Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 1 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Prefácio

 

Por Giles Reilly, doutor em Medicina

 

Os episódios registrados nesta narrativa aconteceram por volta de quatro anos atrás. Circunstâncias exigiram, a meu ver, que um relato objetivo dos fatos viesse a público. Corriam boatos dos mais insanos e patéticos insinuando que provas relevantes haviam sido suprimidas e outros disparates do tipo. Esses falsos juízos foram ventilados em especial na mídia norte-americana.

Por motivos óbvios, era desejável que o relato não fosse escrito por um membro da equipe arqueológica, alguém que o público, com certa razão, presumiria estar imbuído de preconceitos.

Por isso, sugeri à srta. Amy Leatheran que se encarregasse da tarefa. É claro que ela é a pessoa certa: profissional ao extremo, não influenciada por ligação prévia com a expedição arqueológica da Universidade de Pittstown ao Iraque e, de quebra, uma testemunha observadora e perspicaz.

Não foi lá muito fácil persuadir a srta. Leatheran a se encarregar da tarefa – na verdade, persuadi-la foi uma das incumbências mais espinhosas da minha carreira. Mesmo depois de pronto o manuscrito, ela mostrou curiosa relutância a me deixar vê-lo. Descobri que essa hesitação devia-se em parte a alguns comentários não lisonjeiros relativos à minha filha Sheila. Logo a convenci a deixar de lado esse pudor. Afinal, garanti-lhe, hoje em dia os filhos criticam os pais por escrito aberta e publicamente; então, nada mais justo e prazeroso que os pais vejam os filhos receberem o troco! A outra objeção: a excessiva modéstia quanto a seu estilo literário. Ela me pediu para “corrigir a gramática e todo o resto”. Fiz o contrário: não mexi numa vírgula sequer. A meu ver, o estilo da srta. Leatheran é enérgico, singular e perfeitamente adequado. Se ela chama Hercule Poirot de “Poirot” num parágrafo e de “sr. Poirot” no outro, essa variação é ao mesmo tempo atraente e inspiradora. Num instante ela está, por assim dizer, “recordando suas boas maneiras” (e enfermeiras são maniáticas por etiqueta); no seguinte, o interesse dela é o de um mero ser humano – sem a touca e os punhos brancos!

A única liberdade que tomei foi redigir o primeiro capítulo – com a ajuda de uma carta gentilmente cedida por uma das amigas da srta. Leatheran. A intenção é compor uma espécie de frontispício – ou seja, esboçar o perfil da narradora.