Humanização e educação integral: refletindo sobre rotas alternativas

Patrícia Unger Raphael Bataglia · Capítulo 11 de 20

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Humanização e educação integral: refletindo sobre rotas alternativas

9. Descrição de processos de ressignificação da educação a partir da vivência de educadores e educandos de uma escola municipal

9. Descrição de processos de

 

ressignificação da educação a

 

partir da vivência de educadores

 

e educandos de uma escola

 

municipal

 

Carla Chiari, Maria Goretti Aguiar Alencar

 

O presente artigo tem como principal objetivo discorrer sobre as atividades realizadas em uma escola na zona rural do interior de São Paulo. Nesse sentido, o documento busca destacar os processos de ressignificação educacional e capacitação da equipe pedagógica, além de mensurar os impactos causados por essa transformação estrutural. É importante destacar que a unidade escolar atende os segmentos de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, totalizando 227 alunos.

Com o fito de ressignificar o processo educacional nessa escola municipal, foi utilizada a ferramenta do clima escolar, que é caracterizado por um conjunto de percepções dos educandos sobre os aspectos que compõem a instituição e todo o processo de aprendizagem, relacionamentos sociais, segurança, justiça, participação e infraestrutura com transformações significativas no âmbito escolar. Para a avaliação do clima escolar é preciso investigar as percepções dos sujeitos inseridos nesse contexto escolar com o propósito de favorecer a ampliação do conhecimento de sua realidade e, assim, promover uma transformação.

O clima escolar é considerado como positivo, segundo Thapa et al. (2013), quando proporciona e desenvolve as aprendizagens dos alunos, envolve normas e valores que fazem os sujeitos se sentirem seguros socialmente, emocionalmente e fisicamente. Nessa direção, entendemos que o ambiente cooperativo e democrático seja o que melhor proporciona trocas de ideias, além de evidenciar relações mais solidárias e justas levando à construção do clima escolar positivo.

Ademais como propõe Bidóia (2020), a avaliação do clima escolar é de suma importância para que toda comunidade seja ouvida, e no caso específico desta pesquisa, os alunos. De acordo com os autores citados acima, podemos afirmar que a partir da identificação do que já está bom e o que precisa ser melhorado, podemos propor coletivamente propostas para o aperfeiçoamento das práticas e dar continuidade às transformações realizadas pelo processo de ressignificação (p.101).

 

Retomando o trabalho de

 

ressignificação

 

Os processos de transformação da instituição iniciaram com os professores e toda a equipe de gestores em 2018, envolvendo família e a comunidade em geral.

Os impactos foram bem significativos, tanto na formação e capacitação de todos os profissionais quanto na movimentação da comunidade que proporcionou a construção e ampliação de espaços coletivos na escola. Como exemplificação, as ações que são possíveis destacar foram a instalação de fibra ótica proporcionando pesquisa e a construção do biodigestor, bem como a ampliação de espaços físicos para aulas diversas, etc. A seguir, destacaremos as etapas desse processo.

 

Gestão de ressignificação e parcerias

 

Primeiramente, iniciou-se um grupo de estudos com a equipe escolar, com o objetivo de formação e capacitação. Para isso, ocorreu uma parceria entre os (as) pesquisadores (as) do GEPPEI - Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Moral e Educação Integral, da Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP, Campus de Marília. Nesse contexto, a parceria em pauta teve como propósito acompanhar, sistematizar e avaliar os efeitos do desenvolvimento de um Programa de Ressignificação da Educação no âmbito da formação continuada de professores e gestores, com a participação dos demais membros da comunidade escolar.

Um breve histórico do projeto

 

Em seguida, nos primeiros meses de 2018, iniciou-se a formação da equipe escolar. Ao adentrar em contato com os educadores, abordamos os seguintes questionamentos:

 

1. Qual a escola ideal? A escola ideal é aquela que tem aprendizado,

que forma, informa e não deforma, que é prazerosa, que cumpre currículo, que é humana, que tem participação da comunidade, que tem presença da família, que é comprometida, que tem respeito, que tem recursos, que tem projeto de vida, igualitária, democrática, tecnológica, que dá oportunidade para todos.

