Merrick
O incrível machado de obsidiana que eu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Estava em pé num alto pavilhão, e podia ver as belas montanhas em toda a minha volta, com as partes mais baixas das encostas cobertas pela mata verde e fechada; e o próprio céu era de um azul intenso.
Olhei para baixo e vi uma massa de milhares de pessoas em torno do pavilhão. Mais além, no alto das outras pirâmides havia enormes multidões. As pessoas estavam murmurando, gritando e entoando cantilenas. E, no meu pavilhão, havia um pequeno grupo, todos eles fiéis ao meu lado.
— Você chamará a chuva — disse a voz no meu ouvido — e ela virá. Mas um dia virá a neve no lugar da chuva, e nesse dia você morrerá.
— Não, isso não vai acontecer jamais! — disse eu. Percebi que estava ficando zonzo. Estava a ponto de cair do pavilhão. Voltei-me e estendi as mãos para meus companheiros. — Vocês são sacerdotes? Digam-me o que são — perguntei. — Eu sou David e exijo que me digam. Eu não sou a pessoa que vocês pensam que sou!
Dei-me conta de que estava numa caverna. Quase tinha caído no chão fofo e grosso. Merrick gritava comigo para que eu me levantasse. Diante de mim, estava o espírito que chorava.
— O Espírito Solitário, quantas vezes você me invocou? — disse a criatura alta, com tristeza. — Quantas vezes, você, o mago, procurou alcançar a alma solitária? Você não tem nenhum direito de chamar os que estão entre a vida e a morte. Deixe a máscara aqui. A máscara é um erro, você não entende o que estou lhe dizendo?!
Merrick gritou meu nome. Senti que arrancavam a máscara do meu rosto. Olhei para o alto. Estava deitado na minha cama-de-vento, e ela estava em pé ali acima.
— Meu Deus, como estou mai — disse-lhe eu. — Estou muito mal. Vá buscar o xamã. Não, não temos tempo para o xamã. Precisamos seguir para o aeroporto agora.
— Calma, calma, sossegue — disse Merrick. Mas seu rosto estava anuviado de medo. Eu ouvia seus pensamentos com nitidez. Está acontecendo tudo de novo, igual como aconteceu com Matthew. Está acontecendo com David. Eu mesma tenho alguma imunidade profunda, mas está acontecendo com David.
Fiquei muito calmo no meu íntimo. Vou combater esse mal, resolvi, e deixei a cabeça rolar para um lado do travesseiro, na esperança de que o travesseiro refrescasse meu rosto. Embora eu ouvisse Merrick gritar para que os homens viessem à barraca imediatamente, vi outra pessoa sentada na sua cama.
Era um homem alto e esguio de pele morena e rosto estreito, com os braços cobertos de braceletes de jade. A testa era alta, e os cabelos negros vinham até os ombros. Olhava para mim com tranqüilidade. Vi o vermelho escuro da sua longa túnica e a luz que refulgiu na unha do seu pé.
— É você de novo — disse eu. — Você acha que vai me matar. Acha que pode se estender desde seu túmulo antigo para me tirar a vida?
— Não quero matá-lo — murmurou ele, com pouca ou nenhuma mudança na expressão plácida. — Devolva a máscara para seu bem e para o dela.
— Não — disse eu. — Você precisa compreender que não posso fazer isso, não posso abandonar um mistério dessa natureza, não posso simplesmente lhe dar as costas. Você teve sua época, e agora é a minha vez. E vou levar a máscara comigo. Na realidade, é ela quem a está levando. Mas mesmo que ela desistisse, eu a levaria por minha conta.
Continuei a argumentar com ele, num tom baixo e racional, pedindo-lhe compreensão.
— A vida pertence aos que estão vivos — disse eu. Mas àquela altura a barraca estava de fato lotada, com os homens que tinham vindo nos acompanhar. Alguém me pedia que mantivesse um termômetro debaixo da língua. E Merrick dizia: “Não consigo sentir sua pulsação.”
Da viagem até a capital da Guatemala, não me lembro de nada. Quanto ao hospital, poderia ter sido uma instituição médica em qualquer lugar do mundo.
Repetidas vezes, virei a cabeça e me descobri sozinho com o homem de pele de bronze, rosto ova! e braceletes de jade, embora na maioria das vezes ele não falasse. Quando eu tentava falar, outros respondiam, e o homem simplesmente se dissolvia à medida que outro mundo parecia suplantar aquele que eu tinha deixado para trás.
Quando recuperava a plena consciência, o que não era freqüente, eu parecia convicto de que as pessoas na Guatemala teriam maior conhecimento da enfermidade tropical da qual eu estava acometido. Eu não sentia medo. Pela expressão do meu visitante bronzeado, eu sabia que não ia morrer. E não me lembro de modo algum de ter sido transferido para um hospital em Nova Orleans.
O visitante nunca mais apareceu após o retorno a Nova Orleans.
Àquela altura eu já estava me recuperando. E, quando comecei a ter noção da passagem dos dias, minha febre já estava bem baixa e a “toxina” havia desaparecido totalmente. Logo eu não precisava mais de nutrição intravenosa. Minhas forças estavam voltando.
Meu caso não tinha nada de excepcional. Estava relacionado a uma espécie de anfíbio que eu devo ter encontrado na vegetação baixa. Um simples toque nessa criatura pode ser fatal. Meu contato deve ter sido indireto.
Merrick e os outros não foram atingidos, o que logo me informaram e que me deixou bastante aliviado, se bem que no meu estado de confusão tive de confessar que não havia pensado neles como deveria.
