Merrick
Anne Rice
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Está ouvindo? — sussurrei. — Que espírito poderia haver a não ser o meu? Meu corpo está transformado, e nada mais.
O desejo por ela me dominava, o desejo de conhecê-la totalmente por meio do sangue. Seu perfume me enlouquecia. Mas não havia a mínima chance de eu ceder a esse desejo.
Mas voltei a beijá-la. E não foi um beijo casto.
Por um bom tempo, permanecemos grudados, e acho que cobri seu cabelo com beijinhos de devoção, seu perfume me crucificando com recordações. Eu queria provê-la de proteção contra tudo que fosse tão sórdido quanto eu.
Ela afinal se afastou de mim como se tivesse de se afastar, e estava meio cambaleante.
— Nunca em todos aqueles anos você me tocou desse jeito — disse ela em voz baixa. — E eu o queria tanto. Você se lembra? Você se lembra daquela noite na selva, quando eu acabei conseguindo o que queria? Você se lembra de como estava bêbado, e de como foi esplêndido? Ai, tudo acabou rápido demais.
— Eu era um bobalhão, mas tudo isso já está além da lembrança — murmurei. — Não vamos estragar o que aconteceu. Venha, tenho uma reserva no hotel para você e vou me certificar de que você passe a noite lá em segurança.
— Por que cargas d'água? Oak Haven está exatamente onde sempre esteve — disse ela, sonhadora. Abanou a cabeça para desanuviar a visão. — Vou para casa.
— Não vai, não. Você bebeu ainda mais rum do que eu previa. Olhe, bebeu mais da metade da garrafa. E eu sei que vai beber o que sobrou na garrafa assim que entrar no carro.
Ela riu, um risinho debochado.
— Continua sendo o supra-sumo do cavalheirismo — disse ela. — E o superior geral. Você pode me acompanhar até minha velha casa aqui na cidade. Sabe muito bem o endereço.
— Aquele bairro, a esta hora? Nem pensar. Além do mais, o simpático zelador que você tem lá é um idiota incompetente. Minha querida, vou levá-la ao hotel.
— Bobagem — disse ela enquanto quase tropeçava. — Não preciso de quem cuide de mim. Prefiro ir para minha casa. Você está sendo inconveniente. Sempre foi.
— E você é uma bruxa e está bêbada — disse eu, com delicadeza. — Pronto, vamos tampar esta garrafa. — E eu a tampei. — E vamos guardá-la nessa sua bolsa de lona. E eu a acompanho até o hotel. Pegue meu braço.
Por uma fração de segundo, ela pareceu brincalhona e desafiadora, mas depois deu de ombros, lânguida, cedeu a bolsa diante da minha insistência e enroscou seu braço no meu.
3
MAL TÍNHAMOS COMEÇADO A CAMINHAR, E NOS ENTREGAMOS A ABRAÇOS freqüentes e tórridos. O velho perfume Chanel preferido de Merrick me encantava, levando-me de volta para muitos anos atrás, mas o cheiro do sangue das suas veias era a maior tentação de todas.
Meus desejos estavam mesclados num tormento. Quando chegamos à Rue Decateur, a nada mais do que um quarteirão e meio do café, eu soube que precisávamos de um táxi. E uma vez no interior do automóvel, dediquei-me a beijar todo o rosto e o pescoço de Merrick, regalando-me com a fragrância do sangue dentro dela e com o calor que emanava dos seus seios.
Ela mesma não conseguia se conter mais e me perguntava em cochichos confidenciais se eu ainda podia fazer amor como um homem normal. Eu lhe disse que isso não serviria para mim, que ela precisava se lembrar, embriagada ou sóbria, de que eu era por natureza um predador e nada mais.
— Nada mais? — disse ela, interrompendo os carinhos exaltados para tomar mais um bom gole direto da garrafa de rum. — E o que aconteceu nas selvas da Guatemala? Pode me dizer? Você não se esqueceu. A barraca, o lugarejo, você se lembra. Não minta para mim, David. Eu sei o que existe dentro de você. E quero saber no que você se tornou.
— Não fale mais, Merrick — disse eu, mas não consegui me conter. A cada beijo eu deixava meus dentes tocarem sua carne. — O que aconteceu na selva na Guatemala — disse com esforço — foi um pecado mortal.
Cobri sua boca, beijando-a e devorando sua língua, mas sem deixar que meus dentes maléficos a ferissem. Senti que ela enxugava minha testa com um pano macio, talvez sua echarpe ou um lenço, mas afastei o tecido de mim.
— Não faça isso — disse eu, temeroso de que algumas gotas de suor de sangue pudessem ter brotado. Ela voltou a me beijar e a sussurrar suas palavras de sedução junto à minha pele.
Eu me sentia péssimo. Eu a desejava. Sabia que mesmo o menor gole do seu sangue se revelaria um risco demasiado para mim. Depois disso eu teria a sensação de que ela me pertencia; e ela, apesar de toda a sua aparente inocência na questão, bem poderia se considerar minha escrava.
Vampiros mais velhos tinham me advertido para praticamente todos os aspectos do que poderia me acontecer. E tanto Armand quanto Lestat tinham sido categóricos ao recomendar que o “pequeno gole” não fosse considerado inócuo. De repente, fiquei furioso.
Levei a mão à sua nuca e arranquei a fivela de couro da densa cabeleira castanha, deixando descuidado a fivela e a peça transversal cair. Enterrei os dedos bem fundo no cabelo e a beijei na boca mais uma vez. Ela estava de olhos fechados.
