Mulher de Fogo

Jude Deveraux · Capítulo 1 de 8 · parte 1/3

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Mulher de Fogo

Há muitas pessoas a quem gostaria de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Agradecimentos

Há muitas pessoas a quem gostaria de agradecer pela ajuda que me

deram em meus livros. Em primeiro lugar, devo muito a Claude, que, revirando

velhos livros, respondeu a todas as insípidas questões que lhe fiz sobre

mineração de carvão.

Agradeço também aos editores, que leram centenas de manuscritos com

minha microscópica letra e que me ouviram por horas a fio.

Obrigada a todos os bibliotecários do Colorado; o paraíso deve estar

povoado deles.

Gostaria de agradecer aos doutores Tom Dilday e Curtis Boyd, pelos

ensinamentos sobre ortopedia, e a Annette Swamberg, por desviar-se de seu

caminho para levar-me à casa Huntington.

Finalmente, sou grata a Glenna Boyd por levar-me a lugares

maravilhosos e ouvir-me tagarelar durante horas sobre dinamite, competição de

carroças e a Irmandade.

Muito obrigada a Ron Busch, que acreditou em minha capacidade para

escrever esta história.

Nota da Autora

Antes que eu começasse as pesquisas para meus romances, achava que,

até o fim da Primeira Guerra Mundial, homens e mulheres estavam satisfeitos

com seus papéis na vida. Imaginava que as mulheres submetiam-se docemente

a seus maridos e que estes estavam felizes com sua doces esposas.

No entanto, quando pesquisei o período medieval, a descoberta de que,

mesmo no século 14, as mulheres escreveram livros sérios sobre a opressão

masculina deixou-me chocada. Quanto aos homens, uma antiga anedota,

posteriormente citada por Shakespeare, atribuía um prêmio àquele que

mandasse a esposa segui-lo e a quem ela obedecesse sem fazer perguntas ou

desse desculpas para não ir. Segundo a anedota, o prêmio ainda está por ser

entregue.

Se fiquei chocada com a pesquisa sobre o período medieval, não há

palavras para descrever o que senti ao olhar para o século 19. Li grande

número de escritos feministas do século 20, mas nada se compara aos textos

oitocentistas. As mulheres lutavam exatamente pelas mesmas bandeiras que

nós: por igualdade de salários, contra violação e espancamento de esposas, pelo

direito de ficar com seus filhos após uma separação e por centenas de outras

reformas. A grande diferença é que para cada livro que uma mulher do século

19 escreveu sobre igualdade sexual um homem contra atacou declarando que,

se as mulheres não voltassem para a cozinha, eles destruiriam o mundo. Agora,

cem anos depois, enquanto as mulheres parecem ainda estar lutando, os

homens quase desistiram. É uma pena, uma vez que, como acredito deixar

claro em meus livros, eu simplesmente adoro uma boa e excitante discussão.

 

Prólogo

Filadélfia, Pensilvânia, Abril, 1892

— SURPRESA! — onze pessoas gritaram à entrada de Blair Chandler na

sala de jantar de seu tio Henry.

Ela era uma bonita jovem, com cabelos castanho-escuros realçados por

reflexos ruivos, grandes olhos azul-esverdeados, nariz reto e aristocrático, e uma boca pequena bem desenhada.

Blair parou por um momento, tentando disfarçar as lágrimas de felicidade,

enquanto olhava para as pessoas à sua frente. Lá estavam tio Henry e sua esposa e, ao lado deles, Alan e seus colegas estudantes de medicina — uma mulher e sete homens. Enquanto todos a contemplavam com prazer, ela, de pé, atrás da mesa repleta de presentes, não parecia lembrar-se dos últimos anos de luta para formar-se e receber seu diploma de médica.

Tia Fio, com a graça de uma jovenzinha, adiantou-se:

— Não fique aí parada, querida. Estão todos morrendo de vontade de ver

seus presentes.

— Primeiro este aqui — disse tio Henry, entregando-lhe um pacote grande.

Blair pensou saber o conteúdo da caixa, mas temia uma frustração. Quando rasgou o invólucro e viu a maleta de couro com os instrumentos médicos novos e brilhantes, sentou-se pesadamente na cadeira atrás de si, incapaz de falar. Tudo o que conseguiu fazer foi correr um dedo pela placa de bronze na maleta, onde estava escrito: Dra. B. Chandler.

— É esta a mulher que colocou ovos podres no armário do professor de

cirurgia? — manifestou-se Alan, quebrando o silêncio embaraçoso. — É esta a mulher que enfrentou toda a diretoria dos hospitais de Filadélfia? — Curvando-se, pôs os lábios bem junto de sua orelha. — É esta a que tirou o primeiro lugar nos exames do St. Joseph, tornando-se a primeira médica interna de seus quadros?

Passou-se um momento antes que Blair pudesse reagir:

— Eu? — murmurou, levantando os olhos para ele, a boca aberta,

expressando descrença.

— Você ganhou seu estágio — disse tia Fio, com o rosto cheio de brilho. —

Deverá começar em julho, depois de voltar do casamento de sua irmã.

Blair olhava de um para outro. Fizera o melhor possível em St. Joseph. Até

contratara um tutor para ajudá-la a preparar-se para os testes, mas já lhe haviam dito que o hospital da cidade, assim como se opunha à clínica feminina, não aceitava mulheres.

— Você deu uma mão nisso, não foi? — perguntou Blair, virando-se para o

tio Henry.

