m as Jeky ll procurou acalm á-lo, m ostrando que o efeito da fórm ula revertera sem sequelas, com o ele, aliás, antecipava. Jurou que j am ais faria aquilo, se por um m om ento suspeitasse estar colocando a vida ou a saúde de Poole em risco. Fez, então, um a proposta ao m ordom o: que ele prosseguisse com o cobaia para o experim ento da fórm ula e, um a vez que Jeky ll não possuía herdeiros naturais, faria de Poole herdeiro universal de seus bens após sua m orte. Em bora receoso e relutante, afirm ava que o hom em acabou concordando. As doses da fórm ula foram aj ustadas e intensificadas. Hy de ganhou aos poucos a confiança do m édico, a ponto deste perm itir que ele circulasse pelas ruas de Londres, na m aioria das vezes à noite e em locais com pouco m ovim ento de transeuntes. Jeky ll relatava, nas anotações do diário, seu entusiasm o crescente com os efeitos da pesquisa.

Seu tom m udava m ais adiante e, pela prim eira vez desde o início, m eu prim o e eu éram os m encionados. Utterson leu, preocupado, um trecho onde Jeky ll m encionava sua profunda perturbação com um efeito adverso de sua experiência: “Algo im previsto e inquietante aconteceu: m eu bom am igo Utterson procurou-m e hoj e e surpreendeu-m e com preocupações a respeito de m eu testam ento, onde deixo todos os m eus bens em herança ao alter ego de Poole. Diante de m inha resistência a m odificar o docum ento, fez-m e um a revelação chocante: Sir Danvers acaba de ser assassinado e Utterson suspeita que o assassino sej a Hy de, que ele viu entrando em m inha casa logo depois do crim e! Ao ouvir isso faltou-m e o chão sob os pés, por um m otivo m uito sim ples: nos últim os dias não subm eti Poole à fórm ula. Isso só pode significar que a droga está se integrando de m aneira inesperada ao m etabolism o de m eu paciente; a transform ação em Hy de está acontecendo de form a espontânea! A questão é: será que Poole tem controle sobre ela, ou tem sido algo inesperado m esm o para ele? Precisam os conversar. Caso Poole estej a se transform ando espontaneam ente, o assassinato de Sir Danvers pode ter sido algo deliberado. Tem o em pensar que isso possa ter algo a ver com m inha associação com ele e Lany on na pesquisa sobre a praga escarlate, em bora não consiga atinar para as razões disso. Preciso ter m uito cuidado.”

– A m orte de Lany on confirm a essa suspeita e a do próprio Jeky ll, ao final de tudo. Mas o que teria levado Hy de a essa sequência de crim es? – indaguei.

– Vej am os se descobrim os algum indício – respondeu Utterson em voz baixa, voltando a folhear o diário.

Pouco à frente, Jeky ll encontrava-se profundam ente assustado. Lany on o havia procurado em casa e m ostrava-se m uito preocupado. Desconfiava de que, nas som bras da noite, alguém rondava sua casa. Tem ia que aquilo tivesse relação com a pesquisa da praga escarlate, e tem ia que a am pola de sangue caísse em m ãos erradas. A notícia da m orte de Sir Danvers havia sido a gota d’água. Lany on trouxe a am pola para Jeky ll, cuj a residência contava com m elhores condições de segurança, e propunha que aquela transferência ficasse em absoluto segredo. Após a saída de Lany on, Jeky ll convocara Poole a sua presença e o interrogara a respeito dos supostos atos de Hy de à m argem de seu conhecim ento. Mais um a vez Jeky ll assistiu, m ais apavorado que nunca, a transform ação de seu serviçal em Edward Hy de. O m onstro o segurou pela garganta e o am eaçou. Ele não sabia com o, m as Hy de estava ciente da pesquisa secreta do grupo envolvendo a doença m ortal e exigia que parassem com as experiências. Confirm ou que havia elim inado Sir Danvers Carew, o m entor do que considerava um a “aberração da pesquisa científica”, e afirm ou que iria às últim as consequências para deter Jeky ll e Lany on. Deu-lhe um ultim ato para que entregasse a am pola de sangue e retirou-se com um a gargalhada selvagem . Jeky ll entrou em pânico. Juntou algum as provisões às pressas e trancou-se no laboratório. Quando Poole batia à porta, cham ando-o para fora, Jeky ll o am eaçava, afirm ando estar arm ado e disposto a reagir a qualquer tentativa de invasão. “Que Deus m e perdoe – term inava ele a anotação – m as desta vez fui longe dem ais. Eu criei um m onstro.”

