Merrick
O incrível machado de obsidiana que eu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Não importava. O entusiasmo de Merrick pela nossa aventura era tremendo, como o meu, e eu estava ansioso por estar a sós com ela. Os auxiliares da Talamasca equiparam a barraca com camas de armar, lampiões, mesinhas de trabalho e cadeiras; certificaram-se de que Merrick tinha baterias suficientes para seu computador laptop e, depois de um jantar fantástico — tortillas, feijão e a carne deliciosa de peru silvestre —, nos deixaram a sós ao cair da noite, numa privacidade maravilhosa, para examinar o que pretendíamos fazer no dia seguinte.
— Não pretendo levar os outros conosco — afirmou Merrick. — Estamos muito fora do alcance de malfeitores; e, como eu lhe disse, não é longe daqui. Lembro-me de um pequeno povoado no caminho. Um povoado minúsculo em comparação com este. As pessoas não nos importunarão.
Estava empolgada como eu nunca a tinha visto antes.
— É claro que podemos cobrir parte da estrada de jipe, antes de começarmos a caminhada; e você vai ver ruínas maias ao redor assim que partirmos. Vamos passar por elas e andar quando a trilha for interrompida.
Ela se esticou na cama, com o peso num cotovelo, e bebeu o escuro rum Flor de Caria, que tinha comprado na cidade antes de iniciarmos a viagem.
— Uau! Isso é que é bom — disse ela, e naturalmente suas palavras despertaram em mim um terror previsível de que pretendesse cair na bebedeira ali na selva.
— Não se preocupe, David. A verdade é que até você deveria tomar um golinho.
Suspeitei dos seus motivos, mas, mesmo assim, sucumbi. Era realmente como estar no Paraíso, devo confessar.
O que me lembro daquela noite ainda me causa uma certa culpa. Acabei bebendo demais daquele delicioso rum aromático. A certa altura, lembro-me de estar deitado de costas na cama, olhando acima para o rosto de Merrick, que tinha vindo se sentar ao meu lado. Então, Merrick debruçou-se para me beijar e eu a puxei para junto de mim, talvez respondendo com um pouco mais de impetuosidade do que ela havia esperado. Mas isso não lhe causou desagrado.
Ora, eu era uma pessoa para quem a sexualidade perdera grande parte da sua atração. Quando ocasionalmente me sentira excitado, durante aqueles últimos vinte anos da minha vida mortal, quase sempre tinha sido por um rapaz.
Mas a atração por Merrick parecia de algum modo não ter nada a ver com o gênero. Eu estava tremendamente empolgado e ansioso por consumar o que havia começado de modo tão imprevisto. Só quando me afastei para que ela deitasse por baixo de mim, onde eu a queria, foi que consegui me controlar um pouco, e me levantei da cama.
— David — murmurou ela. Ouvi o eco do meu nome: David, David. Não conseguia me mexer.
Vi sua silhueta escura ali à minha espera. E, pela primeira vez, percebi que os lampiões tinham sido apagados. Uma luz fraca vinha da casa mais próxima, mal passando pelo tecido da barraca, e é claro que era perfeitamente suficiente para eu ver que ela se despira.
— Droga, não posso fazer isso — disse eu. Mas na realidade meu medo era de não conseguir terminar. Eu temia estar velho demais.
Ela se levantou com a mesma forma abrupta que me espantara quando começou a invocar Mel na sua pequena sessão; e me enlaçou nos braços nus, começando a me beijar com avidez, a mão hábil indo direto à raiz do meu desejo.
Creio, sim, que hesitei, mas disso não me lembro. O que está nítido é que nos deitamos e que, embora em termos morais eu tivesse fracassado, não desapontei a nós dois, como homem e mulher. E depois veio uma sonolência e uma sensação de exultação que não deixava nenhum espaço para a vergonha.
À medida que fui adormecendo abraçado a ela, parecia que isso viera se criando ao longo de todos esses anos em que eu a conhecera. Eu agora lhe pertencia, totalmente. Estava impregnado do cheiro do seu perfume e do seu rum, da sua pele e do seu cabelo. Não queria nada além de estar com ela e dormir ao lado dela; e que seu calor permeasse meus indefectíveis sonhos.
Quando acordei de manhã, bem quando amanheceu, eu estava tão atordoado com tudo o que tinha acontecido que não sabia exatamente o que fazer. Ela dormia um sono profundo, linda em seu desalinho; e, humilhado por ter traído em grau tão terrível minha posição de superior geral, eu me forcei a não olhar para ela, tomei banho, me vesti, apanhei meu diário e saí para ir até a igrejinha espanhola, onde poderia escrever sobre meus pecados.
Mais uma vez avistei o xamã, que estava em pé de um lado do prédio da igreja e me observava como se soubesse tudo o que havia ocorrido. Sua presença causou-me extremo constrangimento. Eu não mais o considerava inocente nem primitivo. E é claro que eu sentia um desprezo total por mim mesmo, mas tinha de admitir que estava revigorado, como é sempre o caso com esse tipo de encontro e naturalmente, ah, sim, naturalmente, eu me sentia muito jovem.
No ambiente tranqüilo e fresco da igrejinha, com seu telhado inclinado e seus santos acríticos, escrevi talvez por uma hora.
Merrick entrou então, fez suas orações e veio se sentar ao meu lado como se absolutamente nada tivesse ocorrido. Depois, sussurrou empolgada que devíamos ir.
— Traí sua confiança, minha jovem — murmurei de imediato.
— Não seja bobo — retrucou ela. — Você fez exatamente o que eu queria que fizesse. Você acha que eu queria ser humilhada? Claro que não!
