Humanização e educação integral: refletindo sobre rotas alternativas
Apresentação da coletânea, ou sobre o Gato de Cheshire e as novas alternativas em educação
Apresentação da coletânea, ou
sobre o Gato de Cheshire e as
novas alternativas em
educação
Iniciaremos a apresentação da presente coletânea com duas citações de origens muito distintas, mas que pretendemos aproximar ao tratarmos dos processos de educação integral e da ressignificação da educação. A primeira citação é do livro “As
aventuras de Alice no país das Maravilhas” 2 do conhecido Lewis Carroll. Na história, Alice se aproxima do Gato pendurado em uma árvore e pergunta:
– Gatinho de Cheshire (…) Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?
– Isso depende muito de para onde quer ir - responde o Gato.
– Para mim, acho que tanto faz… - disse a menina.
– Nesse caso, qualquer caminho serve - afirmou o Gato.
Essa citação costuma ser bastante mencionada em cursos de metodologia do trabalho científico, sempre que o docente quer evidenciar a importância do planejamento claro para um bom projeto de pesquisa. No entanto, ela nos chamou a atenção ao ser dita por um educador quando estávamos começando a acompanhar um projeto de ressignificação da educação que justamente não trazia perfeitamente desenhado o procedimento metodológico que seria seguido. O educador Marcos Rogério Silvestri Vaz Pinto estava apresentando a proposta de ressignificação e, ainda que tivesse elucidado o objetivo e os princípios que subsidiavam a mesma, deixou claro que o caminho estava por se desenhar.
O educador que assistia à apresentação da proposta mencionou a passagem do Gato de Cheshire e disse que para iniciar o projeto, entendia que deveríamos ter o caminho perfeitamente traçado, o que nos leva à segunda citação:
(…)
Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
" Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar (…)” (MACHADO, 1875).3
Vejamos como as ideias se completam. O estabelecimento do objetivo, dos princípios e do ponto de chegada é fundamental em qualquer trabalho científico ou pedagógico. E isso estava muito claro na proposta de ressignificação. Porém, o delineamento preciso nem sempre é possível em função do tipo de trabalho realizado.
Como o processo de ressignificação depende de um intenso trabalho de construção coletiva e como esse trabalho se dá passo a passo, com altos e baixos e com uma dose grande de desequilíbrios e reequilíbrios, só podemos desenhar o caminho ao caminhar.
Por princípios, entendemos as crenças que subsidiam a elaboração da proposta. A pergunta para descobrirmos quais são os princípios é: quais as bases que não abrimos mão para a execução do projeto? Os objetivos, por sua vez, se referem à meta que pretendemos atingir.
Os capítulos aqui reunidos pretendem levantar pontos importantes para a consecução de princípios como: a participação de todos no processo de ensino e aprendizagem, o respeito às diferenças e o tratamento equitativo, a busca constante de construção de um ambiente sociomoral cooperativo e a valorização do conhecimento construído na elaboração de projetos que sejam vinculados ao indivíduo, grupo ou coletividade, assim como, da meta maior que é a de formar pessoas autônomas, cidadãs, críticas que possam construir a sociedade plural e democrática que almejamos.
A questão que emerge então passa a ser: Como pensar em uma escola que possa abrir o espaço necessário para a realização de tais princípios, meta e a construção das competências apresentadas?
Parece-nos claro que o movimento da escola tradicional criticada desde o início do século XX não cumpre esse papel, apesar de persistir na prática até os dias de hoje. Estamos chamando de escola tradicional aquela que enfatiza a transmissão do conhecimento, o uso da coerção como ferramenta para manutenção da disciplina e que entende o estudante (chamado simplesmente aluno) alguém vazio e pronto para ser preenchido com os importantes conhecimentos que serão repetidos na avaliação e gloriosamente esquecidos logo após.
Os trabalhos reunidos na Parte 1 – Contemplando Horizontes, são 6 capítulos que abordam perspectivas teóricas distintas que podem subsidiar um trabalho de educação integral. Em primeiro lugar,
Lucas Guilherme Tetzlaff de Gerone reflete sobre as “epistemologias filosóficas que abordam educação e ética, entendidas como um
processo de ressignificação”, em seguida Rogério Melo de Sena
Costa e Maíra de Oliveira Martins com o objetivo de fomentar uma visão educacional ampliada, promovem no texto um diálogo entre Jean Piaget e Rudolf Steiner buscando possíveis aproximações.
