Memória muscular: um estudo interdisciplinar sobre a performance no violoncelo
2. Definição e tipos de memória
Definição de memória
A mente humana e a compreensão mais detalhada sobre o significado do termo memória e seus modelos de processamento no cérebro humano foram amplamente estudados no último século, o que resultou no surgimento de uma nova área, denominada de
psicologia cognitiva 1 , que, no entanto, tornou-se parte de uma disciplina maior chamada de ciência cognitiva (Cummins, 2000, p.14).
A ciência cognitiva inclui os campos da psicologia, filosofia, linguística, antropologia, neurociência e inteligência artificial (Gardner, 1985, p.37), e tem como objetivo descobrir as capacidades representacionais e computacionais da mente humana e suas realizações estruturais e funcionais no cérebro humano (Miller, 2003, p.144). Essa “revolução cognitiva” ofereceu oportunidade para que essa nova área da psicologia pudesse estudar os
[…] processos mentais humanos, incluindo pensar, resolver problemas e criar. […] Em segundo lugar, houve a demonstração, por diversos pesquisadores, de que os processos de pensamento humano eram caracterizados por notável regularidade e estrutura. (Gardner, 1999, p.19)
A ciência cognitiva era diferente do modelo teórico anterior, o behaviorismo (anos 1920 aos 1940), cuja concepção era de que o meio ambiente poderia exercer certo poder dominante no comportamento humano. Para o behaviorismo:
[…] os indivíduos eram vistos como refletidores passivos de várias forças e fatores de seu ambiente, diferindo da proposta cognitivista de que estes podem agir de certa maneira por causa de suas próprias ideias e intenções, ou porque seus aparatos cognitivos contêm determinadas
tendências estruturadoras autônomas.2 (Gardner, 1985, p.11-12, tradução nossa)
Após essa breve contextualização, partindo do estabelecimento da ciência cognitiva, o estudo da memória pôde atingir níveis mais profundos em busca de uma melhor compreensão sobre seu significado, características e funcionamento. A fim de conceituar o termo memória, Baddeley comenta que “a memória não é um órgão único como o coração ou o fígado, mas uma aliança de sistemas que trabalham juntos, permitindo-nos aprender com o passado e
predizer o futuro” (Baddeley, 2004, p.9, tradução nossa).3
O termo memória, em sentido mais amplo, diz respeito a vários processos e estruturas envolvidos no armazenamento e recuperação de experiências (Davidoff, 2001, p.205). Para Sternberg (2008, p.156), a memória abrange “[…] mecanismos dinâmicos associados com armazenagem, retenção e acesso à informação sobre a experiência passada”.
Com base nessas concepções, compreende-se que a localização do processamento e armazenamento da memória no cérebro humano não se limita a um único ponto. Pelo contrário, há uma gama variada de regiões cerebrais que estão envolvidas de alguma forma na retenção e na manutenção das informações. Diante desse fato, psicólogos estruturaram alguns tipos de memória a fim de estudá-la de maneira mais clara, sendo possível formular modelos que possam ser reflexos compreensíveis de seu funcionamento.
Tipos de memória
Como um meio de organizar e estruturar o conhecimento sobre a memória humana, Baddeley, Eysenck e Anderson (2010, p.6) defendem a existência de três tipos de memória, a saber: memória sensorial; memória de curto prazo; memória de longo prazo.
Outros tipos ou características da memória serão abordados como memória de trabalho e a formação de chunks (agrupamentos). Memória sensorial
Na percepção auditiva, o ambiente externo pode gerar uma grande quantidade de estímulos sonoros que ingressam à consciência via percepção auditiva, estimulando a memória auditiva,
iniciando-se na 4 memória ecoica , que “[…] é a persistência de uma grande quantidade de informações auditivas por um pequeno período de tempo, geralmente por volta de 250 ms, e provavelmente não mais que alguns segundos” (Snyder, 2000, p.19, tradução
nossa).5
A primeira fase do processamento de memória começa na memória ecoica, cujo período é muito curto, e cujo início do processo ocorre por meio de um grande número de células nervosas individuais do ouvido. Após a tradução dos estímulos físicos criados pela onda sonora para impulsos elétricos dos nervos auditivos, correspondentes à amplitude e frequência, características acústicas fundamentais do som são extraídas por neurônios com funções especializadas e que trabalham em paralelo a fim de estabelecerem uma categorização perceptiva (ibidem, 2000, p.7 e 19).
