Índice Cronológico dos Fatos Mais Notáveis da História do Brasil

Agostinho Marques Perdigão Malheiro · Capítulo 76 de 89

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Índice Cronológico dos Fatos Mais Notáveis da História do Brasil

Capítulo 1849

Continúa a rebellião em Pernambuco.--Os rebeldes da parte do N. da Provincia são batidos em Mãe Catharina (5 de Janeiro); e procurando o S. para se reunirem aos seus consocios na comarca do Rio Formoso são batidos successivamente em Carauna e Camaragibe (13 de Janeiro), apezar de se acharem em alguma força; entranhando-se sempre pelas mattas afim de melhor continuarem a marcha que levavão para o S., e incommodarem com suas guerrilhas as forças legalistas.--No entanto o Deputado Nunes Machado e outros, que a 31 de Dezembro p. p. havião sahido do Recife para dirigirem a revolução no Sul da Provincia, e desembarcado na praia da Gamella, tendo conseguido reunir alguma gente, dirigem-se para a comarca do Rio Formoso, e tomão Barreiros nos confins com Alagôas (10 de Janeiro). Em breve porém abandonão este ponto por saberem que as forças de Alagôas e de Pernambuco combinadas os ião attacar; e retirão-se para Tentugal.--Os revoltosos do N. conseguem reunir-se aos do S. e dirigem-se todos para Agua Preta, onde concentrão suas forças: existindo tambem outros pequenos bandos dispersos pela comarca do Bonito, depois que forão batidos (22 de Janeiro) perto da villa deste nome pelas tropas em operações n'este ponto.--O General em Chefe Coelho, e já antes delle o Coronel João do Rego Barros sahem para Agua Preta a bater as forças reunidas dos revoltosos.--Estes porém abandonão Agua Preta (26 de Janeiro), e avanção sobre a capital a marchas tão violentas, que a 1.º de Fevereiro se achavão mui perto della. Capitaniados por Peixoto de Brito e outros caudilhos, e de intelligencia com os seus co-religionarios da capital, aproveitão-se da ausencia do General Coelho e das forças a seu mando, e atacão em numero maior de 2:000 o Recife (2 de Fevereiro). Renhida e mortifera foi a luta; mas afinal forão victoriosamente repellidos pelos exforços das tropas e Guarda Nacional que se achavão na cidade, ajudadas por alguns vasos, sobretudo pelo vapôr de guerra nacional D. Affonso, e ultimamente pelas forças do General Coelho que a marchas forçadas chegou a tempo de auxiliar a defeza da cidade. O resultado deste combate foi mortandade immensa de parte a parte, em cujo numero muitos officiaes e outras pessoas de alguma representação na sociedade, entre as quaes um dos Deputados rebeldes Nunes Machado; muito maior numero de prisioneiros e feridos; dispersarem-se fugitivos os revoltosos, terminando assim a louca pertenção de á força conseguirem seus intentos.--Os rebeldes fogem divididos em 2 grupos; hum commandado por Peixoto de Brito, Borges da Fonseca e outros dirige-se para o N.; o outro sob a direcção de Pedro Ivo, entranhando-se pelas mattas toma a direcção do S.--Em sua marcha o grupo do N. devasta e assola a cidade de Goianna; porém perseguido sempre pelo Tenente-Coronel Falcão, e batido em Páo-Amarello (13 de Fevereiro): em consequencia fogem para a Parahyba, onde se acoutão na cidade de Arêas; mas são daqui expellidos (21 de Fevereiro) pelo mesmo Falcão, vendo-se assim na dura necessidade de se refugiarem nas mattas. Porêm não achando apoio na Provincia, fogem de novo para Pernambuco (27 de Fevereiro); onde abandonados a maior parte pelos seus proprios chefes entregão-se ao Governo, confiados na Clemencia Imperial e na amnistia promettida pelo Presidente em 3 de Março, e para a qual se achava autorisado pelo Decr. de 11 de Janeiro. Ainda pequeno numero se conservou hostil sob o mando de Borges da Fonseca, achando abrigo unicamente nas mattas; porêm estes mesmos, depois de pequenos ataques, são afinal batidos e destroçados no lugar das Tres-Ladeiras, termo de Iguarassú (30 de Março), sendo prisioneiros seu chefe Borges da Fonseca e outros; perseguidos e vencidos dest'arte, entregão-se confiados na amnistia. Assim se dissipa o grupo do N.