Merrick

Anne Rice · Capítulo 1 de 8 · parte 2/4

Páginas do PDF

Merrick

Anne Rice

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Aaron a encarava com autêntico assombro enquanto ela prosseguia seu relato.

— A primeira coisa que aconteceu depois desse sonho foi que um velho mulato apareceu com uma caminhonete, pronto para me levar, e ele disse que eu não precisava levar bolsa, que viesse como estava. Eu embarquei na caminhonete, e ele me trouxe até aqui, sem sequer falar comigo, só escutando no rádio alguma estação que tocava blues antigos e fumando cigarros o tempo todo. Grande Nananne sabia que era Oak Haven porque o Sr. Lightner disse isso para ela no sonho...

“Grande Nananne conhecia a Oak Haven dos velhos tempos, quando era um tipo diferente de casa com um nome diferente. Oncle Julien lhe contou um monte de outras histórias, mas ela não me disse do que se tratava. Só disse: ‘Vá até eles, a Talamasca. Eles vão cuidar de você, e esse vai ser o melhor caminho para você e para todas as coisas que sabe fazer.’”

Deu um calafrio: todas as coisas que sabe fazer. Lembro-me da tristeza na expressão de Aaron. Ele abanou a cabeça só de leve. Não a deixe preocupada agora, pensei um pouco irritado, mas a criança não se perturbara.

Oncle Julien, famoso na tradição Mayfair, não me era nenhum desconhecido. Eu tinha lido muitos capítulos sobre a carreira desse poderoso bruxo e vidente, o único homem daquela família estranha a se opor ao tormento de um espírito masculino e de suas bruxas ao longo de muitos séculos. Oncle Julien — mentor, louco, garanhão, lenda, pai de bruxas —, e a menina dissera que descendia dele.

Tinha de ser magia poderosa, mas Oncle Julien era do campo de Aaron, não do meu.

Ela me observava atentamente enquanto falava.

— Não estou acostumada a que as pessoas acreditem em mim — disse —, mas já me habituei a deixar as pessoas com medo.

— Como assim, minha filha? — perguntei. Mas ela já me assustara o bastante com sua extraordinária tranqüilidade e com seu olhar penetrante. O que será que ela sabia fazer? Será que eu um dia descobriria? Naquela primeira noite, era válido ponderar essa questão, pois não era nosso costume incentivar nossos órfãos a dar rédea solta a seus perigosos poderes. Em todos os aspectos dessa natureza, éramos religiosamente passivos.

Afastei minha curiosidade inconveniente e passei a gravar na memória sua aparência, como era meu costume naquela época, olhando com atenção para cada aspecto do seu rosto e do seu corpo.

Os braços e pernas eram lindamente torneados; os seios já eram excessivamente sedutores; e as feições eram grandes, todas elas sem absolutamente nenhum indício de africanos — grande a boca bem desenhada; grandes os olhos amendoados e o longo nariz; esguio e extremamente gracioso o pescoço. Havia uma harmonia no seu rosto mesmo quando ela estava mergulhada em pensamentos.

— Podem guardar seus segredos sobre os brancos da família Mayfair — disse ela. — Talvez um dia possamos trocar segredos, vocês e eu. Nestes nossos tempos, eles nem sabem que estamos aqui. Grande Nananne disse que Oncle Julien morreu antes de ela nascer. No sonho, ele não disse uma palavra sequer sobre os brancos da família Mayfair. Disse para eu vir para cá. — Ela fez um gesto na direção das velhas fotografias de vidro. — Essa é a minha gente. Se fosse para eu ir procurar os brancos da família Mayfair, Grande Nananne já teria visto isso há muito tempo. — Ela fez uma pausa, pensativa. — Vamos só conversar sobre os velhos tempos.

Com carinho, ela espalhou os daguerreótipos sobre a mesa de mogno. Formou uma fileira bem arrumada, limpando com a mão os fragmentos esfarelados. E, ao mesmo tempo, eu percebi que todas as pequenas figuras estavam de cabeça para baixo do ponto de vista dela e na posição correta para Aaron e para mim.

— Já houve gente branca do meu sangue que veio até aqui e tentou destruir documentos — disse ela. — Sabe como é, arrancar direto do registro da igreja a página que diz que a bisavó deles era de cor. Femme de couleur libre, é isso o que consta em alguns registros antigos em francês.

“Imagine destruir tanta história, a página inteira do registro da igreja com todos aqueles nascimentos, mortes e casamentos, sem nem querer saber. Imagine entrar na casa do meu tio-bisavô e quebrar aqueles retratos, retratos que deveriam estar em algum local seguro para um monte de gente ver.”

Ela deu um suspiro, muito parecido com o de uma mulher enfastiada, enquanto contemplava a caixa de sapatos desgastada e os tesouros ali dentro.

— Agora eu tenho essas fotografias. Tenho tudo e estou com vocês. Eles não têm como me encontrar e não podem jogar tudo fora.

Ela enfiou a mão de novo na caixa de sapatos e tirou as cartes de visite — velhas fotografias sobre papelão das últimas décadas do século XIX. Dava para ver as letras longas e inclinadas num roxo desbotado no verso desses retratos mais recentes, enquanto ela os virava para lá e para cá.

— Estão vendo, este aqui é Oncle Vervain — disse ela. Olhei para o rapaz magro, de boa aparência, de cabelo escuro, pele morena e olhos claros como os dela. Era um retrato bastante romântico. Num terno bem cortado, com colete, ele estava em pé com o braço pousado numa coluna grega tendo como fundo um céu pintado. O retrato era em sépia forte. O sangue africano estava nítido na boca e no nariz bem-feitos do homem.

