Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 5 de 8

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Mulher de Fogo

Capítulo XVI · Durante Três Dias, Leander manteve Blair tão…

 

DURANTE TRÊS DIAS, Leander manteve Blair tão ocupada no hospital que ela não teve tempo para pensar. Ele vinha buscá-la bem cedo pela manhã e levava-a de volta tarde da noite. Levou-a ao armazém na avenida Archer e contou-lhe seus planos para transformar o lugar numa clínica de mulheres. Logo Blair teve algumas idéias próprias, e Leander escutou em silêncio e discutiu-as com ela.

— Acho que poderemos tê-la pronta em duas semanas, uma vez que o equipamento já está a caminho, vindo de Denver — disse Lee. — Planejei-a como uma surpresa, um presente de casamento, mas ultimamente já tive mais do que minha quota de surpresas, e não posso agüentar mais nenhuma.

Antes que Blair pudesse dizer uma palavra, ele empurrou-a para fora do armazém e para dentro de sua carruagem e levou-a de volta para o hospital. Estava aliviada por ver que o que Alan dissera não era verdade. Lee não estivera mentindo sobre a clínica só para ganhar a competição.

Enquanto as horas corriam e o casamento se aproximava, Blair imaginava por que Lee queria casar com ela. Não fez nenhuma tentativa para tocá-la, e nunca conversavam exceto para discutir um paciente. Umas poucas vezes ela o pegava observando-a, especialmente quando estava trabalhando com outros médicos, mas sempre desviava quando ela o olhava.

E a cada dia Blair respeitava Lee mais e mais como médico. Logo compreendeu que ele poderia ter ganho muito dinheiro se tivesse ficado num hospital de uma grande cidade, mas em vez disso escolhera ficar em Chandler, onde raramente era pago por algum atendimento. As horas eram longas e laboriosas, a grande quantidade de trabalho desgastante e as recompensas na maioria das vezes inatingíveis.

Na tarde de domingo, véspera do casamento, Blair se sentia um pouco enjoada depois da festa de despedida de solteira de Houston na noite anterior. Lee chamou-a em seu escritório. Era um encontro embaraçoso para ambos. Ele a olhava de uma forma que fazia seus braços começarem a arrepiar, e tudo em que conseguia pensar era que no dia seguinte subiria ao altar com ele.

— Escrevi uma carta para o hospital St. Joseph, dizendo-lhe que você não aceita o lugar.

Blair respirou fundo e sentou-se pesadamente numa cadeira. Não pensara em ter de desistir do estágio. Lee inclinou-se para a frente na escrivaninha.

— Estava achando que talvez eu tivesse sido um pouco precipitado. — Começou a estudar as unhas. — Se quiser ligar amanhã para desmentir, compreenderei.

Por um momento, Blair ficou tão confusa que não conseguia dizer nada. Estava ele dizendo que não queria casar-se com ela? Levantou-se rapidamente.

— Se estiver tentando dar o fora depois de ter feito tanto para forçar-me a casar com você, eu...

Não pôde dizer mais nada, porque Leander saltara de trás da escrivaninha, agarrara seus ombros e beijara-a de uma forma forte e intensa que a deixou sem fala.

— Não quero cair fora — disse ao soltá-la enquanto Blair tentava manter os joelhos fracos sob controle. — Agora, de volta para o trabalho, doutora. Pensando melhor, vá para casa e descanse. Se eu conheço sua irmã, ela deve ter três vestidos para você experimentar, e sua mãe uma centena de coisas para que faça. Amanhã à tarde a verei. — Deu um largo sorriso. — E amanhã à noite. Agora saia daqui.

Blair não conseguiu evitar de sorrir-lhe, e continuou sorrindo todo o caminho até sua casa.

Mas seu sorriso desapareceu assim que entrou em casa. O sr. Gates estava furioso por ela ter ficado trabalhando no hospital num domingo, e não em casa, ajudando a irmã com os arranjos para o casamento, principalmente quando a pobre Houston não se sentia bem. Blair também estava cansada e nervosa com o casamento, e quase caíra em pranto antes do homem odioso começar a gritar com ela. Opal parecia entender o que a filha sentia e rapidamente fez com que o senhor Gates fosse para o estúdio, enquanto levava Blair para o jardim, para começarem a escrever os cartões de agradecimento.

Blair ainda estava sentida com o ataque do sr. Gates quando sentou-se com a mãe.

— Como pôde casar com um homem como ele, mamãe? Como pôde submeter Houston a ele? Eu pelo menos fui embora, mas Houston teve de ficar aqui todos esses anos.

Opal ficou em silêncio durante alguns minutos.

