Merrick

Anne Rice · Capítulo 4 de 8 · parte 4/4

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Merrick

O incrível machado de obsidiana que eu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Eu estava prestes a tocar no assunto da sua magia maléfica. Mas fui impedido.

Foi simplesmente a expressão no seu rosto no momento em que seus olhos deram com Louis quando ele entrou na área iluminada.

Embora estivesse tranqüila e esperta como sempre, ocorreu uma total alteração no seu rosto.

Ela se levantou para recebê-lo, o que me surpreendeu; e seu semblante estava sereno e exposto em perfeito espanto.

Foi então que percebi como Louis tinha se vestido com esmero, num terno bem-cortado de fina lã negra. Usava uma camisa de seda creme com um pequeno alfinete de ouro na gravata cor de rosa-velho. Até mesmo os sapatos estavam impecáveis, lustrados até brilhar; e a densa cabeleira negra e crespa estava penteada e arrumada com perfeição. Mas o ponto alto da sua aparência estava, naturalmente, nas feições marcantes e nos olhos resplandecentes.

Não preciso repetir que eles são de um verde-escuro, porque não era tanto a cor dos olhos o que tinha tanta importância. O que importava, sim, era a expressão com que fitava Merrick, o aparente assombro que o dominava, e a forma com que sua boca bem-feita se descontraía.

Ele a havia visto antes, sim, mas não estava preparado para constatar que era ao mesmo tempo tão interessante e graciosa.

E ela, com os cabelos longos escovados direto para trás para a fivela de couro, estava absolutamente sedutora no vestido de seda branca, de ombros bem-marcados, com o pequeno cinto do mesmo tecido e a saia rodada e tremeluzente.

No pescoço, por cima do tecido do vestido, usava pérolas, na realidade, o colar de três voltas que eu lhe dera tanto tempo atrás; nas orelhas, pérolas; e no anular da mão direita, também uma pérola extraordinária.

Descrevo esses detalhes porque procurava encontrar neles alguma sanidade, mas o que estava vivenciando, o que me humilhava e me deixava lívido, era que aqueles dois estivessem tão impressionados um com o outro que, naquele momento, era como se eu não estivesse ali.

Era inegável a fascinação com que ela olhava para Louis. E não havia a menor dúvida quanto ao assombro arrebatador com que ele a encarava.

— Merrick, minha querida — disse eu, baixinho —, permita-me apresentar-lhe Louis. — Mas tanto faria se eu estivesse balbuciando. Ela não ouviu sequer uma sílaba que pronunciei. Estava num êxtase mudo, e eu vi no seu rosto uma expressão provocante que até aquele momento nunca tinha visto nela a não ser quando me dirigia o olhar.

Rapidamente, num óbvio esforço de disfarçar sua reação desmedida, ela estendeu a mão para ele.

Com a relutância típica de um vampiro, Louis retribuiu seu gesto e então, para total consternação minha, curvou-se e a beijou — não na mão que segurava com tanta tenacidade, mas nos dois lados adoráveis do seu rosto.

Como era possível que eu não tivesse previsto isso? Por que eu havia imaginado que ela não o veria senão como um fenômeno inatingível? Por que eu não havia me dado conta de que estava trazendo ao seu convívio um dos seres mais sedutores que eu jamais conhecera?

Eu me sentia um idiota por não ter previsto essa reação, e também me sentia idiota por me importar tanto.

Enquanto ele se acomodava na poltrona mais próxima à dela, enquanto ela se sentava e voltava a atenção para ele, encontrei um lugar no sofá do outro lado da sala. Seus olhos nunca se desviavam dele, nem por um segundo, e então ouvi a voz de Louis, grave e harmoniosa, com seu sotaque francês e com o sentimento com que ele sempre falava.

— Você sabe por que vim procurá-la, Merrick — disse ele com tanta ternura como se estivesse lhe dizendo que a amava. — Vivo atormentado, pensando em uma criatura, uma criatura que traí, depois protegi e então perdi. Vim porque acredito que você pode trazer o espírito dessa criatura para falar comigo. Recorro a você porque acredito que por meio de você vou poder descobrir se esse espírito descansou.

Ela respondeu imediatamente.

— Mas o que é a falta de descanso para os espíritos, Louis? — perguntou ela, em tom de familiaridade. — Você acredita num purgatório, ou se trata apenas de uma treva na qual os espíritos definham, incapazes de procurar uma luz que os possa guiar?

— Não estou convencido de nada — disse Louis, em resposta. Seu rosto estava tomado de uma eloqüência veemente. — Se é que existem criaturas presas à terra, essa criatura é o vampiro. Somos unidos, de corpo e alma, irremediavelmente. Somente a morte dolorosíssima pelo fogo consegue rasgar esse vínculo. Claudia era minha cria. Era meu amor. Claudia morreu pelo fogo, pelo calor do sol. Mas Claudia já apareceu a outros. Talvez ela venha se você a chamar. É isso o que quero. Esse é meu sonho extravagante.

Merrick sucumbira a ele, sucumbira de todo. Eu sabia. Sua mente, à medida que eu conseguia ler seus pensamentos, estava devastada. Merrick estava profundamente afetada pela aparente dor de Louis. Nenhuma das suas simpatias jamais foi comedida.

— Os espíritos existem, Louis — disse ela, com um ligeiro tremor na voz —, eles existem, mas contam mentiras. Um espírito pode aparecer sob o disfarce de outro. Às vezes, alguns espíritos são gananciosos e depravados.