– Então Poole nos usou para invadir o laboratório. Ele não tinha certeza se Jeky ll estava m esm o arm ado e, ao não encontrar a am pola no laboratório de Lany on, deduziu que ali seria o verdadeiro esconderij o da am ostra.

– E assim que entram os, voltou a se transform ar em Hy de e atacou.

– Meu Deus... O tem po todo o culpado era o m ordom o.

– Não creio, Enfield. Para m im o pobre Poole foi m ais um a vítim a da irracionalidade daquele grupo de hom ens, com tanto conhecim ento e tão pouco bom senso. Um a m istura perigosa e explosiva, se m e perm ite dizer.

– Mas um a questão perm anece nebulosa: quais os m otivos de Hy de ao insurgir-se contra a pesquisa? Estava sozinho, ou alguém agia por trás dele?

– Os franceses, você quer dizer? – Utterson exibiu um sorriso triste. – Não, dessa vez creio que não. O que posso argum entar, em relação a isso, é que Hy de era a personificação do lado prim itivo, selvagem , de Poole. Lem bre-se, a natureza inferior é voltada essencialm ente para a própria subsistência. A am bição, com o parece ter sido o caso de nossos pobres cientistas, é um incentivo poderoso que leva a ações tem erárias, m as existe um estím ulo que é esm agadoram ente superior a ela: a autopreservação. Enquanto Jeky ll e seu grupo usavam argum entos racionais, seguindo um a lógica tortuosa para j ustificar os riscos do que estavam realizando, a alm a de Hy de era, em essência, o m ais puro instinto de sobrevivência. Ele pressentia, de algum a form a, que a m anipulação daquele sangue, se saísse de controle, poderia representar a extinção da vida hum ana nestas ilhas, quiçá no m undo inteiro. E um a fera, ao sentir-se am eaçada, não hesitaria em com eter os atos que Hy de perpetrou.

– Faz sentido, Utterson, m as ainda não atinam os com um a resposta: quem teria contado a Poole a respeito da experiência secreta do grupo e de seu perigo potencial?

– Isso eu tem o que j am ais saibam os – disse ele, suspirando e fechando o diário. – As anotações term inam aqui.

Utterson ergueu-se solenem ente e apanhou, com todo cuidado, a am pola dentro da cartola. Cam inhou até a caldeira, cuj o calor e brilho dourado agora tom avam todo o am biente e atirou o vidro com precisão no m eio das furiosas cham as. Houve um breve estalo, e nada m ais. A seguir, m eu prim o atirou nas cham as o livro que continha o diário de Jeky ll, levantando um a nuvem de fagulhas que se desvaneceu em instantes.

– Por que fez isso, Utterson? Por que destruir o diário?

– A honradez e a busca do bem pontuaram a m aior parte da vida de Jeky ll e Lany on. Que a perda dessas vidas sej a o preço m áxim o para os últim os e tem erários atos que com eteram . Deixem os que essas páginas tristes se apaguem dessa história definitivam ente.

– De acordo – assenti solenem ente. – Essa história se encerra aqui.

Despedi-m e de Utterson em clim a de grande tristeza, m as ao m esm o tem po de alívio. Retornei para casa refletindo sobre quantos m onstros ainda se escondem por baixo de ternos bem desenhados e sorrisos benevolentes, na agitada Londres e em todo o m undo. Aquilo, eu tinha certeza, ainda m e traria m uitos pesadelos.

