Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 11 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 10 - Sábado à tarde

CAPÍTULO 10

 

Sábado à tarde

 

A sra. Leidner fez o seu relato numa sexta-feira.

Na manhã de sábado, havia uma tênue sensação de anticlímax no ar.

A sra. Leidner, em especial, mostrou-se inclinada a me tratar com frieza e, de modo intencional, evitou qualquer possibilidade de tête-à-tête. Bem, aquilo não me surpreendia! Não era a primeira nem seria a última vez a acontecer comigo. Damas revelam coisas à enfermeira numa súbita manifestação de confiança; pouco tempo depois, se sentem constrangidas e lamentam ter desabafado! É a natureza humana, sem tirar nem pôr.

Tive a maior cautela em não insinuar nada nem lembrá-la de alguma maneira do que ela me contara. Mantive propositalmente minha conversa a mais prosaica possível.

O sr. Coleman partira a Hassanieh pela manhã, embarcando na caminhoneta com as cartas numa mochila. Ele também tinha recebido algumas encomendas dos membros da expedição. Era dia de pagamento para os funcionários, e ele precisava ir ao banco e trazer o dinheiro em moedas de baixo valor. Tudo isso demandava tempo e ele não esperava retornar até o meio da tarde. Suspeitei inclusive de que ele fosse almoçar com Sheila Reilly.

Em geral, o trabalho na escavação não era muito puxado nas tardes de pagamento, e o expediente encerrava mais cedo, às três e meia da tarde, quando os funcionários começavam a receber o salário.

O moleque (Abdullah) cuja função era lavar os potes, instalado como de costume no meio do pátio, entoava a também costumeira cantilena nasalada. O dr. Leidner e o sr. Emmott iam aproveitar para fazer uns serviços cerâmicos até o retorno do sr. Coleman, e o sr. Carey voltou ao montículo.

A sra. Leidner foi descansar no quarto dela. Eu a acomodei como sempre e então me encaminhei ao meu quarto, levando um livro, pois não tinha sono. Faltavam quinze minutos para a uma da tarde, e duas horas prazerosas se passaram. Imergi na leitura de Morte na casa geriátrica – mistério para lá de empolgante –, mas acho que o autor não entendia muito sobre como administrar uma casa geriátrica! Pelo menos nunca ouvi falar numa casa como aquela! Fiquei com vontade de escrever ao autor e dar umas dicas a ele.

Quando enfim terminei o livro (quem diria, era a arrumadeira ruiva, de quem eu menos suspeitava!), consultei o relógio e, para minha surpresa, descobri que faltavam vinte minutos para as três!

Levantei-me, endireitei o uniforme e saí para o pátio.

Abdullah continuava a esfregar os potes e a entoar seu canto melancólico, e David Emmott estava em pé ao lado dele, selecionando o material já lavado e guardando os fragmentos dos potes quebrados em caixas para esperar a colagem. Caminhei na direção deles bem na hora em que o dr. Leidner desceu as escadas vindo do terraço.

– Tarde proveitosa – comentou alegre. – Fiz uma boa limpeza lá em cima. Louise vai ficar satisfeita. Ela andava se queixando de que não havia mais espaço para passear no terraço. Vou contar as boas novas a ela.

Dirigiu-se à porta da esposa, bateu e entrou.

Deve, suponho, ter saído cerca de um minuto e meio depois. Casualmente eu olhava para a porta. Foi quase um pesadelo. Entrou animado e bem-disposto. Saiu trôpego como um bêbado. Trazia uma estranha expressão atônita estampada no rosto.

– Enfermeira... – chamou com uma voz estranha e rouca. – Enfermeira...

Logo notei que havia algo errado e acorri até ele. Parecia um farrapo humano – o rosto assustado tremia sem parar; percebi que ele podia desmaiar a qualquer instante.

– Minha esposa... – disse ele. – Minha esposa... Ai, meu Deus...

Passei por ele e entrei no quarto. Sustive a respiração.

Ao lado da cama, num horroroso amontoado, jazia a sra. Leidner.

Curvei-me sobre ela. Morta, sem dúvida – e morta há uma hora pelo menos. A causa da morte não podia ser mais óbvia: uma terrível pancada na parte frontal da cabeça, pouco acima da têmpora direita. Devia estar se levantando da cama quando foi atingida e caiu.

Evitei tocá-la mais do que o necessário.

Corri o olhar pelo quarto para ver se havia alguma pista, mas nada parecia estar fora do lugar, nem ter sido mexido. As janelas permaneciam fechadas e trancadas, e não havia lugar onde o assassino pudesse ter se escondido. Evidente que ele viera e saíra há um bom tempo.

Saí e fechei a porta atrás de mim.