Merrick passava muito tempo comigo, mas Aaron quase sempre estava lá também. Assim que eu começava a dirigir uma questão importante a Merrick, uma enfermeira ou um médico entrava no quarto. Em outras ocasiões, eu me sentia confuso quanto à ordem dos acontecimentos e não queria revelar essa confusão. E ocasionalmente, muito ocasionalmente, eu acordava no meio da noite, convencido nos meus sonhos de que estava de volta na selva.
Afinal, embora eu ainda estivesse tecnicamente doente, fui levado para Oak Haven e instalado no quarto da frente, do lado esquerdo, no andar superior.
Esse é um dos quartos mais graciosos e adoráveis na casa; e, de roupão e chinelos, antes do anoitecer daquele dia eu já estava saindo para a varanda da frente. Era inverno, mas o verde era fantástico ao meu redor, e a brisa que chegava do rio era bem-vinda.
Afinal, depois de dois dias de “papo furado”, que ameaçava acabar me enlouquecendo, Merrick veio sozinha ao meu quarto. Usava camisola e roupão, e parecia exausta. A bela cabeleira castanha estava presa para trás das têmporas por dois pentes de âmbar. Percebi o alívio no seu rosto quando olhou para mim.
Eu estava na cama, sustentado por travesseiros, com um livro sobre os maias aberto no colo.
— Achei que você fosse morrer — disse ela, sem rodeios. — Rezei por você de um jeito que nunca rezei antes.
— Você acha que Deus ouviu suas orações? — perguntei. E então dei-me conta de que ela não tinha dito nada sobre rezar para Deus. — Diga-me, eu corri perigo de verdade?
Ela pareceu horrorizada pela pergunta. Calou-se então como se estivesse refletindo sobre o que poderia dizer. Eu já tinha parte da minha resposta, apenas pela sua reação à pergunta, por isso esperei paciente até ela se dispor a falar.
— Houve horas na Guatemala — disse ela — em que me disseram que não era provável que você agüentasse muito mais. Eu os mandava embora, desde que me obedecessem, e punha a máscara no rosto. Conseguia ver seu espírito logo acima do corpo lutando para subir e se livrar do corpo. Eu via o espírito estendido ao longo de você, seu duplo, em ascensão, e eu fazia força com a mão para empurrá-lo de volta para o lugar.
Senti por ela um amor terrível, avassalador.
— Graças a Deus que você fez isso — disse eu. Ela repetiu minhas palavras do lugarejo na selva.
— A vida pertence a quem está vivo.
— Você se lembra de eu ter dito isso? — perguntei-lhe, ou melhor expressei-lhe minha gratidão.
— Isso você disse muitas vezes — respondeu ela. — Você achava que estava falando com alguém, aquela pessoa que nós dois vimos na boca da caverna antes de conseguir fugir. Achava que estava debatendo com ele. E então, um dia de manhã, muito cedo, quando acordei na cadeira e descobri que você estava consciente, você me disse que tinha vencido.
— O que nós vamos fazer com a máscara? — perguntei. — Eu me vejo tornando-me fascinado por ela. Vejo-me testando-a em outras pessoas, mas em segredo. Vejo-me transformado em seu escravo doentio.
— Não vamos deixar que isso aconteça — disse ela. — Além do mais, os outros não são afetados da mesma forma.
— Como você sabe? — perguntei.
— Os homens na barraca, quando você estava piorando cada vez mais, eles a apanharam. Achavam, é claro, que se tratava de um objeto raro. Um deles imaginou que o tivéssemos comprado de alguém do lugarejo. Ele foi o primeiro a olhar através dela. Não viu nada. Depois, mais um dos homens olhou também. E assim por diante...
— E aqui em Nova Orleans?
— Aaron não viu nada através da máscara — disse ela. E então com um certo tom de tristeza na voz, acrescentou. — Não contei a ele tudo o que aconteceu. Cabe a você contar, se quiser.
— E você? — insisti. — O que você vê quando olha pela máscara agora? Ela abanou a cabeça. Afastou um pouco o olhar, mordendo o lábio inferior em desespero, e olhou de novo para mim.
— Vejo Mel quando olho pela máscara. Quase sempre. Vejo Mel ao Sol, e só. Vejo-a nos carvalhos perto da casa matriz. Vejo-a no jardim. Vejo-a sempre que olho através da máscara. O mundo continua como é ao redor dela. Mas ela sempre está presente. — Deixou passar um bom tempo e então confessou.
— Acredito que foi tudo obra de Mel. Mel me instigou com pesadelos. Oncle Vervain nunca esteve lá de verdade. Era sempre Mel ao Sol, com sua voracidade pela vida, e como eu poderia culpá-la? Ela nos mandou voltar lá para apanhar a máscara a fim de que ela pudesse aparecer. Jurei que não vou permitir isso. Quer dizer, não vou permitir que ela se fortaleça cada vez mais por meu intermédio. Recuso-me a ser usada e destruída por ela. É como você disse. A vida pertence aos que estão vivos.
— Não adiantaria conversar com ela? Não adiantaria nada dizer-lhe que está morta?
— Ela sabe — disse Merrick, com tristeza. — Mel é um espírito poderoso e cheio de artimanhas. Se você, na qualidade de superior geral, me disser que quer tentar um exorcismo, que deseja que eu me comunique com ela, eu o farei; mas, sozinha, eu nunca, jamais, cederei a ela. Mel é esperta demais. Forte demais.
— Nunca vou lhe pedir para fazer algo semelhante — respondi rapidamente. — Venha, sente-se aqui ao meu lado. Deixe-me abraçá-la. Estou fraco demais para lhe fazer mal.