— Acho que não levei vocês, meninas, em consideração quando me apaixonei pelo senhor Gates.

— Apaixonou-se por ele! Mas eu sempre pensei que sua família a tivesse forçado a casar com ele.

— De onde foi que tirou essa idéia? — perguntou Opal chocada.

— Penso que Houston e eu decidimos isso por conta própria. Não podíamos ver outro motivo para você casar com ele. Talvez gostássemos de pensar que, depois da morte de nosso pai, você ficara muito perturbada para se interessar pela pessoa com quem estava casando.

Opal deu uma pequena risada:

— Vocês duas eram tão jovens quando William morreu, e tenho certeza de que, como eram crianças, lembram-se dele como o mais maravilhoso dos pais, sempre fazendo, criando coisas, provocando movimento aonde quer que fosse.

— Ele não era assim? — perguntou Blair com cautela, temendo ouvir coisas horríveis sobre seu adorado pai.

Opal pôs a mão no braço da filha.

— Ele era tudo isso e mais do que você se lembra. Tenho certeza de que não se lembra nem da metade de seu espírito, seu brilho ou sua coragem e ambição. Ambas vocês, meninas, herdaram muito dele. — Suspirou. — Mas a verdade é que achei William Chandler o homem mais cansativo da terra. Amei-o profundamente, mas havia dias em que me vinham lágrimas de alívio nos olhos quando por fim ele saía de casa. Veja, fui criada na crença de que o papel da mulher na vida era ficar sentada na sala de visitas e dirigir os empregados enquanto bordava. A coisa mais cansativa que planejara fazer era ponto-de-cruz. Todos aqueles quadrinhos para contar!

Recostou-se na cadeira e sorriu.

— Então conheci seu pai. Por alguma razão, decidiu que me queria, e realmente penso que não tive muito o que dizer no caso. Ele entrou em minha vida com sua extraordinária graça, e não creio que alguma vez tenha considerado dizer não a ele. Mas casamos, houve uma crise após outra para enfrentar, todas causadas pela ânsia de Bill pela vida. Mesmo quando William gerou crianças, fez gêmeas: uma criança não era suficiente para ele.

Olhou para as mãos, e havia lágrimas em seus olhos.

— Pensei que também morreria, quando Bill faleceu. Parecia que não havia uma razão para viver, mas então comecei a lembrar-me de coisas que antes me agradavam, tais como bordados, e, claro, tinha vocês, meninas. Então o senhor Gates apareceu. Ele era diferente de Bill como a noite do dia, e gostava do que Bill costumava chamar meu "trabalho inútil". O senhor Gates tinha idéias rígidas sobre o que uma mulher devia e não devia fazer. Não esperava que eu passasse as tardes de domingo escalando montanhas com ele, como Bill costumava. Não, o senhor Gates queria dar-me um lar adorável, e eu teria de ficar nesta casa e cuidar de minhas crianças e oferecer chás nas tardes. Conforme conheci mais o homem, descobri que era fácil fazê-lo feliz e que as coisas que vinham freqüentemente a mim eram aquelas que ele esperava de mim. Com seu pai, nunca tinha certeza do que se esperava que eu fizesse. — Olhou para Blair. — Assim descobri que estava apaixonada por ele. O que eu queria fazer e as idéias dele do que eu devia fazer combinavam perfeitamente. Receio não ter pensado muito em vocês, meninas, ou percebido o quanto vocês duas eram parecidas com Bill. Sabia que você era como seu pai. Assim, dei um jeito para que fosse morar com Henry, mas pensei que Houston fosse como eu, e de certa forma ela é. Mas Houston também é como o pai, e isso aparece de maneiras estranhas, tal como vestir-se de velha e entrar nos campos das minas. Bill faria alguma coisa como essa. Blair ficou em silêncio um longo tempo pensando no que a mãe contara, e imaginando se poderia vir a amar Leander. Tinha certeza de que estava apaixonada por Alan, mas não tinha ficado exatamente arrasada quando ele lhe dera o fora. Havia muito mais coisas envolvidas no que acontecera. Não podia olhar para Lee sem lembrar-se de que sua irmã o amara e durante tanto tempo, e agora Houston iria ter de vê-lo casar com outra.

Blair não dormiu muito na noite anterior ao casamento, e parecia que todos os demônios da noite estavam ali pela manhã. A brilhante luz do dia não a livrou de sua sensação de condenada.

Durante os últimos dias tentara esquecer por minutos inteiros que estava se casando com o prometido de sua irmã, mas sempre acreditara que aquilo na realidade não iria acontecer. Pensara que de alguma maneira não se casaria com Leander e Houston poderia tê-lo de volta.