Foi realmente lindo o modo com que Louis franziu o cenho e levou o dorso do dedo aos lábios antes de responder. Quanto a ela, bem, eu estava furioso com ela, e não via nem o mais ínfimo defeito físico ou mental nela. Era a mulher a quem eu entregara a paixão, o orgulho e a honra tanto tempo antes.

— Eu a reconhecerei, Merrick — disse Louis. — Não posso me enganar. Se você puder invocá-la, e se ela puder vir, eu a reconhecerei. Não tenho dúvida.

— Mas, e se eu duvidar, Louis? — respondeu ela. — E se eu lhe disser que nós dois fracassamos? Você pelo menos vai querer tentar acreditar no que eu disser?

— Então, está combinado, não está? — disse eu, impulsivo. — Vamos levar a cabo o que pretendemos, certo?

— Vamos, claro que vamos — respondeu Louis, olhando para mim no outro lado da sala com bastante consideração, se bem que seus olhos grandes e cheios de curiosidade voltassem velozes para Merrick. — Permita-me pedir seu perdão, Merrick, por nós a termos perturbado em busca dos seus poderes. Nos meus momentos mais difíceis, digo a mim mesmo que você levará de nós algum conhecimento valioso, alguma experiência, que talvez nós confirmemos sua fé... em Deus. Digo a mim mesmo esse tipo de coisa porque não posso acreditar que simplesmente provocamos uma ruptura na sua vida com nossa mera presença. Espero que sim. Peço-lhe que entenda.

Ele estava usando as mesmas palavras que me ocorriam nas minhas inúmeras ruminações frenéticas. De repente, eu estava furioso com ele assim como com ela. Era detestável que ele dissesse coisas daquele tipo, e que história era aquela de que ele não conseguia ler pensamentos. Eu precisava me controlar.

Subitamente ela sorriu, um dos sorrisos mais magníficos que eu já tinha visto. A pele macia, os expressivos olhos verdes, a cabeleira comprida — todos os seus encantos colaboravam para torná-la irresistível, e eu pude ver o efeito do seu sorriso em Louis, como se ela tivesse corrido para cair nos seus braços.

— Não tenho questionamentos nem remorsos, Louis — disse ela. — Meu poder é enorme e extraordinário. Você me deu um motivo para usá-lo. Você fala de uma alma que pode estar em tormento. Na realidade, você fala de um sofrimento longo, muito longo, e sugere que talvez possamos de algum modo dar um fim ao tormento dessa alma.

A essa altura, o rosto de Louis enrubesceu muito, e ele se inclinou para a frente, voltando a apertar com força a mão de Merrick.

— Merrick, o que eu lhe posso dar em troca pelo que você pretende fazer?

Isso me alarmou. Louis não deveria ter dito essas palavras! Elas levavam direto ao dom mais poderoso e exclusivo que nós tínhamos a dar. Não, ele não deveria ter dito aquilo, mas permaneci calado, observando aquelas duas criaturas se tornarem cada vez mais fascinadas uma pela outra, observando enquanto os dois decididamente se apaixonavam.

— Vamos esperar até terminar; só então vamos falar nesse tipo de coisa — disse ela —, se é que algum dia vamos chegar a falar nisso. Na realidade, não preciso de nada em troca. Como eu disse, você está me dando uma oportunidade de usar meu poder, e isso em si já basta. Mas, ainda mais uma vez, você precisa me garantir que dará ouvidos à minha avaliação do que acontecer. Se eu achar que chamamos algo que não vem de Deus, vou dizer isso, e você precisará pelo menos tentar acreditar no que eu disser.

Ela se levantou. Com apenas um traço de um sorriso, passou direto por mim pelo vão que dava para a sala de jantar às minhas costas e pareceu apanhar algo de cima do aparador ao longo da parede mais distante.

É claro que Louis, o supra-sumo do cavalheirismo, se pôs de pé. Mais uma vez, percebi seus trajes esplêndidos; como ele era esguio e felino mesmo nos gestos mais simples; e como suas mãos imaculadas eram de uma beleza espantosa.

Ela voltou a entrar na luz diante de mim como quem entra no palco.

— Pronto, é isso aqui o que eu tenho da sua querida — disse ela. Estava segurando uma trouxinha, envolta em veludo. — Sente-se, Louis, por favor — retomou ela. — E deixe-me pôr esses objetos nas suas mãos. — Ela voltou a ocupar sua cadeira, abaixo do abajur em frente a ele, com os preciosos objetos no colo.

Ele lhe obedeceu com o fervor sem disfarces de um aluno diante de uma professora brilhante e milagrosa. Recostou-se como se fosse ceder ao mais ínfimo comando de Merrick.

Eu a via de perfil, e nada me preenchia a mente tanto quanto o mais puro, total e abjeto ciúme! Mas, amando-a como eu a amava, tive a prudência suficiente para admitir alguma autêntica preocupação também.

Quanto a Louis, era inquestionável que ele estava tão interessado em Merrick quanto nos objetos que haviam pertencido a Claudia.

— Este rosário, por que ela o possuía? — perguntou Merrick, extraindo as contas cintilantes da trouxinha. — Sem dúvida, ela não rezava.

— Não, ela gostava dele pela aparência — disse Louis, com os olhos repletos de um apelo dignificado de que Merrick compreendesse. — Creio que fui eu quem o comprou para ela. Acho que nem cheguei a lhe ensinar o que significava. O aprendizado com ela era estranho, sabe? Nós a encarávamos como uma criança, quando deveríamos ter nos dado conta, mas a verdade é que a forma externa de uma pessoa está ligada de modo muito misterioso ao seu temperamento.

— Como assim? — perguntou Merrick.