— Você está distorcendo o significado de tudo — protestei. Ela estendeu a mão para minha nuca, segurou minha cabeça com a firmeza que lhe foi possível e me deu um beijo.
— Vamos — disse ela, como se estivesse falando com uma criança. — Estamos perdendo tempo. Ande.
14
NO JIPE , CONSEGUIMOS SEGUIR UMA HORA ANTES QUE A ESTRADA desaparecesse. Daí em diante, brandindo nossos facões, passamos a seguir a trilha a pé.
Entre nós a conversa era pouca, já que toda a nossa energia estava dedicada à subida difícil e íngreme. Mas novamente fui dominado por aquela sensação de felicidade, e a visão do corpo esguio e forte de Merrick ali acima, adiante de mim, era um prazer constante e cheio de culpa.
A selva agora parecia impenetrável, independentemente da altitude, e mais uma vez vieram as nuvens com sua maravilhosa delicadeza e umidade.
Eu estava alerta o tempo todo para ruínas de qualquer espécie; e nós de fato as vimos, dos dois lados da trilha. Mas, se eram templos, pirâmides ou sei lá o que, eu não estava destinado a saber. Merrick as ignorava direto e insistia que continuássemos obstinados a seguir em frente.
O calor atravessava minha roupa. Meu braço direito doía com o peso do facão. Os insetos eram um tormento insuportável, mas eu não queria estar em nenhum outro lugar naquela hora por nada neste mundo.
Inesperadamente, Merrick parou e fez um gesto para que me aproximasse.
Tínhamos chegado a uma espécie de clareira, ou ao que restava de uma clareira, diria eu. E vi taperas de barro onde no passado houvera casas; e um ou dois abrigos que ainda mantinham seus velhos tetos de sapê.
— O povoado desapareceu — disse Merrick enquanto examinava a destruição.
Lembrei-me da menção de Matthew Kemp à Aldeia Um e à Aldeia Dois no seu mapa e nas cartas de anos atrás.
Ela permaneceu um bom tempo parada com os olhos fixos nos restos do lugar, e então falou em tom de segredo.
— Você está sentindo alguma coisa?
Eu não tinha sentido nada até ela me fazer a pergunta; mas bastou que eu a ouvisse para me dar conta de algo turbulento em termos espirituais no ar. Resolvi aplicar todos os meus sentidos àquilo. Era algo muito forte. Não posso dizer que tenha sentido personalidades ou uma atitude. Senti, sim, uma comoção. Por um instante, senti ameaça, e depois mais nada.
— O que você calcula que seja? — perguntei-lhe. Sua própria imobilidade me deixava perturbado.
— Não se trata dos espíritos deste povoado — respondeu ela. — E posso apostar o que você quiser que o que estamos sentindo é exatamente o que fez com que os moradores se mudassem. — Ela retomou a caminhada, e eu não tive escolha a não ser ir atrás. Estava quase tão dominado pela obsessão quanto ela.
Uma vez contornadas as ruínas cobertas de mato do povoado, a trilha ressurgia.
A selva, porém, logo se adensou. Precisávamos abrir caminho com violência ainda maior, e às vezes eu sentia uma dor terrível no peito.
De repente, como se tivesse aparecido por mágica, vi o enorme volume de uma pirâmide de pedra clara que se erguia diante de nós, com os degraus cobertos por mato enfezado e trepadeiras cerradas.
Alguém em alguma época tinha feito uma limpeza ali, e grande parte das estranhas esculturas era visível, bem como o lanço de escada íngreme. Não, não era maia. Pelo menos, não na medida do que eu pudesse ver.
— Ah, deixe-me saborear essa visão — disse eu a Merrick.
Ela não me respondeu. Parecia estar tentando escutar um som importante. Eu também prestei atenção e tive novamente aquela percepção de que não estávamos sós. Algo se movimentava na atmosfera, algo fazia esforço contra nosso avanço, algo procurava com enorme determinação contrapor-se à força da gravidade e afetar meu corpo enquanto eu estava ali parado, de facão na mão.
Subitamente Merrick desviou-se para a esquerda e começou a abrir caminho a facão em torno da pirâmide para prosseguir na mesma direção que tínhamos tomado antes.
Não havia mais trilha. Não havia mais nada a não ser a mata; e eu logo percebi que mais uma pirâmide se erguia à nossa esquerda, muito mais alta que a outra à nossa direita. Estávamos numa pequena aléia diante dos dois enormes monumentos, e precisávamos avançar em meio ao entulho que atravancava o caminho, pois alguém já havia feito escavações por ali algum tempo antes.
— Ladrões — disse ela, como se estivesse lendo meu pensamento. — Saquearam as pirâmides muitas vezes.
Isso não era nada raro quando se trata de ruínas maias. E por que não deveria acontecer também a essas estranhas construções desconhecidas?
— Ah, mas olhe só o que deixaram para trás — disse eu. — Quero subir até o alto de uma dessas. Vamos escalar a menor. Quero ver se consigo chegar à plataforma no alto.
Merrick sabia tanto quanto eu que era lá no alto que um templo coberto de sapê poderia ter existido em tempos antiqüíssimos.
Quanto à idade desses monumentos, eu não tinha a menor idéia. Poderiam ter sido construídos antes do nascimento de Cristo ou mil anos depois. Fosse como fosse, pareciam-me maravilhosos e levavam à loucura minha sensação já bastante infantil de aventura. Tive vontade de sacar minha máquina fotográfica.
Enquanto isso, o tumulto espiritual continuava. Era estranhíssimo. Como se o ar estivesse sendo açoitado pelos espíritos. A sensação de ameaça era forte.
