Merrick
Anne Rice
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Na realidade, minha fé em David é tamanha que às vezes minha cabeça me prega peças, e acho que o vejo apesar de logo me dar conta do meu erro. Examino multidões em busca dele à noite. Voltei a Miami para procurar por ele. Enviei-lhe meu chamado por meio da telepatia. E não tenho nenhuma dúvida de que uma noite muito em breve David responderá, nem que seja só para se despedir.
A dor que eu sentia era esmagadora. Passaram-se momentos em que eu não fiz nada além de me permitir sentir a enormidade da injustiça que eu tinha feito a Aaron.
Por fim, forcei-me a movimentar os membros.
Dobrei as folhas da forma correta, guardei-as de volta no envelope e me sentei de novo em silêncio, com os cotovelos na escrivaninha, a cabeça baixa.
O cravo tinha parado algum tempo antes e, por mais que eu adorasse a música, ela atrapalhava meus pensamentos até certo ponto. Por isso, eu valorizava o silêncio.
Minha tristeza era mais profunda do que nunca. Eu me sentia mais sem esperanças do que nunca antes. O fato de Aaron estar morto me parecia mais real do que sua vida jamais tinha me parecido. E, com efeito, tanto a vida quanto a morte pareciam um milagre extraordinário.
Quanto à Talamasca, eu sabia que ela curaria suas fendas sozinha. Não sentia nenhum temor de verdade por ela, embora Aaron tivesse tido razão em suas suspeitas das relações com os Anciãos enquanto não fossem resolvidas as questões da sua identidade e autoridade.
Quando deixei a Ordem, a questão da identidade dos Anciãos tinha sido alvo de debates acirrados. E incidentes referentes a segredos tinham causado corrupção e traição. O assassinato de Aaron tinha se tornado parte daquilo. O famoso Ladrão de Corpos que seduziu Lestat tinha sido um dos nossos.
Quem eram os Anciãos? Eles mesmos eram corruptos? Era difícil acreditar nisso. A Talamasca era antiga e autoritária. Ela se movia lentamente no que dizia respeito a questões eternas, muito semelhante a um relógio do Vaticano. Mas agora tudo aquilo estava fechado para mim. Seres humanos tinham de continuar purificando e reformulando a Talamasca, como já haviam começado a fazer. Eu não poderia fazer nada para ajudar numa empreitada dessas.
No entanto, ao que me fosse dado saber, as dificuldades internas tinham sido resolvidas. Exatamente de que forma e por quem, eu não sabia e no fundo não queria saber.
Eu sabia apenas que aqueles que eu amava, aí incluída Merrick, pareciam estar em paz com a Ordem, muito embora eu de fato tivesse a impressão de que Merrick, bem como aqueles que de vez em quando eu observava em outros locais, tinha uma visão mais “realista” da Ordem e de seus problemas do que eu jamais tivera.
E naturalmente, o que eu tinha feito ao falar com Merrick, isso teria de ser um segredo entre nós dois.
Mas como era possível que eu tivesse um segredo com uma bruxa que me lançara um feitiço com tanta presteza, eficiência e abandono? Só de pensar nisso, voltei a ficar irritado. Gostaria de ter levado comigo a imagem de são Pedro. Teria sido bem feito.
Mas qual teria sido o objetivo de Merrick naquela história toda — advertir-me sobre seu poder, forçar-me a perceber que Louis e eu, como criaturas presas à terra, dificilmente seríamos imunes a ela ou que nosso plano era realmente um plano perigoso?
De repente senti sono. Como já mencionei, eu tinha me alimentado antes de me encontrar com Merrick e não tinha nenhuma necessidade de sangue. Mas eu sentia um enorme desejo, instigado pelo toque físico de Merrick, e muito enredado em fantasias silenciosas com ela. E agora eu estava sonolento do esforço, sonolento da minha dor por Aaron, que tinha sido enterrado sem absolutamente nenhuma palavra de consolo de minha parte.
Eu estava prestes a me deitar no sofá quando ouvi um som muito agradável que reconheci imediatamente, se bem que não o tivesse ouvido de perto havia anos. Era o som de um canário, que cantava e fazia um pequeno alarido metálico numa gaiola. Ouvi a movimentação das asas, o rangido do pequeno trapézio, balanço ou sei lá como se chama, o rangido da gaiola no seu suporte.
E então voltou a música do cravo, muito rápida, na realidade mais rápida que qualquer ser humano poderia chegar a desejar. Era murmurante e enlouquecida, cheia de magia, essa música, como se um ser sobrenatural tivesse o controle das teclas.
Dei-me conta de imediato de que Lestat não estava no apartamento, e nunca tinha estado; que esses sons — a música e o delicado rebuliço dos pássaros — não vinham do seu quarto fechado.
Mesmo assim, eu precisava verificar.
Lestat, por ser poderoso como é, consegue disfarçar sua presença quase completamente, e eu, por ser cria sua, não consigo captar nada da sua mente.
Pus-me de pé, pesado, modorrento, espantado com minha exaustão, e me encaminhei ao corredor até o quarto dele. Bati com respeito, esperei um intervalo razoável e abri a porta.
Tudo estava como deveria estar. A cama gigantesca de quatro colunas no estilo das fazendas coloniais, de mogno tropical com seu dossel empoeirado com guirlandas de rosas e o cortinado de veludo vermelho-escuro, a cor que Lestat prefere acima de todas as outras. A poeira encobria a mesinha-de-cabeceira, a escrivaninha próxima e os livros na estante. E não se via nenhum aparelho para fazer música.