Ana Claudia Saladini aborda a linguagem do educador tratando especificamente de alunos de graduação em educação física e refletindo sobre o impacto dessa linguagem com o desenvolvimento
moral. A pesquisadora Susan Andrews traz um capítulo a respeito da educação do estudante em sua totalidade, ou seja, da educação integral. A autora lança um alerta sobre a importância do controle do estresse negativo e como podemos auxiliar as crianças nesse
aspecto. Juliana Freire Bidóia e Alessandra de Morais fazem uma retomada histórica de trabalhos e sobre a renovação educacional e
por fim, Paulo M. Verussa encerra essa parte com um texto sobre metacognição e a emergência de uma pedagogia científico-espiritual. Como destaca o autor, limitados resultados na educação podem estar relacionados ao desenvolvimento de abordagens teórico-metodológicas pouco integradas ou de pouco alcance. Oferece uma reflexão sobre essa perspectiva sistêmica para lidar com os desafios presentes.
A Parte 2 – Traçando rotas - aborda as bases de uma dada experiência desenvolvida no município de Arujá com o apoio da Secretaria Municipal de Educação, que tem como secretária, Priscila da Silva Rosa Sidorco e como Diretora Pedagógica, Elis Angela Aparecida Rossi. Somos imensamente gratos às autorizações, suporte e carinho com que sempre fomos recebidos (organizadoras do livro e equipe de pesquisa) pela equipe pedagógica da secretaria que desde o início foi entusiasta do projeto de ressignificação. Ainda, relata três experiências fora de Arujá, mas que são igualmente empolgantes em termos de possibilidades de ressignificação.
Compõem a Parte 2 do livro, 10 capítulos. O primeiro escrito por
Cristiane Paiva Alves, Marcos Rogério Silvestri Vaz Pinto e Juliana
Freire Bidóia, conta o início do trabalho de ressignificação e esclarece princípios e metodologia de trabalho em Arujá. Na
sequência, Emerson da Silva dos Santos, Camila Aparecida da Silva
e Patrícia Unger Raphael Bataglia discutem a importância da formação continuada na ressignificação da prática docente. Começam então os relatos de experiências das educadoras de Arujá que em conjunto aos pesquisadores do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Moral e Educação Integral redigiram e refletiram, e também, se emocionaram muito ao revisitar o trabalho
inovador que tem sido desenvolvido nas escolas parceiras. Maria
Goretti Aguiar Alencar e Carla Chiari descrevem do ponto de vista da gestora de uma das escolas parceiras de Arujá os vários
movimentos que ocorreram rumo a ressignificação. Cristiane Paiva
Alves e Aparecida Freitas da Silva Moreira focaram seu relato em um projeto relacionado ao meio ambiente, vinculando esse trabalho
com valores sociomorais. Sabrina Sacoman Campos Alves e
Priscila Siqueira Said relatam, como dizem as autoras, uma experiência cheia de significado, humanidade e transformação à luz de Paulo Freire e Jean Piaget. De fato, um relato emocionante e analisado com base em autores pouco aproximados na academia, mas profundamente relacionados no que entendiam ser a educação.
Cristiane Paiva Alves, Patrícia Unger Raphael Bataglia, Maria Luíza
Aparecida de Jesus, Matheus Estevão Ferreira da Silva, Marina
Pimenta Diniz e Kadrige Rodrigues de Araujo refletem sobre a
questão da etnia, raça e cor. Matheus Estevão Ferreira da Silva e
Amanda Delgado Ribeiro de Souza tratam da questão de gênero entre escolares. Completando as rotas, contamos com o capítulo de
Mila Zeiger Pedroso e Cristiane Paiva Alves relatando a experiência da escola que a primeira dirige no município de Ibiúna. São muitos
desafios e conquistas nesse período. Graziella Diniz Borges, Dirce
Crepaldi e Patrícia Unger Raphael Bataglia discutem um tema fundamental para pensarmos em inovação na educação ou criação de um ambiente sóciomoral cooperativo, o tema é assembleias de estudantes para tomada de decisões e construção de regras. Para
encerrar a Parte 2, temos o capítulo de Paula Pedroso em seu capítulo sobre a educação integral e a abordagem do aprendizado socioemocional. A autora encerra o livro com seu capítulo tratando da importância do trabalho com os estudantes no sentido do gerenciamento das emoções e construção de relações mais saudáveis.
Enfim, apresentamos nossa jornada e convidamos os leitores a viajarem por essa maravilhosa e difícil estrada do conhecimento e da prática consciente.
Boa leitura!!
Patricia Unger Raphael Bataglia e
Cristiane Paiva Alves
Marília, 2020