Mulher de Fogo
Leander e Blair subiram o morro de…
LEANDER E BLAIR subiram o morro de mãos dadas até a cabana. Paravam de vez em quando para beijar-se, e Lee começou a puxar as roupas de Blair e ela as dele até que, quando alcançaram o alto bem defronte da cabana, ambos estavam desabotoados até a cintura.
Mas a alegria acabou quando olharam para cima em direção à cabana, pois lá em frente da varanda estava Reed Westfield.
O rosto de Lee no mesmo instante tornou-se sombrio, ao colocar-se entre Blair e a cabana e começar a abotoar a camisa dela.
— Escute-me — disse gentilmente. — Penso que terei de partir outra vez. Não posso imaginar meu pai vindo até aqui a não ser por uma emergência.
— Emergência? Eu posso... — Alguma coisa nos olhos dele a fizeram parar e seu maxilar endureceu. — É aquele tipo de emergência? Daquele em que tenho de ser excluída, em que não sou confiável? A emergência que é somente para homens?
Ele colocou as mãos em seus ombros.
— Blair, você tem de confiar em mim. Eu lhe contaria se pudesse. Mas, para seu próprio bem...
— Para meu próprio bem, devo continuar ignorando. Compreendo muito bem.
— Você não compreende nada! — disse Lee, os dedos apertando-a fortemente. — Você só vai ter de confiar em mim. Se eu pudesse lhe contar, contaria.
Ela afastou-se dele com rapidez.
— Compreendo perfeitamente. Você é bem igual ao senhor Gates. Tem idéias rígidas sobre o que uma mulher pode e não pode fazer e não confia o bastante em mim para contar o que faz quando desaparece tão misteriosamente. Diga-me, o que pretende deixar-me fazer agora que estamos casados? Isto é, além de dirigir sua casa e alegremente compartilhar sua cama? Posso continuar praticando medicina, ou sou muito incompetente para fazer isso também?
Lee virou os olhos para o céu, como se procurasse ajuda.
— Está bem, entenda como quiser. Você parece pensar que sou um monstro. Portanto, serei um. Meu pai está aqui por uma razão importante, e eu tenho de deixá-la agora. Não posso lhe contar aonde estou indo, ou contaria. O que gostaria que você fizesse agora é que voltasse para Chandler com meu pai, e estarei em casa o mais breve possível.
Blair não disse mais nenhuma palavra ao passar por ele. Subiu o morro e dirigiu-se à cabana. Era difícil para ela ao menos olhar para Reed. Ele jamais gostara dela, desde criança, quando a pegara preparando uma peça para seu precioso filho. Quando Lee dissera que queria casar com Blair, Reed participara daquele pavoroso interrogatório a que Gates a submetera. E, mais tarde, tinha mentido categórica e francamente para ela, inventando aquela historia sobre Lee e a francesa.
Portanto, ao passar por ele e entrar na cabana, não podia ser nem calorosa ou mesmo especialmente cordial. Cumprimentou-o com frieza e entrou.
Mesmo quando ficou sozinha, não se permitiu relaxar. O que tinha ela esperado exceto ser tratada daquele modo? Lee dizia que a amava. Mas que homem não amaria uma mulher que fosse uma Parceira de cama tão entusiasta como ela? E o senso de honra de Lee o fizera sentir-se obrigado a casar com ela, uma vez que era virgem naquela primeira noite.
Blair subiu as escadas para tirar as roupas de homem que estava usando e vestir seu uniforme de médica outra vez. A janela estava aberta, é através dela podia ouvir vozes. Quando olhou para fora pôde ver Lee e o pai a uma pequena distância da cabana e, pelo jeito de seus gestos, estavam zangados um com o outro.
Lee estava agachado na grama, mastigando um talo, enquanto Reed usava cada centímetro de seu corpo pesado para curvar-se sobre o filho de uma maneira intimidadora. Para Blair, parecia que o pai estava ameaçando Lee.
Sem cuidados, aproximou-se um pouco mais da janela. Algumas palavras chegaram até ela, palavras que Reed enfatizava com um dedo apontado para Lee: "...perigo...", "...arriscar sua vida...", "...Pinkerton..."
