Índice Cronológico dos Fatos Mais Notáveis da História do Brasil

Agostinho Marques Perdigão Malheiro · Capítulo 4 de 89

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Índice Cronológico dos Fatos Mais Notáveis da História do Brasil

Ao Leitor.

 

Em o Jornal do Commercio de 13 do fevereiro do anno proximo passado, fizemos publicar o seguinte:

ATLAS CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS

DA HISTORIA DO BRASIL DESDE 1500 ATÉ 1848,

INCLUSIVE.

«Tal he a primeira producção que pretendemos dar ao prélo...

A obra constará de sete mappas:--No 1.º se acharão os

factos mais memoraveis da historia do Brazil no seculo

dezeseis; no 2.º, os do seculo dezesete; no 3.º, os do seculo

dezoito. Os quatro ultimos darão os do seculo dezenove na

ordem seguinte:--o 1.º, desde 1800 a 1822; o 2.º, desde 1822

a 1831; o 3.º, desde 1831 a 1840; e o 4.º, desde 1840 a

1848.

«Foi este o systema mais claro e succinto que excogitámos

de escrever a historia com algum proveito para os que a

lerem; porque d'este modo o leitor terá diante dos olhos em

um só quadro a narração historica dos factos que mais

avultam e sobresahem, e que não devem ser ignorados de

Brasileiro algum, sobretudo d'aquelles que se consagrão á

vida litteraria, politica, &c.

«A base do nosso methodo de escrever he, como se vê, a

divisão chronologica em seculos. Assim dividimos a historia

do Brazil em quatro seculos:--A dos tres primeiros, isto he,

dos seculos dezeseis, dezesete, e dezoito, pôde ser escripta

cada uma em um só mappa; de maneira que no 1.º mappa o

leitor tem debaixo dos olhos o que de mais notavel se passou

no seculo dezeseis; do mesmo modo no 2.º mappa o do

seculo dezesete; e no 3.º, o do seculo dezoito.

«Mas para o seculo dezenove, não sendo possivel escrever

todos os factos em um só mappa, foi indispensavel fazer

divisões. Para esta subdivisão tomámos por base as épocas

historicas. Assim, comprehendendo os quatro ultimos

mappas a historia desde 1800 a 1848, o 1.º começa em 1800

e termina em meiados de 1822; o 2.º começa em 7 de

Setembro de 1822 (época gloriosa da proclamação da

Independencia, em virtude da qual o Brasil se constituio

Imperio livre sob o governo de seu magnanimo fundador o

Senhor D. Pedro I), e termina em 7 de Abril de 1831 (época

em que teve lugar a abdicação, findando d'este modo o

governo do primeiro Imperador); o 3.º começa no mesmo dia

7 de Abril (época em que pela abdicação ficou o Brasil sob o

governo de uma regencia em nome do segundo Imperador),

e termina em 23 de Julho de 1840 (época em que pela

proclamação da maioridade do mesmo Senhor cessou a

Regencia); o 4.º, finalmente, começa em 23 de Julho de 1840

(época em que começou o governo do segundo Imperador o

Senhor D. Pedro II), e termina em 31 de Dezembro de 1848.

«Por esta exposição vê-se quanto tempo e trabalho deve

necessariamente ter consumido uma obra d'estas. E com

effeito, não nos temos poupado a fadigas para apresentar ao

publico uma producção a mais exacta possivel, já a respeito

dos factos em si, já a respeito das causas que lhes derão

origem, e resultados dos mesmos factos, já finalmente a

respeito da época e lugar em que se elles passarão; porque

não he bastante saber que tal facto existio: he preciso, não

só remontar á philosophia da historia, isto he, indagar a razão

da existencia do facto, suas causas, sua ligação com os que

o precederam, bem como suas consequencias; mas tambem

classifical-o competentemente em relação ao tempo e ao

lugar, isto he, torna-se indispensavel o auxilio da Geographia

e da Chronologia, duas irmãs gemeas e inseparaveis da

Historia.