Voltei-me, com a intenção de retornar à sala de estar, de anotar tudo isso no meu diário, se o conseguisse encontrar, mas me sentia tão pesado e sonolento que dormir me pareceu uma idéia melhor. Depois, ainda havia a questão da música e dos pássaros. Algo a respeito dos pássaros me impressionou. O que era? Algo que Jesse Reeves tinha escrito no seu relatório sobre a ocasião em que foi assombrada décadas atrás nas ruínas desta mesma casa. Passarinhos.
— Quer dizer que começou? — murmurei. Eu me sentia muito fraco, na realidade bem deliciosamente fraco. Perguntei-me se Lestat se incomodaria tanto assim se eu me deitasse um pouco na sua cama. Ele ainda poderia vir nessa noite. Nós nunca sabíamos, não é mesmo? Não era muito correto fazer uma coisa dessas. E, por mais sonolento que estivesse, eu estava movimentando a mão direita no mesmo ritmo rápido da música. Eu conhecia essa sonata de Mozart. Era linda, a primeira que o menino-gênio tinha escrito, e como era excelente. Não surpreendia que os pássaros estivessem tão felizes. Para eles, deveria ser um som familiar, mas era importante que essa música não se precipitasse com tanta velocidade, por mais talentoso que fosse o executante, por mais talentosa que fosse a criança.
Consegui sair do quarto como se estivesse me movimentando dentro d'água e fui procurar o meu, onde eu tinha minha própria cama, perfeitamente confortável. E de repente pareceu imperioso que eu procurasse meu caixão, meu esconderijo, porque eu não poderia me manter consciente até o amanhecer.
— Ah, é mesmo, é essencial que eu vá — disse eu em voz alta, mas sem conseguir ouvir minhas palavras em virtude do clamor da música ligeira, e percebi, com enorme angústia, que eu tinha entrado na sala de estar dos fundos do apartamento, a sala que dava para o pátio, e que tinha me acomodado no sofá.
Louis estava comigo. Louis estava me ajudando a sentar no sofá, por sinal. Louis estava me perguntando o que havia de errado.
Ergui os olhos e tive a impressão de que ele era uma visão da perfeição masculina, trajando um camisa de seda branquíssima e um paletó de veludo negro de corte excelente, com o cabelo negro e encaracolado penteado cora esmero para trás sobre suas orelhas e caindo em cachos sobre o colarinho de uma forma vivaz e encantadora. Eu adorava olhar para ele, exatamente como adorava olhar para Merrick.
Impressionou-me como seus olhos verdes eram diferentes dos olhos dela. Os dele eram mais escuros. Não havia nenhum círculo nítido de tom negro em torno da íris e, de fato, as pupilas não se sobressaíam tanto. Mesmo assim, eram olhos lindos.
O apartamento caiu em absoluto silêncio.
Por um instante, não consegui dizer nem fazer nada.
Olhei então para ele enquanto se sentava numa poltrona de veludo rosa-velho perto de mim, e seus olhos se encheram da luz próxima de uma lâmpada elétrica. Enquanto Merrick tinha algo de leve desafio, mesmo em sua expressão mais descontraída, os olhos de Louis eram pacientes, sossegados, como os olhos num quadro, fixos e confiáveis.
— Você ouviu? — perguntei.
— Exatamente o quê? — perguntou ele.
— Ai, meu Deus, está começando — disse eu, baixinho. — Você se lembra. Procure se lembrar, meu amigo. Você se lembra do que Jesse Reeves lhe contou. Pense.
Então me abri numa espécie de desabafo — a música do cravo e o som dos pássaros. Décadas antes isso tinha acontecido a Jesse, na noite em que ela encontrou o diário de Claudia num local secreto numa parede destruída. Abateu-se sobre ela com uma visão de lamparinas e figuras em movimento. Aterrorizada, ela fugiu do apartamento, levando uma boneca, um rosário e o diário, sem voltar ali.
O espírito de Claudia a perseguira até um quarto de hotel às escuras. E a partir dali Jesse havia adoecido, sido sedada, hospitalizada e afinal levada de volta para a Inglaterra, para nunca mais retornar a esse lugar, ao que me fosse dado saber.
Jesse Reeves havia se tornado um vampiro em decorrência do seu destino, não dos erros ou falhas da Talamasca. E a própria Jesse Reeves tinha contado essa história a Louis.
Era tudo perfeitamente conhecido, mas eu não tinha nenhuma lembrança de Jesse um dia ter identificado a peça musical que tinha ouvido nas sombras.
Coube a Louis declarar agora em voz baixa que, sim, sua querida Claudia adorava as primeiras sonatas de Mozart, que as adorava porque ele as havia composto enquanto ainda era criança.
De repente Louis foi tomado de uma emoção incontrolável. Ele se levantou e me virou as costas, olhando lá para fora, aparentemente, através das cortinas de renda, para qualquer céu que aparecesse por trás das cumeeiras e das altas bananeiras que cresciam junto aos muros do pátio.
Eu o observava em silêncio cortês. Sentia que minha energia voltava. Sentia a costumeira força sobrenatural, com a qual eu sempre contara desde a primeira noite em que fui suprido com o sangue.
— Ai, eu sei que deve ser uma tortura — disse eu, finalmente. — É tão fácil concluir que estamos chegando perto.
— Não — disse ele, voltando-se com delicadeza para mim. — Você não percebe, David? Você ouviu a música. Eu não a ouvi. Jesse ouviu a música. Eu nunca a ouvi. Nunca. E há anos venho esperando ouvir, pedindo para ouvir, querendo ouvir, mas nunca a ouço.
Seu sotaque francês era forte e preciso, como sempre acontecia quando ele se emocionava, e eu adorava a riqueza que o sotaque conferia à sua fala. Considero que nós, falantes da língua inglesa, somos sábios ao saborear sotaques. Eles nos dão ensinamentos sobre nosso próprio idioma.
