Merrick
Anne Rice
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
MERRICK
Tradução de WALDÉA BARCELLOS
Título original MERRICK
2000 by Anne O'Brien Rice
preparação de originais HENRIQUE DRUMMOND
PARA Stan Rice
E Christopher Rice
E Nancy Rice Diamond
A TALAMASCA
Investigadores do Paranormal
Nós observamos
E estamos sempre presentes.
LONDRES AMSTERDÃ ROMA
Preâmbulo
CHAMO-ME DAVID TALBOT.
Será que algum de vocês se lembram de mim como o superior geral da Talamasca, a Ordem de detetives da paranormalidade cujo lema era “Nós observamos e estamos sempre presentes”?
Esse lema tem seu encanto, não é mesmo?
A Talamasca existe há mais de mil anos.
Não sei como a Ordem teve início. Na realidade, não conheço todos os segredos da Ordem. O que sei mesmo é que passei a maior parte da minha vida mortal a seu serviço.
Foi na casa matriz da Talamasca, na Inglaterra, que o Vampiro Lestat se apresentou diante de mim pela primeira vez. Entrou no meu escritório uma noite de inverno e me pegou totalmente desprevenido.
Aprendi rápido que uma coisa era ler e escrever sobre o sobrenatural e outra, bem diferente, era vê-lo com meus próprios olhos.
Mas isso foi há muito tempo.
Agora estou em outro corpo físico.
E esse corpo físico foi transformado pelo poderoso sangue vampírico de Lestat.
Figuro entre os mais perigosos dentre os vampiros, e sou um dos de maior confiança. Mesmo o arisco Armand me relatou a história da sua vida. Talvez vocês tenham lido a biografia de Armand que eu lancei ao mundo.
Quando aquela história terminou, Lestat havia acordado de um longo sono em Nova Orleans para escutar música belíssima e sedutora.
Foi a música que o embalou levando-o de volta a uma mudez ininterrupta, à medida que se recolhia ainda mais uma vez a um prédio de convento para deitar-se num piso de mármore empoeirado.
Havia naquela ocasião muitos vampiros na cidade de Nova Orleans: vagabundos, moleques, jovens bobos que tinham vindo pelo menos ver de relance Lestat no seu aparente estado indefeso. Eles ameaçavam a população mortal. Irritavam os mais velhos de nós que queriam a invisibilidade e o direito de caçar em paz. Agora todos esses invasores se foram.
Alguns foram destruídos; outros, apenas afugentados. E os mais velhos, que vieram oferecer algum lenitivo ao Lestat adormecido, também seguiram cada um seu caminho.
No momento em que começa esta história, restam somente três de nós em Nova Orleans. E nós três somos o adormecido Lestat e suas duas crias fiéis — Louis de Pointe du Lac e eu, David Talbot, autor deste relato.
1
— POR QUE ME PEDE PARA FAZER ISSO?
Estava sentada diante de mim à mesa de mármore, de costas para as portas abertas do café.
Eu lhe parecia um prodígio. Mas minha solicitação a deixara perturbada. Não mais olhava para mim com espanto, mas mergulhava o olhar nos meus olhos.
Era alta e a vida inteira havia mantido longo e solto o cabelo castanho-escuro, preso apenas por uma fivela de couro, como a que usava agora, que segurava apenas os cachos puxados para trás de modo que lhe caíssem livres pelas costas. Usava argolas de ouro nos pequenos lóbulos das orelhas, e sua roupa de verão, branca e macia, tinha algo de cigano, talvez pela faixa vermelha atada à cintura da saia rodada de algodão.
— E fazer uma coisa dessas para uma criatura dessas? — perguntou em tom afetuoso, sem raiva de mim. Não, mas tão abalada que não conseguia disfarçar, nem mesmo com sua voz suave, irresistível. — Invocar um espírito que pode estar cheio de ira e desejo de vingança, fazer isso, você está me pedindo... para Louis de Pointe du Lac, alguém que já está ele próprio fora desta vida?
— A quem mais eu posso recorrer, Merrick? — respondi. — Quem mais faria uma coisa dessas? — Pronunciei seu nome com simplicidade, ao estilo americano, muito embora anos atrás, quando nos conhecemos, ela o soletrasse Merrique e o pronunciasse com o leve sotaque do seu antigo francês.
Ouviu-se um ruído forte da porta da cozinha, o rangido de dobradiças sem manutenção. Um garçom espectral, de avental sujo, surgiu ao nosso lado, arrastando os pés nas lajes empoeiradas do piso.
— Rum — disse ela. — St. James. Traga uma garrafa.
Ele murmurou algo que eu, mesmo com minha audição vampírica, não me dei ao trabalho de ouvir. E lá se foi, arrastando os pés, deixando-nos a sós na sala mal iluminada, com suas altas portas abertas para a Rue St. Anne.
Era pura Nova Orleans, o pequeno estabelecimento. Ventiladores de teto giravam preguiçosos, e o piso não havia sido limpo nos últimos cem anos.
O crepúsculo ia desbotando lentamente, o ar impregnado com as fragrâncias do Quarter e o encanto da primavera. Que delicado milagre que ela tivesse escolhido um lugar como aquele e que, de forma tão estranha, estivesse vazio num entardecer tão divino.
Seu olhar era firme, mas sem nunca deixar de ser carinhoso.
— Quer dizer que Louis de Pointe du Lac agora quer ver um espírito — disse ela, ensimesmada —, como se seu sofrimento ainda não lhe bastasse.
Não só suas palavras eram compreensivas, mas todo o seu tom baixo e discreto. Ela sentia pena dele.
— Ah, é mesmo — disse ela, sem permitir que eu falasse. — Sinto pena dele e sei como é forte seu desejo de ver o rosto dessa criança vampiro morta que ele amava tanto. — Ergueu as sobrancelhas, pensativa. — Você me vem com nomes que são quase lendas. Sai do segredo, sai de um milagre, chega perto e vem com um pedido.