«Sem estas condições, inutil he o conhecimento abstracto

dos factos historicos por mais importantes e interessantes

que sejão; bem como sem a Philosophia e Critica, he

caminhar com pouca segurança na investigação das

verdades historicas.

«Temos empregado todas as nossas forças para satisfazer o

melhor possivel a esta nossa intenção; e para isso havemos

revolvido as obras dos melhores historiadores, as collecções

de leis, os documentos authenticos, os roteiros e viagens, os

periodicos litterarios, a Arte de verificar as datas; emfim, um

sem numero de obras, sem as quaes impossivel he dar um

só passo em hum trabalho d'esta natureza. E quem se tiver

dado ao estudo da historia concordará em tudo quanto

hemos dito.

«Por conseguinte, si, apezar disto, o nosso trabalho contiver

defeitos e lacunas (o que irremediavelmente ha de acontecer,

pois que não ha cousa alguma, por mais bem elaborada, que

sáia perfeita das mãos de um ente por sua natureza

imperfeito, qual o homem), desde já declaramos sujeitar-nos

ás observações da boa critica, d'essa que procura esclarecer

os factos, apresentar a verdade, e não obscurecel-os para

d'est'arte trazer a confusão e illudir as gerações futuras; e

protestamos tomal-as na devida consideração, ou para

correcção nossa e melhor instrucção, ou para as

combatermos, caso tenhamos fundamento em persistir na

opinião por nós seguida na mencionada obra.

«Nós não nos contentamos unicamente com exarar os factos;

damos tambem a razão de sua existencia, isto he, as causas

que os originárão, e bem assim os seus resultados ou

consequencias. De espaço em espaço, em breves

parenthesis, damos noticia do estado do Brazil em differentes

épocas, para assim ir o leitor seguindo a marcha progressiva

ou regressiva do paiz nos differentes tempos. Alêm d'isso,

offerecemos tambem entre parenthesis muitas observações,

quer a respeito dos factos, quer das pessoas que n'elles

representárão, quer das suas causas e tempo em que se

passárão; porque, havendo muita cousa controversa,

indispensavel era dar o fundamento do nosso dizer. Por fim

terminará a obra com um mui breve e succinto esboço do

estado do Brazil ao findar o anno de 1848.

«Eis em poucas palavras o plano da obra que pela primeira

vez tencionamos submetter ao juizo publico; a qual, pela

exposição que temos feito, se conhece não ser huma Historia

Geral do Brazil (para o que serião necessarios muitos

volumes), mas tão sómente dos factos mais notaveis d'ella

nas épocas indicadas, desde o seu descobrimento.»

A obra que actualmente temos a honra de dar á luz publica he no fundo a mesma que haviamos promettido no annuncio acima transcripto, si bem que modificada no titulo e na fórma.

O systema que haviamos adoptado para sua publicação era imitativo do de Le Sage, cuja superior vantagem não soffre contestação para aquelles que preferem a solidez e a realidade á superficialidade acobertada com pomposas expressões.

Já grande parte se achava typographicamente composta, quando circumstancias imprevistas, sobretudo a de não se achar em uma só parte d'esta grande Capital o papel cartonado proprio para semelhante genero de impressão, e não querermos demorar indefinidamente a publicação promettida, á espera que viesse da Europa o papel que se mandasse buscar, fizerão-nos de accordo com o Impressor destruir tudo quanto estava feito, e dar nova fórma e novo titulo.

Eis porque fizemos publicar a obra na fórma ordinaria, desprezando a dos mappas (que haviamos promettido), e substituimos o titulo pelo que ora tem de Indice Chronologico, etc.

Sirvão portanto estas considerações de publica satisfação de huma falta absolutamente involuntaria, que muito nos têm magoado e desgostado, como he facil comprehender.

Em compensação encontrará o leitor, alêm do promettido, mais a historia do anno passado (1849), e o estado do Brazil ao findar esse anno e entrar o em que nos achamos de 1850.