* * *

Utterson esperou que anoitecesse. Ainda havia algo a ser feito para colocar um ponto final naquela história trágica. O tílburi deixou-o à margem do Tâmisa e ele caminhou a pé os últimos metros até o ponto de encontro. À sua esquerda destacava-se a silhueta magnífica da recém-inaugurada Tower Bridge, nessa noite abençoada por uma rara e magnífica lua cheia. Sozinho, ouvindo a suave e ritmada batida das águas contra as pedras do cais, recordou o momento em que tudo aquilo começou.

No primeiro momento julgou que se tratava de um assalto. Estava saindo do Reform Club naquela noite, quando dois homens corpulentos o cercaram dos dois lados, vindos de trás. Um deles enfiou um saco de pano negro em sua cabeça, e seguraram seus braços firmemente. Ele tentou protestar, mas um minuto depois estava sendo enfiado à força em uma carruagem que parou subitamente diante do grupo. A carruagem arrancou com um solavanco e Utterson, atordoado, sentiu que estava sentado em um dos bancos de madeira, esmagado entre os dois brutamontes.

– Fique calmo, Mister Utterson, e tudo terminará bem – disse uma voz que vinha do banco em frente. Atônito, Utterson reconheceu na mesma um forte sotaque francês. Fez as únicas perguntas que lhe ocorriam:

– Quem são vocês? O que querem de mim?

– Creio que o senhor já desconfia de quem somos, n’est-ce pas? E estamos aqui para pedir sua ajuda.

– Lamento profundamente, Monsieur. Não sou um traidor.

– Ah, mas nós sabemos disso, Mister Utterson. E sabemos também que é um homem sensato e que ama o seu país. Por isso acreditamos que será sensível a nossas demandas.

– Ah, então são franceses que querem o bem do povo britânico! Parece que, além de tudo o mais, também me tomam por idiota.

– Talvez mude essa impressão e compreenda, depois que me ouvir.

Utterson deu uma sacudida nos braços e as mãos dos dois brutamontes fecharam-se em torno deles como duas prensas.

– Parece que não tenho escolha.

– Pois vamos diretamente ao assunto: o senhor provavelmente não ouviu falar, por tratar-se de um segredo de Estado, mas uma amostra de sangue contaminado chegou recentemente a Londres...

– Sangue contaminado? De quem?

– Oh, de algum pobre diabo qualquer, que certamente jaz em alguma cova rasa no México. O importante não é quem, mas o quê. O sangue traz o germe responsável por uma doença terrível e fatal, chamada popularmente de “praga escarlate”.

– Nunca ouvi falar.

– Poucos ouviram. A doença dizimou algumas cidadezinhas aztecas e aparentemente foi contida. Mas duas amostras de sangue contaminado foram resgatadas pelo seu governo. Uma delas ficou no Outro Mundo, aos cuidados de um médico chamado Trask. A outra foi trazida para Londres por Sir Danvers Carew, que presta serviços muito interessantes ao seu governo.

Utterson ignorou a insinuação sobre Carew, embora para os frequentadores do Reform Club o suposto papel de Carew como agente secreto do governo fosse mais que um simples boato.

– E esse sangue é tão perigoso assim?

– Uma vez contaminado, o indivíduo tem, a rigor, menos de 24 horas de vida. A paralisia dos músculos é acompanhada por um exantema cutâneo e atinge rapidamente os músculos respiratórios e o coração. Uma morte rápida, mas terrível. E não existe cura conhecida.

– Pelos deuses...

– Horrível, não é? Bem, imagine se essa praga escarlate se disseminasse aqui, na Inglaterra. Imagine se o agente contaminante escapasse da amostra que veio para Londres. Afinal, como já deve ter deduzido, o objetivo dessa pesquisa não é outro senão a fabricação de uma arma biológica.

– E vocês sabem onde está essa amostra?

– Mais perto do que o senhor supõe. A amostra foi entregue a dois médicos amigos seus: Henry Jekyll e Hastie Lanyon.

– Isso não pode ser verdade! Eles jamais se envolveriam em algo assim! – Utterson gritou, fazendo menção de levantar-se. Outro puxão dos brutamontes o fez lembrar-se de suas limitações momentâneas.