— Se não for lhe causar mal, Merrick, faça o que peço — disse eu. — Não estou aqui para prejudicá-la. Deus me livre. Sem dúvida, isso você sabe.
— E o que dizer do mal que possa se abater sobre Louis? — perguntou ela, pronunciando as palavras pausadamente enquanto refletia. — Um espírito pode dizer coisas horríveis a quem o chama; e esse é o espírito de uma criança monstro cuja morte foi violenta. O que você pede é terrível e tem enorme potencial.
Fiz que sim. Tudo o que ela dizia era verdade.
— Louis é um ser dominado por uma obsessão — disse eu. — Sua obsessão levou anos para erradicar toda a razão. Agora ele não pensa em mais nada.
— E se eu realmente a trouxer do mundo dos mortos? Você acha que haverá uma solução para a dor de um ou do outro?
— Não tenho essa esperança. Realmente não sei. Mas qualquer coisa é preferível à dor pela qual Louis está passando agora. É claro que eu não tenho nenhum direito de lhe pedir uma coisa dessas, nenhum direito sequer de recorrer a você.
“E no entanto estamos todos enredados: a Talamasca, Louis e eu. E o vampiro Lestat também. Foi do mais íntimo da Talamasca que Louis de Pointe du Lac ouviu uma história sobre o espírito de Claudia. Foi a um dos nossos membros, a uma mulher chamada Jesse Reeves — você a encontrará nos arquivos mortos — que esse espírito de Claudia supostamente apareceu pela primeira vez.”
— Conheço a história — disse Merrick. — Aconteceu na Rue Royale. Vocês enviaram Jesse Reeves para investigar os vampiros. E Jesse Reeves retornou com um punhado de tesouros que eram prova bastante de que uma criança chamada Claudia, uma menina imortal, tinha um dia morado no apartamento.
— Exato — respondi. — Foi um erro mandar Jesse. Jesse era muito nova. Jesse nunca foi... — Eu estava com dificuldades para terminar a frase. — Jesse nunca chegou a ter a inteligência que você tem.
— As pessoas lêem isso nas histórias publicadas sobre Lestat e acham que é fantasia — disse ela, refletindo, pensativa — toda aquela história de diário, rosário, não é mesmo? E uma boneca antiga. E esses objetos estão conosco, não estão? Estão nos cofres na Inglaterra. Naquela época, não tínhamos uma casa matriz na Louisiana. Foi você mesmo quem os guardou no cofre.
— Você vai poder fazer? — perguntei. — Você se dispõe? Essa é a verdadeira questão. Sei sem a menor dúvida que você pode.
Ela não estava pronta para responder. Mas ela e eu tínhamos tido um começo promissor ali.
Ai, como eu tinha sentido sua falta! Entabular conversa com ela estava sendo uma tortura maior do que eu jamais imaginara. E com prazer eu me deliciava com as mudanças nela: que seu sotaque francês agora tinha desaparecido totalmente, que ela parecia quase britânica, e isso por seus longos anos de estudo no exterior. Alguns desses anos, havia passado na Inglaterra comigo.
— Você sabe que Louis a viu — disse eu, baixinho. — Sabe que ele me enviou para fazer o pedido. Sabe que ele percebeu seus poderes pelo aviso que vislumbrou nos seus olhos?
Ela não respondeu.
— “Vi uma bruxa de verdade”, disse ele quando me procurou. “Ela não teve medo de mim. Disse que invocaria os mortos para se defender se eu não a deixasse em paz.”
Ela fez que sim, encarando-me com expressão extremamente séria.
— É, isso tudo é verdade — respondeu entre dentes. — Ele cruzou meu caminho, por assim dizer. — Ela estava meditando sobre o assunto. — Mas já vi Louis de Pointe du Lac muitas vezes. Eu era criança quando o vi pela primeira vez, e agora você e eu tocamos nesse assunto pela primeira vez.
Meu assombro foi total. Eu deveria ter imaginado que ela me surpreenderia de imediato.
Minha admiração por ela era imensa, e eu não conseguia disfarçá-la. Eu adorava a simplicidade da sua aparência, sua blusa branca de algodão, de decote redondo e mangas curtas e simples, e o colar de contas negras no pescoço.
Contemplando seus olhos verdes, de repente enchi-me de vergonha pelo que tinha feito, ao me revelar a ela. Louis não me forçara a abordá-la. Isso eu tinha feito por minha própria conta. Mas não pretendo começar esta narrativa detendo-me nessa vergonha.
Digo apenas que juntos fomos mais do que meros colegas na Talamasca. Éramos mentor e aluna, eu e ela, e quase amantes, há muito tempo, por um curto período. Um período bem curto.
Ela nos chegara menina, uma descendente aleatória do clã Mayfair, originária de uma ramificação afro-americana daquela família, proveniente de bruxos brancos que mal conhecia, uma oitavona de beleza excepcional, menina descalça quando foi entrando na casa matriz na Louisiana, e disse: “Ouvi falar de vocês, preciso de vocês. Eu vejo coisas. Consigo falar com os mortos.”
Isso acontecera havia mais de vinte anos, ao que me parecia agora.
Eu era o superior geral da Ordem, acomodado na vida de um administrador distinto, com todos os confortos e inconvenientes da rotina. Um telefonema me acordara à noite. Era do meu amigo e colega de estudos, Aaron Lightner.
— David — disse ele —, você precisa vir até aqui. Estou falando de algo genuíno. Trata-se de uma bruxa com tantos poderes que não tenho palavras para descrever. David, você precisa vir...
