Manual do Pequeno Investidor em Ações
4. Descobrindo o quanto vale uma empresa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Portanto, é sim plório o argum ento de que o pagam ento dos dividendos anula os ganhos de quem os recebe em razão desse desconto. Esse argum ento pressupõe que a em presa é estática e que seus lucros irão perm anecer "parados" ao longo do tem po. Mas, no caso de em presas que m antém um crescim ento razoável por anos a fio, esse raciocínio sim plesm ente não se aplica, porque o crescim ento nos lucros (e, consequentem ente, dos dividendos) m ais do que com pensará o efeito do desconto.
Receber dividendos ou juros da renda fixa?
Em tem pos de crise, m uitos analistas financeiros indicam ações que pagam bons dividendos com o um porto seguro, porque garante a rem uneração do acionista m esm o com a queda das cotações. Outras pessoas, m ais conservadoras, preferem investir na renda fixa para obter o pagam ento dos j uros. Mas qual dos dois é m elhor para o investidor?
Boa parte das pessoas, para responder essa pergunta, com para o dividend yield das ações com os j uros pagos pela renda fixa. Por exem plo, se a renda fixa estiver pagando 10% de j uros e a em presa paga 7% de dividendos, seria preferível investir na renda fixa.
Mas as coisas não são sim ples assim . O dividend yield (DY) é apenas um dos indicadores a serem observados para prever a rentabilidade final dos dividendos em um período de tem po. O DY diz apenas o percentual da cotação da ação que a em presa devolveu em dividendos para o investidor em determ inado ano. Por exem plo, se a cotação for de R$ 10,00 e a em presa pagar R$ 1,00 de dividendos por ação, o DY é de 10%.
Todavia, esse é apenas o início da conversa. Ao longo do tem po, boas em presas aum entam o valor pago em dividendos com o um a consequência do crescim ento de seus lucros. Mais lucros, m ais dividendos. A consequência direta disso é que o lucro por ação (LPA) da em presa aum enta, m as com o os dividendos tam bém aum entam , o DY pode ficar perm anente.
Im agine um a em presa que tenha um LPA de R$ 1,00 e pague R$ 0,30 de dividendos, com um a cotação de R$ 10,00. O DY dessa em presa é de 3%. Se o LPA aum entar para R$ 2,00, ela passar a pagar R$ 0,60 centavos por ação em dividendos, e sua cotação passar para R$ 20,00, o DY perm aneceu em 3%, m as ela DOBROU o m ontante que paga de dividendos.
E a renda fixa, com o funciona? Se você investir em um fundo de renda fixa que pague 10% ao ano e reinvista os j uros pagos, garantindo a acum ulação de j uros com postos, terá um a rentabilidade anual de 10%, m as sem a aceleração dos ganhos que o aum ento dos lucros da em presa proporciona à rentabilidade dos dividendos. Vej am os com o isso acontece: suponha que um investidor aplique R$ 10.000,00 por 30 anos na renda fixa, com um a taxa de retorno de 10%. A evolução de seu investim ento seria a seguinte:
Com o se pode observar na tabela, em 35 anos os R$ 10.000,00, a um a taxa de j uros com postos de 10% ao ano, se tornariam R$ 255.476,70. Desconsidero a inflação porque o propósito do exem plo é m eram ente elucidar as diferenças entre a renda fixa e os dividendos. Mas o leitor pode observar que, no últim o ano, só de j uros, receberia R$ 25.547,67. Muito bom , não é?
Mas vam os ver o que aconteceria se o m esm o capital tivesse sido aplicado em um a ação que paga 50% de seus lucros para os investidores na form a de dividendos e tem um a taxa de crescim ento do seu lucro de 10% ao ano: ou sej a, a cada ano, seu lucro, em m édia, é 10% superior ao do ano anterior. São suposições bastante factíveis, e há várias em presas no m ercado que satisfazem esses requisitos. Suponham os, ainda, que a cotação da ação é 10 vezes superior ao lucro por ação da em presa (P/L = 10), para facilitar os cálculos. Com o ocorreria a evolução patrim onial? Vej am os na tabela a seguir:
Com o o leitor pode observar, há duas colunas que dizem respeito à evolução patrim onial: a prim eira coluna (Capital) leva em consideração apenas a rentabilidade que o investidor teve com o pagam ento dos dividendos. Se ele deixasse os R$ 10.000,00 investidos e apenas recolhesse os dividendos, ele teria acum ulado em 35 anos R$ 439.712,26, bastante superior aos R$ 255.476,00 da renda fixa. E isso com um DY bastante baixo, de 4,76%! Isso aconteceu porque a em presa produz, a cada ano, 10% a m ais de lucro do que no ano anterior. Esse fato, ao longo dos anos, a transform a num a m áquina de dinheiro!
