Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 6 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 5 - Tell Yarimjah

CAPÍTULO 5

 

Tell Yarimjah

 

Tenho que admitir: a primeira impressão que tive ao ver a sra. Leidner foi de surpresa completa. A gente sempre fica imaginando como é uma pessoa quando escuta falar dela. Eu criara a imagem convicta de uma sra. Leidner morena e insatisfeita. Do tipo inquieto, com nervos à flor da pele. E também esperava que ela fosse – para ser sincera – meio vulgar.

Ela não era nada parecida com o que eu havia imaginado! Para começar, loiríssima. Não de origem sueca como o marido, mas poderia ser, levando em conta a aparência. Dona daquela beleza loira de cútis escandinava que raramente se vê. Não assim tão jovem. Entre os trinta e os quarenta, eu diria. Rosto meio encovado, cabelos loiros já salpicados de fios grisalhos. Mas que olhos fascinantes! Os únicos que vi em toda a minha vida que podem ser descritos como de cor realmente violeta. Imensos com tênues sombras embaixo. De silhueta esguia e frágil, passava a impressão de intenso cansaço e, ao mesmo tempo, vivacidade. Sei que parece tolice dizer isso – mas foi essa a sensação que eu tive. Percebi, também, que se tratava de uma perfeita dama. E isso tem lá sua importância – mesmo nos dias de hoje.

Ela estendeu a mão e sorriu. Falou em tom baixo e macio, com o jeito meio arrastado típico dos americanos:

– Estou tão contente com a sua vinda, enfermeira. Aceita um chá? Ou prefere primeiro ir até o seu quarto?

Aceitei o chá, e ela me apresentou aos demais à mesa.

– Esta é a srta. Johnson, e o sr. Reiter. Sra. Mercado. Sr. Emmott. Padre Lavigny. Meu marido deve estar chegando. Sente-se aqui entre o padre Lavigny e a srta. Johnson.

Obedeci, e a srta. Johnson começou a falar comigo, perguntando sobre minha viagem e assim por diante.

Simpatizei com ela. Ela me lembrava a enfermeira-chefe nos meus tempos de estagiária. Todas as enfermeiras a admiravam e trabalhavam por ela com afinco.

Ela beirava os cinquenta anos, calculei, e tinha aparência masculina, com o cabelo cinza-escuro aparado bem curto. Voz espontânea, agradável, de timbre grave. No meio da cara feia e enrugada, havia um quase risível narizinho arrebitado, que ela costumava coçar de modo irritante quando algo a incomodava ou a deixava confusa. Vestia um conjunto de tweed assaz viril. Ela me informou que era natural de Yorkshire.

Achei o padre Lavigny meio assustador. Alto, barba negra comprida e pincenê. Bem que eu tinha escutado a sra. Kelsey falando que havia um monge francês na expedição; agora eu percebia que o padre Lavigny trajava uma vestimenta de monge de um tecido branco de lã. Fiquei espantada; sempre pensei que os monges entravam nos mosteiros e não saíam mais de lá.

A sra. Leidner falava com ele a maior parte do tempo em francês, mas ele falou comigo num inglês proficiente. Notei que tinha olhos astutos e observadores que dardejavam de rosto em rosto.

Do outro lado da mesa, estavam os outros três. O sr. Reiter, jovem loiro e robusto, usava óculos. Tinha cabelo comprido e encaracolado e olhos azuis bem redondos. Imagino que deva ter sido um bebê lindo, mas agora não era grande coisa! Para ser sincera, me lembrava um porco. O outro moço tinha o cabelo cortado rente ao crânio. Rosto afilado, um tanto cômico, com dentes perfeitos que o deixavam atraente quando sorria. Mas lacônico: quando lhe dirigiam a palavra só assentia com a cabeça ou respondia com monossílabos. Norte-americano, a exemplo do sr. Reiter. Na última pessoa, a sra. Mercado, não pude dar uma boa olhada, pois sempre que relanceava o olhar na direção dela a flagrava me encarando com uma espécie de olhar fixo e ávido, no mínimo desconcertante. Alguém poderia pensar que enfermeiras são animais exóticos pelo jeito que ela me fitava. Que falta de educação!