Naquela época não havia ninguém por quem eu sentisse um respeito mais profundo que por Aaron Lightner. Em todos os meus anos de vida, tanto como humano quanto como vampiro, amei três criaturas. Aaron Lightner foi uma delas. Outra era, e é, o Vampiro Lestat. O Vampiro Lestat trouxe-me milagres com seu amor, e destruiu para sempre minha vida mortal. O Vampiro Lestat tornou-me imortal e extraordinariamente forte, sem par entre os vampiros.
Quanto à terceira, foi Merrick Mayfair, embora Merrick tenha sido a que eu me esforcei ao máximo para esquecer.
Mas estamos falando de Aaron, meu velho amigo Aaron, com seu cabelo branco e ondulado, os olhos cinzentos e perspicazes, e sua queda por ternos sulistas de tecido seersucker listrado de azul e branco. Estamos falando dela, daquela menina Merrick do passado, que parecia tão exótica quanto a exuberante flora e fauna tropical da sua terra.
— Muito bem, meu camarada, vou até aí, mas isso não poderia ter esperado até amanhecer? — Lembrei-me da minha atitude pesadona e do riso bem-humorado de Aaron.
— David, o que houve com você, meu amigo? — respondeu ele. — Não me diga o que está fazendo agora, David. Deixe-me lhe dizer. Você adormeceu enquanto lia algum livro do século XIX sobre fantasmas, algo cheio de evocações e reconfortante. Deixe-me adivinhar. A autora é Sabine Baring-Gould. Você não sai da casa matriz há uns seis meses, certo? Nem mesmo para um almoço na cidade. Não negue, David. Você vive como se sua vida tivesse terminado.
Eu ri. Aaron falava com um tom muito delicado. Não era Sabine Baring-Gould que eu estava lendo, mas poderia ter sido. Acho que era algum conto sobre o sobrenatural de Algernon Blackwood. E Aaron havia acertado o período em que eu não pusera os pés fora dos nossos muros santificados.
— E sua paixão, David, onde está? Sua dedicação? — Insistira Aaron. — David, a menina é uma bruxa. Você acha que eu uso uma palavra dessas com leviandade? Esqueça o nome da família por um instante, e tudo que sabemos sobre eles. Isso aqui é algo que deixaria estarrecidos mesmo os membros da família Mayfair que conhecemos, apesar de que eles nunca terão conhecimento da existência dela se minha opinião for ouvida. David, essa menina invoca espíritos. Abra sua Bíblia no Livro de Samuel. Essa é a Pitonisa de Endor. E você está tão irritado quanto o espírito de Samuel quando a pitonisa o despertou do seu sono. Levante-se e atravesse o Atlântico. Estou precisando de você aqui agora.
A Pitonisa de Endor. Eu não precisava consultar minha Bíblia. Todos os membros da Talamasca conheciam muito bem aquela história.
O rei Saul, com medo do poderio dos filisteus, antes da batalha temida, recorre a “uma mulher com um espírito” e pede que ela desperte dos mortos Samuel, o profeta. “Por que me inquietaste, fazendo-me vir cá?”, pergunta o espectro do profeta, e sem mais delongas prevê que o rei Saul e seus dois filhos virão ter com ele na morte no dia seguinte.
A Pitonisa de Endor. E assim eu tinha sempre pensado em Merrick, por mais íntimo que me tornasse dela mais tarde. Ela era Merrick Mayfair, a
Pitonisa de Endor. Às vezes eu me dirigia a ela desse modo em memorandos semi-oficiais e com freqüência em recados curtos.
No início, ela havia sido um delicado assombro. Eu cumprira o pedido de Aaron e fizera as malas para voar até a Louisiana e pôr os pés pela primeira vez em Oak Haven, a esplêndida sede da fazenda que se tornara nosso refúgio nas proximidades de Nova Orleans, na antiga estrada do rio.
Como tudo havia parecido um sonho. No avião, li meu Velho Testamento. Os filhos do rei Saul foram mortos em combate. Saul caiu sobre a própria espada. Será que eu era supersticioso no final das contas? Dedicara minha vida à Talamasca, mas mesmo antes de começar meu aprendizado já tinha visto e dado ordens a espíritos por mim mesmo. Não eram fantasmas, vejam bem. Eram anônimos, jamais corpóreos, e para mim estavam entrelaçados com os nomes e rituais da magia do candomblé brasileiro, no qual eu havia mergulhado de modo tão imprudente na minha juventude.
No entanto, eu havia deixado aquele poder arrefecer dentro de mim à medida que o estudo e a devoção a outros me faziam mais exigências. Abandonara os mistérios do Brasil pelo mundo igualmente assombroso de arquivos, relíquias, bibliotecas, organização e orientação de estudos, atraindo outros a uma reverência empoeirada pelos nossos métodos e nossos costumes meticulosos. A Talamasca era muito grande, muito antiga, muito amorosa no seu abraço. Nem mesmo Aaron tinha idéia alguma dos meus antigos poderes, não naquela época, embora muitas mentes fossem abertas à sua sensibilidade paranormal. Eu discerniria perfeitamente a natureza da menina.
Tinha chovido quando chegamos à casa matriz, com nosso carro mergulhando na longa avenida de carvalhos gigantes que levava da estrada do dique até as imensas portas duplas. Como aquele mundo era verde mesmo na escuridão, com ramos retorcidos de carvalhos inclinando-se pelo capim alto adentro. Creio que as grandes tiras cinzentas de barba-de-velho tocavam o teto do automóvel.
Disseram-me que a energia elétrica tinha acabado naquela noite, com a tempestade.
— Tem seu encanto — dissera Aaron ao me cumprimentar. Naquela época, ele já tinha a cabeça branca, o perfeito senhor de idade, sempre de bom humor, quase meigo. — Permite que a gente veja as coisas como eram nos velhos tempos, você não acha?