— Agora essa aqui é de 1920. — Ela virou a fotografia uma vez e mais outra antes de dispô-la na mesa para que nós a víssemos. — Oncle Vervain era um curandeiro do vodu, e eu o conheci bem antes que morresse. Eu era pequena, mas nunca vou me esquecer dele. Ele podia dançar e cuspir o rum por entre os dentes diante do altar e deixar todo mundo apavorado, eu lhe garanto.

Ela demorou, mas acabou encontrando o que queria. O próximo retrato.

— É esse aqui, estão vendo? — Tinha posto sobre a mesa mais uma antiga fotografia, desta vez de um homem de cor, idoso e grisalho, sentado numa imponente cadeira de madeira. — O Velho é como sempre o chamavam. Eu nem mesmo o conheço por nenhum outro nome. Ele voltou para o Haiti para estudar magia e ensinou a Oncle Vervain tudo o que sabia. Às vezes, tenho a impressão de que Oncle Vervain está falando comigo. Às vezes tenho a impressão de que ele está do lado de fora da nossa casa tomando conta de Grande Nananne. Uma vez eu vi o Velho num sonho.

Eu queria tanto fazer perguntas, mas aquela não era a hora adequada.

— Estão vendo? Esta aqui é a Linda Justine — disse ela, pondo na mesa talvez o retrato mais impressionante de todos, uma foto de estúdio impressa em cartão grosso numa moldura de cartão sépia. — Linda Justine deixava todo mundo com medo. — A moça era de fato bonita, sem busto no estilo da década de 1920, o cabelo cortado curto, a pele morena de uma beleza perfeita, os olhos e a boca ligeiramente sem expressão, ou talvez demonstrando uma certa dor.

Agora vinham os instantâneos modernos, finos e encurvados, obra de câmeras portáteis bem comuns nos tempos atuais.

— Esses eram os piores, os filhos dele — disse ela, enquanto apontava para a fotografia em preto-e-branco, de pontas encurvadas. — Eram netos de Linda Justine, todos brancos, moradores de Nova York. Esses queriam pôr as mãos em tudo que dissesse que eles eram de cor e rasgar. Grande Nananne sabia o que eles queriam. Ela não se deixou enganar pelas boas maneiras, pelo seu jeito de me levar até o centro da cidade para comprar roupas bonitas. Eu ainda tenho essas roupas. Vestidinhos que ninguém nunca usou e sapatinhos com a sola ainda limpa. Quando eles foram embora, não deixaram endereço. Estão vendo, olhem só para eles no retrato. Vejam como estão ansiosos. Mas eu fiz maldades com eles.

Aaron abanou a cabeça, examinando os rostos desconhecidos e tensos. Como os retratos me perturbaram, não tirei os olhos da criança-mulher.

— O que você fez, Merrick? — perguntei, sem deixar que a prudência me tolhesse.

— Ah, vocês sabem. Li segredos na palma das suas mãos e lhes disse coisas desagradáveis que eles sempre tentaram encobrir. Não foi generoso agir assim, mas foi o que fiz só para forçá-los a ir embora. Disse que nossa casa estava cheia de espíritos. Fiz os espíritos aparecerem. Não, eu não fiz com que aparecessem. Só chamei, e eles vieram como eu pedi. Grande Nananne achou engraçado. Eles diziam: “Faça cora que ela pare”, e Grande Nananne respondia: “E o que os leva a pensar que eu tenho poderes para isso?”, como se eu fosse algum animal selvagem que ela não conseguisse controlar.

Mais uma vez, aquele suspiro de leve.

— Grande Nananne está morrendo de verdade — disse ela, erguendo os olhos para mim, os olhos verdes que nunca hesitavam. — Ela diz que não resta mais ninguém, e que eu preciso guardar esses objetos, seus livros, seus recortes. Estão vendo aqui esses recortes? O jornal é tão frágil que está se esfarelando. O Sr. Lightner vai me ajudar a preservar tudo isso. — Ela olhou para Aaron de relance. — Por que tem tanto medo por mim, Sr. Talbot? Vocês não têm força suficiente? Não acha que é tão ruim assim ser de cor, acha? O senhor não é daqui, é de muito longe.

Medo. Será que eu estava sentindo um medo tão forte assim? Seu tom era de autoridade, e eu procurei a verdade nele, mas passei rápido à minha própria defesa e talvez também à dela.

— Pode ler meu coração, minha filha. Não tenho nenhum pensamento semelhante acerca da cor da pele, embora talvez possa ter havido ocasiões em que considerei que isso poderia ter sido falta de sorte num caso especial. — Ela ergueu ligeiramente as sobrancelhas, pensativa. Continuei, talvez ansioso, mas sem medo. — Estou triste porque você diz que não tem mais ninguém, e estou feliz porque sei que você tem a nós.

— Ê mais ou menos isso o que Grande Nananne diz — respondeu ela. E, pela primeira vez, sua boca larga e carnuda formou um sorriso de verdade.

Minha mente se desviara, com lembranças das incomparáveis mulheres de cor morena que eu havia visto na Índia, apesar de Merrick ser um assombro de tons diferentes, a densa cabeleira de mogno e os olhos claros tão visíveis e tão expressivos. Voltou a me ocorrer que aos olhos de muitos ela devia parecer exótica, essa menina descalça no camisão florido.

Ocorreu então um instante de puro sentimento, que deixou sua marca irracional e indelével. Passei os olhos pelos muitos rostos sobre a mesa, e me pareceu que todos me fitavam. Foi uma impressão forte. Os pequenos retratos estavam vivos aquele tempo todo.

Deve ser a luz do fogo e os lampiões, pensei, sonhador, mas não consegui me livrar da impressão. Aquelas pequenas pessoas tinham sido arrumadas ali para olhar para Aaron e para mim. Mesmo a disposição parecia proposital e astuciosa, ou assombrosamente significativa, conjeturei, enquanto passava tranqüilamente da suspeita para uma sensação calma e amena de estar em audiência com uma hoste de mortos.