Como eu o amava. Amava seus movimentos esguios e graciosos, e seu jeito de mergulhar fundo nas suas reações, ou não apresentar reação nenhuma. Louis tinha demonstrado simpatia por mim desde o primeiro instante era que nos conhecemos, compartilhando essa casa, sua casa, comigo; e sua lealdade a Lestat era inquestionável.
— Se lhe servir de consolo — apressei-me a acrescentar —, estive com Merrick Mayfair. Apresentei-lhe seu pedido, e acho que ela não pretende nos recusar ajuda.
Espantei-me com sua surpresa. Eu me esqueço de como Louis é totalmente humano, por ser o mais fraco de nós, e de que ele não consegue ler pensamentos de modo algum. Eu supunha que ele vinha me observando ultimamente, à distância, mas espionando como só um vampiro ou um anjo consegue, para ver quando o encontro se realizaria.
Ele voltou e se sentou novamente.
— Quero que você me conte tudo — disse ele. Seu rosto corou por um instante. Perdeu sua brancura sobrenatural, e parecia um rapaz de vinte e quatro anos, com feições bonitas e de contorno definido, o rosto magro e bem modelado. Poderia ter sido criado por Deus para ser pintado por Andréa del Sarto, de tão deliberada que parecia ser sua perfeição.
— David, por favor, conte-me tudo — insistiu ele, tendo em vista meu silêncio.
— Claro que sim, é o que pretendo. Mas preciso que me dê mais alguns instantes. Alguma coisa está acontecendo, sabe, e eu não tenho certeza se é a perversidade geral dela.
— Perversidade? — perguntou ele em total inocência.
— Não quis falar tão a sério. Veja só. Ela é uma mulher muito forte e muito estranha no seu jeito de ser. Vou lhe contar tudo, sim.
No entanto, antes de começar, examinei-o mais uma vez e reparei que nenhum de nós, ou seja, nenhum dos vampiros ou sugadores imortais de sangue com quem eu me havia deparado, era nem um pouco parecido com ele.
Nos anos que tinha passado com ele, presenciamos assombros juntos. Tínhamos visto os seres antiqüíssimos da espécie e fomos totalmente humilhados por essas visitas, que de uma forma cansativa faziam troça da longa busca de Louis, típica do século XIX, por respostas que não existiam.
Durante nossas recentes assembléias, muitos dos mais velhos tinham oferecido a Louis o poder do seu sangue antigo. Com efeito, a antiqüíssima Maharet, que agora era vista como gêmea da Mãe absoluta de todos nós, tinha insistido ao extremo com Louis para que se alimentasse das suas veias. Eu observara aquilo com considerável apreensão. Maharet pareceu ofendida por alguém tão fraco.
Louis recusou sua oferta. Louis a rejeitou. Nunca me esquecerei da conversa.
— Não valorizo minhas fraquezas — explicou-lhe. — Seu sangue confere poder, não questiono esse ponto. Só um tonto questionaria. Mas sei pelo que aprendi com vocês todos que a capacidade de morrer é importantíssima. Se eu tomar seu sangue, vou me tornar forte demais para um simples ato de suicídio, exatamente como você neste momento. E isso eu não posso permitir. Deixem-me continuar sendo o humano em meio a vocês. Deixem-me adquirir minha força lentamente, como você adquiriu no passado, a partir do tempo e do sangue humano. Eu não gostaria de me tornar o que Lestat se tornou graças ao sangue dos antigos. Eu não gostaria de ser tão forte e de me distanciar tanto de um fim fácil.
Na época fiquei assombrado com o evidente desagrado de Maharet. Nada acerca de Maharet é simples exatamente porque tudo é. Com isso, quero dizer que ela é tão antiga que está isolada de todo da expressão comum de emoções ternas, a não ser talvez pela intenção deliberada de ser misericordiosa.
Ela perdeu todo o interesse por Louis no momento em que ele a rejeitou; e, ao que eu saiba, nunca mais olhou para ele ou mencionou seu nome. Naturalmente, ela não lhe fez mal, e não lhe faltaram oportunidades. Mas ele tinha deixado de ser um ser vivo, não era mais um de nós, para ela. Ou era o que eu supunha.
Mas na realidade quem haveria de julgar uma criatura como Maharet? O fato de eu tê-la visto, de ter ouvido sua voz, de ter estado com ela algum tempo no seu próprio refúgio, tudo isso era motivo de gratidão.
Eu mesmo tinha sentido enorme respeito pela relutância de Louis em beber o puro elixir dos deuses da escuridão. Louis fora transformado em vampiro por Lestat quando Lestat era de fato muito jovem. E Louis era consideravelmente mais forte que os seres humanos, perfeitamente capaz de enfeitiçá-los, e conseguia superar com facilidade o adversário mortal mais esperto. Embora estivesse sujeito às leis da gravidade em grau muito maior que eu, ele conseguia movimentar-se pelo mundo com muita rapidez, atingindo uma categoria de invisibilidade que apreciava muitíssimo. Louis não lia pensamentos e não era espião.
Contudo, era muito provável que Louis morresse se fosse exposto ao sol, embora ele já tivesse passado do ponto em que o sol o reduziria a puras cinzas, como havia acontecido com Claudia apenas cerca de setenta anos após seu nascimento. Louis ainda precisava de sangue todas as noites. Era muito provável que Louis procurasse o esquecimento nas chamas de uma pira.
Eu agora estremecia, enquanto me lembrava das limitações deliberadas dessa criatura e da sabedoria que ele parecia possuir.
