Mulher de Fogo
Na Manhã de Domingo, Gates instou Blair…
NA MANHÃ DE DOMINGO, Gates instou Blair a se vestir para ir à igreja e
a fazer o possível para parecer uma dama.
O café da manhã foi uma refeição sombria, com Houston mais fria que de
costume e tanto ela como Opal pareciam ter chorado a maior parte da noite. Duncan parecia estar permanentemente usando a máscara de um mártir que sofria por todos.
Logo depois da desagradável refeição, Opal alegou não se sentir bem para ir
à igreja e retirou-se para seu quarto. Gates levou Blair para um canto e disse-lhe que estava matando a mãe com seus modos imorais.
Mas o pior foi na igreja. O ministro parecia achar que o que acontecera entre
as gêmeas era uma grande piada, e fez a congregação rir quando disse que Lee mudara de idéia sobre com qual das gêmeas queria casar.
Depois do serviço religioso, as pessoas rodearam-nas, querendo saber o que
estava acontecendo, mas Houston permaneceu calada e dura como uma estátua. E quando Leander tentou falar com ela, respondeu-lhe com indisfarçável ódio, e assim, claro, ele decidiu descarregar a fúria e a frustração em cima de Blair. Agarrou-lhe o braço e quase arrastou-a para sua carruagem, que os aguardava.
Blair foi jogada contra o assento da carruagem quando Lee disparou e
dirigiu-se para o sul da cidade. Só quando já estava fora da cidade foi que diminuiu a marcha. Blair endireitou o chapéu.
— Pensou que Houston sorriria para você e diria alguma coisa agradável?
Ele parou a carruagem.
— Pensei que ela seria razoável. Foram vocês duas que começaram a
brincadeira toda. Nunca quis humilhá-la publicamente.
— Tudo o que tem a fazer é ajudar-me a voltar para a Pensilvânia, e então
pode voltar para Houston de joelhos, e tenho certeza de que ela o aceitará de volta.
Ele olhou-a durante um bom tempo.
— Não, não farei isso. Eu e você vamos casar. Trouxe uma cesta de
piquenique e pensei que poderíamos lanchar. — Enrolou as rédeas no cabo do freio, desceu e foi ajudar Blair. Mas, ao passar pelo cavalo, parou. — Parece que estou com uma pedra no sapato — disse, e encostou-se numa árvore para removê-la.
Blair ficou ali por um momento, observando-o, lembrando-se do rosto de sua
irmã durante o anúncio na igreja; pensando que não queria ficar em Chandler ou tornar-se esposa desse homem; pegou então as rédeas, agitou-as rapidamente, e gritou para o cavalo andar enquanto Leander ficou ali com um pé descalço. Ele ainda perseguiu-a por um tempo, mas logo parou quando tropeçou em alguma coisa e começou a mancar.
Quando estava bem a salvo dele, Blair diminuiu a marcha do cavalo e voltou
a Chandler. Tinha de encontrar um meio de fugir da cidade. Depois do anúncio na igreja de manhã, não poderia embarcar facilmente em um trem sem provocar alguma curiosidade. Ser uma Chandler, numa cidade chamada Chandler, tinha seus inconvenientes. No dia seguinte, Alan chegaria e talvez a ajudasse. Apesar do que dissera a Lee, tinha dúvidas quanto a Alan ainda ser capaz de querê-la depois do que acontecera.
No momento em que Blair viu a casa de Chandler, percebeu que havia
alguma coisa errada. Opal estava sentada na varanda e, quando viu Blair, deu um pulo.
— Sabe onde está sua irmã?
Blair subiu as escadas correndo:
— Ela fugiu? Vou me trocar e começaremos a procurá-la.
— É pior do que isso — disse Opal, sentando-se no balanço. — Aquele
homem horrível, o senhor Taggert, veio até a igreja e disse a todos que ele e Houston vão se casar, que vai ser um casamento duplo, com você e Leander. O que está acontecendo com minha família? O senhor Gates diz que aquele homem, Taggert, matou gente para conseguir o que tem, e não posso evitar, mas sinto que Houston o está aceitando por ter perdido Leander e querer mostrar à cidade que pode arranjar outro marido. E ele deve ser muito rico. Odeio pensar que ela está se casando com aquele homem pelo dinheiro.