Se o investidor reaplicasse o dinheiro dos dividendos na com pra de ações da com panhia, a situação seria ainda m elhor. Com os R$ 10.000,00, ele com praria 1000 ações da em presa a R$ 10,00 cada, com um lucro por ação de R$ 1,00. No prim eiro ano, ele receberia 50 centavos por ação em dividendos (R$ 500,00 no total) e com praria m ais 50 ações da em presa. Repetindo esse procedim ento ao longo de 35 anos, e considerando que as ações são sem pre cotadas na m édia de 10 vezes o lucro produzido por ação, no final do período ele teria acum ulado 5.253 ações, que valeriam , cada, R$ 255,48. E seu patrim ônio total seria de pouco m ais de R$ 1.400.000,00, que renderiam em dividendos m ais de R$ 65.000,00 naquele ano. Muito m elhor do que a renda fixa…
A Selic está caindo: viva os dividendos!!
Muitos investidores estão preocupados com os efeitos das recentes quedas na taxa Selic, porque isso está afetando seus rendim entos em Renda Fixa. A nova realidade, de j uros abaixo de 10% ao ano, contudo, não deve preocupar o pequeno investidor, pois é perfeitam ente possível garantir um a rentabilidade nos investim entos que sej a m aior do que 10% ao ano.
Um a m aneira de conseguir essa "façanha" com algum a segurança é investir em em presas que pagam historicam ente bons dividendos, com bom dividend yield, superior a 5% ao ano e que apresentem viés de crescim ento. O dividend yield é um a m edida que indica a relação entre os dividendos pagos por um a ação e o preço daquela ação. Se um a ação está cotada a R$ 10,00 e a em presa paga R$ 1,00 de dividendos, isso significa que seu dividend yield é de 10%, porque 1,00/10,00 = 0,10.
É im portante notar que os dividendos não são estáveis. Com prar um a ação m ais barata significa que o m esm o m ontante investido pode conferir um a rentabilidade m aior, em term os de dividendos, do que no caso de se com prar um a ação com um preço m ais caro.
Ilustro com um exem plo: digam os que o investidor A com prou a ação hipotética TVAS5 por R$ 10,00, que paga R$ 2,50 de dividendos ao ano. Isso significa que seu dividend yield, nessa circunstância, é de 25% (porque 2,50 = 25% de 10). Já o investidor B conseguiu pagar um preço m ais baixo pela ação TVAS5, pagando R$ 7,50 por cada ação. Com o cada ação paga de dividendos R$ 2,50, independentem ente do preço que se paga por ela, o investidor B conseguiu um dividend yield de 33,33%, contra os 25% da rentabilidade de A.
Vej am os a situação hipotética vivida por cada um dos dois investidores:
· investidor A investe R$ 10.000,00 na ação TVAS5, que paga R$ 2,50 de dividendos, por R$ 10,00. Isso significa dizer que ele conseguiu adquirir 1.000 ações e receberá, ao longo do ano, R$ 2.500,00 de dividendos. · investidor B investe os m esm os R$ 10.000,00 na ação TVAS5, m as as com pra por um preço m ais baixo - R$ 7,50. Com o m esm o dinheiro, contudo, ele adquiriu m ais ações - 1.333. E com o cada ação paga R$ 2,50 de dividendos, ele em bolsaria R$ 3.332,50 de dividendos.
Assim , um investidor que pretenda adquirir ações de em presas que pagam bons dividendos tam bém tem bons m otivos para com prar a ação quando ela está m ais barata: ele receberá m ais dividendos dela a cada ano.
Note-se que há dois fatores preponderantes a respeito da volatilidade dos dividendos a serem pagos. O prim eiro fator, j á ilustrado, é o preço pago pela ação. Pague um preço m ais alto e receberá m enos dividendos; pague um preço m ais baixo e receberá m ais dividendos. Note ainda que a volatilidade quanto à cotação da ação tam bém influenciará a rentabilidade total do investim ento: portanto, tudo o que j á falei sobre investim ento em ações com o investim ento a longo prazo continua valendo aqui.
O segundo fator é a situação econôm ica da em presa. Se a em presa não obtiver lucros (ou eles caírem ), eventualm ente poderá não pagar dividendos por um ou m ais anos. É por isso que m uitas pessoas destacam em presas do setor de consum o (cigarros, gilete, por exem plo) e de utilidade (energia elétrica, gás, telefonia, por exem plo) com o em presas para um a carteira de dividendos. Essas em presas têm um a previsibilidade m aior quanto a seus lucros e, além disso, norm alm ente pagam bons dividendos, pois têm um a necessidade m enor de reinvestir seus lucros.