Ela recuou. "Pinkerton?", murmurou, fechando os últimos botões de seu uniforme. O que tinha Lee com a agência de detetives de Pinkerton?
Por um momento, sentou-se na cama. Não tivera muito tempo para pensar sobre onde Lee fora na noite de núpcias. Reed mentira para ela, e ela acreditara nele. Ela estava disposta a acreditar que Lee amava outra pessoa; ela estava propensa a acreditar que ele estava correndo para um covil de marginais para salvar o chefe de uma infecção sangüínea. Mas se Lee estivesse envolvido em alguma outra coisa, alguma coisa... Ela hesitou mesmo em pensar em que ele poderia estar envolvido. Talvez estivesse ajudando os Pinkerton. Mas pela maneira como Reed estava avisando o filho, não seria bem isso.
Leander estava envolvido em alguma coisa ilegal. Ela sabia, sentia isso. E era por isso que não podia contar-lhe o que estava fazendo. Ele queria que ela permanecesse inocente.
Lentamente, com os pés pesados, Blair foi para baixo e chegou na porta bem quando Lee estava entrando.
— Tenho de ir — disse ele, observando-a.
Blair olhou para ele. Em que ato de criminalidade estava Lee metido? E por quê? Precisava de dinheiro? Pensou nos novos eqipamentos médicos que ele encomendara em Denver. Deviam ter custado uma grande quantia, e todos sabiam que um médico ganhava pouco dinheiro. Claro, Lee herdara dinheiro de sua mãe, mas quem sabia a quanto montava? Estava ele fazendo aquilo para poder abrir a clínica? Para que pudesse ajudar o povo?
— Eu sei — disse ela, pondo a mão em seu braço.
Ao olhar para ela, pareceu respirar aliviado.
— Não está mais zangada?
— Não, acho que não.
Beijou-a de uma maneira dolorosamente doce:
— Voltarei assim que puder. Papai levará você para casa.
Antes que outra palavra fosse dita, estava montado em seu enorme cavalo e descendo a montanha, fora do alcance de sua vista.
Blair montou o cavalo que Reed trouxera para ela, e começaram a longa jornada para casa, em silêncio. A maior parte da trilha, entre pinheiros, atravessando pequenos regatos, tinha de ser feita, por necessidade, em fila única. Blair estava intrigada com o desaparecimento de Lee, dizendo a si mesma que sua conclusão estava errada, e rezando para que não estivesse em perigo.
A poucos quilômetros fora de Chandler, quando o terreno era plano e seco, Reed levou seu cavalo para andar ao lado dela.
— Acho que você e eu começamos com o pé errado — disse Reed.
— Sim — respondeu ela honestamente. — Desde quando eu tinha oito anos.
— Ah, sim, as brincadeiras. Sabe, eu não teria sabido delas, só que minha esposa descobriu algumas delas. Lee nunca disse uma Palavra. Helen dizia que eram feitas por uma menina. Ela dizia que os meninos são inteligentes, mas não espertos como uma menina, e aquelas travessuras eram bastante engenhosas. Ela ficara muito interessada desde que vira você trocando as minhocas de Pesca por uma cobra. "Blair Chandler", disse ela. "Devia ter adivinhado que era ela. Ela sempre teve um extraordinário interesse em Lee." Não sei o que ela quis dizer com isso, mas sei que ria um bocado cada vez que ouvia sobre outra travessura.
— Se Lee não contou a ela, como foi que descobriu?
— Algumas vezes foi Nina, outras, a professora de Lee. Uma vez, Lee voltou da escola com dor de estômago, e Helen, depois de pô-lo na cama, voltou à cozinha para ver a lancheira de lee movendo-se lentamente pela mesa. Ela disse que quase morreu de medo antes de conseguir abri-la o suficiente para ver o que havia dentro. Era um sapo cornudo, que com satisfação pôs em seu jardim.
— Não é de espantar que não ficasse feliz quando Lee disse que ia casar comigo.
Reed ficou quieto por um momento, movendo com facilidade seu cavalo.