— Meu Deus, Merrick, como estão tentando nos fazer parar — murmurei. Da selva veio um coro de gritos, como que em resposta a mim. Algo se mexeu no mato baixo.
Merrick, entretanto, depois de parar por apenas alguns instantes, prosseguiu vigorosamente.
— Preciso encontrar a caverna — disse ela, numa voz monótona, categórica. — Eles não nos impediram da outra vez e não vão impedir que você e eu prossigamos agora. — E seguiu em frente, com a selva se fechando rápido demais atrás dela.
— É — exclamei. — Não se trata de uma alma; mas muitas. Elas não nos querem perto daquelas pirâmides.
— Não são as pirâmides — insistiu ela, retalhando as trepadeiras e afastando o mato baixo. — É a caverna. Elas sabem que estamos indo até a caverna.
Eu me esforçava ao máximo para acompanhar seu ritmo e para auxiliá-la, mas decididamente era ela que estava abrindo o caminho para nós.
Tínhamos percorrido alguns metros quando pareceu que a mata se adensava de um modo impossível de penetrar e a luz de repente se alterava. Percebi que havíamos chegado ao portal enegrecido de uma enorme edificação, que estendia suas paredes inclinadas para nossa direita e esquerda. Era um templo, sem dúvida. Dava para eu ver as esculturas impressionantes dos dois lados da entrada, e também acima já que a parede subia até uma grande plataforma de pedra com altos-relevos elaborados, visíveis aos escassos raios do sol desesperado.
— Meu Deus, Merrick, espere — gritei. — Deixe-me tirar uma fotografia. — Lutei para alcançar minha pequena máquina fotográfica, mas eu teria de tirar a mochila das costas, e meus braços estavam simplesmente cansados demais.
A turbulência etérea atingiu uma intensidade extrema. Senti algo semelhante ao leve toque de dedos nas pálpebras e nas bochechas. Era totalmente diferente do ataque constante do mundo dos insetos. Senti algo tocar o dorso das minhas mãos, e pareceu que eu quase soltava o facão, mas me recuperei rápido.
Quanto a Merrick, seu olhar estava fixo nas trevas do corredor ou passagem ali adiante.
— Meu Deus — murmurou ela. — Eles estão muito mais fortes do que antes. Não querem que entremos.
— E por que íamos querer entrar? — perguntei logo. — Estamos à procura de uma caverna.
— Eles sabem o que estamos fazendo — disse ela. — A caverna fica do outro lado do templo. O caminho mais simples é direto através dele.
— Deus do céu — disse eu. — Foi por aqui que você passou da outra vez?
— Foi — respondeu ela. — Os moradores do povoado se recusaram a nos acompanhar. Alguns nem chegaram até este ponto. Nós seguimos em frente, aqui por dentro.
— E se o teto dessa passagem ruir em cima de nós? — perguntei.
— Eu vou passar — respondeu ela. — O templo foi construído em pedra calcária maciça. Nada mudou e nada vai mudar.
Tirou a pequena lanterna do cinto e apontou o facho para a abertura. Pude ver o piso de pedra apesar das poucas plantas desbotadas que lutavam para cobri-lo. Consegui vislumbrar a profusão de pinturas nas paredes!
A luz da sua lanterna atingiu figuras magníficas de grandes dimensões, de pele morena e trajes dourados enfileiradas em contraste com o fundo de um azul vivo. Acima, ali onde as paredes subiam na direção do teto abobadado, vi outra procissão sobre um fundo de um matiz escuro de vermelho.
O recinto inteiro parecia ter uns quinze metros de extensão, e a luz fraca alcançou um pouco de vegetação na outra extremidade.
Mais uma vez, vieram aqueles espíritos, em enxame ao meu redor, silenciosos porém em intensa atividade, tentando de novo atingir minhas pálpebras e minhas bochechas. Vi que Merrick se retraía.
— Afastem-se de mim! — murmurou ela. — Vocês não têm nenhum poder sobre mim.
Houve uma resposta imensa. A selva à nossa volta pareceu tremer, como se uma brisa errante tivesse descoberto um jeito de descer até onde estávamos, e uma chuva de folhas caiu aos nossos pés. Mais uma vez, ouvi os gritos espectrais dos guaribas nos altos das árvores. Pareciam dar voz aos espíritos.
— Vamos, David — disse Merrick; mas quando fez menção de avançar alguma coisa invisível pareceu impedi-la, porque ela recuou meio sem equilíbrio e ergueu a mão esquerda como se quisesse se proteger. Mais uma revoada de folhas caiu sobre nós.
— Ainda não foi suficiente! — disse ela em voz alta e mergulhou na câmara abobadada, com sua luz ficando mais forte e mais cheia de tal modo que nos encontramos cercados por alguns dos murais mais coloridos que jamais vi.
Ao redor de nós, em todos os cantos, erguiam-se esplêndidas figuras em procissão, altas e magras, completas com saiotes enfeitados, brincos e exuberantes adereços de cabeça. Não pude classificar o estilo como maia ou egípcio. Não era parecido com nada que eu já tivesse estudado ou visto. As velhas fotografias de Matthew não tinham conseguido captar nem um décimo dos detalhes ou do aspecto vibrante das pinturas. Uma orla com lindos detalhes em branco e preto acompanhava o piso em todos os lados.
Continuamos em frente, com cada passo nosso ressoando nas paredes enquanto prosseguíamos, mas o ar tinha ficado intolerável de tão quente. A poeira subia pelas minhas narinas. Eu tinha a impressão do toque de dedos em todo o meu corpo. Na realidade, senti que mãos agarravam meu braço e um golpe abafado atingia meu rosto.
Estendi a mão até o ombro de Merrick, tanto para apressá-la quanto para dar-lhe apoio.
