Humanização e educação integral: refletindo sobre rotas alternativas

Patrícia Unger Raphael Bataglia · Capítulo 1 de 20

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Humanização e educação integral: refletindo sobre rotas alternativas

Prefácio

 

Desafios para uma nova Educação:

 

tecendo teias de saberes

 

emancipatórios

 

O paradigma educacional vigente nas últimas décadas vem progressivamente apresentando sinais de esgotamento. Diante dos desafios de uma sociedade complexa e contraditória, os resultados do processo educacional ficam limitados às questões burocráticas, hegemônicas e impregnadas dos valores do modo de vida das classes dominantes, que pouco contribuem para a superação de impasses e desordenamentos que se multiplicam nas relações sociais contemporâneas.

Este fenômeno, generalizado, pode ser constatado desde os locais mais remotos até os grandes centros urbanos e se manifesta em todos os níveis de escolarização.

Boaventura de Sousa Santos ao falar sobre os desafios da sociedade contemporânea questiona fortemente a continuidade dos processos acadêmicos atuais, que se revelam superados. Em uma conversa com a comunidade acadêmica ao proferir uma aula inaugural na Universidade de Coimbra, na já distante década dos anos oitenta do século passado, provocou a reflexão com questões relativas à superação de paradigmas e da evolução dos conhecimentos. A publicação deste seu posicionamento ganhou o

mundo e transformou-se num clássico da Educação 1. Desde então, “Um discurso sobre as ciências” desafia o mundo educacional às mudanças efetivas. Essa publicação, uma entre tantas manifestações e questionamentos ao sistema educacional, é lembrada aqui como referência em razão de sua atualidade mesmo depois de transcorridas três décadas de sua primeira publicação. Vem sendo reeditada e referenciada continuamente.

A questão maior que se levanta é: por que os processos de mudanças são tão difíceis e lentos mesmo quando os indicadores causam tantos questionamentos e não são os mais desejáveis?

Uma das hipóteses para esta conjuntura de manutenção de sistemas e práticas pouco efetivos é que as universidades, instituições milenares que sempre estiveram presentes na geração de novos conhecimentos, nos tempos mais recentes foram atrelando mais e mais a sua cultura institucional ao sistema de mercado vigente, o que dificulta a atuação e desenvolvimento de ações fora do paradigma dominante.

A quase totalidade das instituições educacionais está tomada por normoses, produtivismos academicistas, competivismos individualistas e narcisistas. Suas estruturas foram progressivamente segmentadas em áreas que pouco ou nada se inter-relacionam. A excessiva fragmentação institucional e a atuação predominantemente especializada, disciplinar e individualizada, de grande parte dos pesquisadores, dificulta até mesmo um diagnóstico mais abrangente e consubstanciado sobre os limites e esgotamento do modelo vigente.

Mesmo diante da dimensão dos questionamentos e insucessos das abordagens educacionais tradicionais, grande parte das inciativas do sistema busca apenas o aperfeiçoamento de um modelo que se considera esgotado. É comum ouvir de professores e pesquisadores críticas às limitações do processo educacional onde atuam, mas quase sempre vêm acompanhadas de expressões do tipo “Estou ciente, mas o sistema não permite que eu faça diferente”.

Alternativas ao sistema educacional vigente muitas vezes mobilizaram educadores e a sociedade em resposta às inquietações, necessidades e utopias dos diferentes tempos. A maioria delas direcionadas à educação não formal. As poucas e localizadas iniciativas que foram e são implementadas na educação formal, desde sempre sofreram significativas resistências e até perseguições aos seus líderes e apoiadores.

O que acontece é que mesmo enfrentando grandes resistências esses movimentos e projetos de mudança estão se multiplicando e ganhando novos territórios. Com eles, pesquisadores mais inquietos começam a superar os limites do sistema vigente. Pesquisas, mesmo que numericamente de pouca expressão, são desenvolvidas junto aos coletivos, movimentos, projetos e ações que atuam para além dos limites de legislações locais e culturas institucionais que ancoram o sistema educacional vigente. O mundo em transformação começa a ser desvelado.

E, é sobre estes novos territórios educacionais de que trata esta instigante publicação: “Humanização e Educação Integral: refletindo sobre rotas alternativas”.

Recebi com muita curiosidade e motivação o convite para ler e me manifestar sobre esta obra, uma construção coletiva, antes de ser publicada.