Às dez horas, partiram para a casa de Taggert, onde se realizariam os casamentos. Opal e as gêmeas na bonita pequena carruagem de Houston, um dos muitos presentes de Taggert, com o cavalariço atrás, dirigindo uma grande carroça que Houston tomara emprestada, com os vestidos de noiva cobertos com musselina, no fundo. Foram em silêncio todo o caminho até a casa. Quando Blair perguntou a Houston no que estava pensando, ela respondeu que esperava que os lírios tivessem chegado sem danos.

Blair sabia que aquilo era mais uma prova de que o maior interesse de sua irmã no homem com quem ia casar era o dinheiro que tinha.

E quando Blair viu a casa de Taggert, teve certeza que Houston se vendera ao deus do dinheiro.

A casa parecia ter sido esculpida numa montanha de mármore: fria, branca e enorme. O térreo era dominado por uma grande escadaria, larga e dupla, que atingia em curva lados de um corredor que era maior do que o de qualquer casa que Blair já vira.

— Desceremos por ali — disse Houston, apontando para as escadas. — Cada uma de nós, por um lado. Cercada por um bando de amigas lindamente vestidas, ela seguiu adiante e começou a inspeção da casa, enquanto Blair permanecia onde estava.

— Leva um tempo para se acostumar — murmurou Opal para sua filha. Tinha-se a sensação de que o lugar não era real, que tinha saído de um conto de fadas e desapareceria tão rapidamente quanto aparecera.

— Houston pretende morar nisto? — mumurou Blair em resposta.

— Parece menor quando Kane está aqui — assegurou-lhe Opal. — Penso que devemos subir agora. Não dá para adivinhar o que Houston planejou para nós.

Blair seguiu a mãe pelas largas escadas, olhando por sobre o ombro o tempo todo, para o chão abaixo. Olhou para todos os lugares, viu arranjos exóticos de flores e folhagens, e no patamar parou para olhar pela janela os terrenos abaixo. Eram lindos, com uma grama viçosa e arbustos.

Opal parou a seu lado:

— Esta é a área de serviço. Você devia ver o jardim.

Blair não disse mais nada ao seguir sua mãe até o segundo andar e aos quartos reservados para a família.

— Houston a colocou aqui — disse Opal, abrindo a porta de uma sala de teto alto com uma lareira de mármore branco esculpida com grinaldas e flores. Os divãs, cadeiras e mesas da sala deveriam estar em museus.

— Esta é a sala de estar e por aqui é o quarto de dormir, e aquele é o banheiro. Cada quarto de hóspedes tem uma sala de estar e um banheiro próprio.

Blair correu a mão pela pia de mármore do banheiro e, apesar de nunca ter visto algum antes e não poder ter certeza, achou que os acessórios podiam ser de ouro.

— Bronze? — perguntou à mãe.

— Ele não teria isso em casa — disse Opal com algum orgulho. — Agora devo ir ver se Houston precisa de alguma ajuda. Você ainda tem horas antes de precisar se vestir. Portanto, por que não tira uma soneca?

Blair começou a protestar que possivelmente não conseguiria dormir, mas então olhou para a enorme banheira de mármore e achou que gostaria de usá-la.

Assim que ficou sozinha, encheu a banheira com água quente, fumacenta, e entrou nela, a água relaxando-a no mesmo instante. Ficou ali um longo tempo, até que sua pele começou a enrugar, então saiu e enxugou-se com uma toalha tão grossa que poderia ser uma almofada. Vestiu um robe de casimira rosa e foi para o quarto de dormir, onde prontamente adormeceu na cama grande e macia.

Quando acordou, sentia-se descansada e com a cabeça leve, e lembrou-se das palavras da mãe sobre haver um jardim nos fundos da casa. Rapidamente vestiu sua saia simples e uma blusa diária e saiu do quarto. Não querendo usar a escadaria principal, uma vez que podia ouvir vozes abafadas embaixo, foi por um corredor passando por portas fechadas e acabou encontrando um escadaria nos fundos que levava a um labirinto de cozinha e despensas no primeiro andar. Cada centímetro dessas salas estava repleto de pessoas afobadas, indo para lá e para cá, e criando deliciosos aromas de comida. Blair teve dificuldade para atravessar aquela multidão. Diversas pessoas viram-na, mas ninguém tinha tempo para comentar sobre a noiva estar na cozinha duas horas antes de o casamento começar. Blair só estava preocupada em não deixar Houston vê-la. Sem dúvida Houston tinha um horário e o mantinha, não importa o que acontecesse. Houston nunca acharia tempo para dar uma escapada até o jardim.

