Memória muscular: um estudo interdisciplinar sobre a performance no violoncelo

1. Memória muscular

O cérebro tem como função controlar toda atividade corporal. Boa parte dessa função diz respeito ao que o corpo faz de maneira automática e inconsciente, independentemente de se estar acordado ou dormindo. No momento em que se pensa algo ou em que surge alguma ideia, o cérebro já tem processado, anterior e inconscientemente, várias informações relacionadas a isso (Lent, 2010). Por exemplo, ao se ler uma frase cujas letras das palavras estejam trocadas, o cérebro processa automaticamente e consegue fazer a leitura correta das palavras, como nesta frase:

MU TRABALOH SOBER MEMIRÓA MUSCLUAR UO CÉRBERO AUTOMÁITCO

O cérebro tenta, constantemente, automatizar todos os processos comumente necessários, porque dessa forma ele é mais eficaz, mais rápido e mais preciso. Neste trabalho o termo cérebro automático será utilizado para tratar dessa habilidade. O corpo humano é controlado muito mais pelo cérebro automático, ou mente inconsciente, do que pela mente consciente. Escovar os dentes, vestir-se, mudar a marcha do carro ou digitar no computador com agilidade são atividades que o ser humano faz sem pensar, inconscientemente (ibidem, 2010, p.668). Quando se vê uma pessoa desconhecida, nas primeiras frações de segundos o cérebro automático já julgou a pessoa em diversos atributos, por exemplo, se ela é confiável, competente ou atrativa, antes mesmo de a consciência o ter feito. Com capacidade para fazer duas ou três atividades e processar apenas quatro ou cinco informações ao mesmo tempo, a mente consciente é extremamente limitada e é utilizada geralmente para processar informações novas e/ou importantes. Acredita-se que a mente inconsciente processa até duzentas mil vezes mais dados do que a mente consciente (Callegaro, 2011).

Durante a performance de um instrumento musical, não há tempo para que todas as informações importantes e necessárias para essa atividade sejam processadas, tanto as de aspectos técnicos quanto as de aspectos musicais, ou seja, essas informações precisam ser automatizadas para que a performance flua de maneira orgânica e convincente. Dessa forma, o músico fica livre para realmente senti-las e transmiti-las durante a performance. Este trabalho pesquisa o cérebro automático para memórias motoras, que aqui também será chamado de memória muscular, tão importante para a performance de um instrumento musical que depende de extrema precisão motora, como o violoncelo.

 

Delimitação do termo

O termo memória muscular pode suscitar alguma confusão, haja vista que, como qualquer objeto de estudo, pode ser concebido de formas diferentes, portanto, ter diversos significados, em diferentes áreas do conhecimento. Tome-se como exemplo o estudo sobre o cérebro: no modo de ver dos psicólogos, o cérebro é um órgão capaz de comandar o comportamento e a consciência; na visão dos neurobiólogos, trata-se de um conjunto de células que se tocam através de finos prolongamentos, formando trilhões de complexos circuitos; tem-se, ainda, a ótica dos neuroquímicos, para quem o cérebro é visto como reações químicas que ocorrem entre as moléculas existentes dentro e fora das células nervosas.

Memória muscular também pode ter diferentes significados, todos verdadeiros e igualmente importantes. Por exemplo, as áreas de educação física e biologia atribuem o termo à capacidade muscular de recuperar suas estruturas, força e tamanho mais rapidamente, após um longo período de inatividade e perda de massa muscular, a exemplo daqueles que sofreram alguma hipertrofia muscular, anteriormente (Gundersen, 2016).