Na percepção visual, a memória icônica (equivalente visual da memória ecoica) também guarda informação visual por um período de tempo muito curto, que pode ser transferida para armazenagem, ou pode ser apagada. O apagamento ocorre quando outra informação se sobrepõe a essa antes que haja tempo suficiente para a transferência de informações para a armazenagem (Sternberg, 2008, p.163).
Para a 6 psicologia funcional existe distinção entre memória primária e memória secundária. A memória primária é a que contém a informação imediatamente presente na consciência, e desaparece no decorrer de poucos segundos, se não for tomada pela atenção. Por outro lado, a memória secundária refere-se à recuperação das informações que já não habitam mais na consciência (Exner apud James, 1980, p.646). Essa diferença indica a distinção moderna entre memória de curto prazo e memória de longo prazo (Brady; Konkle; Alvarez, 2011, p.1).
Memória de curto prazo
A memória de curto prazo é o segundo sistema da memória em que as informações são temporariamente armazenadas (Kalat, 1999). De acordo com Davidoff (2001), é o centro da consciência. Snyder (2000) refere-se a ela como uma memória imediata, mas menos permanente, pois, se as informações não forem repetidas, se perdem após alguns segundos (em média, de 3 a 5 segundos).
George Miller sugeriu que a memória de curto prazo possui uma capacidade de armazenagem de mais ou menos duas informações entre sete. Isto significa que, além de sua capacidade temporal, há uma limitação do número de informação que ela pode processar (Miller, 1956). Uma informação pode ser algo simples, como um dígito, ou algo mais complexo, como uma palavra. Mesmo sendo sequências ou combinações de dígitos que formam palavras ou grupos numéricos, possivelmente serão retidos na memória de curto prazo, se somarem entre cinco e nove blocos de informação, também chamados de agrupamentos ou chunks (Sternberg, 2008, p.164).
Chunking
Motor chunking7 é um dos principais argumentos para a representação hierárquica das habilidades motoras. Proposto por Lashley, em 1951, o conceito de motor chunking ficou novamente em evidência nos últimos anos. Com a aprendizagem, somada à habilidade de concluir a sequência de forma mais rápida e mais precisa, a performance começa a mostrar formações de agrupamentos temporais específicos ou chunks (Sakai et al., 2003). Movimentos elementares que são ligados em um chunk são recuperados mais rapidamente e com mais precisão do que quando o nível de seleção os aciona individualmente (Rosenbaum et al., 1983). Além de uma produção sequencial mais fluente, essa organização hierárquica também tem vantagem de que chunks adquiridos podem ser usados no contexto de novas sequências motoras (Sakai et al., 2003).
Um grande desafio para os pesquisadores é identificar onde começam e onde terminam os chunks a partir de dados comportamentais. Considerando que as abordagens de pesquisas mais antigas exigem uma média entre as tentativas, os métodos recentes são capazes de detectar chunks em um nível de avaliação mais preciso (Wymbs et al., 2012). Tem sido proposto um modelo estatístico que combina tempos de resposta e taxas de erro para detectar os limites de chunks com alta precisão. Essa abordagem permite a detecção automática de mudanças em estrutura de chunks, ao longo da aprendizagem, e fornece provas, não só para a separação de sequências em chunks, mas também para o aumento do comprimento dos chunks com a aprendizagem, em sequências concatenadas (Acuna et al., 2014).
Em um nível neural, a formação de chunks é provavelmente distribuída através do córtex pré-motor. Um estudo recente em camundongos mostrou padrões de disparo que sugerem um papel importante dos gânglios basais na seleção e performance dos chunks (Jin et al., 2014). Essas descobertas são acompanhadas por experimentos de neuroimagem humana que identificam sequências de elementos motores adjacentes em um chunk, e que estão relacionadas com aumento de sangue na atividade de oxigênio no putâmen bilateral (Wymbs et al., 2012). Estimulações não invasivas em humanos também demonstraram que o pré-SMA (SMA = área motora suplementar) é crucial para a iniciação do chunk. Esses resultados indicam que os gânglios da base, SMA e pré-SMA, desempenham um papel importante em uma representação de chunks de movimento, consistente com os papéis propostos de representações do nível de seleção e nível intermediário das habilidades motoras (Kennerley et al., 2004).