Assim , antes de investir em um a ação com o obj etivo de receber dividendos superiores ao que seria pago em renda fixa, é im portante fazer o dever de casa, verificando se a em presa tem um a rentabilidade crescente e se ela tem um bom histórico de pagam ento de dividendos.
Programa de recompra de ações
Vez ou outra um a em presa resolve lançar no m ercado um program a de recom pra de suas ações. Mas por que um a em presa resolve com prar suas próprias ações? E, m elhor ainda, com o o investidor pode se beneficiar dessa prática?
O principal obj etivo de um a em presa deve ser o de obter lucro. Então, não se engane: se a em presa está recom prando suas ações, deve estar vislum brando que com prar suas ações levará, no m édio e no longo prazo, a um ganho particular. Se é assim , então só há um m otivo para que a em presa recom pre suas próprias ações: elas estão baratas e têm um bom potencial de crescim ento no futuro!
Essa prática traz ainda um outro benefício para o investidor. Ao com prar suas próprias ações, a em presa dim inui o núm ero de ações disponíveis no m ercado, aum entando a participação de cada ação nos lucros da com panhia.
Im agine um a em presa que tem 1.000 ações e um lucro de R$ 1.000.000. Isso significa que o LPA (lucro por ação) é de R$ 1.000,00. Se a em presa recom prar 200 ações, restarão 800 ações no m ercado e, portanto, o m esm o lucro poderá ser dividido por um núm ero m enor de ações. Assim , sem que a atividade operacional da em presa leve a um aum ento do lucro, o acionista é beneficiado, pois o lucro por ação tem um acréscim o. No caso do exem plo, o LPA passaria, com a recom pra das ações, para R$ 1.250,00. A m esm a lógica tam bém se aplicaria aos dividendos!
Portanto, fique atento aos program as de recom pra de ações das boas em presas que estão no m ercado: norm alm ente, significa que a em presa considera suas ações baratas, com grande potencial de ganho no futuro (quando ela poderá revendê-las). Além disso, é um a boa prática para aum entar o valor do seu acionista, revelando que a com panhia se preocupa com a geração de valor para aqueles que acreditam nela.
3. A diferença entre preço e valor
Um a das grandes lições a ser aprendida por um investidor em ações diz respeito à distinção entre preço e valor. Warren Buffett, em um de seus aforism os fantásticos, diz que “Preço é o que você paga. Valor é o que você leva”. O preço é o valor de m ercado da ação, a quantidade de dinheiro que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. O preço é obj etivo, conhecido por todos os participantes do m ercado. Já o valor é m ais subj etivo e nebuloso: se refere a todo o patrim ônio concreto e abstrato da em presa - incluindo desde o valor de sua m arca até o de todo o seu patrim ônio, incluindo sua tecnologia, vantagens com petitivas, seus lucros presentes e, especialm ente, as expectativas quanto ao futuro deles. O preço é o quanto o m ercado, em determ inado dia, aceita pagar por um a em presa; o valor, por sua vez, é obtido pela análise dos fundam entos em presariais e de suas perspectivas futuras.
Saber avaliar esses aspectos é essencial para investir. O bom investidor deve estim ar o valor real da ação para saber se o preço de m ercado é com patível com ele e, se não for, tirar proveito da diferença. Afinal, se o preço de m ercado estiver m uito abaixo do valor intrínseco da em presa, abre-se um a boa oportunidade para o investidor com prar a ação por m enos do que ela vale efetivam ente.
O obj etivo do investidor não é prever a evolução de preços, m as ter boas razões para esperar que o valor da em presa cresça acim a do preço pelo qual ela foi adquirida. O bom investidor não deve investir com a expectativa de que poderá prever com o será a evolução dos preços no futuro, m as apenas que o valor do ativo com prado é m enor do que o preço de m ercado pelo qual a ação foi adquirida.
Mas com o saber se o bem vale o preço que é com prado, ou está sub ou supervalorizado? Para tornar essa avaliação um pouco m ais obj etiva, o investidor deve utilizar alguns indicadores que facilitam a análise, com o verem os nas próxim as seções.
