Memória muscular: um estudo interdisciplinar sobre a performance no violoncelo
Conclusão
Ao longo deste estudo, evidenciou-se que a forma como o cérebro aprende, de maneira conectada e distributiva em todas as áreas de seu funcionamento, depende de algumas frentes estratégicas para a aprendizagem e memorização de novas habilidades motoras de precisão. Ressaltou-se a necessidade de se desenvolver um sistema básico que ajude o violoncelista a visualizar essas estratégias de maneira pedagógica e estruturada, para que nenhuma seja esquecida.
As estratégias encontradas como resultado desta pesquisa podem ser organizadas estruturalmente, como no diagrama da
Figura 100, para melhor compreensão, formando um sistema, uma listagem organizacional de requisitos importantes para a aprendizagem motora de precisão no violoncelo. Inicialmente esse sistema é dividido em duas partes, por tempo de investimento de estudo que gerem benefícios em médio/longo prazo e curto prazo.
Figura 100 – Diagrama do sistema sensório-motor de
precisão para o estudo do violoncelo
Fonte: elaboração própria
A seguir, apresenta-se a transcrição vertical do diagrama.
Sistema sensório-motor de precisão para o estudo do violoncelo
Estratégias para médio e longo prazo:
Vocabulário motor:
1. escalas e arpejos;
2. escalas de cordas duplas;
3. exercícios diários;
4. estudos;
5. repertório de formação.
Estratégias para curto prazo:
Antes do estudo com instrumento – estudo preliminar:
1. solfejar, cantar e analisar a obra;
2. ouvir diversas gravações com a partitura; 3. assistir performances ao vivo e em vídeos; 4. pesquisar aspectos históricos e caráter; 5. pesquisar e planejar aspectos emocionais; 6. planejar o estudo de repetições – passagens difíceis; 7. planejar arcadas e dedilhados, imaginando o
movimento;
Durante o estudo com instrumento:
1. condições mínimas de ambiente de estudo:
a. remoção de distrações visuais e sonoras b. afinador, metrônomo, gravador (áudio/vídeo) e
espelho.
2. conhecer, respeitar e monitorar os três estágios
aprendizagem motora
3. estudar com atenção seletiva
a. ouvindo com o “melhor ouvido”
b. fiscalizar movimentos indesejados
4. importância do estudar devagar
5. como fazer cada repetição
a. estudo para “cair certo”
6. aplicar emoções planejadas
Para as estratégias de trabalho para médio/longo prazo, tanto professor quanto aluno devem priorizar um planejamento gradativo de aprendizagem de um abrangente vocabulário motor como necessidade, o que foi evidenciado, nesta pesquisa, através dos argumentos de chunk e cópia eferente, pela utilização de escalas, arpejos, escalas de cordas duplas, exercícios diários, estudos e repertório de formação.
As estratégias de curto prazo se dividem em duas partes: (1) o que fazer antes do estudo com o instrumento e (2) o que fazer durante o estudo com o instrumento. O estudo anterior à utilização do instrumento – Estudo Preliminar – abrange tudo o que pode ser aprendido antes do estudo com o instrumento, como solfejar, cantar e analisar a obra musical ou movimento pretendido, ouvir diversas gravações com a partitura, assistir a performances ao vivo e em vídeos, pesquisar aspectos históricos e caráter da obra, pesquisar e planejar aspectos emocionais, planejar o estudo de repetições e planejar arcadas e dedilhados, imaginando o movimento etc. Verificou-se que todas essas estratégias já iniciam a aprendizagem motora e otimizam o estudo das repetições para evitar o erro. Porém, esse tipo de estudo preliminar também pode ser aplicado durante o aprendizado e amadurecimento de uma obra musical, deixando-se de lado, momentaneamente, o instrumento, a fim de revisitar essa fase de pesquisa e descobrir novas informações.