2. Quais os desafios? A organização do tempo, a procrastinação,

dedicação exclusiva, motivação/desmotivação do professor e do aluno, falta de reconhecimento, formação, burocracia, encarar a desburocratização, ter ajuda de todos, envolvimento da equipe, união dos professores, realidade entre crianças, comunidade e escola, envolver as famílias, falta de interesse e continuidade do trabalho.

 

Após esses levantamentos, observou-se que havia materiais suficientes para começar a formação e implantação do Projeto “Ressignificando a Escola”. Nesse sentido, iniciaram-se estudos sobre o desenvolvimento do Juízo Moral, da inteligência, afetividade, aprendizagem cooperativa e psicogênese do conhecimento, o que trouxe um olhar diferenciado por parte da equipe, uma vez que começamos a aplicar e comprovar a eficácia de um trabalho mais centrado na criança e mais cooperativo.

A proposta era o estudo dos teóricos e, em seguida, a busca da tradução dessas teorias junto aos educandos. Os educadores pesquisaram, Jean Piaget, Lev Vygotsky, Henri Wallon, Ovide Decroly, José Pacheco, Paulo Freire, Celso Vasconcelos, Lauro de Oliveira Lima, e Rubem Alves. Com o desenrolar das leituras, as mudanças começaram a acontecer, os educadores começaram a ler e a melhorar a sua prática.

Todos os sujeitos almejam uma sociedade organizada, respeitosa, justa e democrática, porém, para que isso aconteça, é necessário, que a Escola como instância formadora, também seja democrática, ou seja, onde suas práticas devam ser baseadas no diálogo, na participação de alunos e professores na organização das regras da Escola, na cooperação entre os estudantes, no incentivo à resolução de seus conflitos pela restauração e não pela punição, na vivência efetiva de ações de protagonismo em que o cuidado com o outro e a solidariedade sejam fomentados. Essa convivência não pode se restringir apenas à boa socialização com regulamentos já estabelecidos, mas deve ser compreendida como um processo no qual normas, relações e costumes podem e possam ser criticados, reconstruídos e, então, legitimados pelos envolvidos e, assim ser criadas novas formas de conviver, pensadas e discutidas (PUIG, 2000).

O estudo do desenvolvimento moral na criança ajudou a equipe a elencar quais seriam os valores que seriam o norte da nossa Proposta Pedagógica e que colocaríamos em pratica, ajudando equipe e alunos a perceberem e a praticarem os valores que eles mesmos haviam enumerado.

No levantamento dos valores que a equipe escolar e alunos fizeram, ficou claro que ambos não abririam mão de: Solidariedade, Honestidade, Respeito, Afetividade, Compaixão, Comprometimento, Responsabilidade e Cooperação.

 

Principais ações

 

As ações de ressignificação na Unidade Escolar se caracterizaram por um movimento de renovação, ou seja, da mudança de paradigma para uma nova Educação voltada para a democracia. Também visam a contribuir para a melhoria nos processos de gestão e atividades, abrangendo então toda a comunidade e os processos pedagógicos.

Segundo Bidóia (2020),

 

Para a realização do Programa de Ressignificação, sobretudo, os docentes e gestores, participam de discussões/estudo em grupo, rodas de conversa, oficinas e algumas formações ministradas pelos membros do GEPPEI. Tais atividades são realizadas em horários de HTPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo) e as formações costumam ter datas específicas. Todas as atividades descritas acima têm o intuito de colaborar para a construção de um ambiente propício ao desenvolvimento de metodologias próprias, para que se consigam soluções coletivas para os desafios enfrentados pela unidade escolar. No entanto, o processo de ressignificação é de grande importância

para o campo educacional brasileiro, pois nos dá esperança de uma Educação direcionada para a construção do ser como um todo, e nos mostra como é possível a inovação/renovação educacional. (BIDOIA, 2020, p. 20)

 

Após as formações, os educadores voltaram para a escola motivados, pensando em estratégias de trabalho para aplicar a aprendizagem cooperativa, jogos matemáticos, dialogando com os alunos as questões em que todos buscavam a aprendizagem. Assim, passou-se a inserir a chamada “roda de conversa” com o fito de criar um processo colaborativo de decisão juntos com a comunidade, possibilitando melhorias para todos.