Senti um alívio imenso quando chegamos à espaçosa entrada do Windsor Court Hotel. Ela tomou mais um gole do rum antes que o porteiro a ajudasse a sair do táxi. E, no estilo da maioria dos beberrões experientes, parecia estar perfeitamente sóbria em pé quando na realidade não estava nem um pouco sóbria.
Tendo providenciado a suíte para ela com antecedência, levei-a direto para lá, destranquei a porta e a deitei na cama.
A suíte era muito boa, talvez a melhor da cidade, com sua tradicional decoração de bom gosto e sua iluminação discreta. E eu tinha encomendado uma profusão de vasos de flores para ela.
Não era, porém, nada que um membro da Talamasca não esperasse. Nunca fomos conhecidos pela economia com nossos companheiros em viagem. E todas as minhas numerosas lembranças dela me envolveram como um vapor, sem querer me liberar.
Ela parecia não perceber nada. Bebeu o resto do rum sem cerimônia e se recostou nos travesseiros, com os luminosos olhos verdes se fechando quase que de imediato.
Por muito tempo, apenas fiquei olhando para ela. Parecia ter sido jogada na grossa colcha de veludo e seu ninho de almofadas; com as roupas brancas de algodão, finas e frágeis; os tornozelos longos e esbeltos bem como os pés em sandálias de couro, bastante bíblicos; o rosto com os malares altos e o maxilar delicado, belíssimo no sono.
Eu não poderia me arrepender de ter feito essa amizade. Não poderia. Mas repeti meu voto solene: David Talbot, você não fará nenhum mal a essa criatura. De algum modo, Merrick sairá melhor de tudo isso; de algum modo, o conhecimento irá aprimorar Merrick; de algum modo a alma de Merrick triunfará por pior que seja o fracasso meu e de Louis.
E então, depois de examinar melhor a suíte, vendo que as flores encomendadas tinham sido devidamente arrumadas na mesinha de centro diante do sofá da sala de estar, na escrivaninha, na penteadeira; que o banheiro continha cosméticos em abundância para satisfazê-la, que um enorme roupão de atoalhado grosso e chinelos estavam no devido lugar no closet, e que um bar completo de garrafinhas estava à sua espera, junto com uma garrafa do seu rum, que eu fornecera, dei-lhe um beijo, deixei um conjunto de chaves para ela na mesinha-de-cabeceira e fui embora.
Uma breve parada na recepção, com a gorjeta de praxe, garantiu que ela não seria perturbada enquanto desejasse permanecer no hotel e que poderia ter o que quisesse.
Decidi então caminhar até nosso apartamento na Rue Royale. No entanto, antes de sair daquele saguão razoavelmente movimentado e de iluminação belíssima, uma leve tontura me surpreendeu, e eu fui assaltado pela sensação peculiar de que todo mundo ali estava prestando atenção em mim, e que essa atenção não era gentil.
Parei imediatamente, enfiando a mão no bolso como se eu fosse um homem a ponto de me afastar um pouco para fumar um cigarro, e olhei ao redor.
Não havia nada de anormal no saguão ou nas pessoas que ali se encontravam. Mesmo assim, no instante em que saí, voltou a me dominar a sensação de que na entrada de carros todos estavam olhando para mim, que tinham descoberto meu disfarce mortal, o que não era nem um pouco fácil, e que todos sabiam o que eu era e as atividades nefastas em que eu poderia estar envolvido.
Novamente, verifiquei. Não estava acontecendo nada que se assemelhasse. Com efeito, os mensageiros me deram sorrisos cordiais quando nossos olhos se encontraram.
Segui em frente na direção da Rue Royale.
Mais uma vez, ocorreu a sensação. De fato, a impressão era não só que as pessoas estavam se dando conta de mim, mas que tinham acorrido às portas e janelas das lojas e restaurantes só com esse objetivo. E aumentou a tontura, que eu raramente sentia, se é que chegava a sentir, como vampiro.
Eu estava com uma sensação extremamente desagradável. E me perguntava se isso resultava da intimidade com um ser mortal, porque nunca havia me sentido tão exposto antes. Na realidade, graças à minha pele bronzeada, eu podia me movimentar no mundo mortal com total impunidade. Todos os meus atributos sobrenaturais estavam encobertos pela tez morena; e meus olhos, embora brilhantes demais, eram negros.
No entanto, parecia que as pessoas olhavam para mim com uma atitude sub-reptícia em todo o longo caminho que percorri para ir para casa.
Finalmente, quando estava a uns três quarteirões do apartamento que dividia com Louis e Lestat, parei e me encostei num poste de ferro negro, exatamente como tinha visto Lestat fazer nas noites de antigamente, quando ele ainda se movimentava. Passando os olhos pelos transeuntes, Voltei a me tranqüilizar.
Foi quando algo me causou tanto espanto que comecei a sofrer tremores violentos apesar de tentar controlá-los. Lá estava Merrick à porta de uma loja, de braços cruzados. Olhava para mim com firmeza e censura, e então desapareceu.
É claro que não se tratava absolutamente de Merrick, mas a solidez da aparição era apavorante.
Uma sombra mexeu-se atrás de mim. Voltei-me, desajeitado. Ali também estava Merrick, vestida de branco, lançando seu longo olhar escuro na minha direção, e a figura pareceu desfazer-se nas sombras de um portal de loja.
Eu estava estarrecido. Era óbvio que era bruxaria, mas como poderia atingir os sentidos de um vampiro? E eu não era apenas um vampiro. Eu era David Talbot, que tinha sido pai-de-santo no candomblé na juventude. Ora, como vampiro, vejo fantasmas e espíritos, e conhecia os espíritos e as peças que podiam pregar. Eu também conhecia Merrick muito bem, mas nunca tinha presenciado ou passado pela experiência de um encantamento como aquele.
