Memória muscular: um estudo interdisciplinar sobre a performance no violoncelo

Introdução

 

Considerações iniciais e delimitação

do problema

Os violoncelistas praticam seus instrumentos durante quase toda a vida. Fazem isso muitas horas por dia e de maneira repetitiva, até alcançarem os objetivos musicais desejados. Sempre que possível, recorrem aos conceitos básicos da técnica instrumental aprendida, no intuito de aperfeiçoar seus movimentos, por exemplo, para aprender uma nova música ou aprender uma técnica mais avançada. Esse processo de aprendizagem depende do estudo por repetições, necessárias para a memorização e aperfeiçoamento dos movimentos. Porém, para muitos violoncelistas, o trabalho por repetição parece não trazer benefícios e a inconsistência e imprecisão dos resultados costumam gerar grande frustração. Uma afinação precisa no violoncelo, por exemplo, é um requisito mínimo para a performance musical profissional, o que, por vezes, parece inalcançável. Conhecer a melhor maneira de estudar, a quantidade ideal de horas, diariamente, quantas repetições são necessárias, o que fazer para estar sempre afinado e qual o motivo de, no dia seguinte, parecer que nada foi memorizado são, entre outras, questões recorrentes e comuns aos violoncelistas.

No contexto do estudo do violoncelo, muito conhecimento verbal foi transmitido ao longo das gerações, tendo o conhecimento da técnica passado por uma verdadeira seleção natural. Como resultado da prática, essa evolução por tentativa e erro ocorreu em todo o mundo, desenvolvendo escolas específicas de ensino violoncelístico que são seguidas ainda hoje. Essas escolas, em um mundo cada vez mais globalizado e compartilhado, começam a se fundir, porque professores e alunos podem escolher o que há de melhor em cada uma. Porém, ainda há muitas dúvidas sobre qual sistema é mais eficiente e otimizado para se estudar o violoncelo.

Após séculos de desenvolvimento dos aspectos particulares da técnica do violoncelo, entramos numa era de natureza interdisciplinar, ou seja, caracterizada pela busca de respostas em outras áreas do conhecimento. Nas últimas décadas, a Neurociência, Cognição, Psicologia Cognitiva e Educação Física avançaram muito nas pesquisas sobre a aprendizagem motora, incluindo memórias motora de precisão, principalmente nos estudos realizados com músicos. Essas pesquisas podem auxiliar sobremaneira na eficácia do aprendizado e da prática; o resultado poderá gerar uma proposta técnica e pedagógica inovadora de um sistema de aprendizado sensório-motor mais eficiente, baseado em informações científicas. Dessa forma, pretende-se que este trabalho sirva de referência para músicos e educadores, não só de violoncelo, mas também de outros instrumentos, a fim de que se evitem práticas de repetições prejudiciais e que a aprendizagem e a performance sejam otimizadas.

 

Objetivos

Esta pesquisa, de natureza bibliográfica, tem como objetivos:

Analisar os aspectos neurocientíficos e psicológico-cognitivos relacionados à memória muscular, ou seja, o aprendizado de memórias sensório-motoras de precisão;

Relacionar as informações pesquisadas, adaptando os conceitos de memória muscular com os aspectos da técnica, repertório e da performance violoncelística, desenvolvendo estratégias de estudo com esses novos resultados;

Desenvolver um sistema básico de aprendizado sensório-motor de precisão com base nos conhecimentos científicos adquiridos com o estudo.

 

Organização estrutural da obra

De modo introdutório, este capítulo contextualiza os pontos principais para composição e planejamento desta tese, por meio da delimitação do problema e da descrição dos objetivos.

O Capítulo 1 inicia com uma introdução sobre memória muscular seguida da delimitação do termo. Apresentam-se os fundamentos neurocientíficos da pesquisa, demonstrando-se, fisiologicamente, como o cérebro aprende e acessa novas memórias motoras e o que acontece em cada nível estrutural a partir do neurônio quando memorizamos. Discute-se a importância do sono e das emoções para a memorização e a possível localização das memórias motoras no cérebro.

No Capítulo 2 podem ser vistos aspectos ligados ao funcionamento da memória na visão psicológica cognitiva, entre os quais, as características funcionais e os tipos de memórias, organizados tanto pelo funcionamento quanto pelo tipo de informação. Na sequência, demonstra-se o funcionamento da memória de trabalho e a formação de chunks motores, como principal argumento para a formação do vocabulário motor.

O Capítulo 3 destina-se a apresentar cada um dos três Estágios da Aprendizagem Motora e como eles se aplicam em alunos de Violoncelo. No mesmo capítulo se evidencia a importância do Estudo Preliminar, cujo fundamento são estudos sobre a percepção da performance; também se aborda sobre a importância do estudo lento, com base em estudos sobre as características cognitivas da performance do erro como uma das principais ferramentas para a aprendizagem motora. O capítulo descreve, ainda, sobre a capacidade de atenção seletiva, requisito para precisão motora, e sobre a importância da repetição para o aprendizado motor. Apresenta estratégias de estudo e sugestões para o desenvolvimento de sistemas de aprendizado por repetição ou automatização.

Em seguida, no Capítulo 4, trata-se da aprendizagem da linguagem e a relaciona com a da música e com o papel do vocabulário, adaptando os conceitos de vocabulário motor ao repertório violoncelístico. Nesse processo são selecionadas as principais frentes de aprendizagem e construção de um vocabulário motor abrangente para o violoncelista: escalas, arpejos, cordas duplas, exercícios diários, estudos e repertório de formação. Ao final, são apresentados alguns exemplos e sugestões de soluções técnicas.

Encerra-se este trabalho com algumas conclusões advindas do estudo, nas quais são reforçadas, em síntese, as estratégias para a aquisição de competências motoras e, em atendimento ao objetivo que se delineou para a pesquisa, é sugerido um sistema sensório-motor de precisão para o estudo do violoncelo, com base nos dados e informações científicas coletados ao longo da pesquisa.