Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 6 de 8 · parte 1/3

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Mulher de Fogo

— E fazer o quê? Ela já…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— E fazer o quê? Ela já está casada e, além disso, o que há de errado com Alan? Penso què ele dará um marido muito bom.

Rapidamente a raiva deixou Leander.

— Acredito que sim. Mas por que ela não podia ficar aqui e casar em público? Por que tinha de fugir como se tivesse vergonha dele?

— Nina e eu fomos amigas a vida toda, e imagino que estava com medo de mim. Afinal, não me casei com o homem com quem originariamente planejava, assim talvez pensasse que eu ficaria zangada por Alan ter me deixado na estação de trem. Sem dúvida ele deixou-me por Nina.

Leander recostou-se numa árvore e tirou um charuto do bolso.

— Você parece tremendamente fria sobre isso. Dei-lhe a chance de desistir. Poderia ter voltado para a Pensilvânia. Você teve a oportunidade.

Tempos depois, Blair pensava que fora naquele momento que se apaixonara por Leander. Ele fizera tudo para conquistá-la, no entanto estava ali como um menino zangado, dizendo que ela não tinha de casar com ele, que a deixaria partir.

— E o que teria feito se eu tivesse partido no trem? Parece que me lembro de você me sacudindo e dizendo que eu iria me casar com você e que não tinha de dar opinião no assunto — disse ela com meiguice, movendo-se para ficar na sua frente, a mão tocando a gola dele. Em volta dela estavam espalhados metros do maravilhoso cetim de seda, os bordados de contas lançando cores na luz suave do jardim.

Ele observou-a por um momento, jogou então o charuto no chão e puxou-a para si num beijo apaixonado, mantendo-a bem junto, tentando fazer de seus corpos um só. Pôs a cabeça dela em seu ombro, quase sufocando-a ao abraçá-la como uma mãe abraça uma criança que quase se perdeu.

— Você o escolheu, foi à estação para ir com ele.

Blair tentou desvencilhar-se da cascata de véu e de seu abraço. Queria olhá-lo.

— Isso agora está para trás — disse, olhando-o bem dentro dos olhos e pensando no homem que havia atrás daquele rosto atraente. Lembrava-se das muitas vezes que o vira trabalhando para salvar uma vida, especialmente no dia em que trouxeram um velho vaqueiro ferido por um touro; quando fora incapaz de salvá-lo, e o homem morrera na mesa de operação, Blair tivera a certeza de que havia lágrimas nos olhos de Lee. Ele dissera que conhecia o velho há anos, e doía saber que tinha morrido.

Naquele momento, envolvida em seu abraço, sabia que tinha se casado com o homem certo. Alan não a amara realmente, nem ela a ele. Não podia num minuto exigir que ela se decidisse e poucas horas depois deixá-la plantada na estação. E ela se lembrava de como se sentira aliviada quando ele não apareceu.

— Muita coisa aconteceu entre nós — disse ela, ao passar a mão pelo rosto dele. Era bom poder tocá-lo, como quisera desde aquela noite juntos. Ele era dela daquele momento em diante, total e completamente dela. — Mas hoje é o marco de um novo começo, e gostaria de começar com uma base nova. Você e eu trabalhamos bem juntos, e temos... outras coisas em comum — disse, movendo os quadris de leve contra ele. — Quero que este casamento dê certo. Que tenhamos filhos, quero que continuemos a trabalhar juntos e quero que nós... nos amemos. — Disse o final com hesitação, porque tudo o que ele já dissera era que a desejava, e amor nunca entrara no caso.

— Crianças — murmurou ele, puxando-a ainda mais para perto. — Especialmente, façamos crianças. — Começou a beijá-la como se estivesse faminto.

— Aqui estão eles — gritou alguém. — Agora parem com isso. Vocês têm a vida toda para se beijarem. Agora, vocês têm de vir e participar da festa. O bolo tem de ser cortado.

Blair afastou-se do marido com relutância. Mais alguns minutos de seus beijos e estaria rolando na grama com ele.

Com um suspiro, Lee tomou a mão dela na sua e levou-a de volta para o agrupamento de pessoas reunidas em um dos enormes e macios gramados de Taggert.

Logo após o bolo ter sido cortado, os convidados os separaram e diversas mulheres começaram a fazer a Blair centenas de perguntas sobre Houston e para onde tinha ido.

— Aquele homem deixou minha filha surpresa — disse Opal de uma maneira tão séria que ninguém pensava em não acreditar. — Ambas as minhas filhas casaram-se com homens decididos, que sabem exatamente o que querem e vão atrás.

Duas das mulheres da audiência de Opal pareciam que iam desmaiar com as histórias românticas.

— Mamãe — disse Blair, estendendo-lhe um prato. — Prove uma fatia de presunto. — Inclinou-se de modo que só Opal pudesse ouvi-la. — Agora sei de onde Houston e eu herdamos nossa habilidade para representar.

Opal sorriu para as mulheres, pegou o prato de Blair e deu-lhe uma piscadela. Com uma risada, Blair foi embora, deixando sua mãe para fazer alarde de seus novos genros.

A tardinha, houve dança na biblioteca e, claro, Leander e Blair tiveram que dar início a ela. Diversas pessoas perguntaram se tinha sido ela quem estivera naquela noite na recepção do governador e não Houston. Tanto Blair como Lee riram em segredo, e ele levava-a em seus braços outra vez, rodopiando pelo salão de dança brilhante.

— Já é hora de deixarmos essas pessoas e irmos para casa. Não penso que posso esperar ainda muito tempo para fazê-la minha — murmurou Leander em seu ouvido ao abraçá-la.

Blair nem ao menos concordou, mas prendeu a cauda em volta do braço e rapidamente deixou a sala para subir e vestir a roupa de sair. Sua mãe ajudou-a e ficou em silêncio até que Blair ficasse pronta.