O dr. Leidner a esta altura já havia desmaiado. David Emmott o amparava, volvendo um rosto lívido e indagador em minha direção.

Em voz baixa e em poucas palavras contei a ele o que acontecera.

Como eu sempre havia suspeitado, ele demonstrou ser uma pessoa de primeira categoria em quem se confiar em meio a uma crise. Continuou plenamente calmo e dono de si. Aqueles olhos azuis se arregalaram, mas afora isso não se alterou.

Meditou por um instante e disse:

– Imagino que devemos avisar a polícia o quanto antes. Bill estará de volta a qualquer minuto. O que vamos fazer com o dr. Leidner?

– Ajude-me a levá-lo ao quarto dele.

Assentiu com a cabeça.

– Melhor primeiro chavear esta porta – afirmou.

Passou a chave na porta do quarto da sra. Leidner, tirou-a da fechadura e entregou-a para mim.

– Creio que é melhor guardar isto, enfermeira. Agora vamos lá.

Juntos, erguemos o dr. Leidner, o carregamos ao interior do quarto dele e o repousamos na cama. O sr. Emmott saiu em busca de conhaque. Voltou acompanhado da srta. Johnson.

Não obstante o rosto preocupado e aflito, ela se manteve calma e eficaz. Dei-me por satisfeita em deixar o dr. Leidner a cargo dela.

Apressei-me rumo ao pátio. A caminhoneta cruzou embaixo do arco naquele instante. Acho que todos nós ficamos chocados ao ver Bill saltando do veículo de rosto corado e alegre com seu conhecido bordão:

– Epa, opa, opa! Chegou a grana! – E prosseguiu animado: – Nada de roubo na estrada...

De súbito estacou.

– Puxa, o que foi que aconteceu? Qual é o problema? Parece que o gato comeu a língua de todo mundo.

O sr. Emmott limitou-se a dizer:

– A sra. Leidner morreu... assassinada.

– O quê? – O rosto viçoso de Bill transfigurou-se comicamente. Fitou o vazio com os olhos esbugalhados. – A patroa Leidner... morta! Você não está falando sério!

– Morta? – Foi um grito agudo. Dei meia-volta e topei com a sra. Mercado atrás de mim. – Disse que a sra. Leidner foi assassinada?

– Sim – confirmei. – Assassinada.

– Não! – ofegou ela. – Ah, não! Não acredito. Vai ver ela cometeu suicídio.

– Suicidas não golpeiam a própria cabeça – retruquei com acidez. – É homicídio sem sombra de dúvida, sra. Mercado.

Ela sentou de repente num caixote emborcado e disse:

– Ah, mas isso é horrível... horrível...

Horrível, certamente. Não precisava ela ficar nos dizendo! Fiquei me perguntando se talvez não estivesse sentindo um pouco de remorso pelos sentimentos cruéis que nutrira contra a morta e por todas as coisas odiosas que havia dito.

Um tempo depois, ela indagou sem fôlego:

– O que vão fazer?

O sr. Emmott encarregou-se de responder com seu modo tranquilo.

– Bill, é melhor voltar a Hassanieh o mais rápido que puder. Não sei muito bem qual é o procedimento correto. Melhor avisar o capitão Maitland. Ele é o chefe da polícia local, se não estou enganado. Mas primeiro fale com o dr. Reilly. Ele vai saber como agir.

O sr. Coleman balançou a cabeça de modo afirmativo. Todo e qualquer ar brincalhão se esvaíra de seu ser. Só parecia jovem e assustado. Sem dizer nada, entrou no veículo e partiu.

O sr. Emmott murmurou em um tom vago:

– Acho que devemos fazer uma busca. – Subiu a voz e chamou: – Ibrahim!

– Na’am.

O criado veio correndo. O sr. Emmott falou com ele em árabe. Começaram um diálogo exaltado. O rapaz parecia negar algo com veemência.

Por fim, o sr. Emmott pronunciou com voz perplexa:

– Ele garante que não entrou ninguém aqui na tarde de hoje. Nenhum tipo de forasteiro. Calculo que o criminoso deve ter entrado às escondidas pelo pátio sem ninguém perceber.

– Claro que sim – concordou a sra. Mercado. – Ele se esgueirou furtivamente quando os rapazes não estavam olhando.

– Sim – concordou o sr. Emmott.

A leve incerteza em sua voz me fez lançar a ele um olhar indagador.

Ele virou e fez uma pergunta a Abdullah, o pequeno lavador de potes.

A resposta do menino foi enfática e demorada.

A testa do sr. Emmott franziu-se ainda mais.

– Não entendo – murmurou ele consigo. – Não entendo de jeito nenhum.

Mas não me disse o que ele não entendia.