Blair sentou-se no balanço ao lado da mãe:
— Isso tudo é minha culpa.
Opal deu uma batidinha no joelho da filha.
— Você sempre foi fácil de ser convencida a fazer qualquer coisa. Não fique
tão surpresa, querida. Conheço minhas filhas muito bem. Apesar de Houston parecer ser tão delicada, sei que era ela quem costumava convencer você a fazer a maioria das coisas ousadas. Você sempre teve o maior dos corações e sempre quis ajudar as pessoas, e é por isso que tenho certeza de que será uma médica muito boa.
— Se eu conseguir sair daqui e continuar meus estudos — disse Blair,
desanimada.
Opal brincava com a trepadeira que subia pelo lado da varanda.
— Estive pensando em você e Lee. Pode não ter pensado assim no
momento, mas ele realmente é um homem muito fino. Não acho que alguém o conheça muito bem. Ele sempre ficava tão quieto perto de Houston, mas, nos últimos dias, está animado como nunca o vi antes.
— Animado!? É assim que você chama aquilo? Ele fica me dando ordens,
diz que vou casar com ele, diz que uma mulher não pode ser sua sócia na clínica que quer construir e, em geral, é um homem com a mentalidade estreita de um leitão.
— E você pensou assim na sexta à noite?
Blair virou o rosto para esconder o rubor.
— Talvez não na ocasião, mas tinha tomado uma grande quantidade de
champanha, e havia luar, danças, e as coisas aconteceram.
— Hummm — murmurou Opal evasivamente. — Qualquer que tenha sido a
maneira como viu aquela noite, não penso que para Lee foi o mesmo.
— Não sei se me importo com isso. O problema agora é Houston. Voltei
para esta cidade e arruinei sua vida de fato, e agora ela diz que pretende casar com aquele Midas feio, Kane Taggert. Como vamos evitar que isto aconteça?
— O senhor Gates e eu vamos conversar com ela assim que voltar para casa,
e ver se podemos convencê-la a acreditar que há outra solução além dessa, drástica, que parece estar decidida a tomar.
Blair passou os olhos pelas folhagens que cercavam a varanda e para o canto
branco da mansão de Taggert.
— Odeio aquela casa, sincera e profundamente — disse com sentimento. —
Se Houston não quisesse tanto vê-la, nós não teríamos trocado de lugar, e eu não teria passado a noite com Leander. E agora, se ela não quisesse tanto aquela casa, não estaria pensando em casar com aquele bárbaro.
— Blair, você deve descansar esta tarde. Leia alguns dos livros que trouxe, e
deixe que nos preocupemos com Houston. A propósito, onde está Lee? Por que ele não a trouxe para casa?
Blair levantou-se.
— Acho que descansarei. Não dormi muito na noite passada. E Lee
provavelmente logo aparecerá para pegar a carruagem. Em nenhuma circunstância quero vê-lo.
Opal hesitou um momento antes de concordar.
— Mandarei Susan com uma bandeja. E descanse, querida, porque, se eu
conheço esta cidade, amanhã será um dia agitado. Assim que todos saibam sobre seu casamento com Lee e de Houston com aquele homem, tenho certeza... meu Deus, não quero nem pensar.
Blair também não queria pensar e, felizmente, foi para o retiro de seu quarto,
onde ficou o resto do dia.
A segunda-feira foi muito pior do que Blair pudesse imaginar. No café da
manhã, Gates continuou gritando, a boca cheia de comida, afirmando que Blair arruinara a vida da irmã. Uma vez que Blair tendia a concordar com ele, era difícil defender-se. Opal continuava chorando, enquanto Houston tentava manter os olhos afastados, como se não estivesse ouvindo nada daquilo.
Depois do café, começou a chegar gente em grupos — carroças cheias
vinham trazendo comidas e desculpas frívolas para justificar a visita. Já fazia tanto tempo que Blair não vinha àquela cidadezinha que ficou estarrecida ao ver como aquelas pessoas eram intrometidas. Não havia nada que não considerassem ser de sua conta. Importante era saber por que Lee estava se casando com Blair. Estavam todos muito curiosos sobre Taggert, fazendo a Houston milhares de perguntas sobre ele e querendo saber como era a casa.