Henry estufou o peito com orgulho:

— Eu simplesmente fiz um desafio — respondeu-lhe o tio, estufando o peito

com orgulho. — Se minha sobrinha não fosse a melhor nos testes, eles não precisariam dar-lhe um lugar. Na verdade, eu até contei-lhes que você pensara em abandonar a medicina e ficar em casa, tomando conta de Alan. Acho que eles não resistiram à tentação de ver uma mulher médica ser trazida de volta à razão.

Por um momento, Blair sentiu-se um pouco abalada. Ela jamais imaginara

que tudo isso pudesse estar acontecendo naqueles três traiçoeiros dias de testes.

— Você conseguiu — exultou Alan, rindo. — Mas não tenho certeza se

gosto de ser o prémio de consolação. — Colocou a mão no ombro dela. — Parabéns, querida. Sei o quanto você desejava isso.

Tia Fio entregou-lhe a carta que confirmava de fato que ela havia sido aceita

como interna no hospital St. Joseph. Blair apertou o papel em seu peito e olhou para as pessoas à sua volta. Naquele momento, pensou, sua vida inteira estava se estendendo à sua frente — e ela era perfeita. Tinha família, amigos; iriam permitir-lhe fazer seu treinamento num dos melhores hospitais dos Estados Unidos. E tinha Alan, o homem a quem amava.

Esfregou o rosto contra a mão, enquanto olhava para os instrumentos

médicos reluzentes. Iria realizar o sonho de toda a sua vida, tornando-se médica e casando-se com aquele homem bom e amável.

Só lhe faltava, então, voltar a Chandler, Colorado, para assistir ao casamento

de sua irmã gémea. Ansiava por vê-la outra vez, depois de todos aqueles anos, compartilhando com ela a felicidade pelos homens e pelas vidas que tinham escolhido.

E, enquanto estivesse em sua cidade, Alan iria visitar e conhecer sua mãe e

irmã. Eles então formalizariam o noivado, e o casamento seria realizado depois que ela e Alan terminassem seus períodos como internos.

Blair sorriu para seus amigos, querendo repartir sua alegria com todos. Só

mais um mês, e tudo aquilo por que lutara começaria.

Capítulo I

Chandler, Colorado Maio de 1892

BLAIR CHANDLER permanecia de pé, em silêncio, na enfeitada sala de

visitas da casa Chandler, entre móveis pesados, escuros, cobertos com pequenas toalhas de renda. Não se importava com o fato de a mãe ter voltado a se casar há muitos anos, e de seu padrasto, Duncan Gates, ter assumido o pagamento da casa. A comunidade local ainda pensava nela como tendo pertencido a William Houston Chandler — o homem que a desenhara e construíra, morrendo antes de fazer o primeiro pagamento.

Mantinha os olhos abaixados, encobrindo sua cor azul-esverdeada, que agora

brilhavam com raiva. Uma semana na casa do padrasto, e tudo o que aquele homenzinho grosseiro fizera fora gritar com ela.

Para o mundo todo, ela pareceria uma jovem respeitável, parada ali, com sua

blusa branca e saia de gorgorão escuro e grande parte de suas formas sensuais escondidas sob as dobras do tecido. E seu rosto aparentava uma beleza tão tranqüila e gentil que ninguém adivinharia o espírito que se instalara sob sua aparência. Mas quem quer que ficasse perto por um tempo saberia que ela era capaz de enfrentar uma discussão.

E era por isso que Duncan Gates não se acanhava em dizer-lhe como tornar-

se uma moça recatada. E em sua noção de recato não cabia uma mulher jovem que fora preparada para ser uma médica, especialmente hábil em ferimentos a bala. Ele não podia apreciar o fato de que o talento de Blair na costura funcionasse tão bem num intestino perfurado como num pano de bordado.

Fora rude com ela durante toda a semana, e Blair agüentara o quanto lhe fora

possível, até que começara a devolver no mesmo tom. Infelizmente, era este o momento em que geralmente sua mãe ou irmã entravam na conversa para impedir seu curso. Não foi preciso muito tempo para ela perceber que o sr. Gates dirigia a casa, e as mulheres que nela moravam, com rigor. Ele podia dizer o que lhe conviesse; nenhuma mulher tinha o direito de contradizê-lo.

— Estou esperando que volte à razão e desista dessa sua loucura de

medicina — gritou-lhe Gates. — Uma mulher pertence ao lar, e, como provou o dr. Clark, quando uma usa o cérebro, suas funções femininas sofrem.

Blair deu um grande suspiro, lançando um olhar de relance para o gasto

folheto que o sr. Gates sustentava no alto. Centenas de milhares de cópias dele haviam sido distribuídas, para barrar o prosseguimento dos estudos pelas mulheres.

— O dr. Clark não provou coisa alguma — disse ela com ar cansado. — Ele

disse que examinou uma estudante de quatorze anos sem busto, e disso concluiu essa tolice. Não acho que esta seja uma prova conclusiva de coisa alguma.

O rosto do padrasto começou a ficar vermelho.

— Não permitirei esse modo de falar em minha casa. Você pode pensar que,

por ser uma doutora, tem o direito de portar-se indecentemente. Mas não aqui em minha casa.

O homem estava começando a ultrapassar o que Blair podia tolerar.

— Desde quando esta é sua casa? Meu pai...

Naquele momento, a irmã de Blair, Houston, entrou na sala e colocou-se

entre eles, lançando a Blair um olhar suplicante.

— Não está na hora do jantar? Vamos entrar? — disse ela, com aquela voz

fria, reservada, que Blair estava começando a odiar.

Blair tomou seu lugar junto à grande mesa de mogno, e durante todo o jantar

respondeu às mal-humoradas perguntas do sr. Gates, com os pensamentos presos à irmã.