Somente lampiões de óleo e velas iluminavam os grandes aposentos quadrados. Eu tinha visto o bruxuleio na bandeira acima da porta de entrada à medida que nos aproximávamos. Lanternas dançavam ao vento nas varandas profundas, que envolviam o casarão quadrado no térreo e no primeiro andar.
Antes de entrar, demorei-me, sem me importar com a chuva, para examinar essa maravilhosa mansão tropical, impressionado com suas colunas simples. Outrora, havia canaviais por quilômetros em toda a sua volta. Lá atrás, depois dos canteiros de flores, ainda ligeiramente coloridos no temporal, havia anexos maltratados pelo tempo, onde um dia viveram escravos.
Ela desceu descalça para me conhecer, num vestido lilás estampado com flores cor-de-rosa, com quase nada de bruxa.
Seus olhos não poderiam ter sido mais misteriosos mesmo que ela tivesse usado o kohl de uma princesa hindu para lhes realçar a cor. Via-se o verde da íris, o círculo escuro em torno, bem como a pupila negra no centro. Um olho maravilhoso, ainda mais intenso em contraste com a pele sedosa, de um leve bronzeado. O cabelo tinha sido penteado para trás a partir da testa, e as mãos esguias estavam apenas relaxadas de cada lado do corpo. Como parecia estar à vontade naqueles primeiros momentos.
— David Talbot — disse-me ela em tom quase formal. Fiquei encantado com a confiança em sua voz delicada.
Não conseguiam lhe tirar o hábito de andar descalça. Era uma terrível tentação, aqueles pés descalços no tapete de lã. Pensei que tivesse sido criada no campo, mas não, disseram, tinha sido só numa região velha e decrépita de Nova Orleans, onde não havia mais calçadas, as casas destruídas pelas intempéries estavam abandonadas, e a venenosa espirradeira floria e crescia do tamanho de árvores.
Tinha morado lá com sua madrinha, Grande Nananne, a bruxa que lhe ensinara tudo o que sabia. Sua mãe, uma poderosa vidente, que conheci apenas pelo misterioso nome de Sandra Gelada, tinha sido apaixonada por um explorador. Não havia nenhuma lembrança de um pai. Nunca freqüentara uma escola de verdade.
— Merrick Mayfair — disse eu, com carinho, dando-lhe um abraço. Era alta para os catorze anos, com seios primorosos, ao natural, sob o vestido solto de algodão, e o cabelo macio e seco caía solto pelas costas. Poderia ter sido uma beldade espanhola aos olhos de qualquer um de fora dessa parte absurda do sul, na qual a história dos escravos e seus descendentes livres era repleta de alianças complexas e romances eróticos. Mas qualquer pessoa natural de Nova Orleans poderia perceber o sangue africano no adorável café au lait da sua pele.
Dito e feito. Quando servi o leite no forte café de chicória que me deram, entendi aquela expressão.
— Toda a minha gente é de cor — disse ela, com o francês na voz naquela época. — Os que conseguem se passar por brancos vão embora, para o norte. É assim desde sempre. Eles não querem que Grande Nananne lhes faça visitas. Não querem que ninguém saiba. Eu poderia me passar por branca. Mas e a família? E tudo o que herdamos? Eu nunca abandonaria Grande Nananne. Vim aqui porque ela mandou.
Tinha uma postura sedutora ali sentada, na enorme bergère de couro vinho, com a tentação de uma finíssima pulseira de ouro em volta do tornozelo e outra, com uma pequena cruz cravejada de diamantes, no pescoço.
— Estão vendo esses retratos? — disse, em tom cativante. Estavam numa caixa de sapatos que ela pusera no colo. — Não há bruxaria nenhuma neles. Podem olhar à vontade.
Ela os dispôs sobre a mesa para mim, daguerreótipos — fotografias extremamente nítidas em vidro, cada uma encaixada num pequeno porta-retratos esfarelado de guta-percha, com uma pesada decoração em relevo de guirlandas de flores ou folhagem de parreira, muitos dos quais podiam ser dobrados e fechados como livrinhos.
— São da década de 1840 — disse ela — e todos eles são nossa gente. Um dos nossos tirou esses retratos. Era conhecido por tirar retratos. Eles o adoravam. Ele deixou algumas histórias, e eu sei onde elas estão. Estão todas escritas numa bela caligrafia. Numa caixa no sótão da casa de Grande Nananne.
Tinha avançado para a beira da poltrona, com os joelhos saindo pela bainha acanhada. A cabeleira formava uma grande massa de sombras às suas costas. O contorno do couro cabeludo era uma linha perfeita, e sua testa era lisa e linda. Embora a noite estivesse apenas fresca, a lareira estava acesa, e o ambiente da sala, com suas prateleiras de livros e uma ou outra escultura grega, estava perfumado e agradável, propício a um encantamento.
Aaron a estivera observando com orgulho, embora cheio de preocupação.
— Estão vendo, essa é a minha gente dos velhos tempos. — Ela poderia estar dispondo as cartas de um baralho. Era lindo o lampejo das sombras no seu rosto oval e nos malares fortes. — Vejam só, eles se mantiveram unidos. Mas como eu disse, os que puderam se foram há muito tempo. E renunciaram a tudo isso, imaginem só, todo esse passado. Estão vendo essa aqui? Examinei o pequeno retrato, que reluzia à luz do lampião.
— Essa é Lucy Nancy Marie Mayfair. Era filha de um homem branco, mas nunca soubemos muito a respeito dele. O tempo todo, seriam homens brancos. Sempre homens brancos. O que essas mulheres fizeram pelos homens brancos. Minha mãe foi à América do Sul com um homem branco. En fui junto. E me lembro da selva. — Será que ela havia hesitado, tendo captado algo dos meus pensamentos, talvez, ou teria sido apenas minha expressão abobalhada de adoração?