4. Uma ação que custa R$ 0,01 está barata?
O preço de um a ação diz m uito pouco sobre a em presa. Um a ação que custe apenas poucos centavos pode estar caríssim a, ao passo que um a ação que custe centenas de reais pode estar barata. Apesar disso, alguns investidores acreditam que é m elhor investir em ações baratas, que custem poucos centavos, porque m esm o um a alta baixíssim a pode levar a lucros espetaculares. Afinal, se alguém investir em um a ação que custe R$ 0,01, basta que a cotação passe para R$ 0,02 que se terá um lucro de 100%. Essa ideia, apesar de parecer fantástica à prim eira vista, é problem ática.
Avaliar um a ação por sua cotação é o prim eiro passo para o investidor ter prej uízo. Com prar ações de um a em presa porque elas estão cotadas a poucos centavos é confiar m uito em algo que não está sob o controle do investidor ou m esm o da em presa: na sorte. É preciso ter a sorte de que, depois de você ter com prado a ação, haj a boatos que im pulsionem os preços espetacularm ente para cim a. O que pode acontecer ou não. Não depende de você e, m uitas vezes, não depende tam bém da em presa. Afinal, os prej uízos tam bém podem ser espetaculares: com prar um a ação a R$ 0,02 e vê-la cotada no dia seguinte a R$ 0,01 im plica um prej uízo de 50%…
O baixo preço da cotação de um a em presa não indica nada. Em bora você deva com prar ações quando elas estão baratas, você não pode usar o m esm o critério que utilizaria para com prar sapatos. Com sapatos sem elhantes, você pode usar o critério "preço" para escolher o m ais barato. Com ações, você precisa estudar outros critérios - os indicadores fundam entalistas, com o verem os a seguir- elem entos com o as relações P/L (preço por lucro), P/VPA (preço por valor patrim onial), o pagam ento de dividendos, o crescim ento do lucro e das vendas ao longo dos anos, o ROE, ROIC, etc. Mas nunca use a cotação da ação com o parâm etro: ela não diz absolutam ente nada sobre a adm inistração da em presa ou sobre a possibilidade de ganhos com a negociação daquela ação.
A im ensa diferença entre as cotações das diversas em presas se dá pelo m odo com o as ações são em itidas. Im agine que um a em presa tenha um patrim ônio de um m ilhão de reais e resolva em itir cem m ilhões de ações: nesse caso, cada ação valeria exatam ente R$ 0,01. Mas a m esm a em presa poderia em itir cinquenta m il ações, cotadas a R$ 20,00 cada. Quem investisse R$ 100,00 na em presa com praria R$ 2.000,00 ações na prim eira hipótese, ou cinco na segunda. Mas o valor patrim onial da em presa seria o m esm o: R$ 1.000.000,00. No longo prazo, a rentabilidade desse investim ento dependeria apenas da capacidade da em presa de produzir valor para o acionista, e não do valor de sua cotação.
5. Compreendendo os indicadores fundamentalistas
Talvez um a das m aiores dificuldades para quem não está acostum ado com a linguagem típica do m undo dos investim entos em ações é decifrar o que significam os indicadores fundam entalistas. Term os com o “lucro por ação”, “dividend yield” e siglas esquisitas com o P/L, P/VPA parecem ser tão obscuros quanto um livro religioso escrito em latim , que pode ser com preendido apenas por aqueles que destinaram anos e anos de estudos a sua com preensão.
Isso não é verdade, contudo. É certo que, com o tudo na vida, investir no m ercado de ações tam bém depende de estudo. Se você quer ser j ogador de futebol, deve treinar um bocado para conseguir se tornar um profissional. Se desej a ser m édico, advogado, dentista, cientista político, nutricionista, econom ista, sociólogo, vendedor, em presário, tem que estudar. Mas não se preocupe: para ser bem sucedido no m ercado de ações, não é necessário fazer um curso superior em particular ou um MBA. É im portante ter conhecim ento antes de investir nesse m ercado - m as a m aior parte do que você precisa saber sobre um a em presa antes de investir nela pode ser aprendido por qualquer um . Por exem plo, você investiria num a em presa que dá prej uízo ou que lucra, a cada ano, m enos do que lucrou no ano anterior? Não! E por que você não faria isso? Pelo sim ples fato de que um a em presa boa tem lucros que crescem , e não que dim inuem - algo relativam ente óbvio, concorda?
Quem sabe disso j á tem um bom cam inho percorrido para ser um bom investidor em ações. Parece sim ples, m as é verdade. Há m uita gente que, por m ais que saiba disso, insiste em passar anos e anos especulando com em presas que não dão lucro, buscando ganhar dinheiro com as flutuações de m ercado. No curto prazo, esta estratégia pode até dar certo; m as dificilm ente alguém conseguiria bons resultados anos a fio investindo desse j eito.