No mundo em que atuo, a UFPR Litoral, desenvolvemos um Projeto Político Pedagógico inédito em instituições universitárias. Embora institucionalmente ligado a uma das universidades maiores e mais antigas do Brasil, esse projeto foi implantado há quinze anos e vem se consolidando com muita resistência, resiliência e persistência.

Decorrente dos embates acadêmicos e institucionais, o projeto UFPR Litoral vem gerando novos projetos ainda mais sintonizados com os movimentos e desafios da atualidade. E nesse caldeirão pedagógico, nos últimos cinco anos, que se intensificam, ainda mais, as contradições com a educação tradicional. Um coletivo de professores, estudantes, servidores técnico-administrativos e muitos parceiros das comunidades interligadas decidem, diante dos contínuos embates e resistências aos princípios e às estruturas pedagógicas fundamentais para os avanços do projeto litoral, dar um passo a mais e criam um curso de especialização em Alternativas para uma Nova Educação. Assim nasce a ANE.

ANE - Alternativas para uma Nova Educação: Movimento que atua em Roda e em Rede de Saberes, com fundamentação teórica em concepções de Educação Emancipatória. Institucionalmente, com origem no Projeto Político Pedagógico da UFPR Litoral, desenvolvia suas ações através da oferta de um curso de especialização de mesmo nome. Progressivamente, além de continuar ofertando o curso de Especialização pela UFPR Litoral, vem se expandindo como movimento com ações abertas à comunidade, numa forma de Teia Emaranhada de Saberes Interdisciplinares, Interinstitucionais, Interterritoriais, Interculturais, Interexperienciais e intergeracionais. Atualmente se apresenta como MoANE - Movimento de Alternativas para uma Nova Educação.

Nesses entrecruzos de insurgências e conspirações educacionais, encontramos nas andanças pelo mundo, educadores que também atuam nas linhas de fronteira, forçando rupturas, nos diferentes espaços da educação formal e não formal. Nesses novos horizontes, para além do paradigma da educação tradicional, vamos nos conhecendo, nos reconhecendo, nos identificando, nos comprometendo e agindo na construção de mais amplas possibilidades para a educação emancipatória e inclusiva.

Fruto desses encontros que trazem à tona efervescências pedagógicas em territórios, neste caso predominantemente paulistas, surge a provocação para a leitura da escrita de percursos de movimentos ativos de transformação e ressignificação.

A primeira boa surpresa:

Uma obra de um significativo e qualificado coletivo de vinte e sete autores protagonistas de ousadas mudanças.

A segunda boa surpresa:

Integram também esse coletivo de diferentes inserções institucionais e comunitárias, professores de uma grande universidade, a Universidade Estadual Paulista - UNESP, vinculados a um grupo de pesquisa e um programa de pós-graduação, com mestrado e doutorado, que demonstram motivação, coragem e compromisso com a educação emancipatória.

A terceira boa surpresa:

A organização da obra, a ser publicada, apresenta clareza acadêmica e linguagem coerente com o mundo educacional que relatam.

A quarta boa surpresa:

Educadores de diferentes espaços institucionais, territoriais, culturais e sociais são protagonistas e autores dos relatos e demonstram coerência com suas trajetórias de vida.

A quinta boa surpresa:

O uso de expressões identificadas com os tempos de uma educação em desconforto acadêmico e paradigmático que perpassam todas as narrativas. Uma dessas expressões mais destacadas é a “ressignificação”. Ressignificar para avançar. Avançar para além do ainda predominante “modo certo de educar”.

Seriam muitas outras as boas surpresas que eu poderia destacar, mas destaco apenas mais uma, buscando com ela provocar a leitura desta obra e com ela a motivação de novos engajamentos – o acreditar e o querer.

A sexta boa surpresa:

A obra evidencia um movimento de ousados e referenciados educadores que inspiraram e continuam a inspirar os territórios do educar com o humanizar para uma vida com autonomia, responsabilidade e solidariedade. São educadores que em todos os tempos demonstram que o “caminho dos avanços se constrói caminhando”.

É essa a força maior que destaco do conjunto de dezesseis narrativas, ampliados pela apresentação e pelas palavras finais de encaminhamentos das organizadoras desta obra: uma provocação para que muitos outros passem a caminhar e, que juntos caminhemos construindo outros amanhãs para uma Nova Educação.

 

Valdo José Cavallet

Cidadão do mundo apaixonado pela educação emancipatória