— E eles parecem mesmo que estão olhando — eu me lembro de Aaron ter murmurado, apesar de eu ter certeza de não ter falado. O relógio tinha parado de bater seu tique-taque, e eu me voltei para olhar para ele, sem saber onde ele se encontrava. No consolo da lareira, isso mesmo, e os ponteiros estavam parados. As vidraças davam aqueles estalos abafados que costumam dar quando o vento lhes dá cutucadas, e a casa me envolvia bem protegido na sua própria atmosfera de calor e segredos, de segurança e inviolabilidade, de sonho e poder coletivo.

Pareceu que um longo intervalo tinha passado no qual nenhum de nós falou, e Merrick olhava fixamente para mim e depois para Aaron, as mãos imóveis, o rosto reluzente com aquela iluminação.

Despertei de repente para me dar conta de que nada tinha mudado na sala. Eu teria adormecido? Grosseria imperdoável. Aaron estava ao meu lado como antes. E as fotografias estavam novamente inertes e tristonhas, um testemunho formal da mortalidade tão certo quanto se ela tivesse disposto diante de mim para exame uma caveira retirada de um cemitério em ruínas. Mas a inquietação que eu tinha sentido permaneceu comigo muito depois de todos nós termos ido cada um para seu quarto.

Agora — depois de vinte anos e de muitos outros momentos estranhos — ela estava sentada diante de mim a essa mesa de café na Rue St. Anne, uma beleza de mulher contemplando um vampiro, e conversávamos por cima da vela bruxuleante, uma luz que era excessivamente semelhante à luz daquela noite remota em Oak Haven, embora hoje esse final de entardecer de primavera estivesse apenas agradavelmente úmido, não sufocante com a chegada de uma tempestade.

Ela tomou um gole do rum, fazendo-o rolar um pouco pela boca antes de engoli-lo. Mas ela não me enganava. Logo começaria de novo a beber rápido. Pôs de lado o copo, deixando os dedos bem abertos sobre o mármore manchado. Anéis. Aqueles eram os muitos anéis de Grande Nananne, belas filigranas em ouro com várias pedras extraordinárias. Ela os usara até mesmo na selva, quando eu considerava isso tão imprudente. Ela nunca fora dada a medos de qualquer espécie.

Pensei em como ela era no calor daquelas noites tropicais. Pensei em como ela era durante aquelas horas sufocantes sob o alto dossel de folhas verdes. Pensei na difícil caminhada pelas trevas do antigo templo. Pensei nela subindo a encosta suave à minha frente, em meio aos roncos e borrifos da cascata.

Eu era velho demais para aquilo, para nossa aventura tremenda e secreta. Pensei em objetos preciosos feitos de jade, verde como seus olhos.

Sua voz fez com que eu despertasse desse devaneio.

— Por que você está me pedindo para fazer isso? — Ela voltou a me fazer a pergunta. — Estou aqui sentada olhando para você, David; e, a cada segundo que passa, percebo ainda mais o que você é e o que lhe aconteceu. Reúno todos os tipos de peças da sua mente aberta, e sua mente está tão aberta quanto sempre, David, você sabe disso, não sabe?

Como sua voz era resoluta. É, o francês tinha desaparecido totalmente.

Dez anos antes, já havia desaparecido. Mas agora havia uma espécie de mutilação nas suas palavras, por mais baixo que ela falasse.

Seus olhos grandes cresciam facilmente acompanhando a expressividade dos seus ritmos verbais.

— Você não conseguiu manter a mente muda nem mesmo na varanda no outro dia — disse ela, em tom de repreensão. — Você me acordou. Eu o ouvi exatamente como se você estivesse dando batidinhas na vidraça. Você dizia: “Merrick, será que você pode fazer isso? Será que pode invocar os mortos para Louis de Pointe du Lac?” E sabe o que eu ouvia por trás da pergunta? Eu ouvia: “Merrick, eu preciso de você. Preciso falar com você. Merrick, meu destino está destroçado. Merrick, estou procurando compreensão. Não me ignore.”

Senti uma dor aguda no coração.

— O que você está dizendo é verdade — confessei.

Tomou mais um grande gole do rum, e o calor dançava no seu rosto.

— Mas você quer essa história para Louis — disse ela. — Você quer isso o suficiente para que sua vontade abafe seus próprios escrúpulos e você venha à minha janela. Por quê? A você, eu compreendo. Dele, conheço histórias contadas pelos outros e só muito pouco vi com meus próprios olhos. Um belo rapaz, é o que ele é, não é?

Eu estava confuso demais para responder, confuso demais para forçar a cortesia a criar uma ponte temporária de mentiras bem educadas.

— David, dê-me sua mão, por favor — ela pediu, de repente. — Preciso tocar em você. Preciso sentir essa sua pele estranha.

— Ai, querida, se ao menos você pudesse abrir mão disso — murmurei. Os grandes brincos dourados balançavam aninhados no cabelo negro e encostando na longa linha de seu belo pescoço. Tudo o que a menina prometera ser se concretizara nela. Os homens sentiam enorme admiração por ela. Isso eu já sabia havia muito tempo.

Ela estendeu a mão, graciosa. Com audácia, em desespero, dei-lhe minha mão.

Eu queria o contato. Queria aquela intimidade. Sentia-me tremendamente estimulado. E, me deleitando com a sensação, deixei que seus dedos se demorassem ali enquanto ela examinava a palma da minha mão.

— Por que ler essa palma, Merrick? — perguntei. — O que ela pode lhe dizer? Este corpo pertenceu a outro homem. Você quer ler o mapa do seu destino interrompido? Dá para você ver aí que ele foi assassinado e o corpo roubado? Dá para você ver aí minha própria invasão egoísta de um corpo que deveria ter morrido?