Meu próprio sangue era de uma força notável por ser proveniente de Lestat que havia recebido sangue não só do ancião Marius, mas também da Rainha dos Condenados, a própria progenitora dos vampiros. Eu não sabia exatamente o que poderia fazer para encerrar minha existência, mas sabia que não seria fácil. Quanto a Lestat, quando eu pensava nas suas aventuras e nos seus poderes, parecia impossível a existência de algum meio para ele sair deste mundo.
Esses pensamentos tanto me perturbaram que estendi a mão para segurar a de Louis.
— Essa mulher é muito poderosa — disse eu, quando me decidi a começar. — Ela me pregou algumas peças esta noite, e não sei ao certo como nem por quê.
— E o deixou exausto — disse ele, com consideração. — Você tem certeza de que não quer descansar?
— Não, eu preciso falar com você — respondi. E assim comecei a descrever nosso encontro no café e tudo o que se havia passado entre nós, incluídas minhas recordações de Merrick criança anos atrás.
5
EU COM EFEITO LHE CONTEI TUDO O QUE LHES RELATEI ATÉ AGORA.
Descrevi até mesmo minhas escassas lembranças do primeiro encontro com Merrick menina, e meu temor reprimido quando tive certeza absoluta de que os antepassados nos daguerreótipos estavam dando sua aprovação a Aaron e a mim.
Louis ficou muito alarmado quando expus essa parte da história, mas não quis que eu parasse ainda e me incentivou a prosseguir.
Contei-lhe sucintamente como o encontro tinha acionado outras lembranças mais eróticas de Merrick, mas que ela não recusara nosso pedido.
Expliquei que Merrick o havia visto e que ela sabia quem ele era e o que ele era muito antes que qualquer informação secreta sobre os vampiros lhe fosse transmitida pela Talamasca. Na realidade, ao que me fosse dado saber, nenhuma informação sobre os vampiros jamais tinha sido passada a Merrick.
— Eu me lembro de mais de um encontro com ela — disse ele. — Eu deveria ter-lhe contado, mas a esta altura você já deve conhecer meu jeito de ser.
— O que você está querendo dizer?
— Eu só conto o que é necessário — afirmou ele, com um leve suspiro. — Quero acreditar no que digo, mas é difícil. Bem, na realidade eu tive mesmo um encontro com Merrick. Isso é verdade. E é verdade também que ela me lançou uma maldição. Foi mais do que suficiente para que eu me afastasse dela. No entanto, eu não estava com medo. Eu tinha me equivocado totalmente a respeito de algo nela. Se eu conseguisse ler pensamentos como você, o equívoco nunca teria ocorrido.
— Mas você precisa me explicar isso — disse eu.
— Foi numa ruela estreita, bastante perigosa — disse ele. — Achei que ela quisesse morrer. Estava caminhando sozinha em total escuridão e, quando ouviu meus passos decididos atrás dela, nem sequer se incomodou de olhar para trás ou apressar o passo. Era um comportamento muito afoito e incomum para qualquer mulher de qualquer espécie. Achei que estivesse cansada da vida.
— Entendo.
— Mas o que aconteceu, quando me aproximei dela, foi que seus olhos chisparam violentos sobre mim, e ela me enviou um aviso que ouvi com a mesma nitidez de palavras pronunciadas. “Ponha as mãos em mim, e eu o arrebento.” Essa parece a melhor tradução do francês que consigo fazer. Ela proferiu outras maldições, disse palavrões, não tenho certeza do que significavam. Não me afastei dela por medo. Apenas não a desafiei. Fui atraído por ela quando estava com sede, porque pensei que ela quisesse morrer.
— Entendo — disse eu. — Confere com o que ela me disse. Em outras ocasiões, acho que ela o viu de longe.
Ele refletiu sobre isso um instante.
— Havia uma velha, uma velha muito poderosa.
— Então você a conheceu.
— David, quando o procurei para lhe pedir que falasse com Merrick, eu sabia alguma coisa sobre ela, sim. Mas isso já faz um tempo, quando a velha ainda era viva; e a velha às vezes me via, decididamente, e a velha sabia o que eu era. — Ele parou por um momento e depois prosseguiu. — Há muito tempo, antes da virada do século XIX, havia praticantes de vodu por aí que sempre nos conheciam. Mas nós continuávamos em total segurança porque ninguém acreditava no que elas diziam.
— É claro — respondi.
— Mas veja bem, eu nunca acreditei muito naquelas mulheres. Quando me deparei com Merrick, bem, senti algo de um poder imenso e fora do alcance do meu entendimento. Agora, por favor, continue. Diga-me o que aconteceu hoje à noite.
Relatei como tinha levado Merrick até o Windsor Court Hotel e como o feitiço tinha se abatido sobre mim com numerosas aparições, das quais a mais assustadora e perniciosa era decididamente a de Grande Nananne, a avó falecida.
— Se você pudesse ter visto as duas figuras em conversa na entrada de carros, se pudesse ter visto seu estilo absorto e cheio de segredos, além da atitude descontraída e sem medo com que me encaravam, você teria tido calafrios.
— Sem a menor dúvida — disse ele. — E o que você está dizendo é que as viu de fato, como se elas realmente estivessem ali. Não foi simplesmente uma idéia.
— Não, meu caro, eu as vi. Elas pareciam de verdade. É claro que não tinham exatamente a mesma aparência de outras pessoas, isso você precisa entender. Mas elas estavam lá!
Passei a explicar minha volta ao hotel, o altar, Papa Legba e então minha vinda para casa. E, mais uma vez, descrevi a música do cravo e a cantoria dos pássaros em gaiolas.
Louis ficou visivelmente triste com isso, mas mais uma vez não me interrompeu.
