Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 3 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 2 - Apresentando Amy Leatheran

CAPÍTULO 2

 

Apresentando Amy Leatheran

 

Não tenciono ser escritora nem saber nada da arte de escrever. Traço estas linhas só porque o dr. Reilly me pediu. Não sei explicar direito, mas quando o dr. Reilly nos pede para fazer alguma coisa, é impossível recusar.

– Mas, doutor – argumentei –, eu não faço o tipo literário... não sou nem um pouquinho literária.

– Conversa fiada! – estimulou. – Finja que está escrevendo o histórico de um paciente, se preferir.

Claro, é possível encarar assim.

Dr. Reilly não parou por aí. Afirmou ser mais do que necessário um relato direto e sem enfeites dos episódios acontecidos em Tell Yarimjah.

– Se uma das partes envolvidas escrevesse o texto, não seria convincente. Diriam que é tendencioso.

Claro, isso também era verdade. Participei de tudo, mas na condição de intrusa, por assim dizer.

– Por que o senhor mesmo não escreve, doutor? – indaguei.

– Eu não estava no local... você sim. Além do mais – acrescentou com um suspiro –, minha filha não ia me deixar.

O jeito com que ele se submete àquela mocinha mimada é vergonhoso. Eu cogitava dizer isso quando notei o brilho maroto no olhar dele. Isso é o pior do dr. Reilly. A gente nunca sabe quando ele está brincando ou falando sério. Sempre diz as coisas do mesmo jeito vagaroso e tristonho – mas na metade das vezes há uma pitada de bom humor por trás.

– Bem – ponderei em tom de dúvida –, acho que eu seria capaz.

– Claro que seria.

– Só não sei como estruturar.

– Há uma boa tradição nisso. Comece pelo começo, continue e só pare quando chegar ao fim.

– Não estou bem certa nem de onde nem de quando tudo começou – comentei, cética.

– Acredite em mim, enfermeira: a dificuldade de começar não é nada perto da dificuldade de saber a hora de parar. Pelo menos comigo é assim quando tenho que falar em público. Alguém tem que me agarrar pela gola do casaco e me fazer sentar à força.

– Ah, não brinque, doutor.

– Não podia falar mais sério. Então, o que me diz?

Outra coisa me preocupava. Vacilei por breves instantes e fui sincera:

– Sabe, doutor, tenho medo de às vezes... bem, ser um pouco pessoal.

– O diabo que me carregue, mulher, quanto mais pessoal melhor! Esta história trata de seres humanos, não de bonecos! Seja pessoal... seja preconceituosa... seja indelicada... seja tudo o que bem lhe aprouver! Escreva à sua maneira. Depois temos tempo para burilar os trechos caluniosos! Vá em frente. Você é uma moça de bom-senso e vai fazer um relato racional da coisa toda.

Foi assim. Prometi me esforçar ao máximo.

E aqui estou. Mas, como avisei ao doutor, é difícil saber exatamente por onde começar.

Acho que primeiro devo dizer umas palavrinhas sobre mim. Tenho 32 anos e meu nome é Amy Leatheran. Cursei enfermagem na escola do Hospital St. Christopher e trabalhei dois anos junto à maternidade. Construí um bom currículo de trabalhos particulares e por quatro anos fiz parte da equipe da Casa Geriátrica da srta. Bendix, em Devonshire Place. Fui para o Iraque com a sra. Kelsey. Cuidei dela quando ela teve bebê. Ela ia para Bagdá com o marido e já havia contratado uma moça local, que trabalhara alguns anos para uns amigos por lá. As crianças dessa família de amigos iam estudar na Inglaterra, e a moça concordara em trabalhar para a sra. Kelsey depois que elas partissem. Ainda fragilizada, a sra. Kelsey estava apreensiva quanto a empreender uma longa viagem com uma criança tão pequena. Por isso, o major Kelsey providenciou que eu a acompanhasse e cuidasse dela e do bebê. Eles pagariam minha passagem de volta, caso não encontrássemos alguém precisando de enfermeira para a viagem de retorno.

Bem, não há por que descrever os Kelsey – o bebê era uma gracinha, e a sra. Kelsey, uma simpatia, embora, às vezes, se preocupasse à toa. Desfrutei bastante a viagem. Nunca antes fizera uma longa travessia oceânica.

O dr. Reilly estava a bordo do navio. Moreno e com o rosto alongado, desfiava toda espécie de gracejo em voz baixa e tristonha. Gostava de pegar no meu pé; vivia falando as coisas mais extraordinárias para ver se eu engolia. Trabalhava como clínico num lugar chamado Hassanieh – a um dia e meio de Bagdá.

Eu já estava em Bagdá há uma semana quando por acaso nos encontramos; ele me perguntou quando eu estaria liberada do trabalho com os Kelsey. Respondi que era engraçado ele perguntar, porque casualmente a família Wright (o outro pessoal que mencionei) partiria para casa antes do previsto, e a outra enfermeira ficaria livre para se apresentar de imediato.

Explicou que escutara sobre os Wright e por isso tocara no assunto.

– Para falar a verdade, enfermeira, tenho um possível trabalho para você.

– Um paciente?

Estreitou os olhos como quem pensa no que responder.