Esperara tanto por aquele regresso a Chandler, para encontrar sua mãe e

irmã, e para rever os companheiros de infância! Cinco anos haviam se passado desde a última vez, quando ela estava com dezessete anos, preparando-se para entrar na escola de medicina, e empolgada com seus novos estudos. Talvez tivesse estado envolvida demais com seus próprios pensamentos, cega à atmosfera em que sua mãe e irmã viviam.

Mas, daquela vez, sentira a opressão assim que desembarcara do trem.

Houston fora esperá-la, e Blair teve a certeza de nunca ter visto um modelo mais perfeito de mulher rígida, gélida e inflexível. Sua irmã era uma mulher, em carne e ossos; só que parecia feita de gelo.

Não houvera abraços efusivos na estação nem traços de mexericos enquanto

seguiam para a mansão. Tentara conversar com Houston, mas recebera apenas um olhar frio, distante. Nem mesmo o nome de Leander, seu noivo, coloriu de algum matiz mais caloroso o comportamento de Houston.

Metade do curto trajeto fora feito em silêncio, com Blair agarrada à sua nova

maleta cirúrgica, temendo que escapasse de suas mãos, enquanto atravessaram Chandler.

A cidade mudara muito nos cinco anos em que estivera fora. Tudo parecia

renovado no lugar; parecia que as coisas estavam sendo construídas e crescendo. O lado ocidental era muito diferente das cidades e vilas do leste, onde as tradições já estavam estabelecidas.

As construções, com suas frentes falsas, um estilo que alguém chamara de

vitoriano ocidental, eram ou novas ou estavam em andamento. Chandler era simplesmente um bonito pedaço de terra com uma magnífica quantidade de carvão quando William Chandler chegara. Não havia estrada de ferro nem centro comercial.

Os raros estabelecimentos que serviam os rancheiros espalhados na região

não ostentavam seus nomes. Bill Chandler logo remediara aquilo.

Quando atingiram a estrada para a mansão Chandler, como os habitantes

locais gostavam de chamá-la, Blair sorrira com prazer para a enfeitada construção de três andares. O jardim de sua mãe era verde e viçoso, e ela podia sentir o perfume das rosas. Haviam sido colocados degraus da rua para a casa, porque a ladeira fora nivelada para os novos bondes puxados a cavalo; mas, fora aquilo, poucas mudanças. Atravessara a larga varanda que cercava a casa e entrara por uma das portas da frente...

Blair não precisara estar dez minutos lá dentro para ver o que tinha acabado

com o espírito de Houston.

Parado do lado de dentro da porta estava um homem com uma segurança

que qualquer orgulhoso brutamontes invejaria — e seu olhar combinava com seu aspecto geral.

Tinha doze anos quando partira para a Pensilvânia, indo morar com os tios a

fim de poder estudar medicina. E, durante aqueles anos, esquecera-se de como era exatamente seu padrasto. Já quando lhe oferecera a mão, sorrindo, ele começara a dizer-lhe que era uma mulher má e não lhe dava permissão para praticar sua medicina de feitiçaria naquela casa.

Espantada, Blair olhara para sua mãe sem acreditar. Opal Gates estava mais

magra e com os movimentos mais lentos, e antes que pudesse responder às observações do padrasto a mãe adiantara-se, abraçando-a rapidamente e levando-a para cima.

Durante três dias, Blair falara muito pouco. Tornara-se uma espectadora. E o

que vira fora assustador.

A irmã da qual se lembrava, aquela que ria e brincava, aquela que costumava

se divertir com a brincadeira de trocar de lugar com ela, causando confusões, tinha acabado — ou estava tão enterrada que agora ninguém poderia encontrá-la. A Houston que costumava organizar brincadeiras, que era sempre tão criativa — Houston, a atriz — tinha agora sido suplantada por uma mulher revestida de aço, dona do maior número de vestidos da cidade toda.

Parecia que toda a criatividade de sua irmã fora canalizada para a escolha de

um deslumbrante vestido após o outro.

Em seu segundo dia em Chandler, Blair descobrira, por meio de uma amiga,

alguma coisa que lhe dera esperanças de que a vida de sua irmã não fosse completamente sem propósito. Todas as quartas-feiras, Houston vestia-se como uma velha gorda e dirigia uma carroça de quatro cavalos repleta de alimentos até os campos de carvão que rodeavam Chandler. Aquilo era bastante perigoso, uma vez que os campos eram fechados e guardados para evitar infiltração de sindicalistas. Se ela fosse apanhada entregando mercadorias ilegais para as mulheres dos mineiros — mercadorias que não eram compradas no armazém da companhia —, poderia ser processada, isto é, se os guardas não atirassem nela antes.

Mas, no terceiro dia, Blair perdera a pequena esperança que tivera, porque

então reencontrara Leander Westfield.

Quando os Westfield mudaram-se para Chandler, as gémeas tinham seis

anos, e Blair estava confinada em seu quarto com um braço quebrado. Assim perdera o encontro com Leander, então com doze anos, e sua irmã de cinco anos. Mas soubera de tudo sobre ele por Houston. Desobedecendo à sua mãe, Houston escapulira até o quarto de sua gémea, para contar-lhe que encontrara o homem com quem iria se casar.

Blair ficara lá, ouvindo-a com atenção, os olhos arregalados. Houston

sempre sabia o que queria; sempre parecia uma adulta.

— Ele é exatamente o tipo de homem que eu gosto. Calmo, inteligente,

muito elegante, e pretende ser um médico. Precisarei descobrir o que a esposa de um médico precisa saber.

Como se fosse possível, os olhos de Blair arregalaram-se mais ainda.