Eu nunca me esqueceria dos meus próprios anos de juventude em exploração no Amazonas. Imagino que não quisesse me esquecer deles, embora nada me conferisse uma consciência mais dolorosa da velhice do que pensar naquelas aventuras com arma e máquina fotográfica, vividas na metade de baixo do mundo. Naquela ocasião, não me passou pela cabeça que eu fosse retornar a selvas inexploradas na companhia dela.
Voltei a fixar o olhar naqueles velhos daguerreótipos de vidro. Nenhum entre todos esses indivíduos parecia nada menos que rico — cartolas e saias rodadas de tafetá tendo como pano de fundo no estúdio cortinas e plantas exuberantes. Via-se aqui uma jovem linda como Merrick era agora, sentada tão ereta e empertigada numa cadeira gótica de espaldar alto. Como explicar os sinais extraordinariamente claros de sangue africano em tantos deles? Em alguns parecia não ser mais que um brilho raro no olhar em contraste com um rosto caucasiano amorenado. No entanto, estava lá.
— Essa aqui é a mais velha — disse ela. — Angelique Marybelle Mayfair. — Uma mulher majestosa, com o cabelo escuro repartido no meio, um xale florido a lhe cobrir os ombros e mangas bufantes. Segurava nos dedos um par de óculos quase invisíveis e um leque fechado.
— É o retrato mais antigo e melhor que eu tenho. Era uma bruxa secreta, pelo que me disseram. Tem bruxas secretas e bruxas que as pessoas procuram. Ela era das secretas, mas era inteligente. Dizem que foi amante de um Mayfair branco que morava no Garden District, e que ele era seu próprio sobrinho, de sangue. Eu descendo dela e dele. Oncle Julien, era como se chamava. Ele deixava os primos de cor o chamarem de Oncle Julien, em vez de Monsieur Julien, como outros homens brancos poderiam ter preferido.
Aaron ficou tenso, mas procurou disfarçar. Talvez conseguisse ocultar dela a reação, mas não de mim.
Quer dizer que ele não lhe disse nada a respeito daquela perigosa família Mayfair. Não tocaram nesse assunto — os temíveis Mayfair do Garden District, uma tribo dotada de poderes sobrenaturais, que ele vinha investigando havia anos. Nossos arquivos sobre a família Mayfair remontavam a séculos. Membros da nossa Ordem tinham morrido pelas mãos dos Bruxos Mayfair, como costumávamos chamá-los. Mas essa criança não deveria tomar conhecimento deles por meio de nós. Disso me dei conta de repente, pelo menos não enquanto Aaron não tivesse certeza de que uma intervenção dessa natureza seria benéfica a ambas as partes e não causaria nenhum mal.
O que houve foi que essa hora nunca chegou. A vida de Merrick foi totalmente isolada da vida da família Mayfair branca. Não há nada da história deles nestas páginas que escrevo agora.
No entanto, naquela noite distante, Aaron e eu fizemos um esforço tremendo para esvaziar nossa mente diante da bruxinha, ali sentada à nossa frente.
Não me lembro se Merrick olhou ou não de relance para nós antes de prosseguir.
— Agora mesmo alguns Mayfair moram naquela casa do Garden District — disse ela em tom despreocupado —, gente branca, que nunca teve muito a ver conosco, a não ser por meio dos advogados deles. — Como era sofisticado esse seu risinho, do jeito que as pessoas riem quando falam de advogados.
— Os advogados chegavam da cidade trazendo dinheiro — disse ela, abanando a cabeça. — E alguns desses advogados também tinham o sobrenome Mayfair. Os advogados mandaram Angelique Marybelle Mayfair para o norte para uma boa escola, mas ela voltou para casa, para viver e morrer aqui. Eu nunca iria procurar aqueles brancos. — O comentário tinha sido quase arrogante. Ela prosseguiu.
— Mas Grande Nananne fala de Oncle Julien como se ele ainda estivesse vivo. E quando eu era criança todo o mundo dizia que Oncle Julien era uma boa pessoa. Parece que ele conhecia todos os parentes de cor, e diziam que ele podia matar os próprios inimigos ou os de outra pessoa só com o olhar. Era um houn'gan como só ele. Com o tempo, vou ter mais a dizer sobre ele.
Ela olhou inesperadamente para Aaron, e eu o vi afastar o olhar quase com timidez. Ainda me pergunto se ela previa o futuro — que o Arquivo da Talamasca sobre os Bruxos Mayfair tragaria a vida de Aaron com a mesma certeza que o Vampiro Lestat tragou a minha.
Eu me perguntava qual era sua opinião sobre a morte de Aaron mesmo agora, enquanto estávamos sentados à mesa do café, e eu falava baixinho com a mulher bela e segura que a menina se tornara.
O garçom velho e debilitado trouxe-lhe a garrafa de rum pedida, o St. James da Martinica, escuro. Senti o perfume forte enquanto ela enchia o copinho pesado, octogonal. Fui invadido por lembranças. Não do início com ela, mas de outras ocasiões.
Ela bebeu exatamente como eu sabia que beberia, do jeito que eu me lembrava, como se não fosse nada mais do que água. O garçom voltou para seu esconderijo, arrastando os pés. Ela ergueu a garrafa antes que eu o fizesse para ela, e voltou a encher o copo.
Vi que passava a língua pela parte interna dos lábios. Vi que seus olhos grandes e penetrantes voltavam a me encarar.
— Você se lembra de beber rum comigo? — perguntou, quase sorrindo, mas ainda não. Estava tensa demais, alerta demais para sorrir, por enquanto. — Você se lembra? Estou falando daquelas poucas noites na selva. Ah, como você tem razão quando diz que o vampiro é um monstro humano. Você ainda é tão humano. Dá para perceber na sua expressão. Nos seus gestos. Quanto ao corpo, ele é totalmente humano. Não há um sinal...