Para saber se um a em presa é lucrativa e eficiente, é im portante obter inform ações sobre ela. Mas não é necessário ter inform ação privilegiada, obtida por pessoas que sabem o que acontece em reuniões secretas dos executivos das grandes em presas. A m aior parte das pessoas pode ganhar m uito dinheiro com inform ações que são obrigatoriam ente divulgadas pelas em presas a cada 3 m eses.
I. Onde conseguir informações para investir em ações?
Todas essas inform ações estão disponíveis no site da própria Bovespa, de graça, para qualquer um que desej e acessá-las. Lá, você pode ler os relatórios trim estrais e anuais de todas as em presas e verificar se vale a pena investir seu dinheiro nelas. Além disso, todas as em presas listadas na bolsa de valores têm nos se us sites páginas de Relações com Investidores, nas quais tam bém é possível obter essas inform ações.
Além da própria Bovespa, cuj o acesso verem os a seguir, existem vários sites na Internet onde é possível obter inform ações sobre com o investir em ações. Vej am os os que considero m ais im portantes.
Bovespa: a fonte nº 1 de informação sobre ações
No site da própria Bovespa, é possível encontrar todas as inform ações sobre as em presas listadas no país. Na página inicial, acesse a guia “Mercados” e será aberta um a lista de opções. Clique em “ações” e, quando a tela abrir, digite o nom e da em presa no cam po “Em presas Listadas”. Com isso, você tem acesso a todas as inform ações financeiras das em presas (os relatórios DFP e IAN, com inform ações anuais, e com as inform ações trim estrais, o ITR), enviadas pelas próprias com panhias para a Bovespa e para a CVM.
Apesar disso, as inform ações disponíveis estão em um form ato pouco útil para a m aioria dos usuários, e por isso considero im portante visitar os outros dois sites.
Fundamentus
O site Fundam entus traz disponíveis as m esm as inform ações do Bovespa, m as de um a m aneira que é possível visualizar a evolução dos indicadores ao longo do tem po. Na página inicial, basta digitar o nom e da em presa (ou o ticker dela) e é apresentada um a tela com os principais indicadores atuais da em presa, com o dividend yield, LPA, entre outros. Além disso, é possível baixar parte dos balanços financeiros das com panhias (ativos, passivos e resultados), necessários para o cálculo dos indicadores. A vantagem de efetuar o download das inform ações pelo Fundam entus decorre do fato de que ela está disponível em planilha Excel, o que torna m uito m ais fácil a tabulação e o cálculo dos indicadores. A desvantagem é que o site oferece apenas inform ações dos últim os sete anos, o que, para alguns investidores, pode ser um período de tem po curto para analisar com perfeição os fundam entos da em presa.
Outros sites
Os sites Com dinheiro, Bússola do Investidor e Clube de Vienna tam bém são bastante úteis, com a desvantagem de que são pagos. Por eles, tam bém é possível acessar os balanços das em presas ao longo do tem po. O ponto positivo é que os sites fornece as inform ações das em presas desde o prim eiro relatório enviado. No Fundam entus, a base de dados é lim itada aos últim os sete anos. O ponto negativo é que os balanços som ente podem ser acessados ano a ano. Assim , ao contrário do Fundam entus, que torna possível baixar todos os relatórios em um a única planilha, no “Com Dinheiro” e no “Bússola do Investidor” é preciso acessar os dados ano a ano. Não chega a ser um a tarefa difícil, m as requer um pouquinho de paciência.
Na verdade, o ideal seria que a própria Bovespa fornecesse esse tipo de serviço, em um form ato que tornasse possível para o pequeno investidor acessar todas as inform ações rapidam ente, sem ter que recorrer a outros sites. Não se esqueça, tam bém , de visitar os próprios sites das em presas. Neles, é possível encontrar m aterial excelente para avaliar a com panhia antes de aplicar seus recursos em suas ações.
Agora que você j á sabe onde encontrar inform ações sobre as em presas, podem os passar ao próxim o passo: aprender um pouco sobre os principais indicadores fundam entalistas.
II. A relação entre o valor patrimonial e o preço da ação
Talvez o indicador fundam entalista m ais óbvio com o critério para definir o valor intrínseco de um a ação sej a a relação entre o preço e o valor patrim onial por ação, tam bém conhecido com o P/VPA (lê-se “Preço por Valor Patrim onial por Ação”). Afinal, é intuitivo que o valor de um a em presa estej a relacionado ao valor efetivo do conj unto do patrim ônio líquido de um a em presa - suas m áquinas, inventário, loj as, estabelecim entos industriais, com putadores, o valor de sua m arca e de seus clientes, entre outros.