— Ora, você sabe — disse ele tímido, quase com modéstia. — Os belos sabem que têm poder; e ela, com seu encanto em miniatura, detinha um poder do qual sempre teve consciência de um modo descontraído. — Ele hesitou. Sua timidez parecia dolorosa. — Nós a mimávamos; nos orgulhávamos dela. Claudia não parecia ter mais de seis ou sete anos no máximo. — A luz no seu rosto apagou-se por um instante, como se um interruptor interno tivesse sido desligado.

Merrick estendeu a mão novamente e segurou a dele. Louis deixou que ela a segurasse. Baixou a cabeça só um pouco, e ergueu a mão que ela segurava, como se estivesse dizendo: Espere só um instante. Então, voltou a falar.

— Ela gostava do rosário. Talvez eu tenha lhe ensinado as orações. Não me lembro. Gostava às vezes de ir comigo à catedral. Gostava de ouvir a música das cerimônias vespertinas. Gostava de tudo que fosse sensual e que envolvesse a beleza. Seus entusiasmos de menina duravam muito tempo.

Merrick soltou sua mão, mas com muita relutância.

— E isso aqui? — perguntou, erguendo o pequeno diário encadernado em couro branco. — Há muito tempo encontraram isso no apartamento na Rue Royale, num esconderijo. Você nunca soube que ela escrevia nele.

— Não — disse Louis. — Eu lhe dei o diário de presente, e disso me lembro bem. Mas nunca a vi escrever nele. É uma espécie de surpresa que Claudia tenha mantido esse diário. Ela gostava muito de ler, isso posso garantir. Era grande conhecedora de poesia. Estava sempre fazendo citações dessa ou daquela estrofe com total naturalidade. Tento me lembrar dos versos que citava, dos poetas que apreciava.

Contemplou então o diário, como se fizesse alguma objeção a abri-lo ou mesmo a tocar nele. Como se ele ainda pertencesse a Claudia. Merrick recolheu o diário e ergueu a boneca.

— Não — disse Louis, categórico —, ela jamais gostou de bonecas. Sempre foram um erro nosso. Não, ela não tem importância, essa boneca. Mesmo que, se bem me recordo, ela tenha sido encontrada com o diário e o rosário. Não sei por que ela a conservou. Não sei por que a guardou. Talvez quisesse que alguém no futuro distante a encontrasse e se entristecesse por ela, ao saber que ela própria tinha sido trancafiada num corpo de boneca; talvez quisesse que algum indivíduo solitário derramasse lágrimas por ela. É, acho que deve ter sido assim.

— Rosário, boneca, diário — disse Merrick, com delicadeza. — E as anotações no diário, você sabe o que dizem?

— Somente uma, a que Jesse Reeves leu e me relatou. Lestat lhe dera a boneca de presente de aniversário, e ela a detestara. Tentara feri-lo, com zombarias; e ele respondera com aqueles versos de uma peça antiga que não consigo esquecer.

Ele inclinou a cabeça, mas não quis se entregar à tristeza, não por inteiro. Seus olhos estavam secos, apesar de toda a dor neles, quando recitou as palavras:

Cubram seu rosto; meus olhos se ofuscam; ela morreu jovem.

Estremeci com a recordação. Lestat estava condenando a si mesmo quando lhe disse aquelas palavras. Na época, ele estava se oferecendo à cólera de Claudia. Ela sabia. Era por isso que tinha registrado todo o episódio — o presente desagradável de Lestat, o enfado que ela sentia por brinquedos, a raiva pelas suas limitações e então a estrofe cuidadosamente escolhida por ele.

Merrick permitiu um curto intervalo e então, deixando a boneca pousada no colo, ofereceu novamente a Louis o diário.

— Há várias anotações — disse ela. — Duas não têm nenhuma importância, e para uma dessas vou lhe pedir que deixe usar minha magia. Mas há mais uma, bastante esclarecedora, e essa você precisa ler antes de prosseguirmos.

Mesmo assim, Louis não estendeu a mão para apanhar o diário. Olhava para ela com respeito, como antes, mas não estendeu a mão para apanhar o livrinho.

— Por que preciso ler isso aí? — perguntou a Merrick.

— Louis, pense no que você me pediu que faça. E no entanto não consegue ler as palavras que ela própria escreveu aqui?

— Isso foi há muito tempo, Merrick — disse ele. — Ela escondeu esse diário anos antes de morrer. Não é o que nós fazemos que tem a maior importância? E, apanhe uma página se for preciso. Apanhe qualquer página do diário, não faz diferença, use-a como quiser, só não me peça para ler uma palavra que seja.

— Não, você precisa ler esse trecho — disse Merrick, com extrema ternura. — Leia para mim e para David. Eu sei o que está escrito, e você precisa saber. E David está aqui para nos ajudar. Por favor, a última anotação: leia em voz alta.

Ele a encarou com firmeza, e surgiu então a leve película de lágrimas vermelhas nos seus olhos. Mas Louis deu uma sacudidela levíssima, quase imperceptível, na cabeça e apanhou o diário da mão que ela lhe estendia.

Abriu-o, olhando para baixo, sem ter a necessidade que um mortal teria de levar a página até a luz.

— Isso mesmo — disse Merrick, procurando convencê-lo. — Está vendo, esse aí não é importante. Ela só diz que vocês foram juntos ao teatro. Diz que assistiu a Macbeth, que era a peça preferida de Lestat.

Ele fez que sim, virando as pequenas páginas.

