Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 15 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 14 - Um de nós?

CAPÍTULO 14

 

Um de nós?

 

Sucedeu-se uma breve pausa – e nela uma onda de horror pareceu tomar conta da sala.

Acho que naquele instante passei a acreditar na teoria do dr. Reilly.

Senti o assassino na sala. Sentado conosco... escutando. Um de nós...

Talvez a sra. Mercado tenha sentido o mesmo. Pois, de repente, deixou escapar um gritinho estridente.

– Não consigo evitar – soluçou. – É... é tão terrível!

– Força, Marie – consolou o marido.

Ele nos lançou um olhar de desculpa.

– Ela se impressiona facilmente. Sensível como só ela.

– Eu... eu gostava tanto de Louise – soluçou a sra. Mercado.

Não sei se mostrei no rosto algo do que senti, mas súbito notei que o sr. Poirot me fitava com um leve sorriso nos lábios.

Lancei-lhe um olhar gélido, e de imediato ele retomou o interrogatório.

– Conte, madame, como passou a tarde de ontem?

– Aproveitei para lavar o cabelo – soluçou a sra. Mercado. – Parece horrível não ter ficado sabendo de nada. Sentia-me bastante feliz e atarefada.

– Estava em seu quarto?

– Sim.

– E não saiu dali?

– Não. Não até ouvir o carro. Então saí e escutei o que havia acontecido. Ah, foi horrível!

– Ficou surpresa?

A sra. Mercado parou de chorar. Seus olhos se arregalaram de mágoa.

– Como assim, monsieur Poirot? Está sugerindo...

– O que eu poderia sugerir, madame? Acabou de contar o quanto gostava da sra. Leidner. Ela pode, talvez, ter feito confidências a senhora.

– Ah, entendo... Não... não, a amável Louise nunca me contou nada... quer dizer, nada categórico. Claro, eu percebia que ela andava tremendamente preocupada e nervosa. E aconteceram aqueles estranhos incidentes... dedos batendo na janela e tudo o mais.

– Fantasias, eu me lembro de que a senhora disse – atalhei, incapaz de permanecer em silêncio.

Fiquei alegre ao vê-la momentaneamente aturdida.

Outra vez tive consciência do olhar divertido do sr. Poirot em minha direção.

Ele recapitulou com eficácia.

– Tudo se resume a isto, madame: a senhora lavava o cabelo... não ouviu nada nem viu nada. Existe algo, por mínimo que seja, que a senhora acha que pode ser de alguma ajuda?

A sra. Mercado nem se deu ao trabalho de pensar.

– Não, de fato não. É o mistério mais obscuro! Mas eu diria que não há dúvida... não há dúvida nenhuma de que o assassino veio de fora. Isso está claro.

Poirot volveu o olhar ao marido dela.

– E o monsieur, o que tem a dizer?

O sr. Mercado sobressaltou-se nervoso. Cofiou a barba de modo vago.

– Deve ter sido. Deve ter sido – repetiu. – No entanto, como alguém poderia querer mal a ela? Uma pessoa tão doce... tão amável... – Ele meneou a cabeça. – Seja lá quem a matou deve ser um demônio... sim, um demônio!

– E como passou a tarde de ontem, monsieur?

– Eu? – fitou o vazio, distraído.

– Você estava no laboratório, Joseph – lembrou a esposa.

– Ah, sim, isso mesmo... isso mesmo. Minhas tarefas de sempre.

– A que horas foi para lá?

De novo o sr. Mercado mirou a esposa com expressão indefesa e indagadora.

– Dez para uma, Joseph.

– Ah, sim, dez para uma.

– Em algum momento saiu ao pátio?

– Não, acho que não. – Ele refletiu. – Não, tenho certeza que não.

– Quando ficou sabendo da tragédia?

– Minha esposa veio me contar. Foi terrível... chocante. Mal pude acreditar. Até mesmo agora, mal consigo acreditar que é verdade.

De repente, começou a tremer.

– É horrível... horrível...