Agora que reexamino essas histórias, não sei ao certo por que não contei a Merrick tudo sobre o espírito de rosto oval e sobre como ele continuou a aparecer para mim durante toda a minha enfermidade; especialmente quando eu estava perto da morte. Talvez tivéssemos trocado confidências sobre minhas visões quando eu estava febril. Só sei que não conversamos sobre elas em detalhe quando avaliamos todo o acontecido.
Quanto à minha reação pessoal ao espírito, eu sentia medo dele. Tinha roubado um lugar que lhe era precioso. Tinha agido com ferocidade e egoísmo. E embora a doença tivesse extinguido grande parte do meu desejo de explorar o mistério da caverna, eu temia a volta do espírito.
Por sinal, acabei vendo esse espírito mais uma vez.
Foi muitos anos mais tarde. Naquela noite em Barbados em que Lestat veio me ver e decidiu me transformar em vampiro contra minha vontade.
Como vocês bem sabem, eu não era mais o idoso David. Isso aconteceu após nosso terrível entrevero com o Ladrão de Corpos. Eu me sentia invencível no meu novo corpo jovem, e não tinha pensado em pedir a vida eterna a Lestat. Quando ficou claro que ele pretendia me forçar, lutei com todas as minhas forças.
Em algum ponto nesse meu vão esforço para me proteger do sangue vampiresco, invoquei Deus, os anjos, qualquer um que me pudesse ajudar. Invoquei meu orixá, Oxalá, no velho idioma do candomblé em português.
Não sei se minhas preces foram ouvidas pelo meu orixá, mas o quarto de repente foi invadido por pequenos espíritos, nenhum dos quais poderia assustar ou impedir Lestat de modo algum. E, enquanto ele sugava meu sangue até a morte, foi o espírito da caverna que vislumbrei no instante em que meus olhos se fechavam.
Quando eu estava perdendo a batalha pela vida, para não falar no direito de ser mortal, pareceu-me que vi o espírito da caverna parado perto de mim, com os braços estendidos, e vi dor na sua expressão.
A figura tremia, mas estava plenamente realizada. Vi os braceletes nos seus braços. Vi sua longa túnica vermelha. Vi as lágrimas no seu rosto.
Foi apenas um instante. O mundo dos objetos sólidos e das coisas do espírito bruxuleou e se apagou.
Caí num estupor. Não me lembro de mais nada até o momento em que o sangue sobrenatural de Lestat inundou minha boca. Àquela altura, eu via apenas Lestat e soube que minha alma estava entrando em ainda mais uma aventura, uma aventura que me levaria muito além dos meus sonhos mais espantosos.
Nunca mais vi o espírito da caverna.
Deixem-me, porém, terminar minha história sobre Merrick. Não resta muito mais a dizer.
Após uma semana de convalescença na casa matriz de Nova Orleans, vesti meu costumeiro terno de tweed e desci para o café da manhã, com os outros membros ali reunidos.
Mais tarde, Merrick e eu caminhamos no jardim, que estava repleto de camélias lindas, exuberantes, com sua folhagem escura, que se dão muito bem no inverno, mesmo com alguma geada leve. Vi botões cor-de-rosa, vermelhos e brancos, dos quais nunca me esqueci. Cresciam por toda parte gigantescos pés de taioba e orquídeas com suas flores roxas. Como a Louisiana consegue ser bela no inverno. Como é exuberante, vigorosa e remota.
— Guardei a máscara na caixa-forte, numa caixa lacrada, com meu nome — disse-me Merrick. — Sugiro que a deixemos lá.
— Sem sombra de dúvida — respondi. — Mas você precisa me prometer que, se algum dia mudar de idéia acerca da máscara, irá me chamar antes de tomar a menor providência.
— Não quero mais ver Mel! — disse ela, baixinho. — Já lhe disse. Ela quer me usar, e isso não vou permitir. Eu estava com dez anos de idade quando ela foi assassinada. Estou cansada, muito cansada de chorar por Mel. Você não precisa nunca se preocupar. Não vou voltar a pôr as mãos na máscara se tiver escolha, pode acreditar em mim.
Ao que eu soubesse, Merrick tinha sido fiel ao seu voto.
Depois de terminar uma carta detalhada sobre nossa expedição, para uma universidade da nossa escolha, lacramos de modo permanente os registros e a máscara assim como os ídolos, o perfurador que Merrick tinha usado na magia, todos os documentos originais de Matthew e o que restava do mapa de Oncle Vervain. Tudo foi mantido guardado em Oak Haven, com acesso permitido somente a Merrick ou a mim.
Na primavera, recebi um telefonema dos Estados Unidos, de Aaron, com a notícia de que investigadores na região de Lafayette, Louisiana, tinham encontrado os destroços do carro de Sandra Gelada.
Aparentemente Merrick os teria levado a uma parte do pântano onde o veículo fora submerso anos antes. Dos cadáveres restava o suficiente para garantir que duas mulheres estavam no automóvel no momento em que afundou. Os ossos do crânio das duas revelaram fraturas graves e potencialmente fatais. Mas ninguém conseguiu determinar se qualquer uma das vítimas tinha sobrevivido aos golpes tempo suficiente para morrer afogada.
Sandra Gelada foi identificada pelos fragmentos de uma bolsa e os vários objetos no seu interior, especialmente um relógio de bolso de ouro numa bolsinha de couro. Merrick reconhecera o relógio de bolso de imediato, e a inscrição foi a comprovação.
— Para meu querido filho, Vervain, do seu pai, Alexias André Mayfair, 1910.