– O senhor os conhece há anos, Mister Utterson, muitos anos! – falou o francês, em tom irritado – Acredita mesmo nisso?

O inglês permaneceu mudo, as palavras entaladas em sua garganta. Lembrava-se dos excessos e das loucuras juvenis de Jekyll e Lanyon, que não eram muito diferentes das dele mesmo. Conhecia também a irrefreável curiosidade científica dos dois amigos. A questão era: será que, como ele, a dupla haveria mesmo amadurecido o suficiente?

– É claro que eles não aceitaram isso à toa. Pode crer que as promessas de compensação de seu governo foram mais do que proporcionais aos riscos pessoais.

– Ainda que os riscos sejam grandes, confio na responsabilidade e no senso ético de meus amigos. Desculpe, mas não acredito que tenham se envolvido em algo desse gênero sem se assegurarem de todas as garantias e normas de segurança.

– “Responsabilidade”, o senhor diz – o tom do francês era irônico. – Bem, talvez seja o caso de eu lhe dar um exemplo da “responsabilidade” com que agem seus amigos. Tem a ver com uma das compensações oferecidas ao doutor Jekyll...

Utterson ouviu pela primeira vez, naquele momento, a inacreditável história do projeto pessoal de Jekyll, da aquisição de componentes químicos especiais vindos do Oriente, e o mais aterrador e inacreditável, de como transformara deliberadamente seu mordomo Poole em sua cobaia, sem a consulta e a concordância do mesmo.

– Você não pode estar dizendo a verdade. Eu não acredito...

– É fácil provar, Mister Utterson. Basta que o senhor monte guarda na saída dos fundos da propriedade de Jekyll nas horas da noite. Não será difícil ver a hedionda criatura que ele está gerando em seu laboratório saindo para as ruas, e garanto-lhe que isso não reflete a menor preocupação do bondoso doutor Jekyll com a segurança do amável povo inglês!

– Supondo que seja verdade, o que esperam que eu faça?

– Queremos a ampola com o sangue. A amostra que ficou na América está, infelizmente, além do nosso alcance. Não queremos que seu governo desenvolva uma vacina que proteja os britânicos da praga e sinta-se à vontade para lançar a doença em solo francês.

– Não acredito que fariam uma coisa dessas.

– Nada de hipocrisia, Mister Utterson. Sabemos que o senhor nada tem de ingênuo. A paz que persiste durante essa chamada “Guerra Fria” tem se mantido assim graças ao razoável equilíbrio de forças entre nossos países. Mesmo assim as perdas colaterais são grandes, vitimando pessoas inocentes. Creio que o senhor sabe bem ao que me refiro.

Utterson trincou os dentes. O francês sabia sobre a morte de seu pai no afundamento do “Príncipe de Gales”. Estava tentando usar isso para comovê-lo, e o que mais odiava era o fato de que não estava conseguindo ficar imune àquelas palavras.

– Se conseguirmos obter uma das ampolas o equilíbrio estará restaurado. Como o senhor é o amigo mais próximo de Jekyll e Lanyon, acreditamos que seja capaz de obtê-la para nós.

– Eu não sou um profissional como vocês...

– Sabemos disso, eis porque está acima de qualquer suspeita. E é inteligente o suficiente para chegar ao objetivo sem levantar desconfianças. Advogados são criaturas ardilosas. Só o advirto de que o tempo é curto. Lanyon e Jekyll estão trabalhando e, se constatarmos que terão êxito antes que o senhor os impeça, bem... Compreenda que teremos de ser menos sutis, e que isso pode não ser bom para o senhor, como não será certamente para eles.

Utterson hesitou. Seria capaz de enfrentar a morte antes de causar o mal a sua pátria e a seus entes queridos. Por outro lado, as acusações contra seus amigos eram terríveis, embora estivessem sendo formuladas por um francês, inimigo do Império Britânico. Sua única certeza era a de que precisava saber mais.