— Ele lhe pediu para casar com ele? — perguntara a Houston, num

murmúrio.

— Não — respondera Houston, tirando suas luvas brancas, sempre limpas.

Se estivessem com Blair mesmo que por meia hora elas teriam ficado pretas de sujeira. — Homens jovens como Leander não pensam em casamento, mas nós mulheres temos de pensar. Eu decidi. Vou me casar com ele assim que terminar a escola de medicina. Claro que isto depende de sua aprovação. Não poderia casar com alguém que lhe desagradasse.

Blair sentira-se honrada com essa responsabilidade que a irmã lhe dera, e a

tomara a sério. Ficara um pouco desapontada ao conhecer Leander e descobrir que ele ainda não era um homem, mas um menino alto, magro, bonito e que raramente dizia alguma coisa. Ela sempre gostara de meninos que corriam, atiravam pedras e lhe ensinavam a assobiar com dois dedos na boca. Depois de uns poucos encontros iniciais desagradáveis, começara a ver o que as pessoas gostavam em Lee, quando Jimmy Summers caíra de uma árvore e quebrara a perna. Nenhuma das outras crianças soubera o que fazer e só haviam ficado parados, olhando Jimmy chorar de dor, mas Lee tomara a frente e mandara alguém chamar o médico e outra buscar a sra. Summers. Blair ficara bastante impressionada com ele e, ao virar-se para Houston, vira-a acenar com a cabeça uma vez, como a dizer que aquele episódio tinha reafirmado sua decisão de tornar-se a sra. Leander Westfield.

Blair ansiara por admitir que Leander tinha algumas boas qualidades, mas

nunca realmente gostara dele. Ele era muito seguro de si, muito convencido... muito perfeito. Claro, ela nunca o dissera a Houston, e achava que talvez ele mudasse, se tornasse mais humano à medida que fosse ficando adulto. Mas ele não mudara.

Poucos dias antes do episódio do jantar, Lee viera buscar Houston para levá-

la a um chá e, uma vez que Opal saíra e o sr. Gates estava no serviço, Blair tivera oportunidade de conversar com Lee enquanto Houston acabava de se vestir — em geral ela levava uma eternidade para ficar entalada dentro de uma daquelas armadilhas de rendas e seda que sempre usava.

Blair achara que teriam muitas coisas para conversar, uma vez que ambos

eram médicos, e que ele já não mais a provocava como antes.

— Farei estágio no hospital St. Joseph na Filadélfia, no próximo mês —

começara ela, quando se sentaram na sala de visitas. — Tem fama de ser um hospital excelente.

Leander lançara-lhe um daqueles seus olhares penetrantes que tinha desde

criança. Era impossível dizer o que ele estaria pensando.

— Eu estava imaginando... — continuou ela — ...acha que seria possível eu

fazer as rondas com você na enfermaria Chandler? Talvez pudesse me dar algumas dicas para quando eu começasse o estágio no próximo mês.

Lee levara um longo tempo para responder.

— Não acho aconselhável — fora tudo o que dissera por fim.

— Pensei que entre médicos...

— Não sei se a diretoria consideraria uma mulher como um médico

qualificado. Eu poderia ser capaz de levá-la ao hospital de mulheres.

Na escola, fora mesmo avisada de que as vezes seria tratada assim.

— Não o surpreende saber que pretendo especializar-me em cirurgia

abdominal? Nem todas as médicas querem tornar-se parteiras abnegadas.

Leander levantara uma sobrancelha e a olhara de cima a baixo com surpresa,

o que a fizera imaginar se todos os homens em Chandler acreditavam que as mulheres eram idiotas e não deveriam sair de casa.

Mesmo assim, estava determinada a não julgá-lo. Afinal, eles agora eram

adultos e as animosidades da infância deviam ser postas de lado. Se era ele o homem que Houston queria, então ela devia tê-lo — Blair não tinha de viver com ele.

Alguns dias depois, todavia, tendo passado um tempo com a irmã, começara

a questionar a ideia de um casamento entre ela e Leander, porque, incrivelmente, Houston se tornava ainda mais rígida quando Lee estava presente. Os dois raramente conversavam um com o outro, não ficavam com as cabeças juntas, cochichando e dando risadinhas como a maioria dos noivos. Eles certamente não eram como ela e Alan, foi o que Blair pensou.

Naquela noite, no jantar, as coisas pareciam ter chegado a um extremo. Blair

estava cansada da constante implicância do padrasto, e enjoada de ver sua irmã naquela horrível atmosfera de opressão. Quando Gates a provocou, ela explodiu, dizendo-lhe que arruinara a vida de Houston, mas não iria arruinar também a dela.

Nem bem acabou de dizer isso, arrependeu-se. Mas, então, sua alteza real,

Leander Westfield, entrou, e todos olharam-no como se estivessem diante de um semideus. Blair encarava Houston como a uma virgem dada em sacrifício àquele homem frio e sem sentimentos. E, quando Leander ousou chamá-la de sua noiva, como se já a possuísse, Blair não pôde mais agüentar e saiu da mesa em lágrimas.

Não sabia quanto tempo estivera chorando antes que sua mãe viesse para

tomá-la nos braços e embalá-la como uma criança.

— O que há? — murmurou Opal, acariciando os cabelos da filha. — Está

com tanta saudade de casa? Sei que o sr. Gates não tornou sua visita agradável, mas ele tem boas intenções. Quer que você tenha um lar e filhos, e teme que, se for uma médica, homem nenhum vá querê-la. Você não ficará conosco muito tempo, e então pode voltar para Henry e Fio, e começar a trabalhar no hospital.