— Conheço a história, David — respondeu ela. — Eu a encontrei nos papéis de Aaron. Troca de corpos. Algo altamente hipotético no que diz respeito à posição oficial da Ordem. Mas você foi um enorme sucesso.

Seus dedos faziam disparar calafrios pela minha coluna que percorriam as raízes do meu cabelo.

— Depois da morte de Aaron, eu li tudo — disse ela, enquanto passava as pontas dos dedos pelo desenho de linhas bem marcadas. Recitou então o texto.

— “David Talbot não mais se encontra em seu próprio corpo. Durante uma experiência malfadada com projeção astral, ele foi expulso de sua própria forma por um Ladrão de Corpos experiente e foi forçado a apoderar-se do jovem troféu de seu antagonista, um corpo roubado de uma alma destroçada que, ao que saibamos, seguiu seu caminho.”

Estremeci ao ouvir o velho estilo da Talamasca que eu conhecia.

— Não era para eu encontrar aqueles papéis — prosseguiu ela, com os olhos fixos na palma da minha mão. — Mas Aaron morreu aqui, em Nova Orleans, e eu estava com eles nas mãos antes de qualquer outra pessoa. Eles ainda estão comigo, David; nunca foram arquivados com os Anciãos, e talvez nunca venham a ser. Eu não sei.

Fiquei perplexo com sua audácia, de ter guardado segredos dessa natureza da Ordem à qual tinha devotado ávida. Quando eu havia tido uma independência dessas, a não ser talvez bem no final?

Seus olhos moviam-se rápidos de um lado para o outro enquanto ela examinava minha palma. Ela apertou minha carne de leve com o polegar. Os calafrios eram insuportavelmente excitantes. Eu queria abraçá-la, não me alimentar, não, não feri-la, mas apenas beijá-la, apenas cravar meus caninos só um pouquinho, apenas provar seu sangue e seus segredos, mas isso era terrível, e eu não permitiria que continuasse.

Recolhi a mão estendida.

— O que você viu, Merrick? — perguntei rápido, contendo a fome do corpo e da mente.

— Desastres, grandes e pequenos, meu amigo, uma linha da vida que prossegue mais que qualquer outra, estrelas de força e toda uma família de descendentes.

— Pare com isso. Eu não aceito. A mão não é minha.

— Você agora não tem nenhum outro corpo — retrucou ela. — Você não acha que o corpo irá se harmonizar à sua nova alma? A palma da mão muda ao longo do tempo. Mas não quero deixá-lo zangado. Não vim aqui para estudá-lo. Não vim aqui para ficar olhando para um vampiro com um fascínio impassível. Já vi vampiros de relance. Já estive perto deles, nestas mesmas ruas. Vim aqui porque você pediu e porque senti vontade de... estar com você.

Eu fiz que sim, comovido e por um instante sem conseguir falar. Com gestos rápidos, implorei-lhe que se calasse. Ela esperou.

— Você pediu permissão aos Anciãos para este encontro? — perguntei afinal.

Ela riu, mas sem crueldade.

— Claro que não.

— Então quero que saiba o seguinte — disse eu. — Começou do mesmo jeito comigo e com o Vampiro Lestat. Eu não contei aos Anciãos. Não os informei da freqüência com que eu o via, de que o deixei entrar na minha casa, de que me tornei seu amigo, viajei com ele, ensinei-o a resgatar seu corpo sobrenatural quando o Ladrão de Corpos o expulsou dele por meio de ardil.

Ela procurou me interromper, mas eu não consenti.

— E você se dá conta do que me aconteceu? — perguntei. — Eu achava que era inteligente demais para que Lestat chegasse a me seduzir. Achava que eu, na minha idade, era sábio demais para ser seduzido pela imortalidade.

Achava que eu era superior em termos morais, e agora você está vendo o que eu sou.

— Você não vai jurar para mim que nunca vai me ferir? — perguntou ela, com uma linda cor subindo-lhe ao rosto. — Você não vai me assegurar que Louis de Pointe du Lac nunca me causaria nenhum mal?

— É claro que vou. Mas ainda resta um pouco de correção em mim, e é essa correção que me força a lhe relembrar que sou uma criatura de apetite sobrenatural.

Mais uma vez, ela tentou interromper, mas eu não permiti.

— Minha mera presença, com todos os sinais de poder, pode solapar sua própria tolerância pela vida, Merrick. Ela pode corroer sua fé numa ordem moral. Pode prejudicar sua disposição de morrer uma morte comum.

— Ah, David — disse ela, repreendendo-me por meu tom oficial. — Fale abertamente. O que o seu coração lhe diz? — Empertigou-se na cadeira, olhando para mim dos pés à cabeça. — Você parece infantil e sábio nesse seu corpo jovem. Sua pele está morena, como a minha! Mesmo suas feições têm a marca da Ásia. Mas você é mais David do que jamais foi!

Não respondi.

Fiquei olhando, assombrado, enquanto ela bebia mais rum. O céu escurecia às suas costas, mas lâmpadas elétricas fortes e quentes enchiam a noite lá fora. Só o próprio café estava imerso numa sombra lúgubre, com suas poucas lâmpadas empoeiradas atrás do balcão do bar.

Sua tranqüila confiança me causava pavor. Pavor por ela ter me tocado tão sem medo, por nada na minha natureza de vampiro lhe ser repugnante, mas então me lembrei muito bem de como Lestat em toda a sua glória reprimida me atraíra. Ela estava sendo atraída? Será que o fascínio fatal havia começado?

Ela mantinha os pensamentos ocultos, como sempre. Pensei em Louis. Pensei no seu pedido. Ele queria desesperadamente que ela acionasse sua magia negra. Mas Merrick tinha razão. Eu precisava dela. Eu precisava do seu testemunho e da sua compreensão.