Às onze, Blair entrou na casa, para guardar uma das numerosas tortas que
alguém trouxera, e tratou de escapar pela porta dos fundos sem que ninguém a visse. Praticamente correu os três quilômetros até a estação ferroviária, sentindo, a cada passo, que se aproximava mais da liberdade. Quando Alan chegasse, ele seria capaz de endireitar aquela confusão toda, e então Houston poderia casar-se com Leander e ela poderia voltar para casa.
Esperou, com impaciência, que o trem entrasse na estação e, quando por fim
chegou, pensou que o vapor nunca se dissiparia. Mas através da névoa ela o viu e começou a correr com o trem, seguindo-o até que ele pudesse saltar e tomá-la nos braços.
Ela não se importava que o povo de Chandler os visse ou que pensassem que
estava noiva de outro homem — tudo o que importava era que estava outra vez com Alan.
— Que recepção maravilhosa — disse ele, abraçando-a.
Ela afastou-se para olhá-lo. Ele ainda era tão bonito como se lembrava, com
seus cabelos louros, olhos azuis, boa aparência, alguns centímetros mais alto do que ela.
Começou a dizer alguma coisa, quando viu que a atenção dele estava
dirigida a qualquer coisa atrás de seu ombro. Virou-se rapidamente, mas não o suficiente.
Leander habilmente deslizou o braço por sua cintura, tratou de puxá-la para
si e afastá-la de Alan, em um só movimento.
— Então, você deve ser Alan — disse mansamente, com um sorriso amável.
— Ouvi muito a seu respeito. Claro, não há muitos segredos entre amantes, não é, querida?
— Solte-me — falou Blair num sussurro, enquanto tentava sorrir diante do
olhar de espanto de Alan. Enquanto empurrava o cotovelo nas costelas de Lee, disse a Alan: — Posso apresentar o noivo de minha irmã? Este é Leander Westfield. E este é Alan Hunter, meu...
Lee cortou-lhe a palavra, apertando-lhe as costelas com a mão, e mesmo três
fortes cotoveladas não o fizeram soltá-la. Estendeu a mão para Alan:
— Desculpe a Blair, viu? Ela está um pouco excitada hoje por encontrar um
velho e querido amigo. Eu sou o pretendente dela. Vamos casar em duas semanas, na verdade até menos que isso agora, não é, querida? Só mais uns poucos dias e se tornará a senhora Leander Westfield. Sei que a antecipação a está deixando um pouco nervosa e esquecida, mas não deixemos seu amigo ter uma impressão errada. — Ele sorria angelicalmente para Alan.
— Não é nada disso que parece — começou Blair. — Este homem está
louco, e tem algumas idéias muito estranhas. — Com um grande empurrão, tentou afastar-se de Lee. — Alan, vamos a algum lugar para conversarmos. Tenho muita coisa para lhe contar.
Alan olhou para Lee, que era muitos centímetros mais alto do que ele.
— Acho que precisamos conversar. — Estendeu o braço para ela. — Vamos?
— Olhou por cima do ombro para Lee. — Você pode carregar minhas malas, meu jovem.
Lee conseguiu com sucesso colocar-se no meio do casal.
— Em geral eu adoraria carregar as malas de um amigo de minha futura
mulher, mas hoje tenho um pequeno problema. Ontem precisei andar uns seis quilômetros com sapatos novos, e meu pé está com muitas bolhas para agüentarem um peso extra. Meu médico insistiu para que não os cansasse. Vamos, Blair, encontraremos seu amiguinho na carruagem.
— Seu animal! — lançou-lhe ela, enquanto ele a empurrava em direção à
carruagem. — E que doutor iria prescrever um remédio asinino como esse?
— Dr. Westfield às suas ordens — disse Lee, ao ajudá-la a subir aa
carruagem.
— Esse é um cavalo fora do comum — disse Alan ao jogar suas malas no
fundo, referindo-se ao appaloosa que puxava a carruagem de Lee.
— O único nesta região — disse Lee com orgulho. — Aonde quer que eu vá,
as pessoas podem ver este cavalo e reconhecem-no. Assim, se precisam de ajuda, podem me encontrar.
— Que tipo de ajuda? — perguntou Alan, ao subir na carruagem.
— Sou médico — respondeu Lee, enquanto estalava o chicote sobre o
cavalo e disparava com a carruagem antes que Alan estivesse totalmente sentado ao lado de Blair.