Quanto a Mel ao Sol, os ossos que restavam comprovavam a identificação de uma menina de dezesseis anos. Não se podia descobrir mais nada.
Arrumei a mala imediatamente. Pelo telefone, disse a Merrick que estava a caminho.
— Não venha, David — disse ela, com calma. — Está acabado. As duas foram enterradas no jazigo da família no cemitério de St. Louis. Não há mais nada a fazer. Estou voltando ao Cairo para trabalhar, assim que você me der permissão.
— Minha querida, você pode ir logo. Mas sem dúvida deve fazer uma parada em Londres.
— Eu não pensaria em seguir em frente sem vê-lo — disse ela. E estava a ponto de desligar quando eu a interrompi.
— Merrick, o relógio de ouro agora é seu. Limpe-o. Conserte-o. Fique com ele. Ninguém pode negá-lo a você agora.
Houve um silêncio inquietante na outra ponta da linha.
— Já lhe contei, David, que Oncle Vervain sempre dizia que eu não precisava dele — respondeu ela. — Dizia que ele batia para Sandra Gelada e Mel. Não para mim.
Considerei essas palavras um pouco assustadoras.
— Honre a memória delas, Merrick, e honre seus desejos — insisti. — Mas a vida e seus tesouros pertencem aos que estão vivos.
Uma semana depois, almoçamos juntos. Ela estava viçosa e convidativa como sempre, com o cabelo castanho puxado para trás na fivela de couro que aprendi a adorar.
— Não usei a máscara para encontrar aqueles corpos — explicou de pronto. — Quero que você saiba disso. — E prosseguiu. — Fui até Lafayette e segui confiando no meu instinto e nas minhas preces. Dragamos diversas áreas até termos sorte. Ou talvez se possa dizer que Grande Nananne tenha me ajudado a encontrar os corpos. Grande Nananne sabia o quanto eu queria encontrá-los. Quanto a Mel, eu ainda a sinto perto de mim. Às vezes fico tão triste por ela, às vezes fraquejo...
— Não, você está falando de um espírito — protestei —, e um espírito não é necessariamente a pessoa que se conheceu ou que se amou.
Daí em diante, Merrick não falou de nada além do seu trabalho no Egito.
Estava feliz por estar voltando para lá. Tinham ocorrido algumas descobertas no deserto, resultantes de fotografias aéreas, e Merrick tinha uma reunião marcada que poderia levá-la a ver um túmulo novo, não documentado até então.
Era maravilhoso vê-la tão bem. Enquanto eu pagava a conta, ela tirou o relógio de bolso de ouro de Oncle Vervain.
— Quase me esqueci disso — disse ela. Estava perfeitamente polido e abriu ao toque do seu dedo, com um estalido audível. — É claro que não pode ser consertado — explicou, segurando-o com carinho. — Mas gosto de tê-lo comigo. Está vendo? Os ponteiros estão parados em dez para as oito.
— Você acha que isso tem alguma relação? — perguntei, hesitante. — Quer dizer, alguma relação com a hora da morte delas?
— Acho que não — respondeu ela, com um leve dar de ombros. — Acho que Sandra Gelada nunca se lembrava de lhe dar corda. Acho que o levava na bolsa por motivos sentimentais. É incrível que não o tenha posto no penhor. Outras coisas ela penhorou. — Merrick devolveu o relógio à bolsa e me deu um sorriso tranqüilizador.
Acompanhei-a no longo percurso até o aeroporto e fui até o avião com ela.
Tudo estava calmo até os últimos instantes. Éramos dois seres humanos civilizados, que se despediam e pretendiam se rever em breve.
E então algo se partiu dentro de mim. Era doce, terrível e imenso demais para mim. Dei-lhe um abraço.
— Minha querida, meu amor — disse-lhe eu, sentindo-me um perfeito idiota e desejando sua juventude e sua devoção com toda a minha alma. Ela não me ofereceu nenhuma resistência, entregando-se a beijos que me arrasavam o coração.
— Nunca vai haver mais ninguém — murmurou ela no meu ouvido. Lembro-me de tê-la afastado de mim, tê-la segurado pelos ombros; e então me voltei, sem dar sequer um olhar para trás, e fui embora apressado.
O que eu estava fazendo a essa moça? Eu acabava de completar setenta anos, e ela ainda não tinha chegado aos vinte e cinco.
No entanto, no longo trajeto de volta à casa matriz, eu me dei conta de que, por mais que tentasse, não conseguiria mergulhar fundo no necessário estado de culpa.
Eu amara Merrick como um dia tinha amado Joshua, o garoto que me considerou o melhor amante do mundo. Eu a amara por meio da tentação e pela minha entrega a essa tentação, e nada jamais iria me fazer negar aquele amor a mim mesmo, a ela ou a Deus.
Durante todo o tempo restante que a conheci, Merrick permaneceu no Egito, passando por Londres sempre que voltava para casa em Nova Orleans, talvez duas vezes por ano.
Uma vez ousei perguntar-lhe direto por que não se interessava pelas tradições maias.
Acho que a pergunta a irritou. Merrick não gostava de pensar naquela selva, muito menos de falar sobre ela. Achava que eu devia ter conhecimento disso, mas me respondeu com cortesia mesmo assim.
Explicou com clareza que enfrentava obstáculos em excesso ao estudar a Mesoamérica, em especial a questão dos dialetos, dos quais nada sabia, e da experiência arqueológica no campo, da qual era totalmente carente. Seu aprendizado a levara ao Egito, onde conhecia a escrita, conhecia as lendas, conhecia a história. Era lá que pretendia permanecer.