— Como já disse antes, eu reconheci a música. Era a primeira sonata de Mozart. E a interpretação era fantástica e cheia de...
— Diga.
— Mas você deve tê-la ouvido. Era obsessiva. Quer dizer, há muito, muito tempo, você deve ter ouvido esse tipo de música, quando foi tocado aqui pela primeira vez, pois as assombrações apenas repetem o que ocorreu um dia.
— Era cheia de raiva — disse ele, baixinho, como se a própria palavra “raiva” o fizesse baixar o tom da voz.
— E, era isso, raiva. Era Claudia tocando, não era? — Ele não respondeu. Parecia impressionado com suas recordações e considerações. Então, finalmente falou.
— Mas você não sabe se foi Claudia quem o fez ouvir esses sons — disse ele. — Poderia ter sido Merrick e seu feitiço.
— Quanto a isso você tem razão, mas veja só, nós também não temos certeza de que Merrick provocou todas as outras coisas. O altar, a vela, até meu sangue no lenço, nada disso prova que Merrick enviou os espíritos em minha perseguição. Temos de pensar no espírito de Grande Nananne.
— Você está querendo dizer que esse espírito poderia ter interferido conosco, por sua própria e exclusiva vontade?
Fiz que sim.
— E se esse espírito quiser proteger Merrick? E se esse espírito não quiser que a neta invoque a alma de um vampiro? Como podemos saber?
Ele parecia estar à beira do desespero total. Continuava sereno e razoavelmente controlado, mas seu rosto estava muito abatido. Ele então pareceu controlar-se e esperou que eu falasse como se não houvesse palavras para expressar o que estava sentindo.
— Louis, preste atenção! Eu tenho apenas uma tênue compreensão do que estou a ponto de dizer, mas é importantíssimo.
— Sim, e do que se trata? — Ele parecia ao mesmo tempo animado e humilde, sentado ereto na poltrona, insistindo para que eu continuasse.
— Nós somos criaturas desta terra, você e eu. Somos vampiros. Mas somos matéria. Na realidade, estamos fortemente entrelaçados com o Homo sapiens já que nos nutrimos exclusivamente do sangue dessa espécie. Qualquer que seja o espírito que habita nosso corpo, rege nossas células, permite que vivamos... qualquer espírito que faça tudo isso é desprovido de mente e bem poderíamos dizer desprovido de nome, ao que nos seja dado saber. Você concorda mesmo comigo quanto a esses pontos...
— Concordo — disse ele, obviamente ansioso para que eu prosseguisse.
— O que Merrick faz é magia, Louis. Pertence a outro reino. Ele não me deu resposta.
— É magia o que estamos lhe pedindo que faça para nós. O vodu é magia. O candomblé também. E da mesma forma o Santo Sacrifício da Missa.
Ele estava perplexo, mas fascinado.
— Deus é magia — continuei — e os santos também. Os anjos são magia. E os espíritos, se realmente são aparições de almas que um dia viveram na terra, também são magia.
Ele absorveu essas palavras com atitude respeitosa e permaneceu em silêncio.
— Entenda bem — prossegui. — Não estou dizendo que todos esses elementos mágicos são iguais. O que estou dizendo é que o que eles têm em comum é o fato de estarem apartados da matéria, afastados da terra e da carne. É claro que interagem com a matéria. Interagem com a carne. Mas pertencem ao reino da pura espiritualidade onde poderiam existir outras leis diferentes das nossas leis terrenas do mundo físico.
— Entendi o que você quer dizer — disse Louis. — Você está me avisando que essa mulher pode fazer coisas que nos desconcertarão com tanta facilidade quanto desconcertariam homens mortais.
— É, essa é minha intenção aqui, em parte — respondi. — No entanto, Merrick pode fazer mais do que simplesmente nos desconcertar, você me entende? Precisamos abordar Merrick e o que ela for fazer com o máximo respeito.
— Entendo, sim — disse ele. — Mas se os seres humanos têm uma alma que sobrevive à morte, uma alma que pode se manifestar como espírito diante dos vivos, então os seres humanos também têm componentes mágicos.
— E, um componente mágico, e você e eu ainda possuímos esse componente mágico, além de mais algum componente vampírico, mas quando uma alma realmente deixa seu corpo físico? Então, ela está no reino de Deus.
— Você acredita em Deus — murmurou ele, totalmente pasmo.
— É, acho que sim — respondi. — Na realidade, sei que sim. De que adianta esconder isso como se fosse uma disposição mental tola ou primitiva?
— Então você de fato tem enorme respeito por Merrick e sua magia — disse ele. — E acredita que Grande Nananne, como você a chama, poderia com efeito ser um espírito poderosíssimo.
— Isso mesmo — disse eu.
Ele se recostou na poltrona, e seus olhos passeavam de um lado ao outro um pouco rápido demais. Ele estava bastante empolgado com tudo o que eu lhe dissera, mas toda a sua atitude era de profunda tristeza, e nada conseguia fazê-lo parecer feliz ou alegre.
— Grande Nananne poderia ser perigosa, é o que você está dizendo — murmurou ele. — Grande Nananne poderia querer proteger Merrick de... você e de mim.
Ele estava esplêndido na sua dor. Mais uma vez, fez-me pensar nos quadros de Andréa del Sarto. Sua beleza tinha algo de exuberante, apesar dos contornos claros, nítidos e bem definidos dos seus olhos e da sua boca.
— Não tenho expectativa de que minha fé faça a menor diferença para você. — disse eu. — Mas quero ressaltar esses sentimentos porque esse vodu, esse assunto de espíritos, é de fato perigoso.