Estávamos no meio da passagem quando ela estancou e se retraiu como se estivesse recebendo um choque.
— Afastem-se de mim, vocês não conseguirão me impedir! — murmurou ela. E então, numa longa torrente em francês, invocou Mel ao Sol para que abrisse o caminho.
Avançamos apressados. Eu não tinha certeza alguma de que Mel faria qualquer esforço naquele sentido. Parecia muito mais provável que Mel fizesse o templo ruir sobre nossas cabeças.
Afinal, voltamos a sair para a selva, e eu tossi para limpar a garganta. Olhei para a construção atrás de mim. Desse lado havia menos a ser visto do que pela frente. Senti os espíritos ao redor de nós. Senti ameaças sem palavras. Senti empurrões e trancos de criaturas fracas desesperadas para impedir que eu avançasse.
Precisei do meu lenço pela milionésima vez, para limpar os insetos do rosto.
Merrick seguiu em frente sem parar.
A trilha subia íngreme. E avistei o cintilar da cachoeira antes de ouvir sua música. Chegamos a um local estreito em que a água corria funda, e Merrick atravessou para a margem direita enquanto eu ia atrás, trabalhando tanto com o facão quanto ela.
A subida pela cachoeira não foi nem um pouco difícil. Mas a atividade dos espíritos foi ficando cada vez mais forte. A toda hora Merrick resmungava maldições. Eu pedia a Oxalá que me mostrasse o caminho.
— Mel, faça com que eu chegue lá — disse Merrick.
Percebi de repente, logo abaixo de uma saliência, para a frente da qual a água se precipitava, um rosto monstruoso de boca aberta esculpido na rocha vulcânica que cercava uma óbvia caverna. Era exatamente como o malfadado Matthew descrevera. No entanto, sua máquina fotográfica já estava prejudicada pela água antes que ele pudesse fotografá-lo. E o tamanho foi como um choque para mim.
Ora, bem se pode imaginar minha satisfação por termos chegado a esse local mítico. Durante anos a fio eu tinha ouvido falar nele. Na minha cabeça, ele estava inevitavelmente associado a Merrick, e agora estávamos ali. Embora os espíritos mantivessem seu ataque, os borrifos suaves da cachoeira refrescavam minhas mãos e meu rosto.
Continuei subindo para me postar ao lado de Merrick, quando de repente os espíritos exerceram uma pressão imensa contra meu corpo, fazendo com que meu pé esquerdo resvalasse.
Embora eu não tivesse gritado, mas apenas estendido a mão em busca de apoio, Merrick voltou-se e me agarrou pelo ombro da minha jaqueta. Era só disso que eu precisava para recuperar o equilíbrio e subir a pequena distância que me restava para chegar à entrada da caverna.
— Olhe as oferendas — disse Merrick, pondo a mão esquerda sobre a minha direita.
Os espíritos redobraram seus esforços, mas eu me mantive firme, assim como Merrick, se bem que duas vezes ela afastasse algo de perto do seu rosto.
Quanto às “oferendas”, o que eu via era uma enorme cabeça de basalto. Pareceu-me semelhante à arte olmeca, mas era só isso o que eu podia dizer. Ela lembrava os murais no templo? Impossível julgar. Fosse o que fosse, eu a adorei. Era provida de capacete e inclinada para cima de tal modo que o rosto com os olhos abertos e a singular boca sorridente recebessem a chuva que infalivelmente caía ali. E, na sua base irregular, havia uma quantidade espantosa de velas, plumas e flores murchas, bem como objetos de cerâmica. De onde eu estava, dava para sentir o cheiro do incenso.
As rochas enegrecidas eram testemunho de muitos anos de velas, mas a última dessas oferendas não poderia ter sido feita mais do que dois ou três dias antes.
Senti que algo mudava no ar à nossa volta. Merrick, porém, parecia tão atormentada pelos espíritos quanto antes. Ela fez mais um gesto involuntário, como se quisesse espantar alguma coisa invisível.
— Quer dizer que nada impediu que eles viessem até aqui — disse eu, rapidamente, olhando para as oferendas. — Vou tentar uma coisa. — Enfiei a mão no bolso da jaqueta e tirei um maço de Rothmans, que estava guardando para a inevitável possibilidade de eu querer fumar.
Abri o maço às pressas, acendi um cigarro com meu isqueiro, apesar dos borrifos incessantes da cachoeira, traguei e depois pus o cigarro diante da cabeça imensa. Ao lado, deixei o maço inteiro. Em silêncio, fiz preces aos espíritos, pedindo-lhes que permitissem nosso acesso àquele lugar.
Não percebi nenhuma alteração no ataque dos espíritos. Senti que eles me empurravam com uma energia renovada, de uma forma que estava começando a me deixar desanimado, por maior que fosse minha certeza de que eles jamais conseguiriam ganhar muita força.
— Eles conhecem nossos motivos — disse Merrick, contemplando a enorme cabeça voltada para o alto e suas flores murchas. — Vamos entrar na caverna.
Usamos então nossas lanternas grandes, e de pronto caiu sobre nós o silêncio da cachoeira, acompanhado do cheiro de terra seca e cinzas.
Vi imediatamente as pinturas, ou o que me pareceram ser pinturas. Estavam bem lá dentro, e nós caminhamos a passos rápidos e com postura ereta na sua direção, ignorando os espíritos, que agora produziam um som de assobio junto aos meus ouvidos.
Para meu total assombro, vi que aqueles desenhos de cores esplêndidas nas paredes eram de fato mosaicos feitos de milhões de lascas minúsculas de pedras semipreciosas! As figuras eram muito mais simples que as dos murais do templo, o que talvez indicasse uma data mais remota.