Quando falei, minhas palavras estavam repletas de mágoa e assombro, até para mim mesmo.

— É algo que tem sido magnífico — disse eu. — E insuportável. É a mais pura verdade que eu estou à margem da vida, e ao mesmo tempo não posso fugir dela. Não tenho a quem transmitir o que aprendo.

Ela não discutiu comigo nem me questionou. Seus olhos de repente pareciam estar cheios de solidariedade, tendo desaparecido sua máscara de serenidade. Muitas vezes eu tinha visto nela esse tipo de mudança brusca. Ela costumava ocultar suas emoções a não ser por esses momentos silenciosos e eloqüentes.

— Se você não estivesse incorporado no corpo jovem — perguntou ela —, você acha que Lestat o teria forçado como forçou? Se você ainda fosse velho, nosso David, nosso David abençoado, de setenta e quatro anos de idade, não era isso? Se você ainda fosse nosso respeitado superior geral naquela época, acha que Lestat o teria atraído para seu lado?

— Não sei — disse eu, em poucas palavras, mas não sem emoção. — Já me fiz muitas vezes essa mesma pergunta. Sinceramente, não sei. Esses vampiros... ah, quer dizer, nós... nós vampiros adoramos a beleza; nós nos alimentamos dela. Nossa definição de beleza tem uma amplitude enorme; você não pode imaginar sua extensão. Por mais que sua alma seja amorosa, você não tem como saber até que ponto consideramos belo o que os mortais não consideram belo; mas nós nos propagamos de fato pela beleza, e este corpo possui uma beleza que eu usei para propósitos malévolos inúmeras vezes.

Ela ergueu o copo num pequeno brinde. E bebeu fundo.

— Se tivesse se aproximado de mim sem nenhum preâmbulo — disse ela —, falando baixinho no meio de uma multidão ao me tocar, eu o teria reconhecido, teria reconhecido quem você era. — Uma sombra passou um instante por seu rosto e então sua expressão se tornou serena. — Meu velho amigo, eu amo você — disse ela.

— É o que você acha, minha querida? — perguntei. — Já fiz muitas coisas para alimentar este corpo, e não é nem um pouco agradável pensar nisso.

Ela terminou o copo, devolveu-o à mesa e, antes que eu pudesse me adiantar, apanhou novamente a garrafa.

— Você quer os papéis de Aaron? — perguntou ela. Fiquei totalmente perplexo.

— Você quer dizer que está disposta a me entregar esses papéis?

— David, sou leal à Talamasca. O que eu seria se não fosse a Ordem?

— Ela então hesitou. — Mas também tenho uma profunda lealdade a você.

— Ficou pensativa alguns segundos. — Você era a Ordem para mim, David. Dá para você imaginar o que eu senti quando me disseram que você tinha morrido?

Dei um suspiro. Que resposta eu poderia lhe dar?

— Aaron lhe contou como nós choramos por você, todos nós a quem não foi confiada uma migalha sequer da verdade?

— Do fundo do coração, Merrick, sinto muito. Achávamos que estávamos guardando um segredo perigoso. O que mais eu posso dizer?

— Você morreu aqui nos Estados Unidos, em Miami Beach. Essa era a história. E levaram seu corpo de avião para a Inglaterra antes mesmo de me telefonarem para dizer que você tinha morrido. Sabe o que foi que eu fiz, David? Mandei que segurassem o caixão para mim. Ele estava lacrado quando cheguei a Londres, mas fiz com que o abrissem. Forcei-os a abri-lo. Gritei e fiz escândalo até eles cederem. Depois, mandei que saíssem da sala e fiquei sozinha com aquele corpo, David, aquele corpo todo empoado, maquiado e acomodado no cetim. Fiquei ali talvez uma hora. Eles batiam na porta. Acabei dizendo que prosseguissem.

Não havia raiva no seu rosto, somente uma leve expressão de estranheza.

— Eu não podia deixar que Aaron lhe contasse — disse eu —, não naquela ocasião, não quando eu ainda não sabia se sobreviveria no novo corpo, não quando eu não compreendia o que a vida me reservava. Eu não podia. E depois, já era tarde demais.

Ela ergueu as sobrancelhas e fez um pequeno gesto de dúvida com a cabeça. Tomou um golinho do rum.

— Eu entendo — disse ela.

— Graças a Deus — respondi. — Com o tempo, Aaron teria lhe falado da troca de corpos — insisti. — Sei que teria. Não era para você a história da minha morte.

Ela fez que sim, refreando a primeira resposta que lhe ocorreu.

— Acho que você deve mandar aqueles papéis de Aaron para os arquivos — disse eu. — Você deve arquivá-los direto com os Anciãos e mais ninguém. Ignore o superior geral em exercício.

— Pare com isso, David — respondeu ela. — Você sabe que é muito mais fácil discutir com você agora que está no corpo de um homem muito jovem.

— Você nunca teve dificuldade para discutir comigo, Merrick — retruquei.

— Você não acha que Aaron teria arquivado os papéis, se não tivesse morrido?

— Pode ser que sim — disse ela —, pode ser que não. Talvez Aaron tivesse querido mais que você fosse deixado em paz para seguir seu próprio destino. Talvez Aaron tivesse preferido que você fosse deixado em paz, não importava em que você tivesse se transformado.

Eu não tinha idéia do que ela estava dizendo. A Talamasca era tão passiva, tão reticente, tão decidida a não interferir no destino de ninguém. Eu não conseguia entender o que ela queria dizer.

Ela deu de ombros, tomou mais um golinho do rum e rolou a borda do copo no lábio inferior.

— Talvez não faça diferença — disse ela. — Só sei que Aaron nunca enviou por si mesmo essas páginas para os arquivos. — E prosseguiu.