Nesta pesquisa, o significado do termo que se utilizará para memória muscular é o da Neurociência Cognitiva:

A Neurociência cognitiva trata das capacidades mentais mais complexas, geralmente típicas do homem, como a linguagem, a autoconsciência, a memória etc. Pode ser também chamada de Neuropsicologia. É claro que os limites entre essas disciplinas não são nítidos, o que nos obriga a saltar de um nível a outro, ou seja, de uma disciplina a outra, sempre que tentamos compreender o funcionamento do sistema nervoso. (Lent, 2010, p.6)

Portanto, neste estudo, memória muscular está relacionada à aprendizagem motora de precisão do cérebro automático, conforme explicitado neste texto:

Aprendizagem de habilidades motoras geralmente se refere a mudanças neuronais que permitem que um organismo realize uma tarefa motora de maneira melhor, mais rápida ou mais precisa do que antes. Além dessa compreensão aceita do uso comum da palavra, há pouca concordância na literatura sobre uma definição científica mais precisa […] o termo aprendizagem de habilidades refere-se a melhorias na precisão ou velocidade em uma ampla variedade de tarefas, incluindo a série tempo de reação, toque de dedo sequencial rápido, controle de força sequencial, rastreamento visual, rastreamento, sinergia ou tarefas de configuração manual. Em contraste com a adaptação, o aprendizado de habilidades tipicamente envolve a geração de um novo padrão de movimento e é

caracterizado por mudanças na relação velocidade-precisão.1 (Diedrichsen; Kornysheva, 2015, tradução nossa)

Neste trabalho, apresentam-se informações de base neurofisiológicas, ainda que não se tenha o objetivo de aprofundar essa área da medicina, da fisiologia do sistema nervoso; a intenção é tão somente de cunho informativo, tendo em vista os estudos com músicos, cujas abordagens servirão, mais adiante, neste trabalho, para ilustrar as regiões cerebrais de funções motoras e de funções relacionadas à performance de um instrumento musical. Essas informações de base neurofisiológicas também são utilizadas para explicitar como as estruturas do sistema nervoso sofrem modificações a cada simples tentativa motora ou repetição de movimentos comuns na prática de um instrumento, desde as menores, como o neurônio, até as maiores, como o cérebro, o encéfalo e os sistemas periféricos. Essas informações são de grande importância para fundamentar os conceitos científicos relativos a este trabalho, como vocabulário motor, estudo preliminar e a importância de repetição e do estudo lento para o aprendizado.

 

Como tudo acontece no cérebro

Estima-se que o cérebro humano contenha um impressionante

total de 86 bilhões de neurônios, 2 com conexões múltiplas (cerca de mil a dez mil conexões em cada neurônio, alguns deles podendo

alcançar vinte mil conexões) chamadas de 3 sinapses , emaranhados por todas as direções possíveis. Eles formam, desse modo, a vasta rede celular, cerca de cem trilhões de conexões possíveis, que faz com que as pessoas sejam capazes de pensar e de desenvolver a consciência. Com a ajuda da neurociência, hoje é possível saber que aprender uma nova habilidade motora, como tocar violoncelo, muda literalmente as estruturas físicas contidas no nosso cérebro e que, com o envelhecimento, essa aprendizagem fica cada vez mais difícil (Lent, 2010).

Com a prática de uma nova habilidade motora, os axônios de neurônios utilizados com mais frequência para executar essa

habilidade começam a se transformar. O axônio (Figura 1) é o prolongamento dos neurônios, responsável pela condução dos impulsos elétricos que partem do corpo celular até a outra extremidade, que pode se conectar a outro neurônio ou um músculo. Alguns axônios de neurônios de um humano adulto podem chegar a um metro de comprimento (ibidem, 2010).

Figura 1 – Neurônio

 

Fonte: http://nerdscolam.blogspot.com/2016/06/tecido-

nervoso-neuronio-machado.html

Essa maior atividade nos axônios atrai a atenção de células

chamadas oligodendrócitos (figuras 2 e 3), que constroem esses reforços ao redor do axônio, chamados de bainha de mielina,

formada por 4 células de Schwann (cf. figuras 1 e 2), células essencialmente de gordura, transformando o axônio em uma espécie de cabo condutor mais espesso, formando uma rede de

neurônios fortalecidos. Essa grande rede de neurônios mielinizados5 chama-se de matéria branca (ibidem, 2010).

Figura 2 – Oligodendrócito construindo a bainha mielina com

células de Schwann

 

Fonte: https://www.dailymotion.com/video/x6syf9h

Figura 3 – Oligodendrócitos

 

Fonte: https://docplayer.com.br/1918803-tecido-nervoso-1-

introducao.html

Na Figura 4, é possível ver os neurônios de ratos sendo mielinizados, em uma imagem capturada com contraste.

