Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 16 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 15 - Poirot dá um palpite

CAPÍTULO 15

 

Poirot dá um palpite

 

O dr. Reilly levantara-se de sua cadeira. Depois de todos saírem, fechou a porta com cuidado. Então, lançando um olhar indagador a Poirot, cerrou a janela que se abria ao pátio. As outras já estavam fechadas. Em seguida, retomou o lugar à mesa.

– Bien! – exclamou Poirot. – Agora estamos num ambiente reservado e sereno. Podemos falar abertamente. Ouvimos o que os membros da expedição tinham a dizer... mas, sim, ma soeur, o que se passa em sua cabeça?

Fiquei vermelha. É inegável que o estranho homenzinho tinha olhos argutos. Percebera uma ideia lampejar na minha cabeça – imagino que meu rosto tenha mostrado bem de leve o que eu pensava!

– Ah, não é nada – hesitei.

– Vamos, enfermeira – instigou o dr. Reilly. – Não deixe o especialista esperar.

– Não é nada mesmo – apressei-me a dizer. – Só passou pela minha cabeça, por assim dizer, que mesmo se alguém realmente soubesse ou suspeitasse de algo, não seria fácil trazer o assunto à tona na frente de todo mundo... ou até mesmo, talvez, na frente do dr. Leidner.

Para meu completo espanto, monsieur Poirot balançou a cabeça em enfática concordância.

– Exato. Exato. Observação cirúrgica. Mas vou explicar. Aquela reuniãozinha que fizemos... tinha um objetivo. Na Inglaterra, antes das corridas, é costume fazer um desfile dos cavalos, não é? Eles trotam até a frente das tribunas para que todos tenham a oportunidade de vê-los e avaliá-los. Esse foi o objetivo de minha reunião. No jargão do turfe, dei uma olhada nos aprumos dos cavalos competidores.

O dr. Leidner soltou uma exclamação violenta:

– Não acredito nem por um minuto que um membro de minha expedição esteja envolvido neste crime!

E, virando-se para mim, declarou de modo impositivo:

– Enfermeira, ficaria grato se contasse ao monsieur Poirot aqui e agora exatamente o que se passou entre minha esposa e a senhorita dois dias atrás.

Intimada desse modo, mergulhei de imediato em meu próprio relato, tentando até onde era possível me lembrar das palavras e expressões exatas usadas pela sra. Leidner.

Ao terminar, monsieur Poirot elogiou:

– Excelente. Excelente. A senhorita tem uma cabeça clara e organizada. Será de grande utilidade para mim aqui.

Virou-se para o dr. Leidner.

– Tem as tais cartas?

– Tenho-as aqui. Pensei que o senhor ia querer examiná-las como prioridade.

Poirot pegou as cartas, leu-as e escrutinou-as com minúcia. Fiquei muito decepcionada por ele não ter derramado pó sobre elas nem as examinado com a ajuda de lupa ou microscópio – mas me dei conta de que ele não era lá assim tão jovem e, por isso, seus métodos talvez estivessem desatualizados. Só as leu como um leigo teria lido.

Terminada a leitura, repousou as cartas na mesa e pigarreou.

– Agora – recomeçou –, vamos ordenar os fatos com clareza. Sua esposa recebe a primeira destas cartas pouco depois do casamento nos Estados Unidos. Antes houve outras cartas, mas ela as destrói. À primeira carta, segue-se uma segunda. Pouco tempo depois de receber a segunda carta, os dois escapam por pouco de morrer asfixiados pelo gás. Em seguida, viajam ao exterior e por quase dois anos não recebem novas cartas ameaçadoras. Elas reiniciam este ano, no começo da temporada arqueológica... ou seja, de três semanas para cá. Correto?

– Corretíssimo.

– Sua esposa demonstra sinais de pânico e, depois de consultar o dr. Reilly, o senhor contrata a enfermeira Leatheran para acompanhá-la e debelar seus medos?

– Sim.

– Certos incidentes acontecem... dedos tamborilando na janela... um rosto espectral... barulhos no depósito de antiguidades. Por acaso, testemunhou pessoalmente algum desses fenômenos?

– Não.

– Ninguém além de sra. Leidner?

– O padre Lavigny enxergou uma luz no depósito de antiguidades.

– Sim, não me esqueci desse detalhe.

Poirot calou-se por um instante. Logo disse:

– Sua esposa fez testamento?

– Creio que não.

– Por quê?

– Não parecia útil do ponto de vista dela.

– Ela é rica?

– Sim, sempre foi. O pai deixou-lhe os juros de uma soma substancial de dinheiro. Não podia tocar no capital. Quando morresse, o dinheiro passaria aos filhos que porventura tivesse... Na falta de filhos, o dinheiro seria destinado ao Museu de Pittstown.

Poirot tamborilou na mesa, com ar meditativo.