Louis estava perturbado, mas nem um pouco assustado, talvez nem mesmo se sentisse cauteloso. Eu queria dizer mais. Queria lhe contar minhas experiências no Brasil, mas não era a hora nem o lugar para isso.
— Mas, David, a respeito de espíritos — disse ele, afinal, ainda mantendo um tom respeitoso —, sem dúvida há espíritos de todos os tipos.
— É, acho que sei o que você quer dizer — respondi.
— Bem, essa Grande Nananne, se na realidade apareceu por sua própria vontade, exatamente de onde veio?
— Não podemos saber isso, Louis, sobre qualquer espírito que seja.
— Bem, sem dúvida, algumas aparições são manifestações de espíritos presos à terra. Os estudiosos do oculto não sustentam essa verdade?
— Sustentam.
— Se essas aparições são os espíritos dos mortos que estão presos à terra, como podemos dizer que eles são puramente mágicos? Eles não se encontram ainda na atmosfera? Não estão lutando para alcançar os vivos? Não estão apartados de Deus? De que outra forma pode ser interpretado o fato de Claudia assombrar Jesse? Se era Claudia, Claudia não passou adiante para um reino exclusivamente espiritual. Claudia não participa das leis de fora deste mundo. Claudia não está em paz.
— Ah, entendo — respondi. — Quer dizer que é por isso que você quer tentar o ritual. Senti-me tolo por não ter percebido isso desde o início. — Você acredita que Claudia está sofrendo.
— Acho perfeitamente possível — disse ele —, se Claudia realmente apareceu para Jesse como Jesse parecia acreditar. — Ele estava arrasado. — E, para ser franco, espero que não consigamos invocar o espírito de Claudia. Espero que o poder de Merrick não funcione. Espero que, se Claudia tinha uma alma imortal, que essa alma tenha chegado a Deus. Tenho esperança de coisas nas quais não consigo acreditar.
— Então é por esse motivo que a história da aparição de Claudia o atormentou tanto. Você não quer falar com ela. Você quer ter certeza de que ela está em paz.
— E, quero fazer isso porque ela pode ser um espírito torturado e sem descanso. Não consigo saber pelas histórias dos outros. Eu mesmo nunca fui assombrado, David. Como lhe disse, nunca ouvi aqui a música do cravo nem o canto dos pássaros engaiolados. Nunca presenciei nada que sequer indicasse que Claudia continua a existir em algum lugar de alguma forma. Quero tentar entrar em contato com ela para poder saber.
Custou-lhe muito essa confissão, e ele voltou a se recostar, com o olhar perdido, talvez examinando algum canto secreto da sua alma.
Finalmente, com os olhos ainda fixos em algum ponto invisível na penumbra, ele falou:
— Se ao menos eu a tivesse visto, poderia fazer alguma avaliação, por mais deficiente que fosse. Digo a mim mesmo que nenhum espírito errante jamais conseguiria me enganar fazendo-me crer que fosse Claudia, mas a verdade é que também nunca vi um espírito errante. Nunca vi nada que se assemelhasse. Só tenho a história de Jesse do que aconteceu, que a própria Jesse procurou amenizar em consideração por meus sentimentos. E é claro os devaneios de Lestat, de que tinha certeza de Claudia ter vindo procura-lo, de que experiências passadas o engoliram literalmente quando estava submetido a suas aventuras com o Ladrão de Corpos.
— É, já o ouvi falar nisso.
— Mas com Lestat, nunca se sabe... — disse ele. — Lestat pode ter estado ilustrando sua consciência nessas histórias. Não sei. O que sei mesmo é que quero desesperadamente que Merrick Mayfair tente invocar o espírito de Claudia, e estou preparado para o que der e vier.
— Você acha que está preparado — disse eu, apressado, talvez injustamente.
— Ah, eu sei. O feitiço desta noite o deixou abalado.
— Você não pode imaginar — disse eu.
— Muito bem. Admito. Não posso imaginar. Mas quero que me diga uma coisa. Você fala de um reino fora deste mundo e de que Merrick é mágica quando tenta alcançá-lo. Então, por que isso envolve sangue? Sem dúvida, seus feitiços envolverão sangue. — Ele prosseguiu, com um pouco de raiva. — O vodu quase sempre envolve o sangue — afirmou. — Você diz que o Santo Sacrifício da Missa é mágico, e eu o compreendo porque, se o Pão e o Vinho são transformados no Santo Sacrifício da Crucificação, ele é mágico, mas por que envolve sangue? Somos seres terrenos, sim, mas um pequeno componente nosso é mágico, e por que esse componente exige sangue?
Quando terminou, estava muito acalorado, fixando os olhos em mim quase com severidade, embora eu soubesse que suas emoções tinham pouco a ver comigo.
— O que eu estou dizendo é que poderíamos comparar rituais no mundo inteiro em todas as religiões e todos os sistemas de magia, para sempre, mas eles sempre envolvem sangue. Por quê? É claro que eu sei que os seres humanos não podem viver sem sangue. Sei que “o sangue é a vida”, como disse Drácula. Sei que a humanidade fala em gritos e sussurros a respeito de altares ensangüentados, de derramamento de sangue e de irmãos de sangue, e que o sangue pede sangue, e dos que têm o sangue mais nobre. Mas por quê? Qual é a conexão essencial que une essa sabedoria ou superstição? E acima de tudo, por que Deus quer sangue?
Eu estava atordoado. Sem dúvida não ia me arriscar a dar uma resposta precipitada. E, além do mais, eu não tinha essa resposta. Sua pergunta era profunda demais. O sangue era indispensável para o candomblé. Era indispensável para o verdadeiro vodu também.
Ele prosseguiu.