Figura 4 – Neurônios de ratos sendo mielinizados, indicados

em contraste

 

Fonte: https://www.dailymotion.com/video/x6syf9h

Esse processo de mielinização aumenta a velocidade do sinal elétrico, transmitindo impulsos elétricos até cem vezes mais rápido. Isso significa, por exemplo, que os neurônios motores da medula espinhal podem enviar um impulso de comando para os músculos de seu polegar em aproximadamente vinte milésimos de segundo (ibidem, 2010). Esse é o processo que cria a sensação de que tudo está no seu devido lugar, como no caso de quando um instrumentista toca algum trecho musical que foi muito praticado. Com os axônios mais revestidos, transmitindo informações muito mais rapidamente, uma nova habilidade se torna fácil, demonstrando quão importante é o processo de mielinização para a aprendizagem motora. Mesmo quando adultos, não se domina uma nova habilidade motora sem passar por esse processo. É exatamente o que ocorre na primeira infância, quando se aprende a andar, falar, escrever e tocar, atividades que são automáticas. Todos têm a habilidade de aprender novas atividades motoras, porém, isso se torna mais difícil à medida que ficamos mais velhos.

 

Aprendizado nas crianças

Há diferenças de aprendizado motor de uma criança em comparação com o de um adulto. As crianças aprendem tudo muito mais rápido por terem uma vantagem biológica distinta dos adultos, o que ajuda a explicar a preferência de professores de música por ensinar um instrumento ainda na infância.

Toda a matéria branca forma estruturas subcorticais que atuam interligando áreas encefálicas, sem as quais toda a atividade inteligente do córtex seria esparsa e descoordenada. As mensagens ou comandos provenientes do córtex seguem por esses feixes de fibras brancas que as carregam para áreas específicas, formando as redes neurais, que correspondem a cerca de metade do volume cerebral.

A matéria branca (figuras 5 e 6) é produzida em maior quantidade nas crianças; à medida que elas crescem, essas redes neurais tornam-se mais fixas e com menos recursos (Rhoton, 2007).

Figura 5 – Matéria branca: corte coronal (vertical)

 

Fonte: https://meucerebro.com/redes-neurais-substancia-

branca/

Figura 6 – Ressonância magnética do cérebro: corte axial

(horizontal): (1) hemisfério cerebral; (2) matéria cinzenta; (3)

matéria branca

 

Fonte: http://w-radiologia.pt/ressonancia-magnetica-

cerebral.php

Ao longo de toda a vida, o ser humano desenvolve habilidades fundamentais, aprendendo a controlar o corpo para executar tarefas complexas e se comunicar. Esse processo transforma crianças indefesas em indivíduos altamente qualificados, capazes de navegar pelo complexo mundo social, interpretando emoções e pensamentos, adaptando-se a um ambiente em constante mudança, remodelando-se, literalmente, para lidar com todas as demandas que se apresentem. Todo esse aprendizado tem fundamental importância no cérebro, relativamente à memória e seu complexo funcionamento, que será a próxima abordagem.

 

Como são arquivadas as memórias

É fundamental saber como são arquivadas as memórias e, posteriormente, como recuperá-las. Para aprender uma nova palavra, por exemplo, é enviada para o cérebro uma informação sensorial através dos olhos, dos ouvidos, da pronúncia da palavra em voz alta e aprendendo o significado dela. Todos esses sentidos estimulam – inclusive na execução de uma música – diferentes

partes do cérebro (Figura 7), quais sejam:

Figura 7 – Córtex auditivo, córtex visual e lobo temporal

anterior

 

Fonte: http://www.clker.com/clipart-anterior-temporal-

lobe.html

1. o córtex visual, que processa a informação que chega da retina

para a formação da memória visual.

2. o córtex auditivo, que é responsável pelo processamento da

informação auditiva vinda da cóclea, no ouvido interno.