— Há sinais — disse eu, discordando dela. — E com o passar do tempo, você os verá. Vai se sentir constrangida, depois temerosa e acabará se acostumando. Pode acreditar em mim, eu sei.
Ela ergueu as sobrancelhas e então aceitou o que eu disse. Tomou mais um gole, e eu imaginei como era delicioso para ela. Eu sabia que ela não bebia todos os dias e que, quando de fato bebia, gostava muito mesmo.
— Tantas lembranças, bela Merrick — murmurei. Parecia essencial que eu não cedesse a elas, que eu me concentrasse naquelas recordações que com mais certeza venerassem sua inocência e me lembrassem uma confiança sagrada.
Até o final da vida, Aaron sempre sentira total admiração por ela, embora raramente falasse nisso comigo. O que ela teria descoberto sobre o trágico acidente com fuga que tinha apanhado Aaron de surpresa? Naquela época eu já tinha saído da Talamasca, da preocupação de Aaron e da vida.
E imaginar que tivéssemos levado uma vida tão longa como estudiosos, Aaron e eu. Deveríamos estar fora do alcance de todo e qualquer infortúnio. Quem teria sonhado que nossas pesquisas nos enredariam e, de modo tão dramático, desviariam nosso destino da dedicação daqueles longos anos de lealdade? Mas o mesmo não tinha acontecido com outro membro fiel da Talamasca, minha querida aluna Jesse Reeves?
Naquela época, quando Merrick era a menina sensual e eu, o estupefato superior geral, eu não pensava que os poucos anos que me restavam reservassem qualquer surpresa de importância.
Por que eu não havia aprendido com a história de Jesse? Jesse Reeves tinha sido minha aluna ainda com maior confiança do que Merrick jamais se tornaria, e os vampiros tragaram Jesse por inteiro.
Com enorme dedicação, Jesse me enviara uma última carta, coalhada de eufemismos, e sem nenhum valor verdadeiro para mais ninguém, na qual me informava que nunca mais me veria. Eu não tinha considerado o destino de Jesse um aviso para mim. Pensei apenas que, para o estudo profundo dos vampiros, Jesse Reeves era nova demais.
Tudo isso era passado agora. Nada restava daquela mágoa. Nada restava daqueles erros. Minha vida mortal tinha sido destruída, minha alma alçando vôo para depois cair, minha vida de vampiro apagando todas as pequenas realizações, todos os pequenos consolos do homem que eu tinha sido outrora. Jesse era uma de nós. Eu conhecia seus segredos e sabia que ela sempre estaria distante de mim.
O que importava agora era o espírito que Jesse tinha apenas vislumbrado durante suas investigações, a história macabra que assombrava Louis e o pedido absurdo que eu agora fazia à minha adorada Merrick, de que ela, com seu talento extraordinário, invocasse o espírito de Claudia.
2
NO CAFÉ APÁTICO, OBSERVEI ENQUANTO MERRICK TOMAVA MAIS UM BOM gole do rum. Deleitei-me enquanto ela passava os olhos devagar pela sala empoeirada.
Deixei que meu pensamento voltasse àquela noite distante em Oak Haven, quando a chuva batia nas vidraças. O ar estava aquecido e pesado com o cheiro dos lampiões e o fogo forte na lareira. A primavera estava chegando, mas a tempestade tinha esfriado o ar. Merrick estivera falando da família branca de sobrenome Mayfair, de quem sabia muito pouco, dizia ela.
— Nenhum de nós com um mínimo de juízo faria uma coisa dessas — prosseguiu ela —, ir procurar os primos brancos, esperando deles qualquer coisa só por causa de um nome. — Ela rejeitava tudo aquilo. — Não sou eu quem vai procurar gente branca para tentar lhes dizer que sou do seu sangue.
Aaron olhou para mim, os olhos cinzentos e vivazes ocultando suas emoções mais ternas, mas eu sabia que ele queria que eu desse uma resposta.
— Não há necessidade, minha filha — disse eu. — Você agora é nossa responsabilidade, se quiser ficar conosco. Nós somos sua gente. Ora, já está acertado. Esta é sua casa para sempre. Só você poderá mudar isso, se quiser.
Senti um calafrio, presságio de algo grave e significativo, quando lhe dirigi essas palavras. E me permiti o prazer.
— Nós vamos sempre cuidar de você — insisti e poderia ter-lhe dado um beijo se ela não fosse tão bonita e apetitosa, com os pés descalços sobre o tapete florido e os seios nus por baixo do vestido solto.
Ela não respondeu.
— Todos senhores e senhoras, ao que parece — disse Aaron, examinando os daguerreótipos. — E como estão em excelentes condições, esses pequenos retratos. — Ele deu um suspiro. — Ah, o assombro que deve ter sido em 1840, quando aprenderam a fazer essas imagens.
— É mesmo, meu tio-bisavô escreveu muito a respeito disso — comentou Merrick. — Não sei se ainda seria possível alguém ler aquelas páginas. Já estavam se esfarelando quando Grande Nananne me mostrou pela primeira vez. Mas, como eu ia dizendo, todos esses retratos foram tirados por ele. Aqui, as ferrotipias, foi ele quem fez também. — Seu suspiro tinha um quê de tédio feminino, como se ela já tivesse passado por tudo. — Morreu com muita idade, dizem, com a casa cheia de retratos, até os sobrinhos brancos chegarem para quebrar tudo, mas eu vou chegar lá.
Fiquei escandalizado e aturdido com uma revelação dessas, sem conseguir encontrar desculpa. Daguerreótipos quebrados. Rostos perdidos para sempre. Ela prosseguiu, erguendo os pequenos retângulos metálicos, muitos sem moldura mas nítidos, da sua arca do tesouro de papelão.