Num táxi que atravessou a Rue Royale, lá estava Merrick novamente, olhando para mim a partir da janela aberta, com o cabelo solto como eu a deixara. E, quando dei meia-volta, certo de que ela estava atrás de mim, vi sua silhueta inconfundível lá em cima numa sacada.
A postura da figura era sinistra. Eu tremia. Não estava gostando disso. Sentia-me um pateta.
Não tirei os olhos da figura. Na realidade, nada poderia ter me movimentado. A figura desbotou e desapareceu. Em toda a minha volta, o Quarter de repente parecia totalmente desolado, embora na verdade houvesse turistas por toda parte em grande quantidade, e eu pudesse ouvir a música proveniente da Rue Bourbon. Eu nunca tinha visto tantos vasos de flores derramando seu colorido pelos gradis de ferro trabalhado. Nunca tinha visto tantas trepadeiras bonitas escalando as fachadas desgastadas pelas intempéries e as velhas paredes rebocadas.
Curioso e levemente irritado, entrei na Rue Ste. Anne para ver o café em que havíamos nos encontrado; e, como eu suspeitava, ele estava transbordando de fregueses para bebidas e refeições, e o garçom espectral parecia não conseguir dar conta do recado.
Bem no centro do café, lá estava Merrick sentada, com a saia branca em plena roda, armada, como se tivesse sido recortada em papel cartão. E então, naturalmente, a aparição se desfez, como as outras antes.
Mas a questão era que o café agora estava lotado, como deveria ter estado quando estávamos lá! Como Merrick tinha conseguido manter as pessoas afastadas durante nosso encontro? E o que estava fazendo agora?
Dei meia-volta. O céu lá em cima estava azul, como o céu no sul costuma ser à noite, salpicado de estrelas sem muito brilho. Havia conversa animada e risadas alegres por toda parte. Essa era a realidade das coisas, uma amena noite de primavera em Nova Orleans, quando as lajes das calçadas parecem macias aos nossos pés e os sons, agradáveis aos nossos ouvidos.
E, entretanto, voltei a ter a sensação de que todos por perto estavam me observando. O casal que estava atravessando na esquina fez questão de deixar isso claro. E então vi Merrick bem mais adiante na rua. Dessa vez, a expressão no seu rosto era nitidamente desagradável, como se ela estivesse apreciando meu tormento.
Respirei fundo quando a aparição se dissipou.
— Como ela poderia estar fazendo isso, essa é a questão! — resmunguei em voz alta. — E por que está fazendo isso?
Andei rápido, dirigindo-me à nossa casa, sem ter certeza se entraria ou não, com esse tipo de maldição ao meu redor, mas à medida que eu me aproximava da entrada de automóveis — um grande portão em arco, instalado numa moldura de tijolos — vi a imagem mais assustadora de todas.
Atrás das barras do portão, estava a criança Merrick de muitos anos atrás, no seu mesmo camisão curto lilás, com a cabeça um pouquinho para o lado enquanto ela assentia às confidências que lhe sussurrava no ouvido uma mulher idosa que eu sabia com certeza ser sua avó, falecida tantos anos atrás: Grande Nananne.
A boca fina de Grande Nananne sorria de leve e ela fazia que sim enquanto falava.
De imediato, a presença de Grande Nananne me inundou com recordações e sensações relembradas. Fiquei apavorado, depois cora raiva. Eu estava praticamente desorientado e precisei recuperar o controle sobre mim mesmo.
— Não desapareçam! Não vão embora! — exclamei, dando um salto na direção do portão, mas as figuras derreteram como se meus olhos tivessem perdido o foco, como se minha visão estivesse comprometida.
Eu tinha perdido toda a paciência. A luz estava acesa na nossa casa no andar superior, e veio o som encantador do cravo, Mozart, se eu não estava enganado, sem dúvida do pequeno aparelho de CD de Lestat ao lado da sua cama de dossel. Isso queria dizer que ele nos honrava hoje com uma visita, embora só fosse fazer uma coisa, ficar deitado na cama ouvindo música até pouco antes do amanhecer.
Senti uma vontade desesperada de subir, de estar na nossa casa, de deixar a música acalmar meus nervos, de ver Lestat e cuidar dele, de encontrar Louis e lhe contar tudo o que havia ocorrido.
No entanto, nada seria possível, a não ser voltar imediatamente ao hotel. Eu não poderia entrar no nosso apartamento sob o domínio desse “encantamento”, e devia impedi-lo na fonte.
Apressei-me até a Rue Decateur, procurei um táxi e jurei não olhar para nada nem para ninguém até me deparar com a própria Merrick. Eu estava ficando cada vez mais irritado.
No fundo dos meus pensamentos, eu me flagrava murmurando sortilégios protetores, invocando os espíritos para me proteger em vez de me ferir, mas eu tinha pouca fé nessas antigas fórmulas. Acreditava realmente era nos poderes de Merrick, que eu tinha presenciado no passado distante e dos quais nunca me esqueceria.
Correndo escada acima até a suíte de Merrick, enfiei minha chave na fechadura da sua porta.
Assim que pisei na sala de estar, vi o bruxuleio da luz de velas e senti outro cheiro muito agradável que eu associara a Merrick no passado. Era a fragrância de água-flórida, que cheira a laranjas recém-cortadas, um perfume apreciado pela deusa Ezili do vodu e pela deusa do candomblé de nome semelhante.
Quanto à vela, eu a vi em cima de uma bela arca abaulada bem em frente à porta.
Era uma luz votiva, segura bem no fundo de um copo d'água e, atrás dela, com os olhos pousados nela, havia uma primorosa estatueta de gesso de são Pedro com as chaves douradas do Paraíso, uma figura com uns quarenta e cinco centímetros de altura. A tez da imagem era morena, e os olhos eram de vidro da cor de âmbar claro.