— Leander é um bom homem, e eu sei que vocês tiveram alguns problemas, mas acho que será um bom marido para você — disse Opal.

— Também acho — disse Blair, radiante num conjunto azul elétrico que Houston escolhera para ela. — Penso que ele será o melhor dos maridos. — E eu sei que será o melhor dos amantes, pensou, e então beijou rapidamente sua mãe e desceu correndo as escadas para encontrar-se com Leander.

No meio de chuvas de arroz, tão pesadas que a saúde deles foi ameaçada, deixaram a mansão de Taggert e foram para a pequena e bonita casa que seria o lar deles.

Mas uma vez que estavam afastados da multidão, Blair começou a sentir-se tímida e envergonhada. A partir de então, sua vida estaria ligada àquele homem a quem conhecia só profissionalmente. O que sabia ela sobre ele pessoalmente? O que fizera em sua vida além de estudar medicina?

Em casa, Lee pegou-a e carregou-a através da porta, lançou um olhar em seu rosto pálido e disse:

— Esta não é a mulher que arriscou a vida para manter o queixo de um homem limpo, é? Você não está com medo de mim, está?

Como Blair não respondeu, falou:

— O que você precisa é de um pouco de champanha. E nós dois sabemos que dá certo, não sabemos?

Colocou-a no chão na sala de entrada e dirigiu-se para a direita, para a sala de jantar. Blair na realidade não vira a casa, e foi para a esquerda, para a sala de visitas. Atrás da sala havia um pequeno quarto de hóspedes. A mobília era pesada e escura, mas mesmo assim a sala era agradável, com papel de parede listrado de azul e branco e um barrado de rosas pálido ao longo do alto da parede. Sentou-se num sofá forrado de cetim.

Leander voltou com duas taças de champanha e uma garrafa gelando num balde de prata em uma bandeja.

— Espero que goste do lugar. Houston o preparou. Acho que não me importei muito com o que ela fazia. — Sentou-se na outra ponta do sofá, afastado dela, parecendo perceber sua vergonha.

— Eu gosto. Não sei muito sobre decoração de casas, e Houston é muito melhor nisso do que eu. Provavelmente pediria a ela para decorar a casa, de qualquer forma. Mas agora ela tem a de Taggert.

— Vocês duas esclareceram tudo?

O champanha fazia Blair relaxar e Lee tornou a encher o copo.

— Houston disse que se apaixonou por Taggert. — O rosto de Blair mostrava sua incredulidade. — Não posso imaginar minha irmã com aquele camponês grosseiro e arrogante. Por que preferiria ele a você, é... — Parou, parecendo embaraçada.

Leander sorria para ela.

— Obrigado pelo cumprimento. — Curvou-se no sofá e começou a brincar com os caracóis que escapavam do esmerado coque que Houston fizera naquela manhã, e lentamente começou a remover os grampos dos cabelos. — Os opostos sempre parecem se atrair. Olhe para mim e você. Aqui estou eu, um ótimo cirurgião, e você, ótima para esposa e mãe, vai guardar todas as minhas meias nos lugares devidos, e fará com que a casa seja um lugar confortável para quando eu voltar e...

Blair quase engasgou com o champanha.

— Está dizendo que espera que eu desista da medicina para cuidar de você? — explodiu ela. — De todas as idéias erradas, estúpidas, que já ouvi, esta é uma das piores. — Com muita raiva, bateu o copo numa mesinha lateral e levantou-se. — Sempre tentei dizer a Houston como você se parecia com Gates, mas ela não me ouvia. Digo-lhe uma coisa, Leander Westfield, se casou comigo pensando que eu desistiria da medicina, podemos terminar com este casamento agora.

Leander sentou-se no sofá enquanto ela estava de pé esbravejando, e então, na metade de seu discurso, lentamente levantou-se para se postar à sua frente. E, quando ela começou a se acalmar, sorriu-lhe.

— Você tem muito a aprender sobre mim. Não sei bem por que está sempre pronta para pensar no pior sobre mim, mas espero provar-lhe o contrário. E estou disposto a passar o resto de minha vida lhe ensinando. Mas as aulas só começam amanhã — disse ele, envolvendo-a em seus braços e puxando-a para si. Blair agarrou-se a ele, e, quando os lábios dele tocaram os seus, sentiu que nunca mais iria deixá-lo ir. Tinha consciência de não saber nada sobre ele. Ignorava por que ele quisera casar com ela, se meramente a tolerava trabalhando junto, a fim de poder ganhar a competição, como Alan dissera, ou gostara, como ela, do tempo que passaram juntos.

Mas, naquele momento, não se importava. Tudo em que podia pensar era nos braços dele envolvendo-a, o corpo dele junto do seu, o calor que estava provocando e que a estava fazendo sentir-se ótima.

— Esperei um longo tempo por este novo encontro — disse, enrolando o cabelo dela em seu pulso, a outra mão acariciando seu pescoço e rosto. — Suba e prepare-se. Hoje vou ser um cavalheiro, mas não o serei outra vez. Assim sendo, pode tirar vantagem desta única vez. Pare de olhar para mim desse jeito e suba. Tenho certeza de que sua irmã comprou-lhe alguma roupa de dormir espetacular, mas decente, para esta noite. Portanto, vista-a. Você tem cerca de dez minutos. Talvez.

Blair não o queria deixar, mas o fez e subiu, seguindo as escadas estreitas e curvas, e entrou no quarto. Havia três dormitórios em cima: o principal, um de hóspedes e o outro, de criança. Suas roupas estavam penduradas no guarda-roupa, todos os seus sapatos ao lado dos de Leander, e por um momento pensou que nunca vira algo tão íntimo.