— Não estou falando do seu Deus especificamente — disse ele, com delicadeza —, mas o Deus do Santo Sacrifício da Missa exigiu sangue, e de fato a Crucificação chegou a nós como um dos mais famosos sacrifícios de sangue de todos os tempos. Mas o que dizer de todos os outros deuses, os deuses da Roma Antiga para quem o sangue tinha de ser derramado na arena tanto quanto no altar; ou os deuses dos astecas que ainda estavam exigindo assassinatos sangrentos em pagamento pelo governo do universo quando os espanhóis chegavam às suas praias?
— Talvez estejamos fazendo a pergunta errada — disse eu, finalmente. — Talvez o sangue não tenha importância para os deuses. Talvez o sangue tenha importância para nós. Talvez nós o tenhamos tornado o veículo para a transmissão divina. Talvez o mundo seja capaz de ultrapassar essa noção.
— Hummm, não se trata de mero anacronismo — disse ele. — É um mistério genuíno. Por que os antigos indígenas da América do Sul tinham somente uma palavra em sua língua para flores e para sangue?
Ele se levantou de novo da poltrona, parecendo totalmente desassossegado, foi até a janela mais uma vez e olhou lá para fora através da renda.
— Eu tenho meus sonhos — disse ele, sussurrando. — Sonho que ela virá e me dirá que está em paz e me mostrará a coragem para fazer o que devo fazer.
Essas palavras me entristeceram e me perturbaram.
— O Eterno não criou nenhuma lei contra meu suicídio — disse ele, parafraseando Shakespeare —, porque tudo o que preciso fazer para conseguir cometê-lo é não procurar abrigo do Sol. Sonho que ela pode me avisar sobre o fogo do inferno e sobre a necessidade de arrependimento. Mas, na verdade, é um pequeno mistério, não é? Se ela vier, pode estar tateando nas trevas. Pode estar perdida em meio às almas errantes que Lestat viu quando viajou ao outro mundo.
— Absolutamente qualquer coisa é possível — respondi. Transcorreu um longo intervalo durante o qual eu me aproximei dele em silêncio e pousei minha mão em seu ombro, meu jeito de fazer com que soubesse que eu respeitava sua dor. Ele não deu atenção a essa pequena manifestação de intimidade. Voltei para o sofá e aguardei. Não tinha nenhuma intenção de deixá-lo com pensamentos dessa natureza na cabeça. Ele afinal se voltou.
— Espere um pouco — disse, baixinho, e saiu da sala para o corredor. Ouvi-o abrir uma porta. Num instante, ele estava de volta com o que parecia ser uma pequena fotografia antiga na mão.
Minha emoção era imensa. Poderia ser o que eu achava?
Reconheci o pequeno estojo negro de guta-percha no qual estava fixada, tão parecido com os que serviam de moldura aos daguerreótipos que pertenciam a Merrick. Parecia rebuscado e bem conservado.
Ele abriu o estojo e olhou para a imagem, antes de falar.
— Você mencionou as fotografias da família da nossa queridíssima bruxa — disse ele, com reverência. — Perguntou se eles não seriam o veículo para almas protetoras.
— É mesmo. Como lhe disse, eu poderia ter jurado que aqueles retratinhos estavam olhando para Aaron e para mim.
— E você mencionou que não conseguia imaginar o que tinha significado para nós ver daguerreótipos, ou sei lá como se chamavam, pela primeira vez tantos anos atrás.
Enchi-me de uma espécie de assombro enquanto escutava o que ele dizia. Ele estivera presente. Estava vivo na época e foi testemunha. Louis tinha passado do mundo dos retratos pintados para o das imagens fotográficas. Atravessara todas aquelas décadas e estava vivo agora neste nosso tempo.
—- Pense só nos espelhos — disse ele —, aos quais todo o mundo está acostumado. Pense no reflexo de repente fixado para sempre. Era assim que era. A não ser pela cor perdida, totalmente desaparecida, e aí estava o horror, se havia horror. Mas veja bem, ninguém achou que fosse tão notável, não enquanto estava acontecendo, e depois tornou-se tão comum. Nós de fato não apreciamos um milagre daqueles. Tornou-se popular muito rápido. E naturalmente, no início, quando tudo começou, quando se instalaram os primeiros estúdios, não era para nós.
— Para nós?
— David, tinha de ser à luz do dia, você não entende? As primeiras fotografias pertenciam apenas aos mortais.
— É claro. Isso nem me ocorreu.
— Ela ficou com ódio — disse ele, olhando novamente para a imagem. — E uma noite, sem que eu soubesse, ela arrombou um dos novos estúdios (e havia muitos deles) e roubou todos os retratos que encontrou. Quebrou-os, destroçou-os, furiosa. Disse que era horrível que não pudéssemos tirar retratos nossos. “É, nós nos vemos em espelhos, e as velhas lendas não admitiam isso”, disse-me ela aos berros. “Mas e esse espelho? Essa não é alguma ameaça de julgamento?” Respondi que não era de modo algum.
“Lembro-me de que Lestat riu dela. Disse que ela era voraz, tola e que deveria estar feliz com o que tinha. Ela não tinha mais nenhuma tolerância com ele e nem lhe deu resposta. Foi nessa ocasião que ele mandou pintar o retrato em miniatura para o medalhão, o medalhão que você encontrou para ele num cofre da Talamasca.”
— Entendo — respondi. — Lestat nunca me contou essa história.
— Lestat esquece muitas coisas — disse ele, pensativo e sem tom de censura. — Depois disso, ele mandou pintar outros retratos dela. Aqui havia um grande, belíssimo. Nós o levamos à Europa. Levamos arcas com nossos pertences, mas não quero me lembrar daquela época. Não quero me lembrar de como Claudia tentou ferir Lestat.