Trajava uma túnica de um verde delicado com desenhos gravados em ouro e um manto roxo no qual o dourado era ainda mais trabalhado. Trazia não só as proverbiais chaves do Reino dos Céus, mas também, na mão direita, um livro grande.
Meu choque foi total. Arrepiou-se o cabelo na minha nuca.
É claro que eu sabia que não se tratava só de são Pedro, essa estatueta. Era o Papa Legba do vodu, o deus das encruzilhadas, o deus que precisa abrir os reinos espirituais para quem quiser conseguir qualquer coisa com a magia negra.
Antes de começar um encantamento, uma oração ou um sacrifício, primeiro deve-se prestar homenagem a Papa Legba. E quem quer que tivesse feito aquela estatueta tinha conhecimento disso. Que outra explicação poderia haver para a tez deliberadamente amorenada do santo, que agora aparecia como um homem de cor, ou para o misterioso livro?
Ele tinha seu complemento no candomblé, a quem eu tantas vezes tinha saudado. Esse era o orixá, ou deus, que atendia pelo nome de Exu. E qualquer templo de candomblé teria começado suas cerimônias com uma saudação a ele em primeiro lugar.
Enquanto eu olhava fixamente para a imagem e a vela, os próprios cheiros daqueles templos brasileiros, com seu chão de terra batida, voltaram a me ocorrer, Eu ouvia os tambores. Sentia o aroma da comida pronta disposta em oferendas. Na realidade, deixei que as sensações viessem.
Voltaram também outras recordações, lembranças de Merrick.
— Papa Legba — murmurei em voz audível. Tenho certeza de ter inclinado a cabeça só um pouquinho e de ter sentido o sangue afluir ao meu rosto. — Exu — sussurrei. — Não se ofenda com nada que eu fizer aqui.
Fiz uma pequena prece, mais uma fórmula no português que havia aprendido tanto tempo atrás, pedindo que não me fosse negada a entrada a qualquer reino que ele tivesse acabado de abrir, pois meu respeito era tão forte quanto o de Merrick.
É claro que a estatueta permaneceu imóvel, com os pálidos olhos de vidro fixos diretamente nos meus, mas eu raras vezes tinha visto algo que parecesse tão cheio de vida de uma forma sorrateira e inexplicável.
— Estou perdendo um pouco a razão — pensei. Mas eu tinha vindo procurar Merrick para que ela praticasse sua magia, não era verdade? E eu conhecia Merrick, não conhecia? Só que eu nunca tinha previsto essas peças!
Em pensamento, contemplei mais uma vez o templo no Brasil, onde eu havia sido treinado por meses a fio, aprendendo as folhas certas para as oferendas, aprendendo os mitos dos deuses, aprendendo finalmente, após meses e mais meses de esforço, a dançar no sentido horário com os outros, saudando cada divindade com nossos gestos e passos de dança, até ser atingido um arrebatamento, até eu mesmo sentir a divindade entrar em mim, me possuir... e então havia o despertar depois, sem nenhuma lembrança, ouvindo dizer que a possessão tinha sido poderosa, a sublime exaustão.
É claro... O que eu achava que estávamos fazendo aqui a não ser um convite a essas antigas forças? E Merrick conhecia minhas velhas qualidades e meus pontos fracos, se é que alguém conhecia. Eu mal conseguia afastar meu olhar do rosto da imagem de são Pedro. Mas afinal consegui.
Recuei como faria alguém que está saindo de um local sagrado e passei rápido para o quarto.
Novamente, respirei fundo a fresca fragrância cítrica de água-flórida, e também o cheiro de rum.
Onde estava seu perfume preferido, o Chanel n° 22? Ela teria parado de usá-lo? A água-flórida estava muito forte.
Merrick estava dormindo na cama.
Parecia que não tinha se mexido. Agora me ocorria, e só agora, que sua saia e blusa brancas lembravam o traje clássico das mulheres do candomblé. Só lhe faltava um turbante na cabeça para que a imagem se completasse.
A nova garrafa de rum estava aberta na mesa ao seu lado, e cerca de um terço tinha sido consumido. Não havia mais nenhuma alteração que eu pudesse discernir. O perfume era fortíssimo, o que significava que ela devia tê-lo borrifado no ar através dos dentes, uma oferenda aos deuses.
Adormecida, ela parecia perfeita, como costuma acontecer com as pessoas quando estão totalmente relaxadas. Parecia a menina de si mesma. E me ocorreu também que, se fosse transformada em vampiro, ela teria esse semblante impecável.
Eu estava tomado de medo e de repugnância. Também, pela primeira vez em todos aqueles anos, tive a plena consciência de que eu, e eu sem a ajuda de mais ninguém, podia conceder esse ato mágico, a transformação em vampiro, a ela ou a qualquer ser humano. Pela primeira vez, eu compreendia a monstruosa tentação.
É claro que nada dessa natureza aconteceria a Merrick. Merrick era minha criança. Merrick era minha... filha.
— Merrick, acorde! — disse eu com rispidez. Toquei no seu ombro. — Você vai me explicar essas visões. Acorde!
Nenhuma reação. Ela parecia estar nocauteada.
— Merrick, acorde! — voltei a dizer, muito irritado. E dessa vez levantei-lhe os ombros com as duas mãos, mas sua cabeça caiu para trás. A fragrância do perfume Chanel emanou dela. Ah, era isso exatamente o que eu adorava tanto.
Tornei-me dolorosamente consciente dos seus seios, bem visíveis pelo decote aberto da sua blusa de algodão. Deixei-a cair de volta nos travesseiros.