— E essa outra, essa não é significativa — prosseguiu Merrick, como se com suas palavras o estivesse guiando através do fogo. — Ela diz que adora crisântemos brancos; diz que comprou alguns de uma velha; que eles são as flores dos mortos.

Mais uma vez, ele pareceu prestes a perder totalmente o controle de si mesmo, mas conseguiu conter as lágrimas. Virou as páginas novamente.

— Essa, essa aí é a que você precisa ler — disse Merrick, e pousou a mão no seu joelho. Pude ver seus dedos esticados a abraçá-lo naquele gesto eterno. — Por favor, Louis, leia para mim.

Ele olhou para ela por um bom tempo e então para a página. Sua voz era suave como um sussurro, mas eu sabia que Merrick podia ouvi-la tanto quanto eu.

“21 de setembro de 1859

Muitas décadas se passaram desde que Louis me deu este livrinho de presente, para que eu pudesse registrar meus pensamentos íntimos. Isso eu não consegui, por ter feito apenas algumas anotações, e não sei ao certo se elas foram escritas em meu proveito.

Nesta noite, confio na pena e no papel porque sei em que direção meu ódio há de me levar. E temo por aqueles que despertaram minha ira.

É claro que estou me referindo aos meus pais malignos, meus esplêndidos pais, aqueles que me transportaram de uma mortalidade já há muito esquecida a este questionável estado de ‘felicidade’ eterna.

Eliminar Louis seria tolice, já que ele é sem dúvida o mais maleável dos dois.”

Louis fez uma pausa como se não pudesse continuar. Vi os dedos de Merrick apertarem mais seu joelho.

— Leia, por favor, eu lhe imploro — disse ela, com ternura. — Você precisa continuar.

Louis retomou a leitura, com a voz baixa como antes, e num tom neutro bastante deliberado.

“Louis fará o que eu pedir, até a própria destruição de Lestat, que planejo em detalhe. Ao passo que Lestat jamais cooperaria com meus desígnios contra Louis. Portanto, é aí que está minha lealdade, sob o disfarce de amor mesmo no meu próprio coração.

“Como somos misteriosos, humanos, vampiros, monstros, mortais, se podemos amar e odiar ao mesmo tempo, e se emoções de todas as naturezas não podem se apresentar como o que não são. Olho para Louis e o desprezo totalmente por ter-me criado, e no entanto eu o amo de verdade. Só que amo Lestat exatamente na mesma medida.

“Talvez, no foro do meu coração, eu considere Louis muito mais responsável pelo meu estado atual do que eu jamais poderia culpar meu impulsivo e simples Lestat. O fato é que um dos dois deve morrer por isso ou essa dor em mim nunca se estancará; e a imortalidade não passa de uma medida monstruosa do que hei de sofrer até que o mundo chegue à sua volta derradeira. Um deverá morrer para que o outro se torne ainda mais dependente de mim, cada vez mais meu escravo por inteiro. Depois, eu gostaria de viajar pelo mundo. Faria o que tenho vontade. Não consigo suportar nenhum dos dois, a menos que um se torne meu servo em pensamentos, palavras e obras.

“Um destino desses é simplesmente impensável com o temperamento insubmisso e irascível de Lestat. Um destino desses parece feito sob medida para meu melancólico Louis, embora a destruição de Lestat venha a abrir novos caminhos para Louis entrar no Inferno labiríntico no qual eu já vagueio a cada novo pensamento que me ocorre.

“Quando atacarei e como, não sei. Só que me dá supremo prazer observar Lestat em sua vulnerável alegria, sabendo que hei de humilhá-lo por completo ao destruí-lo, e com isso arrasarei a altiva consciência inútil do meu Louis, de tal modo que sua alma, se não seu corpo, finalmente fique do mesmo tamanho da minha.”

E ali acabava.

Dava para eu saber apenas pela desamparada expressão de dor no rosto de Louis, o jeito com o qual as sobrancelhas estremeceram por um instante, e então seu modo de se recostar na poltrona, fechar o livrinho e segurá-lo mecanicamente na mão esquerda como se estivesse de todo esquecido dele. Não procurou olhar nem para mim nem para Merrick.

— Você ainda quer se comunicar com esse espírito? — perguntou Merrick com reverência. Ela estendeu a mão para o pequeno diário, e ele o entregou sem objeção.

— Ah, quero — disse ele com um longo suspiro. — Quero mais do que qualquer outra coisa.

Eu queria tanto consolá-lo, mas não havia palavras que conseguissem tocar numa dor tão íntima.

— Não posso culpá-la pelo que expressou — voltou ele a falar, em voz alquebrada. — Tudo conosco dá errado de um modo tão trágico. — Seus olhos se dirigiram, nervosos, a Merrick. — O Dom das Trevas, imaginem chamá-lo por esse nome, quando no final é pernicioso. — Encolheu-se como se estivesse lutando com suas emoções.

— Merrick — disse ele —, de onde eles vêm, os espíritos? Conheço a opinião convencional e sei como pode ser tola. Diga-me o que pensa.

— Agora sei menos do que antes — respondeu Merrick. — Acho que, quando eu era menina, tinha muita certeza dessas coisas. Rezávamos para os que tiveram morte precoce porque acreditávamos que eles pairavam perto da terra, vingativos ou confusos, e que, portanto, podiam ser alcançados. Desde tempos imemoriais, as bruxas freqüentam cemitérios em busca desses espíritos irados, transtornados, invocando-os para descobrir o caminho até forças maiores, cujos segredos possam ser revelados. Eu acreditava nessas almas solitárias, aquelas perdidas, em sofrimento. Talvez ao meu próprio modo, eu ainda acredite nelas.