Atrás da casa havia um gramado coberto de enormes toldos, mesas com toalhas de linho rosa e centenas de vasos de flores. Homens e mulheres de uniforme entravam e saíam apressados da casa para pôr travessas de comida e temperos nas mesas.

Blair também passou apressada por essas pessoas e foi até o que parecia ser o jardim dos fundos. Assim que deu o primeiro passo, entrando pelo lado do jardim, não estava preparada para o que viu. À sua frente desenrolavam-se acres de alamedas sinuosas, que surgiam e desapareciam entre plantas que nunca vira antes. Começou a seguir ao acaso por uma das alamedas.

A confusão dos preparativos para o casamento desapareceu atrás dela e, pela primeira vez em dias, sentiu-se livre para pensar.

Aquele era o dia de seu casamento, mas no momento não podia se lembrar de como chegara até ali. Três semanas antes, ela estava na Pensilvânia e tinha o seu futuro planejado. Mas como as coisas tinham mudado! Alan fugira em vez de casar com ela. Sua irmã perdera o homem que amava e agora ia casar com um dos homens mais ricos do país — sem nenhum envolvimento amoroso. E tudo por sua culpa. Viera para casa ver a irmã casar e em vez disso conseguira transformá-la numa mercenária. Houston poderia muito bem ter-se posto num lote de leilão e aceitar o arrematador.

Quando Blair caminhava pelo jardim imersa em seus pensamentos, viu Taggert vindo pela alameda. Antes de pensar no que estava fazendo, virou-se de repente e foi por outro caminho antes que ele a visse. Não andara mais que poucos metros quando viu uma mulher extraordinariamente alta, que parecia vagamente familiar, andando apressada pelo mesmo caminho de Taggert. Blair não podia lembrar-se de onde a vira antes.

Deu de ombros, pondo de lado a mulher, e continuou caminhando.

Seus pensamentos estavam tomados por completo com o que iria acontecer naquele dia, e estava tentando decifrar como tudo tinha acontecido, quando de repente lembrou-se de quem era a mulher alta.

— É Pamela Fenton — disse alto.

Houston e Blair estiveram na casa dos Fenton diversas vezes quando eram crianças, para cavalgar nos pôneis de Marc ou ir a uma de suas numerosas festas, e sua irmã mais velha, Pam, já estava então bem crescida e elas tinham medo dela. Ela partira então, de repente, e durante anos ainda havia boatos sobre o que acontecera.

E depois de todos esses anos ela voltara e estaria no casamento, pensou Blair com algum prazer. Sem querer, imaginava o que Pamela teria feito há tanto tempo para provocar os boatos da cidade. Era alguma coisa sobre um cavalariço, não era?

Blair parou onde estava. O escândalo na verdade fora sobre um cavalariço dos estábulos de seu pai. Ela se apaixonara por ele, e o pai mandara-a para longe como conseqüência do namoro.

E Kane Taggert era aquele cavalariço.

Agarrando as saias, Blair correu pela alameda na direção em que Pam e Taggert tinham ido. Andou uns poucos metros e parou.

Viu sem acreditar como Kane Taggert pegava o rosto de Pamela Fenton em suas mãos e a beijava com grande paixão.

Com lágrimas quentes nos olhos, Blair voou pelas alamedas em direção à casa. O que fizera para sua irmã? Houston ia casar com aquele homem monstruoso que beijava uma mulher duas horas antes de casar com outra.

E tudo aquilo estava acontecendo por culpa de Blair.

 

Capítulo XVII

 

ANNE SEABURY ajudou Blair a vestir o elaborado vestido de noiva que Houston desenhara. Era um vestido de corte simples, de cetim marfim, muito elegante, decote alto, mangas grandes, e tão justo quanto o espartilho de barbatanas de aço podia deixar. Centenas, talvez até milhares de pequeninas pérolas estavam pregadas pela cintura e punhos. E o véu era de uma renda feita à mão, como nunca vira antes.

Ao olhar-se no espelho, desejou que estivesse usando esse vestido sob circunstâncias mais felizes e que fosse atravessar a igreja com um sorriso no rosto.

Mas sabia que era impossível, uma vez que já fizera o que sabia que deveria fazer. Tão logo vira aquele monstro, Taggert, beijando outra mulher, voltara para casa e mandara-lhe um bilhete. Disse-lhe que estaria usando rosas vermelhas no cabelo, e instruiu a empregada para dizer-lhe que estivesse certo de ficar à esquerda, e não à direita como fora originalmente planejado.