– Quer dizer que podemos, penso eu, eliminar um motivo do caso – ponderou. – Entende, é isso que procuro primeiro. Quem se beneficia com a morte da pessoa falecida? Neste caso, é um museu. Caso contrário, se a sra. Leidner tivesse morrido sem fazer testamento, mas dona de uma fortuna considerável, imagino que levantaria uma questão interessante quanto a quem herdaria o dinheiro... o senhor... ou um ex-marido. Mas haveria uma dificuldade extra: o ex-marido teria que ressuscitar para poder reclamar a herança, e imagino que nesse caso ele correria risco de ser preso, embora eu tenha minhas dúvidas se a pena de morte seria exigida tanto tempo depois da guerra. Entretanto, essas especulações não precisam ser aventadas. Como já disse, primeiro resolvo a questão do dinheiro. O passo seguinte é sempre suspeitar do marido ou da esposa da pessoa morta! Neste caso, em primeiro lugar, ficou provado que o senhor não se aproximou do quarto da esposa ontem à tarde; em segundo lugar, o senhor perde em vez de ganhar com a morte de sua esposa, e em terceiro lugar...

Fez uma pausa.

– Sim? – quis saber o dr. Leidner.

– Em terceiro lugar – continuou Poirot devagar –, eu consigo, acho, identificar a devoção quando me deparo com ela. Acredito, dr. Leidner, que o amor pela esposa era a paixão predominante de sua vida. Estou certo?

O dr. Leidner limitou-se a responder:

– Sim.

Poirot balançou a cabeça de modo afirmativo.

– Portanto – disse ele –, podemos ir em frente.

– Não podemos ser mais objetivos? – disse o dr. Reilly com certa impaciência.

Poirot mirou-o com olhos reprovadores.

– Meu amigo, não seja impaciente. Num caso desses, tudo precisa ser abordado com organização e método. De fato, essa é a minha cartilha sempre. Agora que já descartamos certas possibilidades, vamos abordar um ponto importantíssimo. É crucial que, como se diz, todas as cartas estejam na mesa... Nada deve ser mantido em segredo.

– Com certeza – anuiu o dr. Reilly.

– É por isso que exijo a verdade completa – prosseguiu Poirot.

O dr. Leidner mirou-o surpreso.

– Eu lhe asseguro, monsieur Poirot, que não mantive nada em segredo. Contei tudo que sei. Não omiti nada.

– Tout de même, o senhor não me contou tudo.

– Contei sim. Não consigo pensar em nenhum detalhe que deixei escapar.

Ele parecia bastante aflito.

Poirot abanou a cabeça docilmente.

– Não – disse ele. – Não me contou, por exemplo, por que instalou a enfermeira Leatheran na casa.

Desorientado, o dr. Leidner disse:

– Mas já expliquei isso. É óbvio. O nervosismo de minha mulher... seus medos...

Poirot inclinou-se à frente. De modo lento e enfático, balançou o indicador de um lado para o outro.

– Não, não, não. Algo aqui não está claro. Sua esposa está em perigo, sim... Ameaçada de morte, sim. E o senhor manda chamar... não a polícia... nem mesmo um detetive particular... mas uma enfermeira! Isso não faz sentido!

– Eu... eu... – O dr. Leidner interrompeu a fala. O rubor subiu a suas faces. – Eu pensei que... – Calou-se de súbito.

– Agora estamos quase lá – encorajou Poirot. – Pensou... o quê?

O dr. Leidner permaneceu em silêncio; parecia atormentado e indisposto a colaborar.

– Veja o senhor – o tom de Poirot tornou-se simpático e cativante –, tudo o que o senhor me disse faz sentido, à exceção disso. Por que uma enfermeira? Existe uma resposta, sim. De fato, só pode existir uma resposta. O senhor não acreditava que sua esposa corria perigo.

E então com um grito o dr. Leidner sucumbiu.

– Deus me perdoe – gemeu. – Não acreditava. Não acreditava.

Poirot observou-o com o tipo de atenção que um gato dá à entrada da toca do camundongo – prestes a atacar quando o camundongo aparecer.

– No que então o senhor pensava? – quis saber ele.

– Não sei. Não sei...

– Sabe sim. Sabe perfeitamente. Talvez eu possa ajudá-lo... com um palpite. Dr. Leidner, o senhor suspeitava de que todas essas cartas haviam sido escritas por sua própria esposa?

Não houve necessidade de resposta. A verdade do palpite de Poirot era mais do que evidente. A mão horripilante que o dr. Leidner levantou, como implorando misericórdia, disse tudo.

Respirei fundo. Quer dizer que eu estava certa na minha vaga suposição! Recordei o tom curioso com que o dr. Leidner me perguntara o que eu achava de tudo aquilo. Devagar e pensativa, acenei com a cabeça em afirmação. Súbito me dei conta do olhar de monsieur Poirot fixo em mim.