Sobre a cama havia realmente um lindo robe de chiffon branco, com penugem de cisne na bainha e nas mangas, e uma camisola de cetim também branco para usar junto. Blair balançou a cabeça pela extravagância das coisas, mas teve grande vontade de vesti-las. Algumas vezes ficava frustrada pela vida aparentemente inútil de Houston, mas aquele casamento a fizera admirar a irmã como nunca antes. Requerera o planejamento de um general militar, e nenhum detalhe parecia muito insignificante para atrair a atenção de Houston. Ela até mesmo lembrara de fazer com que as roupas da irmã fossem levadas para a casa nova durante o casamento, a fim de que estivessem ali quando voltasse com Leander.

Blair estava vestindo o robe, quando Lee subiu e, pela expressão de seus olhos, não pareceu se importar com o fato de o robe estar caído no ombro de uma maneira desalinhada. Atravessou num pulo o quarto e em segundos tomou-a nos braços. Na verdade, o entusiasmo dele foi tão grande que ela deu um passo para trás, tropeçou na barra do robe e caiu na cama. Lee foi com ela e caíram na cama de penas, flocos de penugem de cisne voando em volta deles.

Começaram a rir, e ele rolou os braços ainda em volta dela, puxando-a, beijando-a, fazendo-lhe cócegas, provocando-lhe gritinhos de prazer. O adorável robe caiu, e ela ficou só com a fina camisola de cetim, enquanto Lee mordiscava seus ombros e rosnava como um urso, fazendo-a rir mais forte. Suas mãos subiam e desciam em seus quadris, contra os tímidos protestos dela sobre nada em particular.

O telefone no térreo começou a tocar antes que a brincadeira se tornasse séria.

— O que é isso? — perguntou Blair, levantando a cabeça.

— Não ouço nada — murmurou Leander, o rosto enterrado no pescoço dela e já descendo para o ombro.

— É o telefone, Lee, você tem de atender. Alguém pode estar doente e precisar de ajuda.

— Qualquer um que perturbe um homem em sua noite de núpcias merece o que tem.

Blair afastou-se dele.

— Lee, você não quis dizer isso. Quando se tornou um médico, foi porque queria ajudar as pessoas.

— Mas não esta noite, não agora. — Tentou puxá-la de volta para seus braços, mas ela resistiu, e o maldito telefone continuava tocando.

— Por que tive de casar com uma médica? — resmungou, enquanto se levantava, arrumava as roupas e lançava a Blair olhares que a faziam estremecer e desviar o olhar.

— Não vá embora. Já volto — falou, antes de descer as escadas. — Assim que matar quem estiver no telefone.

Nem bem pegou o aparelho, a telefonista começou a falar:

— Detesto ter de perturbá-lo logo hoje, entre todas as noites — começou ela. — Mas é seu pai, e ele diz que é urgente.

— É melhor que seja — disse Lee.

Ela então pôs Reed na linha.

— Lee, detesto perturbá-lo, mas é uma emergência. Elijah Smith pode morrer de um ataque de coração, se não for vê-lo já.

Leander respirou fundo. Elijah Smith era o nome de código para problemas na mina. Reed muitas vezes se comunicava com o filho por telefone enquanto estava no hospital, e tinham combinado uma série de mensagens. O pobre sr. Smith teve de tudo, desde envenenamento até varíola, mas um ataque de coração era o que tinham combinado para avisar o pior que podia acontecer: uma revolta.

Lee levantou os olhos para o teto, em direção ao quarto onde Blair esperava.

— Quanto tempo tenho?

— Eles precisaram de você uma hora atrás, mas não vá; alguém mais pode assumir o caso.

— Sim, mas quem? — retrucou Lee, jogando sua raiva contra o pai. Não havia ninguém fora das minas que soubesse o que estava acontecendo lá. E ele se sentia responsável por qualquer revolta, uma vez que era ele quem levava os sindicalistas para dentro.

— Estarei lá o mais rápido que puder — disse, antes de desligar o telefone.

Subindo as escadas, sentindo como se a pior coisa em sua vida acabasse de acontecer, de repente percebeu que teria de dar a Blair uma razão para sair. Não era mais como quando solteiro. Tinha uma mulher que merecia uma explicação e deveria saber para onde ia. No momento estava se sentindo tão infeliz que não conseguia pensar numa mentira — e que os céus evitassem que lhe dissesse a verdade! Com a total falta de instinto de autopreservação de Blair, sem dúvida ela insistiria em ir com ele. E, como se já não tivesse o bastante para se preocupar, não a poria também em perigo.

A melhor maneira seria dar uma desculpa qualquer e sair de casa rapidamente.

Nunca se preparara com tal prontidão em sua vida, e considerando que havia algo como lágrimas em seus olhos, quando olhou para Blair, ali deitada, naquela peça fina de tecido, cada curva e recanto de seu delicioso corpo à mostra, ele deveria merecer um prêmio. Afinal não falou muito, exceto que tinha de sair e voltaria o mais rápido possível. Correu pelas escadas abaixo e estava fora da porta antes que ela pudesse fazer um movimento.

Na casa de seu pai, ainda se sentia infeliz e achando que os mineiros podiam entrar em revolta a noite toda, pelo muito que se importava. Reed contou que um informante falara aos guardas sobre o sindicalista, e que o estúpido voltara ao campo sem Lee. Entrara sorrateiramente por trás da montanha e por sua grande imprudência fora delatado. Os guardas armados vasculhavam cada casa, fazendo ameaças a pessoas inocentes. Leander seria capaz de entrar no campo, e, se pudesse encontrar o sindicalista antes dos guardas, talvez conseguisse salvar a vida do homem e as dos mineiros falsamente acusados de trazerem o homem para dentro do campo. Lee sabia que era o único que podia fazer aquilo, e começou a preparar a carruagem.

— Se Blair vier procurá-lo, não dê pistas de onde fui. Se lhe disser que fui atender um caso, ela quererá saber onde é, para vir ajudar. Invente alguma coisa, mas, seja o que for, nunca a verdade, porque ela apareceria no meio da revolta e eu teria de salvar a ela e ao sindicalista.