Lee levou-os numa corrida arrepiante, e os moradores de Chandler,
pensando que ele estava atendendo um caso de emergência, afastavam-se de seu caminho. Parou em frente da casa que comprara para Houston.
— Achei que este seria um bom lugar para conversarmos.
Os olhos de Blair se arregalaram. Ela não vira a casa desde a noite em que
ela e Lee...
— Preciso conversar com Alan, e não com você. E, definitivamente, não
aqui.
— A bem dizer, a cena do crime? Bem, acho que poderíamos ir à casa de
chá da srta. Emily. Ela tem sala reservada.
— Muito melhor, mas gostaria de ficar sozinha com Alan. Houston e eu... —
parou, uma vez que Lee partira em disparada outra vez, jogando-a e a Alan contra o fundo da carruagem.
— E aqui estão nossos pombinhos. Lee, você devia ter nos contado sobre
você e Blair — disse a srta. Emily. — Quando Nina nos contou que você estava como o jovem cisne apaixonado, nós todos pensávamos que fosse por Houston.
— Suponho que seja verdade que o verdadeiro amor é cego — disse Lee,
piscando para a mulher mais velha. — Podemos ir para a sala reservada? Um velho amigo de minha noiva veio nos visitar, e gostaríamos de conversar.
A srta. Emily lançou um olhar a Alan e sorriu:
— Você tem de conhecer Nina, a irmã de Leander, que é uma jovem muito
bonita.
Na sala reservada, depois que o chá com bolos foi servido, Blair fazia
caretas e Alan ainda parecia perplexo, mas Lee sorria orgulhosamente.
— Se você não se importa, eu contarei a verdade para Alan — disse Blair
assim que a porta foi fechada. — Minha irmã, Houston, queria ir a um lugar...
— Aonde? — interrompeu Lee.
Ela lançou-lhe um olhar penetrante:
— Se você quer saber, ela recebera um convite para ver aquela casa
monstruosa de Taggert, naquela noite, e queria ir, e a única maneira seria eu fingir que era ela e comparecer à recepção com você. De qualquer maneira — disse Blair, voltando-se outra vez para Alan, com a voz já sem raiva —, minha irmã queria trocar de lugar durante a noite, como costumávamos fazer quando éramos crianças, e assim fizemos. Só que eu não sabia no que estava me metendo porque ele — olhou para Lee — continuava zangado comigo, quero dizer, com Houston, e eu tentava afastar-me dele e ele não me deixava. E então, no dia seguinte, ele descobriu que trocáramos de lugar, e agora, estupidamente pensa que quero casar com ele.
Alan ficou quieto durante vários minutos.
— Parece que está faltando algum pedaço na história — falou finalmente.
— Eu diria que está faltando cerca de metade — disse Lee. — A verdade é
que as gêmeas trocaram de lugar, e, por minha vida, não sei como não percebi logo. Eu estava noivo de Houston, que é uma coisinha gelada, portanto devia ter adivinhado que não era ela, porque, quando toquei Blair, ela praticamente acendeu.
— Como se atreve a dizer tal coisa?
— Só estou contando a verdade, querida — disse Lee, simulando total
inocência. — Levei-a para minha casa mais tarde, para uma ceia, e, bem, digamos que tivemos nossa noite de núpcias um par de semanas mais cedo.
— Alan, não foi assim. Eu era Houston, e ela o ama. Só os céus sabem por
que, pois não gosto nem um pouco dele. Ele é dominador, egoísta e pensa que uma mulher não poderia ser uma sócia na clínica que quer abrir. Eu só quero ir para casa, trabalhar no St. Joseph e casar com você, Alan. Tem de acreditar nisso.
Alan tinha o cenho franzido, enquanto corria a faca pela toalha da mesa.
— Você deve ter algum sentimento por ele ou não iria...
— Já lhe disse — interrompeu Blair, o rosto mostrando ansiedade. — Eu era
Houston, Alan, por favor, acredite. Partirei com você agora mesmo.
— Sobre o meu cadáver — disse Lee.
— Ah! por fim um pensamento agradável — disse ela, sorrindo para ele e
cerrando os olhos.
— Diga-me — interrompeu Alan, voltando-se para Lee —, pretende arrastá-
la até o altar pelos cabelos?