— Por que você fez tudo isso? — perguntei ao corpo inerte da bela mulher deitada na cama. — O que você pretendia com tudo isso? Você acha que deveria me assustar para eu me afastar?
Mas era inútil. Ela não estava fingindo. Estava desacordada. Eu não conseguia adivinhar nenhum sonho ou pensamento subterrâneo nela. E, com um rápido exame no pequeno bar da suíte, vi que ela havia bebido um par de garrafinhas de gim.
— Típico — disse eu, com um pouco de raiva.
Ela sempre havia tido o costume de beber em excesso em ocasiões específicas. Costumava trabalhar muito nos seus estudos ou em campo por meses a fio, e então avisava que ia “fazer uma viagem à Lua”, como dizia, e nesse período armazenava bebida e bebia durante diversos dias e noites. Suas bebidas preferidas eram aquelas com sabor e doçura — rum de cana-de-açúcar, conhaque de damasco, Grand Marnier, ad infinitum.
Tornava-se introspectiva quando estava alcoolizada. Cantava, escrevia e dançava muito nesses períodos, e exigia que a deixassem em paz. Se ninguém a contrariasse, não haveria problema. Mas uma discussão poderia causar ataques histéricos, náusea, desnorteamento, um esforço desesperado de reconquistar a sobriedade e, finalmente, a culpa. Mas isso raramente ocorria. Em geral, ela simplesmente bebia uma semana inteira, sem ser perturbada. E então acordava um dia de manhã, pedia um café da manhã com café forte e, em questão de horas, voltava ao trabalho, aplicando-se talvez de seis a nove meses sem repetir suas pequenas férias.
No entanto, mesmo em ocasiões sociais, caso bebesse, Merrick bebia para se embriagar. Entornava seu rum ou qualquer bebida doce em coquetéis extravagantes. Não tinha nenhuma vontade de beber com moderação. Se déssemos um grande jantar na casa matriz, e dávamos muitos, ou ela se abstinha ou continuava bebendo até perder os sentidos. O vinho a deixava impaciente.
Bem, ela agora estava desacordada. E, mesmo que eu conseguisse despertá-la, poderia haver uma batalha campal.
Fui olhar de novo para são Pedro, ou Papa Legba, no altar de vodu improvisado. Eu precisava erradicar meu medo dessa pequena entidade, imagem gravada ou não importa o que eu percebesse ali.
Ah, fiquei atordoado quando contemplei a imagem pela segunda vez. Meu lenço estava aberto abaixo da imagem e da veia, e ao seu lado estava minha própria caneta-tinteiro antiquada. Eu nem mesmo os tinha visto antes.
— Merrick! — exclamei, furioso.
E ela não tinha enxugado minha testa no carro? Olhei fixamente para o lenço. Com efeito, havia minúsculas manchas de sangue — o suor da minha testa! E ela dispunha dele para seu feitiço.
— Ah, não ficou satisfeita com uma peça de vestuário, meu lenço, mas também precisou colher os fluidos da minha pele.
Voltei ao quarto a passos pesados e fiz mais uma tentativa pouco gentil de despertá-la do seu torpor, pronto para uma altercação, mas de nada adiantou. Deitei-a de volta com carinho, roçando meus dedos no seu cabelo, e observei, apesar da minha raiva, como ela era realmente bonita.
A pele morena e macia se amoldava linda sobre os malares, e os cílios eram tão longos que lançavam sombras nítidas e diminutas sobre seu rosto. Os lábios eram escuros, sem cosméticos. Tirei suas sandálias simples de couro e as dispus ao lado da cama, mas foi só mais um pretexto para tocar nela, não um ato generoso.
Então, afastando-me da cama sem lhe dar as costas, com um olhar de relance até o altar na sala de estar, procurei ver onde estava sua bolsa, sua grande bolsa de lona.
Tinha sido jogada numa cadeira e estava aberta, revelando, como eu tinha esperado, um gordo envelope com a letra inconfundível de Aaron na parte externa.
Bem, Merrick tinha roubado meu lenço e minha caneta, não tinha? Tinha colhido meu sangue, meu próprio sangue, que j amais poderia cair nas mãos da Talamasca, não é mesmo? Ah, mas não tinha sido para a Ordem, não. Ela o roubou para si mesma e para seus feitiços, certo? E todo o tempo eu a beijava como se fosse um rapazinho.
Portanto, eu tinha todo o direito de examinar esse envelope na sua bolsa. Além do mais, ela me perguntara se eu queria esses papéis. E eu me apossaria deles. Afinal, era sua intenção entregá-los a mim, não era?
Agarrei de uma vez o envelope, abri-o, confirmei que se tratava dos papéis de Aaron acerca de mim e de minhas aventuras e resolvi levá-lo comigo. Quanto ao restante do conteúdo da bolsa de Merrick, ali estava seu diário pessoal, que eu não tinha nenhum direito de ler, e que tinha grande probabilidade de estar escrito num francês impossível de decifrar, uma pistola com cabo perolado, uma carteira cheia de dinheiro, um charuto caríssimo com o rótulo Montecristo e um frasquinho fino da colônia de água-flórida.
O charuto fez com que eu hesitasse. Sem dúvida, não era para ela. Era para o pequeno Papa Legba, aquele charuto. Merrick tinha trazido consigo a imagem, a água-flórida e o charuto. Tinha vindo preparada para algum tipo de conjuração. Ah, aquilo me deixou furioso, mas que direito eu tinha de fazer sermão?