A formação de chunks na memória
Como afirmado anteriormente, a formação de agrupamentos de habilidades motoras envolve processos hierárquicos. As características provenientes dos movimentos são resultados de suas qualidades que buscam explicar como a percepção (auditiva, tátil ou visual) é organizada no tempo ou no espaço. É possível explicar essas qualidades por meio da proposição de alguns princípios de percepção, dentre os quais a proximidade (tendência de se formar agrupamentos que estão próximos no tempo ou no espaço), a similaridade (tendência de agrupar tendo em vista seus pontos em comum) e a continuidade (tendência de se perpetuar o movimento em uma determinada direção) (Gardner, 1985; Luccio, 2011; Snyder, 2000; Sternberg, 2008). Conforme observado por Miller,
[…] uma vez que a extensão da memória apresenta um número fixo de agrupamentos, podemos ampliar o número de dígitos de informação que eles contêm simplesmente por meio da construção de agrupamentos cada vez maiores, cada agrupamento contendo mais informações do que antes.
(Miller, 1956, p.93, tradução nossa)8
Por exemplo, não seria possível o armazenamento de 31 dígitos numéricos na memória de curto prazo, deste modo: 001001100111001111001110011001. No entanto, se estes números forem agrupados em blocos menores, como: 001 0011 00111 001111 00111 0011 001, possivelmente serão reproduzidos com mais facilidade. Contudo, uma sequência de letras como úemsuisacientficasobrepmieóriademcosprofsisíqsionais, estariam dispostas de maneira inadequada para serem armazenadas na memória de curto prazo, mesmo fragmentadas em agrupamentos, como úems uisa cien etc. No entanto, se as letras forem dispostas numa outra sequência, por exemplo: pesquisa científica sobre memória de músicos profissionais, seriam criados sete agrupamentos com maior possibilidade de serem interiorizadas por esse nível de memória (Silva, 2015).
As características que delimitam os chunks se justapõem. Por exemplo, as características rítmicas de proximidade auxiliam na percepção das características de proximidade da altura, ou, ainda, os elementos que expressam a continuidade das alturas podem melhorar a percepção da continuidade do ritmo. Da mesma forma, a sobreposição de princípios que regem o mesmo agrupamento contribui para solidificar os seus limites. Por exemplo, ao mesmo tempo que se percebe a proximidade dos objetos, nota-se sua natureza de similaridade ou de continuidade. O mesmo pode ser aplicado à memória de habilidades motoras.
Para dar um exemplo em música, a aprendizagem de uma sequência motora, como a de tocar uma simples escala de Dó maior no violoncelo, pode ser dividida em vários níveis de chunks. Em um primeiro nível de agrupamento tem-se o simples movimento de tocar o primeiro dedo na corda Dó: [Dó Ré], corda solta e primeiro dedo. Esse mesmo movimento será executado logo depois na corda Sol, definindo a 1ª. variação do chunk inicial, e ambos também serão tocados em ordem descendente, formando novas variações do chunk inicial.
Em um segundo nível de chunks tem-se: [Dó Ré Mi Fá] + [Sol Lá Si Dó]. O primeiro chunk gera uma base motora similar para
segundo, como se pode ver na Figura 18. O movimento motor é exatamente o mesmo, mudando apenas da corda Dó para a corda Sol, ou seja, o segundo chunk é uma variação muito aproximada do primeiro. A soma dessas duas sequências gera um novo nível de chunk, a escala de Dó maior ascendente, que, por sua vez, em uma ordem descendente, gera outra variação, a escala de Dó maior descendente. Por fim, tem-se um novo nível de chunk, a escala de Dó maior. Novas hierarquias de chunks podem ser formadas a partir desse chunk final, formando um vocabulário inicial de níveis e subníveis desses chunks iniciais, que podem ser reutilizados. Por exemplo, a sequência de dedos 0 e 1, e sua inversão, o chunk inicial
que aparece em cada compasso, na Figura 18, pode ser utilizado em muitas outras escalas ou melodias.
Figura 18 – Escala de Dó maior – Formações de Chunks
Fonte: elaboração própria
Como exemplo dentro do repertório violoncelístico, segue um trecho do quarteto “A Morte e a Donzela”, de F. Schubert, em que os dois primeiros compassos servem como chunk motor para o aprendizado do terceiro e quarto compassos, porém, com apenas duas variações: o segundo movimento (3º e 4º. compassos) ser uma quinta acima, ou seja, o mesmo movimento feito na corda Sol é transferido para corda Ré; o Sol natural do terceiro compasso, abrindo o primeiro dedo em um semitom, modificando ligeiramente o movimento motor.