Blair não estava certa da legalidade do que estava fazendo, uma vez que nas licenças estavam os nomes de qual das gêmeas deveria se casar com qual homem, mas talvez pudesse ganhar um pouco de tempo para a irmã se o ministro pronunciasse Leander com Houston, marido e mulher, em vez de com aquele homem lascivo. Não gostava de pensar nas conseqüências se o casamento fosse legal e ela acabasse casada com Taggert. Mandou rosas cor-de-rosa para a irmã e pediu-lhe que as usasse. No alto da escada, Blair abraçou a irmã:

— Eu a amo mais do que pensa — mumurou antes de começarem a descer, e com um suspiro disse. — Vamos prosseguir com esse espetáculo.

A cada passo, Blair sentia que se aproximava mais de sua execução. E se o casamento fosse legal e ela acabasse encontrando-se casada com aquele homem assustador e tivesse de viver naquela casa que parecia um mausoléu?

Dentro da enorme sala que se supunha ser uma biblioteca, mas poderia ser um campo de beisebol interno, ela viu Taggert perto de Leander numa plataforma que estava decorada, forrada e coberta de rosas e folhagens.

Blair manteve a cabeça alta e os olhos para a frente. Sabia que, naquele momento, Houston devia ter visto o que estava acontecendo; que ela estava, afinal, indo casar com o homem que amava.

Olhou para frente, para Kane Taggert, e, enquanto caminhava pela igreja na direção dele, viu suas sobrancelhas juntarem-se numa linha reta. Ele sabe!, pensou. Ele sabe que não sou Houston!

Por um momento, ficou surpresa. Naquela hora duvidava que mesmo sua própria mãe pudesse dizer qual gêmea era essa ou aquela, mas de alguma forma aquele homem sabia. Olhou para Leander e viu que ele estava sorrindo de leve para Houston, um sorriso de boas-vindas. Claro, ele confiava, pensou, ele não tinha motivo para suspeitar que alguém fizesse alguma coisa, uma vez que era incapaz de agir mal. Mas Taggert, por outro lado, tinha fama de ter feito muitas coisas erradas para ganhar seu dinheiro, assim estaria procurando por trapaças e poderia diferenciar as gêmeas, raciocinou Blair.

Blair não olhou para a irmã quando tomaram seus lugares na plataforma. Leander tomou a mão de Houston na sua, enquanto Taggert afastava-se de ambas as gêmeas e do ministro.

— Queridos amigos, nós... — começou o ministro, mas Houston interrompeu-o.

— Desculpe-me, eu sou Houston.

Blair olhou para a irmã com assombro. Por que ela estava arruinando o que fora tão bem arquitetado?

Leander lançou-lhe um olhar duro.

— Vamos trocar de lugar? — disse a Taggert.

Taggert simplesmente encolheu seus grandes ombros:

— Para mim não faz muita diferença.

— Mas para mim faz — disse Leander, e moveu-se para trocar de lugar com Taggert.

Lee tomou a mão de Blair e quase arrancou-a, mas ela não se importou. Taggert tinha publicamente admitido que Houston não importava para ele, que não se importava de casar com ela ou qualquer outra. Blair nunca se perguntara o porquê de Taggert querer casar com Houston e agora pensava se não era por ser ela a única a querê-lo.

Lee beliscou-a e ela levantou os olhos em tempo de dizer "Sim, aceito".

Antes que percebesse o que estava acontecendo, a cerimônia terminou, e Leander estava tomando-a nos braços e se preparando para beijá-la. Para a platéia deve ter parecido um beijo entusiasmado, mas na verdade, ele murmurava em seu ouvido com muita veemência:

— Quero vê-la lá fora. Agora!

Tropeçando na cauda de três metros e meio do pesado vestido de cetim, Blair tentou acompanhá-lo enquanto ele quase que a arrastava pelo corredor. As pessoas foram se aproximando, assim que eles chegaram ao saguão, mas Leander não largou sua mão enquanto a empurrava para uma sala grande, toda de painéis, no fim do corredor.

— Afinal, o que foi aquilo? — começou Leander, mas não a deixou responder. — Você odeia tanto a idéia de viver comigo que chega a tais extremos para cair fora? Você preferia viver com um homem que nem ao menos conhece do que comigo? Qualquer um, menos eu, é isso?

— Não — começou ela —, eu nem pensei em você. Só pensei em Houston. Eu não queria que ela sentisse que tinha de casar com aquele homem horrível.

Leander olhou-a durante um longo tempo, e, quando falou, sua voz estava calma:

— Você quer dizer que pretendia casar com um homem de quem não gosta a fim de que sua irmã pudesse ter o homem que pensa que ela quer?

— Claro. — Blair estava um tanto espantada com a pergunta. — Que outra razão teria eu para fazer a troca?