— Vou lhe contar minha maior preocupação com você e Lee e não tem nada a ver com aquelas brincadeiras. A verdade é que meu filho trabalha demais. Mesmo quando menino, costumava assumir três tarefas ao mesmo tempo. Por alguma razão, Lee pensa que os problemas do mundo são de sua responsabilidade. Fiquei orgulhoso quando disse que queria ser um médico, mas também preocupado. Tive medo de que fizesse exatamente o que tem feito: assumir em demasia. Ele trabalha no hospital, e dirige o lugar apesar de o doutor Webster ter o título de administrador. Lee também atende os casos de todos na cidade. Quatro noites por semana sai correndo para atender chamados. E ainda visita o pessoal do campo.
— E você tem medo de que eu seja mais uma carga para ele? — murmurou Blair.
— Bem, você tem de admitir que sempre acontecem coisas a sua volta. Queria que Lee se casasse com alguém que ficasse em casa, costurasse e fizesse um lar para ele. Não é que eu tenha tido alguma coisa contra você, mas dê uma olhada no que tem acontecido nas últimas poucas semanas desde que você voltou para Chandler.
— Entendo o que quer dizer — disse Blair, enquanto as cenas de acontecimentos após acontecimentos passavam pela sua cabeça. — Acho que Lee não tem tido muito descanso, não é?
— Ele quase se mata para tentar impressionar você, para mostrar como era um bom médico. — Parou e sorriu para ela. — Mas em algum momento nessa trajetória, comecei a ver o quanto ele a queria.
— Sim, acredito que sim — murmurou, imaginando se o fato de querê-la levara-o a fazer fosse o que fosse, que fazia em segredo.
Ela e Reed entraram em Chandler em silêncio, os últimos quilômetros sob a luz das estrelas. Ele deixou-a na casa em que morava com Leander, e Blair entrou com o coração pesado. Estaria ele devendo também por aquele lugar?
Tomou um banho rápido e, cansada, subiu na cama vazia. Parecia destinada a passar todas as noites naquela casa sozinha.
Na manhã seguinte, às seis horas, foi acordada pelo toque do telefone. Ainda sonolenta, desceu as escadas.
A telefonista, Caroline, disse:
— Blair-Houston, quatro carroças de carga de Denver acabaram de chegar e os condutores estão esperando Leander no velho armazém na avenida Archer.
— Ele não pode ir, mas estarei lá em quinze minutos.
— Mas é o equipamento médico, e Leander precisa dizer-lhes onde colocá-los.
— De acordo com meu diploma, eu sou uma médica — disse Blair com uma voz gelada.
— Eu não quis dizer nada, tenho certeza. Estava só transmitindo o recado. — Hesitou. — Por que Leander não pode ir?
Mulher intrometida! pensou Blair. Não estava a fim de lhe dizer que Lee fora em outras de suas missões misteriosas.
— Porque eu o deixei exausto — disse, e desligou o telefone com um sorriso. Aquilo lhe daria algum motivo para fofocar.
Blair voou escada acima e minutos mais tarde estava correndo pela rua enquanto ainda prendia o cabelo. Quando chegou no alto da avenida Archer, viu os homens encostados nas carroças e parecendo impacientes.
— Alô, sou a dra. Westfield.
Um homem corpulento, a boca cheia de tabaco, olhou-a de cima a baixo por um momento, enquanto os outros espiavam em volta da armação das carroças, como se estivessem tentando não mostrar interesse numa aberração da natureza. O primeiro cuspiu uma grande quantidade de sumo de tabaco.
— Onde quer que isso seja descarregado?
— Lá dentro — disse, apontando para o armazém.
Logo surgiram problemas. Ela não tinha a chave, nem tinha qualquer idéia de onde Lee a guardara. Os homens ficaram ali parados, olhando para ela ceticamente, como se aquilo fosse o que pudessem esperar de uma mulher que se dizia doutora.
— É uma pena que não possamos entrar — disse ela com tristeza —, porque meu padrasto é dono da cervejaria Chandler, e ele prometeu um barril de cerveja, como agradecimento, para os homens que me ajudassem com o novo equipamento. Mas suponho...