No campo das “novas alternativas educacionais”, podemos citar as metodologias ativas. De acordo com Piaget (1930/1998) e Becker (2011), as metodologias ativas prezam por práticas voltadas ao ensino e aprendizagem significativa, nas quais os alunos aprendem por meio da utilização de estratégias como de aprendizagem cooperativa, trabalhos em grupos, situações problemas, dentre outras.

Existem outros fatores que influenciam a aprendizagem, como a melhora no convívio social que para Bataglia (2014), tem função importante na criação de laços afetivos nas relações humanas, levando a caminhos democráticos que possam capacitar o educando na resolução de conflitos por meio do diálogo e construindo um sujeito autônomo, que seja capaz de expressar as suas opiniões. Destacamos, ainda, como fator influente na aprendizagem, a formação continuada dos docentes e gestores. Dessa forma, com todas essas ações sendo colocadas em prática dentro do ambiente escolar, podem-se promover melhorias dentro e fora da sala de aula, além de favorecer, por conseguinte, uma melhoria no clima escolar.

Na Unidade Escolar algumas ações foram implementadas, como organizar os educandos em grupos ao invés de fileiras, e os educadores passaram a consultá-los sobre os conteúdos que gostariam de aprender. Essas ações geraram um maior interesse pela busca ativa do conhecimento, e quando os estudantes foram questionados acerca de qual formato de escola eles gostavam mais, foram categóricos em dizer que hoje está melhor.

Porém, ainda tínhamos um problema que se relacionava a como estimular a pesquisa somente com material didático, em livros, com um amplo campo informatizado lá fora, pelo qual as crianças já se encontravam familiarizadas. Para resolvermos o problema, a equipe escolar se reuniu e acordou que deveriam utilizar recursos próprios da Associação de Pais da Escola para aquisição de equipamentos, bem como a instalação e manutenção da internet de fibra ótica, melhorando ainda mais a motivação dos alunos para a realização das pesquisas escolares.

Segundo Bidóia (2020), os educadores devem estimular a realização pesquisas, por meio das quais o aluno aprende a organizar textos em tópicos, a descrever e enumerar elementos, além de registrar o que foi pesquisado, e em quais as fontes que foram usadas nessa coleta de informações. Tal atividade tem proporcionado ao educando, a capacidade de leitura, a busca por conteúdos na internet, a elaboração de perguntas, o planejamento da pesquisa, o ato de correlacionar informações e a ordenação e organização do próprio texto. Ao final da atividade, os alunos compartilham o que aprenderam e, assim, há a promoção da difusão coletiva de conhecimentos.

Como descreveu Bidóia (2020), em decorrência do processo de ressignificação, a Escola também tem trabalhado com projetos. Foram desenvolvidos projetos como: projeto reciclagem, onde os alunos puderam aprender a separação do lixo reciclável, confeccionaram objetos com material reciclável, fizeram pesquisas sobre como tais materiais podem ser reaproveitados, a importância da reciclagem para a preservação ambiental, o uso do lixo orgânico para adubar plantas, entre outros conhecimentos; também teve o projeto terrário de minhocas, o qual os estudantes puderem aprender sobre a respiração dos anelídios, solo e outros conhecimentos; o projeto horta, os alunos puderam consumir o alimentado cultivado por eles nos momentos da merenda escolar, entre outros. Todos os projetos realizados na UE pesquisada levaram em consideração os interesses dos alunos sobre o tema, conciliando assim a teoria, a prática e a realidade do contexto.