Figura 19 – Trecho do terceiro movimento do quarteto “A
Morte e a Donzela” de F. Schubert
Fonte: Schubert, F. (2006).
Assim, um chunk é uma representação em nível intermediário das habilidades motoras, que garante flexibilidade, eficiência e precisão na aprendizagem dessas habilidades. Mas esses blocos de informações, armazenados pela memória de curto prazo, precisam ser continuamente reforçados na consciência, para que não caiam no esquecimento. Dessa forma, a informação que não for perdida será conduzida à memória de longo prazo.
Memória de longo prazo
Os eventos que acontecem além de 3 a 5 segundos não podem ser relacionados imediatamente, mas somente por meio de uma ação mental retrospectiva, isto é, por meio da lembrança. A atuação da memória de longo prazo abrange “[…] a habilidade de relembrar coisas que aconteceram algum tempo atrás, ou que nós aprendemos algum tempo atrás (geralmente mais do que alguns
minutos, e até uma vida toda) 9” (Levitin, 2002, p.296, tradução nossa). De acordo com Snyder,
[…] nossas memórias de longo prazo necessitam ser inconscientes: se todas elas estivessem em nossa consciência, não haveria espaço para o presente […] estímulos repetidos mudam a força das conexões entre os
neurônios ativados simultaneamente10 (Snyder, 2000, p.69, tradução nossa).
Entende-se que há diversos níveis de associação entre os neurônios estimulados de forma sincronizada, cuja unidade básica é um agrupamento (chunk). Os eventos que ocorrem próximos no período de tempo, ou então que são compreendidos como formas semelhantes de memória podem se conectar entre si e estabelecer associações, pois estas são vistas como conexões neurais facilitadas. De acordo com Jäncke, a memória associativa é “[…] um sistema de memória em que um pedaço específico de informação da memória está ligado a outras informações da memória por
vínculos associativos” (Jäncke, 2008, p.2, tradução nossa). 11
Uma informação presente na memória pode acessar outra com a
qual tenha estabelecido algum nível de associação ( 12 cuing ). A habilidade motora de uma passagem musical pode remeter a um exercício técnico, estudo ou uma outra obra estudada anteriormente, por meio da ativação de neurônios associados. O processo de ativação significa trazer à consciência o que está provavelmente semiativado na memória de longo prazo. De acordo com Snyder,
O processo de cuing […] é um mecanismo importante pelo qual são recuperadas memórias de longo prazo maiores. Nós temos visto que as memórias são armazenadas em agrupamentos, que são bem limitados em tamanho, mas que um elemento de um agrupamento pode atuar como uma deixa (ou um sinal de entrada) para outro agrupamento, conectando-
os juntos em um desdobramento de sequências de associações.13 (Snyder, 2000, p.70, tradução nossa)
São três os tipos de cuing listados por esse autor:
1. recordação: quando se busca a recuperação de memória de
forma intencional. Diante da partitura há a recuperação dos
padrões motores relacionados a alturas e ritmos aprendidos anteriormente e armazenados na memória;
2. lembrança: quando uma memória associada é ativada
automaticamente por um determinado fato. Diante da partitura todos os padrões, incluindo os motores, ligam-se automaticamente a padrões iguais ou semelhantes de movimentos aprendidos anteriormente.
3. reconhecimento: quando um evento atua como o seu próprio
cue. Há o reconhecimento dos padrões criando-se uma imagem significativa do movimento (Snyder, 2000).
Pode ser razoável pensar que os três tipos de cuing atuem com certa simultaneidade a fim de que a informação possa ser recuperada de forma significativa. Por exemplo, diante da partitura, o músico busca recordar, ouvir internamente as relações de alturas melódicas, harmônicas e rítmicas, relacionando às habilidades motoras por meio do estímulo visual. Os padrões que tenta recuperar foram armazenados em agrupamentos que se associam aos imaginados no momento da leitura. Essa atividade leva ao reconhecimento do que está sendo representado na mente com o que se vê na partitura musical. A consciência do que se imagina poderá gerar associações automáticas com padrões de outras obras musicais, estudos ou exercícios, trazendo-os à lembrança, o que pode acontecer aproximadamente ao mesmo tempo (Silva, 2015).