— Tenho perto de duas semanas. Por ocasião do dia do casamento, ela estará
pronta para se casar comigo.
— Tem certeza disso? — perguntou Alan.
— Absoluta — respondeu Lee.
— Vamos fazer uma aposta! — propôs Alan. — No dia vinte, ela casa com
você ou parte comigo.
— Concordo.
— Concorda!? — Blair levantou-se da mesa. — Não creio desejar qualquer
um de vocês. Não serei negociada como uma cabeça de gado.
— Sente-se. — Lee pôs a mão no ombro dela e empurrou-a de volta para a
cadeira. — Você diz que está apaixonada por ele, no entanto não pôde resistir a mim. Portanto quem você quer escolher?
— Não quero saber de escolha. Quero me casar com Alan.
— Isto é o que diz hoje, mas você acaba de me conhecer — disse Lee
convencido. — Claro, foi um primeiro encontro marcante, mas... aqui, sente-se. — Olhou outra vez para Alan. — Precisamos acertar algumas regras. Primeira: ela tem de concordar em permanecer em Chandler até o dia 20. Nada de deixar a cidade. E segunda: ela tem de aceitar meus convites. Ela não pode se esconder na casa de Gates ou só sair com você. Qualquer outra coisa é território aberto.
— Parece bastante justo para mim — respondeu Alan. — O que acha, Blair?
O primeiro pensamento de Blair foi sair da casa de chá e deixar os dois ali,
mas primeiro queria saber as conseqüências:
— E se eu não concordar?
— Aí eu presumo que planeja fugir da cidade — disse Lee. — Mandarei
Gates atrás de você, na Pensilvânia, e depois que ele terminar contando sua história, você não terá uma carreira médica. Por outro lado, se no dia vinte, erradamente, escolher Alan, eu comprarei sua passagem de trem e de alguma forma acalmarei Gates.
Ela examinou a proposta durante um momento, e então olhou para Lee:
— Está certo, mas vou lhe dar um aviso. Não quero me casar com você, e
vou fazer com que se sinta aliviado no dia 20, quando partir desta cidadezinha intolerante com Alan, porque vou tornar sua vida a mais desgraçada possível a partir de agora.
Lee virou-se para Alan:
— Amo uma mulher que tem fogo nas veias. Que possa vencer o melhor
homem. — Estendeu a mão e Alan apertou-a. Estava combinado.
Capítulo IX
NO DIA SEGUINTE à chegada de Alan, Blair estava deitada de costas
numa colcha estendida sob uma árvore no Parque Fenton. Alan lia um artigo para ela sobre os últimos avanços no tratamento da difteria, enquanto ela observava as nuvens movendo-se acima, escutava o zunido das abelhas e ouvia as risadas das outras pessoas presentes ao parque naquela tarde bonita.
— Blair, você me ouviu? Estava lendo o relatório do doutor Anderson. Que
é que você acha?
— Sobre o quê? — perguntou, sonhadora, virando-se sobre o estômago. —
Oh — disse, atrapalhada. — Acho que não estava escutando. Estava pensando em minha irmã e no que aconteceu ontem.
Alan fechou o livro.
— Importa-se de compartilhar seus pensamentos?
— Aquele homem, Taggert, mandou-lhe uma carruagem com cavalo e tudo
e, junto, o maior diamante do mundo. Houston nem se perturbou. Calmamente apertou aquele anel no coração, dirigiu-se para a carruagem e partiu, e não voltou para casa antes das nove. Minha mãe já estava prostrada de pesar por sua filha estar se vendendo. Assim, tive de passar horas tentando acalmá-la até que pudesse dormir. E, pela manhã, Houston saiu antes do amanhecer, o que fez com que mamãe começasse a chorar outra vez.
— E ela não está preocupada com você? — perguntou Alan, abaixando o
texto médico e encostando-se na árvore.
— Penso que tanto ela como o senhor Gates acreditam que estou ganhando
um homem melhor do que mereço, ou pelo menos o senhor Gates pensa assim. Não estou certa do que mamãe pensa. Ela está preocupada com o fato de a vida de Houston ter sido arruinada.
Alan correu os dedos pelos lados do livro.
— E você ainda acha que não devo ser apresentado à sua mãe e padrasto?