– Preciso verificar melhor o que está dizendo.

– Compreendo perfeitamente. Apenas lembre-se de que estamos lhe dando a oportunidade de resolver isso com o menor dano possível a seus amigos e, talvez, a seu próprio povo. Não espere demais para dar sua resposta.

– Está bem. E como farei contato?

Naquele momento, Utterson sentiu que a carruagem deteve sua marcha. Ouviu novamente a voz do francês à sua frente:

– Chegamos a um local nas docas. Duas ruas adiante não será difícil encontrar um tílburi que o leve até sua casa. Na varanda, o senhor encontrará uma gaiola com uma ave. É um pombo-correio, treinado para retornar a nossos agentes assim que for libertado. Quando se decidir basta soltar a ave e no mesmo dia venha ter comigo aqui neste exato local, à meia-noite. Compreendeu?

– Perfeitamente.

– Tenha uma boa noite, Mister Utterson. E, por favor, tome a decisão correta.

Da mesma forma bruta como havia sido colocado para dentro da carruagem, os dois homens o jogaram para fora. Utterson rolou no chão molhado e, quando conseguiu ver-se livre do capuz negro, a carruagem já ia longe, dobrando uma esquina na escuridão do cais.

Caminhou a pé por um grande trajeto antes de tomar um tílburi. Tentava digerir o que lhe havia sido dito e não viu diante de si outra escolha além de investigar por si mesmo. Lembrava-se de conversas antigas com Jekyll, em que o médico defendia com fervor a teoria de que o ser humano era composto de uma natureza nobre e outra espúria, que o inclinavam ora para o bem, ora para o mal. Isso combinava com a ideia de que o maldito tolo estudasse uma maneira de testar aquela teoria em seu laboratório. Na varanda de sua casa, Utterson encontrou uma gaiola com um pombo dentro.

Na noite seguinte o advogado montou guarda junto à porta dos fundos da propriedade de Jekyll e foi com decepção e terror que viu, pela primeira vez, a figura deformada de Hyde. Chegou a abordar o estranho homem, e a péssima primeira impressão que teve dele apenas se intensificou. Não se parecia nada com o bom e amável Poole, era uma criatura diferente, uma... coisa! No dia seguinte, ainda sem saber o que fazer, uma coincidência serviu como gota d’água: Jekyll o procurou para registrar seu testamento, onde deixava todos os seus bens para certo Edward Hyde.

Decidido a terminar com aquele absurdo, Utterson começou a elaborar seu plano. Precisava ser cauteloso ao extremo e não se sentia capaz de cumprir a tarefa sozinho. Lembrou-se de que seu primo Enfield, ex-soldado, era grande amigo e admirador de certo Jack Chaney, que servira com ele na Índia. Lembrava-se de que Enfield o apresentara a ele no julgamento de Charlie Lawton, um soldado que se transformara em assassino frio e calculista. No momento em que cumprimentou Chaney, Utterson o reconheceu como o homem que vira alguns minutos antes, ainda durante o julgamento, sentado ao lado de Sir Danvers Carew, em íntima conversa com ele. Talvez fosse a melhor maneira de, sem levantar suspeitas, atualizar Enfield quanto à situação e fazer com que ele o ajudasse, sem colocá-lo em perigo por saber demais. O primeiro passo seria apresentar Enfield à existência de Hyde. Em seguida, confrontando Jekyll pessoalmente com o conhecimento de Enfield, poderia contar ao primo uma mentira decisiva: que o médico confessara a ele que a existência de Hyde era parte de um projeto secreto do governo, destinado a criar uma espécie de supersoldados. O coordenador do projeto seria Sir Danvers. Utterson conhecia muito bem o primo e sabia que esse nome o levaria a se lembrar imediatamente de Chaney. Sendo albionense, Chaney provavelmente saberia algo sobre a ligação entre Sir Danvers e a pesquisa sobre a praga escarlate. Mesmo que não soubesse, talvez confirmasse para o soldado a relação entre Carew e Jekyll. Em último caso, apenas deixaria em Enfield uma forte sensação de que havia mesmo uma terrível conspiração em andamento. Isso era tudo de que Utterson precisava para forçar uma invasão da dupla no laboratório de Jekyll, onde poderia encontrar a terrível ampola de sangue. Não sabia se era um bom plano, mas era o melhor que conseguia conceber em tempo tão escasso.