— A magia é a mesma em toda parte — disse ela mais de uma vez. Mas isso não a impediu de dedicar a vida a ela.
Há mais uma peça que eu possuo desse quebra-cabeça chamado Merrick.
Enquanto Merrick estava trabalhando no Egito, naquele ano posterior à nossa viagem à selva, Aaron me escreveu uma estranha carta, da qual nunca me esquecerei.
Ele me contava que a placa do carro encontrado no pântano havia levado as autoridades ao vendedor de carros usados que havia assassinado suas jovens freguesas, Sandra Gelada e Mel. De fato, o homem era um marginal com uma longa ficha criminal; e não havia sido nem um pouco difícil rastreá-lo. Agressivo e de certo modo cruel por natureza, o malfeitor voltara algumas vezes ao longo dos anos ao próprio mercado de automóveis usados onde conhecera suas vítimas, e sua identidade era conhecida de uma grande quantidade de pessoas que podiam associá-lo ao carro encontrado no pântano.
Uma confissão dos crimes não tardou, muito embora fosse considerado que o homem não gozava de sanidade mental.
“As autoridades me avisaram que o camarada está apavorado”, escreveu Aaron. “Ele insiste que está sendo perseguido por um espírito, e que faria qualquer coisa para expiar essa culpa. Ele implora por drogas que o deixem inconsciente. Tenho certeza de que será internado num hospital psiquiátrico, apesar da nítida perversidade dos crimes.”
Naturalmente, Merrick foi informada de toda a história. Aaron enviou-lhe um maço de recortes de jornal, assim como todos os autos do processo que pôde obter. No entanto, para grande alívio meu, Merrick não quis voltar à Louisiana naquela ocasião.
“Não há nenhuma necessidade de eu me defrontar com essa pessoa”, escreveu-me ela. “Tenho certeza, por tudo o que Aaron me disse, de que foi feita justiça.”
Menos de duas semanas depois, Aaron me informou por carta que o assassino de Sandra Gelada e Mel tinha se suicidado.
Liguei imediatamente para Aaron.
— Você contou a Merrick? — perguntei.
Depois de um longo silêncio, Aaron falou com total calma.
— Suspeito que Merrick saiba.
— E por que cargas d'água você diz isso? — perguntei de pronto. A reticência de Aaron sempre me impacientou. Porém, dessa vez, ele não ia me deixar sem uma explicação.
— O espírito que atormentava esse homem — disse Aaron — era de uma mulher alta, de cabelo castanho e olhos verdes. Agora, isso não combina com nossos retratos de Sandra Gelada nem de Mel ao Sol, combina?
Respondi que não, que não combinava.
— Bem, agora, ele já morreu, pobre coitado — disse Aaron. — E talvez agora Merrick possa continuar seu trabalho em paz.
Foi exatamente isso o que Merrick fez: continuou seu trabalho em paz.
E agora:
Agora, depois de todos esses anos, voltei a procurá-la, pedindo-lhe que desperte a alma da Criança Morta, Claudia, para Louis e para mim.
Pedi-lhe abertamente que use sua magia, o que poderia sem dúvida significar usar a máscara, que sei que está sob sua guarda em Oak Haven, como sempre esteve, a máscara que lhe permite ver espíritos entre a vida e a morte.
Eu fiz isso. Eu, que sei o que ela sofreu e sei que pessoa boa e feliz ela poderia ser, e é.
16
FALTAVA UMA HORA PARA O AMANHECER QUANDO TERMINEI MEU RELATO .
Louis tinha escutado todo aquele tempo em silêncio, sem nunca levantar uma pergunta, sem jamais criar a menor distração, mas apenas absorvendo minhas palavras.
Por respeito a mim, ele permaneceu calado, mas eu conseguia ver uma enxurrada de emoções no seu rosto. Os olhos verde-escuros faziam com que eu pensasse nos de Merrick; e por um instante senti tamanho desejo por ela, tamanho horror pelo que eu tinha feito, que não consegui falar.
Finalmente Louis explicou as próprias percepções e sensações que me estavam dominando enquanto eu pensava em tudo o que dissera.
— Nunca me dei conta de como você amava essa mulher — disse ele. — Nunca percebi como você é diferente de mim.
— Eu a amo, sim, e eu mesmo talvez não percebesse o quanto até lhe contar a história. Eu me fiz enxergar. Eu me fiz lembrar. Fiz-me vivenciar novamente minha união com ela. Mas, quando você diz que você e eu somos diferentes, precisa esclarecer o que quer dizer com isso.
— Você é sábio — disse ele —, sábio de uma forma que somente um ser humano idoso pode ser. Você viveu a velhice de um modo que nenhum outro de nós jamais conheceu. Nem mesmo a grande mãe, Maharet, conheceu a fraqueza antes de se tornar vampiresa séculos atrás. Sem dúvida, Lestat jamais captou seu sentido, apesar de todos os ferimentos sofridos. E eu? Eu sou jovem demais há tempo demais.
— Não se condene por isso. Você acha que os seres humanos foram criados para conhecer a amargura e a solidão que conheci nos meus últimos anos como mortal? Creio que não. Como todas as criaturas, nós fomos feitos para viver até nossa plenitude. Todo o resto é uma catástrofe espiritual e física. Disso estou convencido.
— Não posso concordar com você — disse ele, em tom humilde. — Que tribo na terra não teve seus anciãos? Quanto de nossa arte e de nosso conhecimento vem daqueles que viveram até uma idade avançada? Quando diz esse tipo de coisa, você me lembra Lestat falando do seu Jardim Selvagem. O mundo nunca me pareceu um lugar irremediavelmente selvagem.