3. o lobo temporal anterior, onde reside o senso de significado e é

responsável por armazenar os eventos passados. Nele está localizado o neocórtex temporal, uma região potencialmente envolvida com memória de longo prazo. Aqui também se encontram estruturas relacionadas à memória declarativa (ver “Tipos de memória”), ou seja, aquela em que se guardam fatos e eventos.

Para gravar uma nova memória, as conexões entre essas três partes distintas precisam ser fortalecidas gradualmente, formando um mapa para cada memória, um padrão único, codificado e

armazenado pelo cérebro. Na Figura 8 visualiza-se uma imagem real do início do processo de criação de uma memória. Os pequenos pontos brancos são moléculas de RNA mensageiro preparando-se para capturar a memória, viajando pelos neurônios até seus pontos de junção.

Figura 8 – mRNA (ácido ribonucleico mensageiro) viajando

dentro de uma célula cerebral viva 6

 

Fonte:

http://www.einstein.yu.edu/news/releases/968/watching-

molecules-morph-into-memories/

O mRNA permanece na sinapse até ser ativada por um impulso sensorial, como a repetição do som de uma nova palavra ou de movimento. Isso desencadeia a produção de novas proteínas estruturais que fortalecem as conexões nas sinapses. Quanto mais

forem ativados, mais fortes serão as conexões (Figura 9).

Figura 9 – Fortalecimento das conexões nas sinapses

 

Fonte: https://www.dailymotion.com/video/x6syf9h

 

Engrama: a unidade e a localização da

memória

Também chamado de traço mnésico ou “traço de memória”, o engrama cerebral é o traço ou caminho permanente deixado por um estímulo no tecido nervoso (rede neural), considerado também a representação física de uma memória. É o circuito nervoso facilitado, resultante de aprendizado, experiência ou treinamento (repetição), no qual as sinapses interneuronais se tornam mais amplas, mais secretantes de neurotransmissores e mais ricas em receptores pós-sinápticos, e, portanto, capazes de transmitir mais rapidamente e intensamente os impulsos, estabelecendo a memória consolidada. O engrama cerebral é também a representação física da localização de uma memória. Uma habilidade aprendida e executada várias vezes deixa uma marcação no córtex motor. Engramas utilizados para movimentos extremamente rápidos são chamados de engramas motores. Quando há uma situação parecida com outra “memorizada” anteriormente no cérebro, esses engramas lançam mão dos mecanismos de ajuste para adequar o movimento aprendido anteriormente ao movimento necessário no momento atual (Lebra, 2011), descrição fisiológica da formação dos agrupamentos de memórias motoras ou chunks (ver em “Tipos de Memórias”).

A fragilidade das recordações recentes é sempre maior que a das recordações antigas, sugerindo uma localização diferente ou alguma estratificação da memória em função do tempo. Parece haver independência entre a estocagem de curto e a de longo prazo. A aquisição mnésica em duas etapas sucessivas (registro e consolidação) sugere a existência de dois mecanismos fisiológicos. Investigações recentes sugerem que a fase de memorização (registro) depende de um processo de caráter eletrofisiológico, enquanto a fase de consolidação depende de um processo bioquímico. A ativação (repetição) determinaria a formação de novas sinapses e a hipertrofia das já existentes (Lent, 2010).

As possibilidades de uma informação ser gravada estão fortemente ligadas às emoções associadas a essa informação, o

que explica o papel do 7 sistema límbico no funcionamento da memória. A memorização (formação de engramas) ocorreria principalmente no sistema hipocampo – corpo mamilar – e, posteriormente, os engramas seriam transferidos para o neocórtex. Portanto, a memória não pode ser atribuída a uma região encefálica determinada, mas de múltiplos circuitos neuronais e estruturas corticais e subcorticais (Lebra, 2011).

Nicolelis (2011) defende a visão neurocientífica distribucionista, segundo a qual o cérebro trabalha como um todo integrado, com várias áreas de processamento em paralelo, distribuído em populações de neurônios, em contradição com a visão localizacionista, cuja concepção é de que existem áreas cerebrais especializadas em certas funções mentais, que buscam prever habilidades psicológicas a partir de assimetrias cranianas. Metáforas como a das tempestades cerebrais são muito utilizadas para demonstrar que o “reducionismo” não é o caminho correto para os estudos do cérebro; segundo esse mesmo autor e neurocientista, o correto é considerarem-se populações de neurônios como a unidade funcional do cérebro. Através dos inúmeros dados experimentais apresentados em sua pesquisa, Nicolelis sugere que se deva adotar o distribucionismo e suas consequências, como modelo.