No domingo seguinte, em sua caminhada habitual com o primo, Utterson introduziu a conversa sobre as duas naturezas do homem, enquanto direcionava a caminhada sutilmente na direção da rua que passava atrás da casa de Jekyll. Seu plano caminhava com a precisão de um relógio, quando um fato inesperado virou tudo do avesso: o assassinato de Sir Danvers por Hyde. Aquilo exasperou o advogado, que se viu na necessidade de acelerar as coisas. Naquela mesma noite conduziu Enfield a sua casa e revelou-lhe o conteúdo do testamento de Jekyll. Combinaram a visita ao médico na manhã seguinte. Deixando Enfield com Poole, que para uma pessoa desavisada nada parecia ter a ver com toda aquela trama, Utterson confrontou inutilmente Jekyll a respeito de Hyde. Frustrado com o silêncio impenetrável do amigo, de quem esperara maior confiança, decidiu prosseguir com seu plano e recorrer a Jack Chaney, que tentariam encontrar no Reform Club na noite seguinte.

Naquele mesmo dia, entretanto, Utterson libertou o pombo-correio deixado pelos franceses em sua porta. À meia-noite em ponto esperou pela carruagem do misterioso francês junto ao cais, à beira do Tâmisa. Quando o veículo parou perto dele, um dos brutamontes da outra noite desceu e cobriu sua cabeça com o capuz negro, que impedia toda visão. Dessa vez a entrada na carruagem foi mais suave, por ter sido voluntária.

– Fico feliz que tenha se decidido rapidamente, Mister Utterson – disse logo o francês, sem perder tempo com cumprimentos.

– Hyde assassinou Sir Danvers. O que você sabe a respeito disso? – respondeu, com fúria na voz. Sentiu que a mão do gorila ao seu lado aumentava a força do aperto.

– Compreenda que não estamos brincando. Da mesma forma que recrutamos o senhor para uma missão, nossos líderes optaram por abrir outra frente de ação, contando com um possível fracasso ou discordância de sua parte.

– Você se comprometeu a me dar um tempo...

– Para se decidir sobre sua própria participação no caso. A ação de Hyde nada tem a ver com isso. Procuramos o pobre Mister Poole e lhe oferecemos uma cura para o mal que seu traiçoeiro patrão lhe causou. Obviamente lhe explicamos as potenciais atrocidades em que Jekyll, Lanyon e Carew estão envolvidos. Nós o convencemos, como fizemos com o senhor, de que aqueles supostos cientistas têm tanta consideração com a vida humana como tiveram para com ele. O homem sentiu os efeitos disso na carne, Mister Utterson, entenda que convencê-lo foi muito mais fácil.

– Você ordenou a morte de Sir Danvers!

– Não exatamente. Tudo que ele tinha de fazer era parar a pesquisa com o sangue contaminado e, se possível, obter a ampola para nós. A forma como faria isso... bem, deixamos a cargo de Poole, ou melhor dizendo, de Mister Hyde.

– Vocês, bastardos comedores de rãs, não são melhores que aqueles homens!

– Nem piores, meu caro. Daí resulta o equilíbrio que impede que nossos países destruam um ao outro, compreende? Bem, veja pelo lado bom: você ainda tem tempo para salvar seus amigos. A ampola tem que estar com Lanyon ou com Jekyll. Creio que nem Hyde ainda sabe sua localização. Seja rápido, e me comprometo a conter a fúria vingativa do mordomo, que a propósito foi armada por seu próprio patrão, não pelos odiados franceses.

– Uma última coisa a esse respeito: vocês podem mesmo impedir de forma definitiva as transformações de Poole? Podem curá-lo, como prometeram?

O francês riu brevemente.