E, como graves factos se hão passado até o meiado do corrente anno (data em que isto escrevemos), para satisfazermos a curiosidade do leitor, que quizer hir acompanhando a marcha successiva dos acontecimentos notaveis de nossa Historia Contemporanea, aqui os apresentamos em mui succinta exposição.

Nas relações internas:--A sentidissima morte do Principe Imperial o Senhor D. Pedro Affonso (10 de Janeiro); a pacificação de Pernambuco pela dissolução das forças insurgentes acoutadas nas mattas d'Agua-Preta; as questões suscitadas em consequencia de recusarem alguns Chefes acceitar as amnistias condicionaes que lhes forão concedidas; a peste por quasí todo o littoral do Brazil, denominada febre amarella, e que fez milhares de victimas; o procedimento do Barão de Jacuhy e sua briosa pertinacia em continuar no seu intento contra a Banda Oriental, até que se dissolverão voluntariamente suas forças, e elle se apresentou em Porto-Alegre; a sancção e publicação do Codigo Commercial Brazileiro, que será dado á execução de 1.º de Janeiro do anno proximo futuro em diante; a agitação dos espiritos por causa dos factos praticados pelo Cruzeiro Inglez, as discussões pela imprensa e na tribuna parlamentar a que elles tem dado lugar (Junho e Julho): eis os factos que mais avultão.

Nas relações externas:--As complicações em que nos achamos no Sul do Imperio pelos factos do Barão de Jacuhy, haver este transposto o Quarahim, e em territorio estrangeiro praticado actos de guerra; as reclamações ao Gabinete de Paris e ao Governador de Cayenna sobre o apparecimento de navios e forças Francezas no lago Amapá no N. do Imperio; as repetidas affrontas e insultos que temos soffrido da Grã-Bretanha, a qual tem continuado a abusar com o seu despotismo e insolencia proverbiaes, desprezando todos os principios sagrados do Direito Internacional, escarnecido do nosso pavilhão, affrontado todos os Poderes do Estado, e violado impunemente os nossos direitos soberanos, a honra e dignidade nacional: eis os factos mais salientes.

A maior questão da actualidade é por sem duvida a de nossas relações com a Inglaterra.

O Cruzeiro Inglez acha-se autorizado pelo Governo da Grã-Bretanha, a cuja testa se acha Lord Palmerston, para percorrer os nossos mares territoriaes, entrar nos nossos portos, e em qualquer parte que seja proceder á vizita e busca nos navios mercantes que lhe parecer, aprizional-os, e remettel-os para Santa Helena, ou incendiar ou metter a pique!

Elle o tem feito; e mais ainda!

E isto em contravenção de todos os principios, em contravenção da Convenção de 1826, em contravenção mesmo do famoso bill de 8 de Agosto de 1845!

E qual a causa? A continuação do trafico de Africanos, existir em vigor o Art. 1.º do Tratado de 23 de Novembro de 1826, e se ter o Governo do Brazil, desde que cessarão em 1845 os Tratados que estabelecião o modo de realisar esse solemne compromisso, recusado sempre chegar a hum accordo com a Grã-Bretanha a tal respeito.

Huma duzia de traficantes (que pela maior parte não são Brazileiros), insaciaveis de ouro, embora seja elle adquirido pelos meios mais infames, vís e criminosos, tem-nos feito passar pelos vexames que ora nos opprimem, pela vergonha e ignominia de nos vermos assim atrozmente injuriados e offendidos no que ha de mais melindroso, em quanto elles folgão e riem no meio do lodaçal de suas riquezas adquiridas pelo trafico, pela destruição da liberdade dos Africanos, pela venda de carne humana! E o que mais enche de indignação he que muitos d'elles são cobertos de condecorações e honras (que só devião brilhar em peitos respeitadores das leis naturaes, divinas e humanas); e rodeados de prestigio na sociedade pela influencia do seu ouro!

Basta. Ao Governo cumpre fazer-nos sahir da gravissima situação em que nos achamos, do modo que mais condigno fôr com os nossos interesses, direitos e honra.

Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1850.

O Autor.