As palavras da mãe fizeram Blair chorar mais forte.

— Não é por mim — soluçou. — Eu posso partir. Posso sair daqui. É

Houston. Ela é tão infeliz, e é tudo por minha culpa. Eu parti e deixei-a para aquele homem horrível, e agora ela é tão infeliz.

— Blair — disse Opal firmemente —, o sr. Gates é meu marido e, seja lá o

que ele for, eu o respeito e não posso permitir que fale assim dele.

Blair levantou os olhos molhados para a mãe.

— Não me refiro a ele. Ele agora está aqui, mas Houston pode afastar-se

dele. Refiro-me a esse Leander.

— Lee? — perguntou Opal, incrédula. — Mas Leander é um amor de rapaz.

Ora, todas as jovens de Chandler morrem para ao menos dançar com ele. Você não pode estar querendo dizer que está preocupada por Houston casar-se com Lee.

— Eu sempre fui a única a ver como ele é! — disse Blair, afastando-se da

mãe. — Já reparou mesmo em Houston quando ele está por perto? Ela gela! Senta-se ali, como se tivesse medo do mundo e dele em particular. Ela costumava rir e divertir-se, mas agora nem ao menos sorri. Oh, mãe, como desejo nunca ter partido! Se tivesse ficado aqui, poderia ter evitado que minha irmã concordasse em casar com aquele homem. — Correu de volta para a mãe e enterrou o rosto em seu colo. E Opal sorriu para a filha, satisfeita pela preocupação carinhosa.

— Não, você não devia ter ficado aqui — disse mansamente. - Acabaria

ficando como Houston e acreditando que a única coisa que uma mulher pode fazer é cuidar de seu marido, e o mundo perderia uma ótima médica. Olhe para mim. — Levantou o rosto de Blair. — Nós, na verdade, não podemos saber como Houston e Lee são quando estão sozinhos. Ninguém pode saber o que há na vida pessoal dos outros. Imagino que você também tenha alguns segredos.

Imediatamente, Blair pensou em Alan, e suas faces coraram. Mas aquela não

era hora para falar sobre ele. Dentro de poucos dias ele chegaria, e então talvez alguém concordasse com ela.

— Mas eu posso ver como eles são — insistiu Blair. — Eles nunca

conversam, nunca se tocam, nunca vi nenhum deles olhar o outro com amor. — Ela levantou-se. — E a verdade é que eu nunca suportei esse pomposo, correto, brilhante cidadão Leander Westfield. Ele é um desses garotos ricos estragados a quem entregaram tudo em uma bandeja de prata. Ele nunca conheceu desapontamento, dureza, dificuldade ou ao menos ouviu a palavra “não”. Quando eu estava estudando, a vizinha escola masculina de medicina permitiu que as cinco melhores mulheres da minha escola feminina assistissem a algumas aulas lá. Os homens foram bastante gentis, até que nós começamos a conseguir melhores resultados nos testes que eles, e então nos pediram para sair antes do fim do semestre. Leander me lembra todos aqueles jovens rapazes convencidos, que não podiam suportar a competição.

— Mas, querida, você acha que realmente isso é justo? Só porque Lee a faz

lembrar de outros, não significa que na verdade seja igual.

— Tentei diversas vezes conversar com ele sobre medicina, e tudo o que faz

é ficar me olhando. E se Houston decidir que quer fazer alguma coisa de sua vida, além de consertar as meias dele? Ele cairá em cima dela com mais força do que Gates em mim, e não será temporário. Houston não será capaz de cair fora.

Opal estava começando a demonstrar preocupação.

— Já conversou com Houston? Tenho certeza de que ela pode explicar-lhe

por que ama Leander. Talvez na privacidade eles sejam diferentes. Eu acredito que ela o ama. E, não importa o que você diga, Leander é um bom homem.

— Também Duncan Gates — disse Blair resmungando. Mas ela estava

aprendendo que os “bons” homens podem matar a alma de uma mulher.

Capítulo II

BLAIR ESFORÇOU-SE ao máximo para conversar com a irmã, para

raciocinar com ela, mas Houston assumiu um olhar severo no rosto e disse que amava Leander. Ela quis chorar de frustração, mas, enquanto seguia a irmã escada abaixo, começou a arquitetar um plano. Naquele dia iriam à cidade; ela, para pegar uma revista médica que Alan estava mandando aos cuidados do escritório do Chandler Chronicle, e Houston, para fazer algumas compras. E iriam com Lee.

Até então ela fora polida com Leander, mas, e se ela o obrigasse a mostrar

suas verdadeiras cores? E se ela fizesse mostrar o tirano irredutível e cabeça-dura que realmente era? Se pudesse provar que Lee era tão opressivo e de mentalidade estreita como Duncan Gates, então talvez Houston reconsiderasse o fato de passar toda a sua vida com ele.

Sem dúvida, podia estar errada com respeito a Lee. E, se estivesse, se ele

fosse um homem compreensivo, de mente aberta — como Alan —, então cantaria louvores no casamento de Houston.

Assim que chegaram no primeiro andar, lá estava Leander esperando.

Ela ficou muda enquanto seguia os dois pela porta afora. Eles nunca se

olharam e certamente nunca se tocaram. Houston andava devagar, provavelmente porque seu espartilho estava tão apertado que ela não podia respirar, pensou Blair, e permitiu que Lee a ajudasse a subir em sua carruagem velha e negra.

— Você acha que uma mulher pode ser alguma coisa além de esposa e mãe?

— perguntou Blair a Lee, quando ele começou a ajudá-la a subir na carruagem. Ela mantinha Houston em sua mira, para ter certeza de que a irmã ouviria a resposta de Lee.