– Acho difícil chamar de paciente. É só uma senhora que tem, vamos dizer... fantasias?

– Ah! – exclamei.

(A gente sabe o que isso costuma significar: bebida ou drogas!)

O dr. Reilly não deu maiores explicações. A discrição em pessoa.

– Isso mesmo – continuou. – O nome dela é sra. Leidner. O marido é americano... de origem sueca para ser mais exato. É o diretor de uma grande escavação norte-americana.

E explicou que essa expedição escavava um sítio arqueológico numa grande cidade assíria, algo parecido com Nineveh. Na verdade, a sede da expedição não ficava muito longe de Hassanieh, mas era um lugar isolado, e o dr. Leidner, há um bom tempo, andava preocupado com a saúde da mulher.

– Não entrou em detalhes, mas parece que ela tem ataques periódicos de pânico.

– Ela passa o dia todo sozinha com os nativos? – indaguei.

– Ah, não. Tem bastante gente por perto... sete ou oito pessoas. Não creio que ela costume ficar sozinha na sede. Mas o certo é que ela se deixou dominar por um estado esquisito. Muitas responsabilidades já pesam nos ombros de Leidner, mas ele é louco pela mulher e fica preocupado por vê-la assim. Pensa que vai ficar mais tranquilo sabendo que uma pessoa responsável, com conhecimento especializado, está cuidando dela de perto.

– E o que a própria sra. Leidner acha disso?

O dr. Reilly respondeu em tom sério:

– A sra. Leidner é encantadora. É raro manter a mesma opinião sobre um assunto dois dias a fio. Mas no geral aceitou bem a ideia. – E acrescentou: – Meio excêntrica. Afetuosa como ela só, mas mente até não poder mais... O fato é que Leidner acredita piamente que ela está mesmo assustada por uma razão ou outra.

– O que ela lhe contou, doutor?

– Ah, ela não me consultou! Não gosta de mim, aliás... por vários motivos. Foi Leidner quem me procurou e expôs esse plano. E aí, enfermeira, que tal? Conheceria mais um pouco do país antes de ir para casa... A temporada dura mais dois meses. E escavar é um trabalho bem interessante.

Um instante de hesitação e análise.

– Bem – ponderei –, acho que posso tentar.

– Ótimo – disse o dr. Reilly, levantando-se. – Hoje Leidner está em Bagdá. Vou avisá-lo para passar em seu hotel para ver se acerta os detalhes.

O dr. Leidner veio ao hotel naquela tarde. Meia-idade, modos deveras nervosos e vacilantes, com um jeitinho meigo e afável, quase indefeso.

Pareceu dedicado à esposa, mas reticente quanto ao problema dela.

– Sabe – comentou, cofiando a barba com ar meio perplexo, gesto que mais tarde descobri ser sua marca registrada –, minha mulher está mesmo com os nervos fragilizados. Ando... muito preocupado com ela.

– Ela está em boa saúde física? – perguntei.

– Sim, acho que sim. O problema dela não é físico, eu diria. Mas... bem... ela imagina coisas, sabe.

– Que tipo de coisas? – perguntei.

Mas ele se esquivou, limitando-se a murmurar em tom perplexo:

– Ela se descontrola por coisas mínimas... Não consigo mesmo ver fundamento no medo dela.

– Medo de quê, dr. Leidner?

Respondeu vagamente:

– Ah, apenas... pânico nervoso, sabe.

Posso apostar, pensei comigo, que o problema envolve drogas. E ele nem se dá conta! Muitos homens não notam. Só se perguntam por que suas mulheres andam tão nervosas e com mudanças de humor tão extraordinárias.

Perguntei se a própria sra. Leidner gostava da ideia de minha contratação.

Um sorriso clareou-lhe o rosto.

– Sim. Foi uma surpresa. Uma surpresa bem agradável. Ela achou a ideia excelente. Disse que vai se sentir bem mais segura.

A expressão me causou um impacto estranho. Mais segura... Expressão esquisita. Imaginei que a sra. Leidner tivesse problemas mentais.

Ele continuou com uma espécie de ansiedade juvenil.

– Tenho certeza de que vocês duas vão se dar bem. Ela é uma pessoa encantadora. – Abriu um sorriso contagiante. – Ela sente que você será um grande conforto para ela. Tive a mesma sensação quando vi você. Se me permite dizer, você aparenta vender saúde e bom-senso. Sem dúvida, é a pessoa ideal para cuidar de Louise.

– Bem, podemos tentar, dr. Leidner – afirmei contente. – Meu desejo é ser útil para sua esposa. Talvez ela tenha medo do contato com o povo local?

– Ah, não, minha nossa. – Sacudiu a cabeça, achando graça da ideia. – Minha mulher adora os árabes... Aprecia a simplicidade e o senso de humor deles. Esta é apenas a segunda temporada dela aqui (estamos casados há menos de dois anos), mas ela já fala árabe razoavelmente.

Fiquei calada por alguns instantes; em seguida, fiz nova tentativa.

– Não pode me contar do que afinal a sua mulher tem medo, dr. Leidner?

Ele titubeou. Respondeu devagar:

– Espero... acredito... que ela mesma vai lhe contar.

E isso foi tudo que eu consegui extrair dele.