— Só que pensou que o casamento com qualquer um seria preferível a casar comigo. — Agarrou seu braço. — Blair, você vai acertar isso agora. Você e Houston vão conversar, e quero que ouça sua resposta. Você me entendeu? Quero que realmente ouça a resposta dela.

Ignorando as centenas de pessoas que os cercavam, todos murmurando e rindo sobre a confusão no altar, Leander puxava Blair através da multidão enquanto perguntava onde estava Houston. Não foi difícil encontrá-la, pois estava sozinha numa saleta repleta de papéis.

— Acredito que vocês duas tenham umas coisinhas que precisam ser ditas — disse Leander através dos dentes para Blair, quase empurrando-a para dentro da sala e fechando a porta atrás dela.

Sozinhas, as gêmeas não se falaram. Houston estava sentada numa cadeira, a cabeça abaixada, enquanto Blair permanecia indecisa perto da porta.

— Acho que devíamos ir para lá e cortar o bolo — começou Blair hesitante. — Você e Taggert...

Houston levantou-se da cadeira como se de repente tivesse se transformado numa harpia.

— Você nem consegue chamá-lo pelo nome, não é? — disse ela com ódio em cada palavra. — Pensa que ele não tem sentimentos; você dispensou-o e agora pensa que tem o direito de fazer o que queira com ele.

— Houston, o que fiz foi por você. Queria vê-la feliz. — Surpresa, Blair recuara ao ver o ódio da irmã.

Os punhos estavam fechados ao lado do corpo e ela avançou para Blair, como se quisesse desafiá-la para uma luta.

— Feliz? Como posso ser feliz se nem ao menos sei onde está meu marido? Graças a você, é possível que eu nunca saiba o significado de felicidade.

— A mim? O que foi que fiz, exceto tentar tudo ao meu alcance para ajudá-la? Tentei ajudar você a voltar a seu juízo e ver que não tinha que casar com aquele homem pelo dinheiro. Kane Taggert...

— Você realmente não sabe, não é? — interrompeu-a. — Você humilhou um homem orgulhoso, sensível, em frente de centenas de pessoas, e nem se dá conta do que fez.

— Presumo que esteja falando do que aconteceu no altar? Fiz por você, Houston. Sei que ama Leander e eu iria ficar com Tag-gert só para fazer você feliz. Sinto tanto o que lhe fiz. Nunca quis torná-la infeliz. Sei que arruinei sua vida, mas tentei reparar o que havia feito.

— Eu, eu, eu. É tudo o que sabe dizer. Você arruinou minha vida e tudo que consegue falar é sobre si mesma. Você sabe que amo Leander. Você sabe como Kane é um homem horrível. Durante a última semana, mesmo um pouco mais, passou todos os momentos em que estava acordada com Leander, e o modo como fala dele é como se ele fosse um deus. De cada duas palavras que diz, uma é "Leander". Acho que você estava certa esta manhã: queria me dar o melhor homem.

Houston inclinou-se para a irmã.

— Leander pode deixar seu corpo em fogo, mas a mim nunca fez nada. Se você não estivesse tão envolvida consigo mesma ultimamente, e pudesse achar que tenho juízo em meu cérebro, teria reparado que me apaixonei por um homem bom, generoso, atencioso. Vamos admitir que tenha as arestas um pouco ásperas, mas você sempre não se queixou que minhas arestas eram arredondadas demais?

Blair sentou-se.

— Você o ama? Taggert? Você ama Kane Taggert? Mas eu não entendo. Você sempre amou Leander. Até onde posso me lembrar, você o amava.

Parte da raiva de Houston pareceu deixá-la, e ela virou-se para olhar pela janela.

— É verdade. Decidi que o queria quando tinha seis anos de idade. Penso que isso tornou-se uma meta para mim, como subir uma montanha. Deveria ter tido em mira o monte Rainier. Pelo menos, uma vez que subisse, já teria cumprido minha meta. Nunca soube o que faria com Leander depois de termos casado.

— Mas sabe o que fará com Taggert?

— Ah, sim. Sei muito bem o que vou fazer com ele, Vou fazer um lar para ele, um lugar onde estará a salvo, um lugar onde eu estarei a salvo, onde eu possa fazer o que quiser — disse Houston, olhando outra vez para a irmã e sorrindo.

Blair levantou-se e foi sua vez de cerrar os punhos.

— Suponho que não se preocupou em perder dois minutos para me contar isso, não é? Tenho vivido no inferno nestas últimas semanas. Tenho me preocupado com você, passo dias inteiros chorando pelo que fiz à minha irmã e agora me diz que está apaixonada por esse rei Midas.