Antes que Reed pudesse perguntar que tipo de história seu filho tinha em mente, Lee partiu deixando uma nuvem de poeira e pedregulhos atrás de si.

 

Capítulo XIX

 

A BOCA DE Blair não se fechou por muitos minutos depois que Leander deixou a casa. Não podia acreditar que pouco antes ele estava ali e se fora.

Sentiu raiva num primeiro momento, mas depois sorriu. Devia ser um caso muito sério para levar Lee em sua noite de núpcias, alguma coisa de vida e morte — e que era perigosa, pensou sentando-se. Se não fosse sério, sem dúvida com armas atirando ou marginais assustando pessoas, ele a teria levado junto.

Jogou as cobertas para o lado e apressadamente vestiu seu uniforme médico. O marido estava metido em alguma coisa perigosa e precisaria de sua ajuda.

Embaixo, pegou o telefone. Mary Catherine estava no painel de comando àquela hora da noite.

— Mary, para onde foi Lee?

— Não sei, Blair-Houston — respondeu a jovem. — O pai chamou-o, e logo Leander disse que estava a caminho. Não que eu fique escutando, claro. Nunca faço isso.

— Mas, se você tivesse escutado algumas palavras ao acaso, quais teriam sido? E não se esqueça daquela vez quando não contei à mãe de Jimmy Talbot quem quebrou seu melhor jarro de cristal.

Houve uma pausa antes de Mary Catherine responder.

— O sr. Westfield disse que alguém estava tendo um ataque de coração. O pobre homem! Parece que todas as vezes que o senhor Westfield e Leander falam ao telefone, é sobre esse senhor Smit que tem uma doença após outra. No mês passado soube que ele teve pelo menos três doenças, e Caroline, que fica no turno do dia, disse que o senhor Smith esteve doente duas vezes. Não acho que vá viver muito tempo, mas parece que se recupera rapidament entre as doenças. Ele deve ser importante demais para Leander deixá-la em sua noite de núpcias. Você deve — Mary Catherine parou para deixar escapar uma risadinha maliciosa. — sentir muita falta dele.

Blair queria dizer à mulher o que pensava de sua constante escuta de conversas, mas meramente murmurou "obrigada" e desligou o aparelho, fazendo votos de nunca mais dizer qualquer coisa particular ao telefone.

No estábulo atrás da casa já não via a carruagem de Lee, e o único cavalo era um enorme e imponente garanhão que Blair não tinha intenção de tentar montar. O único meio de chegar à casa do sogro era andar. O ar frio da montanha deu-lhe energia, e ela quase corria, subindo e descendo as íngremes ruas de Chandler, até a casa de Westfield.

Ela teve de bater na porta para acordar a criadagem e uma governanta sonolenta, emburrada, veio até a entrada, e Reed logo atrás dela.

— Venha até a biblioteca — disse Reed, e seu rosto tinha uma estranha cor acinzentada. Estava totalmente vestido, mas parecendo velho e cansado. Blair tinha certeza de que ficara acordado por estar preocupado com Leander. Em que teria seu marido seu metido?

— Onde está ele? — perguntou Blair assim que ficaram sozinhos na bem iluminada biblioteca cheia de fumaça de muitos cachimbos.

Reed ficou ali, seu rosto mais se assemelhando ao de um buldogue.

— Ele está em perigo, não está? Eu sabia. Se fosse um caso comum ele me levaria, mas há alguma coisa errada com este. — Parado, Reed não disse nada. — A telefonista contou que ele sempre vai ver um senhor Smith. Imaginei que poderia descobrir onde o homem mora, e ir de casa em casa, perguntar se alguém viu Leander hoje à noite. Se eu o conheço, deve ter partido em sua usual correria, e estou certa de que diversas pessoas o viram. — O rosto de Blair começou a ficar com a mesma expressão do rosto de Reed, de completa determinação. — Meu marido foi ver alguma coisa perigosa, como fez naquele dia quando, sabendo de tudo, se meteu numa briga de grupos, e está indo sozinho. Acredito que eu possa ajudar. Pode haver outros atingidos, e se Lee for ferido... — parou de repente, ao dizer essas palavras — ...ele precisará de cuidados. Se você não me ajudar, procurarei alguém que o faça.

Afastou-se dele para sair.

Reed ficou atrapalhado por um momento. Blair poderia mesmo encontrar Lee, mas certamente conseguiria provocar uma grande confusão, e as pessoas perceberiam que alguma coisa bastante importante o tirara de sua noite de núpcias. E, claro, ouviriam falar também na revolta da mina, e tudo o que tinha de acontecer era alguém pôr dois e dois juntos, para descobrir o envolvimento do filho. Ele tinha de contar alguma coisa a Blair que a fizesse parar ali e agora, alguma coisa tão horrível para mandá-la de volta para casa sem acordar a cidade inteira procurando por Leander. Maldição, por que Lee não se casara com Houston? Ela nunca questionaria as saídas do marido.

— Há outra mulher — deixou Reed escapar antes de pensar no que estava fazendo. Sua própria esposa não deixaria que nada a parasse exceto o pensamento de seu amor indo para outra pessoa. Por que as mulheres nunca se sentem seguras de que são amadas? Blair não tinha motivos, uma vez que Lee fizera tanto para provar-lhe o quanto a amava.

— Mulher? — perguntou Blair, virando-se para ele. — Por que iria ele para outra mulher? Ela está doente? Quem é o senhor Smith e por que ele sempre está doente? Onde está meu marido?

— A... a mulher tentou matar-se por causa do casamento de Lee — disse Reed e sabia que seu relacionamento com o filho acabara, pois Lee nunca o perdoaria enquanto um deles vivesse.

Blair sentou-se, ou melhor, caiu numa cadeira.

— Esse tipo de mulher — murmurou.