Os espíritos tinham se acalmado.
— E maravilhoso — murmurei por precisar dizer alguma coisa. E mais uma vez tentei apanhar minha máquina, mas a dor no braço era simplesmente forte demais. — Merrick, precisamos tirar fotografias — disse-lhe eu. — Olhe, querida, escrita. Precisamos fotografá-la. Tenho certeza de que são glifos.
Ela não respondeu. Olhava fixamente para as paredes, como eu. Parecia extasiada.
Não pude discernir bem uma seqüência ou sequer atribuir qualquer atividade às figuras altas e esguias, além de constatar que pareciam estar de perfil, usar trajes longos e estar carregando objetos importantes nas mãos. Não vi vítimas ensangüentadas se debatendo. Não vi figuras óbvias de sacerdotes.
Mas, enquanto eu lutava para decifrar o esplendor intermitente e cintilante, meu pé bateu em alguma coisa oca. Olhei para baixo e vi uma quantidade de artefatos de cerâmica ricamente coloridos, reluzindo diante de nós até onde nossa vista alcançava.
— Isso aqui não é uma caverna de modo algum, não é mesmo? — disse Merrick. — Lembro-me de Matthew ter dito que se tratava de um túnel. É um túnel. Foi escavado totalmente pelo homem.
A quietude era espantosa.
Pisando com o máximo cuidado possível, ela seguiu adiante, e eu atrás dela, embora eu tivesse de me abaixar diversas vezes para afastar do caminho algumas das vasilhas menores.
— Isso aqui é um túmulo. E isso o que é. E todos esses objetos são oferendas — disse eu.
Nesse instante, senti um forte golpe na minha nuca. Rodopiei e lancei o facho da minha lanterna sobre nada. A luz da entrada feriu meus olhos.
Algo me deu um empurrão no lado esquerdo e depois no ombro direito. Eram os espíritos que voltavam a me atacar. Vi que Merrick fazia movimentos espasmódicos e se mexia para um lado, como se algo também a estivesse atingindo.
Voltei a fazer uma prece para Oxalá e ouvi Merrick proferindo suas próprias recusas a recuar.
— Foi até aqui que chegamos da última vez — disse Merrick, voltando-se para olhar para mim, com o rosto escuro acima da luz da lanterna, que teve a cortesia de direcionar para o chão. — Apanhamos tudo o que encontramos aqui. Agora, vamos em frente.
Eu estava bem junto dela, mas o ataque dos espíritos recrudesceu. Vi que ela foi empurrada para um lado. Mas logo recuperou o equilíbrio. Ouvi o ruído de cerâmica quebrando-se sob seus pés.
— Vocês nos estão irritando — disse eu aos espíritos. — Talvez não tenhamos nenhum direito de estar aqui. E talvez tenhamos!
Nesse momento, recebi um golpe pesado e silencioso na barriga, mas não foi suficiente para causar dor. De repente, senti que minha animação se acentuava muitíssimo.
— Vamos, podem fazer o que quiserem — disse eu. — Oxalá, quem está enterrado aqui? Ele ou ela quer permanecer em segredo para sempre? Por que Oncle Vervain nos mandou para este lugar?
Merrick, que estava alguns metros mais adiante, abafou um grito.
De pronto, eu a alcancei. O túnel tinha se aberto num grande compartimento circular no qual os mosaicos subiam para a abóbada baixa. Grande parte tinha caído com o passar do tempo ou com a umidade, não sei qual, mas era um aposento magnífico mesmo assim. Em torno das paredes de ambos os lados, as figuras prosseguiam, até só haver um indivíduo em pé cujas feições havia muito tempo tinham se soltado.
No piso do salão, no seu centro exato, cercado por nítidos círculos de oferendas em cerâmica, havia um belo arranjo de ornamentos num ninho de poeira.
— Olhe, a máscara, a máscara na qual ele foi sepultado — disse Merrick, com o facho iluminando uma belíssima imagem de jade verde polido, que estava na mesma posição em que havia sido posta milhares de anos antes, tendo já havia muito tempo desaparecido o corpo de quem a usara.
Nenhum de nós dois ousava dar um passo. Os artigos preciosos em torno do túmulo estavam dispostos de forma primorosa. Agora podíamos ver os enfeites das orelhas, com um brilho fraco, já que a terra solta, desfazendo-se em pó, quase os encobria, e de um lado a outro do que seria o tórax da criatura vimos um cetro longo, ricamente esculpido, que talvez ele tivesse segurado na mão.
— Veja só todos esses escombros — disse ela. — Sem dúvida ele estava envolto em tecido, cheio de amuletos e oferendas preciosas. Agora o tecido desapareceu, e só restam os objetos de pedra.
Houve um ruído alto atrás de nós. Ouvi o barulho de cerâmica quebrando. Merrick deu um gritinho como se algo a tivesse atingido.
E então, com determinação, na verdade como que arremessada, ela pulou para a frente, caiu ajoelhada e apanhou a brilhante máscara verde. Recuou veloz com ela na mão, afastando-se dos restos mortais.
Uma pedra veio voando me atingir na testa. Fui empurrado pelas costas.
— Vamos, o resto que fique para os arqueólogos — disse ela. — Já estou com o que vim buscar. É o que Oncle Vervain me mandou apanhar.
— A máscara? Quer dizer que o tempo todo você sabia que havia uma máscara neste túnel, e que era ela o que você queria?
Ela já estava seguindo na direção do ar lá fora.
Eu mal havia chegado ao seu lado quando Merrick foi empurrada para trás.