— Não diga nada contra ele — gritou Houston, mas logo acalmou-se. — Ele é o mais bondoso, mais gentil dos homens e muito generoso. E acontece que o amo muito.

— E eu tenho vivido na agonia por estar preocupada com você. Devia ter me contado.

Houston correu a mão preguiçosamente pela beirada da escrivaninha que estava no meio da sala.

— Acho que estava tão ciumenta de seu casamento por amor que não queria pensar em você.

— Casamento por amor?! — gritou Blair. — Acho que sou o monte Rainier de Leander. Não posso negar que ele mexe comigo fisicamente, mas é tudo que quer de mim. Passamos dias juntos na sala de operações, mas sinto que há uma parte dele que não conheço. Ele realmente não deixa que eu me aproxime muito. Sei tão pouco sobre ele. Decidiu que me queria, portanto foi atrás de mim, usando todos os métodos a seu alcance.

— Mas eu vejo a maneira como você olha para ele. Nunca me senti inclinada a olhá-lo desse jeito.

— É porque nunca o viu na sala de operações. Se o visse lá, teria...

— Desmaiado, provavelmente — disse Houston. — Blair, sinto não ter contado a você. É possível que eu soubesse que você estava sofrendo, mas o que aconteceu doeu. Fui noiva de Leander durante, assim me parecia, quase que a minha vida toda, no entanto você chegou e tirou-o em uma única noite. E Lee sempre me chamava de "sua princesa de gelo", e eu estava tão preocupada por ser uma mulher fria!

— E não está mais preocupada com isso? — perguntou Blair.

O rosto de Houston ficou mais corado.

— Não com Kane — murmurou.

— Você realmente o ama? — perguntou Blair, ainda incapaz de compreender o fato. — Você não se importa com comida voando por todo lado? Você não se importa com seu espalhafato ou as outras mulheres? — Blair devia ter mordido a língua.

— Que outras mulheres? — perguntou Houston com os olhos apertados. — E, Blair, é melhor que me conte.

Blair respirou fundo. Teria sido certo contar a Houston o que vira antes que se casasse com o homem, mas agora era muito tarde. Houston avançou em sua irmã.

— Se você está, ao menos, considerando a idéia de manobrar minha vida outra vez como fez hoje no altar, nunca mais falarei com você. Sou adulta, você sabe alguma coisa sobre meu marido, e quero saber o quê.

— Eu o vi no jardim beijando Pamela Fenton pouco antes do casamento — disse num fôlego só.

Houston empalideceu um pouco, mas parecia estar sob controle.

— Mas ele veio para mim, de qualquer maneira — murmurou. — Ele a viu, beijou-a, mas casou comigo. — Um sorriso radiante iluminou seu rosto. — Blair, hoje você me fez a mulher mais feliz do mundo. Agora, tudo o que tenho a fazer é descobrir meu marido, dizer-lhe que o amo e esperar que me perdoe.

Parou de repente.

— Oh, Blair, você não o conhece mesmo. É um homem tão bom, generoso de uma maneira natural, forte de um modo que faz com que as pessoas dependam dele, mas ele é... — Enterrou o rosto nas mãos. — Mas ele não agüenta vergonha de nenhuma espécie, e nós o humilhamos em frente da cidade toda. Ele nunca me perdoará. Nunca!

Blair dirigiu-se para a porta:

— Irei a ele e explicarei que foi tudo minha culpa, que você não teve nada a ver com o acontecido. Houston, eu não tinha idéia de que quisesse realmente casar com ele. Eu só não podia imaginar alguém querendo viver com uma pessoa como ele.

— Não creio que ainda precise se preocupar com isso, porque ele acaba de deixar-me.

— Mas e os convidados?

Ele não pode ir saindo.

— Deveria ficar e ouvir as pessoas rirem de como Leander não pode decidir qual das gêmeas quer? Ninguém pensará que Kane poderia ter feito sua escolha. Kane pensa que ainda estou apaixonada por Leander, você pensa que amo Leander e o senhor Gates acha que casei com Kane pelo dinheiro. Acredito que mamãe seja a única pessoa que vê que estou apaixonada, pela primeira vez em minha vida.

— O que posso fazer para consertar tudo para você? — murmurou Blair.

— Não há nada que possa fazer. Ele se foi. Deixou-me dinheiro, a casa e foi-se embora. Mas para que quero esta casa enorme e vazia, se ele não estiver nela? — Sentou-se. — Blair, nem ao menos sei onde está. Por tudo que sei, ele pode estar em um trem voltando para Nova York.

— É bem mais provável que tenha ido para sua cabana. Ambas levantaram os olhos para ver o amigo de Kane, Edan, parado na porta.