— Na noite depois que ele foi morto, fui até sua casa em Esplanade Avenue. Você sabe que ele se casou com uma Mayfair branca, que não era bruxa, por sinal, mas uma mulher forte e generosa. Beatrice Mayfair é como se chama. Ela ainda está viva, e a seu pedido aceitei os papéis com a indicação “Talamasca”. Ela nem mesmo sabia o que havia neles.

“Disse-me que Aaron no passado lhe dera meu nome. Se algo acontecesse, ela deveria me chamar. Portanto, ela havia cumprido seu dever. Além do mais, ela não conseguiria ler os documentos. Estavam todos em latim, sabe? No velho estilo da Talamasca.

“Havia diversos arquivos, e meu nome e número estavam escritos na frente de cada um, na letra de Aaron. Um arquivo era totalmente dedicado a você, embora apenas a inicial D fosse usada o tempo todo. Os papéis sobre você, eu traduzi para o inglês. Ninguém nunca os viu. Ninguém — disse ela com ênfase. — Mas eu os conheço quase de cor.”

De repente, pareceu ser um consolo ouvi-la falar desses assuntos, dessas questões secretas da Talamasca, que no passado tinham sido nossa conversa costumeira. É, um consolo, como se o afeto de Aaron voltasse a estar de fato conosco.

Ela parou para mais um gole de rum.

— Acho que você deveria saber essas coisas — disse ela. — Nós nunca escondemos nada um do outro, você e eu. Não que eu saiba, mas é claro que meu trabalho era no estudo da magia negra e eu realmente viajava muito.

— Até que ponto Aaron sabia? — perguntei. Achei que meus olhos estivessem se enchendo de lágrimas. Eu me sentia humilhado. Mas queria que ela continuasse. — Nunca mais vi Aaron depois da metamorfose em vampiro — confessei, deprimido. — Não pude me forçar a procurá-lo. Você consegue adivinhar o motivo? — Senti um forte aumento da confusão e dor mental. Minha tristeza por Aaron nunca terminaria, e havia anos eu a suportava sem dizer uma palavra a respeito a nenhum dos dois vampiros meus companheiros, Louis e Lestat.

— Não — disse ela. — Não consigo adivinhar o motivo. Posso lhe dizer... — e nesse instante ela hesitou, com delicadeza, para que eu pudesse interrompê-la, mas eu não o fiz. — Posso lhe dizer que ele ficou decepcionado e que o perdoou até o final.

Abaixei a cabeça. Apertei minha testa com a mão gelada.

— Nas próprias palavras dele, ele orava todos os dias, pedindo que você o procurasse — explicou ela, devagar —, que ele tivesse a oportunidade de uma última conversa com você: sobre tudo o que vocês dois passaram juntos e sobre o que acabara acontecendo para afastar um do outro.

Devo ter estremecido. No entanto, eu merecia essa infelicidade; eu a merecia mais do que Merrick jamais poderia saber. Tinha sido abominável não lhe escrever uma carta! Meu Deus, até mesmo Jesse, quando desapareceu da Talamasca, tinha escrito para mim!

Merrick continuou a falar. Se estava lendo algum pensamento meu, não deu a menor pista.

— É claro que Aaron relatou toda a sua Troca de Corpos Faustiana, como a chamou. Descreveu você no corpo jovem e fez muitas referências a algum tipo de investigação do corpo, algo em que vocês dois estiveram envolvidos, para se certificarem de que a alma sem dúvida tinha passado adiante. Vocês fizeram experiências, não fizeram, você e Aaron, na tentativa de alcançar a alma legítima, mesmo correndo o risco de que você morresse?

Fiz que sim, sem conseguir falar, sentindo desespero e vergonha.

— Quanto ao miserável Ladrão de Corpos, Raglan James, o pequeno demônio que tinha dado início àquele espetáculo sobrenatural, Aaron estava convencido de que sua alma tinha partido para a eternidade, como ele dizia, totalmente fora do nosso alcance.

— É verdade — concordei. — O arquivo a respeito dele está encerrado, quer esteja incompleto quer não. Disso tenho total convicção.

Um ar sombrio se insinuou em sua expressão triste e respeitosa. Algum sentimento espontâneo tinha aflorado, e por um instante ela se calou.

— E o que mais Aaron escreveu? — perguntei-lhe.

— Ele se referiu ao fato de que a Talamasca tinha ajudado extra-oficialmente o “novo David” a reivindicar a posse dos seus substanciais bens e investimentos — respondeu ela. — Tinha uma forte convicção de que uma pasta sobre a Segunda Juventude de David jamais deveria ser criada ou confiada aos arquivos em Londres ou era Roma.

— Por que ele não queria que a troca fosse estudada? — perguntei. — Fizemos tudo o que foi possível pelas outras almas.

— Aaron escreveu que toda a questão da troca era perigosa demais, sedutora demais. Ele temia que o material caísse em mãos erradas.

— Naturalmente — respondi —, embora nos velhos tempos nós nunca tivéssemos dúvidas dessa natureza.

— Mas o arquivo não estava acabado — prosseguiu ela. — Aaron tinha certeza de que o veria de novo. Achava que às vezes sentia sua presença em Nova Orleans. Flagrava-se procurando seu novo rosto em meio a multidões.

— Deus me perdoe — murmurei. Quase me virei para o outro lado. Abaixei a cabeça e protegi meus olhos por um bom tempo. Meu velho amigo, meu amigo querido. Como eu tinha podido abandoná-lo com tanta frieza? Por que a vergonha e o ódio a si mesmo se transformam em crueldade para com os inocentes? Por que isso costuma acontecer com tanta freqüência?

— Continue, por favor — disse eu, recobrando o equilíbrio. — Quero que você me conte tudo isso.