Trabalhamos com o desenvolvimento de projetos, que partem de um tema gerador, em que os estudantes nos apontam o que gostariam de aprender dentro de um determinado tema, quais seus interesses e curiosidades, mediamos na busca das respostas, na construção e sistematização do conhecimento, utilizando como recurso a tecnologia. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas (ALVES, 2008).

 

Roda de Conversa

Outra estratégia utilizada foi as “Rodas de Conversa” para resolução de conflitos. Nesses momentos as crianças sentam-se em roda, e discutem sobre os problemas, impasses, desafios que aparecem no dia a dia, dando a possibilidade de reflexões conjuntas sobre as situações escolares e de conflitos. Também houve a implantação das “assembleias de sala e escolar”, com sua formalização em termos de estrutura e periodicidade, a qual as crianças discutem os acontecimentos referentes ao cotidiano escolar, encontrando soluções, colocando necessidades, percepções e desenvolvendo questionamentos para as situações vividas. De acordo com a gestora, as regras da Escola decorrem do que é refletido e aprovado pelas Assembleias, e por serem construídas coletivamente, as regras são chamadas de combinados.

As Rodas de Conversa na Unidade Escolar, foram o grande desafio para o desenvolvimento da habilidade de escuta, criamos mecanismos com a inscrição dos que gostariam de falar sobre um determinado tema ou conflito, passamos um bastão ou outro objeto pré-determinado, e quem quisesse falar seguraria o objeto durante a fala e em seguida passaria adiante. Essa prática foi significativa pois passaram a ouvir uns aos outros.

Percebemos alguns resultados das novas estratégias implementadas, dentre eles, a diminuição dos furtos de pequenos objetos e a criação do hábito de respeitar o outro e não permitir que um colega sofresse qualquer constrangimento, o abandono do caderno de ocorrência, pois notou-se que sua função estava trazendo o efeito contrário ao esperado, uma vez que registrar algo que não estava correto só aumentava a indisciplina. E os educandos já conseguiam resolver seus conflitos, apontando caminhos para a resolução de problemas, sentimentos, praticando a solidariedade, o respeito, a empatia, discutindo e construindo planos de estratégias para as atividades, respeitando e valorizando a opinião do outro, com a utilização de frases como: “eu elogio”, “eu sugiro” e “eu critico”.

Entendemos que essas mudanças comportamentais ocorreram devido a todo um trabalho da equipe junto aos alunos e comunidade que acreditaram na ressignificação que vem da inovação.

Inovação que segundo Pacheco (2019) será algo inédito, sustentável e de provável replicação. No campo da educação será um processo transformador que promoverá ruptura paradigmática, mesmo que parcial, com impacto positivo na qualidade das aprendizagens e no desenvolvimento harmônico do ser humano (PACHECO, 2019).

 

Resultados

 

Antes de se iniciar a elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), é preciso uma etapa de sensibilização, de motivação, de mobilização para com a proposta de trabalho, a fim de que esta tarefa seja assumida, tenha significado para a comunidade” (VASCONCELLOS 2016 p.175).

 

Figura 01 - Vivência 2019

 

Fonte: acervo das autoras

 

Foi iniciada a construção do PPP abordando os seguintes questionamentos: Como a comunidade, família e escola podem contribuir para que os educandos, filhos, pessoas e cidadãos possam ter sucesso nos desejos e sonhos seus e de sua família? Quais valores podem e devem ser praticados em seu cotidiano para que estes possam ser cidadãos autônomos? Partimos dessas reflexões, as quais foram apontadas os valores de honestidade, responsabilidade, respeito, solidariedade, cooperação, comprometimento, humanidade, afetividade, consciência e compaixão. Desses valores, que poderíamos colocar na nossa proposta pedagógica, para que juntos escola, família e comunidade, pudéssemos ajudar as crianças a serem pessoas comprometidas com os valores éticos, morais? Então elencamos: honestidade, respeito, solidariedade, afetividade, responsabilidade.