Para a fase do estudo com a utilização do instrumento, é importante garantir as condições mínimas para iniciar as primeiras tentativas motoras. Isso inclui a remoção de grandes distrações visuais e sonoras e a utilização de equipamentos como afinador, metrônomo, gravador (áudio/vídeo) e espelho, que ajudam no desenvolvimento da percepção e no monitoramento de possíveis erros. Nessa fase, é de grande relevância conhecer e monitorar os três estágios da aprendizagem motora – cognitivo, associativo e autônomo –, auxiliando o violoncelista na organização da prática, com base nas fases de aprendizagem cerebral para memórias motoras, respeitando-se as características de cada etapa. A atenção seletiva funciona como crivo, filtrando ou selecionado os movimentos de precisão, tanto para o foco auditivo de afinação ou ritmo quanto para movimentos ergonômicos da técnica.
Constatou-se, por meio dos estudos cognitivos pesquisados neste trabalho, que o estudo lento é a única forma de garantir boas repetições, sem a interferência de erros, memorizando os movimentos com maior precisão e por mais tempo, ou seja, um estudo apenas de acertos (de “cair certo”), através do qual memoriza-se sistematicamente o movimento desejado. Compreendeu-se, também, o modo como o cérebro guarda memórias de repetições e a importância de que cada repetição seja feita com muito critério e precisão, para que não haja muitas opções erradas do movimento da mão e esta possa “ler” a memória correta com facilidade. Para tanto, e levando-se em consideração o objetivo traçado para esta pesquisa, sugere-se um sistema básico para estudo por repetições, que pode ser adaptado às necessidades de cada violoncelista. O sistema enfatiza a importância de se repetir e aprender o movimento de “cair certo”; o que se pretende é maximizar o valor do movimento correto para o objetivo desejado e evitar o movimento de correção.
O sistema inclui a estratégia de aplicação das emoções, tão importantes para o fortalecimento das memórias, tanto aquelas que foram planejadas no estudo preliminar quanto as que surgirão durante o processo de aprendizagem e desenvolvimento da obra.
Esta pesquisa sobre a memória muscular na performance do violoncelo foi motivada pela busca de soluções para um problema universal dos instrumentistas de violoncelo: o estudo do erro, ou seja, o estudo acerca da maneira inconsciente de se aprenderem movimentos errados, que podem ser de desafinação, de postura/ ergonomia ou de imprecisão rítmica, entre outros. Outro motivo que levou à pesquisa foi a necessidade da redução do tempo de estudo e otimização da aprendizagem para todo o repertório violoncelístico.
Desenvolvida em cinco capítulos, esta pesquisa envolveu uma comparação e adaptação interdisciplinar de conceitos da área da neurociência, cognição, psicologia cognitiva e educação física para a performance musical. Uma vez compreendido que os recursos de pesquisa tradicionais da área de música não seriam suficientes para esclarecer cientificamente as questões relacionadas a uma melhoria da eficiência do estudo do violoncelo, ficou evidente a necessidade dessa colaboração. A experiência acumulada nessas outras disciplinas sobre a memória muscular – neste caso, a aprendizagem motora em movimentos dos membros superiores na performance de alto nível – abriu a possibilidade de uma adaptação dos conceitos para a performance do violoncelo, vistos sob uma nova ótica.
Dadas as similaridades entre o violoncelo e os demais instrumentos da família das cordas, que são instrumentos de arco e afinação não fixa, as perspectivas de adaptação do sistema sensório-motor que aqui se sugere mostram-se palpáveis. Em relação aos outros instrumentos musicais, a adaptação desse sistema pode ser especulada. Entretanto, em que pese o potencial de orientação espacial do instrumento e sua técnica, a partir das sugestões oferecidas sobre técnica violoncelística e do sistema sensório-motor proposto neste trabalho, pesquisas posteriores em outros instrumentos musicais antecipam-se como necessárias.
Finalmente, espera-se que esta pesquisa interdisciplinar sobre a memória muscular e performance do violoncelo, que resultou na sugestão de um sistema de base científica para o aprendizado sensório-motor de precisão, inspire outros violoncelistas, professores e pesquisadores a estudarem temas e questões da performance que dependem da comunicação e convívio da música com outras áreas do conhecimento.