Bem novinha, ela – não mais do que 25 anos –, e de aparência trigueira e sensual, se é que você me entende. Bonita sob certo prisma; aparentava ter o que minha mãe chama de “um pé na África”. O pulôver de cores vivas combinava com o colorido das unhas. No rosto delgado de passarinha inquieta, destacavam-se os olhos grandes e a boquinha justa, meio desconfiada.

O chá estava esplêndido – mistura forte e saborosa –, bem diferente das insossas infusões chinesas que a sra. Kelsey sempre me oferecia e que tinham sido um suplício para mim.

Havia torradas, geleia, um prato de biscoitos de passas e um bolo. O sr. Emmott me passava as coisas com extrema polidez. Por mais calado que fosse, sempre notava quando meu prato estava vazio.

Pouco depois, o sr. Coleman entrou alvoroçado e sentou-se do outro lado da srta. Johnson. Não parecia haver nada de errado com os nervos dele. Falava pelos cotovelos.

A sra. Leidner suspirou uma vez e lançou um olhar fatigado na direção dele, mas aquilo não surtiu efeito. Nem tampouco o fato de que a sra. Mercado, a quem ele dirigia a maior parte de sua conversação, já estava bem ocupada me observando e não fazia nada além de dar respostas mecânicas.

Quando o chá se aproximava do fim, o dr. Leidner e o sr. Mercado chegaram da escavação.

O dr. Leidner me cumprimentou à sua maneira gentil e amável. Acompanhei o seu olhar rápido e ansioso ao rosto da esposa, e ele pareceu aliviado com o que viu. Em seguida, sentou-se na outra cabeceira da mesa, e o sr. Mercado, no lugar vago perto da sra. Leidner. Ele era alto, magro, melancólico, bem mais velho do que a esposa, de tez amarelada e barba exótica, macia e amorfa. Fiquei contente com a sua chegada, pois a mulher dele parou de me encarar e transferiu a atenção a ele, observando-o com uma espécie de impaciência que achei bastante estranha. Ele mexeu o chá de modo sonhador e não disse uma só palavra. Um pedaço de bolo permaneceu intocado em seu prato.

Restava um lugar à mesa, e naquele exato instante a porta se abriu e um homem entrou.

Quando cravei os olhos em Richard Carey, tive a sensação de que há muito tempo não via homem tão bonito – e, no entanto, tenho lá minhas dúvidas quanto a isso. Dizer que um homem é bonito e ao mesmo tempo dizer que se parece com uma caveira soa uma contradição de mau gosto, mas era a pura verdade. Parecia que a pele de sua cabeça se esticava de modo incomum sobre os ossos – belos ossos, por sinal. Um atraente contorno unia a mandíbula, as têmporas e a fronte, delineadas com tal nitidez que me fazia lembrar uma estátua de bronze. No rosto magro e moreno sobressaíam-se dois olhos azuis dos mais brilhantes e intensos que já vi. Calculei que tinha 1 metro e 85 e pouco menos de quarenta anos.

O dr. Leidner me apresentou a ele:

– Enfermeira, este é o sr. Carey, nosso arquiteto.

Ele murmurou algo num inglês agradável e inaudível e sentou-se perto da sra. Mercado.

A sra. Leidner alertou:

– Receio que o chá esteja um pouco frio, sr. Carey.

Ele respondeu:

– Ah, não tem importância, sra. Leidner. Culpa minha ter chegado tarde. Eu queria terminar de fazer a plotagem daqueles muros.

A sra. Mercado ofereceu:

– Geleia, sr. Carey?

O sr. Reiter empurrou à frente o prato das torradas.

E recordei do major Pennyman comentando: “Posso explicar melhor o que eu quero dizer contando que todos passavam a manteiga adiante com uma polidez meio exagerada”.

Sim, havia algo curioso naquilo...

Uma tênue formalidade...

Alguém poderia dizer que se tratava de um grupo de estranhos – não pessoas que se conheciam (algumas delas) há vários anos.