— Às vezes abro caixas dos aposentos de Grande Nananne e encontro o papel todo em pedacinhos. Acho que são os ratos que vêm comer o papel. Grande Nananne diz que os ratos comem o dinheiro da gente, e é por isso que é preciso guardar o dinheiro numa caixa de ferro. O ferro é mágico, vocês sabem. As irmãs, quer dizer, as freiras não sabem. É por isso que na Bíblia não se podia construir com uma pá de ferro, porque o ferro era poderoso, e não se podia pôr uma pá de ferro sobre os tijolos do templo do Senhor. Nem naquela época, nem agora.
Parecia ser uma estranha informação secreta, embora ela estivesse corretíssima em tese.
Merrick deixara as palavras fluírem.
— O ferro e as pás. Isso vem de muito longe. O rei da Babilônia segurava na mão uma pá, com a qual assentou os tijolos do templo. E os maçons hoje em dia mantêm essa idéia na sua Ordem; e na nota de um dólar a gente vê aquela pirâmide de tijolos em ruínas.
Eu estava assombrado. A facilidade com que ela tocava nesses conceitos complexos. O que ela havia conhecido na vida, perguntei-me, Que tipo de mulher acabaria sendo?
Lembro-me de que estava olhando para mim, enquanto proferia aquelas palavras, avaliando minha reação, talvez, e foi só então que ficou claro para mim como Merrick sentia necessidade de falar do que lhe ensinaram, do que achava, do que tinha ouvido.
— Mas por que vocês são tão bons? — perguntou, examinando minha expressão com bastante delicadeza. — Sei por que os padres e as freiras são bons para nós. Chegam trazendo mantimentos e roupas para nós. Mas vocês, por que são tão bons? Por que me deixaram entrar e me deram um quarto aqui? Por que me permitem fazer o que quiser? No sábado, passei o dia inteiro olhando revistas e ouvindo rádio. Por que me dão comida e tentam me fazer calçar sapatos?
— Minha filha — contrapôs Aaron. — Somos tão velhos quanto a Igreja de Roma. Somos tão antigos quanto as ordens de irmãs e de padres que as visitaram. É, eu diria que somos mais velhos que quase todas elas.
Mesmo assim, ela recorreu a mim para uma explicação.
— Nós temos nossas crenças e nossas tradições — disse eu. — É comum ser mau, ganancioso, corrupto e egoísta. É raro amar. Nós amamos.
Mais uma vez, eu apreciava nosso sentido de objetivo, nosso compromisso de que éramos a imaculada Talamasca, de que nos importávamos com os excluídos, de que abrigávamos o mago e o vidente, de que havíamos salvado bruxas da fogueira e estendíamos a mão até mesmo aos espíritos errantes, isso mesmo, até às sombras que os outros temem. Isso vínhamos fazendo havia bem mais de mil anos.
— Mas esses pequenos tesouros, sua família, sua herança cultural — eu me apressei a explicar —, eles têm importância para nós porque têm para você. E eles sempre serão seus.
Ela fez que sim. Eu acertara o tom.
— A bruxaria é meu cartão de apresentação, Sr. Talbot — disse ela, com astúcia —, mas tudo isso vem junto.
Apreciei o entusiasmo efêmero que lhe iluminou o rosto.
E agora, uns vinte anos depois, o que eu estava fazendo, procurando por ela, descobrindo que sua velha casa em Nova Orleans estava abandonada, espiando seus passos em Oak Haven, enquanto caminhava pelas largas varandas do sobrado como se fosse um velho vampiro de histórias de horror, olhando pela janela do seu próprio quarto até ela se sentar na cama e falar meu nome na escuridão.
Eu lhe fizera mal, eu sabia, e isso era empolgante, e eu precisava dela, e era egoísta, e sentia sua falta, e era só isso.
Fazia só uma semana desde que lhe escrevi.
Sozinho na casa geminada na Rue Royale, eu lhe escrevera à mão num estilo que não havia mudado com minha sorte.
Cara Merrick,
É, fui eu quem você viu na sacada do lado de fora do seu quarto. Não era minha intenção assustá-la, mas apenas me confortar, brincando de anjo da guarda, devo confessar, se você me perdoar, enquanto eu pairava junto à sua janela durante uma boa parte da noite.
Tenho um pedido que lhe faço da minha alma para a sua. Não posso expor o que é nesta carta. Peço-lhe que venha se encontrar comigo em algum lugar público, onde você se sinta segura, protegida de mim, um lugar que você mesma escolha. Ponha sua resposta nesta caixa de correio, e eu lhe responderei prontamente, Merrick, perdoe-me. Se você informar os Anciãos ou o superior geral a respeito deste contato, é extremamente provável que eles a proíbam de vir ao meu encontro. Peço-lhe por favor que me conceda um pouco de tempo para falar com você antes que você tome tal atitude.
Seu na Talamasca para sempre,
David Talbot.
Quanta audácia e egoísmo eu ter escrito um bilhete desses e tê-lo posto na caixa de correspondência no início da entrada de carros nas horas que antecedem o amanhecer.
Ela respondeu, com um bilhete tentador nos detalhes, repleto de afeto imerecido.
Mal posso esperar para falar com você. Fique tranqüilo, quaisquer que sejam os choques que esse encontro possa me reservar, eu procuro você dentro do David do mistério, a quem sempre amei. Você foi meu pai quando precisei, e meu amigo desde então. E eu já o avistei depois de sua metamorfose, talvez mais vezes do que você saiba.