“Como David pode lhe dizer, elas parecem ansiar pelo calor e pela luz da vida; parecem ansiar até mesmo por sangue. Mas quem conhece as verdadeiras intenções de qualquer espírito? De que profundezas o profeta Samuel se ergueu na Bíblia? Devemos acreditar nas Escrituras? Que a magia da Pitonisa de Endor era forte?”

Louis estava fixado em cada palavra que ela dizia.

De repente, ele estendeu a mão e segurou a dela novamente, deixando-a enroscar os dedos no seu polegar.

— E você, Merrick, o que vê quando olha para David e para mim? Vê o espírito que nos habita, o espírito faminto que nos torna vampiros?

— É, eu o vejo, mas ele é mudo e irracional, totalmente subordinado ao cérebro e ao coração. Ele nada sabe agora, se é que algum dia soube, a não ser que quer sangue. E pelo sangue aos poucos opera seu feitiço nos tecidos de vocês, lentamente comandando cada uma das suas células a obedecer. Quanto mais vocês viverem, mais ele se fortalecerá; e agora está furioso, furioso na medida em que pode escolher alguma emoção, por vocês sugadores de sangue serem tão poucos.

Louis parecia mistificado, mas sem dúvida não era difícil de compreender.

— Os massacres, Louis, o último aqui em Nova Orleans. Eles eliminam os moleques e os de baixa linhagem. E o espírito míngua, recolhendo-se naqueles que restam.

— É — disse Merrick, com um olhar de relance na minha direção. — É exatamente por isso que sua sede agora é duas vezes mais terrível, e é por esse motivo que você não consegue mais se satisfazer com o “pequeno gole”. Há um instante você me perguntou o que eu queria de você. Vou lhe dizer o que quero que você faça. Permita-me a audácia de lhe responder agora.

Louis não disse nada. Apenas a contemplava como se nada lhe pudesse recusar. Ela prosseguiu.

— Aceite o sangue forte que David pode lhe dar — disse ela. — Aceite-o para poder existir sem matar; aceite-o para poder cessar sua busca encarniçada pelo malfeitor. Eu sei, sei que uso seu linguajar talvez com excesso de liberdade e de arrogância. O orgulho é sempre um pecado naqueles de nós que perseveram na Talamasca. Acreditamos que vimos milagres. Acreditamos que fizemos milagres. E nos esquecemos de que não sabemos nada. Nos esquecemos de que pode não haver nada a ser descoberto.

— Não, existe algo, existe mais do que alguma coisa — insistiu ele, movendo delicadamente a mão de Merrick com sua veemência. — Você e David me convenceram, muito embora essa nunca tivesse sido a intenção de nenhum dos dois. Existem coisas a descobrir. Diga-me, quando vamos poder partir para falar com o espírito de Claudia? O que mais você exige de mim antes de fazer o feitiço?

— Fazer o feitiço? — perguntou ela, em tom manso. — E, há de ser um feitiço. Pronto, tome esse diário — e o entregou a Louis —, arranque uma folha, qualquer folha que você ache mais forte ou qualquer parte à qual você esteja mais disposto a renunciar.

Ele o apanhou com a mão esquerda, sem querer soltá-la.

— Que folha você quer que eu rasgue? — insistiu ele.

— A escolha é sua. Vou queimá-la quando estiver pronta. Você nunca mais verá essas palavras específicas.

Ela o soltou, e fez um pequeno gesto para instigá-lo. Louis abriu o livro com as duas mãos. Deu mais um suspiro, como se não pudesse suportar tudo aquilo, mas então começou a ler com uma voz baixa, sem pressa.

— “E hoje à noite, quando passei pelo cemitério, criança perdida, perambulando perigosamente só, para todo o mundo ter pena de mim, comprei esses crisântemos e me demorei um pouco em meio ao cheiro das covas recentes e de seus mortos em decomposição, perguntando-me que morte a vida teria reservado para mim, se me houvesse sido permitido viver. Perguntando-me se eu poderia ter odiado como mero ser humano mais do que odeio agora. Perguntando-me se eu poderia ter amado tanto quanto amo agora.”

Cuidadosamente, apertando o livro contra a perna com a mão esquerda, ele rasgou a página com a direita, segurou-a à luz por um instante e a entregou a Merrick, com os olhos a acompanhando como se estivesse cometendo um terrível furto.

Merrick recebeu-a, respeitosa, e a colocou com cuidado ao lado da boneca no seu colo.

— Pense bem, agora — disse ela —, antes de responder. Você chegou a saber o nome da mãe de Claudia?

— Não — disse ele de pronto, e depois hesitou, mas então abanou a cabeça e confessou, baixinho, que não sabia.

— Ela nunca pronunciou o nome?

— Falava da Mãe; era uma menininha.

— Pense bem — disse ela. — Volte, volte àquelas primeiras noites com ela. Volte àquela época em que ela tagarelava como as crianças costumam tagarelar, antes que sua voz de mulher substituísse aquelas lembranças no seu coração. Volte. Qual é o nome da mãe? Preciso dele.

— Não sei esse nome — confessou ele. — Acho que ela nunca... Mas eu não prestava atenção, sabe, a mulher estava morta. Foi assim que a encontramos, viva, agarrada ao cadáver da mãe. — Dava para eu ver que ele estava derrotado. Totalmente sem saber o que fazer, ele olhou para Merrick.

Merrick fez que sim. Baixou os olhos e depois olhou novamente para ele. E sua voz tinha uma doçura especial quando ela falou.

— Existe mais alguma coisa — disse ela. — Você está retendo alguma coisa.