Pelo menos, ele tirara a atenção dela do senhor Smith, pensou Reed, e ao mesmo tempo xingava todas as telefonistas, de todos os lugares.

— Mas, e Houston? Ele era noivo dela. Como podia estar apaixonado por mais alguém?

— Lee... bem, pensava que essa mulher estava morta. — Sobre a mesa em frente de Reed estava um jornal, e na página da frente havia um artigo sobre uma quadrilha de ladrões que estivera na região de Denver, mas se dirigiu para o sul. O chefe da quadrilha era uma francesa. — Ele conheceu-a em Paris. Foi o grande amor de sua vida, mas ele pensava que ela fora morta. Suponho que não, pois veio até Chandler para encontrá-lo.

— Quando?

— Quando o quê?

— Quando essa mulher veio para Chandler?

— Oh, meses atrás — disse Reed de improviso. — Acho que talvez seja melhor que Lee termine com essa história. Penso que já falei demais.

— Mas, se ela chegou há meses, por que Leander continuou o noivado com minha irmã?

Reed virou os olhos para cima, e outra vez o jornal chamou sua atenção.

— Ela, essa mulher que ele amou, estava... envolvida em alguma coisa que Lee não aprovava. Ele tinha de fazer alguma coisa para se distrair.

— E minha irmã foi sua distração, e mais tarde eu. — Respirou fundo. — Então, ele estava apaixonado por essa mulher e pensou que ela fora morta. Portanto voltou para Chandler e pediu Houston em casamento. Daí eu cheguei, e uma gêmea era tão boa quanto a outra, e, claro, sua honra fez com que se sentisse comprometido comigo. Isso explica o porquê de ter considerado casar com uma mulher a quem realmente não ama. É isso?

Reed correu o dedo por dentro do colarinho, que de repente parecia estar sufocando-o.

— Acredito que essa explicação seja tão boa como qualquer outra — disse em voz alta e então murmurou: — Agora, vou ter de me explicar com meu filho.

Blair sentia-se muito pesada ao deixar a casa e começar a andar de volta. Reed chamara o cavalariço para levá-la, mas Blair o dispensara. Aquela era sua noite de núpcias e supostamente seria uma das mais felizes de sua vida, e se não pudesse passá-la com seu marido, com certeza não o faria com outro homem. Mas sua felicidade transformara-se num pesadelo.

Como Leander devia ter rido dela quando lhe dissera que esperava fazer o casamento dar certo. Ele não se importava com quem casasse. Houston era bonita e daria uma boa esposa de médico. Assim, ele a pedira em casamento. Mas ela era fria, e assim, quando pulara para a cama com ele na primeira noite em que saíram, resolvera casar com ela. Que importância tinha aquilo se seu coração já fora dado para outra mulher?

— Aí vem ela! — ouviu-se uma voz por detrás de Blair. Havia só uma ligeira iluminação, e ela viu um homem miúdo a cavalo, apontando em sua direção. Por um momento, ela se sentiu um pouco orgulhosa por ser reconhecida nas ruas como uma doutora. Parou e olhou para o homem e para os outros três atrás dele.

— Há alguém ferido? — perguntou. — Não estou com meu equipamento, mas, se me derem uma carona até minha casa, poderei pegá-lo e ir com vocês.

O vaqueiro pareceu chocado por um momento.

— Se preferem que seja meu marido, eu não sei onde ele está — disse com alguma amargura. — Acho que vocês vão ter de se arrumar comigo.

— Do que é que ela está falando, Cal? — perguntou um dos homens que estava para trás.

Cal levantou a mão:

— Não, não quero seu marido. Você também resolverá bem. Quer montar aqui comigo?

Blair tomou a mão que ele ofereceu e deixou que a puxasse para montar na frente dele.

— Minha casa é... — disse apontando, mas ele não a deixou terminar.

— Sei onde é sua casa senhorita Importante Chandler. Ou suponho que agora seja senhora Taggert.

— O que é isso? — disse Blair, espantada. — Eu não sou... — Mas o vaqueiro cobriu-lhe a boca com a mão, e ela não pôde dizer mais nada.

Leander pôs uma mão na base da espinha e tentou protegê-la dos solavancos do duro banco da carroça. Tinha de admitir ter um grande motivo para sentir pena de si mesmo. A noite anterior deveria ter sido passada nos braços de sua mulher, em uma cama macia, fazendo amor com ela, rindo juntos, começando a se conhecer. Mas, em vez disso, estivera descendo a rampa de uma montanha e depois subira-a outra vez com um homem semiconsciente jogado em seu ombro.

Quando chegara na mina, na noite passada, os portões estavam trancados e não havia sinal de guardas, mas ele podia ouvir os sons de tiros no campo e algumas mulheres gritando palavras de ódio. Escondera o cavalo e a carroça no meio das árvores e subira a montanha; descera a ladeira íngreme e atravessara a entrada dos fundos. Correra encoberto pelas casas e dirigira-se para a casa de um dos mineiros, sabidamente capaz de enfrentar o risco de esconder o sindicalista.

A mulher do mineiro estava lá, torcendo as mãos, porque os guardas revistavam todas as casas, e o sindicalista se escondera nas moitas atrás da privada, sangrando e gemendo. Ninguém se arriscava a ir até lá, porque seria a morte para quem fosse encontrado com ele. Se os guardas continuassem a busca e não descobrissem nada, nem sinal de alguém de fora, não prejudicariam os mineiros. Mas se ele fosse encontrado... A mulher cobriu o rosto com as mãos. Se o sindicalista fosse encontrado ali, ela e a família seriam postos fora do campo, sem emprego e sem dinheiro.

Lee falou-lhe umas poucas palavras de simpatia, mas não gastou muito tempo com conversas. Foi para as moitas dos fundos e içou o homem baixo e troncudo em seus ombros e começou a longa e árdua tarefa de tentar tirá-lo de lá. O único meio era direto para cima da montanha, e foi por ali que Lee foi.