– Pensa o mesmo, enfermeira?

– A ideia passou pela minha cabeça – disse honestamente.

– Por que motivo?

Expliquei a semelhança da letra no envelope que o sr. Coleman me mostrara.

Poirot virou ao dr. Leidner.

– O senhor também havia notado essa semelhança?

O dr. Leidner curvou a cabeça.

– Sim, havia. A caligrafia era pequena e meio dura... não ampla e fluente como a de Louise, mas várias letras tinham o mesmo formato. Vou lhe mostrar.

De um bolso interno do paletó, puxou algumas cartas e, por fim, escolheu uma página de uma delas e entregou a Poirot. Era parte de uma carta escrita para ele por sua esposa. Poirot cotejou-a atentamente com as cartas anônimas.

– Sim – murmurou. – Sim. Existem várias semelhanças... um jeito curioso de desenhar a letra s, um e característico. Não sou especialista em grafologia... Não posso afirmar com certeza (embora eu jamais tenha encontrado dois grafólogos que concordassem em algum ponto que fosse)... Mas o mínimo que se pode dizer é isto: a semelhança entre as duas caligrafias é acentuada. Parece altamente provável que todas as cartas tenham sido escritas pela mesma pessoa. Mas isso não é certo. Devemos levar em conta todas as chances.

Recostou-se na cadeira e falou com ar pensativo:

– Há três possibilidades. Primeira: a semelhança da caligrafia é pura coincidência. Segunda: essas cartas ameaçadoras foram escritas pela própria sra. Leidner por alguma razão misteriosa. Terceira: foram escritas por alguém que copiou intencionalmente a letra dela. Por quê? Não parece fazer sentido. Uma dessas três alternativas deve ser a correta.

Refletiu por um tempinho e, em seguida, virando para o dr. Leidner, indagou, retomando seu jeito animado:

– Quando a possibilidade de que a própria sra. Leidner fosse a autora dessas cartas lhe veio a primeira vez à mente, que teoria o senhor formulou?

O dr. Leidner meneou a cabeça.

– Tentei abandonar a ideia o mais rápido possível. Parecia-me uma coisa horrenda.

– Não buscou uma explicação?

– Bem – vacilou ele. – Imaginei se remoer o passado e ficar se afligindo com ele talvez não tivesse afetado levemente o cérebro de minha esposa. Pensei que talvez ela pudesse ter escrito aquelas cartas para si sem nem ao menos ter consciência disso. Isso é possível, não é? – acrescentou, virando ao dr. Reilly.

O dr. Reilly franziu os lábios.

– O cérebro humano é capaz de quase tudo – respondeu vagamente.

Mas relanceou um olhar cortante a Poirot que, como em obediência a ele, trocou de assunto.

– O detalhe das cartas é interessante – ponderou. – Mas temos que nos concentrar no caso como um todo. Existem, a meu ver, três soluções possíveis.

– Três?

– Sim. Solução número um e a mais simples: o primeiro marido de sua esposa está vivo. A princípio ele a intimida e depois leva a cabo as ameaças. Se aceitarmos essa solução, nosso problema é descobrir como ele entrou e saiu sem ser visto.

“Solução número dois: a própria sra. Leidner, por motivos de foro íntimo (provavelmente melhor compreendidos por um médico do que por um leigo), redige as cartas ameaçadoras. O episódio do gás é de autoria dela (lembre-se de que foi ela quem lhe acordou falando que sentiu cheiro de gás). Mas, se foi a sra. Leidner quem escreveu as cartas, não corria risco por conta do suposto autor. Devemos, portanto, procurar o assassino em outro lugar. Devemos, de fato, procurar entre os membros de sua equipe. Sim – em resposta a um murmúrio de protesto do dr. Leidner –, essa é a única conclusão lógica. Para satisfazer um rancor particular, um deles a matou. Essa pessoa, posso dizer, provavelmente tinha conhecimento das cartas... De qualquer forma, estava ciente de que a sra. Leidner temia ou fingia temer alguém. Esse fato, na opinião do homicida, tornaria o assassinato bastante confortável para ele. Sentiu-se seguro de que o crime seria imputado a um forasteiro misterioso... o autor das cartas ameaçadoras.

“Uma variante dessa solução é que na verdade o próprio assassino tenha escrito as cartas, tendo conhecimento do passado da sra. Leidner. Mas, nesse caso, não fica claro por que o criminoso teria copiado a letra da sra. Leidner já que, até onde conseguimos perceber, seria mais vantajoso a ele ou ela que as cartas aparentassem ter sido escritas por um forasteiro.

“A terceira solução é a mais interessante para mim. Sugiro que as cartas são autênticas. Foram escritas pelo primeiro marido da sra. Leidner (ou seu irmão mais novo), que na verdade é um dos membros da expedição.”