Voltei para a sala de estar e, evitando os olhos da imagem e sua expressão aparente, retirei minha caneta-tinteiro do altar improvisado. Encontrei o papel de carta do hotel na gaveta do meio de uma elegante escrivaninha francesa, sentei-me e escrevi um bilhete:
Tudo bem, minha cara, estou impressionado. Você aprendeu ainda mais truques desde que nos vimos pela última vez. Mas deve me explicar as razões para este feitiço. Levei as páginas escritas por Aaron. Também recuperei meu lenço e minha caneta-tinteiro. Fique no hotel quanto tempo quiser.
David.
Era um bilhete curto, mas eu não me sentia especialmente expansivo depois daquele pequeno contratempo. Além do mais, tinha a sensação desagradável de que Papa Legba me lançava um olhar penetrante do seu altar violado. Num acesso de ressentimento, acrescentei um P.S.
“Foi Aaron quem me deu esta caneta!” E bastava.
Agora, com considerável apreensão, voltei ao altar. Falei rapidamente em português, primeiro, e depois em latim, mais uma vez saudando o espírito na estatueta, o que abre o reino espiritual. Abra meu entendimento, orei, e não se ofenda com o que eu fizer, pois quero apenas o conhecimento e não tenho nenhuma intenção de desrespeito. Tenha certeza de que compreendo seu poder. Tenha certeza de que sou uma alma sincera.
Remexi então fundo na memória em busca tanto da sensação quanto dos fatos. Disse ao espírito na estatueta que eu era dedicado ao orixá, ou deus, chamado Oxalá, senhor da criação. Expliquei que sempre tinha sido fiel àquela divindade ao meu próprio modo, embora não tivesse cumprido todos os pequenos detalhes que outros me haviam prescrito. Mesmo assim, eu amava esse deus, amava suas histórias e sua personalidade, amava tudo o que pude saber a seu respeito.
Fui acometido por uma terrível sensação. Como pode um sugador de sangue ser fiel ao senhor da criação? Não era cada ato de sugar o sangue um pecado contra Oxalá? Refleti sobre isso. Mas não recuei. Minhas emoções pertenciam a Oxalá, exatamente como pertenciam muitas e muitas décadas atrás no Rio de Janeiro. Oxalá era meu, e eu era dele.
— Proteja-nos naquilo que pretendemos fazer — murmurei.
E então, antes que perdesse a coragem, apaguei a vela, levantei a imagem e, retirando o lenço, devolvi a imagem ao lugar com cuidado. Disse “Adeus Papa Legba” à imagem e me preparei para sair da suíte.
Descobri-me totalmente imóvel, de costas para o altar, olhando para a porta que levava ao corredor lá fora. Não conseguia me mexer. Ou melhor, parecia que eu não deveria me mexer.
Muito devagar, minha mente foi ficando bem vazia. Concentrando-me nos meus sentidos físicos, pelo contrário, voltei-me e olhei na direção da porta do quarto pela qual havia passado pouco antes.
Era a velha, naturalmente, a pequenina e encarquilhada Grande Nananne, com os dedos no batente, os olhos fixos em mim, e a boca fina e sem lábios num movimento como se ela estivesse resmungando consigo mesma ou com alguém invisível, a cabeça só um pouco inclinada para um lado.
Prendi a respiração e a encarei. Ela não demonstrou sinais de enfraquecimento, aquela minúscula aparição, a velhinha pequena que me olhava direto apesar dos lábios que se moviam. Estava usando uma camisola de flanela com um estampado florido suave, toda manchada de café, talvez, ou de sangue já descorado. Na realidade, tive a forte percepção de que sua imagem estava se tornando cada vez mais sólida e detalhada.
Os pés estavam descalços e as unhas, da cor de osso amarelado. Seu cabelo grisalho estava agora perfeitamente visível e nítido, como se a intensidade da luz sobre ela estivesse sendo aumentada, e eu via o movimento das veias que lhe subiam pelas laterais da cabeça, bem como as veias nas costas de uma das suas mãos, pendente ao lado do corpo. Só gente muito velha tinha aquela aparência. E é claro que essa mulher tinha exatamente a mesma aparência que tinha tido quando vi seu espírito na entrada de automóveis mais cedo naquela noite, e exatamente como estava no dia da sua morte. Eu de fato me lembrava da camisola. Lembrava-me das nódoas nela. Lembrava-me de que no seu corpo moribundo, a camisola tinha nódoas, mas era limpa e recém-trocada.
Comecei a suar de verdade enquanto fixava o olhar nela, e não conseguia mover um músculo, a não ser para falar.
— Acha que vou prejudicar Merrick? — sussurrei.
A figura não mudou. A boquinha continuava a se mexer, mas eu só conseguia ouvir um leve ruído de farfalhar seco, como de alguma velha rezando o rosário na igreja.
— Acha que pretendo fazer algo errado? — disse eu.
A figura sumiu. Desapareceu e ponto final. Eu estava falando com ninguém. Dei a volta nos calcanhares e encarei a estatueta do santo. Parecia sólida e nada mais. Considerei seriamente a hipótese de destroçá-la, mas minha mente estava em total confusão quanto às minhas intenções e suas implicações, quando de repente ouvi uma batida ensurdecedora na porta do corredor.
Bem, pareceu-me ensurdecedora. Suspeito que tenha sido normal. Levei um susto violento. Mesmo assim abri a porta, falando com irritação.
— Está querendo o quê?
Para surpresa minha e dele também, eu estava me dirigindo a um dos auxiliares comuns e inocentes que trabalhavam no hotel.
— Nada, senhor, desculpe — disse ele, no seu lento estilo sulista. — Era só isso aqui para a senhora. — Ele apresentou um pequeno envelope branco e simples, que eu apanhei da sua mão.