Se as informações armazenadas na memória de longo prazo não puderem ser recuperadas e trazidas de volta à consciência, tornam-se como as que foram perdidas pela falta de reforço na memória de curto prazo. Por isso, o sistema de ativação de grupos de neurônios associados, os chunks, é imprescindível e revela a importância da atuação de um modelo integrador de processamento da memória (Sternberg, 2008).
Classificação por tipos de informação
O cérebro é capaz de armazenar diversas informações diferentes e utiliza várias de suas partes para executar o processo de memorização. Segundo Izquierdo (2004), com relação aos conteúdos, pode-se dividir a memória de longo prazo pelos tipos de informações que interagem e se complementam:
memória declarativa (ou explícita) faz parte da memória permanente e é aquela que pode ser declarada, como fatos, nomes, acontecimentos e pode ser episódica (eventos com data) ou semântica (significado de palavras). memória procedural (ou de procedimentos) é aquela que evoca habilidades, hábitos, dicas de palavras, objetos, associações, a aprendizagem baseada em não-associações e as aprendidas de modo mecânico. Aprender a dirigir ou tocar um instrumento musical são exemplos do uso dessa memória. memória adquirida por dicas (priming ou memória de representação perceptual) é caracterizada por uma imagem que relembra eventos; tão logo é vista, antes mesmo da compreensão do evento, o significado da imagem já é identificado.
memória associativa e memória não associativa estão ligadas a alguma resposta ou comportamento. A associativa é usada quando, por exemplo, ao olhar para um alimento saboroso tende-se a salivar, pela associação da lembrança do cheiro, sabor ou aspecto desse alimento. Já a memória não-associativa é aquela em que se aprende sem perceber. Ex.: O latido de um cão não traz riscos, fato que pode ser ignorado.
A memória procedural, classificação que também corresponde à memória muscular, permite que ações de movimentos musculares sejam executadas com o recurso de padrões automatizados, que tendem a reproduzir-se com grande precisão. A memória procedural, portanto, permite que o corpo interaja de forma eficiente e rápida com o ambiente, de forma adaptada às tarefas ou necessidades. Ela é fruto de mecanismos de preservação da espécie, voltados à simplificação do controle de um sistema tão complexo quanto o aparelho locomotor, e incorpora nos padrões armazenados as características relevantes para o movimento, relativas tanto ao indivíduo como à atividade e também às ferramentas utilizadas (Sacks, 2007), como o violoncelo.
Memória de trabalho
Richard Atkinson e Richard Shiffrin, em 1968, utilizaram pela primeira vez o termo memória de trabalho, para explicar a existência de um sistema de manutenção temporária e de manipulação da informação que auxilia na execução de inúmeras tarefas complexas. Segundo esses pesquisadores, não há distinção entre memória de curto prazo e memória de trabalho (Sternberg, 2008). Para eles, além de possuir um papel importante quanto à alimentação de informações para dentro e para fora da memória de longo prazo, a memória de curto prazo também age como memória de trabalho, selecionando e elaborando estratégias durante o reforço (ou repetições), servindo como um espaço para a realização de tarefas cognitivas.
Sternberg destaca outros modelos contrastantes de memória de trabalho e os considera como “[…] parte da memória de longo prazo, a qual é composta de todo o conhecimento de fatos e procedimentos recentemente ativados na memória, incluindo a memória de curto prazo breve e fugaz e seus conteúdos” (Sternberg, 2008, p.169).
A memória de trabalho permite que uma informação permaneça ativa na mente, esteja acessível e possa ser manipulável, a fim de apoiar a realização de tarefas cognitivas que estejam em andamento (Brady; Konkle; Alvarez, 2011; Suchow et al., 2014). Seguindo a mesma linha de pensamento, Snyder estabelece a seguinte distinção:
A memória de trabalho se distingue da memória de curto prazo na medida em que ela se constitui de processos de ativação de inúmeros níveis, incluindo o foco de consciência consciente, não somente armazenagem de curto prazo. (Memória de curto prazo é um dos componentes da memória
de trabalho). (Snyder, 2000, p.48, tradução nossa)14
Na Figura 20, tem-se um diagrama que sintetiza o modelo de memória de trabalho e os níveis de processamento.
Snyder (2000) desenvolveu esse diagrama que evidencia as relações entre os processos de memória sensorial, memória de curto prazo (MCP), memória de longo prazo (MLP), e memória de trabalho. A imagem mostra as ações perceptivo-cognitivas envolvidas durante a atuação da memória de trabalho. De modo geral, não é possível afirmar que haja uma ordem de início dos eventos relativos ao processamento da memória de trabalho, isto é, ela pode ser ativada tanto por estímulos perceptivos recolhidos do ambiente externo quanto por meio do trabalho cognitivo de recuperação de informações localizadas na memória de longo prazo (Snyder, 2000, p.49).