— Você não gosta de criança? — perguntou ele, surpreso.

— Gosto muito de criança — respondeu rapidamente.

— Então suponho que é de homens que não gosta.

— É claro que gosto de homens, pelo menos de alguns. Você não está

respondendo à minha pergunta. E, então, acha que uma mulher pode ser alguma coisa além de esposa e mãe?

— Suponho que isto dependa da mulher. Minha irmã sabe fazer uma

compota de ameixas que fará sua boca gritar de alegria — disse ele, com os olhos brilhando, e, antes que pudesse responder, deu-lhe um sorriso maroto, agarrou-a pela cintura e quase jogou-a na carruagem.

Percorreram as ruas de Chandler, e Blair tentou manter sua atenção nas

paisagens. As velhas portas de pedra do teatro lírico tinham sido pintadas, e parecia haver no mínimo três novos hotéis na cidade.

As ruas estavam apinhadas de pessoas e carroças: vaqueiros chegados de

ranchos afastados, ocidentais querendo aplicar na prosperidade de Chandler, uns raros homens dos campos de carvão e moradores da cidade, que acenavam e cumprimentavam as gémeas e Leander. Gritos de “bem-vindas, Blair-Houston” seguiam-nas pelas ruas.

Blair lançou um olhar para sua irmã e viu que ela olhava na direção oeste,

para a casa mais monstruosamente grande que já vira. Era branca, encarapitada numa colina alta, cujo topo foi aplainado por um tal sr. Kane Taggert, a fim de construir na imensa área que dominava a cidade inteira.

Ela sabia que não podia ser imparcial sobre a casa, porque durante anos sua

mãe e Houston só lhe haviam escrito sobre aquela casa.

E quando ficara pronta, e o proprietário não convidara ninguém para ver o

interior dela, o desespero nas cartas que Blair recebera era quase cómico.

— A cidade toda ainda está tentando entrar na casa? — perguntou ela,

enquanto procurava reorganizar seus pensamentos. Se Leander nunca levava suas perguntas a sério, nunca lhe dava uma resposta direta, como iria ela provar alguma coisa a Houston?

Houston estava falando sobre aquela casa numa voz estranha, sonhadora,

assim como se significasse para ela um castelo encantado, um lugar onde os sonhos tornavam-se realidade.

— Não estou tão certo de que as coisas que dizem sobre ele sejam boatos —

dizia Leander, referindo-se ao comentário que Houston fizera sobre Taggert. — Jacob Fenton disse...

— Fenton! — explodiu Blair. — Fenton é um explorador, um aproveitador,

que usa as pessoas para conseguir o que quer. — O tal Fenton possuía a maioria das minas de carvão em volta de Chandler e mantinha os mineiros trancados dentro dos campos como se fossem prisioneiros.

— Não penso que deva culpar só Fenton — disse Lee. — Ele tem acionistas,

contratos para cumprir. Há outras pessoas envolvidas.

Blair não podia acreditar no que ouvia e, quando pararam para deixar um

bonde puxado a cavalo passar, olhou para Houston e ficou satisfeita ao constatar que ela ouvira. Leander estava defendendo os barões do carvão, como se ignorasse as preocupações de sua irmã com os mineiros.

—- Você nunca teve de trabalhar numa mina de carvão — disse Blair. —

Não tem ideia do que significa lutar diariamente só para sobreviver.

— E suponho que você tenha.

— Mais do que você — replicou Blair. — Você deve ter estudado medicina

em Harvard. Harvard não aceita mulheres.

— Portanto, estamos de volta a este ponto — disse ele, com ar de enfado. —

Diga-me, cada médico homem tem de ser culpado por uns poucos ou você me escolheu em particular?

— Você é o único que vai casar com minha irmã.

Ele virou-se para fitá-la, as sobrancelhas levantadas de surpresa:

— Não tinha ideia de que fosse ciumenta. Anime-se, Blair. No devido tempo

encontrará seu homem.

Ela cerrou os punhos, com as mãos abaixadas, olhou direto para frente e

tentou lembrar-se dos principais motivos que a levaram a conversar com aquele homem tão convencido de seu próprio valor. Esperava que Houston apreciasse o que estava fazendo por ela.

— O que acha das mulheres como médicos? — perguntou Blair, respirando

fundo.

— Eu gosto de mulheres.

— Ah-há! Você gosta de mulheres desde que permaneçam em seus lugares e

não em seu hospital.

— Acho que foi você quem disse isso; não eu.

— Você disse que eu não era uma médica “verdadeira” e que eu não poderia

acompanhar seu plantão.

— Eu disse que achava que a diretoria do hospital não aceitaria. Consiga a

permissão dela e eu lhe mostrarei todos os curativos sangrentos que queira ver.

— Seu pai não faz parte da diretoria?

— Não o controlo agora mais do que quando tinha cinco anos; talvez até

menos.

— Estou certa de que ele é igual a você, e não acredita que mulheres possam

ser médicas.

— Pelo que posso lembrar, até agora não declarei meu ponto de vista a

respeito de mulheres na medicina.

Blair sentiu que estava a ponto de gritar.

— Você está fazendo rodeios. O que você pensa sobre mulheres na

medicina?

— Depende do paciente. Se um paciente preferisse morrer a ser tratado por

uma mulher, eu não deixaria uma médica aproximar-se dele. Mas, se ele me pedisse para encontrar uma senhora doutora, acho que varreria a terra para encontrá-la.

Blair não podia pensar em mais nada para dizer. Até aquele momento,

Leander conseguira torcer cada palavra sua.