Fizemos os encaminhamentos para o PPP e agendamos o que denominamos “Roda de Prosa” para que a comunidade tivesse voz e fosse participativa. A partir das conversas que surgiram com a presença e participação da comunidade local, tivemos maior engajamento dos pais na escola, todas as ações desenvolvidas tiveram a participação da comunidade, foram realizadas revitalização dos espaços, deixando a escola mais bonita e atrativa para as crianças.

Como resultado da “Roda de Prosa”, primeiramente houve o levantamento de quem poderia colaborar, como e com o que? A escola encontrava-se carente de recurso, precisava de revitalização e manutenção, conseguimos tinta, reposição de vidros quebrados, limpeza de calhas, organização dos espaços, reforma da zeladoria que transformamos em sala de leitura, sala para atendimento do AEE e espaço para atendimento de reforço escolar, a antiga secretaria e diretoria também foi reformada para atendimento de crianças que ainda estavam fora da escola por falta de vaga.

Precisávamos tornar a escola um local de pertencimento, onde educando, educadores, pais e demais pessoas da comunidade local participassem dos processos escolares. No Campo da Educação, “um projeto de mudança é um ato coletivo” (PACHECO, 2019, p.63)

A partir da participação dos pais, foi possível a conclusão de algumas obras inacabadas como a sala de informática, compra de bancadas, instalação de computadores e impressoras para educando e educadores. Organização de espaço para atendimento da secretaria e diretoria da escola. Verificamos a necessidade de construção de uma fossa biodigestora (FIG.06) e com a participação especialmente dos alunos e da comunidade, recebemos doações de materiais, tubos, cimento, tijolos. Ampliamos o espaço para recreação ao lado do refeitório, com a avanço no terreno, conseguimos verba impositiva dos vereados para construção de espaço para a realização de atividades diversas, aumentando a participação da comunidade escolar.

E esse movimento de melhoria e revitalização do espaço, bem como a participação da comunidade, ocasionou o aumento na procura por vagas, passando de 190 alunos em 2018, para atendimento de 243 alunos em 2019, sendo alguns casos relacionados ao resgate de crianças que ainda não estavam na rede pública de ensino do Município.

 

Figura 02 – Apresentação da maquete da fossa biodigestora

 

Fonte: acervo da escola municipal

 

Todos os projetos realizados na prática, foram um marco para a comunidade, pois é possível contribuir significativamente na transformação de uma sociedade. Pensar no coletivo foi um dos aprendizados mais importantes que conseguimos aplicar no desenvolvimento dos trabalhos na Unidade Escolar e com a comunidade. A vivencia de aprender escutar o outro, se sensibilizar e pensar coletivamente na resolução de novas alternativas, foi um diferencial junto à comunidade.

As ações desenvolvidas na escola, como construir a fossa biodigestora com ajuda de um coletivo; organizar junto com a comunidade uma feira agroecológica, com produtos dos agricultores locais; a revitalização da escola; a utilização espaço da frente da igreja para as aulas de música, conseguido a partir do diálogo entre o padre e a diretoria da escola; a implementação do contra turno, quatro dias da semana com aulas de Educação Física, Artes, Inglês, Informática e Música, foram implementadas com a participação de toda a comunidade escolar.

Dentre as muitas ações conjuntas, uma das mais gratificantes para os pais, estudantes e professoras da Escola, foi a construção da fossa biodigestora, como uma necessidade de saúde coletiva, para resolver uma situação insustentável com a fossa antiga, devido ao mal cheiro e localizar-se em frente ao refeitório.

Foi realizado uma pesquisa junto aos alunos, trazendo uma solução coletiva envolvendo todas as salas, as quais acompanharam a construção de todo processo até a estruturação física da fossa biodigestora.

Com a descoberta da solução, foi preciso acionar a comunidade para que fosse possível a realização do projeto, que contou com a participação da Prefeitura, Secretaria da Educação, técnicos e comunidade em geral.

A construção ocorreu de forma gradativa, com arrecadação de fundos financeiros, doações e eventos como festas e rifas, desde a estrutura até a finalização. Foi um processo de união e envolvimento, que só foi possível acontecer após a conscientização e envolvimento da toda a comunidade local. (FIG.3).