Figura 20 – Diagrama da memória de trabalho
Fonte: adaptada de Snyder (2000, tradução nossa)
Para fixar uma informação importante, é preciso decorar ou aguçar os sentidos, a exemplo do que acontece quando um trecho musical é repetido várias vezes. Essa informação, que estava na memória de curta duração, passa para a memória de trabalho e, em
seguida, para a memória de longa duração. O diagrama da Figura
20 evidencia um recorte da ação cíclica da memória de trabalho. Percebe-se uma consciência perceptiva das informações retidas momentaneamente pela memória de curto prazo.
Algumas informações presentes na memória de curto prazo podem ser ensaiadas ou praticadas (repetição), isto é, repetidas a ponto de se manterem na consciência e de serem armazenadas, de modo mais intenso, pela memória de longo prazo. Em algum momento elas podem ir em direção à essa memória, movendo-se para fora da consciência e pré-ativando novas associações que poderão se tornar, mais uma vez, informações vívidas, ou seja, por meio do retorno das informações à memória de curto prazo. As informações que chegam a esse nível de memória, tanto via consciência perceptiva (sensações originadas dos sentidos) quanto via memória de longo prazo (conhecimento), passam pelo foco da consciência consciente, a saber, a experiência consciente imediata no mais alto grau de ativação da informação (Snyder, 2000).
Segundo esse modelo de processamento da memória de trabalho, poderão ocorrer vários loops de feedbacks, estabelecendo-se novas possibilidades de associações de informações e gerando novos níveis de conhecimento. Por exemplo, a informação musical captada pela leitura da partitura poderá levar à consciência uma representação de sua sequência motora e, por meio dos cuings, estabelecer novas associações (Silva, 2015).
Como um exemplo musical violoncelístico da atuação dos tipos de memória, podem ser utilizadas as frases iniciais do concerto em Ré maior de J. Haydn:
Figura 21 – Início do primeiro movimento do Concerto em Ré
maior de J. Haydn para violoncelo e orquestra
Fonte: Haydn (1982)
Nos primeiros contatos com as notas do concerto, seja assistindo gravações ou nas primeiras tentativas de tocar, o violoncelista utiliza sua memória sensorial (visual, tátil e auditiva) para, nos primeiros segundos, reunir informações sensoriais motoras e transferi-las da consciência perceptiva para a memória de curto prazo. Após as primeiras repetições a memória de curto prazo se alimenta de informações (vocabulário motor) da memória de longo prazo, de agrupamentos (chunks) pré-existentes, para compor a memória motora desse novo trecho. O início do Concerto em Ré maior de Haydn é composto por fragmentos e sequências de notas correspondentes à escala e arpejos de Ré maior, arpejo de Lá maior (compasso 33), de Si maior (compasso 36) e escala cromática (compasso 30). Se previamente armazenada no vocabulário motor, a memória muscular desses arpejos e escalas fornecerá os chunks motores para essa nova passagem. A memória de trabalho poderá alimentar a memória de curto prazo com informações aprendidas de exercícios e estudos. É o caso dos compassos 30 e 38. No compasso 30 existe um golpe de arco chamado de staccato
volante15:
Figura 22 – Compasso 30 do 1º movimento do Concerto de
Haydn em Ré maior
Fonte: Haydn (1982)
Essa técnica é geralmente trabalhada (vocabulário motor)
utilizando-se os estudos de D. Popper n.14 (Figura 23) e n.32
(Figura 24), e, também, intensivamente, na Sonata em Ré maior de
P. Locatelli (Figura 25).
Figura 23 – Estudo n.14 de D. Popper
Fonte: Popper (1982)
Figura 24 – Estudo n.32 de D. Popper
Fonte: Popper (1982).
Figura 25 – Sonata em Ré maior de Pietro Locatelli
Fonte: Locatelli (1950)
No compasso 38 do Concerto de Haydn (Figura 26), existe uma passagem em cordas duplas, com variação rítmica na voz mais grave, em forma de acompanhamento:
Figura 26 – Compasso 38 do 1º mov. do Concerto em Ré
maior de J. Haydn
Fonte: Haydn (1982)
Essa também é uma técnica trabalhada em um dos estudos de D.