[…] o cérebro humano também é um escultor relativístico; um habilidoso artesão que delicadamente funde espaço e tempo neuronais num continuum orgânico capaz de criar tudo que somos capazes de ver e sentir como realidade, incluindo nosso próprio senso de ser e existir. […] nas próximas décadas, ao combinar essa visão relativística do cérebro com nossa crescente capacidade tecnológica de ouvir e decodificar sinfonias neuronais cada vez mais complexas, a neurociência acabará expandindo a limites quase inimagináveis a capacidade humana, que passará a se expressar muito além das fronteiras e limitações impostas tanto por nosso frágil corpo de primatas como por nosso senso de eu (Nicolelis, 2011, p.22).

A pesquisa de ponta desse autor mostra que máquinas podem “ler pensamentos” e traduzi-los em comandos computacionais, fazendo com que até um primata, em seu laboratório, controle um robô do outro lado do mundo, demonstrando como o cérebro cria o pensamento, a noção que o ser humano tem de sua própria existência e como essa existência pode ser incrementada com o auxílio de máquinas. Mas o debate sobre o funcionamento do cérebro, sobre o modo como fisiologicamente funciona a memória e sua localização ainda está longe de ser encerrado.

 

É durante o sono que se memoriza

Para realmente fixar novas memórias, eventualmente, é necessário que as atividades sejam paradas e se durma. Descobriu-se, recentemente, que o cérebro fortalece ativamente as redes neurais de memória durante o sono e, praticamente, dobram-se as chances de lembrar o que foi aprendido. Segundo Cairney (2017), existem cinco diferentes fases do sono, algumas com funções vitais que não podem ser alcançadas quando se está acordado. Uma dessas funções críticas é ajudar a fixar as memórias. Acredita-se que durante o sono o cérebro seleciona quais memórias irão permanecer e quais irão se perder. Para comprovar esse fato, Cairney desenvolve um experimento em que aplica uma série de testes psicológicos com os participantes.

Trata-se do seguinte: em uma tela de computador os participantes viam uma figura, ao mesmo tempo que ouviam uma palavra e tentavam associá-las. Por exemplo: ouvem a palavra “faca” e veem a figura de uma maçã. Numa sala preparada, o participante dorme e, durante esse sono, é monitorado por um eletroencefalograma (EEG) até atingir a fase do sono de ondas lentas, fase crítica para a formação da memória. Nesses momentos, são reproduzidas algumas das palavras que o participante aprendeu anteriormente, em áudio, no quarto em que ele dorme. O experimento mostrou que as palavras escutadas durante o sono foram mais fáceis de lembrar quando associadas às imagens fortalecidas. Os resultados evidenciaram, também, que os participantes que dormiram tiveram um desempenho muito maior do que os que fizeram o teste sem dormir, e que o sono de ondas lentas, ao mesmo tempo que fortalece as informações importantes, ele apaga as informações irrelevantes (Cairney, 2017).

Já é do conhecimento da maioria das pessoas que dormir é importante, pelo fato de se sentirem revigoradas e de que um terço da vida é gasto dormindo. Conclui-se, por meio do experimento relatado, que é durante o sono que as memórias relevantes são selecionadas e fortalecidas, tornando-se menos propensas a serem esquecidas ao acordar.

 

Como as memórias são acessadas

Até este ponto do capítulo tratou-se de como as memórias interpretadas pelo cérebro como mais importantes são armazenadas. No entanto, principalmente em momentos críticos, não é tão fácil recordar essas memórias, quando necessárias, como numa performance musical, por exemplo. Se for possível acessar o mapa de redes neurais da memória criado quando se aprendeu uma determinada música, também será possível lembrá-la.