Sei o que lhe aconteceu. Tenho conhecimento daqueles com quem você vive. O Café do Leão. Rue St. Anne. Você se lembra? Anos atrás, antes de irmos à América Central, fizemos lá uma refeição rápida. Você estava muito preocupado com a idéia da nossa partida para aquela selva. Você se lembra de como discutimos? Acho que usei os encantos de uma bruxa para convencê-lo. Sempre achei que você soubesse. Por alguns dias estarei lá no início do entardecer na esperança de que você apareça.
Ela assinara o bilhete exatamente como eu assinara o meu.
“Sua na Talamasca para sempre.”
Eu colocara meu interesse adiante do meu amor por ela, e do meu dever a ela. Agora sentia alívio por já ter agido.
No passado, quando ela era a órfã na tempestade, algo semelhante teria sido impensável. Ela estava sob minha responsabilidade, aquela pequena andarilha que uma noite viera sozinha, de modo tão surpreendente, bater na nossa porta.
— Nossos motivos são os mesmo que os seus — dissera-lhe Aaron, de forma extremamente direta naquela noite distante em Oak Haven. Ele estendeu o braço e lhe afastou do ombro a cabeleira castanha e macia, como se fosse seu irmão mais velho. — Queremos preservar o conhecimento. Queremos salvar a história. Queremos estudar e esperamos compreender.
Ele suspirou baixinho mais uma vez, de um modo tão atípico.
— Ah, aqueles primos brancos, a família Mayfair do Garden District, como você os chamou, e com muito acerto, sim, nós temos conhecimento deles — admitiu ele, para minha surpresa —, mas nós guardamos nossos segredos a menos que o dever nos leve a revelá-los. O que significa a longa história deles para você neste momento? As vidas daquelas pessoas estão enredadas para sempre como trepadeiras espinhentas dando voltas e mais voltas na mesma árvore. Sua vida, Merrick, pode não ter nada a ver com aquela luta ferrenha. O que nos interessa aqui e agora é o que podemos fazer por você. Não estou falando por falar quando lhe digo que você pode confiar em nós para sempre. Como David disse, você é nossa responsabilidade.
Ela refletiu. Não lhe era fácil aceitar tudo isso. Estava muito acostumada a ficar sozinha com Grande Nananne e, no entanto, algo poderoso a impelira a confiar em nós mesmo antes de vir até ali.
— Grande Nananne confia em vocês — disse ela, como se eu lhe tivesse perguntado. — Grande Nananne disse que eu os devia procurar. Grande Nananne teve um dos seus muitos sonhos, acordou antes do amanhecer e tocou a campainha para eu vir. Eu estava dormindo na varanda telada. Entrei e a encontrei em pé na sua camisola de flanela branca. Ela sente frio o tempo todo, sabe, sempre usa flanela, mesmo nas noites em que faz mais calor. Disse para eu me sentar e ouvir com atenção o que ela havia sonhado.
— Diga o que foi, minha filha — pediu Aaron. Será que eles não tinham tocado nesse assunto antes da minha chegada?
— Ela sonhou com o Sr. Lightner, com o senhor — disse ela, olhando para Aaron —, e no sonho o senhor lhe aparecia com Oncle Julien, o Oncle Julien branco do clã da cidade alta. E vocês dois se sentaram ao lado da cama dela.
“Oncle Julien contou piadas e histórias, e disse que estava feliz de aparecer no sonho dela. Ela disse que Oncle Julien recomendou que eu viesse procurar o senhor, aqui, Sr. Lightner, e que o Sr. Talbot viria. Oncle Julien falava em francês e o senhor mesmo estava sentado na cadeira de encosto de palhinha, sorrindo e fazendo que sim para ela. E o senhor lhe trouxe uma xícara de café com leite do jeito que ela gosta, com meia xícara de açúcar e uma das suas Colheres de prata preferidas. Nos sonhos e fora deles, Grande Nananne tem mil Colheres de prata.” O sonho continuava.
— Afinal o senhor se sentou na cama dela, na sua melhor colcha de retalhos, ao seu lado, e lhe segurou a mão. E ela estava com todos os seus melhores anéis, que ela nem usa mais, sabe? E o senhor lhe disse no sonho: “Mande a pequena Merrick me procurar.” Disse que ia cuidar de mim e disse que ela ia morrer.
Aaron não tinha ouvido esse estranho relato e pareceu muito abalado, perplexo. Em tom carinhoso, ele contrapôs.
— Deve ter sido Oncle Julien que disse uma coisa dessas no sonho. Como eu poderia conhecer um segredo desses?
Nunca me esqueci desse seu protesto, porque não era do seu feitio comprometer-se mesmo que fosse uma admissão de ignorância, nem insistir com tanta veemência num ponto desses.
— Não, não, foi o senhor quem contou — disse a criança encantada. — O senhor lhe deu o dia da semana e a hora, e isso ainda está por vir. — Ela olhou mais uma vez para os retratos, pensativa. — Não se preocupe com isso. Eu sei quando é que vai acontecer. — De repente, seu rosto estava cheio de tristeza. — Não posso ficar com Grande Nananne para sempre. Les mystères não querem esperar.
Les mystères. Ela queria dizer os antepassados, os deuses do vodu, ou apenas os segredos do destino? Eu não conseguia penetrar nos seus pensamentos de modo algum.
— São Pedro está esperando — murmurou ela, enquanto a tristeza visível aos poucos recuava por trás do seu véu de calma.
Subitamente ela me lançou um olhar e murmurou algo em francês. Papa Legba, deus das encruzilhadas no vodu, para quem uma imagem de São Pedro serviria perfeitamente.
Percebi que Aaron não conseguia chegar a lhe fazer mais nenhuma pergunta com relação a seu papel no sonho, a data de morte iminente de Grande Nananne. No entanto, ele fazia que sim e mais uma vez com as duas mãos afastou o cabelo da menina do pescoço úmido, onde alguns fios rebeldes estavam grudados à sua pele macia.