Morte na Mesopotâmia

Agatha Christie · Capítulo 13 de 30

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Morte na Mesopotâmia

Capítulo 12 - “Não acreditei...”

CAPÍTULO 12

 

“Não acreditei...”

 

– Não. Não!

Agitado, o dr. Leidner começou a andar para lá e para cá.

– Impossível o que está dizendo, Reilly. Totalmente impossível. Um de nós? Puxa vida, todos os membros da expedição gostavam de Louise!

Um esgar esquisito, quase imperceptível, fez baixar os cantos da boca do dr. Reilly. Em razão das circunstâncias era difícil para ele dizer alguma coisa, mas jamais houve silêncio mais eloquente.

– Impossível mesmo – reiterou o dr. Leidner. – Todos demonstravam afeição por ela. Louise tinha um encanto natural e contagiante.

O dr. Reilly tossiu.

– Vai me desculpar, Leidner, mas afinal de contas essa é apenas a sua opinião. Se algum membro da expedição não gostasse de sua esposa, naturalmente não iria alardear o fato a você.

Angustiado, o dr. Leidner considerou:

– Sim... isso não deixa de ser verdade. Mas mesmo assim, Reilly, acho que está enganado. Tenho certeza de que todos estimavam Louise.

Calou-se por um instante e logo explodiu:

– Que ideia infame! É... é incrível demais.

– Não podemos fugir dos... ahn... fatos – afirmou o capitão Maitland.

– Fatos? Que fatos? Mentiras contadas por um cozinheiro indiano e por uma dupla de criados domésticos árabes. Conhece esse pessoal tão bem quanto eu, Reilly, e o capitão Maitland mais ainda. A verdade ao pé da letra não diz nada para eles. Falam o que a gente quer por mera questão de polidez.

– Mas nesse caso – retorquiu o dr. Reilly com frieza – estão dizendo o que não queremos que digam. Além disso, não é de hoje que conheço os hábitos de seus funcionários. Consideram aquele espaço do lado de fora do portão uma espécie de clube social. Sempre que venho aqui durante a tarde, encontro a maioria dos empregados ali. É o lugar natural para eles ficarem.

– Em todo caso, estão presumindo coisas demais. Por que esse homem (esse demônio) não pode ter entrado antes e se escondido em algum lugar?

– Concordo, não é de todo impossível – reconheceu o dr. Reilly, sem expressar emoção. – Vamos supor que um intruso tenha de algum modo conseguido entrar sem ser visto. Teria que permanecer escondido até o instante exato (e com certeza não poderia tê-lo feito no quarto da sra. Leidner, onde não há como se esconder) e correr o risco de ser flagrado ao entrar no quarto e sair dele... com Emmott e o garoto no pátio a maior parte do tempo.

– O menino dos potes. Tinha me esquecido dele – disse o dr. Leidner. – Rapazinho esperto. Mas com certeza, Maitland, ele tem que ter visto o assassino entrar no quarto de minha mulher, não acha?

– Já elucidamos esse pormenor. O garoto lavou potes a tarde toda, menos num breve intervalo. Por volta da uma e meia (Emmott não conseguiu ser mais exato), Emmott subiu ao terraço e ficou por lá com o senhor uns dez minutos, não é mesmo?

– Sim. Não me lembro da hora exata, mas deve ter sido por aí.

– Ótimo. Bem, naqueles dez minutos, o menino, aproveitando a oportunidade de matar tempo, saiu e foi jogar conversa fora com os demais no lado externo do portão. Quando Emmott desceu do terraço, percebeu a ausência dele e o chamou indignado, perguntando por que diabos ele havia abandonado o trabalho. Na minha percepção, a sua mulher deve ter sido assassinada durante aqueles dez minutos.

Com um gemido, o dr. Leidner sentou-se e escondeu o rosto nas mãos.

O dr. Reilly retomou a palavra, com a voz calma e pragmática.

– O horário se encaixa com a prova médica – informou. – Ela já estava morta há umas três horas quando a examinei. A única dúvida... quem a matou?