Teve de parar diversas vezes, tanto para descansar como para ouvir. Os sons abaixo pareciam ter se acalmado. Sempre havia muitos bares nos campos das minas, e os homens com muita freqüência gastavam a maior parte dos salários em bebidas. Ele podia ouvir os bêbados cantando ao ir cambaleando para casa, provavelmente sem imaginar que suas casas tinham sido revistadas — como era de direito para os representantes dos proprietários da mina.

Lee parou no topo da montanha e tentou ver, à luz da lua, os ferimentos do homem. Ele começara a sangrar outra vez quando o retirara. Envolvera-lhe os ferimentos da melhor maneira que pôde para que parassem de sangrar, atravessou então o topo e desceu até onde a carroça estava escondida.

Era evidente que não poderia colocar o homem no pequeno e apertado compartimento no fundo. Assim, firmou-o a seu lado e dirigiu com o maior cuidado possível.

Tomou a estrada do norte em direção a Colorado Springs. Não podia voltar a Chandler com o homem ou haveria muitas perguntas inocentes sobre quem era ele ou ondefora ferido. Não queria correr o risco de ser descoberto. Nunca mais poderia ajudar alguém se houvesse suspeitas sobre ele.

Nos subúrbios da cidade morava um amigo dele, um médico não muito dado a fazer perguntas. Lee pôs o homem sobre a mesa de cirurgia e resmungou alguma coisa sobre ter encontrado o homem na estrada. O velho doutor olhou para ele e disse:

— Pensei que tivesse casado ontem. Esteve procurando por homens semimortos em sua noite de núpcias?

Antes que pudesse responder, o velho falou:

— Não me conte nada que eu não queira saber. Agora vamos dar uma olhada nele.

Voltando para Chandler, às duas horas da tarde, Lee estava muito mais do que cansado. Tudo o que queria fazer era comer, dormir e ver Blair. Passara a maioria das últimas horas inventando uma história para contar-lhe onde estivera. Pensou em contar-lhe que fora chamado por causa de um tiroteio entre membros de uma quadrilha de ladrões de banco e que não quisera que ela fosse e corresse o risco de ser ferida. Havia um pouco de verdade, e achou que poderia se arrumar com isso. Só rezava para que ela não perguntasse por que ele tivera de atender, quando havia outros médicos em Chandler que poderiam ter ido. Também não haveria relatos do tiroteio no jornal.

Se o ruim se tornasse pior, ele pretendia fingir-se de magoado por ela não confiar nele e argumentar que ela parecia querer começar o casamento com o pé errado.

Em casa, quase ficou aliviado por Blair não estar. Estava muito cansado para fazer o melhor ao contar-lhe uma mentira daquele tamanho. Pôs algumas fatias de presunto entre dois grossos pedaços de pão e foi para o quarto, que estava numa confusão, com as roupas de Blair jogadas sobre a cama desfeita. Olhou para o guarda-roupa e logo viu que o uniforme dela não estava e imaginou que ela fora ao hospital. Ele teria de ter uma conversa com os homens da diretoria para que continuassem a permitir que ela trabalhasse lá. Na última vez, tivera de prometer assumir quase todos os turnos antes que o deixassem trazê-la para a sala de operações. Trabalhara quase até a exaustão, mas valera a pena. No final conquistara Blair.

Comeu metade do sanduíche, subiu na cama, abraçou o robe de cetim abandonado e dormiu.

Quando acordou, eram oito horas, e sabia de pronto que a casa estava vazia, e instantaneamente começou a se preocupar. Onde se metera Blair? Já deveria estar em casa, de volta do hospital. Ao levantar-se começou a comer a outra metade do sanduíche, agora ressecado, a seu lado na cama, e viu a maleta dela no chão do guarda-roupa.

Por um momento, seu coração parou de bater. Ela nunca sairia de casa sem levar aquela maleta. Fora uma surpresa que ela não a tivesse levado ao altar quando casara com ele. Mas estava ali no chão, então... largou o sanduíche e foi correndo pela casa gritando seu nome. Talvez tivesse voltado enquanto ele dormia, e a casa só parecesse vazia. Levou só um minuto para descobrir que ela não estava em lugar algum, dentro ou fora.

Foi ao telefone e pediu à telefonista que lhe ligasse com o hospital. Ninguém lá vira Blair desde o casamento. Depois de agüentar algumas piadas grosseiras, dizendo que Blair já percebera seu erro e fugira dele, Lee desligou o telefone. Quase no mesmo instante ele tocou.

— Leander — era Caroline, a telefonista do dia. — Mary Catherine disse que Blair procurou seu pai assim que você saiu na noite passada para ir tratar do pobre senhor Smith. Talvez ele saiba onde ela está.

Lee mordeu a língua para evitar dizer para Caroline que parasse de ouvir conversas dos outros, mas talvez daquela vez ele tivesse motivos para ser grato a ela.

— Obrigado — murmurou e saiu para selar seu garanhão e ir para a casa de seu pai em tempo recorde.

— Você disse-lhe o quê? — gritava Leander com seu pai.

Reed parecia encolher com a raiva do filho.

— Tive de inventar uma história, rápido. E a única coisa em que pude pensar, que fosse uma garantia de evitar que ela o seguisse, foi a história de outra mulher. Pelo que ouvira de suas recentes escapadas juntos, pensei que fogo, guerra ou revolta de grevistas só a fariam entrar no meio da confusão.

— Você podia ter inventado outra história, qualquer outra história, mas essa de que meu único e verdadeiro amor estava aqui e de que me casei com Blair por ter perdido o amor de minha vida...

— Tudo bem, se você é tão esperto, diga o que eu deveria dizer para impedi-la de segui-lo.

Lee abriu a boca, mas fechou-a outra vez. Se Reed falasse a ela de um desastre, sem dúvida ela teria ido ajudar. Ele sabia que balas voando em sua direção não a parariam.