Por respeito, continuei calado.
— Mas as fotografias, os daguerreótipos, era isso o que ela queria, a verdadeira imagem de si mesma no vidro. Estava furiosa, como lhe disse. Mas aí, anos mais tarde, quando chegamos a Paris, naquelas noites agradáveis antes que nos deparássemos com o Théâtre des Vampires e com os monstros que a destruiriam, Claudia descobriu que os retratos mágicos podiam ser tirados à noite, com luz artificial!
Ele parecia estar revivendo a experiência dolorosamente. Eu continuava calado.
— Impossível imaginar o entusiasmo de Claudia. Ela viu uma mostra do famoso fotógrafo Nadar, de fotos das catacumbas de Paris. Fotos de montanhas de ossos humanos. Nadar era o homem certo para o caso, como com certeza você sabe. Ela ficou empolgada com as fotografias. Foi ao estúdio dele, com hora marcada, à noite, e foi lá que esse retrato foi tirado.
Ele veio na minha direção.
— É pouco nítida. Levou uma eternidade para que todos os espelhos e lâmpadas artificiais cumprissem sua função. E Claudia permaneceu imóvel muito tempo. Bem, só uma criança vampiro poderia ter conseguido. Mas ela ficou muito satisfeita com o resultado. Mantinha o retrato na sua penteadeira no Hotel Saint-Gabriel, o último lugar que chegamos a chamar de nossa casa. Tínhamos aposentos muito bonitos lá. Era perto do teatro da Ópera. Acho que ela nunca desembalou os retratos pintados. Era isso que importava para ela. Cheguei a pensar que ela fosse ser feliz em Paris. Talvez tivesse sido... Mas não houve tempo. Este retratinho, ela achava que era só o início e pretendia voltar ao estúdio de Nadar com um vestido ainda mais bonito.
Ele olhou para mim.
Levantei-me para receber o retrato, e ele o colocou nas minhas mãos com extremo cuidado, como se o retrato pudesse se desfazer por sua própria vontade.
Fiquei pasmo. Como parecia pequena e inocente, essa criança irrecuperável de cachos louros e bochechas gorduchas, de lábios escurecidos na forma do arco de Cupido e renda branca. Seus olhos realmente chamejavam a partir do vidro sombreado enquanto eu a examinava. E voltou a mesma suspeita de anos atrás, que eu tinha sentido com tanta força diante dos retratos de Merrick, de que a imagem estava me fitando.
Devo ter feito algum pequeno ruído. Não sei. Fechei o estojinho. Até prendi no lugar o minúsculo fecho dourado.
— Ela não era linda? — ele perguntou. — Diga. Não se trata de uma questão de opinião, certo? Ela era linda. Não se pode negar esse simples fato.
Olhei para ele e quis dizer que ela era, era mesmo, adorável, mas não saiu da minha boca nenhum som.
— Nós temos isso — disse ele — para a magia de Merrick. Não é seu sangue, nem uma peça de vestuário, nem um cacho de cabelo. Mas temos isso. Depois que ela morreu, voltei aos aposentos no hotel onde havíamos sido felizes e recolhi só isso, deixando todo o resto.
Ele abriu o casaco e enfiou o retrato no bolso superior. Parecia um pouco abalado, com os olhos deliberadamente inexpressivos, e então abanou a cabeça de leve.
— Você não acha que o retrato será poderoso para a magia? — perguntou.
— Acho — disse eu. Eram muitas as palavras reconfortantes que me ocorriam atabalhoadamente, mas todas pareciam fracas e artificiais.
Estávamos parados ali olhando um para o outro, e eu me surpreendi com o sentimento na sua expressão. Ele parecia totalmente humano e cheio de paixão. Eu mal podia acreditar no desespero que ele suportava.
— No fundo, eu não quero vê-la, David — disse ele. — Você precisa acreditar em mim no que diz respeito a isso. Não quero despertar seu espírito e, para ser franco, acho que não temos como fazer isso.
— Acredito em você, Louis — disse eu.
— Mas, se ela vier mesmo, e se estiver em tormento...
— Nesse caso, Merrick saberá guiá-la — respondi rapidamente. — Eu saberei guiá-la. Todos os médiuns na Talamasca sabem guiar esses espíritos. Todos os médiuns sabem exortar esses espíritos a procurar a luz.
Ele concordou.
— Eu contava com isso — disse. — Mas, veja bem, acho que Claudia nunca ficaria perdida, apenas com o desejo de permanecer. E nesse caso, poderia ser necessária uma bruxa poderosa, como Merrick, para convencê-la de que fora deste mundo existe um fim para a dor.
— Exatamente — disse eu.
— Bem, já o perturbei o bastante para uma noite. Agora preciso sair. Sei que Lestat está na cidade alta, no antigo orfanato. Está escutando sua música lá. Quero me certificar de que nenhum intruso entrou lá.
Eu sabia que isso era fantasia. Lestat, independentemente da sua disposição de espírito, podia defender-se muito bem de praticamente qualquer coisa, mas tentei aceitar as palavras com cavalheirismo.
— Estou com sede — acrescentou ele, olhando de relance para mim, com a sombra de um sorriso. — Você tem razão. É verdade que não vou cuidar de Lestat. Já estive no St. Elizabeth's. Lestat está só com sua música, como é sua vontade. Estou morrendo de sede. Vou me alimentar. E preciso fazer isso sozinho.
— Não — disse eu, baixinho. — Deixe-me ir com você. Depois do feitiço de Merrick, não quero que você vá sozinho.
Decididamente, esse não era o modo de agir de Louis. Mesmo assim, ele concordou.