Assim , ao relacionar o preço da ação e o seu valor patrim onial, é possível ter um a boa ideia a respeito de a ação estar valendo m uito m ais do que o patrim ônio da em presa. O P/VPA com para o preço de um a ação em relação a todo o seu patrim ônio líquido. Ou sej a, é um a indicação a respeito de quanto o m ercado está disposto a pagar, atualm ente, pelo patrim ônio líquido da com panhia.
Calcular a relação P/VPA é relativam ente sim ples: basta dividir o preço da em presa pelo valor patrim onial de cada ação. São necessárias, portanto, duas continhas básicas: em prim eiro lugar, deve-se encontrar o valor patrim onial da ação. Para encontrá-lo, basta dividir o patrim ônio líquido da em presa pelo núm ero total de ações. A fórm ula, portanto, é a seguinte:
VPA = Patrimônio líquido / Número total de ações
Por exem plo, o patrim ônio líquido do Banco do Brasil (BBAS3), no m om ento em que escrevo, é de R$ 56.279.100.000, e o núm ero total de ações da em presa é de 2.865.420.000. Dividindo-se um pelo outro, tem os um VPA = 19,64. Ou sej a, cada ação do Banco do Brasil tem um a parte do patrim ônio líquido do banco equivalente a R$ 19,64.
Para calcular o P/VPA, basta dividir o preço da ação pelo VPA:
P/VPA = Preço/Valor Patrimonial por Ação
Voltem os ao caso do Banco do Brasil. A cotação de cada ação da em presa (BBAS3) está em R$ 24,70 no m om ento em que escrevo. Ou sej a, cada ação custa R$ 24,70, sendo que R$ 19,64 correspondem exclusivam ente ao seu patrim ônio líquido. Dividindo-se um valor pelo outro, tem os a seguinte relação: P/VPA = 24,70/19,64 = 1,26 (aproxim adam ente). Ou sej a, a ação do Banco do Brasil está sendo negociada a um valor aproxim adam ente 25% superior ao seu valor patrim onial.
A relação entre o preço e o valor patrim onial da ação perm ite que esse tipo de análise sej a efetuada, e m ostre um pouco do real valor do ativo que estam os levando ao com prar um a ação.
A relação P/VPA traz três possibilidades: ou é inferior a 1, ou superior a 1, ou igual a 1. Um índice P/VPA igual a 1 significa que a ação está sendo negociada pelo equivalente a seu patrim ônio líquido. Se esse índice for superior a 1, indica que os acionistas estão, atualm ente, topando pagar m ais pela ação do que todo o patrim ônio líquido da em presa. Às vezes isso faz sentido, pois a em presa pode não precisar tanto assim do seu patrim ônio para gerar valor para o acionista, ou porque as expectativas de crescim ento do lucro são tão altas que o patrim ônio líquido possivelm ente crescerá a um a taxa relativam ente elevada nos próxim os anos.
Um índice P/VPA inferior a 1, por sua vez, indica que o acionista está com prando ações da em presa por um preço inferior ao do seu patrim ônio líquido. Um dos critérios propostos por Benj am in Graham para encontrar em presas baratas era j ustam ente procurar por ações que estivessem negociadas abaixo de ⅔ do seu valor patrim onial. Ou sej a, que as ações estivessem negociados a um a relação P/VPA inferior a 0,66.
Mas é im portante tom ar cuidado para não utilizar unicam ente a relação P/VPA: um a em presa norm alm ente é negociada a preços m uito inferiores ao seu patrim ônio líquido apenas quando o m ercado acredita que ela está passando por problem as em suas atividades operacionais. Obviam ente, o m ercado pode estar errado: m as para saber isso é preciso fazer outros estudos sobre a em presa, tanto com base na perspectiva futura dos negócios quanto com base em outros indicadores fundam entalistas.
É im portante notar, ainda, que em presas de setores diferentes podem apresentar um a relação P/VPA bastante diferente. Afinal, existem em presas que necessitam de m uitos prédios, m áquinas de produção, com putadores, m esas, etc. para funcionar. Em outros casos, quase nada disso é necessário, porque a em presa não precisa dispor de m uito patrim ônio para realizar suas atividades.