— Não tive a intenção de ouvir, mas quando vi o que aconteceu, sabia que ele ficaria raivoso.

Houston rapidamente enrolou a cauda de seu vestido de noiva em volta do braço.

— Irei a ele e explicarei o que aconteceu. Vou lhe dizer que minha irmã está tão apaixonada por Leander que pensa que eu também estou. — Virou-se para sorrir para Blair. — Não posso deixar de ficar magoada por você ter pensado que eu fosse tão baixa a ponto de casar com um homem por seu dinheiro, mas agradeço pelo amor que fez com que quisesse sacrificar o que se tornou tão importante para você. — Rapidamente, beijou o rosto da irmã.

Blair segurou-a por um momento:

— Houston, eu não tinha idéia de que se sentisse dessa forma. Assim que a recepção terminar, ajudarei você com as malas e...

Houston afastou-se com uma risadinha:

— Não, minha cara irmã controladora, estou deixando esta casa agora. Meu marido é mais importante para mim do que umas poucas centenas de convidados. Você vai ter de ficar aqui e responder a todas as perguntas sobre onde Kane e eu fomos.

— Mas, Houston, não sei nada sobre recepções deste tamanho.

Houston parou na porta ao lado de Edan:— Eu aprendi como, na minha educação "inútil" — disse, e então sorriu. — Blair, não é tão trágico assim. Anime-se, talvez haja um surto de envenenamento por comida, e você saberá como lidar com -isso. Boa sorte — disse, e saiu da porta, deixando Blair sozinha com o horror de ter de orientar a enorme e sofisticada recepção.

— Por que tinha que abrir minha grande boca para criticar aquela escola que Houston escolheu? — murmurou Blair, enquanto endireitava o vestido, tentava respirar dentro do espartilho apertado e deixava a sala.

 

Capítulo XVIII

 

A RECEPÇÃO FOI PIOR do que Blair imaginava que pudesse ser. As pessoas estavam sempre correndo para lá e para cá e, no minuto em que Houston saiu de vista, ninguém parecia saber o que fazer. E também havia o que parecia ser centenas de parentes de Lee para conhecer, todos fazendo perguntas sobre a pouco comum troca das gêmeas. Opal começou a espalhar o rumor de que o marido de Houston a levara num cavalo branco — provavelmente com asas, pensou Blair —, e todas as jovens senhoras ficaram murmurando que Kane era o mais romântico dos homens. Tudo o que Blair podia pensar era que certamente estava alegre de seu golpe ter falhado e não ter de passar sua noite de núpcias com Taggert.

Um dos homens estava perguntando a Blair como devia servir o que parecia ser uma fôrma de queijo de quarenta quilos, quando ela olhou os convidados e viu Leander no meio deles obser-vando-a, e um pouco de calor começou a espalhar-se por seu corpo. Por mais que se preocupasse com certas coisas de Lee, passar a noite com ele não era uma delas.

Ele abriu caminho pela multidão, deu algumas instruções rápidas para o homem com o queijo e puxou Blair para sair com ele para o jardim, fora da vista das pessoas.

— Graças aos céus um homem só tem de passar por isso uma vez na vida. Sabia que o senhor Gates está chorando?

Sentia-se bem em estar ali na sombra com ele, afastada do barulho e da multidão, e desejou que ele a beijasse.

— Provavelmente está feliz por me ver já saindo de sua casa.

— Ele disse-me que agora poderia relaxar, porque sabia que você seria feliz, que vai fazer aquilo para o que o senhor fez as mulheres. Que teria um bom homem, eu, para cuidar de você, e que por fim se realizaria.

Ele a olhava de uma forma que a fazia sentir-se muito quente.

— Acha que se realizará comigo? — perguntou num murmúrio rouco e começou a mover-se na direção dela.

— Dr. Westfield! Telegrama! — era a voz de um rapaz, e no minuto seguinte ele estava ali, quebrando o isolamento deles.

Leander deu uma moeda para o menino e disse-lhe que se servisse de comida, enquanto começava a abrir o telegrama, os olhos em Blair. Mas, no minuto seguinte, toda a sua atenção estava no papel em sua frente.

— Torcerei o pescoço dela — disse ele, entre dentes, o rosto começando a ficar vermelho de raiva.

Blair tirou o telegrama da mão dele.

ACABO DE ME CASAR COM ALAN HUNTER PONTO CONTE PAPAI E BLAIR PONTO VOLTAREI EM TRÊS SEMANAS PONTO NÃO SE ZANGUE MUITO PONTO BEIJOS NINA

— De todas as deslealdades... — começou Lee. — Eu e meu pai iremos atrás dela e...

Blair interrompeu-o.

 

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