— Você quer ler com seus próprios olhos?

— Em breve — respondi.

Ela continuou. A fala mais descontraída pelo rum e a voz mais melodiosa, com só um pouquinho do antigo sotaque francês de Nova Orleans voltando a transparecer.

— Aaron viu uma vez o Vampiro Lestat na sua companhia. Ele descreveu a experiência como excruciante, palavra que Aaron apreciava muito, mas que raramente usava. Disse que foi na noite em que foi identificar o velho corpo de David Talbot e se certificar de que fosse enterrado condignamente. Lá estava você, o rapaz, e o vampiro estava parado ao seu lado. Ele sabia que vocês eram amigos íntimos, você e aquela criatura. Sentiu mais medo por você naquela ocasião do que em qualquer outra hora.

— E o que mais? — perguntei.

— Mais tarde — disse ela, com a voz baixa e respeitosa —, quando você desapareceu totalmente, Aaron teve certeza de que você tinha sido transformado à força por Lestat. A não ser isso, nada poderia explicar sua súbita falta de comunicação, associada às claras informações dos seus bancos e agentes de que decididamente você ainda estava vivo. Aaron sentia uma falta louca de você. Com a vida dedicada aos problemas da família Mayfair branca, dos Bruxos Mayfair, ele precisava de seus conselhos. Muitas vezes e de muitas formas, ele escreveu que tinha certeza de você jamais ter pedido o sangue vampírico.

Por muito tempo, não pude falar para lhe dar uma resposta. Não chorei porque não choro. Desviei o olhar, passeando os olhos pelo café vazio até não ver mais nada, a não ser talvez o borrão indistinto dos turistas que enchiam a rua ali fora, a caminho de Jackson Square. Eu sabia perfeitamente como me isolar durante alguma ocasião terrível, não importando onde exatamente ela transcorresse. Eu agora estava só.

Deixei então meu pensamento voltar até ele, meu amigo Aaron, meu colega, meu companheiro. Captei recordações muito maiores do que incidentes isolados. Visualizei sua pessoa, o rosto simpático, os olhos cinzentos inteligentes. Vi-o caminhando ao longo de Ocean Avenue em Miami Beach, com sua forte iluminação, parecendo maravilhosamente deslocado: um luxo, como algum esplêndido ornamento daquele cenário estranho, com seu terno de colete de algodão de listras finas.

Deixei que a dor me dominasse. Assassinado por conta dos segredos dos Bruxos Mayfair. Assassinado por renegados no íntimo da Talamasca. Era natural que ele não tivesse entregado à Ordem seu relatório a meu respeito. Aqueles tempos haviam sido difíceis, não é mesmo? E ele acabara sendo traído pela Ordem. Com isso, nos lendários arquivos, minha história permaneceria para sempre incompleta.

— E houve mais alguma coisa? — perguntei finalmente a Merrick.

— Não. Só a mesma melodia com ritmos diferentes. Só isso. — Ela tomou mais um gole. — Você sabe que ele estava muito feliz no final?

— Pode me contar.

— Beatrice Mayfair, ele a amava. Nunca pensou que um dia teria um casamento feliz, mas foi o que aconteceu. Era uma bela mulher, extremamente sociável, como se fossem três ou quatro pessoas reunidas em uma. Ele me disse que nunca tinha se divertido tanto na vida quanto se divertia com Beatrice. E é claro que ela não era bruxa.

— Como estou feliz por saber — disse eu, com a voz trêmula. — Então Aaron tornou-se um deles, por assim dizer.

— Isso — respondeu ela. — Sob todos os aspectos.

Ela deu de ombros, com o copo vazio na mão. Eu não sabia ao certo por que motivo estava esperando para se servir, talvez para me dar a impressão de não ser a famosa beberrona que eu sabia que era.

— Mas não sei nada sobre a família Mayfair branca — disse ela afinal. —

Aaron sempre me manteve afastada deles. Meu trabalho ao longo dos últimos anos tem sido com o vodu. Fiz viagens ao Haiti. Escrevi muito. Você sabe que eu sou um dos poucos membros da Ordem que está investigando seus próprios poderes paranormais, com uma autorização dos Anciãos para usar a magia condenável, como o superior geral a chama agora? Isso eu não sabia. Nunca chegou a me ocorrer que ela tivesse voltado ao vodu, que lhe havia toldado a juventude com sua ampla sombra. Na minha época, nunca havíamos incentivado uma bruxa a praticar magia negra. Somente o vampiro em mim conseguia tolerar uma idéia dessas.

— Veja bem — disse ela —, não importa que você não tenha escrito a Aaron.

— Ah, não importa? — perguntei, com um sussurro áspero. Mas depois me expliquei. — Eu simplesmente não conseguia escrever para ele. Não conseguia falar ao telefone. Quanto a vê-lo ou permitir que ele me visse, isso estava fora de cogitação! — disse, baixinho.

— E foram necessários cinco anos — disse ela — para você finalmente vir me procurar.

— Aí, acertou direto! — respondi. — Cinco anos ou mais para isso. E, se Aaron ainda estivesse vivo, quem sabe o que eu teria feito? Mas o fator crucial era o seguinte: Aaron estava velho, Merrick. Estava velho e poderia ter me pedido o sangue. Quando se está velho e receoso, quando se está cansado e doente, quando se começou a suspeitar que a vida não significa nada... Bem, é nessa hora que se começa a sonhar com pactos vampíricos. É nessa hora que se pensa que de algum modo a maldição vampírica não pode ser assim tão terrível, não, não em troca da imortalidade. É nessa hora que se pensa que se ao menos se tivesse a oportunidade, seria possível transformar-se em algum tipo de testemunha principal da evolução do mundo em volta. Os desejos egoístas são disfarçados como algo grandioso.