Mais uma vez, ele pareceu extremamente aflito.

— Como assim? — perguntou, humilhado. — O que você pode estar querendo dizer?

— Estou com a página escrita por ela — disse Merrick. — Estou com a boneca que ela guardou quando poderia tê-la destruído. Mas você está se apegando a mais uma coisa.

— Ai, mas eu não posso — disse ele, franzindo as sobrancelhas escuras. Enfiou a mão no casaco e tirou o pequeno daguerreótipo no seu estojo de guta-percha. — Não posso entregá-lo para ser destruído, não posso — murmurou.

— Você acha que depois ainda vai ter carinho por ele? — perguntou Merrick, com uma voz tranqüilizadora. — Ou acha que nosso fogo mágico vai falhar?

— Não sei — confessou Louis. — Só sei que o quero para mim. — Moveu o fecho minúsculo e abriu o pequeno estojo. Olhou para ele até parecer não conseguir mais agüentar o que via, e então fechou os olhos.

— Dê-me o retrato para meu altar — disse Merrick. — Prometo que não será destruído.

Ele não se mexeu nem respondeu. Simplesmente permitiu que ela tirasse o retrato das suas mãos. Eu a observava. Estava perplexa, a antiga imagem de um vampiro, captada para sempre, de modo tão apagado, na fragilidade do vidro e da prata.

— Ah, mas ela era linda, não era? — perguntou Louis.

— Ela era muitas coisas — disse Merrick. Fechou o estojo de guta-percha, mas não mexeu no pequeno fecho dourado. Pôs o daguerreótipo no colo, com a boneca e a página do diário; e estendeu as duas mãos para segurar a mão direita de Louis novamente.

Abriu sua palma sob a luz do abajur. Retesou-se como se estivesse abalada.

— Nunca vi uma linha da vida como essa — murmurou ela. — Ela é profunda, olhe só, e na realidade não tem fim — virou a mão de Louis para lá e para cá —, e todas as linhas menores há muito tempo desapareceram.

— Eu posso morrer — respondeu ele, com um tom cortês de desafio. — Sei que posso — afirmou entristecido. — É o que vou fazer quando tiver coragem. Meus olhos hão de fechar-se para sempre como os de qualquer mortal do meu tempo que viveu um dia.

Ela não respondeu. Baixou novamente os olhos até a palma aberta. Apalpou a mão, e eu pude ver que adorava a pele sedosa.

— Vejo três grandes amores — murmurou ela, como se precisasse da permissão de Louis para dizer aquilo em voz alta. — Três amores imensos em todo esse tempo. Lestat? Sim. Claudia. Com a máxima certeza. E quem é o outro amor? Pode me dizer?

O estado de Louis era de total desnorteamento enquanto olhava para ela, mas não teve forças para responder. A cor subiu-lhe ao rosto, e os olhos pareceram refulgir como se uma luz dentro deles tivesse aumentado sua incandescência.

Ela soltou sua mão e corou.

De modo totalmente inesperado, ele olhou para mim, justo como se de repente tivesse voltado a se lembrar de mim e como se precisasse de mim desesperadamente. Eu nunca o havia visto tão agitado ou com aparência tão cheia de vida. Ninguém que entrasse na sala teria pensado que ele pudesse ser outra coisa além de um rapaz irresistível.

— Você está a favor, meu velho amigo? — perguntou ele. — Você está pronto para que tudo comece?

Ela olhou para cima, lacrimejando muito de leve, e pareceu me discernir na penumbra para me dar um sorriso mínimo, cheio de confiança.

— Qual é sua opinião, superior geral? — perguntou ela, com a voz abafada, cheia de convicção.

— Não zombe de mim — disse eu, por me fazer bem dizê-lo. Não fiquei surpreso com o rápido lampejo de dor nos seus olhos.

— Não estou zombando de você, David. Pergunto se você está pronto.

— Estou pronto, Merrick — disse eu —, pronto como nunca estive em toda a minha vida para invocar um espírito no qual eu mal acredito, no qual não confio nem um pouco.

Ela segurou a folha com as duas mãos e a examinou, talvez lendo as palavras para si mesma, pois seus lábios se moviam.

Olhou então de novo para mim e depois para Louis.

— Uma hora. Voltem a me procurar. Estarei pronta a essa hora. Vamos nos encontrar nos fundos da casa. O velho altar foi restaurado para nosso uso. As velas já estão acesas. Os tições logo estarão prontos. É lá que executaremos o plano.

Comecei a me levantar.

— Mas agora vocês precisam ir — disse ela —, e tragam um sacrifício porque não podemos prosseguir sem isso.

— Um sacrifício? — perguntei. — Meu bom Deus, que tipo de sacrifício? — Eu já estava em pé.

— Um sacrifício humano — respondeu ela, com os olhos penetrantes enquanto olhava para mim e depois de volta para Louis, que permanecia na sua poltrona.

— Esse espírito não virá por nada menos que sangue humano.

— Você não está falando sério, Merrick — disse eu furioso, com a voz alterada. — Meu Deus, mulher, você se disporia a ser cúmplice de assassinato?

— E eu já não sou? — respondeu ela, com os olhos cheios de franqueza e de uma força de vontade feroz. — David, quantos seres humanos você matou desde que Lestat o transformou? E você, Louis? Nem dá para contar. Eu me sento com vocês e planejo com vocês tentar essa história. Sou cúmplice dos seus crimes, não sou? E, para esse feitiço, eu lhes digo que preciso de sangue. Preciso preparar um caldo mágico muito mais forte que qualquer outro que já tentei antes. Preciso de um holocausto. Preciso que a fumaça suba do sangue fervente.