Dei um sorriso.
— Você acredita em tantas coisas — disse eu. — Basta pressioná-lo para descobri-las. E no entanto você nega o valor de tudo o que aprendeu, com essa sua constante melancolia. Você nega, sabia?
Ele fez que sim.
— Não consigo ver sentido nas coisas, David.
— Talvez não nos caiba ver o sentido, a nenhum de nós, quer muito jovens, quer velhos.
— É possível que sim — disse ele. — Mas o que é importantíssimo agora é que nós dois façamos um voto solene. Não vamos ferir essa mulher singular e cheia de energia vital. Sua força não nos ofuscará. Vamos saciar sua curiosidade e ser justos com ela, protegendo-a, mas não lhe causaremos nenhum mal.
Concordei. Eu sabia muito bem o que ele estava querendo dizer. Ai, como eu sabia!
— Quem me dera poder dizer — murmurou ele — que retiramos nosso pedido. Quem me dera que eu pudesse agüentar viver sem a magia de Merrick. Quem me dera poder deixar este mundo sem jamais ver o espírito de Claudia.
— Não fale em deixar este mundo, por favor, não posso escutar isso — apressei-me a dizer.
— Ah, mas eu preciso falar nisso. É só nisso que penso.
— Então pense naquelas palavras que eu disse ao espírito na caverna. A vida pertence aos que estão vivos. Você está vivo.
— A que preço? — disse ele.
— Louis, nós dois somos desesperados pela vida. Recorremos à magia de Merrick em busca de consolo. Sonhamos em olhar através da máscara, nós mesmos, não é? Queremos ver algo que faça com que tudo se encaixe, não é mesmo?
— Não sei se sou tão determinado, David. — Seu rosto estava anuviado de preocupação, carregado de finas linhas nos cantos dos olhos e da boca, linhas que desapareciam sempre que estava calmo. — Não sei o que eu quero — confessou. — Ah, mas poder ver espíritos como Merrick os viu, como você os viu! Ah, se ao menos eu ouvisse o cravo etéreo que outros ouvem nesta casa! Ah, se eu pudesse falar com um espírito com a força de Mel ao Sol, o que isso significaria para mim!
— Louis, o que pode fazê-lo querer continuar? — perguntei. — O que poderia fazê-lo ver que somos testemunhas privilegiadas do que o mundo tem a oferecer de todos os lados?
Ele riu. Um riso curto, educado, porém desdenhoso.
— Uma consciência limpa, David — respondeu ele. — O que mais poderia ser?
— Então aceite o sangue que tenho para lhe dar — disse-lhe eu. — Aceite o sangue que Lestat lhe ofereceu mais de uma vez. Aceite o sangue que você recusou tantas vezes, e passe a ser forte o suficiente para viver com o “pequeno gole”, afastando de si a morte.
Surpreendi-me um pouco com a veemência com que fiz essa recomendação, porque antes dessa conversa, antes dessa longa noite de relatos, eu tinha considerado muito sábia sua decisão de recusar o sangue poderoso.
Como já afirmei nesta narrativa, ele era fraco o suficiente para que o sol o pudesse destruir com facilidade; e nisso residia um imenso consolo que Lestat e eu não compartilhávamos.
Agora, ele me contemplava com um ar de interesse. E eu não via condenação nos seus olhos.
Levantei-me e comecei a andar lentamente pela sala. Mais uma vez, olhei para o quadro colorido e confiante de Monet. Toda a minha vida de repente me pareceu próxima; toda a minha determinação era de viver.
— Não, não posso morrer por minha própria vontade — murmurei —, nem mesmo se for tão simples quanto uma exposição ao sol. Isso eu não posso fazer. Eu quero saber o que acontece! Quero saber quando e se Lestat vai acordar do seu sono em devaneio. Quero saber o que há de acontecer a Merrick! Quero saber o que há de acontecer a Armand. O fato de poder viver para sempre? Ai, como lhe dou valor! Não posso fingir ser o mortal que um dia disse não a Lestat. Não posso voltar ao passado e reivindicar a posse daquele coração sem imaginação.
Voltei-me e pareceu que a sala estava pulsando com violência ao meu redor, todas as suas cores se fundindo, como se o espírito de Monet tivesse infectado a própria trama da matéria sólida e do ar. E mais além estava a noite selvagem — o Jardim Selvagem de Lestat — e as estrelas aleatórias e incontestáveis.
Quanto a Louis, ele estava fascinado como só ele consegue se fascinar, numa entrega como os homens quase nunca se entregam, não importa a forma com a qual se apresente o espírito masculino.
— Vocês são todos tão fortes — disse ele num tom grave, triste, cheio de reverência. — Tão fortes.
— Mas vamos fazer aquele voto, meu amigo — disse eu —, com relação a Merrick. Chegará uma hora em que Merrick vai querer essa magia e vai nos repreender pelo nosso egoísmo, dizendo que imploramos pela dela ao passo que lhe recusamos a nossa.
Louis parecia estar quase a ponto de chorar.
— Não a subestime, David — disse ele, com a voz embargada. — Talvez ela, a seu próprio modo, seja tão invencível quanto você era. Talvez ela nos reserve choques, dos quais não fazemos a menor idéia.
— Foi nisso que o levei a acreditar? — perguntei. — Com tudo o que eu disse?