— Agora, o que é que faço? Digo-lhe que meu pai é um mentiroso, que não há outra mulher?

— Então onde é que estava em sua noite de núpcias? Outra coisa além de subir e descer montanhas e arrastar um sindicalista ferido para um lugar seguro? O que é que sua jovem mulher fará na próxima vez em que for chamado?

Lee resmungou:

— Provavelmente alguma coisa bastante estúpida como esconder-se no fundo de minha carruagem e ir junto para o tumulto. O que vou eu fazer?

— Talvez devêssemos encontrá-la primeiro — disse Reed. — Começaremos procurando o mais discretamente possível. Não queremos que a cidade saiba que ela se foi, ou farão perguntas.

— Ela não foi embora — lançou Lee. — Ela está... — Mas ele não sabia onde ela estava.

 

Capítulo XX

 

LEANDER E O PAI procuraram Blair a noite toda. Lee tinha o palpite de que ela sairia para andar quando estivesse aborrecida, e assim eles vasculharam as ruas. Mas ela não foi encontrada em lugar algum.

Pela manhã, eles decidiram espalhar o boato de que ela tinha ido atender uma emergência médica sem contar a ninguém aonde fora e que Lee estava preocupado com ela. Pelo menos, essa história permitia a eles fazer perguntas abertamente sobre ela.

Havia alguns boatos sobre Lee perder a mulher no primeiro dia do casamento, mas ele tratou de levar tudo na brincadeira. Sua única preocupação era com Blair, querendo saber onde estaria. Ela era tão teimosa, e eles tinham tão pouco em que basear o casamento deles, que temia que tivesse voltado para o tio na Pensilvânia e nunca a faria voltar. Vivera num inferno tentando convencê-la a casar com ele, e certamente não queria ter de passar outra vez por alguma coisa como aquela a fim de persuadi-la a viver com ele.

Pela tarde, estava exausto e praticamente desmaiou na cama desfeita e dormiu. Teria de telegrafar para o dr. Henry Blair, na manhã seguinte, e dizer ao homem que a mantivesse lá, até que pudesse ir buscá-la.

Acordou com uma mão pesada em seu ombro:

— Westfield! Acorde.

Vagarosamente, Lee virou-se para ver Kane Taggert parado ao seu lado, o rosto do homem demonstrando raiva. Em sua mãol estava um pedaço de papel.

— Onde está sua mulher?

Lee sentou-se, correu a mão pelos cabelos.

— Penso que ela deve ter me deixado — disse ele. Não adiantava esconder a verdade. Logo toda a cidade saberia.

— Foi o que pensei. Veja isto.

Jogou um pedaço de papel sujo e amassado nas mãos de Lee. Nele, em letras de fôrma bem primárias, estava a mensagem:

Temos sua esposa. Deixe 50 000 dólares no TippingRock amanhã, senão ela morre.

— Houston? — perguntou Lee. — Pegarei meu revólver e irei com você. Sabe quem a pegou? Já falou com o xerife?

— Espere um minuto — disse Kane, abaixando seu grande corpo para sentar-se na cama. — Houston está ótima. Eu e ela estivemos fora desde o casamento. Voltamos hoje pela manhã, e isto estava na minha escrivaninha com uma porção de outras correspondências.

Lee ficou como se um raio o tivesse atingido.

— Então eles estão com Blair. Vou chamar o xerife ou... Aquele homem nunca a encontrará. Irei eu mesmo e...

— Espere um minuto. Temos um minuto. Temos de pensar direito. Quando voltei, esta manhã, havia um homem para me ver, um homem que viera de Denver, e a caminho daqui foi roubado por uma nova quadrilha que parece querer fazer seu quartel-general aqui nos arredores de Chandler. O homenzinho estava realmente transtornado, dizendo que todos os ocidentais são marginais e que eles até capturam mulheres. Parece que ele ouviu um dos homens que chegou cavalgando, durante o assalto, dizer que eles a tinham. E Isso pode significar sua mulher.

Leander estava trocando de roupa, vestindo calças de brim, perneiras, uma camisa de algodão forte, e um revólver no cinturão.

Colocou as mãos nos quadris. Parte de sua fúria inicial o estava deixando, e ele começava a pensar.

— Onde o homem foi atacado? Começarei dali.

Kane levantou-se, e Lee só deu uma olhada nas pesadas roupas de trabalho do outro.

— Acho que essa briga também é minha. Eles querem meu dinheiro, e pensam que estão com minha mulher. — Olhou para Lee com o canto dos olhos. — Quando vi esta nota e entendi que era Blair que eles tinham, imaginei que a cidade devia estar sendo virada de cabeça para baixo para encontrá-la, mas, pelo que posso falar, ninguém sabe que ela desapareceu. Acho que há alguma razão pela qual quer manter silêncio sobre isso.

Lee pensou em dizer-lhe que não queria preocupar as muitas amigas dela, mas calou-se.

— Sim — disse, concordando com a cabeça —, há uma razão. — Esperou, mas Taggert não disse nada mais. — Sabe como usar um revólver? Cavalgar?

Kane deu um grunhido que parecia bastante com o de um urso:

— Houston ainda não me civilizou tanto. E não se esqueça de que cresci aqui. Conheço esta região, e tenho uma idéia de onde possa ser o esconderijo deles. Trinta quilômetros ao norte, há uma garganta abrigada, que é quase escondida, vista por. fora. Você poderia passar por ela e nem ao menos vê-la. Fiquei preso lá certa vez numa enchente repentina.

Por um momento, Lee hesitou. Não conhecia aquele homem, não sabia se podia ou não confiar nele. Durante anos, ouvira histórias sobre os meios ilegais que Kane usara para conseguir seu dinheiro, que nada mais importava para o homem além de dinheiro. Mas, naquele momento, ele estava ali dizendo que queria ajudar, e querendo respeitar o direito de Lee de manter segredo fosse lá o que fosse.