— Ainda não — disse, sentando-se. — Você nem pode imaginar como é o
senhor Gates. Se ele souber que eu... — Ela parou, porque a última coisa que queria fazer era lembrar a Alan, em primeiro lugar, como ficara noiva de Lee. Mas sabia que se Gates soubesse que ela dormira com um homem estando noiva de outro, sua vida seria mais insuportável do que já era. Ele nunca perdia uma oportunidade de lhe dizer que arruinara a vida da irmã, que agora pensava em casar com um homem por seu dinheiro ou por qualquer coisa, para salvar-se da humilhação frente a toda a cidade. Era isso que ouvia de seu padrasto noite e dia.
Deu um fraco sorriso a Alan.
— Não falemos de nada desagradável num dia tão adorável. Por que não
vamos dar um passeio ou, melhor ainda, por que não alugamos uma canoa e saímos pelo lago? Nunca mais pratiquei na água desde que deixei o time de remo no outono.
— Gostaria muito — disse ele, levantando-se e oferecendo a mão para
ajudá-la a erguer-se.
Dobraram a colcha, apanharam o livro e dirigiram-se à pequena casa ao lado
do lago Midnight, onde alugaram uma canoa. Havia vários casais no lago que gritaram, cumprimentando.
— Bom dia, Blair-Houston — diziam, olhando com interesse para Alan, e
alguns deles sugeriam que gostariam de ser apresentados, mas ela se fazia de desentendida. Houston podia sentir-se na obrigação de satisfazer a curiosidade da população da cidade, mas Blair não se achava obrigada a nada.
Recostou-se na canoa, enquanto Alan remava, o rosto protegido do sol
ardente da alta altitude de Chandler por um chapéu largo, deixando a mão correr na água, e quase adormeceu.
— Bom dia! — ouviu-se uma voz, o que fez com que se aprumasse. Olhou e
viu o rosto de Leander, que remava ao lado deles.
— Que está fazendo aqui? — perguntou com o maxilar cerrado. — Vá
embora.
— Segundo sua mãe, eu saí com você. Bem, Hunter, você não parece de
todo confortável com esse remo. Talvez seja por viver muito em cidade.
— Quer dar o fora daqui com suas observações maldosas? — sugeriu Blair.
— Estávamos na mais perfeita paz até que aparecesse.
— Cuidado com seu humor. As pessoas estão começando a olhar, e você não
iria querer que eles pensassem que há alguma coisa errada no paraíso, não é?
— Paraíso? Com você? Você não passa de um...
— Hunter, pode dar-me uma mão? — disse Leander, ignorando-a. — Parece
que prendi meu pé sob este banco e está começando a inchar.
— Alan, não faça isso — avisou Blair. — Não confio nele. Mas era muito
tarde. Alan, recém-saído da escola de medicina e muito consciente de suas responsabilidades de socorrer, não pôde resistir a um pedido de ajuda. No mesmo instante pousou o remo e curvou-se para o lado, para ajudar Lee — e assim que ficou estendido sobre a água, Lee deu um balanço na canoa. Alan, depois de um momento de luta, caiu no lago. No mesmo instante, Blair curvou-se para ajudá-lo, mas Lee agarrou-a pela cintura ie puxou-a para sua canoa.
Ouviam-se as risadas ao redor deles, o ruído de Alan se debatendo na água,
tentando voltar para a canoa, e o de Blair, chutando Lee para deixá-la ir. De alguma forma, Lee tentava remar os poucos metros até a praia, usando só um remo, enquanto segurava Blair com o outro braço, tentando sofrer o mínimo de injúria ossível de seus punhos voadores.
Uma vez na praia, postou-se em frente a ela e sorriu como um garotinho que
acaba de realizar um feito magnífico.
— Meu chapéu — disse Blair através dos dentes cerrados.
Ainda sorrindo, Lee foi até o pequeno bote de madeira para pegá-lo. E
quando ficou de costas e desprevenido, Blair agarrou um remo abandonado e empurrou-o pelas costas com tudo que podia. Para sua grande alegria, ele caiu de cara na lama da margem do lago.
Mas ela não teve tempo de gozar seu sucesso, porque viu que Alan ainda
estava se debatendo na água. Agradeceu aos céus pelos anos em que estivera no time de remo feminino, enquanto chegava até Alan com o bote de Lee.
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