— Você me fez um retrato dela com detalhes profundos e duradouros, David. Você acha que ela não conhece minha aflição? Você acha que ela não a vai sentir quando nos encontrarmos? — Ele hesitou e então prosseguiu. — Ela não vai querer compartilhar da nossa existência. Por que iria, se consegue se fazer aparecer a outras pessoas, se consegue olhar através de uma máscara de jade e ver o espírito da irmã? De tudo o que você disse, cheguei à conclusão de que ela não vai se dispor de modo algum a renunciar para sempre à visão da areia egípcia ao sol do meio-dia.
Sorri. Não pude me conter. Eu achava que ele estava redondamente enganado.
— Não sei, meu amigo — disse eu, num esforço de cortesia. — Simplesmente não sei. Só sei que estou engajado nesse nosso objetivo maldito. E que tudo o que recordei deliberadamente não me ensinou a ter cautela ou a ser gentil.
Ele se levantou da poltrona, devagar, em silêncio, e foi até a porta da sala. Percebi que estava na hora de ele ir até seu caixão, e que logo eu deveria fazer o mesmo.
Acompanhei-o, e nós dois saímos da casa juntos, descendo pela escada de ferro dos fundos e atravessando o jardim úmido até o portão da frente.
Cheguei a ver o gato preto um instante no alto do muro dos fundos, mas não o mencionei, certo de que os gatos são simplesmente comuns em Nova Orleans e de que eu estava sendo um pouco bobo.
Afinal, chegou a hora de nos separarmos.
— Vou passar as próximas noites com Lestat — disse Louis, baixinho. — Quero ler para ele. Ele não reage, mas também não me impede. Você saberá onde me encontrar quando Merrick voltar.
— Ele nunca lhe diz nada? — perguntei, com relação a Lestat.
— Às vezes, fala, só um pouco. Talvez me peça Mozart, ou que lhe leia poesia antiga. Mas em geral está como você mesmo o viu, inalterado. — Parou e então olhou direto para o céu. — Quero ficar sozinho com ele algumas noites, suponho, antes que Merrick volte.
Seu tom tinha um ar de irrevocabilidade e uma tristeza que me tocavam no âmago. Ele estava se despedindo de Lestat, era isso o que estava fazendo, e eu sabia que o sono de Lestat era profundo e perturbado a tal ponto que mesmo uma mensagem tão terrível de Louis poderia chegar a não despertá-lo.
Fiquei observando Louis ir embora enquanto o céu clareava cada vez mais. Estava ouvindo o canto dos pássaros da manhã. Pensei em Merrick, e a desejei. Desejei-a apenas como um homem poderia desejá-la. E, como vampiro, quis esgotar sua alma e tê-la à disposição eternamente para minhas visitas, sempre a salvo. Eu estava de novo sozinho com ela naquele instante precioso na barraca em Santa Cruz del Flores, e senti aquele prazer efêmero ligar meu cérebro e meu corpo orgástico.
Era uma maldição trazer para a existência vampírica um excesso de lembranças mortais. O fato de ter sido velho decerto significava conhecimento e experiência sublime. E a maldição tinha uma riqueza e um esplendor que eu não poderia negar.
Ocorreu-me então, se Louis realmente acabasse com a própria vida, se chegasse a dar um fim a essa sua jornada sobrenatural, como eu poderia me justificar diante de Lestat, de Armand ou de mim mesmo?
Passou-se uma semana até eu receber uma carta de Merrick escrita à mão. Ela estava de volta à Louisiana.
Meu querido David,
Venha à minha velha casa amanhã à noite assim que puder. Eu lhe garanto que o zelador estará fora da propriedade. E eu estarei sozinha no quarto da frente.
É meu desejo conhecer Louis e ouvir dele mesmo o que ele deseja que eu faça.
Quanto àqueles objetos que um dia pertenceram a Claudia, estou com o rosário, o diário e a boneca.
Todo o resto pode ser providenciado.
Eu não cabia em mim de felicidade. Esperar até o dia seguinte seria um tormento. Fui imediatamente até St. Elizabeth's, o prédio em que Lestat passava suas horas de solidão, deitado no piso da antiga capela.
Quando entrei, Louis estava lá, sentado no mármore, ao lado de Lestat, lendo em voz baixa um velho livro de poesia inglesa.
Li a carta para Louis.
Não houve absolutamente nenhuma alteração na atitude de Lestat.
— Sei onde é a casa — disse Louis. Sua empolgação era imensa, se bem que me parecesse que ele se esforçava para ocultá-la. — Estarei lá. Imagino que devesse ter pedido sua permissão, mas fui descobrir o lugar ontem à noite.
— Perfeito — respondi. — Encontro-me com você lá amanhã ao anoitecer. Mas preste atenção, você precisa...
— Continue, diga o que tem a dizer — insistiu ele, com delicadeza.
— Você precisa se lembrar de que ela é uma mulher poderosa. Nós juramos protegê-la, mas nem por um momento imagine que ela seja fraca.
— E é assim que não paramos de falar nela — disse ele, com paciência.
— Eu o entendo. Sei o que quer dizer. Quando me propus a seguir por esse caminho, preparei-me para o desastre. E amanhã à noite, vou estar tão preparado quanto for possível.
Lestat não demonstrou o menor sinal de ter ouvido nossa conversa. Estava deitado como antes: o paletó de veludo vermelho enrugado e empoeirado; o cabelo louro, uma massa desgrenhada.
Ajoelhei-me e dei um beijo respeitoso no rosto de Lestat. Ele continuou com o olhar fixo na penumbra à sua frente. Mais uma vez tive a nítida impressão de que sua alma não estava no corpo, não da forma que acreditamos que esteja. Queria tanto lhe falar da nossa empreitada, mas a verdade é que eu não sabia ao certo se queria que ele soubesse.