— Ah, um momento, por favor — disse eu, enquanto remexia no bolso para retirar uma nota de dez dólares. Tinha posto algumas no meu terno exatamente com essa finalidade, e agora dava uma ao mensageiro, que pareceu satisfeito.
Fechei a porta. O envelope continha a fivela de cabelo de duas peças de couro, que eu tinha tirado de Merrick com tanto descuido no táxi. Era uma oval de couro e uma haste forrada de couro, com a qual ela prendia o cabelo e o fixava no lugar.
Eu tremia por inteiro. Isso era terrível demais.
Como era concebível que a peça tivesse chegado ali? Parecia totalmente impossível que o motorista do táxi a tivesse devolvido. Mas, na verdade, como é que eu poderia saber? Na hora, eu tinha tido a noção de que deveria recolher a fivela e guardá-la no bolso, mas me imaginava sob coação.
Fui até o altar, coloquei a fivela diante de Papa Legba, evitando seus olhos enquanto fazia isso, saí direto da suíte, desci pela escada e saí do saguão e do hotel.
Dessa vez, jurei que não observaria nada, não procuraria nada e iria direto para casa.
Se houve espíritos ao longo do caminho, não os vi. Mantendo os olhos fixos no chão, movi-me com a rapidez que me era possível sem causar estranheza entre os mortais, e atravessei direto a entrada de carros, até os fundos do quintal, para então subir pela escada de ferro até o apartamento.
4
O APARTAMENTO ESTAVA ESCURO, COM O QUE EU NÃO ESTAVA CONTANDO . E não encontrei Louis na sala de estar da frente, na dos fundos, nem no seu quarto. Quanto a Lestat, a porta do seu quarto estava fechada, e a música de cravo, muito rápida e belíssima, parecia emanar das próprias paredes, como costuma ser o caso com as gravações modernas em CD.
Acendi todas as lâmpadas na sala de estar da frente e me acomodei no sofá, com os papéis de Aaron nas mãos. Disse a mim mesmo que tinha assuntos importantes a tratar.
De nada adiantava pensar em Merrick, em seus encantamentos e seus espíritos. E de nada adiantava eu me deter a pensar na velhota com seus murmúrios ininteligíveis e seu pequeno rosto enrugado.
Quanto aos meus pensamentos sobre meu orixá, Oxalá, eles eram desanimadores. Os longos anos que passei no Rio foram de estrita dedicação. Eu acreditava no candomblé à medida que eu, David Talbot, conseguia acreditar em alguma coisa. Eu tinha me entregado à religião à medida que podia me entregar com abandono a alguma coisa. E tinha me tornado seguidor e devoto de Oxalá. Tinha sido possuído por ele muitas vezes com pouca ou nenhuma lembrança do transe, e tinha seguido suas normas meticulosamente.
Mas tudo isso tinha sido um desvio na minha vida, um intermezzo. Afinal de contas, eu era um estudioso britânico, antes e depois. E uma vez que entrei para a Talamasca, o poder de Oxalá ou de qualquer orixá sobre mim estava destruído para sempre. Mesmo assim, eu sentia confusão e culpa agora que tinha vindo procurar Merrick para conversar sobre magia, imaginando que eu poderia controlar o que acontecesse! E logo a primeira noite tinha sido realmente exemplar.
No entanto, eu precisava alcançar clareza mental. Na realidade, isso eu devia a Aaron, meu velho amigo, recuperar meu controle e examinar seus papéis. Tudo o mais poderia esperar, disse a mim mesmo.
E, no entanto, eu não conseguia tirar da cabeça aquela velha. Ansiava pela chegada de Louis. Queria conversar com ele sobre essas questões. Era importante que Louis entendesse como Merrick era, mas eu não fazia a menor idéia de onde Louis pudesse estar àquela hora.
O som do cravo era uma espécie de lenitivo, como Mozart sempre é, com sua alegria, não importa qual seja a composição; mas mesmo assim eu me sentia inquieto e inseguro naqueles aposentos aquecidos onde estava acostumado a passar muitas horas tranqüilo sozinho, com Louis ou com Louis e Lestat.
Decidi ignorar tudo aquilo.
Na realidade, aquela era absolutamente a melhor hora para ler os escritos de Aaron. Tirei o paletó, sentei-me à grande escrivaninha convenientemente voltada para a sala inteira (já que nenhum de nós gostava de trabalhar de costas para a sala), abri o envelope e retirei as páginas que pretendia ler.
Não se tratava de muita coisa, e uma breve passada de olhos indicou que Merrick me havia transmitido um quadro completo dos pensamentos de Aaron no final da vida. Mesmo assim, era meu dever para com Aaron ler esses escritos, palavra por palavra.
Demorei apenas alguns momentos para esquecer de tudo a meu respeito à medida que me descobria escutando a conhecida voz de Aaron em inglês, apesar do fato de tudo o que escrevera estar em latim. Era como se ele estivesse ali, fazendo uma revisão completa comigo, ou lendo para mim seu relatório para eu poder comentá-lo antes que ele o enviasse aos Anciãos.
Aaron descreveu como veio se encontrar comigo na Flórida, onde havia encontrado o corpo idoso do seu amigo David Talbot morto e precisando de um enterro adequado, enquanto a alma de David estava firmemente instalada no corpo de um rapaz anônimo.
O rapaz era descendente de anglo-indianos, tinha 1,90 m de altura, o cabelo castanho-escuro ondulado, a pele de bronze e olhos castanho-escuros extremamente grandes e solidários. O rapaz gozava de excelente saúde e estava em perfeitas condições físicas. O jovem tinha a audição aguçada e um bom sentido de equilíbrio. Parecia estar desprovido de absolutamente qualquer espírito a não ser do de David Talbot.