— Vou levar a máscara. Ela tem de ser minha — afirmou. Enquanto nós dois tentávamos prosseguir, alguma coisa invisível impediu nosso caminho. Estendi a mão. Consegui tocar nela. Era como um muro de energia, mudo e macio.
Merrick de repente me entregou a lanterna e segurou a máscara com as duas mãos.
Em qualquer outra ocasião da minha vida, eu teria me detido a admirá-la, pois era imensa a intensidade da expressão e a quantidade de detalhes. Embora houvesse furos para os olhos e um rasgo para a boca, todas as feições estavam muito bem delineadas, e o brilho da peça em si era lindíssimo.
O que realmente aconteceu foi que recorri a todas as minhas forças para investir contra essa energia que tentava impedir o caminho, erguendo contra ela as duas lanternas como se fossem clavas.
Merrick mais uma vez me surpreendeu com um grito abafado. Segurava a máscara diante do rosto; e, quando se voltou para olhar para mim, a peça pareceu brilhar com um aspecto vagamente horripilante à luz. Parecia estar suspensa na escuridão, pois eu mal conseguia discernir suas mãos ou sequer seu corpo.
Voltou-se então para o outro lado, ainda segurando a máscara junto ao rosto. E mais uma vez, sufocou um grito.
Nenhum movimento, nenhum som na caverna.
Tudo o que eu conseguia ouvir era a respiração de Merrick e a minha. Pareceu-me que ela começou a murmurar algo numa língua estrangeira, se bem que eu não soubesse que idioma era aquele.
— Merrick? — perguntei, baixinho. No sossego repentino e bem-vindo, o ar da caverna parecia úmido e deliciosamente fresco. — Merrick — disse eu, mais uma vez, sem conseguir despertá-la. Estava parada ali, com a máscara sobre o rosto, olhando adiante de nós, até que, com um gesto surpreendente, arrancou a peça do rosto e a entregou a mim.
— Tome, David, olhe através dela — murmurou.
Enfiei minha lanterna na presilha no cinto, devolvi a Merrick a dela e apanhei a máscara com as duas mãos. Lembro-me desses pequenos gestos porque eram tão comuns, e eu ainda não sabia o que pensava da calma ao nosso redor ou da penumbra onde nos encontrávamos.
Muito, muito ao longe, estava o verde da selva; e em toda a nossa volta e acima de nós, os mosaicos primitivos porém lindos cintilavam com seus minúsculos fragmentos de pedra.
Ergui a máscara, seguindo suas instruções. Fui dominado por uma sensação de vertigem. Dei alguns passos atrás, mas não sei o que mais fiz além disso. A máscara continuava no lugar, minhas mãos permaneciam nela, e tudo o mais havia mudado, de modo misterioso.
A caverna estava cheia de tochas acesas; ouvia-se o som de alguma cantilena baixa e repetitiva, e diante de mim na penumbra havia uma figura, tremeluzente como se não fosse totalmente sólida mas, sim, feita de seda e sujeita à ínfima corrente de ar da entrada da caverna.
Eu via sua expressão com nitidez, embora não pudesse defini-la totalmente nem dizer quais feições contribuíam no seu rosto de rapaz para transmitir que emoção, ou sequer como isso ocorria. Ele me implorava com muda eloqüência que saísse da caverna e deixasse a máscara.
— Não podemos levá-la — disse eu. Ou melhor, eu me ouvi dizer isso. A cantilena ficou mais alta. Mais sombras se aproximaram da figura trêmula porém determinada. Pareceu-me que ele estendeu os braços para mim em súplica.
— Não podemos levá-la — repeti. Seus braços eram de um moreno dourado, cobertos com belíssimos braceletes de pedra. O rosto era oval; e os olhos, escuros e perspicazes. Vi lágrimas no seu rosto.
— Não podemos levá-la — disse eu, e então senti que caía. — Temos de deixá-la aqui. Precisamos trazer de voltar os objetos que foram levados antes!
Fui tragado por uma tristeza e dor avassaladoras. Tive vontade de me deitar no chão. Era tão forte e tão certa essa emoção que eu a senti e a expressei com meu corpo inteiro.
No entanto, mal atingi o chão — pelo menos acho que foi o que fiz — e fui posto em pé com violência enquanto a máscara era arrancada de mim. Num instante, eu a sentia nos meus dedos e no meu rosto. No instante seguinte, eu não sentia nada e nada via a não ser a luz distante brincando no verde das folhas.
Desaparecida a figura; interrompida a cantilena, encerrada a dor. Merrick estava me puxando com toda a força.
— David, vamos! — disse ela. — Vamos! — Ela não admitia ser contrariada.
E eu mesmo sentia um desejo irresistível de sair da caverna com ela e de levar a máscara, de roubar aquela magia, aquela magia indescritível que me havia permitido ver os espíritos do lugar com meus próprios olhos. Com audácia, de modo deplorável, sem absolutamente nenhuma desculpa, estendi a mão, sem ficar para trás, e apanhei um punhado de brilhantes artefatos de pedra do chão fofo, enfiando-os nos bolsos enquanto seguíamos em frente.
Em questão de instantes estávamos em plena selva. Ignoramos as mãos invisíveis que nos atormentavam, as revoadas de folhas e os gritos assustados dos guaribas, como se eles tivessem se unido ao ataque. Uma bananeira esbelta caiu direto na nossa trilha, e nós passamos por cima, cortando com o facão as outras que pareciam se dobrar para nos atingir no rosto.
Conseguimos transpor o saguão do templo com uma rapidez notável. Estávamos quase correndo quando encontramos os vestígios da trilha. Os espíritos mandaram mais folhas de bananeiras na nossa direção. Caiu também uma chuva de cocos, que não nos atingiu. De vez em quando, vinham pedriscos numa pequena ventania.