— É a casa dos sonhos de Houston — disse Leander, depois que o bonde

passou, fazendo uma óbvia tentativa de matar o assunto. — Se Houston não me tivesse, creio que teria entrado na fila das mulheres que lutam por Taggert e pela casa dele.

— Eu gostaria de vê-la por dentro — disse Houston com uma voz

sonhadora, e então pediu a Lee que a deixasse na Wilson Mercantile.

Quando Houston se foi, Blair não achou que fosse preciso ao menos

conversar com Leander, e ele parecia pensar o mesmo. Estavam na ponta de sua língua mais algumas perguntas sobre o hospital, mas ela não queria mais ouvir as espertezas dele.

Lee deixou-a no escritório do Chandler Chronide, e ela parou para conversar

com algumas pessoas que conhecera a vida toda e que a chamavam de Blair-Houston por não conseguirem distinguir as gémeas. Fazia muito tempo que não a chamavam daquele modo, e imaginou como Houston se sentia sendo sempre uma parte de um todo, nunca mesmo uma pessoa só.

Blair apanhou a nova revista médica no escritório do jornal e começou a

descer a rua Três pelo largo passeio de tábuas, em direção à loja de ferragens Farrel, onde deveria encontrar-se com Houston e Leander.

Lee estava lá sozinho, encostado na balaustrada, a carruagem puxada por

aquele enorme cavalo preto e branco a seu lado. Não havia sinal de Houston, e ela pensou em esperar na sapataria do outro lado da rua até que sua irmã chegasse. Mas, ao vê-la, ele gritou bastante alto para que toda a cidade ouvisse.

— Pretendendo virar e fugir?

Blair endireitou as costas, atravessou a rua empoeirada e foi ao seu encontro.

Ele lhe sorria de um modo tão provocante que desejou ser homem para

poder desafiá-lo para um duelo.

— Não acho que o que está pensando seja muito próprio de uma dama. O

que diria o sr. Gates?

— Nada além do que já me disse. Tenho certeza.

A expressão de Lee mudou instantaneamente.

— Houston contou-me que ele está sendo muito duro com você. Se há

alguma coisa que eu possa fazer para ajudar, pode me dizer.

Por um momento Blair ficou espantada com Lee, tanto pela mudança em sua

atitude como pela oferta de ajuda. Ela pensava que ele a desprezava. Antes que pudesse falar, Houston apareceu, o rosto corado e um olhar distraído.

— Estou contente por ter aparecido bem agora — disse Lee —, pois acabou

de salvar sua irmã de um destino pior do que a morte. Ela estava a ponto de ter de dizer alguma coisa agradável para mim.

— Sinto muito, o que foi que disse? — perguntou Houston.

Lee tomou-lhe o braço e escoltou-a até a carruagem.

— Disse que é melhor que vá agora para casa para começar a se aprontar

para a recepção do governador à noite — respondeu ele.

Ajudou Houston a subir na carruagem, e então procurou por Blair. Olhando

para a irmã, Blair sabia que teria de tentar outra vez mostrar-lhe quem Leander era realmente.

— Sem dúvida você também é um dos que acreditam na teoria do dr. Clark

com respeito às mulheres que usam muito o cérebro — disse bem alto.

Leander, com as mãos na cintura dela, lançou-lhe um olhar vazio por um

momento, e então começou a sorrir. Depois de um ardente olhar de cima a baixo, disse:

— Blair, não acredito que tenha de se preocupar com alguma coisa. A mim

parece que todo o seu cérebro está indo para os lugares certos.

Ela sentou-se na carruagem, ouvindo a risadinha caçoísta de Leander, e

pensou que certamente ninguém passaria pela irmã o que ela estava passando.

Quando estavam deixando a cidade, dois homens enormes, robustos,

dirigindo uma carroça tão avariada que nenhum fazendeiro respeitável a quereria, gritaram para que Leander parasse. O homem moreno, um brutamontes assustador, barbado e sujo, dirigiu-se a Houston de um modo insistente que Blair nunca a vira permitir a qualquer homem antes. Se havia uma coisa que sua irmã sabia fazer era parar homens muito atrevidos.

Houston acenou polidamente para o sujeito, que atiçou os cavalos e partiu

sob uma nuvem de poeira.

— Afinal, o que é isso? — perguntou Leander. — Não sabia que conhecia

Taggert.

Antes que Houston pudesse responder, Blair disse:

— Aquele é o dono daquela casa? Não é de se admirar que não tenha

convidado ninguém para ir lá. Ele sabe que recusariam. A propósito, como ele pôde nos distinguir?

— Nossas roupas — respondeu Houston rapidamente —, eu o vi na loja.

— Quanto a ninguém aceitar convite dele — disse Lee —, acredito que

Houston arriscaria pegar peste ou qualquer outra coisa parecida para ver aquela casa.

Blair curvou-se diante de sua irmã.

— Você também recebeu cartas sobre aquela casa?

— Se eu pudesse vender as palavras a quilo seria um milionário —

respondeu ele.

— Como ele — respondeu Blair, olhando para a casa que dominava o lado

oeste da cidade. — Ele pode guardar seus milhões e sua casa monstruosa.

— Acho que concordamos outra vez — disse Lee, fazendo-se de surpreso.

— Será que isto vai se tornar rotina?

— Duvido — retrucou Blair, mas seu coração não estava na resposta. Talvez

ela estivesse errada a respeito dele.

Mas vinte minutos mais tarde, ela estava tão preocupada com o futuro da

irmã como sempre. Deixara Lee e Houston sozinhos no jardim de sua mãe, e então lembrara-se de que sua revista ainda estava na carruagem de Lee. Correndo escada abaixo para alcançar Lee antes que partisse, fora testemunha de um pequeno drama entre o casal.