Enquanto as memórias são armazenadas no Córtex, o Hipocampo é a parte crítica do cérebro responsável por relembrar as informações, selecionar e armazenar fatos, eventos importantes, questões espaciais e, ainda, reconhecer novidades. Como um mestre de cerimônias, o Hipocampo conecta as regiões do cérebro envolvidas na criação da memória (córtex visual e auditório; cf.

Figura 7), reunindo o som, visão e significado do que foi aprendido, emergindo na consciência. Essa estrutura é muito importante para converter a memória de curto prazo em memória de longo prazo (ver Tipos de Memórias). O hipocampo está mais envolvido no registro e decifração dos padrões perceptuais do que nas reações emocionais. Atua interagindo com a Amígdala, que é mais responsável por essas reações emocionais.

Pesquisas recentes demonstram que no cérebro dos bebês formam-se memórias que, entretanto, não são lembradas posteriormente, ao longo da vida. A razão por que assim acontece é que o hipocampo, também crucial para recordar as memórias, não amadurece até por volta dos 4 anos de idade. Ou seja, em bebês, as memórias são registradas de modo a não poderem ser acessadas novamente, pois sem a chave para desbloquear o hipocampo elas acabam se perdendo. Estudos indicam também que lesões no hipocampo impedem as pessoas de construir novas memórias (Lent, 2010).

 

A importância das emoções para a

memória

Memórias não são apenas fatos e números. Além de toda informação sensorial percebida pelos sentidos, elas também se entrelaçam às emoções e ocupam o centro da identidade e personalidade das pessoas. As memórias mais nítidas são as de conteúdo emocional forte. Todas as memórias são carregadas de algum grau de emoção. No ser humano não existe nenhum pensamento, desde a percepção, formação e evocação de memórias, isento de algum tipo e grau de emoção (Izquierdo, 2004).

Quando o ser humano domina a linguagem e se torna mais independente, passa a interagir com mais pessoas. Para sobreviver em um mundo social complexo, é preciso aprender a colaborar e cooperar uns com os outros, ou seja, aprender a entender as necessidades e os desejos dos outros, a se socializar. Uma das maneiras de entender o outro é através das expressões faciais e corporais – que transmitem emoções –, por meio da aguçada capacidade de ler expressões faciais de outras pessoas, quase a ponto de se saber o que estão pensando. A amígdala é a principal responsável por essa habilidade.

A amígdala (Figura 10) é o centro integrativo das emoções, do comportamento emocional e da motivação. É responsável por regular funções de medo e ansiedade, agressividade, reconhecimento de emoções e reações emocionais prazerosas, por associação de estímulos com aspectos recompensatórios. Ela é importante tanto para o reconhecimento e a interpretação das emoções primárias, quanto para formação de memórias emocionais, além de seu papel na expressão fisiológica das respostas emocionais. Essas associações realizadas entre emoções e estímulos permitem que os medos e suas reações sejam aprendidos, fazendo com que o organismo reaja de forma cada vez mais rápida, garantindo melhor sobrevivência (Lent, 2010).

Figura 10 – Amígdala e hipocampo

 

Fonte: https://www.emaze.com/@acwqlwif

O cérebro está sempre alerta para ameaças ou recompensas. Se uma delas é detectada, o sistema límbico envia sinais químicos. As emoções são o efeito desses sinais químicos com reflexos por todo o corpo. Quando o cérebro detecta uma ameaça em potencial, são liberados hormônios do estresse, adrenalina e cortisol, que preparam o corpo para uma resposta de luta ou de fuga. Quando algo recompensador é detectado, o cérebro libera dopamina, ocitocina ou serotonina, hormônios do prazer que motivam a continuar com uma tarefa ou comportamento.

A Amígdala funciona antes das áreas do raciocínio e, em muitos casos, impede que se pense racionalmente. Tome-se como exemplo o medo de palco, que pode descontrolar o músico e prejudicar a performance. As emoções tomam conta do cérebro e apenas imaginar algo ameaçador ou estressante pode disparar uma resposta emocional de luta ou fuga. É possível regular e controlar as emoções através de um pensamento consciente, previamente programado. As emoções possuem papel importante na forma como as pessoas encaram o mundo, como por empatia, aprendendo a cuidar uns dos outros. Acredita-se que isso evoluiu nos humanos muito antes do desenvolvimento da linguagem (Albuquerque; Silva, 2009, p.1-18).