– Isso é informação privilegiada, Mister Utterson. Lamento que o senhor ainda não esteja credenciado junto a nosso gabinete para ter esse tipo de conhecimento. Tenha uma boa noite e um bom trabalho.

Como da vez anterior Utterson foi atirado para fora da carruagem, que partiu em alta velocidade. Ao chegar à sua casa, uma nova gaiola com um pombo o esperava diante da porta.

A etapa seguinte do plano correu maravilhosamente bem. Provavelmente a morte de Sir Danvers contribuiu para melhorar sensivelmente a disposição de Jack Chaney para falar, e assim ele deu a Enfield todas as informações de que precisava para introduzir o ex-comandado de corpo e alma na cruzada secreta de Utterson, sem levantar a menor suspeita de que este há muito tempo já sabia do que ocorria nos bastidores do complô. Mas Chaney, inadvertidamente, acrescentara uma informação valiosa de que Utterson não dispunha: Trask, o médico da América que participava da pesquisa, estava morto. Possivelmente vítima de um acidente ao manipular sangue contaminado pela praga, o que reforçava o perigo de que o francês o advertira. Porém, o mais importante era que, ao que tudo indicava, só restava uma ampola de sangue disponível para fabricação de armas biológicas. Colocá-la nas mãos dos franceses não consistia mais em um ato para reequilibrar forças, mas simplesmente em um ato de traição que daria poder ao inimigo contra a Inglaterra. Utterson renovou sua disposição em obter a posse daquela amostra, mas com outros fins. Para tanto, propôs a Enfield que visitassem Lanyon logo pela manhã do dia seguinte. Intimamente Utterson nutria a esperança, pelo que conhecia do amigo, de que ele fosse mais sensível que Jekyll aos apelos da razão e aos argumentos que tinha a oferecer. Infelizmente Hyde adiantou-se a eles, e não conseguiram chegar a tempo de salvar a vida do pobre médico.

Quando Newcomen entrou em cena, Utterson sentiu a pressão aumentar em torno de si. Não era militar, nem era um espião treinado. Esconder coisas da Scotland Yard o deixava, como é bem compreensível, muito nervoso. Apesar disso, enquanto Enfield se recobrava da luta contra Hyde, deu ao inspetor a menor quantidade de informações necessárias para não levantar suspeitas. Porém, quando Enfield finalmente foi interrogado por Newcomen, Utterson sentiu que o problema estava saindo de controle. Decidiu mandar tudo às favas e trabalhar em conjunto com a polícia para tentar salvar a vida de Jekyll, já que pelo pobre Lanyon ele nada mais poderia fazer.

Na casa de Jekyll, com o apoio da Scotland Yard, Utterson sentiu-se mais seguro para tentar conversar diretamente com Jekyll. A coisa chegara a um ponto em que ele duvidava que o amigo resistisse à pressão. Chegando à mansão, rapidamente constatou que Poole já rondava o laboratório do patrão como um tubarão faminto. Mas se ele, Enfield e a polícia conseguissem chegar a Jekyll antes de Hyde, poderiam protegê-lo. Ele não sabia, porém, que Poole não necessitava mais ingerir a fórmula para se transformar em Hyde. Por isso acabaram sendo pegos de surpresa pelo mordomo transformado em monstro. No último instante, quase por milagre, Utterson foi capaz de resgatar a ampola de sangue atirada por Jekyll e escondê-la da polícia, para que pudesse concretizar seu novo objetivo: destruir aquela amostra diabólica definitivamente.

As recordações à margem das águas escuras do Tâmisa foram interrompidas pela chegada de uma carruagem negra. Era o momento de prestar as contas finais a seus associados indesejáveis. Quando a porta se abriu, o musculoso capanga colocou a carranca para fora, e com um sorriso irônico estendeu uma mão em direção a Utterson, entregando-lhe um capuz negro que o inglês prontamente colocou sobre a cabeça. Foi guiado para dentro da boleia e sentado no mesmo local de sempre. Ficou em silêncio até que o misterioso francês iniciasse o diálogo:

– As coisas andaram movimentadas, Mister Utterson. Sinceramente, lamento por seus amigos.