— Eu me recuso — disse eu. — Não vou trazer aqui algum mortal para ser abatido. Está sendo tola e ingênua se acha que conseguiria tolerar um espetáculo desses. Você estará mudada para sempre. Ora, você acha que, só porque temos uma bela aparência, esse assassinato vai ser algo limpo e bonito?

— David, faça o que eu digo — retrucou ela —, ou eu não farei o que me pedem.

— Eu me recuso — repeti. — Você ultrapassou os limites. Não haverá assassinato.

— Que eu seja o sacrifício — disse Louis, subitamente. Levantou-se e olhou de cima para ela. — Isso não significa que eu vá morrer para fazer isso — disse ele, com compaixão. — Quer dizer, deixe que o sangue que correr seja o meu. — Ele segurou novamente a mão de Merrick, fechando os dedos em torno do seu pulso. Inclinou-se, beijou-lhe a mão e depois voltou a ficar em pé, com os olhos fixos nos dela, cheios de carinho.

“Anos atrás — disse ele — você usou seu próprio sangue, nesta mesma casa para chamar sua irmã, Mel ao Sol, não foi? Vamos usar meu sangue para invocar Claudia nesta noite. Tenho sangue suficiente para um holocausto. Tenho sangue bastante para um caldeirão ou para uma fogueira.”

O rosto de Merrick estava bem sereno novamente quando ela olhou para ele.

— Será um caldeirão — disse ela. — Daqui a uma hora. O pátio dos fundos está cheio dos velhos santos, como já lhes disse. As lajes nas quais meus antepassados dançaram foram varridas, limpas, para nós. O velho caldeirão está sobre os tições. As árvores já testemunharam muitos espetáculos semelhantes. Só falta uma coisa que eu preciso fazer para me preparar. Vão agora e voltem como eu disse.

 

18

EU ESTAVA FORA DE MIM DE ANSIEDADE. ASSIM QUE CHEGAMOS À CALÇADA , agarrei Louis pelos ombros e fiz com que girasse para me encarar.

— Não vamos seguir adiante com isso — disse eu. — Vou voltar ali dentro e dizer a ela que simplesmente não vai acontecer.

— Não, David, vai acontecer, sim — disse ele, sem elevar a voz. — Você não vai impedir!

Percebi, pela primeira vez desde que eu o conhecera, que Louis estava exaltado e com raiva, embora a raiva não fosse meramente dirigida a mim.

— Vai acontecer — repetiu ele, cerrando os dentes, com a expressão rígida na sua fúria muda. — E nós a deixaremos incólume como prometemos! Mas vou prosseguir com isso.

— Louis, você não compreende o que ela está sentindo? — perguntei. — Ela está se apaixonando por você! Nunca mais será a mesma depois disso. Não posso permitir que isso se aprofunde; não posso deixar que a situação fique pior do que já está.

— Ela não está apaixonada por mim. Você está enganado — protestou ele, num sussurro veemente. — Ela acha o que os mortais sempre acham. Aos seus olhos, nós somos lindos. Somos exóticos. Temos uma sensibilidade tão sofisticada! Já vi isso antes. Basta que eu faça uma vítima na sua presença para curá-la desses sonhos românticos. E não vai ser preciso chegar a esse ponto, eu lhe prometo. Agora, David, preste atenção, esta hora de espera será a hora mais longa da noite. Estou com sede. Pretendo ir à caça. Solte-me, David. Saia do meu caminho.

É claro que não o deixei só.

— E o que dizer das suas emoções, Louis? — Eu caminhava ao seu lado, determinado a não permitir que ele me deixasse para trás. — Você consegue me afirmar que não está totalmente fascinado por Merrick?

— E se eu estiver, David? — retrucou ele, sem desacelerar o passo. — David, sua descrição dela não foi fiel. Você me disse como ela era forte, como era astuta e como era esperta. Mas não lhe fez justiça. — Ele me lançou um olhar tímido, de relance. — Não disse nada sobre sua simplicidade ou sua ternura. Não me disse que era tão bondosa por natureza.

— É assim que você a vê?

— É assim que ela é, meu amigo. — Agora ele não queria olhar para mim. — Uma escola e tanto, a Talamasca, por ter produzido vocês dois. Ela tem paciência na alma e sabedoria no coração.

— Quero que isso pare por aqui, agora — insisti. — Não confio em nenhum de vocês dois. Louis, ouça o que lhe digo.

— David, você realmente acredita que eu a feriria? — perguntou ele, com aspereza, sem parar de andar. — Será que escolho minhas vítimas entre aqueles que acredito serem mansos por natureza, humanos que eu considero tão bons quanto extraordinariamente fortes? Comigo, ela estará segura para sempre, David, você não entende isso? Só uma vez na minha vida desgraçada fiz uma cria, e isso foi há mais de um século. Merrick não poderia estar em maior segurança com qualquer outro de nós do que está comigo. Faça-me jurar que a protegerei até o dia da sua morte, e é provável que eu cumpra esse voto! Vou me afastar dela quando tudo isso terminar, eu lhe prometo. — Ele continuava a andar. E a falar. — Vou descobrir um meio de agradecer-lhe, de satisfazê-la, de deixá-la em paz. Vamos fazer isso juntos, David, você e eu. Não me atormente mais quanto a este assunto. É impossível me deter. Já avancei demais.

Acreditei nele. Acreditei nele totalmente.

— O que hei de fazer? — perguntei, desanimado. — Nem mesmo conheço meus próprios sentimentos a respeito. Temo pelos de Merrick.