Outro modelo funcional do encéfalo8 (Figura 11) concebe o cerebelo como um comparador entre as instruções de comando geradas pelo córtex motor e a tarefa executada pelos músculos. O cerebelo é a parte responsável pela manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus muscular, dos movimentos voluntários e pela aprendizagem motora. Como o cerebelo demonstradamente recebe informações multissensoriais (proprioceptivas, visuais, labirínticas,

somestésicas 9), sua tarefa seria compará-las com uma cópia (a “cópia eferente”, assunto que será tratado mais adiante neste trabalho) dos comandos motores originados no córtex e veiculados

pelas projeções que chegam através dos núcleos pontinos 10. Dessa comparação resulta o envio de instruções corretivas ao córtex motor, que eliminam erros e diminuem as oscilações dos movimentos durante a sua execução (Lent, 2010).

Figura 11 – Encéfalo: cérebro, tronco encefálico e cerebelo

 

Fonte: http://www.clker.com/clipart-outline-of-brain.html

Recentemente descobriu-se que o cerebelo participa de funções mentais, apresentando fluxo sanguíneo aumentado durante a execução de tarefas motoras de natureza superior, como a linguagem, a aprendizagem de movimentos complexos e a execução de movimentos com conteúdo emocional. Assim, o cerebelo não seria apenas uma máquina de controle motor, mas, também, um instrumento de planejamento que contribuiria com a capacidade mental do indivíduo (ibidem, 2010, p.457).

É tão importante a expressão de emoções, que ela se manifesta antes mesmo de se aprender a falar. Matéria prima para a atividade artística do músico, as emoções são essencialmente importantes. Ainda mais importante é saber como acessá-las, pois só assim é possível, verdadeiramente, transmiti-las ao público. As emoções ajudam a acessar diversas memórias, mesmo as mais antigas, com mais facilidade. Para Koelsch (2004), os músicos desenvolvem esse processo em suas performances, haja vista que, para transmitir suas próprias emoções, buscam eventos emocionais particulares que ajudam na interpretação da obra, por exemplo, a morte de um parente querido ou o nascimento de um filho, emoções que também ajudam a fixar todas as memórias relacionadas a esses eventos.

A memória musical é um sistema de representação perceptiva que é concebido como informação representativa sobre a forma e estrutura dos eventos, e não o significado ou outras propriedades associativas. A música é por essência impulsionada perceptivelmente. Ao contrário da fala, a música não está associada a um sistema semântico fixo, embora

possa transmitir significado através de outros sistemas, como a análise emocional e memórias associativas (para recuperar informações contextuais, como o título de uma peça, o nome de o cantor, ou seu gênero). As memórias associativas são provavelmente o lócus dos efeitos de preparação semântica observados recentemente entre música e

palavras com potenciais cerebrais relacionados ao evento.11 (Koelsch et al., 2004, tradução nossa)

Portanto, memórias de habilidades motoras, como as de passagens musicais que desejamos acessar sem dificuldades, são mais bem acessadas quando conectadas a eventos emocionais, principalmente quando associadas a uma história ou a um enredo. É por isso que poucas pessoas no mundo conseguem decorar os

20.000 dígitos do 12 Pi (π), mas muitas já decoraram o Hamlet, obra literária de Shakespeare, com quase 50.000 letras. Em um estudo realizado com 24 pessoas, 12 delas tentaram decorar 12 listas com 10 palavras; as outras 12 pessoas decoraram utilizando as mesmas palavras em um enredo criado por elas mesmas. Resultado: as pessoas que decoraram sem enredo acertaram 13%, enquanto as que decoraram com enredo acertaram 93% das listas de palavras (Bower; Clark, 1939).