— E você acha que eu nunca tive esse tipo de pensamento? — Ela ergueu as sobrancelhas, com os olhos verdes grandes e cheios de luz.

— Você é jovem e linda — disse eu. — Você nasceu e foi criada para a coragem. Seus órgãos e seu corpo estão tão sólidos quanto sua mente. Você nunca foi derrotada, nunca por nada, e está em perfeita saúde.

Eu tremia por inteiro. Não poderia agüentar muito mais daquilo. Tinha sonhado com o consolo e a intimidade, e isso era intimidade, mas a um preço terrível.

Como era mais fácil passar horas na companhia de Lestat, que não falava mais, que jazia imóvel, semi-adormecido, escutando música, tendo sido despertado por ela e agora sendo embalado por ela, um vampiro que não cobiçava mais nada?

Como era mais fácil perambular pela cidade na companhia de Louis, meu companheiro mais fraco e sempre encantador, em busca de vítimas e aperfeiçoando o “golinho” de tal modo que deixávamos nossa presa aturdida e incólume? Como era mais fácil permanecer no interior do santuário da casa no French Quarter, lendo com a velocidade de um vampiro todos os volumes sobre história ou história da arte, cuja leitura era tão lenta e trabalhosa quanto eu era mortal?

Merrick apenas olhava para mim com evidente compaixão, e então estendeu a mão para segurar a minha.

Evitei o contato porque o desejava demais.

— Não recue diante de mim, meu amigo — disse ela. Eu estava confuso demais para falar.

— O que você quer que eu saiba — prosseguiu ela — é que nem você nem Louis de Pointe du Lac jamais me darão o sangue, nem mesmo se eu lhes implorar; que o sangue não pode fazer parte de nenhuma transação entre nós.

— Transação. Não se trataria de nenhuma transação! — murmurei. Ela bebeu mais um pouco.

— E vocês nunca vão tirar minha vida — disse ela. — É esse compromisso o que torna isso tudo uma transação, creio eu. Vocês nunca vão me ferir como poderiam ferir alguma outra mulher mortal que cruzasse seu caminho.

A questão de quem cruzava meu caminho era para mim perturbadora demais para qualquer resposta razoável. Pela primeira vez desde que nos reunimos, eu tentei de fato adivinhar seus pensamentos, mas não consegui ler nada. Como vampiro, eu tinha um enorme poder para isso. Louis quase não tinha nenhum. Lestat era magistral.

Observei enquanto ela bebia o rum mais devagar e vi seus olhos se tornarem vidrados de prazer. Sua expressão se suavizava de uma forma maravilhosa à medida que o rum ia exercendo seu efeito nas suas veias. As bochechas estavam ligeiramente coradas. A pele, perfeita.

Calafrios voltaram a me atravessar, percorrendo meus braços, meus ombros e subindo pelo lado do meu rosto.

Eu tinha me alimentado antes de chegar ali, ou o perfume do seu sangue teria nublado meu discernimento ainda mais do que a empolgação dessa intimidade o nublava. Não tinha tirado a vida a ninguém, não. Era muito simples alimentar-se sem matar, por mais atraente que fosse a idéia de matar. Eu me orgulhava disso. Sentia-me limpo para ela, embora cada vez estivesse se tornando para mim mais fácil “procurar o malfeitor”, como Lestat no passado havia instruído — descobrir algum indivíduo cruel e pernicioso que eu pudesse imaginar ser pior do que eu mesmo.

— Ai, como eu chorei por você — disse ela, com a voz mais acalorada.

— E então por Aaron, por toda a sua geração, que nos deixou tão de repente e tão cedo, um após o outro. — De repente, ela curvou os ombros e se inclinou para a frente como se estivesse sentindo alguma dor.

— Os jovens na Talamasca não me conhecem, David — disse ela rápido. — E você não vem me procurar só porque Louis de Pointe du Lac lhe pediu. Você não veio me procurar só para invocar o espírito da criança vampiro. Você me quer, David, você quer que eu seja sua testemunha, David, e eu quero que você seja minha.

— Você tem razão sob todos os aspectos, Merrick — confessei. As palavras simplesmente jorraram da minha boca. — Amo você, Merrick. Amo você como amava Aaron e como amo Louis e Lestat.

Vi o lampejo de intenso sofrimento no seu rosto, como se fosse o lampejo de uma luz que vinha de dentro.

— Não se arrependa de ter me procurado — disse ela enquanto eu estendia a mão para segurá-la. Ela apanhou minhas mãos e as prendeu nas suas, uma prisão úmida e calorosa. — Não se arrependa. Eu não me arrependo. Só me prometa que não vai desanimar e me abandonar sem uma explicação. Não se afaste de mim às pressas. Não ceda a algum sentido desvirtuado de honra. Se fizer isso, eu poderia realmente perder minha sanidade.

— Você está querendo dizer que não devo abandoná-la como fiz com Aaron — disse eu, com a voz embargada. — Não, eu lhe prometo, caríssima. Isso eu não vou fazer. Já é tarde demais para esse tipo de atitude.

— Então, eu amo você — declarou ela, num murmúrio. — Amo como sempre amei. Não, amo ainda mais, acho, porque você traz consigo esse milagre. Mas e o espírito que mora aí dentro?

— Que espírito? — perguntei-lhe.

Mas ela já estava de novo imersa nos próprios pensamentos. Tomou mais um gole direto da garrafa.

Eu não conseguia suportar a mesa entre nós. Levantei-me devagar, erguendo suas mãos até ela ficar em pé ao meu lado, e então a abracei com carinho. Beijei sua boca, com seu perfume antigo e conhecido elevando-se até minhas narinas. Beijei sua testa e então segurei sua cabeça com firmeza junto ao meu coração pulsante.

Continuar: parte 3 de 4