--Quanto ao grupo do S., conseguio elle fixar-se em Agua-Preta; porêm a abandonão á approximação das forças legaes; e a 13 de Março he occupada pelo Tenente-Coronel Antonio Maria de Souza e forças das Alagôas. Os rebeldes deste lado da Provincia tambem se entregão pouco a pouco implorando a Clemencia Imperial, mesmo alguns de seus chefes (como seja Caetano Alves, que em 5 de Abril se entregou com 324 homens).--Assim, perseguidos sem cessar, batidos sempre e obrigados a acharem por unico abrigo as mattas, presos alguns chefes, outros fugidos, e apresentando-se a maior parte dos seus sequazes implorando a Clemencia Imperial; terminada se deve considerar uma luta, que por mais de 5 mezes só servio de assolar, arruinar e desmoralisar huma das mais bellas Provincias do Brazil; de derramar inutilmente o precioso sangue Brazileiro; diminuir as forças do Imperio; sobrecarregar os seus cofres de despeza immensa; e arruinar e desgraçar muitas e muitas familias. Sem motivo mais que saciar mesquinhas e vis paixões, vingar interesses pessoaes contrariados e não satisfeitos, conseguir a todo custo a convocação de huma Constituinte, proclamou-se tal revolta, com vistas futuras, si fôra bem succedida: e deste modo não se duvidou affrontar tudo quanto ha de mais sagrado, calcarão-se todas as Leis, todos os deveres e considerações, e ateou-se no paiz a guerra civil com todas as suas horriveis consequencias.--O Presidente Tosta é substituido por Honorio Hermeto Carneiro Leão, que toma posse a 2 de Julho, continuando no commando das Armas o Marechal Coelho.--Dissolvida a Camara Temporaria por Decr. de 19 de Fevereiro e convocada outra para o dia 1.º de Janeiro de 1850, procede-se em todo o Imperio ás eleições primarias para a actual 8.ª Legislatura (5 de Agosto); não deixando de haver, como sempre, algumas pequenas desordens em varios pontos. E logo depois á eleição dos Deputados para a mesma (5 de Setembro).--Na côrte, o Ministerio soffre modificação. Manoel Vieira Tosta toma conta da pasta da Marinha (1.º de Setembro), para a qual se achava nomeado por Decr. de 23 de Julho; continuando com a da Guerra Manoel Felizardo. O Visconde de Olinda deixa a pasta dos Estrangeiros, que é confiada a Paulino José Soares de Souza; e a Presidencia de Ministros que passa ao Visconde de Monte Alegre (8 de Outubro).--No Rio Grande do Sul varios grupos se reunirão na fronteira para se desforçarem de attentados e barbaridades praticados contra os nossos pelos Orientaes (Novembro e Dezembro); tornando-se notavel o feito do Barão de Jacuhy (Francisco Pedro de Abrêu).--No entanto a guerra civil em Pernambuco, que parecia terminada, é de novo atêada (Julho) pelo Capitão Pedro Ivo, que com falsos boatos consegue chamar a si para mais de 400 desgraçados, reunindo-se-lhe tambem Caetano Alves que em menos-preço da amnistia que lhe fôra concedida não duvidou alterar de novo a ordem publica e hastear a bandeira da rebeldia. Conserva-se em posição hostil nas mattas de Agua-Preta. O Presidente embalde procura chamal-o á ordem pelos meios brandos, offerecendo-lhe amnistia com certas condições; elle, instigado pelos réos politicos em Recife, resiste sempre, tudo recusa, e obriga a empregar meios energicos e a força (Outubro). Diversos grupos apparecem em outros pontos; pequenos encontros tem lugar, sem resultado algum decisivo por se recusarem os rebeldes a sahir das mattas e a acceitar combate formal: hum grupo que se achava para as bandas de Serra-Negra foi dispersado pelo Capitão Brazil (11 de Dezembro); e hum outro que se havia acoutado nas mattas do Catucá, apartando-se d'ahi e seguindo para o N. foi batido na Barra de Natuba, Provincia da Parahyba, pelo Tenente-Coronel Innocencio (30 de Dezembro). Os rebeldes, seguindo sempre o cauteloso systema de se acoutarem nas mattas, dellas não sahem senão para commetterem depredações e assassinatos, prolongando dest'arte huma luta summamente prejudicial ao Brazil por qualquer lado que a encaremos, e mais particularmente á bella Provincia de Pernambuco.