Aaron passou a descrever nossos dias juntos em Miami, período durante o qual eu com freqüência projetara meu espírito para que saísse do corpo que o abrigava, só para recapturar o corpo perfeitamente sem nenhuma resistência invisível de nenhum reino conhecido ou desconhecido.
Por fim, após cerca de um mês de experiências desse tipo, eu me convenci de que poderia permanecer no corpo jovem e comecei a reunir as informações que pude sobre a alma que anteriormente havia reinado ali dentro.
Esses detalhes não relatarei aqui já que estão associados a pessoas que não têm nenhum vínculo com esta narrativa. Basta dizer que Aaron e eu chegamos à conclusão de que a alma que no passado havia governado meu novo corpo tinha desaparecido sem possibilidade de retorno. Os registros hospitalares referentes aos últimos meses de vida daquela alma na terra deixavam sobejamente claro que “a mente” do indivíduo havia sido destruída por catástrofes psicológicas e pela estranha química de certas drogas que ele havia ingerido, muito embora nenhum dano tivesse ocorrido às células do cérebro.
Eu, David Talbot, em plena posse do corpo, não sentia nenhum dano causado ao cérebro.
Aaron tinha sido exaustivo em sua descrição dos fatos, explicando como eu era desajeitado com minha nova altura nos primeiros dias e como ele havia observado esse “corpo estranho” aos poucos ir se “tornando” seu velho amigo, David, à medida que eu me acostumava a sentar em cadeiras com as pernas cruzadas, a cruzar os braços diante do peito ou a me debruçar sobre meus escritos ou sobre material de leitura no meu estilo conhecido.
Aaron observou que a melhor visão dos olhos novos tinha sido uma bênção para David Talbot, já que David vinha sofrendo de deficiência na visão nos últimos anos. Ah, isso era bem verdade, e nem mesmo tinha me ocorrido. E agora, naturalmente, eu via como um vampiro e não me lembrava sequer daquelas importantes gradações da visão mortal na minha breve juventude faustiana.
Aaron então expôs sua opinião de que o relato completo desse incidente não deveria ser mantido nos arquivos da Talamasca, que eram abertos a todos.
“Pela transformação de David, está claro aos olhos de qualquer um”, escreveu ele sem rodeios, “que a troca de corpos é totalmente possível quando se está falando de indivíduos capacitados, e o que desperta horror em mim não é a atual ocupação desse esplêndido corpo jovem por parte de David, mas a maneira como o corpo foi roubado do seu dono original por aquele que chamaremos de Ladrão de Corpos, com objetivos sinistros do próprio ladrão.”
Aaron explicava então que tentaria entregar essas páginas diretamente às mãos dos Anciãos da Talamasca.
No entanto, por motivos trágicos, era óbvio que isso nunca tinha sido feito.
Vinha em seguida uma série final de parágrafos que cobriam cerca de três páginas, escritos à mão num tom um pouco mais formal do que o texto anterior.
“O Desaparecimento de David” estava escrito no alto. Lestat era meramente designado como VL. E dessa vez, o fraseado de Aaron refletia consideravelmente mais cautela e alguma tristeza.
Ele descrevia como eu desaparecera na ilha de Barbados, sem deixar nenhuma mensagem para ninguém, abandonando minhas malas, minha máquina de escrever, meus livros e escritos que ele, Aaron, tinha ido recolher.
Como isso deve ter sido terrível para Aaron, apanhar o lixo da minha vida, sem uma palavra de desculpas de minha parte.
“Se eu não estivesse tão ocupado com a questão dos Bruxos Mayfair”, escreveu ele, “talvez esse desaparecimento jamais tivesse ocorrido. Eu poderia ter dedicado mais atenção a D. durante esse período de transição. Poderia tê-lo abraçado com mais firmeza no meu afeto e com isso ter conquistado com mais segurança sua total confiança. O fato é que só posso supor o que houve com ele e receio que ele se tenha deparado com uma catástrofe espiritual totalmente contra sua vontade.
“Indubitavelmente ele entrará em contato comigo. Conheço-o muito bem para pensar de outro modo. Ele virá me procurar. Ele virá — não importa qual seja seu estado mental, e eu não tenho a menor condição de imaginá-lo —, virá para me dar algum alívio, se não for para mais nada.”
Foi uma dor tão funda ler isso que parei e deixei as folhas de lado. Por um instante, tive consciência da minha própria fraqueza, da minha terrível fraqueza, da minha fraqueza cruel.
Mas ainda havia mais duas páginas, e eu precisava lê-las. Acabei por apanhá-las e li as últimas anotações de Aaron.
Gostaria de poder apelar diretamente aos Anciãos pedindo ajuda. Depois dos meus muitos anos na Talamasca, eu gostaria de ter total fé na nossa Ordem e total fé de que a autoridade dos Anciãos é para o bem maior. No entanto, ao que eu saiba, nossa Ordem é composta de homens e mulheres mortais e falíveis. E eu não posso recorrer a ninguém sem pôr nas mãos dessa pessoa um conhecimento que não desejo compartilhar com ninguém.
Nos últimos meses a Talamasca enfrentou uma boa quantidade de problemas internos. E enquanto toda a questão da identidade dos Anciãos, e da certeza de comunicação com eles não estiver resolvida, este relatório deverá permanecer nas minhas mãos.
Enquanto isso, nada pode abalar minha confiança em D. ou minha crença na sua bondade essencial. Qualquer corrupção que possamos ter sofrido na Talamasca jamais conspurcou a ética de David, ou a ética dos muitos semelhantes a ele. E, embora eu ainda não possa confiar esses segredos a eles, sem dúvida consola-me o fato de que David possa aparecer a eles se não a mim.