Ocorreu-me com perfeita clareza que, se soubesse o que pretendíamos fazer, Lestat nos impediria. Como ele devia estar distante de nós em pensamento!
Quando estava saindo, ouvi Louis continuar a ler numa voz baixa, melodiosa e ligeiramente emocionada.
17
NA NOITE DO ENCONTRO MARCADO, O CÉU ESTAVA MUITO CLARO A NÃO SER por algumas nuvens distintas e de um branco iluminado. As estrelas estavam pequenas, mas eu conseguia vê-las, por menor que fosse o consolo que me proporcionavam. O ar em si não apresentava uma umidade tão terrível, mas fazia um calor agradável.
Louis veio encontrar-se comigo junto ao portão da entrada de veículos na Rue Royale; e, no meu nervosismo, pouco me dei conta da sua aparência além do fato de estar extraordinariamente bem-vestido.
Como mencionei antes, ele não costuma escolher muito bem seus trajes, mas ultimamente vinha demonstrando alguma melhora. E naquela noite estava claro que se esforçara ao máximo.
Repetindo, eu estava interessado demais no nosso encontro com Merrick para prestar muita atenção a esse ponto. Tendo percebido que ele não estava sedento, que na realidade parecia bastante corado e humano — uma confirmação de que já se havia alimentado —, parti com ele de imediato na direção da casa de Merrick.
Enquanto atravessávamos o velho bairro desolado e lúgubre, nenhum de nós dois pronunciou uma palavra sequer.
Muitos pensamentos se precipitavam pela minha cabeça. Meu relato da história de Merrick me deixara muito mais próximo dela do que eu me sentira na noite do nosso encontro no café na Rue St. Anne, e meu desejo de voltar a ver Merrick, em absolutamente qualquer circunstância, era mais forte do que eu me dispunha a admitir.
No entanto, a questão do recente feitiço de Merrick me atormentava. Por que ela teria mandado visões de si mesma para me deslumbrar? Queria lhe fazer essa pergunta abertamente, e tinha a impressão de que essa questão precisava ser esclarecida antes de prosseguirmos.
Quando chegamos à casa restaurada, com sua alta cerca de estacas de ferro, insisti com Louis para que tivesse a paciência de esperar um momento enquanto eu dava uma volta para examinar o lugar.
De imediato, constatei que as casinhas de cada lado da grande propriedade de Merrick estavam totalmente destruídas. E o terreno em si, como mencionei, era cercado por três lados e ao longo de parte da frente por muros muito altos de alvenaria.
Pude ver um denso agrupamento de árvores no quintal de Merrick, das quais duas eram carvalhos imensos e mais uma era uma nogueira-pecã alta e frondosa, que tentava se livrar dos teixos exuberantes apinhados de encontro aos muros. Uma luz bruxuleante subia na direção da folhagem e do emaranhado dos galhos. Eu sentia o cheiro de incenso e da cera de velas. De fato, captei muitos odores mas nenhum cheiro de um intruso, e era isso o que importava naquela hora.
Quanto ao apartamento do zelador no sobrado dos fundos, estava vazio e trancado. Isso foi muito do meu agrado, já que eu não queria lidar de modo algum com esse mortal.
No que dizia respeito a Merrick, eu sentia sua presença com facilidade, independentemente das paredes. Por isso, voltei bem rápido até Louis, que estava em pé diante do portão de ferro entre o jardim da frente e a rua.
As espirradeiras de Merrick ainda não estavam floridas, mas formavam uma imponente moita de verdor; e muitas outras flores cresciam desordenadas, em especial o hibisco africano vermelho-vivo e o malvavisco roxo com seus galhos rígidos, além dos copos-de-leite brancos, agressivos com suas folhas enceradas em formato de lança.
As magnólias das quais eu mal me lembrava tinham crescido de modo incrível na última década e agora compunham um grupo de sentinelas impressionantes junto à varanda da frente.
Louis estava parado, paciente, contemplando os vitrais das portas da frente como se sua empolgação fosse enlouquecedora. A casa estava totalmente às escuras, a não ser pela sala de visitas, a sala na qual o caixão de Grande Nananne tinha sido exposto tantos anos atrás. Eu podia detectar a luz trêmula de velas no quarto da frente, mas duvido que o olho de um mortal pudesse vê-lo através das cortinas fechadas.
Entramos logo pelo portão, fazendo farfalhar a folhagem ameaçadora, subimos a escada e tocamos a campainha. Ouvi a voz baixa de Merrick de dentro da casa.
— David, pode entrar.
Estávamos no sombrio hall de entrada. Um enorme tapete chinês de cores brilhantes cobria o assoalho encerado num vistoso esplendor moderno, e o grande lustre novo de cristal ali acima estava apagado e dava a impressão de ser feito de um monte de gelo trabalhado.
Acompanhei Louis à sala de visitas, e lá estava Merrick sentada, usando um vestido de seda branca, abotoado até a cintura, perfeitamente descontraída, numa das cadeiras de mogno de Grande Nananne.
Com sua luz fraca, um abajur de pé a iluminava de uma forma fantástica. Nossos olhos de imediato se encontraram, e eu senti uma onda de amor por ela. Queria que de algum modo ela soubesse que eu havia revisitado nossas lembranças; que exercera a prerrogativa de compartilhá-las com alguém em quem confiava totalmente; e o quanto eu a amava.
Também queria que ela soubesse o profundo desagrado que me causavam as visões que me enviara recentemente. E que, se ela estava de algum modo associada àquele detestável gato preto, isso não me divertia nem um pouco!
Acho que ela sabia tudo isso. Vi que me deu um sorriso discreto enquanto íamos entrando na sala.