O som de um vidro quebrado cortou suas palavras.
— Desculpe, senhora — disse um dos homens. — Acho que me encostei na janela com muita força. Mas parece que talvez alguém pequeno possa entrar por aqui.
Um momento mais tarde, Blair estava dentro e desaferrolhan-do a porta da frente para eles. Com a luz do sol entrando, podia ver o lugar: teias de aranha penduradas, o chão numa desordem, o teto com pelo menos três goteiras.
— Ponha ali — disse ela, distraída, apontando para um canto que pelo menos parecia seco, mesmo que não estivesse limpo. Enquanto os homens descarregavam, andava pela única sala grande e tentava imaginar como ficaria arrumada para a clínica.
Os homens trouxeram mesas de carvalho, armários com pequenas gavetas, armários altos com portas de vidro, grandes pias, caixas pequenas de instrumentos, estojos de ataduras e algodão, tudo para uma enfermaria bem equipada.
— Parece ser o suficiente?
Ela virou-se e viu Lee, parado, inspecionando caixotes e móveis. Ele a estava observando com os olhos apertados, um charuto aceso entre os lábios. Suas roupas estavam sujas e parecia cansado.
— Mais do que suficiente — disse ela, e imaginou quanto teria custado a ele. — Você parece exausto. Devia ir para casa e dormir. Vou conseguir algumas mulheres daqui para limparem este lugar.
Com um sorriso, ele atirou-lhe uma chave.
— Isto é para poupar o resto das janelas. Venha logo para casa — disse com uma piscada e foi-se embora.
Por um momento, Blair sentiu lágrimas subirem aos olhos. O que quer que estivesse fazendo, era para ajudar outras pessoas, com certeza. Por mais que aquele equipamento tivesse lhe custado, ele estava fazendo qualquer coisa para pagar o preço.
Quando os homens terminaram de descarregar, eles lhe deram uma carona de volta até sua casa, e ela ligoupara a mãe, explicando sobre a cerveja. Opal disse que o sr. Gates estava tão satisfeito por Blair ter afinal casado com um homem decente que sem dúvida ele daria um barril de cerveja aos homens.
Em seguida, Blair ligou para Houston, pois ela saberia a quem chamar para limpar o armazém. Na verdade, por volta das dez horas, o lugar estava cheio de mulheres com panos nas cabeças, vassouras voando, grandes baldes de água cheios de esfregões e escovas, trabalhando.
Por volta das onze, ela falou com o sr. Hitchman, que construíra a casa de Chandler, e arranjou que seus dois filhos começassem a reforma, de acordo com os planos de Leander.
Às duas, Lee voltou e, em meio a barulho e pó, ela lhe contou o que já providenciara.
Protestando que não lhe era possível sair, ela permitiu que ele a empurrasse para sua carruagem e a levasse para a cidade, para a casa de chá da srta. Emily.
A srta. Emily deu uma olhada em Blair e mandou-a para os fundos com uma ordem de lavar tudo que fosse possível do corpo, porque estava toda suja. Quando ela retornou, Lee estava atrás de uma mesa cheia de pequenos sanduíches de frango e bolos gelados com cobertura de morango.
Blair, faminta, começou a encher a boca e falar ao mesmo tempo:
— ...e nós podemos usar o armário alto, aquele com a prateleira, na cirurgia, e penso que aquela pia grande podia ir...
— Vá devagar por um minuto. Todo o serviço não tem de ser feito num dia.
— Não penso que possa ser. É que esta cidade precisa de um lugar para mulheres. Anos atrás, minha mãe levou-me para ver a enfermaria de mulheres daqui. Ainda é muito ruim?
— Pior do que possa imaginar — disse Lee seriamente, e então tomou-lhe a mão e beijou-a. — Então, por que está perdendo tempo? Vamos sair daqui e tratar de trabalhar. A propósito, liguei para sua irmã e ela está contratando uma empregada e uma governanta para nós.
— Duas? — perguntou Blair. — Podemos pagar duas?
Ele deu-lhe um olhar espantado.
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