A sra. Mercado aproximou-se dele com rapidez.

– Sim, sim, Joseph, é bem assim que nos sentimos. Mas não podemos perder o controle e dificultar as coisas para o pobre dr. Leidner.

Notei um espasmo de dor perpassar o rosto do dr. Leidner e imaginei que essa atmosfera emocional não era fácil para ele. Relanceou um olhar de súplica a Poirot, que respondeu com rapidez.

– Srta. Johnson? – continuou.

– Receio ter pouco a contar – disse a srta. Johnson. Sua voz polida e requintada era um bálsamo depois dos guinchos agudos da sra. Mercado. Ela prosseguiu: – Trabalhava na sala de estar... imprimindo a estampa de selos cilíndricos em plasticina.

– E viu ou notou algo?

– Não.

Poirot lançou a ela um olhar rápido. O ouvido dele percebera o mesmo que o meu – um débil sinal de indecisão.

– Tem certeza absoluta, mademoiselle? Não existe algo de que se lembre vagamente?

– Não... na verdade, não...

– Algo que a senhorita viu, vamos dizer, com o rabo do olho, quase sem ter se dado conta?

– Não, com certeza não – assegurou com firmeza.

– Ou senão algo que a senhorita escutou. Ah, sim, algo que a senhorita não tem bem certeza de que pode ter escutado ou não?

A srta. Johnson emitiu uma risadinha breve e contrariada.

– Me cerca por todos os lados, monsieur Poirot. Tenho medo de que esteja me encorajando a lhe contar o que estou, talvez, apenas imaginando.

– Então há algo que a senhorita... vamos dizer... imaginou?

A srta. Johnson respondeu devagar, sopesando cada palavra de maneira imparcial:

– Eu tenho imaginado... desde então... que, em certa hora durante a tarde, escutei um grito abafado... Arrisco dizer que realmente ouvi um grito. Todas as janelas da sala estavam abertas, e a gente escuta tudo que é tipo de barulho das pessoas lidando nas lavouras de cevada. Mas, sabe... depois do que aconteceu... enfiei na minha cabeça que... que era a sra. Leidner que eu tinha escutado. E isso tem me deixado muito triste. Porque se eu tivesse logo ido verificar o quarto dela... bem, sabe-se lá? Talvez chegasse a tempo...

O dr. Reilly atalhou de modo peremptório.

– Ora, não comece a pensar essas coisas – disse ele. – Não tenho dúvidas de que a sra. Leidner (me desculpe, Leidner) foi atingida tão logo o homem entrou no quarto, e foi esse golpe que a matou. Não foi desferida uma segunda pancada. Caso contrário, ela teria tido tempo para pedir socorro e provocar um verdadeiro tumulto.

– Mas pelo menos eu teria visto o assassino – ponderou a srta. Johnson.

– A que horas foi isso, mademoiselle? – indagou Poirot. – Por volta de uma e meia?

Ela refletiu alguns instantes.

– Deve ter sido mais ou menos nesse horário... sim.

– Isso se encaixa – murmurou Poirot, pensativo. – Não ouviu mais nada... por exemplo, portas se abrindo ou fechando?

A srta. Johnson balançou a cabeça.

– Não, não me recordo de nada assim.

– A senhorita estava sentada à mesa, presumo. Para onde olhava? O pátio? O depósito? A varanda? Ou o campo aberto?

– Eu estava de frente para o pátio.

– Conseguia ver o menino Abdullah lavando os potes?

– Ah, sim, se eu levantasse o olhar, mas é claro que estava muito concentrada no que fazia. Toda a minha atenção estava naquilo.

– Mas teria notado se alguém tivesse passado pela janela do pátio?

– Ah, sim, tenho quase certeza disso.

– E ninguém passou?

– Não.

– E teria notado se alguém, vamos dizer, tivesse atravessado o pátio?

– Hum... provavelmente não... A menos, como eu disse antes, que por acaso erguesse os olhos e observasse pela janela.