Com pare, por exem plo, Am bev e Cielo. A Am bev precisa de ter m uito patrim ônio para operar. Ela tem m uitas fábricas e precisa tê-las para produzir cervej as, refrigerantes e seus outros produtos. A Cielo, por sua vez, não necessita de tanto patrim ônio: ela com pra suas m áquinas de outras em presas e necessita ter, basicam ente, a estrutura para efetuar o processam ento das negociações com cartão. E isso se reflete na relação P/VPA de um a e de outra em presas: no caso da Am bev, essa é um a relação que, hoj e, está avaliado em 7,98; e, no caso da Cielo, de 21,92. O elevado P/VPA no caso da Cielo se j ustifica porque seu patrim ônio líquido é tão baixo que não faz sentido avaliar a em presa a partir dele. No caso da Am bev, o patrim ônio líquido j á é m ais im portante, porque é a partir dele que a em presa faz seu negócio girar. Já no caso do Banco do Brasil, seu P/VPA é baixíssim o (quando com parado a essas em presas), na casa de 1,25. Itaú e Bradesco, respectivam ente, apresentam P/VPA de 2,14 e 2,22 - m uito m ais baixos que os da Cielo e da Am bev.
Assim , o indicador P/VPA, em bora sej a im portante, não pode ser utilizado isoladam ente. Ele deve ser utilizado com cuidado, e especialm ente para avaliar setores que utilizem m uito capital em suas atividades operacionais. Mas, de qualquer m aneira, tam bém pode ser utilizado para encontrar boas pechinchas no m ercado - desde que, repito, não sej a utilizado isoladam ente. Às vezes, um baixo P/VPA pode estar indicando apenas que a em presa está m al das pernas.
III. A importância do crescimento do lucro por ação
Se existe um a verdade fundam ental no m undo dos investim entos, é a seguinte: em presa que lucra, não quebra. E em presa cuj os lucros crescem constantem ente, no longo prazo, terão ações que valerão m ais no futuro do que no presente. Em presas que não lucram , ou que lucram m uito pouco, dificilm ente darão algum retorno significativo no longo prazo.
Por essa razão, um dos principais critérios que um investidor deve observar ao selecionar em presas para com por sua carteira de ações diz respeito ao crescim ento do lucro por ação ao longo do tem po. Se o lucro de um a em presa cresce com consistência ao longo de anos a fio, as cotações de suas ações tam bém acom panharão o seu crescim ento no longo prazo. E em presas sólidas conseguem m anter o crescim ento do seu lucro líquido - e, por conseguinte, do seu lucro por ação, por um período bastante duradouro.
O lucro por ação é um indicador que pode ser calculado facilm ente: basta dividir o lucro líquido da em presa pelo núm ero total de ações de um a com panhia. Por exem plo, se um a ação tem 100.000 ações e lucrou R$ 5.000.000 no últim o ano, basta dividir R$ 5.000.000 por 100.000, o que resulta em um lucro por ação de R$ 50,00. Ou sej a, cada um a das 100.000 ações da com panhia tem um a participação nos lucros da em presa equivalente a R$ 50,00.
E esse é um indicador im portantíssim o para avaliar o quanto efetivam ente deveria custar um a ação da em presa. No livro "The New Buffettology ”, os autores Mary Buffett e David Clark exploram esse ponto de um a m aneira bastante didática, a partir de um a m etodologia que, segundo eles, é utilizada por Warren Buffett para calcular o preço j usto de um a em presa a partir do crescim ento dos seus lucros. A m etodologia sugerida no livro é sim ples e direta: para estipular o preço j usto de um a ação, você deve descontar o crescim ento do lucro por ação a partir da m édia do crescim ento desse indicador nos últim os 10 anos. Por exem plo, digam os que a ação da em presa analisada tenha o seguinte histórico de lucro por ação:
Com o você pode observar, o lucro por ação tem apresentado um a tendência crescente. Houve, nos últim os dez anos, duas oportunidades em que o lucro por ação caiu, m as a sua tendência é crescente. Note ainda que estou desconsiderando outros fatores (dívida, crescim ento do valor patrim onial por ação, ROE, etc.) que o investidor tam bém deve observar, com o verem os em seguida.
O prim eiro passo a ser dado é definir o quanto o lucro por ação cresceu ao longo do tem po. É um a tarefa sim ples: divida o lucro por ação do últim o ano (2011) pelo lucro por ação do prim eiro ano (2001), e dim inua 1 do resultado final. No caso, a conta seria a seguinte:
Crescim ento do LPA = (5/1,2)-1 = 3,1666667 ou 316,67%
Isso significa que, em dez anos, o lucro por ação cresceu 316,67%. Agora, é preciso descobrir a taxa anual do crescim ento por ação.