Leander, para espantar uma abelha, passara a mão por trás da cabeça dela,

fazendo-a retesar-se. Mesmo de onde Blair estava, pôde ver o modo como sua irmã se afastara para não ser tocada por ele.

— Não precisa se preocupar — disse com voz apagada. — Não tocarei em

você.

— É só até que estejamos casados — murmurou ela, mas Lee não respondeu

antes de passar apressado por Blair e afastar-se com rapidez na carruagem.

Leander entrou enfurecido na casa do pai e bateu a porta atrás de si, fazendo

estremecer o vitral. Subiu a escada de dois em dois e no patamar virou à esquerda e dirigiu-se para seu quarto, o quarto que deixaria assim que se casasse com Houston e se mudasse para a casa que comprara para ela.

Esbarrou levemente em seu pai, mas não se desculpou ou moderou o passo.

Olhando para o filho quando ele passou, Reed Westfield viu o olhar raivoso

em seu rosto e seguiu-o até o quarto. Leander já estava jogando roupas numa valise quando ele entrou.

Reed parou por um momento na porta e observou o filho. Apesar de não se

parecerem, o pai sendo baixo, troncudo, tendo no rosto toda a delicadeza de um buldogue, eles tinham temperamento semelhante. Era preciso muita coisa para levantar a ira de Westfield.

— É um atendimento de emergência? — perguntou Reed, enquanto olhava

seu filho jogar roupas na mala sobre a cama e, na raiva, errando metade das vezes.

— Não, são as mulheres — tentou Lee dizer através dos dentes cerrados.

Reed tentou esconder um sorriso, tossindo. Em sua prática legal, aprendera a

esconder sua própria reação a qualquer coisa que seus clientes dissessem.

— Teve uma rusga com Houston?

Leander virou-se para o pai com o rosto cheio de fúria.

— Nunca tive uma rusga ou briga ou discussão ou algum desentendimento

qualquer com Houston. Ela é total e completamente perfeita, sem falhas.

— Ah! então é aquela irmã dela. Alguém mencionou que ela estava te

aborrecendo hoje. Você não terá de morar com sua cunhada, sabe disso.

Lee parou suas arrumações.

— Blair? O que tem ela a ver com tudo isso? Nunca me diverti tanto com

uma mulher desde que fiquei noivo. É Houston que está me tirando do sério. Ou, mais corretamente, é ela quem está me obrigando a deixar Chandler.

— Espere só um minuto — disse Reed, pegando o pulso do filho. — Antes

de apanhar um trem e deixar todos os seus pacientes morrerem, por que não se senta e conversa comigo? Conte-me o que o está deixando tão bravo?

Lee sentou-se em uma cadeira como se pesasse uma tonelada, e passaram-se

vários minutos antes que pudesse falar.

— Em primeiro lugar, você se lembra por que pedi a Houston que casasse

comigo? No momento, não posso me lembrar de nenhuma razão que me tenha levado a fazer isso.

— Deixe-me ver — disse Reed, acomodando-se de frente para o filho —, se

me lembro corretamente, foi puro, simples e antigo desejo. Quando você voltou de Viena e do último de seus estudos médicos, juntou-se à legião de jovens e velhos que seguiam a viçosa senhorita Houston Chandler pela cidade, convidando-a para alguma coisa que se pudesse pensar, qualquer coisa, para estar perto dela. Acredito lembrar-me de seu entusiasmo exagerado por sua beleza e de me contar como todos os homens de Chandler desejavam casar com ela. E também me lembro da noite em que você mesmo a pediu e ela o aceitou. Penso que andou por aí num deslumbramento durante uma semana — parou por um momento. — Isso responde à sua pergunta? Decidiu agora que não está mais desejando a adorável senhorita Houston?

Leander lançou um olhar sério para seu pai.

— Cheguei à conclusão agora de que aquela forma dela, a maneira de andar

que fez homens crescidos desmaiarem em seu rastro, é tudo aparência. A mulher é um bloco de gelo. É completamente frígida, sem qualquer emoção. Não posso passar o resto de minha vida tentando viver com uma mulher sem sentimentos.

— É isso tudo que está errado? — perguntou Reed, obviamente aliviado. —

Supõe-se que as mulheres direitas sejam assim. Espere, Lee, depois de casados, ela se aquecerá. Sua mãe era muito fria comigo antes de nos casarmos. Ela quebrou a sombrinha na minha cabeça, uma noite, quando me tornei mais ousado. Porém, mais tarde, depois de termos casado... bem, as coisas melhoraram, foi muito melhor. Pode acreditar na palavra de alguém que é mais experiente nesse assunto. Houston é uma boa moça e teve de morar com aquele encrenqueiro do Gates durante todos esses anos. Claro que está nervosa e amedrontada.

Leander ouviu as palavras de seu pai cuidadosamente. Ele nunca planejara

passar sua vida em Chandler. Em vez disso, pensara em ser interno numa cidade grande, trabalhar na equipe de um grande hospital e finalmente ter sua própria clientela e fazer muito dinheiro. Não levara mais de seis meses para decidir voltar para sua cidade, onde precisavam dele. Onde ele teria coisas mais importantes do que a histeria de uma mulher rica.

Durante todo o tempo que estivera fora de Chandler, Houston escrevera-lhe

cartas, cartas de mexericos sobre o término da escola. Ele sempre aguardara as cartas e ansiava por ver mais uma vez a menininha que as escrevera.

Na noite em que voltara para casa, seu pai oferecera uma festa de boas-

Continuar: parte 2 de 3