Seguiu-se um silêncio. O dr. Leidner endireitou-se na cadeira, passou a mão na testa e, em voz baixa, reconheceu:

– O raciocínio é válido, Reilly. Sem dúvida, parece ter sido o que se chama de “serviço interno”. Mas, estou convencido, deve haver um equívoco. É plausível, mas tem que haver uma falha nisso. Para começo de conversa, vocês partem do pressuposto que ocorreu uma coincidência fantástica.

– Curioso você utilizar essa palavra – disse o dr. Reilly.

Sem lhe dar ouvidos, o dr. Leidner prosseguiu:

– Minha esposa recebe cartas ameaçadoras. Tem motivo para temer certa pessoa. A seguir... é assassinada. E querem que eu acredite que foi morta... não por essa pessoa... mas outra bem diferente! Isso é ridículo.

– É o que parece... sim – anuiu Reilly, pensativo.

Mirou o capitão Maitland.

– Coincidência, hein? O que me diz, Maitland? Concorda com a ideia? Abrimos o jogo com Leidner?

O capitão Maitland balançou a cabeça afirmativamente.

– Vá em frente – limitou-se a dizer.

– Leidner, já ouviu falar em Hercule Poirot?

O dr. Leidner fitou-o perplexo.

– Acho que já ouvi falar nele, sim – respondeu em tom vago. – Certa vez escutei um amigo, o sr. Van Aldin, mencionar o nome dele nos termos mais elogiosos. É um detetive particular, não é mesmo?

– O próprio.

– Mas com certeza mora em Londres. Que serventia isso tem para nós?

– Mora em Londres, sim – retorquiu o dr. Reilly –, mas aí entra a coincidência. Hoje ele não está em Londres, e sim na Síria. Na verdade, amanhã vai passar por Hassanieh, a caminho de Bagdá!

– Quem lhe contou isso?

– Jean Berat, o cônsul da França. Jantou conosco ontem à noite e mencionou o nome dele. Ao que consta, ele esteve desemaranhando um escândalo militar na Síria. Vai passar aqui para visitar Bagdá, depois retorna à Síria e parte para Londres. Quer maior coincidência que essa?

O dr. Leidner vacilou um instante e mirou o capitão Maitland como quem se desculpa.

– O que acha, capitão Maitland?

– Qualquer cooperação é bem-vinda – respondeu na mesma hora o capitão Maitland. – Meus homens são bons batedores para explorar o campo e investigar vendetas familiares, mas francamente, Leidner, esse negócio de sua esposa parece fora de meu alcance. A coisa toda é suspeita demais. Estou mais do que ansioso para que esse sujeito dê uma olhada no caso.

– Sugere que eu peça a esse tal Poirot para nos ajudar? – indagou o dr. Leidner. – E supondo que ele recuse?

– Não vai recusar – disse o dr. Reilly.

– Como sabe?

– Também sou profissional. Se, digamos, um caso complicado de meningite cerebrospinal aparecesse em minha frente e me pedissem ajuda, eu não seria capaz de recusar. Esse crime é incomum, Leidner.

– Sim – concordou o dr. Leidner. Seus lábios se contraíram em aflição súbita. – Reilly, poderia entrar em contato com esse Hercule Poirot em meu nome?

– Claro.

O dr. Leidner agradeceu com um gesto.

– Até agora – murmurou devagar – ainda não consegui acreditar que Louise esteja realmente morta.

Não suportei mais.

– Ah! Dr. Leidner – irrompi –, não tenho palavras para expressar o quanto me sinto mal pelo que aconteceu. Fracassei tanto no meu dever. Era obrigação minha cuidar da sra. Leidner... e protegê-la de quaisquer males.

O dr. Leidner meneou a cabeça gravemente.

– Não, enfermeira, não há motivo algum para ficar se censurando – reconfortou devagar. – O culpado, que Deus me perdoe, sou eu... Durante o tempo todo, não acreditei... não acreditei... Nem por um instante sequer sonhei que existia perigo real...

Levantou-se. O rosto dele estremeceu.

– Deixei que ela encontrasse a morte... Sim, deixei que ela encontrasse a morte... por não acreditar...

Saiu do aposento, cambaleante.

O dr. Reilly fitou-me.

– Também me culpo – afirmou. – Achava que a falecida estava brincando com os nervos dele.

– Eu também não levei a sério – confessei.

– Nós três erramos – constatou o dr. Reilly com seriedade.

– É o que parece – completou o capitão Maitland.