Para fazer isso, você pode usar um a calculadora financeira ou um a planilha do Excel ou do Num bers, com o eu fiz. No Num bers, a fórm ula a ser usada é a seguinte: =POTÊNCIA(1+TAXA TOTAL DE CRESCIMENTO;1/10)-1. A TAXA TOTAL DE CRESCIMENTO é 316,67%; e o 1/10 significa que a planilha elevará a taxa total de j uros por 1/10, onde 10 é o núm ero total de anos da conta. Costum o utilizar os últim os 8 anos, m as o livro recom enda que se use ao m enos os 10 últim os anos.
Bom , o resultado dessas contas é 15,34% - ou sej a, o lucro por ação tem crescido a um a taxa de 15,34% ao ano.
A partir daí, é preciso considerar se o preço atualm ente pago pela ação é j usto ou não. Com o definir isso? O prim eiro passo, é estipular o P/L m édio que a ação apresentou nos últim os 10 anos. É possível obter esses dados em alguns sites na Internet, dos quais é possível extrair os preços m áxim os e m ínim os da ação a cada ano e, com isso, estabelecer o P/L m édio. No caso, considerei que o P/L m édio de nossa ação hipotética é 15.
Com esses dados, j á é possível estipular o preço j usto da ação. O prim eiro passo é proj etar o crescim ento do lucro por ação nos próxim os 10 anos, com base no crescim ento dos últim os 10 anos. Para fazer isso, é só elaborar um a planilha onde, a cada ano, o lucro por ação cresça com base na taxa proj etada de 15,34%. Com isso, e considerando que o P/L m édio dos próxim os 10 anos seria o m esm o que o de hoj e, o preço j usto a cada ano seria o seguinte:
Nessas condições , o preço j usto da ação, para 2013, seria R$ 86,50. Se a ação estiver valendo m enos do que isso, com prar não seria tão arriscado. Mais do que isso, seria m ais arriscado.
Essa é a abordagem sugerida no livro “The New Buffettology ”, de Mary Buffett e David Clark, m as prefiro adotar um a m etodologia um pouco diferente. Considero m uito arriscado proj etar que o lucro por ação dos próxim os 10 anos crescerá à m esm a razão que nos últim os 10 anos. Por isso, eu prefiro fazer um a m édia entre várias proj eções diferentes, estipulando um crescim ento diferenciado em cada cenário (e você pode testar vários cenários diferentes, conform e aquele que vá te deixar m ais confortável). O prim eiro cenário é o que eu cham o otim ista: o lucro por ação crescerá à m esm a razão dos últim os 10 anos. No nosso caso, cresceria à taxa de 15,34%. No segundo cenário, estipulo que o crescim ento se reduzirá à m etade (no caso, 7,67% ao ano). Com isso, a nova proj eção seria a seguinte:
Você percebe com o o preço j usto caiu consideravelm ente? Para 2013, caiu de R$ 86,50 para R$ 80,75. Quem com prou a ação por R$ 75,00, teria a expectativa de ganhar apenas 7,66% - algo em linha com a renda fixa.
O que eu faço, então? Estipulo um a m édia entre essas duas proj eções. Não acredito que a em presa vai crescer com o cresceu nos últim os 10 anos, m as tam bém não acho que ela vá crescer à m etade dessa proj eção. Com isso, o preço m édio para 2013 seria (80,75+86,50)/2 = 83,62. Caso com pre a ação por R$ 75,00 hoj e, seria possível obter um a rentabilidade m édia de 11,49%. Quanto m ais barato com prar, m aior a rentabilidade esperada.
A fórmula de Graham
Benj am in Graham tinha um a fórm ula que eu tam bém consulto para estabelecer o preço j usto. A fórm ula dele é a seguinte:
PREÇO JUSTO = LUCRO POR AÇÃO PROJETADO PARA O ANO SEGUINTE X (8,5 + (2 X TAXA DE CRESCIMENTO DO LUCRO POR AÇÃO)) X (4,4/TAXA DE JUROS DOS TÍTULOS PÚBLICOS)
No nosso caso, se estipularm os alguns cálculos com a Selic (hipoteticam ente) fixada em 7,25% ao ano:
Preço j usto = 5,77 x (8,5 + (2 x 15,34)) x (4,4/7,25) = R$ 137,20
Ou sej a, quem com prasse abaixo de R$ 137,20, estaria, em tese, com prando abaixo do preço j usto da ação. Tirando essas três m édias (R$ 80,75, R$ 86,50 e R$ 137,20), teríam os um preço j usto de R$ 101,48. Com o eu ainda adoto um a m argem de segurança de 25% sobre o preço j usto encontrado, o m aior preço que eu estaria disposto a pagar por essa ação seria de R$ 76,11.