Popper, o estudo n.13 (Figura 27).
Jean-Louis Duport (1749-1819), em seu estudo n.6 do livro de 21 estudos para violoncelo, utiliza, intencionalmente, e como estratégia pedagógica, vocabulários motores (chunks motores) mais simples
para o aprendizado de técnicas mais avançadas. Veja-se na Figura
28.
Figura 27 – Estudo n.13 de D. Popper
Fonte: Popper (1982)
Figura 28 – Estudo n.6 do livro de estudos de Jean Louis
Duport
Fonte: Duport (1895)
Duport utiliza a repetição de pequenas sequências, idênticas em notas e arcadas, uma oitava acima da frase original, para aproveitar todo o aprendizado e memória muscular das posições mais fáceis (graves) nas posições mais difíceis e avançadas (agudas). Essas
passagens podem ser identificadas, na Figura 29, pelas mudanças de claves:
Figura 29 – Estudo n.6 de J. L. Duport, oito compassos
iniciais: repetições em oitavas
Fonte: Duport (1895)
Outro exemplo, no mesmo estudo, são os compassos 29 a 36
(Figura 30), nos quais Duport utiliza a repetição de sequências motoras idênticas, apenas modulando um tom acima, aproveitando a mesma memória motora aprendida:
Figura 30 – Estudo n.6 de J. L. Duport, compasso 29 a 36:
repetição um tom acima
Fonte: Duport (1895)
Outra conclusão importante, que se pode evidenciar através dos conhecimentos sobre o funcionamento da memória para movimentos motores, é a importância de se planejarem movimentos idênticos ou semelhantes, na mesma obra ou aprendidos anteriormente, para que tenham o mesmo dedilhado ou arcadas. Por exemplo, no repertório violoncelístico, é muito comum que o mesmo material musical apareça no desenvolvimento na tonalidade da dominante ou subdominante, o que resulta no mesmo movimento, idêntico ou semelhante, numa outra corda, tendo em vista que as cordas do violoncelo são afinadas em intervalos de quintas. São inúmeras as possibilidades de exemplos em que se aproveitam agrupamentos motores unificando dedilhados ou arcadas. No estudo n.8 de J. L. Duport, existem duas passagens com apenas uma quinta de distância, ou seja, os movimentos são idênticos com a única diferença motora de serem tocadas em
cordas diferentes. Porém, na edição da Figura 31, sugere-se que as passagens sejam feitas com dedilhados diferentes, tornando-as diferentes em mudanças de posição e mudanças de cordas, ou seja, dois movimentos já não mais idênticos para o aprendizado motor. Portanto, o ideal seria manter o mesmo dedilhado para as duas passagens.
Figura 31 – Duas passagens semelhantes do Estudo n.8 de
J. L. Duport
Fonte: Duport (1895)
O mesmo pode ser observado neste outro trecho (Figura 32) do mesmo estudo, em que a mesma passagem é repedida uma terça abaixo, sequencialmente, com movimentos bastante semelhantes. O editor também utiliza diferentes dedilhados para movimentos semelhantes, tornando-os diferentes, no intuído de facilitar uma das passagens. Porém, esse tipo de abordagem apenas cria mais variáveis de movimentos a serem aprendidos.
Figura 32 – Passagem do Estudo n.8 de J. L. Duport
Fonte: Duport (1895)
É preciso atentar, no entanto, para que essas otimizações motoras não limitem as possibilidades artísticas que o instrumento pode oferecer, de frases ou de timbres, por exemplo. Ainda assim, respeitar a maneira como o cérebro aprende esses movimentos, agrupados em cadeias e anteriormente aprendidos, planejando dedilhados e arcadas semelhantes, pode ser uma ferramenta poderosa para o estudo do instrumento.
Após o processo de repetição e de alimentação do controle motor com informações contidas na própria memória de longo prazo, o vocabulário aprendido com estudos de Duport e Popper, por exemplo, a passagem passa da memória de curto prazo para a memória de longo prazo, fixada por muito mais tempo no cérebro. É importante reforçar que esses acontecimentos não são lineares, mas acontecem simultaneamente, formando o looping de tarefas da memória de trabalho. O conhecimento desse processo de trabalho da memória reforça a necessidade de se adquirir um vocabulário motor abrangente para o aprendizado e para a performance do violoncelo, o que será abordado mais adiante neste trabalho.