Ele prendeu o coldre do revólver na perna.

— Tem uma arma com você?

— Tenho o suficiente para um pequeno exército lá fora no meu cavalo, e também os cinqüenta mil que querem. Prefiro dar o dinheiro do que arriscar um tiroteio com uma dama por perto — disse sorrindo. — Afinal, há um par de dias ela quis casar comigo.

A princípio, Lee não se lembrou do que ele falava, mas então ficaram trocando sorrisos.

— Estou contente por ter acabado do jeito que acabou.

Kane passou a mão pelo queixo e parecia estar rindo de alguma piada particular.

— Eu também. Mais satisfeito do que imagina.

Quinze minutos mais tarde, estavam montados, as bolsas cheias de comida e já na estrada saindo da cidade. Lee deixara um recado com a telefonista, para dizer ao pai que fora ver a senhora Smith. Lee nem mesmo ouviu os murmúrios de simpatia da telefonista sobre a família do pobre Smith.

Uma vez fora dos limites da cidade, cavalgaram mais rápido, o enorme cavalo de Lee engolindo os quilômetros. O cavalo de Kane era um magnífico animal que carregava os cento e dez, ou mais, quilos do homem com relativa facilidade. Os únicos pensamentos de Lee eram para Blair, e esperava que ela estivesse sã e salva.

Blair forçou novamente as cordas que a prendiam na pesada cadeira de carvalho. Uma vez, tentara fugir, e então eles a amarraram numa cadeira, e na véspera tentara virá-la, mas antes que conseguisse desembaraçar-se dela, aquela mulher entrara no quarto e ordenara que pregassem a cadeira no chão. Blair ficou sentada lá, hora após hora, e observava a mulher dando ordens para seus homens.

Ela chamava-se Françoise, e era a líder dos marginais. Era alta e bonita, esbelta, com um cabelo preto longo do qual obviamente tinha muito orgulho, usava um revólver preso nos quadris, e era mais esperta que todos os homens que a rodeavam postos juntos.

E Blair imaginou logo que aquela era a mulher a quem Leander amava.

Tudo se encaixava com o que Reed dissera. Ela era francesa, falando com um acento tão carregado que às vezes seus homens tinham dificuldade em entendê-la, e estava envolvida em alguma coisa que Lee não podia aprovar. Blair não pôde evitar que sua opinião sobre Lee caísse um pouco por ele ter amado uma mulher capaz de tamanha desonestidade.

Estava sentada naquela cadeira dura e observava a mulher com hostilidade indisfarçável. Por causa dela, nunca teria seu marido para si, nunca seria capaz de apagar o passado de sua mente. Talvez os homens gostassem da fascinação de se apaixonar por uma criminosa. Talvez Leander quisesse acalentar o coração machucado durante toda a sua vida.

A mulher ficou em frente dela por um momento e observou os olhos de Blair brilhando acima da mordaça. Puxou então uma cadeira de debaixo de uma mesa velha e sentou-se à frente dela.

— Jimmy, remova o pano — disse ela para o grande guarda-costas que estava sempre junto. Falara algo como "Jemy, remuva o pane".

Uma vez retirado, fez sinal ao homem grande para que saísse, e ficaram sozinhas no quarto.

— Agora, eu quero saber por que é que me olha com tanto ódio. Você não olha para os homens desse jeito. É porque sou uma mulher, e não aprova que uma mulher seja tão esperta como eu?

— Esperta? É assim que você chama isso? — perguntou Blair, movendo o queixo dolorido. — Só porque os homens são tão bobos que não podem ver através de uma mulher como você, não significa que eu também seja. Sei o que você é.

— Estou contente que você saiba, mas na verdade não acredito que já tenha mentido a alguém.

— Pode parar de mentir para mim de uma vez. Sei tudo sobre você. — Levantou a cabeça como pôde e tentou reunir todo o orgulho possível: — Sou a mulher de Leander.

Blair teve de admitir que a mulher certamente era uma boa atriz. Uma após outra, emoções passaram por seu rosto. Foram do espanto à descrença, e terminou com humor.

A mulher levantou-se, de costas para Blair.

— Ah, Leander — disse por fim. — Caro Leander.

— Não há necessidade de bancar a convencida — lançou Blair. — Pode pensar que o tem e que ele sempre será seu, mas eu o farei esquecer tudo o que já aconteceu entre vocês dois.

Quando a mulher tornou a virar-se para encarar Blair, seu rosto estava sério.

— Como poderia ele esquecer o que passamos? Ninguém vivo poderia esquecer alguma coisa como aquela. Acontece só uma vez em toda a vida. Então, ele casou com você. Há quanto tempo?

— Dois dias. Você deveria saber, uma vez que ele passou a nossa noite de núpcias com você. Diga-me, como tentou matar-se? Parece que se recuperou bastante bem. Talvez fosse meramente uma farsa para chamar a atenção e não uma verdadeira tentativa de suicídio. Não posso imaginar você como uma boa perdedora quando se trata de alguém como Leander.

— Não — disse ela mansamente. — Não queria perder Leander, mas também não queria que ninguém mais o tivesse. Ele lhe contou por que não estamos mais juntos?

— Ele não me contou nada sobre você. Depois de descobrir o que você se tornou, tenho certeza de que mal poderá agüentar pensar em você. Reed contou-me. Mas talvez não conheça o pai de Lee, uma vez que você não é o tipo de mulher que um homem leve para a casa de sua família. Lee pensou que estivesse morta, e deixou Paris voltando para Chandler. — Blair pensou em todas as histórias que ele lhe contara sobre seus anos na Europa, e nunca ao menos mencionara alguma mulher. Mas talvez fosse um assunto muito doloroso para falar a respeito.

Continuar: parte 2 de 3