– Não, você não lamenta. Da mesma forma que eu não lamento a perspectiva de ficar definitivamente livre dos senhores, de uma forma ou de outra.

– Não se preocupe – riu o francês, em tom surpreso -, o senhor atuou com muita competência, apesar de tudo. Não temos nenhuma intenção, até o presente momento, de fazer-lhe nenhum mal.

– Muito bem, e ainda há algo que esperam de mim?

– A ampola, Mister Utterson. Queremos saber notícias da ampola de sangue que o senhor deveria localizar e apreender.

Utterson respirou fundo antes de responder:

– Ela não existe mais, Monsieur. Nos momentos finais, quando Jekyll viu-se encurralado por Hyde dentro do laboratório, optou por destruir a amostra ante a perspectiva de vê-la nas mãos do monstro que ele criou.

O silêncio preencheu a carruagem por alguns instantes, quando era possível ouvir o barulho suave das águas do Tâmisa contra as pedras.

– Isso é mesmo lamentável, Mister Utterson. Supondo, é claro, que o senhor esteja dizendo a verdade.

– E por que eu mentiria, se me permite? – Utterson deu de ombros – Não tenha dúvidas de que em nenhum momento agradou-me a perspectiva de ter em minhas mãos o perigo que aquela amostra representava. Devo confessar que, apesar de suas expectativas, para mim foi um verdadeiro alívio constatar que ela não mais existe, seja nas mãos do governo britânico, seja em poder da França. Temo que os senhores tenham de concentrar seus esforços para obterem a amostra que restou na América, se forem capazes.

Outra pausa, durante a qual o francês parecia ponderar sobre o que acabava de ouvir. Utterson agradeceu aos deuses por estar usando o capuz, de maneira que não precisava enfrentar seu olhar. Quando voltou a falar, o misterioso personagem parecia mais relaxado:

– Então temo que nossos negócios estejam encerrados. Apesar de tudo, agradecemos por seus esforços. E não tenha dúvidas de que, pessoalmente, lamentamos o que essa aventura lhe custou.

– É o fardo com que serei obrigado a viver daqui por diante.

– Tenha uma vida feliz, Mister Utterson. Apenas não se esqueça: a “Grande France” tem olhos por toda parte. E mãos também. Procure manter-se longe da política internacional, se puder.

– É o que pretendo, Monsieur, caso me permitam.

A porta da boleia se abriu, e dessa vez foi permitido que Utterson desembarcasse sobre as próprias pernas. Ele esperou imóvel que a carruagem se afastasse antes de remover o capuz, e encarou a bela lua no céu. Quanta miséria, quanto horror neste mundo ela era obrigada a presenciar!

Dentro da carruagem, que já ia longe, o misterioso francês perdeu inteiramente o sotaque quando agradeceu a seus dois auxiliares musculosos e, depositando o pagamento devido em suas mãos, deixou-os em algum lugar no cais do porto. Em seguida retirou do bolso do paletó uma luxuosa cigarreira de madrepérola, da qual extraiu e acendeu um cigarro. Se houvesse alguma testemunha, ela poderia perceber na tampa da cigarreira o emblema do Ministério das Relações Exteriores.

Na margem do Tâmisa, Utterson caminhava devagar ao longo dos ancoradouros. Em poucos dias, por melhores que fossem suas intenções diante das circunstâncias, havia assistido a morte de dois de seus melhores amigos, e tinha sido obrigado a mentir e manipular o terceiro deles. O fato de ter destruído a amostra de sangue contaminado e o diário que continha todas as anotações acerca do experimento que dera origem a Edward Hyde, sepultando para sempre a chance de que fosse reproduzido, não lhe servia de conforto. Sob a luz de um lampião Utterson observou a sombra que seu corpo projetava sobre as águas turvas abaixo. O movimento das pequenas ondas contra as pedras do ancoradouro provocava um efeito estranho: a sombra que Utterson projetava parecia-lhe ser a sombra de um monstro.