À medida que prosseguíamos, porém, o ataque foi aos poucos diminuindo sua intensidade. Afinal, não restava nada além de um uivo silencioso. Eu estava enlouquecido. Sentia-me um perfeito demônio. Não me importava. Merrick tinha a máscara. A máscara que permitia que se vissem espíritos. Merrick estava com ela. Oncle Vervain não tivera força suficiente para apanhá-la, isso eu sabia. Nem Sandra Gelada, Mel, nem Matthew. Todos tinham sido escorraçados pelos espíritos.
Em silêncio, Merrick seguia em frente, agarrando a máscara junto ao corpo. Nenhum de nós dois parou, por pior que fosse o terreno aos nossos pés, por mais forte que fosse o calor, até que chegamos ao jipe.
Só então ela abriu a mochila e guardou a máscara. Passou a marcha no jipe, entrou de ré no mato, deu a volta com o carro e partiu para Santa Cruz del Flores a uma velocidade furiosa e ensurdecedora.
Permaneci calado até nos encontrarmos sozinhos na nossa barraca.
15
MERRICK JOGOU-SE NA CAMA-DE-VENTO E POR UM INSTANTE NÃO FEZ NEM disse nada. Depois, estendeu a mão até a garrafa de Flor de Caña e tomou um bom gole.
Preferi água naquele momento; e, embora a viagem de carro tivesse tido uma duração considerável, meu coração ainda batia forte. E eu sentia a desgraça da idade, ali sentado, tentando recuperar o fôlego.
Finalmente, quando comecei a dizer alguma coisa sobre o que tínhamos feito e sobre como tínhamos agido, quando abri a boca na tentativa de conferir algum tipo de perspectiva àquilo tudo, Merrick fez um gesto para que eu me calasse.
Seu rosto estava esfogueado. Estava ali sentada como se seu coração também lhe estivesse dando trabalho, mas eu sabia que não se tratava disso. Então, tomou mais um bom gole.
As bochechas pareciam estar ardendo quando ela olhou para mim, sentado na minha cama diante dela. Seu rosto, molhado, coberto de suor.
— O que você viu — perguntou ela —, quando olhou através da máscara?
— Vi todos eles! — disse eu. — Vi um homem que chorava, um sacerdote, talvez, quem sabe um rei, talvez um joão-ninguém, só que seus trajes eram belíssimos. Usava lindos braceletes. Usava túnicas longas. Ele me suplicou. Estava choroso e infeliz. Disse-me que aquilo era terrível. Disse-me que os mortos dali não tinham ido embora!
Ela se recostou, descansando o peso nos dois braços, com o peito para cima, os olhos fixos no alto da barraca.
— E você? — perguntei. — O que você viu?
Ela queria responder, mas parecia não conseguir. Voltou a inclinar-se para a frente e estendeu a mão para a mochila, com os olhos indo de um lado para o outro, numa expressão que acertadamente se chama de tresloucada.
— Viu o mesmo que eu? — perguntei-lhe.
Ela fez que sim. Abriu então a mochila e retirou a máscara com tanto cuidado que se poderia pensar que era de vidro. Só então, à fraca luz filtrada da barraca e à luz dourada da única clarabóia, percebi como as feições eram esculpidas com profundidade e esmero. Os lábios eram grossos e longos, arreganhados como num grito. O contorno dos olhos não conferia surpresa à expressão, apenas um ar de calma.
— Olhe — disse ela, enfiando os dedos por uma abertura no alto da testa e mostrando uma abertura acima de cada orelha. — Estava amarrada ao rosto dele com tiras de couro, provavelmente. Não foi apenas posta sobre os ossos.
— E o que você acha que isso quer dizer?
— Que pertencia a ele, para ver espíritos. Que era dele, e ele sabia que a magia não se destinava a qualquer um, sabia que era uma magia que poderia ser maléfica.
Ela virou a máscara e a ergueu. Estava claro que queria cobrir o rosto com ela, mas algo a impedia. Levantou-se afinal e foi até a porta da barraca. Havia ali uma costura aberta pela qual ela podia olhar lá para fora e por toda a extensão da rua de lama até a pracinha; e era isso o que parecia estar fazendo, segurando a máscara abaixo do rosto.
— Vamos, vá em frente — disse eu —, ou então me dê a máscara para que eu a use.
Hesitante, ela fez o que pretendia. Ergueu a máscara e a segurou com firmeza diante do rosto por um bom tempo, para depois afastá-la com um movimento brusco. Sentou-se exausta na cama-de-vento, como se todo aquele curto exercício de apenas alguns momentos preciosos tivessem sugado suas forças até o âmago. Novamente, suas pupilas dançavam enlouquecidas. Olhou, então, para mim e se acalmou um pouco.
— O que você viu? — perguntei. — Espíritos do lugarejo?
— Não — respondeu ela. — Vi Mel ao Sol. Vi Mel me vigiando. Eu vi Mel. Ai, meu Deus! Eu vi Mel. Você não percebe o que ela fez?
Não respondi de imediato, mas é claro que eu percebia. Deixei que ela falasse.
— Ela me trouxe aqui; me conduziu até uma máscara pela qual eu pudesse vê-la. Ela me apresentou um meio pelo qual consegue aparecer!
— Preste atenção, querida — disse eu, estendendo a mão para segurar seu pulso. — Lute contra esse espírito. Ele não tem direito algum sobre você, não mais do que qualquer outro espírito. A vida pertence aos que estão vivos,
Merrick, e devemos honrar a vida mais que a morte! Você não afogou Mel ao Sol, isso você ouviu dela mesma.