Figura 03 – Construção da fossa biodigestora

 

Fonte: acervo da escola municipal

 

O principal objetivo desse relato foi o de demonstrar, brevemente, alguns dos processos de transformações em nossa Escola Municipal, com foco em todo o efeito da ressignificação interna que ocorreu em cada participante, bem como o resultado concreto vivenciado pelas ações advindas das transformações internas, representado pela materialização dos projetos e de todas as mudanças ambientais e das relações interpessoais e com o ensino e a aprendizagem.

Após revisitarmos as histórias de todas as vivências, ações e trocas de experiências com todos os participantes da comunidade escolar, só podemos concluir que temos de dar continuidade ao projeto Ressignificando a Escola, buscando fortalecer a rede, acreditando que as transformações são possíveis e aplicáveis e que em alguns momentos teremos que ter coragem para não desistirmos. E será importante buscarmos a manutenção do diálogo com a comunidade, pois foi dessa relação que surgiu o suporte para muitas ações de sucesso e profundamente transformadoras para todos os envolvidos. Os pais passaram a ter interesse em participar das demandas dos alunos, e os alunos apresentaram mudanças comportamentais positivas. Ocorreram mudanças importantes no ambiente sócio moral da escola que podem ser observadas nos diálogos das crianças entre si, na forma que buscam a resolução de problemas e no surgimento da empatia quando não aceitam que um aluno provoque o sofrimento no outro.

O desenvolvimento da bandeira ambiental na escola, com a construção da fossa séptica, a revitalização da unidade arbórea do “jacarandá”, o desenvolvimento da horta, construção do jardim, o aproveitamento dos materiais orgânicos na manipulação da composteira, resultaram em ações de transformação, para que as atitudes fossem aplicadas também em seus lares. O trabalho exigiu empenho da gestão, equipe escolar, dos educandos e das parcerias da comunidade, foi somente com a junção dos pilares, o projeto pôde ser desenvolvido, trazendo melhorias no ambiente escolar que passou a ser um lugar propício para a formação de cidadãos capazes de realizar as transformações sociais no futuro.

 

Referências

 

ALVES, R. A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir. Campinas-SP. Papirus, 2008.

 

BATAGLIA, P. U. R. Esses adolescentes de hoje… podem e sabem discutir e vivenciar dilemas contemporâneos? – As contribuições de Lawrence Kohlberg e Georg Lind. In: TOGNETTA, L. R. P.; VICENTIN, V. F. Esses adolescentes de hoje… O desafio de educar moralmente para que a convivência na Escola seja um valor. Americana: Adonis, 2014. p.113-139.

 

BECKER, F. Aprendizagem: reprodução, destino ou construção. In: MONTOYA, A. O. D.; MORAIS-SHIMIZU, A.; MARCAL, V. E. R.; MOURA, J. F. B. (Org.). Jean Piaget no século XXI: escritos de Epistemologia e Psicologia Genéticas. 1. ed. São Paulo; Marília: Cultura Acadêmica; Oficina Universitária, 2011. p. 209-229.

BIDÓIA, J.F. Avaliação do clima escolar sob a perspectiva dos estudantes em um processo de ressignificação da educação com educadoras e educadores de uma escola municipal, (Tese de Mestrado) -Faculdade de Filosofia e Ciências, da UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Marília-SP, 2020.

 

PACHECO, J. ( 2019) Inovar é Assumir um Compromisso Ético com a Educação. Rio de Janeiro. Editora Vozes.

 

PIAGET, J. (1930) Psicologia e Pedagogia. 9.ed. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1998.

 

PUIG, J. M. Práticas Morais: uma abordagem sociocultural da Educação Moral. São Paulo: Editora Moderna, 2000.

 

THAPA, A.; et al. A Review of School Climate Research. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2013; 54:3–16.

 

VASCONCELLOS, C. dos S.(2016). Planejamento, Projeto de Ensino- Aprendizagem e Projeto Político – Pedagógico. São Paulo. Libertad.