Técnicas de memorização, como a técnica do Palácio da Memória (ou Método de Loci), são muito utilizadas em competições de memorização de grande quantidade de dígitos numéricos. Inicialmente, atletas de memória transformam pequenos agrupamentos de três números em letras, relacionando-as a palavras ou objetos que trazem fortes relações emocionais, como algo cômico, prazeroso ou de nojo, conectados por um enredo que aconteça em algum ambiente já conhecido ou imaginário, como um palácio ou um prédio, com várias salas conectadas em sequência; em cada parte do enredo há uma sala que precisa ser atravessada, na qual constam os objetos da história. A técnica se desenvolve dessa forma porque, além de aprender facilmente coisas emotivas e com enredo, o cérebro foi feito também para aprender facilmente a localização das coisas (Worthen; Hunt, 2011).

O mesmo processo pode ser aplicado na música; já existe uma codificação de notas e de sons, mas ela pode, também, ser relacionada a palavras de um enredo, local ou cena, de maneira emotiva. Geralmente não existe uma história ou enredo para um concerto, uma sonata ou uma sinfonia. Imagine-se, porém, uma interpretação através de um enredo de caráter emotivo, criada para o concerto em Mi menor para violoncelo e orquestra, op. 85, de E. Elgar, a seguir.

Figura 12 – Concerto para Violoncelo e Orquestra de E. Elgar

em Mi menor Op. 85, primeira página.

 

Fonte: Elgar (2005)

Pode-se pensar que os cinco primeiros compassos da pauta introdutória seriam um resumo da história que remete a algo dramático e trágico, como uma história de guerra ou de morte, de um ente querido ou pessoa amada:

Figura 13 – Compassos 1 a 5, introdução do Concerto de E.

Elgar em Mi menor

 

Fonte: Elgar (2005)

Segue-se um breve “lamento” que se faz em tempo 13 ad libitum

até o compasso 9:

Figura 14 – Compassos 6 a 9 do primeiro movimento do

Concerto de E. Elgar em Mi menor

 

Fonte: Elgar (2005)

A história segue numa valsa triste e quase “inerte”, que parece descrever o sofrimento de perda e se desenvolve em drama e dinâmica até finalizar em um grande grito de desespero, representada pela longa escala em Mi menor melódica, em fortíssimo, terminando com o tutti orquestral ao fim da primeira página:

Figura 15 – Compassos 15 a 33 do primeiro movimento do

Concerto em Mi menor de E. Elgar

 

Fonte: Elgar (2005)

Nos próximos compassos, pode-se descrever, através da mudança entre modo maior e menor do tema da valsa, a alternância entre a lembrança de momentos bons com o desespero da perda:

Figura 16 – Compassos 55 a 70, primeiro movimento do

Concerto de E. Elgar em Mi menor

 

Fonte: Elgar (2005)

Para se ter um exemplo mais técnico, ainda nesse mesmo concerto, mencione-se a sequência de semicolcheias, a partir do número de ensaio 50 do quarto movimento, por meio da qual é possível imaginar, literalmente, uma fuga dentro de um labirinto, por exemplo:

Figura 17 – Quarto movimento do Concerto de E. Elgar

 

Fonte: Elgar (2005)

Muitos outros exemplos poderiam ser propostos, como o caráter heroico do concerto em Ré menor, de E. Lalo, ou o caráter feliz e apaixonado do segundo movimento do concerto em Ré maior, de J. Haydn, a alegria do prelúdio da 6ª suíte de J.S. Bach entre outros. Esses enredos podem ser relacionados a vários níveis de análise na obra, desde movimentos técnicos pontuais, como sentido emocional que se dê a um importante salto de mudança de posição da mão esquerda, até enredos mais abrangentes como os das passagens citadas anteriormente. Acessar todas as passagens por meio de enredos e emoções embutidos na obra ajudam de maneira eficaz a memorização motora e a performance de um modo geral. É importante que esse trabalho seja iniciado ainda durante o estudo preliminar, ou seja, no estudo anteriormente feito sem o instrumento (que será abordado mais adiante), através de uma análise de todos os aspectos da obra (histórico, harmônico etc.), e, também, durante as primeiras leituras da obra, a fim de que desde cedo o músico desenvolva essa capacidade de associação motora e emotiva.