— Você não há de fazer nada — disse ele, a voz um pouco mais calma que antes. — Deixe que tudo aconteça conforme planejado.

Seguimos juntos em frente pelo bairro em ruínas. Afinal, surgiu o letreiro curvo em néon de um bar, piscando por trás dos galhos alongados de uma árvore antiga e agonizante. Havia anúncios com palavras pintadas à mão por toda a fachada coberta de tábuas, e a luz lá dentro era tão fraca que não se conseguia distinguir praticamente nada pelo vidro sujo da porta.

Louis entrou, e eu o acompanhei, totalmente pasmo com a grande turma de homens brancos de origem anglo-saxã que tagarelava e bebia junto no longo balcão de mogno e à infinidade de mesinhas imundas. Aqui e ali havia mulheres vestidas em jeans, jovens e velhas, como seus companheiros do sexo oposto. Uma gritante luz vermelha provinha de lâmpadas cobertas perto do teto. Por toda parte, vi braços nus e camisas sujas sem mangas, expressões dissimuladas e cinismo por trás de um véu de sorrisos e dentes à mostra.

Louis encaminhou-se até o canto do salão e ocupou uma cadeira de madeira ao lado de um homem grande, cabeludo e com a barba por fazer, que estava sentado sozinho a uma mesa, debruçado com ar insociável sobre uma garrafa de cerveja estagnada.

Fui atrás, com as narinas sofrendo o ataque do fedor de suor e da densa fumaça dos cigarros. O volume das vozes era desagradável; e a batida da música por trás das vozes, feia, feia na letra e no ritmo, feia na cantilena hostil.

Sentei-me diante do mesmo mortal degenerado que lançou seu olhar pálido e enfraquecido para Louis e depois para mim, como se estivesse prestes a se divertir.

— E então o que vocês desejam, cavalheiros? — disse ele, com uma voz grave. O tórax enorme arfou sob a camisa gasta que o cobria. Ele levantou a garrafa marrom e deixou que a cerveja dourada lhe deslizasse goela abaixo.

— Vamos, senhores, podem falar — disse ele, embriagado, com a voz engrolada. — Quando homens com esse tipo de roupa vêm até aqui é porque querem alguma coisa. Agora, o que será? Eu estou dizendo que vieram ao lugar errado? Claro que não, senhores. Alguma outra pessoa poderia dizer isso. Alguma outra pessoa poderia dizer que vocês cometeram um grave engano. Mas eu não estou dizendo nada disso, senhores. Eu compreendo tudo. Sou todo ouvidos para os dois. Estão querendo mulheres, ou talvez querendo viajar um pouco? — Ele sorriu para nós dois. — Tenho todos os tipos de mercadoria, senhores. Vamos fingir que sou o Papai Noel. E só me dizer o que desejam no íntimo.

Riu de si mesmo, com orgulho, e bebeu da garrafa marrom engordurada. Sua boca era rosada, e o queixo estava coberto por uma barba grisalha.

Louis olhou para ele fixamente sem responder. Eu observava, fascinado. O rosto de Louis foi aos poucos perdendo toda a expressão, toda a ilusão de sentimento. Poderia ter pertencido a um morto aquele rosto, enquanto ele continuava sentado ali, com o olhar fixo na vítima, mirando a vítima, enquanto deixava a vítima perder sua humanidade fraca e desesperada, à medida que o golpe final passava de possível a provável e, finalmente, a resultado inevitável.

— Quero matá-lo — disse Louis, baixinho. Inclinou-se para a frente e encarou bem de perto os olhos cinza, claros e injetados do homem.

— Me matar? — disse o homem, erguendo uma sobrancelha. — Você acha que consegue fazer uma coisa dessas? — perguntou.

— Consigo — disse Louis, com delicadeza. — Desse jeito. — Debruçou-se e fincou os dentes no pescoço grosso e sem barbear. Vi os olhos do homem se iluminarem por um instante quando ele olhou espantado por cima do ombro de Louis; e então o olhar ficou fixo para depois, aos poucos, se embaçar.

O corpo volumoso e pesadão do homem estava apoiado em Louis, a mão direita de dedos grossos estremecendo antes de cair flácida ao lado da garrafa.

Depois de algum tempo, Louis afastou-se e ajudou a pousar a cabeça e os ombros do homem na mesa. Com carinho, tocou na basta cabeleira grisalha.

Na rua, Louis respirou fundo o ar fresco da noite. Seu rosto estava cheio do sangue da vítima e tinha as cores vivas da tez de um ser humano. Deu um sorriso triste, amargurado, quando olhou para cima, em busca das estrelas de luz mais fraca.

— Agatha — disse ele, baixinho, corno se fosse uma prece.

— Agatha? — repeti. Como eu temia por ele.

— A mãe de Claudia — respondeu, olhando para mim. — Ela disse o nome uma vez naquelas primeiras noites, exatamente como Merrick falou. Claudia mencionou os dois nomes, do pai e da mãe, do jeito como a haviam ensinado a dizer a desconhecidos. Agatha era o nome da mãe.

— Entendo — respondi. — Merrick vai gostar disso. É o estilo dos antigos encantamentos, sabe, o de incluir o nome da mãe quando se invoca um espírito.

— Pena aquele homem estar bebendo só cerveja — disse ele quando começamos nossa caminhada de volta a Merrick. — Bem que me serviria um pouco de calor no sangue, sabe? Mas na realidade talvez seja melhor assim. Melhor estar com a mente forte e clara para o que acontecer. Acho que Merrick pode fazer o que eu quero.