– Não notou quando Abdullah abandonou o trabalho e saiu para ficar junto com os outros empregados?

– Não.

– Dez minutos – cismou Poirot. – Aqueles dez minutos fatais.

Seguiu-se um silêncio momentâneo.

De repente, a srta. Johnson levantou a cabeça e disse:

– Sabe, monsieur Poirot, acho que sem querer o induzi ao erro. Pensando melhor, de onde eu estava, acho que não posso ter ouvido quaisquer gritos emitidos no quarto da sra. Leidner. Havia o depósito de antiguidades entre nós... E pelo que sei as janelas do quarto dela foram encontradas fechadas.

– Em todo caso, não se aflija, mademoiselle – disse Poirot em tom bondoso. – Isso não tem lá muita importância.

– Não, claro que não. Entendo isso. Mas, sabe, é importante para mim, porque sinto que poderia ter feito algo.

– Não se angustie, querida Anne – disse afetuoso o dr. Leidner. – Seja sensata. Deve ter sido um árabe gritando com outro ao longe nos campos.

A srta. Johnson enrubesceu de leve, tal a benevolência de sua entonação. Cheguei até a perceber seus olhos se encherem de lágrimas. Sacudiu a cabeça e falou em tom ainda mais severo do que o de costume.

– Talvez. Clichê depois de uma tragédia... ficar imaginando coisas bem diferentes da verdade.

Poirot consultava outra vez suas anotações.

– Não creio que haja muito mais a ser dito. Sr. Carey?

Richard Carey falou devagar – de um jeito canhestro e mecânico.

– Temo não ter nada útil a acrescentar. Realizava o meu serviço na escavação. Fiquei sabendo do ocorrido lá.

– E sabe ou lembra de algo útil nos dias precedentes ao crime?

– Nada.

– Sr. Coleman?

– Fiquei por fora da coisa toda – declarou o sr. Coleman com um quê de pesar na voz. – Fui a Hassanieh na manhã de ontem pegar o salário dos funcionários. Quando voltei, Emmott me contou o que tinha acontecido, e pulei outra vez no veículo para buscar a polícia e o dr. Reilly.

– E antes disso?

– Bem, sir, os nervos estavam meio à flor da pele... mas já sabe disso. Teve o susto do depósito de antiguidades e alguns outros antes (mãos e rostos na janela), o senhor se lembra – apelou ao dr. Leidner, que concordou com um aceno de cabeça. – Sabe, acho que vão acabar descobrindo que algum joão-ninguém entrou mesmo pelo arco. Deve ter sido um sujeito ardiloso.

Poirot mediu-o em silêncio por um tempo.

– É inglês, sr. Coleman? – perguntou enfim.

– Tem razão, sir. Britânico até a alma.

– É sua primeira temporada?

– Exato.

– E é apaixonado por arqueologia?

Essa descrição de si próprio causou certo constrangimento ao sr. Coleman. Ficou vermelho e olhou de soslaio ao dr. Leidner, como um aluno pego em flagrante delito.

– Claro... é tudo interessantíssimo – gaguejou. – Quero dizer... inteligência não é lá meu forte...

Interrompeu a fala de modo claudicante. Poirot não insistiu.

Com a ponta do lápis, tamborilou pensativo na mesa e endireitou meticulosamente um tinteiro à sua frente.

– Então parece – disse ele – que isso é o mais próximo que conseguimos chegar a esta altura. Se alguém se lembrar de algo que hoje escapou da memória, não hesite em me procurar. Vou ficar satisfeito agora, acho, se tiver uma palavrinha a sós com o dr. Leidner e o dr. Reilly.

Era a deixa para desfazer a reunião. Todos nos erguemos e marchamos em fila rumo à porta. Quando eu passava a soleira, entretanto, uma voz me chamou de volta.

– Talvez – acrescentou monsieur Poirot – a enfermeira Leatheran pudesse fazer a gentileza de permanecer. Acho que a colaboração dela será valiosa para nós.

Voltei e retomei meu lugar à mesa.