Ela não respondeu. Pôs o cotovelo no joelho e encostou a testa na mão direita. Com a esquerda segurava a máscara. Acho que estava olhando fixamente para ela, mas não pude ter certeza. Merrick começou a tremer.
Com delicadeza, tirei a máscara da sua mão. Coloquei-a com cuidado na minha cama. Lembrei-me então dos objetos que havia recolhido antes de sair da caverna. Enfiei a mão no bolso para apanhá-los. Eram quatro pequenas figuras olmecóides perfeitamente esculpidas, duas de criaturas carecas, meio gordas, as outras duas de deuses esguios, de expressão carrancuda. Senti um calafrio quando olhei para aqueles pequenos rostos. Poderia ter jurado que ouvi um coro de vozes por um instante, como se alguém tivesse aumentado o volume de alguma música amplificada. Então o silêncio investiu contra mim como se fosse palpável. Comecei a suar forte.
Essas criaturinhas, esses pequenos deuses, tinham o mesmo brilho da máscara.
— Vamos levar isso conosco — avisei. — E, no que me diga respeito, quero revisitar a caverna assim que tiver recuperado minhas forças.
Ela ergueu os olhos.
— Você não pode estar falando sério — disse ela. — Você se disporia a desafiar aqueles espíritos?
— Sim, eu os desafiaria. Não estou dizendo que levemos a máscara até a caverna para olhar através dela. Deus do Céu, nem me ocorreria uma coisa dessas. Mas não posso deixar para trás um mistério inexplorado dessa natureza. Tenho de voltar lá. O que quero fazer é examinar o que está lá com o máximo cuidado possível. Depois, creio que devemos entrar em contato com uma das universidades que atuam aqui e passar a informação exata sobre o que encontramos. Entenda bem, não pretendo falar da máscara. Pelo menos, não enquanto não tivermos certeza de que nosso direito a ela é incontestável.
Era uma questão confusa, essa história de universidades, escavações e direitos a objetos da Antigüidade. E eu não estava nem um pouco disposto a tratar disso naquele momento. Sentia um calor em todo o corpo. Meu estômago estava mareado, o que quase nunca me acontece.
— Preciso ver aquela caverna de novo. Deus é testemunha. Agora sei por que você voltou aqui. Entendo tudo. Quero voltar lá pelo menos uma vez, talvez duas, como vou saber... — Tive de parar de falar. A onda de enjôo passou.
Merrick olhava para mim como se estivesse numa aflição grave e secreta.
Parecia estar passando tão mal quanto eu. Com os dedos das duas mãos, empurrou a cabeleira, afastando-a da testa bem-feita. Os olhos verdes pareciam febris.
— Agora, você sabe — disse eu — que temos quatro homens conosco que podem tirar essa máscara do país e levá-la para Nova Orleans sem nenhuma dificuldade. Você quer que eu a entregue a eles agora?
— Não, por enquanto não faça nada — disse ela, levantando-se. — Vou à igreja.
— Fazer o quê? — perguntei-lhe.
— Rezar, David! — disse ela, impaciente, com a expressão irritada. — Você não acredita mesmo em nada? Vou à igreja rezar. — E seguiu caminho.
Cerca de vinte minutos depois que ela saiu, eu finalmente me servi um copo de rum. Estava sentindo muita sede. Era estranho estar ao mesmo tempo enjoado e com sede. Além do ruído de algumas galinhas ou perus, francamente eu não sabia discernir, o lugarejo estava em silêncio, e ninguém veio perturbar minha solidão na barraca.
Olhei fixamente para a máscara e percebi que estava com uma terrível dor de cabeça, que na realidade algo começara a latejar no fundo dos meus olhos. Não me preocupei, porque as dores de cabeça nunca foram um tormento para mim, até que me dei conta de que a máscara estava se tornando um borrão aos meus olhos.
Procurei ajustar o foco. Não consegui. A verdade é que eu sentia que estava todo quente; e todas as picadas de inseto que tinha sofrido começaram a se manifestar.
— Tolice — disse eu, em voz alta —, tomei tudo quanto foi vacina oferecida pela medicina moderna, até mesmo algumas que nem eram conhecidas quando Matthew pegou aquela febre. — Percebi então que estava falando sozinho. Servi mais uma boa dose de rum e a bebi de uma vez. Eu tinha a impressão bastante vaga de que me sentiria muito melhor se a barraca não estivesse tão apinhada de gente, e desejava que todos fossem embora.
E em seguida compreendi que não podia haver gente na barraca comigo. Ninguém tinha entrado. Procurei recuperar uma lembrança coerente dos últimos momentos, mas alguma coisa tinha sido perdida. Virei-me e olhei de novo para a máscara. Bebi um pouco do rum, que àquela altura tinha um sabor maravilhoso, e larguei o copo para apanhar a máscara.
Parecia tão leve quanto preciosa, e eu a segurei no alto para que a luz brilhasse através dela. Por um instante, pareceu positivamente viva. Uma voz sussurrante, bastante agitada, estava me falando sobre todo tipo de pequenas coisas com as quais eu deveria me preocupar, e alguém disse:
— Outros virão quando milhares de anos tiverem decorrido. — Só que as palavras que eu ouvia não estavam num idioma que eu compreendesse.
— Mas eu o estou entendendo — disse eu em voz alta, e então a voz sussurrante disse algo que pareceu ser uma maldição e uma predição ameaçadora. Estava relacionada ao fato de que é melhor não investigar certas coisas.
A barraca parecia estar em movimento. Ou melhor, o local onde eu estava parecia estar em movimento. Encostei a máscara na minha pele e me senti mais firme. Mas o mundo inteiro estava mudado. Eu estava mudado.